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Crise da Igreja (218)

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

O terceiro segredo de Fátima

(Nota da Permanência: Tendo em vista a aproximação do centenário de Fátima, julgamos oportuno divulgar esta conferência do renomado fatimólogo Michel de la Sainte-Trinité, publicada no número 272 da Revista Permanência. Embora não conheçamos a integralidade do Terceiro Segredo de Fátima, a sua essência foi revelada pelos especialistas e deve, portanto, ser tema de meditação dos católicos.)

Conferência proferida no Vatican Symposium, em Fátima, no dia 24 de novembro de 1985.

Irmão Michel de la Sainte-Trinité

Visto que ainda não se revelou oficialmente o Terceiro Segredo de Fátima, parece evidente que não se possa conhecer o seu conteúdo. Entretanto, essa é tão-somente uma primeira impressão. Porque se é verdade que esse importantíssimo segredo permanecia absolutamente imperscrutável em 1917, quando foi revelado pela Santíssima Virgem aos três pastorinhos de Aljustrel, ou em 1944, quando foi redigido por Irmã Lúcia, ou ainda em 1960, quando deveria ter sido publicamente revelado ao mundo por João XXIII, já não é assim hoje. Com efeito, ao longo de mais de quarenta anos, muitos fatos a respeito do Terceiro Segredo tornaram-se conhecidos. Eles formam um imenso volume de informações seguras com que o historiador pode traçar toda a sua história e revelar a essência do seu conteúdo. Tal foi meu intento ao escrever o terceiro volume da obra Tout la vérité sur Fatima (Toda a verdade sobre Fátima), que se concentra no mistério do Terceiro Segredo.  Leia mais

Madre Teresa de Calcutá: verdadeira ou falsa caridade?

Pe. Marie-Dominique, O.P.

 

O testemunho dos santos tem o seu valor; a nossa época teve o testemunho de Madre Teresa de Calcutá, humilde filha da Albânia, que – pela graça de Deus – se transformou em um exemplo de exercício da caridade e de serviço à promoção do ser humano para o mundo inteiro.” (Bento XVI, em 8 de março de 2009)[1].

Reuníamo-nos todas as manhãs na casa geral e gozávamos da alegria de nos ajoelharmos ao pé do túmulo de Madre Teresa.

Era impressionante observar um budista em posição de lótus ao lado de um muçulmano de rosto em terra e, próximo a eles, um cristão de joelhos. Nisso há um mistério! Lá estavam os três, sem se defrontarem; melhor ainda, estavam trabalhando juntos, pois é a caridade que os reúne.(Pe. Benoît-Joseph, da comunidade das Beatitudes[2]).  Leia mais

Francisco afirma que concubinos podem ter a "graça do verdadeiro matrimônio".

                             

Nosso Senhor comandou a Pedro que confirmasse seus irmãos na Fé (S. Lucas 22,32), mas Francisco deleita-se em fazer todo o contrário.

Em 16 de junho, em uma sessão de perguntas e respostas durante conferência em Roma, Francisco sinalizou que quem vive em "fiel" concubinato recebe a "graça do verdadeiro matrimônio por causa de sua fidelidade". Mas, ao contrário do que afirma o Papa, o concubinato nunca traz consigo a graça do verdadeiro matrimônio, pelo fato de em si ser uma desgraça.

Na continuação de três anos de comentários irresponsáveis, que provocam escândalos em escala mundial, Francisco falou da situação na Argentina, onde a maioria dos que freqüentam aulas de preparação para casamento vive em concubinato.  Conforme o registro de Catholic News Agency:   Leia mais

 

Paulo VI, o sepultador da Tradição

Nota da Permanência: Apresentamos a seguir um capítulo do livro “Cem anos de modernismo” (Cent ans de modernsime. Généalogie du Concile Vatican II, Editions Clovis, 2003) do padre Dominique Bourmaud, FSSPX.

