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Crise da Igreja (221)

Os primeiros choques - a questão da liberdade religiosa no Concílio

Agosto 12, 2018 escrito por admin

“Todos vêem que isso é completamente contrário à doutrina católica transmitida

até hoje, ensinada e promulgada pelos Pontífices Romanos”.

Cardeal Quiroga y Palacios

Já se passaram exatamente vinte anos desde que S. E. Monsenhor Lefebvre fez uma brilhante conferência sobre o novo código de direito canônico no teatro Carigmano de Turim. Nessa ocasião, tocou várias vezes na questão do falso “direito” à liberdade religiosa que o Vaticano II introduziu, assim como das relações entre a Igreja e o Estado. Durante a fase inicial de sua intervenção, Mons. Lefebvre mostrou dois opúsculos que levava consigo: tratava-se dos diferentes esquemas que se apresentaram, sobre esses assuntos, na fase preparatória do concílio: o esquema da Comissão Teológica, presidida pelo Cardeal Ottaviani, e o esquema do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, tendo à frente o Cardeal Bea. 

Monsenhor Lefebvre afirmou aberta e profeticamente que a disputa entre essas duas posições, que na sala conciliar teve a vitória da segunda, constituía o início da grande batalha na Igreja entre católicos e “liberais”. Ilustraremos nesse artigo ambos os esquemas e os debates suscitados ao longo da fase preparatória do Concílio. Seguiremos as idéias da conferência de Mgr. Lefebvre, uma conferência na qual vibravam uma advertência e um apelo a não depor as armas num assunto de tanta importância para o reinado social de Jesus Cristo. Os próprios inimigos da Igreja reconhecem a importância da realeza social de Nosso Senhor; demonstram isso empregando todas suas forças para laicizar os Estados outrora católicos e impor o “dogma” da liberdade religiosa.

O estudo que se segue nos permitirá lembrar a doutrina católica que os Papas defenderam contra o liberalismo, “católico” ou não, a custa de lágrimas e sangue, e refutar ao mesmo tempo as doutrinas dos inovadores que, desgraçadamente, constituem hoje a forma mentis de quase todo o mundo católico, que tornou-se liberal mais ou menos conscientemente.

 

I. O esquema da comissão teológica: DE TOLERANTIA RELIGIOSA

O primeiro esquema, De relationibus inter Ecclesiam et Status necnon de tolerantia religiosa 1 é uma obra prima de síntese da doutrina católica sobre o assunto. Seu principal autor pode ser considerado o Cardeal Ottaviani, presidente da comissão apostólica, encarregado da redação dos esquemas preparatórios 2.

O esquema se inicia com a afirmação da existência de dois poderes: a sociedade civil e a Igreja, ambos necessários e supremos em sua ordem. A finalidade própria de cada uma da duas ordens constitui o fundamento da diferença entre ambas as sociedades. Tal distinção integra por sua vez a garantia de seu poder real e efetivo. Visto que entre o fim terreno, próprio da sociedade civil, e o fim espiritual, privativo da Igreja, há uma relação de subordinação do primeiro ao segundo (pois de nada valeria a felicidade temporal se não se alcançasse a eterna), concluímos que “o fim próprio da sociedade civil não pode nem deve ser perseguido excluso vel laeso fine ultimo: salute videlicet aeterna” [com exclusão em detrimento do fim último, isto é, da salvação eterna] 3.

Daí que a Igreja não intervenha nos assuntos puramente temporais. Mas o que interessa tanto ao âmbito natural quanto ao sobrenatural (como por exemplo, o matrimônio, a educação da juventude, etc.) o Estado deve tratá-lo de maneira que não fira, a juízo da Igreja, os bens superiores de ordem sobrenatural. A salvaguarda e a proteção de tais bens, mesmo sendo próprias da missão da Igreja, resultam muito vantajosas também para o Estado, porque favorecem a formação de bons cidadãos.

 

Os deveres religiosos do Estado

O parágrafo que trata dos deveres religiosos do poder civil pode ser considerado o mais importante de todos e, certamente, foi o alvo das críticas mais acerbadas por parte dos inovadores. Inicia-se com uma sentença lapidar: potestas civilis erga religionem indifferens esse nequit [o poder civil não pode ser indiferente à religião] 4.

De fato, o poder civil foi instituído por Deus para ajudar os homens a conseguir a perfeição humana, não somente mediante uma justa aquisição dos bens temporais e materiais, mas para favorecer, além disso, a circulação dos bens espirituais e o cumprimento dos deveres religiosos. Entre esses bens, nenhum é mais importante do que conhecer o Deus verdadeiro e cumprir os próprios deveres para com Ele. Isso é exigido pela própria ordem natural, expressão da sabedoria e vontade divinas; ignorar tal doutrina “afeta de modo particular o bem público e privado” 5.

Nesse ponto o esquema sustenta  uma afirmação de importância capital: “Não só os simples indivíduos hão de cumprir os deveres referidos para com Deus, mas também o poder civil, que representa a sociedade civil nos atos públicos, há de exercer a mesma obrigação em relação à Majestade Divina. De fato, Deus é o autor da sociedade civil e fonte de todos os bens que convergem a seus membros através dela mesma. Assim, pois, a sociedade civil deve honrar e venerar a Deus” 6. Deus, de fato, não criou os homens como indivíduos ilhados; ao contrário: quis que o homem fosse um animal social. Ao inscrever na natureza humana a característica da sociedade, instituiu também a potestatem civilem. “É inerente à natureza humana ser social e criado para ser regido por leis sociais, vivendo agregado a outros, muito mais do que se observa nos demais animais [...]. O homem [...] pode procurar recursos para ele próprio, mas não por si só, porque por si só, seria insuficiente para remediar todas as necessidades de sua vida. É natural, pois, que o homem viva em sociedade [...]. Sendo natural que o homem viva em sociedade, deve haver nela tudo quanto seja necessário para seu governo; porque se em uma sociedade ninguém se ocupasse mais do que de si próprio, logo ela se dissolveria, a não ser que houvesse um que a detivesse em sua perdição, consagrando-se ao regime e direção dos interesses comuns...” 7.

Ainda falta algo a ser dito sobre os deveres do poder político para com Deus: “o modo com que se deve honrar a Deus na presente economia não pode ser mais do que o que o próprio Deus  estabeleceu como obrigatório em relação à  verdadeira Igreja de Cristo” 8.

Assim, pois, o primeiro ponto sustentado pelo esquema é que Deus é o autor da sociedade civil e do poder político. Daí o poder que cabe ao próprio poder político de “dar a Deus o que é de Deus” (Lc 20, 25) 9. 

O segundo ponto diz respeito ao modo em que a sociedade civil há de honrar a Deus. De fato, Deus não deixou o homem sem guia nem freio: fundou só uma religião verdadeira e uma única e autêntica Igreja, a Católica, que não deixou nunca de assinalar os deveres da sociedade civil para com Deus. Por isso, está no esquema que “também o poder civil, assim como os cidadãos, tem o dever de reconhecer a revelação proposta pela Igreja” 10.

O terceiro ponto é o seguinte: Deus não se limitou a fundar a Igreja; além disso, manifestou ao mundo inteiro suas origens 11: “um juízo imparcial e prudente vê facilmente qual é a verdadeira religião. A verdade e o cumprimento das profecias, a freqüência dos milagres, a rápida propagação da fé apesar de  inimigos superiores e de barreiras humanamente insuperáveis, o testemunho sublime dos mártires e mil outras preclaras demonstrações tornam  patente que a única religião verdadeira é aquela que Jesus Cristo em pessoa instituiu, confiando-a a sua Igreja para que a mantivesse e a dilatasse em todo o universo” 12. Segue-se daí o dever, para o poder civil, de defender a plena liberdade da Igreja e não permitir que  ninguém a impeça de cumprir sua missão 13.

 

Aplicação aos Estados católicos e acatólicos

Uma vez explicados claramente os princípios doutrinais, o esquema infere as aplicações.

Nos Estados onde os cidadãos professam em sua maioria a religião católica, “o poder civil não goza de modo algum do direito de obrigar as consciências [dos católicos] para que aceitem a fé revelada por Deus” 14; disso não se infere, entretanto, que o Estado não tenha o direito de intervir “negativamente”, isto é, de impedir que se difundam religiões falsas e princípios contrários à religião católica: “para proteger os cidadãos da sedução do erro, para conservar o Estado na unidade da fé, sendo bem supremo e fonte de numerosos benefícios, inclusive temporais, o poder civil pode usar de sua autoridade para regular e moderar as manifestações públicas dos demais cultos e defender os cidadãos da difusão de doutrinas falsas que, a juízo da Igreja, põem em perigo sua salvação eterna” 15. Por isso, Monsenhor Lefebvre também afirmava: “naturalmente, o poder civil não pode obrigar ninguém a abraçar a religião católica (nem, com maior razão, outra religião, como diz o Código de Direito Canônico, can. 1351); mas pode, ao contrário, proibir ou moderar o exercício público das outras religiões” 16.

O estado pode, entretanto, promulgar, sob o olhar do bem da Igreja e do seu próprio, leis que se inspirem na tolerância de religiões falsas. Isso pode acontecer “para evitar males maiores, como o escândalo ou a discórdia civil, um obstáculo para a conversão à verdadeira fé...” 17. O Papa Pio XII abordou magistralmente esse tema em uma audiência concedida aos participantes do V Congresso Nacional da União de Juristas Católicos Italianos: “O dever de reprimir os desvios morais e religiosos não pode ser, portanto, uma norma última de ação. Deve estar subordinado a normas mais altas e mais gerais, que em determinadas circunstâncias permitem o erro, como sendo o melhor caminho para promover um bem maior.

Com isso, ficam claros os dois princípios dos quais deve-se deduzir, nos casos concretos, a resposta à gravíssima questão da conduta jurídica, do homem político e do Estado católico diante de uma fórmula de tolerância religiosa e moral sobre o que já foi citado antes [...]. Primeiro: o que não responde à verdade e à norma moral não tem objetivamente direito algum nem à existência nem à propaganda e nem à ação. Segundo: o fato de não impedi-lo por meio de leis estatais e de disposições coercitivas pode, entretanto, ser justificado pelo interesse de um bem superior e mais vasto” 18.

Quanto aos Estados católicos, o esquema lembra o dever que o Estado tem de, no mínimo, conformar-se com a lei natural; por fim, o Estado deve garantir a liberdade civil a todos aqueles cultos que não se oponham à religião nem à moral natural 19.

 

O direito-dever de anunciar o Evangelho

O esquema visto até aqui se inseria no esquema De Ecclesia. Pars  Secunda (cap. IX), e a ele se acrescentava o seguinte capítulo: De necessitate Ecclesiae annunciandi Evangelium omnibus gentibus et ubique terrarum (capítulo X) 20.

O dever da Igreja de evangelizar todos os povos deriva dos próprios poderes de Cristo, que ordenou: “ide, pois, ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto eu ordenei” (Mt. 28, 19-20). Por isso “a Igreja goza em todas as partes, independentemente de qualquer poder humano, do direito inalienável de enviar núncios do evangelho,de estabelecer comunidades cristãs, de  incorporar-se aos homens mediante o batismo e exercer sobre seus súditos tanto poder quanto o de reger e santificar 21.

O Estado Católico não só não deve impedir este direito-dever da Igreja Católica, mas deve facilitá-lo; por outro lado, o poder civil de um Estado acatólico deve abster-se  pelo menos de proibi-lo, e há de reconhecer que a doutrina católica não contém nada que discorde da religião natural, nada contrário à dignidade humana e que não redunde em vantagem nem da vida individual nem da social. Tampouco é lícito a poder algum opor-se à pregação do Evangelho para defender suas tradições, visto que a obra evangelizadora da Igreja conservará e elevará tudo o que há de bom e de justo nelas.

A Igreja, por sua vez, não pode renunciar a sua missão por motivo nenhum, e resistirá até ao martírio, se for necessário: “por esse motivo, o santo sínodo proclama solenemente, ante todo o universo, o direito que a Igreja possui de anunciar o Evangelho a todos os homens e no mundo inteiro e fornecer-lhes os meios de salvação, e insiste com aqueles que estão constituídos em autoridade sobre os povos para que não estorvem a plena liberdade da Igreja no cumprimento desse dever, sendo melhor favorecer o exercício desta entre os povos que lhes confiou a providência divina"22.

 

II- O CONFRONTO

Oposições ao esquema da Comissão Teológica

A primeira oposição relevante foi a de S. Em. o Cardeal Frings. Ele afirmou que a revelação divina tem por destinatários os indivíduos e não a comunidade civil. Portanto, ainda sustentando firmemente que existe uma verdade religiosa, deve-se deixar as pessoas em liberdade para seguirem a religião que julguem ser verdadeira. A intervenção do Estado só se justifica quando a opção religiosa causa lesão ao bem público 23. Ao Cardeal Frings fez eco o Cardeal Léger: também para este último o Estado deve abster-se completamente de favorecer a verdadeira religião menosprezando assim as falsas 24, visto que tal escolha pertence à consciência de cada um dos indivíduos. 

Os dois príncipes da Igreja esqueciam, entretanto, que tal posição fora condenada por Pio IX de maneira circunstanciada: “Sabeis perfeitamente, veneráveis irmãos, que há homens na atualidade que, aplicando ao Estado o ímpio e absurdo princípio do chamado naturalismo, têm a ousadia de ensinar que “o caráter (a representação) mais perfeito do estado e o progresso civil exigem imperativamente que a sociedade humana se constitua e governe sem consideração alguma da religião, e como se ela não existisse, ou pelo menos, sem fazer diferença alguma entre a verdadeira religião e as religiões falsas”. E contradizendo a doutrina da Sagrada Escritura, da Igreja e dos Santos Padres, não temem afirmar que “o melhor governo é aquele no qual  não se reconhece a obrigação do poder político de reprimir com sanções penais os profanadores da religião católica, a não ser quando a tranqüilidade pública o exija” 25.

S. Em. o Cardeal Doephner acrescentou outros “motivos” 26. Depois de ter afirmado que nem todos os teólogos católicos concordam com o fato de que o poder civil tem o dever de honrar a Deus com o culto público, acolher a fé católica e limitar a liberdade de cultos (mas então duvidamos de que se tratem de teólogos católicos), o Cardeal Doephner declara: “Parece claramente inoportuno que o Concílio enuncie o direito das nações católicas de negarem a liberdade de culto público às religiões acatólicas. Isso ofenderia muito aos não-católicos[?!] e atrapalharia a colaboração dos católicos com os não-católicos para realizarem o bem comum...27. Por isso o Cardeal desprezava o esquema proposto pela Comissão Teológica. De fato, “devemos ter sempre presente o fato de que não podemos esperar, nos Estados onde a maioria dos cidadãos á acatólica, que nos tratem de maneira diferente à que nós tratamos os acatólicos nos Estados onde a maioria é católica. Portanto, o próprio bem da igreja universal parece exigir que nos abstenhamos de reprimir as demais religiões” 28.

Observemos, antes de tudo que a intervenção do Cardeal Doephner não apresenta nem sombra de distinção entre a religião verdadeira e as falsas. Em segundo lugar, notemos que o dever da sociedade civil de render culto a Deus, ele o considerava uma “uma opinião teológica discutível”, ainda que o magistério, sustentando-se na revelação e no direito natural, tivesse se pronunciado a respeito várias vezes com toda clareza: “A liberdade de cultos no Estado [reivindicada também por ‘católicos liberais’] pede que este não atribua nenhum culto público a Deus, por não haver razão que o justifique; que nenhum culto seja preferido aos outros; e que todos eles tenham igual direito, sem respeito algum ao povo, caso seja ele declaradamente católico. Para que tudo isso fosse correto, teria de ser verdade que a sociedade civil não tem nenhuma obrigação para com Deus ou que pode infringi-las impunemente. Mas a primeira asserção não é menos falsa do que a segunda. Não se pode duvidar, de fato, que a sociedade estabelecida entre os homens, existe por vontade de Deus, seja considerada em suas partes, em sua forma, que é a autoridade, em sua causa, seja na grande lista de utilidades que fornece [...]. Logo, a sociedade há de reconhecer Deus como pai e autor e reverenciar e adorar seu poder e seu domínio. Esconde, pois, a justiça, e esconde também a razão, seja o Estado ateu ou um que venha parar em ateísmo, que se aja de igual modo quanto às religiões, e conceda a todas promiscuamente iguais direitos. Sendo, pois, necessário ao Estado professar uma religião, há de professar a única verdadeira, que se conhece sem dificuldade, singularmente nos povos católicos, visto que nela aparecem como que selados os caracteres da verdade 29.

Assim, pois, o Cardeal Ottaviani tinha razão de sobra quando disse, contra as objeções alegadas na fase preparatória do Concílio, que o ponto chave consistia em compreender se a sociedade civil deve honrar a Deus, colere Deum 30, ou não; o que significa também que era preciso decidir se todas as declarações do magistério sobre esse assunto deviam ser seguidas ou ignoradas.

 

A defesa do Magistério constante da Igreja

Deixemos o próprio Cardeal Ottaviani responder, num tom profundamente ardente, ao Cardeal Doephner e seus demais “companheiros de infortúnio”: “Já disse ― e não quiseram escutar ou então não o entenderam ― que no Estado regido por um regime democrático e em que os católicos são a maioria [...] os próprios católicos podem exigir que o estado aja segundo os princípios dos cidadãos. No Estado em que há várias religiões [...] a Igreja se posiciona pela paridade dos cultos, e no Estado em que há uma enorme maioria de não-católicos [...] disse que [os católicos] devem ser tolerantes, como pedia Tertuliano quando os católicos eram poucos 31. Foi assim que o Cardeal Ottaviani enunciou de maneira realista o modo com que se devem esboçar as relações Igreja-Estado com base nas diferentes situações em que os católicos se encontrem, sem reconhecer entretanto o direito à liberdade religiosa, o que teria sido contrário ao ensinamento da Igreja; um ensinamento que Pio XII repetiu até as vésperas do Concílio: “antes de tudo é preciso afirmar claramente que nenhuma autoridade humana, nenhum Estado, nenhuma Comunidade de Estados, seja qual for seu caráter religioso, pode dar um mandato positivo ou uma autorização positiva de ensinar ou de fazer o que for contrário à verdade religiosa ou ao bem moral. Um mandato ou uma autorização deste gênero não teria caráter obrigatório e ficaria sem valor. Nenhuma autoridade poderia conferi-la, porque é contra a natureza obrigar o espírito e a vontade do homem ao erro e ao mal, ou considerar um e outro como indiferentes. Nem sequer Deus poderia dar um mandato positivo ou uma autorização positiva de tal caráter, porque estaria em contradição com sua absoluta veracidade e santidade 32.

O Cardeal Ottaviani afirma, ademais, com vigor: “falou-se da [má] impressão que teriam  os protestantes, os pagãos, etc.; mas devemos manter nossa posição, tendo em vista o que diriam os católicos na Itália, na Espanha, em Portugal, na Irlanda, na Hispano-América[...], e me dirijo particularmente aos bispos da América Espanhola: sabem que batalha os protestantes empreenderam nessas zonas contra a unidade da religião. Vamos dar, então, aos protestantes, conduzidos pelo Vaticano II, uma arma para atacar o catolicismo ou para opor contrapeso ao que fazem as autoridades civis ― e fazem muito ― em favor do catolicismo? [...]. Assim, não se pode dizer com segurança, como fez um bispo, ‘salva reverentia erga Magisterium ecclesiasticum’ [salva a reverência devida ao Magistério eclesiástico]. O magistério ensina o que está exposto [no esquema], e é por isso que não cabe afirmar: ‘sejamos reverentes’, e logo em seguida agir contra ele 33.

O Cardeal Alfrink percebeu a diferença entre a doutrina tradicional, representada pelo esquema da Comissão Teológica, e a “liberal”, exposta no esquema do Secretariado para a Unidade dos Cristãos: “só o mero fato de que se fale de tolerância religiosa no primeiro esquema e não de liberdade religiosa, como no outro,  já nos causará problemas...34. Mas o Cardeal Alfrink, mesmo reconhecendo em tal diferença de termos uma diferença de doutrina, confirma a posição “liberal”, porque do primeiro esquema “os católicos inferirão que a Igreja Católica, enquanto goze de maioria em seus países, privará os cidadãos acatólicos da liberdade civil de professar sua religião e irá tolerá-los como um mal35. Ao falar dessa maneira, o cardeal exibe uma incompreensão absoluta tanto dos fundamentos da doutrina católica quanto do direito natural. De fato, desde quando o erro pode reivindicar direitos? Desde quando o árbitro pessoal pode reivindicar direitos absolutos? Isso acontece só no âmbito da reflexão filosófica moderna, que se inspira no pensamento liberal-maçônico, sempre condenado pela Igreja. Perguntemo-nos então: que devem fazer os cardeais no concílio: ensinar a verdade perene que Deus lhes confiou ou fazer propaganda dos delírios daqueles que reivindicam para o homem direitos absolutos que só competem a Ele? Não se ouve aqui o eco da tentação original: eritis sicut Deus [sereis como Deus]? 

S. Em. o Cardeal Larraona alertou todos contra qualquer concessão em matéria doutrinal para “favorecer” os acatólicos: “se cremos que a conversão há de se realizar mais facilmente pelo fato de que nos acerquemos deles de maneira que já não subsista diferença alguma, nos equivocamos completamente [...]; crer que devemos ceder na doutrina (como já cederam muitos, oh dor!) ― nessa doutrina que por desgraça, já não se reverencia publicamente na Europa, ― ou que devemos ceder também na disciplina, constitui, a meu juízo, um erro que tem de ser rechaçado... 36. O Cardeal Browne sustentou que o esquema da Comissão Teológica era impecável e classificou de “infantilismo” a suposição de que a doutrina exposta admiravelmente na Immortale Dei de Leão XIII fosse uma doutrina contingente e mutável 37. 

Tudo o que já foi exposto revela claramente a existência de uma fissura no seio das próprias comissões preparatórias, uma fratura que sairia definitivamente a flor da pele na sala conciliar. De um lado, encontramos os que só queriam re-elaborar e expor fielmente a doutrina católica de sempre, procurando dar diretrizes práticas de ação pastoral, e de outro, configurava-se cada vez mais a vontade de recorrer à pastoral para inserir uma modificação substancial na concepção católica das relações entre Igreja e Estado. A nova orientação deletéria, que desgraçadamente acabou prevalecendo, manifesta-se com clareza no esquema do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea.

 

III – AS “NOVIDADES” DO ESQUEMA DO SECRETARIADO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS   DE LIBERTATE RELIGIOSA

O magistério “repensado”

O primeiro dado desconcertante que aparece a primeira vista no esquema em questão é a ausência de uma lista de notas que remeta o leitor aos textos do magistério, enquanto que no esquema da Comissão Teológica, ao contrário, há uma lista que ocupa páginas e mais páginas. 

E é o próprio Cardeal Bea quem nos diz que peso deve-se atribuir ao esquema De libertate religiosa. O presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos declarou, na apresentação do esquema citado 38, que foi escrito tendo presente a situação de então, caracterizada, por um lado, pelas acusações de intolerância que os católicos vertiam contra a Igreja Católica (sic!), e, por outro lado, pelo fato de que já não existia nenhuma nação que se pudesse considerar católica (afirmação que provocou a reação do Cardeal Larraona 39); entretanto e isso é o que nos interessa o Secretariado “quis expressar-se também em termos teológicos” (de principiis theologics cogitavit 40), ou seja, quis repensar a posição católica apresentada ininterruptamente pelo magistério de todos aqueles Papas que tiveram de enfrentar as idéias liberais. As novidades de tal “repensamento” são de importância capital.

 

As “time bombs” (as bombas-relógio)

O esquema confirma, antes de tudo, que a Igreja deve ocupar-se não somente das verdades que devem ser cridas, mas, além disso, deve ocupar-se das pessoas que hão de aderir a tais verdades, precisamente de “todos aqueles movidos pelo Espírito Santo por caminhos diversos a fim de que ascendam livremente à casa do Pai comum41. 

Já encontramos nessa afirmação dois elementos abundantemente desenvolvidos no pós-concílio (essas novidades “escondidas” nos textos, que constituem os avanços e os pretextos em que se possa apoiar as doutrinas heterodoxas para desenvolvê-las amplamente em tempos mais oportunos, são chamadas com toda razão de time bombs nos ambientes anglo-saxões, isto é, são bombas conscientemente programadas para explodir no seu devido tempo).

Descobrimos in primis a idéia segundo a qual o Espírito Santo se serve positivamente de caminhos distintos aos estabelecidos por Nosso Senhor Jesus Cristo na Igreja Católica (viis diversis a Spiritu Sancto moventur), uns caminhos que a reflexão pós-conciliar identificará explicitamente com as religiões falsas. Isso foi previsto com olhos de lince por S. Em. o Cardeal Quiroga y Palacios, que pediu que se esclarecesse que, se o Espírito Santo move de fato, também aqueles que andam por outros caminhos fora da Igreja Católica, “não os move para que andem por tais caminhos, mas apesar de andarem por eles, isto é, a despeito de que discorram por tais caminhos. Por isso não poderá inferir-se nada daqui em favor da liberdade religiosa, mas somente em favor da tolerância42. O Cardeal havia explicado no mesmo sentido a parábola do grão e da cizânia, alegada tortuosamente no esquema do Secretariado como suposta testemunha evangélica em favor do direito à falsa “liberdade religiosa”. De fato, o Senhor Jesus diz explicitamente que foi o inimigo quem semeou a cizânia, enquanto aquele que devia velar se encontrava dormindo. Portanto, não é reconhecido direito algum ao inimigo semeador, porque atuou às escondidas e com dolo. Enfim, essa parábola sugere a tolerância e nega todo direito ao erro 43.

Em segundo lugar, no esquema do Cardeal Bea, se insinua que a liberdade é, em sua essência, ausência de constrição interna, o que exige que ninguém limite a expressão da interioridade do sujeito. O único limite consiste, segundo ele, em não por obstáculo à liberdade dos outros. Também aqui se opôs o Cardeal Quiroga y Palacios, pois ainda que seja verdade que cada um tenha o direito de formar livremente sua consciência e de tomar suas decisões a partir dela, não é verdade que o status mentis errantis (a consciência errônea) possa reivindicar direitos sociais para si ou lamentar-se das intervenções da autoridade legítima a fim de evitar danos ao bem da Igreja e da sociedade 44.

  

O ponto chave                           

Com toda razão é reconhecido a todas as pessoas, no esquema, o direito de seguir sua consciência, mesmo quando esta erra (“em matéria religiosa, deve-se respeitar o direito de seguir sua própria consciência, tanto para os crentes [...] como para todos os homens e todas as sociedades humanas, sem restrição45). Mas o Secretariado para a Unidade dos Cristãos extrai daí conseqüências errôneas, especialmente para a livre expressão da religião que a consciência julga verdadeira. Este ponto é de uma importância extrema. Sem pretender abusar da paciência do leitor, parece-nos necessário seguir passo a passo o modo como São Tomás trata esse assunto: “Visto que o objeto da vontade é o que a razão lhe propõe, se ela lhe apresenta algo mal, a vontade se torna má ao procurá-lo. Isso não se verifica somente nas coisas indiferentes, mas também nas boas ou más por natureza. De fato, não só a coisa indiferente pode assumir acidentalmente natureza de bem ou de mal, mas também o próprio bem pode assumir aspecto de mal, e o mal, aspecto de bem, em virtude da apreciação da razão. Abster-se da fornicação, por exemplo, é um bem. Contudo, a vontade só pode mover-se em direção a ele como sendo um bem,  baseada na apresentação da razão. Assim, se a razão erra e apresenta [a abstinência da fornicação] como um mal à vontade, esta tenderá a ele sob o aspecto de mal e, por conseguinte, será má, pois quererá um mal (não um mal que seja tal por si mesmo, mas um mal que é tal acidentalmente, em virtude da apresentação da razão). E assim, crer em Cristo é algo essencialmente bom e necessário para a salvação. Mas a vontade não pode tender a isso se não estiver baseada na apresentação da razão. Logo, se a razão apresenta isso como um mal, a vontade, forçosamente, o quererá como um mal. Não porque seja um mal em si, mas porque seria um mal na consideração da razão. Daí que é necessário concluir que, falando em termos absolutos, toda volição que se afaste da razão, certa ou errada, é sempre pecaminosa46. Segue-se que ninguém deve forçar uma pessoa a crer em Jesus Cristo: “A doutrina católica e a Igreja sempre se pronunciaram, e continuam fazendo-o hoje, a favor da mais ampla liberdade de consciência na busca da verdade revelada e em sua aceitação integral mediante o ato de fé. O princípio que enunciou outrora Santo Agostinho a esse respeito, segundo o qual o homem não pode acercar-se da fé religiosa nonnisi volens, foi sempre a norma a que se adequou constantemente a práxis da Igreja em relação aos infiéis; igualmente se conforma com ela  a postura que mantém quanto aos dissidentes, nascidos e crescidos no seio de confissões religiosas que desertaram há tempos da unidade querida por Cristo 47.