Capítulo XXII

Há mais de um século que os Carbonários, a maçonaria italiana, tinham planejado destruir o papado:

“O trabalho que empreenderemos não é obra de um dia, nem de um mês, nem de um ano: pode durar vários anos, talvez um século; mas em nossas fileiras morre o soldado e a luta continua… O que devemos buscar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um Papa de acordo com nossas necessidades… E este pontífice, como a maioria dos seus contemporâneos, estará mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que começaremos a pôr em circulação… Quereis estabelecer o reino dos escolhidos sobre o trono da prostituta da Babilônia? Que o clero marche sob o vosso estandarte, crendo sempre marchar sob a bandeira das Chaves Apostólicas… Estendei vossas redes… no fundo das sacristias, dos seminários, dos conventos… Tereis pregado uma revolução de tiara e capa pluvial, marchando com a cruz e a bandeira, uma revolução que não necessitará senão ser ligeiramente estimulada para atear fogo em todos os extremos da terra”[1].  Leia mais

Enfim, o cisma

Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1976, amigos franceses enviaram a Gustavo Corção notícias de um bispo italiano que escrevera para seus padres e fiéis denunciando o comunismo. Os amigos que enviaram a auspiciosa notícia ao jornalista e escritor católico estavam entusiasmados com a novidade, achando que aquela reação podia significar uma mudança de ares na Igreja.

Gustavo Corção escreveu sobre o fato um artigo em que mostrava aos seus amigos e leitores que o entusiasmo não era cabível. Antes de mostrar quão superficial era a crítica do bispo ao comunismo, Corção explicou:

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Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Conclusão: nossa atitude em face da nova missa

Pe. François-Marie Chautard

 

Se juntarmos as diversas peças deste dossiê, poderemos constatar sobretudo:

- A existência de uma clara protestantização do novo rito da missa com uma desagregação da fé: “se nós considerarmos as inovações sugeridas ou dadas por definitivo, as quais podem naturalmente serem avaliadas de diferentes modos, o Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento.”1 Essa missa protestantizada engendra naturalmente, naqueles que a assistem regularmente, uma perda do senso de fé2 

- Um risco de invalidade.

 

Esses dois defeitos levam a duas conclusões:

  • Uma missa que afasta as almas da fé não pode vir do Espírito Santo e até mesmo se pode dizer que se opõe a Ele. Não se trata de uma missa católica; 
  • Assim sendo, não se deve participar dela, não apenas para não se deixar gangrenar, mas mesmo para não cooperar com um rito que destrói a fé na Igreja, e para não participar de uma profissão de fé equívoca. “Esta missa está envenenada. Esta missa é má, ela conduz à perda da fé pouco a pouco, logo, nós nos vemos obrigados a recusá-la.”3

“No tocante à missa nova, afastemos logo essa idéia absurda: se a missa nova é válida, podemos participar dela. A Igreja sempre proibiu assistirmos as missas dos cismáticos e dos hereges, mesmo se fossem válidas. É evidente que não se pode participar de missas sacrílegas, nem a missas que põem a fé em perigo.”4

 

Consequência prática

“Os católicos fiéis devem fazer de tudo para guardar a fé católica intacta e íntegra: logo, assistir a missa de sempre quando acessível, ainda que fosse uma vez por mês; oferecer sua colaboração ativa para ajudar os padres fiéis na celebração dessas missas de sempre, com os sacramentos segundo os antigos ritos e o catecismo tradicional.

Aqueles que estiverem impossibilitados de assistir a missa, rezem o missal aos domingos em família se possível, como fazem os católicos em terras de missão, que não tem a visita do padre por mais de duas ou três vezes no ano, às vezes, uma única vez no ano!

Essas instruções são dadas afim de que cada um possa adotar a linha de conduta mais favorável para a preservação da fé. É claro que o preceito dominical obriga quando a missa de sempre é normalmente acessível.

É a época do heroísmo; não é uma graça de Deus viver nesses tempos conturbados, afim de reencontrar a Cruz de Jesus, seu sacrifício redentor, estimar em seu valor justo essa fonte de santidade da Igreja, de recolocar em honra, de melhor apreciar a grandeza do sacerdócio? Melhor compreender a Cruz de Jesus é elevar-se no Céu e aprofundar a verdadeira espiritualidade católica do sacrifício, do sentido de sofrimento, de penitência, de humildade e de morte.”5

  1. 1. Breve exame crítico, no. 1.
  2. 2. Isto se perceber notadamente na concepção ecumênica e salvífica da salvação. Para aqueles que, habitualmente, seguem a missa nova, as almas podem continuar a praticar qualquer religião, ainda que fosse melhor se converter. Aconteça o que acontecer, irão para o céu, como a grande maioria das almas.
  3. 3. Dom Marcel Lefebvre, Conferência espiritual, Écône, 21 de janeiro de 1982.
  4. 4. Dom Marcel Lefebvre, 8 de novembrode 1979. Nota sobre o NOM e o papa.
  5. 5. Dom Marcel Lefebvre, 20 de janeiro de 1978.