Com o princípio da não constrição, especialmente no âmbito religioso, deriva a obrigação que a vontade tem de seguir a consciência: “a aceitação da verdade há de ser espontânea: a força ou a constrição podem produzir um conformismo externo, mas nunca a adesão espiritual a uma doutrina [...]. Segue-se então que quem erra, especialmente se o faz de boa fé, tem direito a não sofrer violência externa ou pressão moral para fazê-lo mudar de opinião ou profissão religiosa [...]. Direito de liberdade interior, que exclui categoricamente o exercício de qualquer tirania sobre as consciências, tanto no campo político quanto no religioso. Mas trata-se de um direito não do erro, mas da pessoa humana em sua dignidade de ser racional na qual caminha com firmeza48. Sobre tal dignidade de ser racional, funda-se o princípio da tolerância religiosa, sempre defendida pela doutrina católica. Mas a Igreja jamais considerou tal dignidade como absoluta, isto é, solta, desligada de todo limite extrínseco e intrínseco. Pelo contrário, sempre ensinou que o direito à liberdade do ser racional está intrinsecamente limitado pela lei moral e a justiça, e que se acha extrinsecamente circunscrito pelas exigências da vida social (onde se choca com o direito dos outros). Daí que a consciência errônea, ainda que obrigue a vontade, não pode ufanar-se de possuir direito algum, pois o direito se liga ontologicamente somente à verdade e ao bem objetivamente determinados e por conseguinte, à consciência verdadeira, isto é, conforme a verdade objetiva: “gostaríamos de perguntar aos sustentadores dos direitos da consciência subjetiva o que responderiam a um amigo que chegasse em sua casa e lhes convidasse a abandoná-la porque tem certeza subjetiva que esta casa lhe pertence. Não têm dúvida de que o entregariam à polícia, se não fossem ao manicômio diretamente. Como se explica tal comportamento se a consciência subjetiva [a consciência errônea inclusive] goza do direito de fazer-se valer? Explica-se perfeitamente pela natureza das relações sociais, as quais têm fundamento no direito objetivo, perante o qual há de bater em retirada qualquer persuasão pessoal49.  

Tampouco a vontade que segue os ditados da consciência errônea se exime sempre de pecado: “Se a razão ou a consciência são errôneas por causa de um erro direta ou indiretamente voluntário quanto a assuntos que todos estão obrigados a saber, tal erro não exime de pecado a vontade que segue a razão ou a consciência errôneas. Mas se, pelo contrário, trata-se de um erro[...] em que não haja negligência por parte do sujeito,  que ignora apenas as circunstâncias particulares, então tal erro da razão ou da consciência exime a vontade de pecado 50.

Tiremos agora as conseqüências de nossa análise: “sendo uma faculdade moral, o direito só pode germinar sobre o terreno da verdade e do bem [...]. Ora, estando a consciência subjetiva no erro, ainda que o professe de boa fé [isto é, mesmo no caso em que a consciência apresente tal erro como se fosse um bem, ainda que na realidade seja um mal], não pode engendrar por si própria direito algum. Portanto, o direito acompanha unicamente a consciência objetiva, ou seja, a consciência que se conforma com a verdade objetiva na aceitação da religião 51.

Os desvios doutrinais do cardeal Bea não acabam por aqui. Mais na frente, o esquema afirma que a Igreja jamais admitiu e não pode admitir a doutrina do indiferentismo religioso. Entretanto, enaltece as sociedades civis modernas que dispensem tal modo de agir a todas as religiões 52. Bea sustentou igualmente, na tese que defendeu, que o Estado deverá ocupar-se  somente do bonum communem humanum, o único que o Estado pode reconhecer à luz da razão (o Cardeal Bea já exclui então, por princípio e contra o Vaticano I, que se possa reconhecer a origem divina da religião católica através de prova externas, acessíveis à razão humana!), e que de pouco servirá multiplicar citações de outros tempos, porque o Concílio, segundo a vontade de João XXIII, devia ter o olhar posto sobre o aggiornamiento.

 

O hiato

É evidente o hiato existente entre o esquema e a doutrina tradicional: “a doutrina antiga [...] tem seus fundamentos nas premissas reveladas: que a religião verdadeira não pode ser mais que uma e é exclusivamente a católica, em cujo favor convergem todas as provas históricas e dogmáticas. A estas premissas, se acrescenta logo um princípio de ordem racional, ou seja, que o direito só se vincula ontologicamente à verdade. E visto que a religião católica é a única verdadeira, deduz-se que urge o dever do Estado, particularmente se a maioria de sua população é católica, de proteger a religião revelada com todos os meios que estão ao seu alcance [...]. Segue-se que [...] não se pode sustentar a  tese do laicismo do Estado e sua separação da Igreja [...] sem antes virar de cabeça para baixo este sólido baluarte chamado dogma 53. A isso se acrescenta que “não somente o bem comum obriga o Estado a sair da neutralidade proposta, mas também há a obrigação indeclinável, sobretudo como Estado, de render culto público ao Deus verdadeiro na única forma que este estabeleceu através da revelação” 54. Exatamente o mesmo que sustentava o Cardeal Ottaviani e todo o ensinamento do magistério infalível!

Portanto, podem-se perceber vários erros graves na posição de Bea:

1) Negação do direito natural, segundo o qual também a sociedade civil deve render o  culto devido a Deus, pois O tem como autor.

2) Negação da Redenção, que exprime qual é o único culto verdadeiro e agradável a Deus.

3) Negação do conceito filosófico da verdade, entendida como adequação do intelecto com a realidade, conhecido universal e objetivamente.

4) Negação do conceito verdadeiro de liberdade humana, “limitada intrinsecamente pela lei moral e a justiça, e circunscrita extrinsecamente pelas exigências da vida social” 55.

Assim, pois, o Cardeal Quiroga y Palacios falou com razão sobre o esquema apresentado por Bea: Nemo non videt omnia haec esse omnino contraria doctrinae usque adhuc tradiate ab omnibus et a Summis Pontificibus expositae et propugnata [Não há ninguém que não veja que tudo isso é contrário à doutrina católica transmitida até hoje por todos e exposta e propugnada pelos Sumos Pontífices] 56.

 

Conclusões

Começamos esse artigo ponderando a clarividência da Monsenhor Lefebvre. Agora será mais fácil apreciá-la.

Pensando bem, todo o debate relativo aos dois esquemas propostos gira em torno de um ponto decisivo: é absoluta a dignidade humana e a liberdade que se deve a tão preciosa dignidade? Ou é Deus o Absoluto? (A existência de dois absolutos, de fato, é impossível por ser contraditória e o que não é possível, não pode ser real). A pergunta pode parecer banal e fácil de responder, mas não é assim. O castelo elaborado pelo Cardeal Bea e seus colaboradores só se mantém em pé se a indivisível conexão do direito com a verdade for negada. A liberdade humana deve adaptar-se às exigências dessa conexão, pois ela procede de uma ordem objetiva de valores cujo fim último é a vontade do ordenador e legislador supremo. Assim, pois, a liberdade não é em nada ofendida ao se negar que a consciência subjetiva tenha direitos; no máximo, “manifesta-se uma oposição irredutível a um conceito errôneo de liberdade, entendida como faculdade de fazer tudo que dê vontade: um conceito com o qual nenhuma doutrina moral jamais  poderá chegar a compromisso algum” 57

A negação do vínculo da liberdade com a verdade leva à liquidação do Absoluto divino, fonte da ordem da verdade, fora do qual todo o resto só pode ser relativo, não no sentido de um meio sobre o fim, mas no sentido de um fim secundário (o homem) sobre o fim último (Deus). Esta é a tentação original: eritis sicut Deus, sereis como Deus. É a loucura do anticristo, que “se ergue acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de veneração até o ponto de sentar-se ele próprio no templo de Deus, proclamando-se Deus a si mesmo” (2Ts 2, 4). É a luta das duas cidades: a cidade de Deus, que O ama até o desprezo de si, e a do homem, que ama a si próprio até o ponto de menosprezar Deus.

Dom Marcel Lefebvre tinha razão: os primeiros choques da batalha apocalíptica no seio da igreja se produziram a propósito da liberdade religiosa. O próprio Paulo VI disse, de uma  maneira desconcertante, em um incrível discurso pronunciado na ONU, precisamente ao acabar o Concílio, que o Concílio Vaticano II era o primeiro baluarte conquistado pelos que, sabendo ou não, preparam a sopa de Satanás, seu anticristo e sua cidade: “O humanismo leigo e profano apareceu, finalmente, em sua terrível estatura e, de um certo modo, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião – porque assim é – do homem que se faz Deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, uma condenação? Poderia ter acontecido, mas não aconteceu... Vós, humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, reconhecei pelo menos este mérito [ao Concílio] e reconhecei  nosso novo humanismo. Também nós ― e mais do que ninguém ― somos promotores do homem 58.

São João, ao contrário, diz o seguinte: “Eles são do mundo: por isso dizem coisas do mundo e o mundo os escuta. Nós somos de Deus. Quem não é de Deus não nos ouve. Por isso distinguimos o espírito de verdade do espírito de erro” (1 Jo 4, 5-6). Escutemos, pois, o Espírito da verdade!

Aloysius

 

(Jornal "Sim Sim Não Não", no. 143)

  1. 1. Acta et Documenta Concilio Oecumenico Vaticano II Apparando. Series II Praeparatoria II. 4; pp 657 ss
  2. 2. O cardeal havia terminado há pouco tempo uma obra em dois volumes sobre o direito público da Igreja.
  3. 3. Acta et Documenta... cit., p. 658.
  4. 4. Ibidem
  5. 5. Leo PP. XIII, Litterae encyclicae Libertas de libertate humana, 20 de junho de 1888.
  6. 6. Acta et Documenta... cit., p. 658
  7. 7. Santo Tomás de Aquino, De regimine principum, I, 1
  8. 8. Acta et Documenta... cit., Pp. 658-659
  9. 9. Precisamente essa passagem evangélica será muito mal entendida pelos liberais, que a utilizarão para sustentar (erroneamente, como é claro) a separação entre Igreja e Estado.
  10. 10. Ibidem, p. 659
  11. 11. Cf. Ibidem
  12. 12. Leo PP. XIII, Epistola encyclica Immortale Dei de civitatum constitutione christiana, 1 de novembro de 1885.
  13. 13. Cf. Acta et Documenta... cit., p. 659
  14. 14. Ibidem, p. 660.
  15. 15. Ibidem
  16. 16. M. Lefebvre, Accuso el Concilio (Acuso ao Concílio) Editorial Ichthys: Albano Laziale, 2002, p.78, nota 5.
  17. 17. Acta et Documenta ...cit,. p.600
  18. 18. Pius PP. XII,Nazione e comunitá internazionale nella allocuzione ai Giuristi Cattolici Italiani (Nação e Comunidade internacional no discurso aos juristas católicos italianos), 6 de dezenbro de 1953, em Discorsi e Radiomessagi di Sua Santitá Pio XII (Discursos e Radiomenssagens de Sal Santidade Pio XII), tipogrtafia Poliglota Vaticana, 1954, vol. XV, pp. 488-489.
  19. 19. Acta et Documenta... cit., p. 600
  20. 20. Cf. Acta et Documenta... cit., pp. 672 ss.
  21. 21. Ibidem, pp. 672-673.
  22. 22. Ibidem, p.  673.
  23. 23. Cf. Acta et Documenta ..., cit, pp. 692-693.
  24. 24. Ibidem, pp 695-701.
  25. 25. Pius PP. IX, Cuanta cura, 8 de dezembro de 1864.
  26. 26. Cf. Acta et Documenta ...cit., pp. 701-706.
  27. 27. Ibidem, p. 705.
  28. 28. Ibidem.
  29. 29. Leo PP. XIII, Litterae encyclicae Libertas de libertate humana , 20 de junho de 1888.
  30. 30. Cf. Acta et Documenta ... cit., pp. 719-721.
  31. 31. Ibidem, p. 720.
  32. 32. Pius PP. XII, Nazione e comunitá internazionale..., 6 de dezembro de 1953, em Discorsi e Radiomessage di Sua Santitá Pio XII cit., p. 487.
  33. 33. Acta et Documenta... cit., p. 721
  34. 34. Ibidem, p. 707.
  35. 35. Ibidem.
  36. 36. Ibidem, p. 710
  37. 37. Cf. Ibidem, pp. 710-712.
  38. 38. Cf. Acta et Documenta..., pp. 688-691.
  39. 39. Cf. Ibidem, p. 710.
  40. 40. Ibidem, p. 689.
  41. 41. Ibidem, p. 677.
  42. 42. Ibidem, p. 727.
  43. 43. Ibidem.
  44. 44. Ibidem.
  45. 45. Ibidem, p. 678
  46. 46. Summa Theologicae, I-II, q. XIX, a.5.
  47. 47. A. Messineo, S. I., La libera ricerca della verità (a Livre busca da verdade), “La Civiltà Cattolica”, IV (1950), p. 57.
  48. 48. A. Messineo, S. I., Soggettivismo e liberta religiosa (Subjetivismo e liberdade religiosa), “La Civiltà Cattolica”, III (1951), p. 16.
  49. 49. A. Messineo, S. I., La coscienza soggetiva e la vita sociale (A cosnciência subjetiva e a vida social), “La Ciiltà Cattolica”, II (1950), p. 510.
  50. 50. Summa Theologicae, I-II, q. XIX, a. 6.
  51. 51. A. Messineo, S. I., Soggettivismo e libertà religiosa  cit., p. 5.
  52. 52. Cf. Acta et Documenta... cit., pp. 680-681.
  53. 53. Cf. Ibidem, pp. 689-690.
  54. 54. A. Messineo, S. I., Democrazia e laicismo dello Stato (Democracia e laicismo do Estado), “La Civiltà Cattolica”, II (1951), p. 588.
  55. 55. Ibidem, p.589.
  56. 56. A. Messineo, S. I., Soggetivismo e liberta religiosa cit., p.15.
  57. 57. Acta et Documenta cit., p. 728. Intervenção de S. Em. o Cardeal Quiroga e Palácios.
  58. 58. A. Messineo, S. I., Soggetivismoe liberta religiosa cit., p.15. I Documenti Del Concilio Vaticano II (Os documentos do concílio Vaticano II), Edit. Gregoriana, Pádua, 1967, pp. 1155-1156.

Do ecumenismo à apostasia silenciosa

Do Ecumenismo à Apostasia Silenciosa

 

25 anos de pontificado

Menzingen 2004

1. O 25o aniversário da eleição de João Paulo II é ocasião para reflectir na orientação fundamental que o Papa deu ao seu pontificado. Na sequência do Concílio Vaticano II, quis colocá-lo sob o signo da unidade: «A restauração da unidade de todos os cristãos era um dos fins principais do II Concílio do Vaticano (cf. UR no1) e, desde a minha eleição, empenhei-me formalmente em promover a execução das suas normas e das suas orientações, considerando que tal era para mim um dever primordial» 1. Essa “restauração da unidade dos cristãos” marcou, segundo João Paulo II, um passo em direcção a uma unidade maior, a da família humana inteira: «A unidade dos cristãos está aberta sobre uma unidade sempre mais vasta, a da família humana inteira» 2.