Intenção e validade do novo rito

Pe. François-Marie Chautard

Um sacramento pode ser inválido se falta a matéria (por exemplo, usando-se arroz ao invés de pão), a forma (por exemplo, ao dizer: «este é o corpo de Cristo») ou o ministro (um leigo ao invés de um padre), ou ainda se a intenção do ministro for falsa.

Para que a intenção do ministro baste para a validade de um sacramento, ele tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz. Ora, o que faz a Igreja na missa tradicional é sem nenhuma ambiguidade: de toda evidência, a Igreja oferece um sacrifício propiciatório. Mas, todo o problema do novo rito, é que ele significa, de uma maneira ambígua a presença real, bem como a oferenda de um sacrifício, isso sob uma clara influência protestante. Os protestantes assinalaram: o novo rito é tão ambivalente, que é possível lhe atribuir tanto um sentido protestante como um católico. 1

Dito de outro modo, a intenção expressa pelo NOM é dúbia. Tudo dependerá, portanto, da intenção subjetiva do celebrante, uma vez que faz falta a intenção objetiva do rito.

“É pelo ofertório que o padre exprime claramente a sua intenção. Ora, isso não existe mais no novus ordo. A nova missa pode, portanto, ser válida ou inválida segundo a intenção do celebrante, enquanto que, na missa antiga, é impossível para alguém que tem a fé não ter a intenção precisa de fazer o sacrifício e de fazê-lo segundo os fins previstos pela santa Igreja.”2

Isso coloca um novo problema: a deformação do clero é tamanha, as heresias se difundiram a tal ponto pela Igreja, que há uma dúvida sobre a intenção autenticamente católicas dos padres que celebram a missa. Quando se vê, por exemplo, a leviandade com que muitos padres tratam as hóstias “consagradas”, podemos duvidar da sua fé na presença real e, portanto, da sua intenção católica ao celebrar a “eucaristia".

“Todas essas mudanças do novo rito são realmente perigosas, porque, pouco a pouco, sobretudo para os jovens padres que não tem mais a idéia de sacrifício, de presença real, de transubstanciação e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens padres perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não dizem mais missas válidas. Claro, os padres idosos, quando celebram segundo o novo rito, ainda tem a fé de sempre. Eles rezaram o rito antigo durante tanto tempo, guardam as mesmas intenções, podemos crer que sua missa seja válida. Mas, na medida em que estas intenções desaparecem, as missas não são mais válidas.”3

É também esse o sentido da crítica dirigida ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci em 1969: “Da forma como aparecem no contexto do Novus Ordo, as palavras da consagração poderiam ser válidas em virtude das intenções do padre. Mas, uma vez que sua validade não advém mais da força das próprias palavras sacramentais (ex vi verborum) – ou mais precisamente, do significado que o antigo rito da Missa conferia à fórmula – as palavras de consagração no Novo Ordinário da Missa poderiam também não ser válidas. No futuro os padres que não receberem formação tradicional e que confiarem no Novus Ordo para a intenção de “fazer o que a Igreja faz” farão consagrações válidas na Missa? Pode-se duvidar disto.”

É portanto abusivo dizer que a missa de Paulo VI é válida. Ela é em si mesma duvidosa. Ela só é válida se a intenção subjetiva do ministro for católica. E, infelizmente, isso nem sempre ocorre. 

 

 

 

 

  1. 1. Em 1973, o Consistório Superior da Igreja da Confissão de Ausburgo da Alsácia e Lorena publicou uma Declaração oficial na qual figuravam as seguintes linhas:

    “Dadas as formas atuais da celebração eucarística na Igreja Católica e em razão das convergências teológicas presentes, muitos obstáculos que impediriam um protestante de participar na sua celebração eucarística parecem atualmente em vias de desaparição. Hoje parece possível a um protestante reconhecer na celebração eucarística a ceia instituída pelo Senhor [quer dizer, a ceia protestante]… Nós apoiamos a utilização das novas orações litúrgicas, nas quais nós nos reconhecemos, e que tem a vantagem de mitigar a teologia do sacrifício que sempre atribuímos ao catolicismo.”

  2. 2. Conferência espiritual, Écône, 28 de fevereiro de 1975.
  3. 3. Conferência de 15 de fevereiro de 1975, La Messe de Luther, Éditions Saint-Gabriel, p. 10.