2. Em razão desta escolha fundamental:

- João Paulo II estimou dever «retomar em mãos essa “magna carta” conciliar que é a Constituição Dogmática Lumen gentium 3, a qual definiu a Igreja como um «sacramento, quer dizer, simultaneamente sinal e meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano» 4. Essa “retomada em mãos” era feita com vista a «realizar sempre melhor a comunhão vital em Cristo de todos os que crêem e esperam n’Ele, mas igualmente com vista a contribuir para uma mais ampla e mais forte unidade da família humana inteira» 5;

- João Paulo II consagrou o essencial do seu pontificado à prossecução dessa unidade, multiplicando encontros inter-religiosos, arrependimentos e gestos ecuménicos. Esta foi também a principal razão das suas viagens: «elas permitiram alcançar as Igrejas particulares em todos os continentes, levando-lhes uma atenção sustentada no desenvolvimento das relações ecuménicas com os cristãos das diferentes Confissões» 6;

- João Paulo II deu o ecumenismo como traço característico do Jubileu do ano 2000 7.

Em completa verdade, pois, «pode dizer-se que toda a actividade das Igrejas locais e da Sé Apostólica tiveram estes últimos anos uma inspiração ecuménica» 8. Hoje, passaram-se vinte e cinco anos, o Jubileu acabou: soou a hora do balanço.

3. Durante muito tempo, João Paulo II creu que o seu pontificado seria um novo Advento 9 permitindo «na alvorada deste novo milénio erguer-se sobre uma Igreja que reencontrou a sua plena unidade»10. Então, ter-se-ia realizado o «sonho» do Papa: «Todos os povos do mundo em marcha, de diferentes lugares da Terra, para se reunirem junto do Deus único como um só família» 11. A realidade é completamente outra: «O tempo em que vivemos mostra-se como uma época de desvario [em que] muitos homens e mulheres parecem desorientados» 12. Por exemplo, reina na Europa uma «espécie de agnosticismo prático e de indiferentismo religioso», a ponto de «a cultura europeia dar a impressão de uma “apostasia silenciosa”» 13. O ecumenismo não é estranho a esta situação. A análise do pensamento de João Paulo II (1a parte) far-nos-á verificar, não sem profunda tristeza, que a prática ecuménica é herdade de um pensamento estranho à doutrina católica (2a parte), e leva à “apostasia silenciosa” (3a parte).

 

Capítulo I - ANÁLISE DO PENSAMENTO ECUMÉNICO

 

A unidade do género humano e o diálogo inter-religioso

Cristo, unido a cada homem

4. Na base da concepção do Papa encontra-se a afirmação segundo a qual «Jesus Cristo [que] “Se uniu de uma certa maneira a todos os homens” (Gaudium et spes, no 22), mesmo se estes disso não estão conscientes» 14. Com efeito, João Paulo II explica que a Redenção trazida por Cristo é universal, não somente no sentido de que é superabundante para todo o género humano e que é proposta a cada um dos seus membros em particular, mas, sobretudo, porque é aplicada, de facto, a todos os homens: logo, se por um lado, «em Cristo, a religião já não é uma “procura de Deus como às apalpadelas” (Actos 17, 27), mas uma resposta da fé a Deus que Se revela [...], resposta tornada possível por este Homem único [...] em que todo o homem se tornou capaz de responder a Deus», por outro, o Papa acrescenta: «[que] neste Homem, a criação inteira responde a Deus» 15. Com efeito, «cada um foi incluído no mistério da Redenção, e Jesus Cristo uniu-Se a cada um, para sempre, através deste mistério. [...] É isso, o homem em toda a plenitude do mistério do qual se tornou participante em Jesus Cristo e do qual participa cada um dos quatro mil milhões de homens vivendo no nosso planeta, desde o instante da sua concepção» 16. Desta forma, «no Espírito Santo, cada pessoa e cada povo tornaram-se, pela Cruz e Ressurreição de Cristo, filhos de Deus, participantes na natureza divina e herdeiros da vida eterna» 17.

O Congresso de Assis

5. Este universalismo da Redenção encontra a sua aplicação imediata na maneira com a qual João Paulo II pratica as relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Com efeito, se a ordem da unidade atrás descrita «é aquela que remonta à criação e à redenção e se é, portanto, neste sentido, “divina”, estas diferenças e estas divergências [citadas anteriormente], mesmo religiosas, devem-se, sobretudo, a um “facto humano”» 18 e devem, assim, «ser ultrapassadas no progresso para a realização do grandioso desígnio de unidade que preside à criação» 19. Daí as reuniões inter-religiosas tais como a de Assis, em 27 de Outubro de 1986, na qual o Papa quis desvendar «de maneira visível, a unidade escondida mas radical que o Verbo Divino [...] estabeleceu entre os homens e as mulheres deste mundo» 20. Com tais gestos, o Papa entende fazer proclamar à Igreja que «Cristo é a realização da aspiração de todas as religiões do mundo e, por isso mesmo, delas é fim único e definitivo» 21.

A Igreja de Cristo e o Ecumenismo

A única Igreja de Cristo

6. Uma ordem dupla: unidade divina permanecendo inviolada, e divisões históricas que não derivam senão do humano; tal é ainda a grelha aplicada à Igreja, considerada como comunhão. Com efeito, João Paulo II distingue a Igreja de Cristo, realmente divina, das diferentes Igrejas, frutos das “divisões humanas” 22. A Igreja de Cristo, de contornos assaz mal definidos pelo facto de exceder os limites da Igreja Católica23, é uma realidade interior 24. Ela reúne pelo menos o conjunto dos cristãos 25, qualquer que seja a sua pertença eclesial: todos são «discípulos de Cristo» 26, «numa pertença comum a Cristo» 27; eles «são um porque, no Espírito, estão na comunhão do Filho e, n’Ele, na comunhão com o Pai» 28. A Igreja de Cristo é, assim, comunhão dos santos, para além das divisões: «A Igreja é Comunhão dos Santos» 29 Com efeito, «A comunhão na qual os cristãos crêem e esperam é, na sua realidade mais profunda, a sua unidade com o Pai por Cristo e no Espírito Santo. Desde o Pentecostes é dada e recebida na Igreja, comunhão dos santos» 30.

As divisões eclesiais

7. Conforme João Paulo II, as divisões eclesiais acontecidas no decurso da História não teriam afectado a Igreja de Cristo, ou, dito de outro modo, teriam deixado inviolada a unidade radical dos cristãos entre eles: «Pela graça de Deus, o que pertence à estrutura da Igreja de Cristo contudo não foi destruído, nem a comunhão que permanece com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais» 31. Com efeito, estas divisões são de outra ordem; só respeitam à manifestação da comunhão dos santos, o que a torna visível: os tradicionais laços da profissão de fé, dos sacramentos e da comunhão hierárquica. Recusando um ou outro destes laços, as Igrejas separadas não ferem senão a comunhão visível com a Igreja Católica, e somente de maneira parcial: esta última comunhão é capaz de mais ou menos, conforme um maior ou menor número de laços tiverem sido salvaguardados. Falar-se-á então de comunhão imperfeita entre as Igrejas separadas e a Igreja Católica, permanecendo salva a comunhão de todas na única Igreja de Cristo 32. A expressão “Igrejas irmãs” será utilizada frequentemente 33.

8. Segundo essa concepção, o que une entre elas as diferentes Igrejas cristãs é maior do que o que as separa 34: «O espaço espiritual comum vence muitas barreiras confessionais que ainda nos separam uns dos outros» 35. Este espaço espiritual, eis a Igreja de Cristo. Se esta não «subsiste» 36 «em um único sujeito» 37 senão na Igreja Católica, não deixa de manter uma «presença activa» nas Comunidades separadas, em virtude dos «elementos de santificação e de verdade» 38 que nelas estão presentes. É este pretendido espaço espiritual comum que João Paulo II quis consolidar com a publicação de um martirológio comum às Igrejas: «O ecumenismo dos santos, dos mártires, é talvez o que mais convence. A voz da communio sanctorum é mais forte que a dos fautores de divisão» 39.

Nem absorção nem fusão, mas dom recíproco

9. Portanto, «o fim último do movimento ecuménico» não é senão «o restabelecimento da plena unidade visível de todos os baptizados» 40. Tal unidade não mais se realizará pelo “ecumenismo de regresso” 41: «Rejeitamo-lo como método de procura de unidade. [...] A acção pastoral da Igreja Católica, tanto latina como oriental, já não tende a fazer passar os fiéis de uma Igreja para outra» 42. Com efeito, seria esquecer duas coisas:

— Estas divisões, que o Concílio Vaticano II analisa como faltas de caridade 43, são imputáveis a uma e outra parte: «Evocando a divisão dos cristãos, o decreto sobre o ecumenismo não ignora “a falta dos homens de uma e outra parte”, reconhecendo que a responsabilidade não pode ser atribuída unicamente “senão aos outros (UR, 3)”» 44.

— O ecumenismo é também «troca de dons»45 entre as Igrejas: «A troca de dons entre as Igrejas, na sua complementaridade, torna fecunda a comunhão» 46.

É por isso que a unidade desejada por João Paulo II «não é absorção nem mesmo fusão» 47. Aplicando este princípio às relações entre a Igreja Católica e os ortodoxos, o Papa expõe: «As duas Igrejas irmãs do Oriente do Ocidente compreendem hoje que sem uma escuta recíproca das razões profundas que tendem em cada uma delas à compreensão do que as caracteriza, sem um dom recíproco dos tesouros do génio de que cada uma é portadora, a Igreja de Cristo não pode manifestar a plena maturidade da forma que recebeu no início, no Cenáculo» 48.

A recomposição da unidade visível

10. «Do mesmo modo que na família as eventuais dissenções devem ser ultrapassadas pela recomposição da unidade, é assim que se deve fazer na família mais vasta da comunidade cristã inteira» 49. Ultrapassar as dissenções humanas pela recomposição da unidade visível, tal é a metodologia do Papa. Será necessário aplicá-la nos três laços tradicionais da profissão de fé, dos sacramentos e da comunhão hierárquica, porque são eles que constituem a visibilidade da unidade.

A unidade de sacramentos

11. Sabe-se como Paulo VI se entregou a essa tarefa em matéria de sacramentos: nas sucessivas reformas litúrgicas que aplicaram os decretos conciliares, «a Igreja foi guiada [...] pelo desejo de tudo fazer para facilitar aos nossos irmãos separados o caminho da união, afastando qualquer pedra que pudesse constituir nem que fosse a sombra de um risco de tropeço ou de desagrado» 50.

12. Afastado, assim, obstáculo de uma liturgia católica demasiado expressiva do dogma, faltava ultrapassar a dificuldade das liturgias das comunidades separadas. A reforma cedeu, então, o lugar ao reconhecimento: se bem que não contenha as palavras consagratórias, a anáfora assíria (nestoriana) de Addaï e Mari foi decretada válida num documento expressamente aprovado por João Paulo II 51.

A unidade na profissão da fé

13. Em matéria de fé, João Paulo II estima que, muito frequentemente, «as polémicas e as controvérsias intolerantes transformaram em afirmações incompatíveis o que era de facto o resultado de dois olhares perscrutando a mesma realidade, mas de dois pontos de vista diferentes. É preciso encontrar hoje a fórmula que, apreendendo esta realidade integralmente, permita ultrapassar as leituras parciais e eliminar as interpretações erradas» 52. Isto reclama uma certa latitude em relação às fórmulas dogmáticas até aqui empregadas pela Igreja. Recorre-se, portanto, ao relativismo histórico, a fim de tornar as fórmulas dogmáticas dependentes da sua época: «As verdades que a Igreja entende realmente ensinar pelas suas fórmulas dogmáticas são sem dúvida distintas das concepções mutáveis próprias de uma época determinada; mas não se exclui que sejam eventualmente formuladas, mesmo pelo Magistério, em termos que transportem os traços de tais concepções» 53.

14. Duas aplicações destes princípios são citadas com frequência. No caso da heresia nestoriana, João Paulo II estima que «as divisões que se produziram eram devidas em larga medida a mal entendidos» 54. Com efeito, se é claro o princípio afirmando que «em primeiro lugar, perante as formulações doutrinais que se separam das fórmulas em uso na comunidade à qual pertencem, convém manifestamente discernir se as palavras não cobrem um conteúdo idêntico»55, é pervertida a aplicação que dele é feita. É assim que o reconhecimento de fé cristológica da Igreja Assíria do Oriente, sem que lhe tenha sido reclamada a adesão à fórmula de Éfeso, segundo a qual Maria é Mãe de Deus, despreza as condenações anteriores, sem ter em conta a sua característica de infalibilidade 56. Mais característica ainda é a declaração comum com a Federação Luterana Mundial. O seu cuidado não foi afirmar a fé e afastar o erro, mas somente encontrar uma formulação apta a escapar aos anátemas do Concílio de Trento: «Esta declaração comum é apresentada na convicção de que a ultrapassagem das condenações e das questões até então controversas não significa que as separações e as condenações sejam tomadas com ligeireza ou que o passado de cada uma das nossas tradições eclesiais seja desautorizado. É apresentada no entanto na convicção de que novas apreciações acontecem na história das nossas Igrejas» 57. Numa bem simples palavra, o Cardeal Kasper comentará essa declaração: «Ali onde tínhamos visto inicialmente uma contradição, podemos ver uma posição complementar» 58.

A comunhão hierárquica

15. Quanto ao ministério de Pedro, os desejos pontifícios são conhecidos. Encontrar, de concerto com os pastores e teólogos das diferentes Igrejas, «as formas pelas quais este ministério poderá realizar um serviço de amor reconhecido por uns e por outros» 59. Introduzir-se-á, então, o regulador da necessitas Ecclesiae 60, compreendido hoje como realização da unidade dos cristãos, para atenuar o que, no exercício do ministério petrino, poderia ser obstáculo ao ecumenismo.

16. Segundo o Cardeal Kasper, esta diligência não basta. É preciso ainda ultrapassar os obstáculos presentes nas comunidades separadas, por exemplo, a decretada invalidade das ordenações anglicanas 61. A pista que para isso propõe é uma redefinição do conceito de sucessão apostólica, não já «no sentido de uma cadeia histórica de imposição das mãos remontando através dos séculos a um Apóstolo — seria uma visão muito mecânica e individualista», mas como «participação colegial num colégio que, como um todo, remonta aos Apóstolos pela partilha da mesma fé apostólica e pela mesma missão apostólica» 62.

 

Capítulo II

OS PROBLEMAS DOUTRINAIS COLOCADOS PELO ECUMENISMO 63

17. A prática ecuménica deste pontificado repousa inteiramente sobre a distinção Igreja de Cristo / Igreja Católica, a qual permite avançar que, se a comunhão visível foi ferida por divisões eclesiais, a comunhão dos santos, considerada como partilha dos bens espirituais na comum união a Cristo, não foi quebrada. Ora, esta afirmação não se mantém perante a fé católica.

A Igreja de Cristo é a Igreja Católica

18. Nãos se pode distinguir a Igreja de Cristo da Igreja Católica, assim como supõe a prática ecuménica. Pelo próprio facto de ser considerada como realidade interior, essa “Igreja Corpo de Cristo”, distinta realmente da Igreja Católica, junta-se à noção protestante de uma «Igreja invisível para nós, visível só aos olhos de Deus» 64. É contrária aos ensinamentos constantes da Igreja. Leão XIII, falando da Igreja, afirma por exemplo: «é porque [a Igreja] é corpo que ela é visível aos nossos olhares» 65. Pio XI não diz outra coisa: «A Sua Igreja, Cristo Nosso Senhor estabeleceu-a como sociedade perfeita, exterior por natureza e perceptível aos sentidos» 66. Pio XII concluirá então: «É afastar-se da verdade divina imaginar uma Igreja que não se poderá ver nem tocar, que não seria senão “espiritual” (pneumaticum), na qual as numerosas comunidades cristãs, ainda que divididas entre si pela fé, seriam, apesar disso, reunidas por um laço invisível» 67.

19. Ora bem, a fé católica obriga a afirmar a identidade da Igreja de Cristo e da Igreja Católica. É o que faz Pio XII identificando «o Corpo Místico de Jesus Cristo» com «essa verdadeira Igreja de Jesus Cristo — a que é santa, católica, apostólica, romana» 68. Antes dele, o Magistério havia afirmado que «não há outra Igreja além da que, construída exclusivamente sobre Pedro, em um corpo unido e agrupado [entenda-se, visível], se ergue na unidade da fé e da caridade» 69. Recordemos, enfim, a exclamação de Pio IX: «Não há, com efeito, senão uma única religião verdadeira e santa, fundada e instituída por Cristo Nosso Senhor. Mãe e ama das virtudes, destruidora dos vícios, libertadora das almas, indicadora da verdadeira felicidade; chama-se: Católica, Apostólica e Romana» 70. No seguimento de um magistério constante e universal, o 1o esquema preparatório de Vaticano I tinha legitimidade para avançar este cânone condenatório: «Se alguém disser que a Igreja, a quem foram feitas as promessas divinas, não é uma sociedade (coetus) externa e visível de fiéis, mas uma sociedade espiritual de predestinados ou de justos só conhecidos de Deus, seja anátema» 71.

20. Por via de consequência, a proposição do Cardeal Kasper segundo a qual: «A verdadeira natureza da Igreja – a Igreja na qualidade de Corpo de Cristo – está escondida e não é apreendida senão pela fé» 72 é certamente herética. Acrescentar que «essa natureza apreensível unicamente pela fé se actualiza sob formas visíveis: na Palavra proclamada, na administração dos sacramentos, nos ministérios e no serviço cristão» 73 é insuficiente para dar conta da visibilidade da Igreja: “tornar-se visível” — ainda mais, por simples actos — não é “ser visível”.

A pertença à Igreja pela tripla unidade

21. Visto que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, não se pode afirmar com os partidários do ecumenismo que a tripla unidade de fé, de sacramentos e de comunhão hierárquica não é necessária senão unicamente à comunhão visível da Igreja, sendo esta asserção tomada no sentido de que: a ausência de um destes laços, se manifesta ruptura da comunhão visível da Igreja, não significa a separação vital da Igreja. É preciso, pelo contrário, afirmar que estes três laços são constitutivos da unidade da Igreja, não no sentido de que um só uniria à Igreja, mas pelo facto de que se um só destes três laços não for possuído in re vel saltem in voto74, aquele a quem ele faltaria estaria separado da Igreja e não beneficiaria da vida sobrenatural. É o que fé católica obriga a crer, tal como se mostra a seguir.

Unidade de fé

22. Se a necessidade da fé é por todos admitida 75, é necessário ainda precisar a natureza dessa fé que é necessária à salvação, logo, constitutiva da pertença à Igreja. Não é «este sentimento íntimo criado pela necessidade divina», denunciado por São Pio X 76, mas bem essa fé descrita pelo Concílio Vaticano I: «uma virtude sobrenatural pela qual, sob a inspiração e com o socorro da graça de Deus, cremos que o que nos foi revelado por Ele é verdadeiro: nós cremo- lo não por causa da verdade intrínseca das coisas vistas à luz natural da nossa razão, mas por causa da mesma autoridade de Deus que nos revela essas verdades, e que não pode enganar-Se nem enganar-nos» 77. É por isso que aquele que recusa nem que seja só uma verdade de fé conhecida como revelada perde totalmente a fé necessária à salvação: «Aquele que, mesmo sobre um só ponto, recusa o seu assentimento às verdades divinamente reveladas, realmente abdica completamente da fé, pois recusa submeter-se a Deus que é a soberana Verdade e o motivo próprio de fé» 78.

Unidade de governo

23. «A fim de manter sempre na Sua Igreja esta unidade de fé e de doutrina, Ele [Cristo] escolheu um homem entre todos os outros, Pedro...» 79: é assim que Pio IX apresenta a necessidade de unidade na cátedra de Pedro, «dogma da nossa divina religião [que] sempre foi pregado, defendido, afirmado com coração e voz unânimes pelos Padres e Concílios de todos os tempos.» No seguimento dos Padres, o mesmo Papa expõe: «é dela [a cátedra de Pedro] que decorrem, sobre todos os direitos à união divina 80; [...] aquele que a deixa não pode esperar permanecer na Igreja 81, aquele que come o Cordeiro fora dela não tem parte com Deus» 82. Daí a celebra palavra que Santo Agostinho dirige aos cismáticos: «O que é vosso, é que tivestes a impiedade de separar-vos de nós; porque, se em tudo o resto pensais e possuis a verdade, perseverando, apesar disso, na vossa separação [...] não vos falta senão o que falta àquele a quem a caridade faz falta» 83.

 

Unidade de sacramentos

24. «Quem crer e for baptizado será salvo» 84. Por esta palavra de Nosso Senhor, todos reconhecemos a necessidade, além da unidade de fé e de propósito, de uma «comunidade [...] de meios adequados ao propósito» 85 para constituir a unidade da Igreja: os sacramentos. Assim, tal é «a Igreja Católica [que Cristo instituiu], adquirida com o Seu Sangue, como única morada de Deus vivo [...] o corpo único animado e vivificado por um Espírito único, mantido na coesão e na concórdia pela unidade de fé, de esperança e de caridade, pelos laços dos sacramentos, do culto e da doutrina» 86.

 

Conclusão

25. A união deste triplo laço obriga, assim, a crer que «aquele que recusa ouvir a Igreja deve ser considerado, segundo a ordem do Senhor, “como pagão e publicano” (Mt 18,17) e aqueles que estão divididos por razões de fé ou de governo não podem viver nesse mesmo Corpo nem, por consequência, desse mesmo Espírito divino» 87.

 

Fora da Igreja não há salvação

 

Os não católicos são membros da Igreja?

26. Em consequência do que acaba de ser dito, a proposição seguinte: «aqueles [nascidos fora da Igreja Católica, logo, não podendo “ser acusados do pecado de divisão”] que crêem em Cristo e que receberam validamente o baptismo, encontram-se numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja Católica», a ponto de que «justificados pela fé recebida no baptismo, incorporados em Cristo, usam a justo título o nome de cristãos, e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos com razão como filhos do Senhor», enquanto que «divergências várias entre eles e a Igreja Católica sobre questões doutrinais, por vezes disciplinares, ou sobre a estrutura da Igreja, constituem numerosos obstáculos, por vezes muito graves» 88, deve ser cuidadosamente pesada; se essa proposição entende falar daqueles que permanecem nas suas divergências, contudo conhecidas deles mesmos, é contrária à fé católica. O inciso afirmando que «não podem ser acusados de pecado de divisão» é, pelo menos, temerário: permanecendo exteriormente em dissidência, nada indica que não aderem à divisão dos seus predecessores, a aparência levando sobretudo a crer o contrário. Presumir a boa fé não é aqui possível 89, conforme lembra Pio IX: «É necessário admitir de fé que, fora da Igreja Apostólica Romana, ninguém pode ser salvo. [...] No entanto é preciso reconhecer, por outro lado, com certeza, que aqueles que estão em relação à verdadeira religião numa ignorância invencível, não têm falta diante do Senhor. Agora, na verdade, quem irá, na sua presunção, até marcar as fronteiras dessa ignorância?» 90

 

Há elementos de santificação e de verdade nas comunidades separadas?

27. A afirmação segundo a qual «numerosos elementos de santificação e de verdade» 91 se encontram fora da Igreja, é equívoca. Supõe, com efeito, a eficácia santificante dos meios de salvação materialmente presentes nas Comunidades separadas. Ora, este propósito não pode ser afirmado sem distinção. Entre estes elementos, os que não exigem disposição específica da parte do sujeito – baptismo de uma criança – são efectivamente salvíficos, no sentido de que produzem eficazmente a graça na alma do baptizado, que então pertence à Igreja Católica de pleno direito, enquanto não atinge a idade das escolhas pessoais 92. Quanto aos outros elementos, que exigem disposições da parte do sujeito para serem eficazes, deve dizer-se que são salvíficas somente na medida em que o sujeito já é membro da Igreja pelo seu desejo implícito. É o que afirma a doutrina dos concílios. «Ela [a Igreja] professa que a unidade do corpo da Igreja tem tal poder, que os sacramentos da Igreja não tem utilidade em vista da salvação senão para aqueles que nela permanecem» 93. Ora, enquanto separadas, estas comunidades opõe-se ao desejo implícito, único que torna os sacramentos frutuosos. Não se pode dizer, portanto, dessas comunidades, que possuem elementos de santificação e de verdade, senão materialmente.

 

Serve-se o Espírito Santo das comunidades separadas como meios de salvação? As “Igrejas irmãs”

28. Não se pode afirmar que «o Espírito de Cristo não recusa servir-Se delas [das comunidades separadas] como meios de salvação» 94. Com efeito, afirma Santo Agostinho: «Não há senão uma Igreja, só ela chamada católica, e é ela que, nas comunidades separadas da sua unidade, engendra pela virtude o que, nessas seitas, permanece sua propriedade, seja o que for que ela ali possua» 95. A única coisa que estas comunidades separadas podem realizar por sua própria virtude é a separação dessas almas da unidade eclesial, como ainda indica Santo Agostinho: «Não é nada vosso [o baptismo], o que é vosso é que tendes sentimentos maus e práticas sacrílegas, e que tivestes a impiedade de vos separardes de nós» 96. Na medida em que põe em causa a afirmação segundo a qual a Igreja Católica é a única detentora dos meios de salvação, a asserção do documento conciliar está próxima da heresia: se, concedendo-lhes uma «significação e um valor no mistério da salvação» 97, reconhece a essas comunidades separadas uma quase legitimidade – tal como deixa entender a expressão “Igrejas irmãs” 98 — vai num sentido oposto à doutrina católica, porque nega a unicidade da Igreja Católica.

 

O que nos une é maior do que aquilo que nos separa?

29. A proposição permanece verdadeira materialmente, no sentido de que todos estes elementos são outros tantos pontos podendo servir de base a discussões visando a trazê-los para a única família. Se as Comunidades separadas não são formalmente detentoras dos elementos de santificação e de verdade – tal como foi dito mais atrás — a proposição segundo a qual «o que une os católicos aos dissidentes é maior do que aquilo que os separa» não pode ser formalmente verdade, e por isso Santo Agostinho diz: «Em muitos pontos eles estão comigo, somente em alguns não estão comigo; mas por causa destes certos pontos nos quais se separam de mim, não lhes serve de nada estarem comigo em tudo o resto» 99.

 

Conclusão

30. O ecumenismo não pode estar próximo senão da “teoria dos ramos”100 condenada pelo Magistério: «O seu fundamento [...] é tal que inverte de cima a baixo a constituição divina da Igreja» e a sua oração pela unidade, segundo «uma intenção profundamente manchada e infectada pela heresia, não pode ser absolutamente tolerada» 101.

 

Capítulo III - OS PROBLEMAS PASTORAIS CAUSADOS PELO ECUMENISMO

31. Além do facto de se apoiar em teses heterodoxas, o ecumenismo é nocivo para as almas, no sentido em que relativiza a fé católica, contudo indispensável à salvação, e perverte a Igreja Católica, única arca de salvação. A Igrejas Católica não age mais como farol da verdade que ilumina os corações e dissipa o erro, mas mergulha a humanidade na bruma do indiferentismo religioso, e em breve nas trevas da «apostasia silenciosa» 102.

 

O ecumenismo cria o relativismo da fé

 

Relativisa as fracturas operadas pelos heréticos

32. O diálogo ecuménico encobre o pecado contra a fé que o herético comete – razão formal da ruptura – para realçar o pecado contra a caridade, arbitrariamente imputado tanto ao herético como ao filho da Igreja. Chega, por fim, a negar o pecado contra a fé que constitui a heresia. É assim que João Paulo II, sobre a heresia monofisita, afirma: «As divisões que se produziram eram devidas em larga medida a mal-entendidos» 103, acrescentando: «As formulações doutrinais que se separam das fórmulas em uso [...] cobrem um conteúdo idêntico» 104. Tais afirmações negam na mesma proporção o Magistério, não obstante infalível, que condenou essas heresias.

 

Pretende que a fé da Igreja pode ser aperfeiçoada pelas “riquezas” do outro

33. Mesmo se o Concílio Vaticano II precisa, ainda que em termos bem moderados, a natureza do “enriquecimento” trazido pelo diálogo — «um conhecimento mais conforme à verdade, ao mesmo tempo que uma consideração mais justa do ensinamento e da vida de cada comunhão» 105 — a prática ecuménica deste pontificado deforma esta afirmação para fazer dela um enriquecimento da fé. A Igreja abandona um olhar parcial para apreender a realidade integralmente: «As polémicas e as controvérsias intolerantes transformaram em afirmações incompatíveis o que era de facto o resultado de dois olhares perscrutando a mesma realidade, mas de dois pontos de vista diferentes. É preciso encontrar hoje a fórmula que, apreendendo essa realidade integralmente, permite ultrapassar leituras parciais e eliminar interpretações erradas» 106. É assim que «a troca de dons entre Igrejas, na sua complementaridade, torna fecunda a comunhão» 107. Tais afirmações, se pressupõem que a Igreja não é definitivamente e integralmente depositária do tesouro da fé, não são conformes à doutrina tradicional da Igreja. Por isso o Magistério alertava contra essa falsa valorização das supostas riquezas do outro: «Regressando à Igreja, não perderão nada do bem que, pela graça de Deus, é realizado neles até ao presente, mas pelo seu regresso esse bem será mais (potius) completo e levado à perfeição. Evitar-se-á, todavia, falar sobre este ponto de tal maneira que, regressando à Igreja, eles imaginem trazer-lhe um elemento essencial que lhe teria faltado até aqui» 108.