Os autores da Missa Nova

Pe. François-Marie Chautard

 

1) Paulo VI

A chamada missa de Paulo VI leva seu nome. Apesar de todas as pressões possíveis, o NOM foi assinado por Paulo VI, e data do pontificado de Paulo VI. Ele é o primeiro responsável, ele é seu verdadeiro autor. Devemos também rejeitar a idéia de que Paulo VI teria assinado às cegas os textos sobre a reforma litúrgica. 

"Para mostrar que a reforma litúrgica foi conduzida em estreita colaboração com Paulo VI, Monsenhor Bugnini afirmou: 

"Quantas horas da noite passei com ele, estudando juntos os muitos e volumosos dossiês empilhados sobre sua mesa! Ele os lia e examinava, linha por linha, palavra por palavra, anotando tudo em preto, vermelho ou azul, criticando, se necessário, com sua dialética, capaz de formular dez perguntas sobre um mesmo ponto.

"Mas essa descrição vale sobretudo para os anos 1968-1969, depois da partida de Lercaro e durante a fase mais intensa da preparação do Novus Ordo Missæ.”1

 

2) Arcebispo Bugnini 

A pedra angular da "reforma" do Missal Romano foi, entretanto, Monsenhor Hannibal Bugnini como nos lembra Monsenhor Lefebvre: "A reforma litúrgica foi, como sabemos, obra de um pai bem conhecido: Padre Bugnini, que a vinha preparando há muito tempo. Já em 1955, ele fizera traduzir textos protestantes por Monsenhor Pintonello (...) que me disse que traduzira livros litúrgicos protestantes para o padre Bugnini, que nessa época era apenas um membro modesto de uma comissão litúrgica. Ele não era nada. Depois, tornou-se professor de liturgia em Latrão. O Papa João XXIII o tirou de lá por causa de seu modernismo, seu progressismo. Pois bem, ele acabou presidindo a Comissão de Reforma da Liturgia! Inacreditável! Tive a oportunidade de ver por mim mesmo a influência do padre Bugnini. É estarrecedor que algo assim possa ter acontecido em Roma.”2

 

Apresentação da nova missa por Monsenhor Bugnini 

"Nessa época, logo após o Concílio, eu era Superior Geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, e houve em Roma uma reunião dos Superiores Gerais. Pedimos ao padre Bugnini que nos explicasse sua nova missa, porque, no fim das contas, aquilo não era um evento qualquer. (…) Então pedimos que o Padre Bugnini explicasse aos oitenta e quatro Superiores Gerais ali reunidos, entre os quais eu estava, sua missa. 

"O padre Bugnini, com muita bonomia, explicou-nos o que era a missa normativa. Vamos mudar isso, vamos mudar aquilo, vamos colocar outro ofertório, vai ser possível escolher os Cânones, reduzir as orações da comunhão, haverá vários padrões para o início da missa, será possível dizer a missa em vernáculo.

Olhamo-nos uns para os outros como que dizendo: ”Não é possível!” Ele falava como se antes dele jamais tivesse existido uma missa na Igreja. Ele falou de sua missa normativa como uma nova invenção. Pessoalmente, fiquei tão perplexo, que eu, que tão facilmente tomo a palavra para me opor àqueles com quem não concordo, permaneci em silêncio. Eu não conseguia dizer palavra. 

"Não é possível que tenha sido a este homem que estava diante de mim que toda a reforma da liturgia católica tenha sido confiada, a reforma do santo sacrifício da missa, dos sacramentos, do breviário, de todas as nossas orações. 

"Para onde estamos indo? Para onde vai a Igreja? Dois Superiores Gerais tiveram a coragem de se levantar. Um deles questionou o padre Bugnini: - "É uma participação ativa, é uma participação corporal, isto é, orações vocais, ou é a participação espiritual? Em todo caso, o senhor falou tanto sobre a participação dos fiéis, que parece que já não se justifica a missa sem fiéis, já que toda a sua missa foi feita em função da participação dos fiéis. Nós, Beneditinos celebramos nossas missas sem fiéis. Devemos então continuar a dizer nossas missas privadas, já que não temos fiéis que participem delas?” 

"Eu repito exatamente o que o padre Bugnini disse, eu ainda tenho suas palavras em meus ouvidos pelo tanto que me chocaram : -- "Na verdade, nós não pensamos nisso!", foi o que ele disse. 