 

Relativisa a adesão a certos dados da fé

34. A suposta «hierarquia das verdades da doutrina católica» 109 é certamente bem restabelecida teologicamente pela Congregação para a Doutrina da Fé: ela «significa que certos dogmas têm a sua razão de ser em outros que ocupam o primeiro lugar e os esclarecem. Mas todos os dogmas, pois que são revelados, devem igualmente ser cridos de fé divina» 110. No entanto, a prática ecuménica de João Paulo II liberta-se desta interpretação autêntica. Por exemplo, na sua mensagem à “Igreja” evangélica, sublinha “o que importa”: «Sabeis que, durante dezenas de anos, a minha vida foi marcada pela experiência dos desafios lançados ao cristianismo pelo ateísmo e pela incredulidade. Tenho tanto mais claramente diante dos olhos o que importa: a nossa comum profissão de Jesus Cristo. [...] Jesus é a salvação de nós todos. [...] Pela força do Espírito Santo, tornamo-nos seus irmãos, verdadeiramente e essencialmente filhos de Deus. [...] Graças à reflexão sobre a Confissão de Augsburgo e a múltiplos encontros, tomámos uma nova consciência do facto que juntos cremos e professamos tudo isso» 111. Leão XIII condena este tipo de prática ecuménica, que encontra o seu apogeu na Declaração sobre a Justificação: «Sustentam que é oportuno, para ganhar os corações dos desencaminhados, relativizar certos pontos de doutrina como sendo de menor importância, ou de os atenuar ao ponto de não lhes deixar o sentido ao qual a Igreja sempre se ateve. Não há necessidade de longos discursos para mostrar quanto é condenável uma tal concepção» 112.

 

Promove a “reforma permanente” das fórmulas de fé

35. A latitude que a prática ecuménica se atribui com as fórmulas dogmáticas já foi dita. Falta mostrar a importância deste procedimento no processo ecuménico: «O aprofundamento da comunhão numa reforma constante, realizado à luz da Tradição apostólica, é sem dúvida um dos traços distintivos mais importantes do ecumenismo. [...] O decreto sobre o ecumenismo (UR no 6) apresenta a maneira de formular a doutrina entre os elementos de reforma permanente» 113. Tal procedimento foi condenado por Pio XII: «Alguns entendem reduzir o mais possível a significação dos dogmas e libertar o próprio dogma da maneira de se exprimir em uso na Igreja desde hás longo tempo, e dos conceitos filosóficos em vigor entre os doutores católicos. [...] É claro [...] que estas tentativas não somente conduzem ao que eles chamam “relativismo” dogmático, mas já o contém de facto. [...] Decerto, não há ninguém que não veja que os termos para exprimir tais noções, e que são utilizados tanto nas escolas [teológicas] como pelo próprio Magistério da Igreja, podem ser melhorados e aperfeiçoados. [...] É igualmente claro que a Igreja não se pode ligar a qualquer sistema filosófico, cujo reinado só dura pouco tempo: mas o que durante séculos foi estabelecido pelo consentimento comum dos doutores católicos para chegar a uma certa compreensão do dogma, não repousa certamente sobre um fundamento tão frágil. [...] Por isso não é de espantar se certas destas noções não foram apenas usadas pelos concílios ecuménicos, mas igualmente foram por eles sancionadas, de modo que não é permitido afastar-se delas» 114.

 

Recusa ensinar sem ambiguidade o conteúdo integral da fé católica

36. O postulado ecuménico segundo o qual «o método e a maneira de exprimir a fé católica não devem de modo nenhum ser obstáculo ao diálogo com os irmãos» 115 teve como resultado declarações comuns assinadas solenemente, mas equívocas e ambivalentes. Na Declaração Comum sobre a Justificação, por exemplo, nunca é claramente ensinada a infusão da graça santificante 116 na alma do justo; a única frase aludindo-lhe, das mais desastradas, pode até levar a crer o contrário: «A graça santificante não se torna nunca uma posse da pessoa da qual esta última se poderia reclamar ante Deus» 117. Tais práticas não respeitam mais o dever de expor integralmente e sem ambiguidade a fé católica, como “devendo ser crida”: «A doutrina católica deve ser proposta totalmente e integralmente; não pode passar em silêncio ou encobrir em termos ambíguos o que a verdade católica ensina sobre a verdadeira natureza e as etapas da justificação, sobre a constituição da Igreja, sobre o primado de jurisdição do Pontífice Romano, sobre a única verdadeira união pelo regresso dos cristãos separados à única verdadeira Igreja de Cristo» 118.

 

Coloca em pé de igualdade os santos autênticos e os “santos” supostos

37. Publicando um martirológio comum às diferentes confissões cristãs, João Paulo II põe em pé de igualdade os santos autênticos e os “santos” supostos. É esquecer a frase de Santo Agostinho: «Se, permanecendo separado da Igreja, é perseguido por um inimigo de Cristo [...] e que o inimigo de Cristo diz ao separado da Igreja de Cristo: “Oferece incenso aos ídolos, adora os meus deuses”, e o mata porque ele não os adora, poderá derramar o seu sangue, mas não receber a coroa» 119. Se a Igreja deseja piedosamente que o irmão separado morto por Cristo tivesse a caridade perfeita, não o pode afirmar. No seu direito, presume que o “obex”, o obstáculo da separação visível, tenha sido um obstáculo ao acto de caridade perfeita que constitui o martírio. Não pode, assim, canonizá-lo nem inscrevê-lo no martirológio 120.

 

Provoca, portanto, a perda da fé

38. Relativista, evolucionista e ambíguo, este ecumenismo provoca directamente a perda da fé. A sua primeira vítima é o Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Cardeal Kasper, ele mesmo, quando afirma, por exemplo, sobre a justificação, que «o nosso valor pessoal não depende das nossas obras, quer sejam boas ou más. Antes mesmo de agir, somos aceites e recebemos o “sim” de Deus» 121; ou ainda, a propósito da Missa e do sacerdócio, que «não é o padre que opera a transubstanciação: o padre pede ao Pai, a fim de que ela tenha lugar por operação do Espírito Santo. [...] A necessidade do ministério ordenado é um sinal que sugere e faz também apreciar a gratuitidade do sacramento eucarístico» 122.

 

O ecumenismo afasta da Igreja

39. Além de destruir a fé católica, o ecumenismo ainda desvia da Igreja os heréticos, os cismáticos e os infiéis.

 

Já não reclama a conversão dos heréticos e cismáticos

40. O movimento ecuménico já não procura a sua conversão e o seu regresso à «única família de Cristo, fora da qual se encontra certamente todo aquele não está em nada ligado a esta Santa Cátedra de Pedro» 123. Tal está claramente afirmado: «Nós rejeitamo-lo [o uniatismo] como método de procura da unidade. [...] A acção pastoral da Igreja Católica, tanto a Latina como a Oriental, já não tende a fazer passar os fiéis de uma Igreja para outra» 124. Daí a supressão da cerimónia de abjuração no caso de regresso de um herético à Igreja Católica. O Cardeal Kasper vai muito longe neste tipo de afirmações: «O ecumenismo não se faz renunciando à nossa própria tradição de fé. Nenhuma Igreja pode praticar essa renúncia» 125. Acrescenta ainda: «Podemos descrever o “ethos” próprio do ecumenismo de vida da maneira seguinte: renúncia a toda a forma de proselitismo aberto ou camuflado» 126. Tudo isso é radicalmente oposto à prática constante dos Papas através dos séculos, que sempre trabalharam pelo regresso dos dissidentes à única Igreja 127.

 

Cria igualitarismo entre as confissões cristãs

41. A prática ecuménica engendra um igualitarismo entre os católicos e outros cristãos, quando, por exemplo, João Paulo II se regozija com o facto de que «à expressão irmãos separados, o uso tende a substituir hoje termos mais aptos a evocar a profundidade da comunhão ligada ao carácter baptismal. [...] A consciência da pertença comum a Cristo aprofunda-se. [...] A “fraternidade universal” dos cristãos tornou-se uma firme convicção ecumênica» 128. Mais ainda, é a própria Igreja Católica que, praticamente, é colocada em pé de igualdade com as Comunidades separadas: já mencionámos a expressão “Igrejas irmãs”; João Paulo II regozija-se igualmente que «o Directório para a Aplicação dos Princípios e das Normas sobre o Ecumenismo chame as Comunidades às quais pertencem os cristãos das “Igrejas e Comunidades eclesiais que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica.” [...] Relegando para o olvido as excomunhões do passado, as Comunidades, rivais numa época, ajudam-se hoje mutuamente» 129. Regozijar-se com isso, é esquecer que «reconhecer a qualidade de Igreja ao cisma de Photius e ao Anglicanismo [...] favorece o indiferentismo religioso [...] e pára a conversão dos não católicos à verdadeira e única Igreja» 130.

 

Humilha a Igreja e torna orgulhosos os dissidentes

42. A prática ecuménica dos arrependimentos dissuade os infiéis de se voltarem para a Igreja Católica, dada a falsa imagem que esta dá de si própria. Se é possível levar diante de Deus a falta daqueles que nos precederam 131, em compensação, a prática dos arrependimentos, tal como a conhecemos, deixa crer que é a Igreja Católica, enquanto tal, que é pecadora, pois é ela que pede perdão. O primeiro a crê-lo é o Cardeal Kasper: «[O Concílio Vaticano II] reconheceu que a Igreja Católica tinha uma responsabilidade na divisão dos cristãos e sublinhou que o restabelecimento da unidade supunha uma conversão de uns e outros ao Senhor» 132. Os textos justificativos, portanto, não fazem nada: a nota eclesial de santidade, tão poderosa para atrair as almas perdidas ao único lar, foi denegrida. Portanto, estes arrependimentos são gravemente imprudentes, porque humilham a Igreja Católica e provocam o orgulho nos dissidentes. Daí o alerta do Santo Ofício: «[Os bispos] impedirão cuidadosamente e com real insistência que, expondo a história da Reforma e dos Reformadores, muito se exagerem os defeitos dos Católicos e muito se dissimulem as faltas dos Reformadores, ou ainda que muito se exponham sobretudo elementos acidentais, que quase não se veja e não se sinta mais o que é essencial, a defecção da fé católica» 133DC no 1064, 12/3/950. col. 332.

 

Conclusão

43. Considerado sob o aspecto pastoral, deve dizer-se do ecumenismo destas últimas décadas que leva os católicos à apostasia silenciosa e que dissuade os não católicos de entrar na única arca de salvação. É preciso, portanto, reprovar «a impiedade daqueles que fecham aos homens a entrada no Reino dos Céus» 134. Sob cobertura de procurar a unidade, este ecumenismo dispersa as ovelhas; não tem a marca de Cristo, mas a do divisor por excelência, o diabo.

CONCLUSÃO GERAL

44. Por mais atraente que possa parecer à primeira vista, por mais espectaculares que possam mostrar-se na televisão as suas cerimónias, por mais numerosas que possam ser as multidões que reúne, a realidade permanece: o ecumenismo fez da cidade santa, que é a Igreja, uma cidade em ruínas. Marchando em perseguição de uma utopia – a unidade do género humano – este Papa não averiguou quanto o ecumenismo que perseguia era propriamente e tristemente revolucionário: inverte a ordem querida por Deus.

45. Revolucionário é, afirma-se revolucionário. Fica-se impressionado pela sucessão de textos que o lembram: «O aprofundamento da comunhão numa reforma constante [...] é sem dúvida um dos traços distintivos mais importantes do ecumenismo»135. «Retomando a ideia que o Papa João XXIII tinha exprimido na abertura do concílio, o decreto sobre o ecumenismo faz figurar a maneira de reformular a doutrina entre os elementos da reforma permanente»136. Por momentos, esta afirmação adorna-se com unção eclesiástica para se tornar “conversão”. Na ocorrência, a diferença importa pouco. Nos dois casos, é rejeitado o que preexiste: «“Convertei-vos”. Não há nenhuma aproximação ecuménica sem conversão e sem renovação. Não a conversão de uma confissão a outra. [...] Todos devem converter-se. Não devemos, portanto, perguntar primeiro “o que não está bem no outro”, mas “o que não está bem entre nós; por onde começar, entre nós, o trabalho?»137. O apelo ao povo que este ecumenismo reclama, é traço característico do seu aspecto revolucionário: «Na acção ecuménica, os fiéis da Igreja Católica [...] considerarão sobretudo com lealdade e atenção o que, na própria família católica, tem necessidade de ser renovado»138. Sim, verdadeiramente, nesta embriaguez de aggiornamento, a cabeça tem necessidade de ser ultrapassada pelos membros: «O movimento ecuménico é um processo um pouco complexo, e seria erro pensar, do lado católico, que tudo seja feito por Roma. [...] As instituições, os desafios devem também vir das Igrejas locais, e muito deve ser feito no nível local antes que a Igreja universal o faça seu»139.

46. Nestas tristes circunstâncias, como não ouvir o grito do Anjo em Fátima: «Penitência! Penitência! Penitência!»? Nesta marcha utópica, a meia volta deve ser radical. É urgente regressar à sábia experiência da Igreja, sintetizada aqui pelo Papa Pio XI: «A união dos cristãos não pode ser procurada de outro modo senão favorecendo o regresso dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, que outrora tiveram a infelicidade de abandonar»140. Tal é a verdadeira e caridosa pastoral para os desencaminhados, tal deve ser a oração da Igreja. «Desejamos que suba até Deus a súplica comum de todo o Corpo Místico (isto é, de toda a Igreja Católica], a fim de que todas as ovelhas errantes se reúnam mais brevemente ao único lar de Jesus Cristo» 141.

47. Esperando a hora feliz do regresso à razão, pela nossa parte guardamos o sábio aviso e a firme sabedoria recebidos do nosso fundador: «Queremos estar em unidade perfeita com o Santo Padre, mas na unidade da fé católica, porque só esta unidade nos pode reunir, e não uma espécie de união ecuménica, um género de ecumenismo liberal; porque creio que o que melhor define toda a crise da Igreja é, verdadeiramente, o espírito ecuménico liberal. Digo ecumenismo liberal, porque há um certo ecumenismo que, se bem definido, poderia ser aceitável. Mas o ecumenismo liberal, tal como é praticado pela Igreja actual, e sobretudo depois do Concílio Vaticano II, comporta necessariamente verdadeiras heresias» 142. Fazendo também subir a nossa súplica ao Céu, imploramos a Cristo pelo Seu Corpo que é a Igreja Católica, dizendo: «Salvum me fac, Domine, quoniam defecit sanctus, quoniam diminutae sunt veritatis a filiis hominum. Vana locuti sunt unusquisque ad proximum suum: labia dolosa in corde et corde locuti sunt. Disperdat Dominus universa labia dolosa et linguam magniloquam» 143.

 

  1. 1. João Paulo II, Alocução ao Secretariado para a Unidade dos Cristãos, 18/1/78, La documentation catholique (DC) no 1753, 3/12/978, p. 107.
  2. 2. João Paulo II, Angelus, 17/1/982, DC no 1823, 7/2/982, p. 144.
  3. 3. João Paulo II, 1a Mensagem ao Mundo, 17/10/978, DC no1751, 5/11/978, p. 902-903.
  4. 4. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lúmen Gentium, no 1.
  5. 5. João Paulo II, 1a Mensagem ao Mundo, 17/10/978, DC no1751, 5/11/978, p. 903.
  6. 6. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 124. Cf. João Paulo II, Ut unum sint, no42: «As celebrações ecuménicas estão entre os acontecimentos mais importantes das minhas viagens apostólicas às diferentes partes do mundo.»
  7. 7. João Paulo II, Homilia na abertura da Porta Santa em São Paulo Extra-muros, 18/1/2000, DC no 2219, 6/2/2000, p. 106: «A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos começa hoje em Roma com a celebração que nos reúne. Quis que coincida com a abertura da Porta Santa nesta basílica consagrada ao Apóstolo das Nações, para sublinhar a dimensão ecuménica que deve caracterizar o Ano Jubilar 2000.»
  8. 8. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 34.
  9. 9. João Paulo II, Redemptor hominis, no 1.
  10. 10. João Paulo II, Homilia pronunciada na presença do Patriarca Ecumênico de Constantinopla Dimitrios I, 29/11/979, Istambul, DC no 1776, 16/12/979, p. 1056.
  11. 11. João Paulo II, Mensagem para o XV Encontro Internacional de Oração pela Paz, DC no 2255, 7/10/2001, p. 818.
  12. 12. João Paulo II, Ecclesia in Europa, no7, DC no 2296, 20/7/2003, p. 670-671.
  13. 13. João Paulo II, Ecclesia in Europa, nos 7 e 9, DC no 2296, 20/7/2003, p. 671-672.
  14. 14. João Paulo II, A Situação do Mundo e o Espírito de Assis, discurso aos cardeais e à Cúria, 22/12/986, DC no 1933, 1/2/987, p. 134.
  15. 15. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 6.
  16. 16. João Paulo II, Redemptor Hominis, no 13.
  17. 17. João Paulo II, Mensagem aos Povos da Ásia, 21/2/981, DC no 1804, 15/3/981, p. 281.
  18. 18. João Paulo II, A Situação do Mundo e o Espírito de Assis, discurso aos cardeais e à Cúria, 22/12/986, DC no 1933, 1/2/987, p. 134.
  19. 19. João Paulo II, ibid.
  20. 20. João Paulo II, ibid., p. 133.
  21. 21. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 6.
  22. 22. João Paulo II, Ut unum sint, no 42: «O uso tende hoje a substituir termos mais aptos a exprimir a profundidade da comunhão – ligada ao carácter baptismal – que o Espírito alimenta apesar das rupturas históricas e canónicas.»
  23. 23. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3: «Entre os elementos ou os bens pelo conjunto dos quais a Igreja se constrói e é vivificada, vários e mesmo muitos, e de grande valor, podem existir fora dos limites visíveis da única Igreja Católica. [...] Tudo isso, que provém de Cristo e a Ele conduz, pertence de direito à Igreja de Cristo». É em razão desta afirmação que LG no 8 diz da Igreja de Cristo que ela “subsiste na” Igreja Católica, e não que “é” a Igreja Católica. Cf. comentário do Cardeal Ratzinger, A Eclesiologia da Constituição Conciliar Lumen Gentium, conferência de 27/2/2000, DC no 2223, 2/4/2000, p. 310-311: «Com essa expressão, o Concílio afasta-se da fórmula de Pio XII, que tinha dito na sua Encíclica Mystici Corporis: a Igreja Católica “é” (est, em latim) o único corpo místico de Cristo. [...] A diferença entre “subsistit” e “est” encerra o drama da divisão eclesial. Se bem que a Igreja seja somente uma e subsista num único sujeito, existem realidades eclesiais fora desse sujeito: verdadeiras Igrejas locais e diversas Comunidades eclesiais.»
  24. 24. Esta afirmação decorre directamente da maneira como Lumen Gentium (no 7 e 8) apresenta a Igreja. Até então, o Magistério deduzia-a da analogia Paulina, segundo a qual a Igreja é o Corpo de Cristo; corpo, logo visível: «Porque é um corpo, a Igreja é visível aos nossos olhos» (Leão XIII, Satis cognitum, DzH 3300). Ora o Concílio recusa fazer esta ligação: trata separadamente da Igreja Corpo de Cristo (LG, no 7) e da visibilidade da Igreja Católica (LG, no 8). É deixar entender que a Igreja Corpo de Cristo [a Igreja de Cristo] não é por si qualquer coisa de visível. Decerto, LG no 8 afirma a união necessária da Igreja de Cristo e da Igreja orgânica: «A sociedade dotada de órgãos hierárquicos [Igreja Católica] e o Corpo místico de Cristo [Igreja de Cristo], a assembleia visível [Igreja Católica] e a comunidade espiritual [Igreja de Cristo], a Igreja da terra [Igreja Católica] e a Igreja tão rica em bens celestes [Igreja de Cristo], não devem ser consideradas como duas realidades, mas formam uma única realidade complexa.» Mas esta afirmação não é suficiente: a união de duas coisas distintas — a Igreja de Cristo e a Igreja orgânica — não é a afirmação da unidade própria da Igreja. Esta unidade é, pelo contrário, recusada, quando é dito da Igreja de Cristo que ela «subsiste na Igreja Católica»: a relação entre continente e conteúdo não é a de identidade, sobretudo quando se afirma que a Igreja de Cristo se torna presente de maneira activa fora do conteúdo perfeito que é a Igreja Católica. Em consequência desta afirmação e na sequência de LG no 15, João Paulo II afirma com frequência que o baptizado, qualquer que seja a sua pertença eclesial, é e permanece unido a Cristo, incorporado n’Ele. Esta teoria afirmando a interioridade da Igreja de Cristo está de tal modo espalhada, que cardeais tão diferentes como J. Ratzinger e W. Kasper a lembram como uma evidência: «“A Igreja reanima-se nas almas”: esta frase de Guardini foi longamente amadurecida. Com efeito, mostra que a Igreja era finalmente reconhecida e vivida como qualquer coisa de interior, que não existe diante de nós como uma instituição qualquer, mas que vive em nós mesmos. Se, até então, a Igreja tinha sido considerada, antes de tudo, como uma estrutura e uma organização, tomou-se finalmente consciência que nós mesmos éramos a Igreja. Ela era muito mais do que uma organização: ela era o organismo do Espírito Santo, qualquer coisa de vital, que nos agarra na nossa intimidade. Esta nova consciência da Igreja encontrou a sua expressão linguística no conceito de “corpo místico de Cristo”» (J. Ratzinger, A Eclesiologia do Vaticano II, conferência de 15/9/2001, na ocasião do Congresso Pastoral da Diocese de Aversa); «A verdadeira natureza da Igreja — a Igreja enquanto Corpo de Cristo — está escondida, e não é perceptível senão pela fé. Mas essa natureza, perceptível unicamente pela fé, actualiza-se sob formas visíveis» (W. Kasper, O Compromisso Ecuménico da Igreja Católica, conferência de 23/3/02 à Assembleia- geral da Federação Protestante de França, Ecumenismo Informações no 325, 5/2002 e 326, 6/2002.
  25. 25. “Pelo menos”: Karol Wojtyla foi, com efeito, muito mais longe, no retiro que pregou no Vaticano quando ainda era cardeal: «Deus de majestade infinita! O trapista ou o cartuxo confessam este Deus com uma vida de total silêncio. É para Ele que se volta o beduíno no deserto quando chega a hora da prece. E o monge budista concentra-se na sua contemplação que purifica o seu espírito orientando-o para o Nirvana: mas é somente o Nirvana? [...] A Igreja do Deus vivo reúne justamente nela essas gentes que de alguma maneira participam nessa transcendência simultaneamente admirável e fundamental do espírito humano» (Karol Wojtyla, O Sinal de Contradição, Ed. Fayard 1979, p. 31-32.
  26. 26. João Paulo II, Ut unum sint, no 42.
  27. 27. João Paulo II, ibid.
  28. 28. João Paulo II, Ut unum sint, no 9.
  29. 29. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre certos aspectos da Igreja compreendida como Comunhão, no 6, DC no 2055, 2/8/992, p. 730.
  30. 30. Cf. Directiva para Aplicação dos Princípios e das Normas sobre o Ecumenismo (aprovada por João Paulo II em 25/3/993), no 13, DC no 2075, 4/7/993, p. 611.
  31. 31. João Paulo II, Ut unum sint, no 11.
  32. 32. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3: «Os que crêem em Cristo e receberam o baptismo validamente, encontram-se numa certa comunhão, bem que imperfeita, com a Igreja Católica. Seguramente, divergências várias entre eles e a Igreja Católica sobre questões doutrinais, por vezes disciplinares, ou sobre a estrutura da Igreja, constituem numerosos obstáculos, por vezes muito graves, à plena comunhão eclesial. O movimento ecuménico tende a ultrapassá-los.» Eis o que respeita à comunhão visível parcialmente rompida; mas o decreto acrescenta logo, para mostrar a permanência da comunhão invisível: «Não obstante, justificados pela fé recebida no baptismo, incorporados em Cristo, têm a justo título o nome de cristãos, e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos com justiça como irmãos no Senhor. [...] Do mesmo modo, entre os nossos irmãos separados efectuam-se muitas acções sagradas da religião cristã que, de maneiras diferentes segundo a situação diversa de cada Igreja ou comunidade, podem certamente produzir efectivamente a vida da graça, e deve-se reconhecer que elas dão acesso à comunhão da salvação.»
  33. 33. Cf. João Paulo II, Ut unum sint, no 56, 57 e 60; Alocução na Basílica São Nicolau de Bari, 26/2/984, DC no 1872, 15/4/984, p. 414; Declaração Cristológica Comum entre a Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC no 2106, 18/12/994. p. 1070; Homilia na Presença do Patriarca Ecuménico de Constantinopla Dimitrios I, Istambul, 29/11/979, DC no 1776, 16/12/979, p. 1056: «Convido-vos a rezar com fervor pela plena comunhão das nossas Igrejas. [...] Suplicai ao Senhor para que nós mesmos, pastores das Igrejas irmãs, sejamos os melhores instrumentos nesta hora da História, para reger estas Igrejas, quer dizer, para as servir como quer o Senhor, e servir assim a única Igreja que é Seu Corpo.»
  34. 34. Cf. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 16.
  35. 35. João Paulo II, Discurso à Delegação da Federação Luterana Mundial, 9/12/1999, DC no 2219, 6/2/2000, p. 109.
  36. 36. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lúmen Gentium, no 8; Dec. Unitatis redintegratio, no 4; Decl. Dignitatis humanae, no 1.
  37. 37. Cardeal Ratzinger, conferência A Eclesiologia da Constituição Conciliar Lumen Gentium, 27/2/2000, DC no 2223, 2/4/2000, p. 311.
  38. 38. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3; João Paulo II, Ut unum sint, no 11.
  39. 39. João Paulo II, Tertio millennio adveniente, no 37.
  40. 40. João Paulo II, Ut unum sint, no 77.
  41. 41. Entende-se por “ecumenismo de regresso” o lembrado por Pio XI na Encic. Mortalium animos: «levar ao regresso dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, da qual tiveram outrora a infelicidade de se separar. O regresso à única verdadeira Igreja, dizemos Nós, bem visível a todos os olhares.»
  42. 42. Declaração da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, 23/6/993, dita “de Balamand”, no 2 e 22, DC no 2077, 1-15/8/93. p. 713. Esta citação não respeita senão ao uniatismo, mas o Cardeal Kasper usará fórmulas sistemáticas: «O velho conceito de ecumenismo de regresso foi hoje substituído pelo de itinerário comum, que dirige os cristãos para o objectivo da comunhão eclesial, compreendida como unidade na diversidade reconciliada» (W. Kasper, A Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 167).
  43. 43. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3: «Apareceram certas cisões, [...] nasceram dissenções mais graves, [...] por vezes pela falta de pessoas de uma ou de outra parte». Daí, a natureza da conversão reclamada por UR, no 7: «Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Com efeito, é da renovação da alma, da renúncia a si mesmo e de uma livre efusão da caridade que partem e amadurecem os desejos da unidade.» Cf. Cardeal Kasper, Conferência na Kirchentag Ecuménica de Berlim, Convertei-vos, DC no 2298, 7- 21/9/2003: «Não existe nenhuma reconciliação ecuménica sem conversão e sem renovação. Não a conversão de uma confissão a outra. Estas podem existir em casos particulares, e se é por razões de consciência, isso merece respeito e consideração. Mas não há só os outros a dever converterem-se; a conversão começa por si próprio. Todos devem converter-se. Não podemos, portanto, perguntar primeiro: “O que não está bem no outro?” Mas: O que não está bem em nós; por onde começar, entre nós, a arrumação”?»
  44. 44. João Paulo II, Ut unum sint, no 11, cf. no 34.
  45. 45. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, no 13 ; cf. João Paulo II, Ut unum sint, no 28.
  46. 46. João Paulo II, Ut unum sint. No 57.
  47. 47. João Paulo II, Alocução na Basílica São Nicolau de Bari, 26/72/984, na presença do Metropolita de Mire, Constantinidis (Patriarca de Constantinopla), DC no 1872, 15/4/984, p. 414.
  48. 48. Ibid.
  49. 49. João Paulo II, Angelus, 17/1/982, DC no 1823, 7/2/982. p. 144.
  50. 50. A. Bugnini, Modificações das Orações Solenes de Sexta-feira Santa, DC no 1445, 4/3/965, col. 603. Cf. G. Celier, A Dimensão Ecuménica da Reforma Litúrgica, Ed. Fideliter, 1987, p. 34.
  51. 51. Cf. o Osservatore Romano, ed. em italiano, 26/10/2001. Admissão à Eucaristia entre a Igreja Caldaica e a Igreja Assíria do Oriente, Nota e Orientações do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, DC no 2265, 3/3/2002, p. 214.
  52. 52. João Paulo II, Ut unum sint, no 38.
  53. 53. João Paulo II, citando em Ut unum sint, no 38, a Declaração Mysterium Ecclesiae da Congregação para a Doutrina da Fé (DC no 1636, 15/7/973, p. 267).
  54. 54. Declaração Cristológica Comum entre a Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC no 2106, 18/12/994, p. 1069.
  55. 55. João Paulo II, Ut unum sint, no 38.
  56. 56. DC no 2106, 18/12/994, p. 1069. Cf. DzH, no 251d e 252.
  57. 57. Declaração Comum da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica, no 7 (cf. no 5, 13, 40 a 42), DC no 2168, 19/10/997, p. 875.
  58. 58. W. Kasper, A Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 172
  59. 59. João Paulo II, Ut unum sint, no 95.
  60. 60. O Primado do Sucessor de Pedro no Mistério da Igreja, reflexões da Congregação para a Doutrina da Fé, DC no 2193, 6/12/998, p. 1018.
  61. 61. Leão XIII, Carta Apostólica Apostolicae Ecurae, 13/9/1896.