"Depois, outro se levantou e disse: - "Meu Reverendo Padre, o senhor falou: nós vamos suprimir isto, suprimir aquilo, substituir tal coisa por outra, e sempre por orações mais curtas, que eu tenho a impressão que sua nova missa será dita em dez, doze minutos, um quarto de hora, e isso não é razoável, não é respeitoso. Pois bem! Ele respondeu: - "Podemos sempre adicionar alguma coisa". Isso pode ser sério? Mas eu mesmo ouvi. Se alguém tivesse me dito, mal teria acreditado, mas eu mesmo ouvi.”3

 

3) Os outros especialistas

À Bugnini, muitos outros especialistas se juntaram: Dom Botte e Dom Beauduin OSB. Os jesuítas Doncoeur e Daniélou. Padre Bouyer, do Oratório. Padre Gy, OP. E ainda o Monsenhor Dwyer, membro do Consilium de Liturgia, Arcebispo de Birmingham, que reconheceu a importância de tal reforma (Conferência de imprensa, 23 de outubro de 1967): "é a liturgia que forma o caráter, a mentalidade dos homens para enfrentar os problemas ... A reforma litúrgica é, em certo sentido, a chave para o aggiornamento, não se engane, é aqui que a revolução começa.”4

 

4) Os especialistas protestantes

Além de Monsenhor Bugnini e dos especialistas católicos do Consilium, seis pastores protestantes participaram da "reforma", como comprova a foto publicada  no número 1562, de 03 de maio de 1970, de Documentation Catholique

Segundo Dom Baum, responsável pelos assuntos ecumênicos da Conferência Episcopal do México, esses pastores "... não eram apenas observadores, mas também consultores. Eles participaram plenamente das discussões sobre a renovação litúrgica católica. Não faria muito sentido se eles apenas ouvissem, eles também contribuíram.”5

Além disso, falando a todos os membros do Consilium (com os pastores presentes), o Papa Paulo VI dirigiu sua declaração final, em 10 de abril, em que disse o seguinte: "Nós os agradecemos vivamente por todo o trabalho feito nos últimos anos. De fato, os senhores  diligentemente e com competência realizaram uma tarefa complexa e muito difícil sem esperar por qualquer outra recompensa além de saber que estar trabalhando para o bem da Igreja.”6

 

Epílogo 

Uma lamentável anedota sobre a redação de novos textos litúrgicos permite imaginar o profissionalismo dos “reformadores” e sua devoção pelo tesouro da Igreja.

"Monsenhor Bugnini reconheceu que as novas orações eucarísticas  (que se seguem à IV Oração Eucarística) foram feitas às pressas, quase em "marcha forçada”.  Um dos consultores da Subcomissão, o padre Bouyer, disse o mesmo, não sem humor e ironia, sobre a elaboração da II oração Eucaristica, que ele redigiu junto com Dom Botte, grande especialista em Santo Hipólito. Ele a compôs em ritmo de urgência, em 24 horas: 

“Em meio aos fanáticos arqueologizantes - que gostariam de banir as orações eucarísticas do Sanctus e as intercessões, tomando ao pé da letra a Eucaristia de Hipólito - e outros que pouco se importavam com sua suposta tradição apostólica, mas desejavam apenas uma missa rápida, Dom Botte e eu nos encarregamos de retocar seu texto, de modo a nele introduzir esses elementos, certamente mais antigos, para o dia seguinte! Por acaso, descobri  num texto, senão do próprio Santo Hipólito, ao menos ao seu estilo, uma fórmula feliz sobre o Espírito Santo que poderia fazer uma transição, do tipo Vere Sanctus, para a breve epiclese.  Botte, por sua vez, fabricou uma intercessão mais digna de Paulo Reboux e de seu “ao modo de…” que da sua própria ciência. Mas não posso reler esta composição insólita sem lembrar o terraço do bistrô em Trastevere onde tivemos de ajustar nosso pensum, em tempo hábil para nos apresentarmos na porta de Bronze no momento fixado por nossos diretores!” 7

 

 

  1. 1. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, p. 120-121.
  2. 2. L’Église infiltrée par le modernisme, p. 31.
  3. 3. L’Église infiltrée par le modernisme, pp. 32-34.
  4. 4. Citado por Dom Marcel Lefebvre na sua Carta ao Cardeal Seper, 26 de fevereiro de 1978.
  5. 5. Citado em La messe a-t-elle une histoire? p. 91.
  6. 6. D. C. 1970, no. 1562, p. 416.
  7. 7. Yves Chiron, Mgr Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, pp. 146-147.
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