  62. 62. W. Kasper, Podem Todos Ser Um? Mas Como? Uma Visão da Unidade Cristã para a Próxima Geração, The Tablet, 24/5/2003.
  63. 63. Limitando-nos aqui só à refutação do ecumenismo; não estudaremos o ensinamento de João Paulo II relativo à Redenção cumprida de facto em cada pessoa e em cada povo. Diremos simplesmente que tal proposição é totalmente estranha à fé católica e a ruína de cima a baixo (que se faz, por exemplo, da necessidade do baptismo?).
  64. 64. Calvino, Inst., 1.4, c.4.
  65. 65. Leão XIII, Encic. Satis Cognitum, DzH no 3300 ss.
  66. 66. Pio XI, Encic. Mortalium animos, AAS 20, 1928, p. 8. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, a Igreja, vol. 1, no 1961.
  67. 67. Pio XII, Encic. Mystici Corporis, AAS 35, 1943, p. 199-200. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 2, no 1015.
  68. 68. Pio XII, Encic. Mystici Corporis, Ibid. p. 199. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, a Igreja, vol. 2, no 1014.
  69. 69. Carta do Santo Ofício aos Bispos de Inglaterra, 16/9/1864, DzH no 2888.
  70. 70. Pio IX, Alocução ao Consistório, 18/7/1861, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 230.
  71. 71. 1o Esquema Preparatório do Concílio Vaticano I sobre a Igreja, cânone 4.
  72. 72. W. Kasper, O Compromisso Ecuménico da Igreja Católica, 23/3/2002, conferência à Assembleia-geral da Federação Protestante de França, Ecumenismo Informações no 325, 5/02 e 326, 6/02.
  73. 73. W. Kasper, ibid.
  74. 74. Este triplo laço deve, repitamo-lo, ser possuído, seja de facto, seja ao menos «por um certo desejo ou voto inconsciente» (cf. Pio XII, Mystici Corporis, AAS 35, 1943, p. 243. DzH 3821). Mas a Igreja não é juiz deste desejo. Em matéria jurídica – o que é este caso – a Igreja não pode julgar realidades interiores da consciência de cada um, mas somente o que aparenta: «O estado de espírito e a intenção, porque são coisas interiores, a Igreja não julga; mas tanto como apareçam exteriormente, deve julgá-los» (Leão XIII, Carta Apostólica Apostolicae curae, 13/9/896, sobre a nulidade das ordenações anglicanas, AAS 29, 1896-1897, p. 201. DzH 3318). Desde logo, mesmo se, na sua pastoral, como boa mãe, ela se inclina a esperar a sua pertença “de desejo pelo menos inconsciente” quando deles se aproxima e se encontram em perigo de morte (Dom. M. Prümmer, o.p., Manuale theologiae moralis, T. 1, no 514, 3), no entanto, juridicamente, a Igreja não o presume em tempo normal. Por isso sempre exigiu, ad cautelam, a sua abjuração do cisma ou da heresia quando eles regressam à Igreja Católica (cf. CIC 1917, cân. 2314, § 2). Com mais forte razão, não presume a boa fé dos dissidentes considerados em corpo constituído, em comunidade visivelmente separada da Igreja Católica, tal como a considera o ecumenismo. O que nós dizemos dos três elementos necessários à pertença à Igreja Católica supõe a presunção acima expressa. Querer suprimi-la seria mover-se no incerto e no irreal.
  75. 75. Heb 11, 6: «Sem a fé, é impossível agradar a Deus.»
  76. 76. São Pio X, Pascendi dominici gregis: «A fé, princípio e fundamento de toda a religião, reside num certo sentimento íntimo criado ele mesmo pela necessidade do divino... Tal é, para os modernistas, a fé, e na fé assim entendida, o começo de toda a religião» (Acta S. Pii X 4, 1907, p. 52; p. DzH 3477 não cita integralmente). Esta breve descrição é de comparar com o pensamento de Karol Wojtyla (O Sinal de Contradição, Ed. Fayard, 1979, p. 31-32): «Deus de Majestade infinita! O trapista ou o cartuxo confessa esse Deus com toda uma vida de silêncio. É para Ele que se volta o beduíno peregrinando no deserto quando chega a hora da prece. E esse monge budista concentra-se na sua contemplação que purifica o seu espírito orientando-o para o Nirvana: mas é somente o Nirvana? [....] A Igreja do Deus vivo reúne justamente nela estas gentes que de alguma maneira participam nessa transcendência simultaneamente admirável e fundamental do espírito humano, porque sabe que ninguém pode apaziguar as mais profundas aspirações deste espírito senão só Ele, o Deus de majestade infinita.»
  77. 77. Vaticano I, sess. 3, c. 3, DzH no 3008.
  78. 78. Leão XIII, Encic. Satis cognitum, 29/6/1896, ASS 28, 1895-1896, p. 722. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, a Igreja, vol. 1, no 573.
  79. 79. Pio IX, Encic. Amantissimus, 8/4/1862, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 234, e 234 a 237.
  80. 80. Cf. Santo Ambrósio, epist. 11 ad imperatores.
  81. 81. Cf. São Cipriano, de Unitate Ecclesiae.
  82. 82. Cf. São Jerónimo, epist. 41 ad Damasum.
  83. 83. Santo Agostinho, de baptismo contra donatistas, liv. 1, cap. 14, § 22.
  84. 84. Mc 16, 16.
  85. 85. Leão XIII, Encic. Satis cognitum, ASS 28, 1895-1896, p. 724. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 578.
  86. 86. Pio IX, Encic. Amantissimus, 8/4/1862, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 233.
  87. 87. Pio XII, Mystici Corporis, 29/6/943, AAS 35, 1943, p. 203. DzH 3802.
  88. 88. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3, do qual citamos aqui a passagem completa: «Os que nascem hoje em tais comunidades, e que vivem a fé em Cristo, não podem ser acusados de pecado de divisão, e a Igreja Católica envolve-os de respeito fraternal e de caridade. Com efeito, aqueles que crêem em Cristo e que receberam validamente o baptismo, encontram-se numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja Católica. Seguramente, divergências várias entre eles e a Igreja Católica sobre questões doutrinais, por vezes disciplinares, ou sobre a estrutura da Igreja, constituem numerosos obstáculos, por vezes muito graves, à comunhão eclesial. O movimento ecuménico tende a ultrapassá-los. Não obstante, justificados pela fé recebida no baptismo, incorporados em Cristo, usam a justo título o nome de cristãos, e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos com razão como irmãos no Senhor.»
  89. 89. Cf. acima, nota 73.
  90. 90. Pio IX, alocução Singulari Quadam, 9/12/54, Dz 1647 (antiga numeração; ausente em DzH).
  91. 91. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, no 8.
  92. 92. Bento XIV, Breve Singulari nobis, 9/2/49, DzH no 2566 a 2568.
  93. 93. Concílio de Florença, Bula Cantate Domino, para os jacobitas, DzH 1351.
  94. 94. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3.
  95. 95. Santo Agostinho, De baptismo contra donatistas, liv. 1, cap. 10, no 14.
  96. 96. Santo Agostinho, De baptismo contra donatistas, liv. 1, cap. 14, no 22.
  97. 97. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 3.
  98. 98. Cf. Ratzinger, a Eclesiologia da Constituição Conciliar Lumen Gentium, DC no 2223, 2/4/2000, p. 311. «Se bem que a Igreja seja somente uma e subsiste num único sujeito, existem realidades eclesiais fora deste sujeito: verdadeiras Igrejas locais e diversas Comunidades eclesiais.» É que, efectivamente: «Encontram-se aí elementos essenciais ao ser-Igreja: o anúncio da Palavra de Deus e o baptismo, a presença activa do Espírito Santo, fé, esperança e caridade, formas de santidade até ao martírio. Pode-se falar de uma figuração diferente destes elementos eclesiais constitutivos, de Igrejas de outro género ou de outro tipo.» W. Kasper, O Compromisso Ecuménico da Igreja Católica, conferência, 23/3/2002, à Assembleia-geral da Federação Protestante de França, Ecumenismo Informações no 325, 5/2002, e 326 6/2002.
  99. 99. Santo Agostinho, In Ps. 54, § 19, citado por Leão XIII, Satis cognitum, ASS 28, 1895-1896, p. 724. Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 578.
  100. 100. Carta do Santo Ofício aos Bispos de Inglaterra, 16/9/864. Essa teoria «professa expressamente que três comunidades cristãs, a católica romana, a greco-cismática e a anglicana, se bem que separadas e diversas entre si, reivindicam com o mesmo direito para si mesmas o nome de católica. [...] Pede a todos os seus membros que recitem orações e aos padres que ofereçam sacrifícios segundo a sua intenção: a saber, para que as três comunhões cristãs, como é sugerido, constituam todas juntas a Igreja Católica, reunindo-se, enfim, para formar um único corpo.» DzH 2885 e 2886.
  101. 101. Ibid. DzH no 2886 e 2887.
  102. 102. João Paulo II, Ecclesia in Europa, no 9, DC no 2296, 20/7/2003, p. 668 ss.
  103. 103. Declaração Cristológica Comum entre a Igreja Católica e a Igreja Assíria do Oriente, DC no 2106, 18/12/994, p. 1069.
  104. 104. Ibid.
  105. 105. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 4.
  106. 106. João Paulo II, Ut unum sint, no 38.
  107. 107. João Paulo II, Ut unum sint, no 57. Cf. Cardeal Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 167: «Mostra-se claramente que o fim do diálogo não consiste em fazer mudar o parceiro, mas em reconhecer as nossas próprias faltas e a aprender com o outro. [...] Ali onde no primeiro momento tínhamos visto uma contradição, podemos ver uma posição complementar.»
  108. 108. Congregação do Santo Ofício, Dec. De motione oecumenica, 20/12/49, AAS 42. 1950, p. 144. DC no 1064, 12/3/50, col. 332.
  109. 109. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 11.
  110. 110. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Mysterium Ecclesiae, 24/6/73, DC no 1636, 15/7/73, p. 667.
  111. 111. João Paulo II, Encontro com o Conselho da Igreja Evangélica, 17/11/80, DC no 1798, 21/12/80, p. 1147.
  112. 112. Leão XIII, Encic. Testem benevolentiae, 22/1/899, ASS 31, 1898-1899, p. 471; Actas de Leão XIII, Boa Imprensa, vol. 5, p. 313. Cf. Pio XI, Mortalium animos, AAS 28, 1920, p. 12; DzH no 3683: «Tratando-se de pontos de fé, não é de nenhum modo lícito distinguir de alguma maneira entre os pontos que seriam fundamentais e os que não seriam, devendo os primeiros ser aceites por todos, e os outros podendo ser deixados ao livre assentimento dos crentes; a virtude sobrenatural da fé tem a sua causa formal na autoridade de Deus Revelador, que não tolera nenhuma distinção desse tipo.»
  113. 113. João Paulo II, Ut unum sint, no 17 e 18.
  114. 114. Pio XII, Encic. Humani generis, 12/8/950, ASS 52, 1950, p. 566-567, DzH 3881-83.
  115. 115. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 11; João Paulo II, Ut unum sint, no 36.
  116. 116. Cf. Concílio de Trento, Decreto sobre a Justificação, cap. 7, DzH 1528: «A justificação [que] não é somente remissão dos pecados, mas simultaneamente santificação e renovação do homem interior pela recepção voluntária da graça e dos dons.»
  117. 117. Declaração Comum da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica, no 27, DC no 2168, 19/10/997, p. 875 ss.
  118. 118. Congregação do Santo Ofício, Decreto de 20/12/949, DC no 1064, 12/3/950, col. 330 ss.
  119. 119. Santo Agostinho, Sermão ao Povo de Cesareia, pronunciado perante Emérito, bispo donatista, no 6.
  120. 120. O Papa Bento XIV, no seu admirável De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione, explica assim: se um herético estabelecido na ignorância invencível da verdadeira fé morre por um ponto da doutrina católica, não pode, mesmo nesse caso, ser considerado mártir. Com efeito, será talvez mártir coram Deo, mas não coram Ecclesia, porque a Igreja não julga senão o exterior e a heresia professada publicamente obriga a conjecturar a heresia interna (De servorum, c. 20). Quanto à objecção de Santo Hipólito, mártir e anti-papa (217- 235), ela não vem a propósito. Se o martirológio o menciona na data de 30 de Outubro, dies natalis do Papa Santo Ponciano, é porque Hipólito se reconciliou com Ponciano nas minas da Sardenha, antes que ambos sofressem o martírio em 236.
  121. 121. W. Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 171-172.
  122. 122. W. Kasper, 30 Dias na Igreja e no Mundo, no 5/2003, p. 22.
  123. 123. Pio IX, Encic. Neminem vestrum, 2/2/854, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 219.
  124. 124. Declaração da Comissão Mista para o Diálogo entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, 23/6/993, dita “de Balamand”, no 2 e 22, DC no 2077, 1/8/93, p. 711.
  125. 125. W. Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 167. Cf. W. Kasper, Conferência no Kirchentag Ecuménico de Berlim, DC no 2298, 21/9/2003, p. 817: «Não podemos lançar pela borda fora o que nos trouxe e manteve até ao presente, o que os nossos antepassados viveram, em circunstâncias frequentemente difíceis, e não devemos esperar isso dos nossos irmãos e das nossas irmãs do protestantismo e da ortodoxia. Nem eles nem nós podemos tornar-nos infiéis.»
  126. 126. W. Kasper, O Compromisso Ecuménico da Igreja Católica, conferência de 23/3/2002 à Assembleia-geral da Federação Protestante de França, Ecumenismo Informações no 325, 5/2002, e 326, 6/2002.
  127. 127. Cf., por ex., Pio IX, Carta Jam vos omnes, 13/9/868, p. 131, DZH 2997 a 2999, convidando os protestantes e outros não católicos a aproveitarem a oportunidade do Concílio Vaticano I para regressarem à Igreja Católica; Leão XIII faz o mesmo por ocasião do seu jubileu episcopal, na Carta Praeclara gratulationis, 20/6/894, ASS 26, 1894, p. 705 ss. O texto mais conhecido é, evidentemente, o de Pio XI na Encíclica Mortalium animos, 6/1/928, AAS 20, 1928, p. 14, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 872: «A união dos cristãos não pode ser buscada de outro modo que não seja favorecendo o regresso dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo, que outrora tiveram a infelicidade de abandonar.» Esta prática do “regresso” não é própria do século XIX, mas o grande cuidado dos Papas por esta causa. Com efeito, a prática do “regresso” é constante na Igreja. Em 1595, Clemente VIII dizia, por ex., dos bispos metropolitas de Kiev (Instrução Magnus Dominus, 23/12/595: «Graças à luz do Espírito Santo que iluminou o seu coração, começaram a considerar seriamente que não eram membros do Corpo de Cristo que é a Igreja, pois não estavam ligados à sua cabeça visível, que é o Soberano Pontífice de Roma. Por isso decidiram entrar na Igreja Romana que é sua mãe e de todos os fiéis.»
  128. 128. João Paulo II, Ut unum sint, no 42.
  129. 129. João Paulo II, ibid.
  130. 130. Congregação do Santo Ofício, Carta de 16/9/864, ASS 2, 660.
  131. 131. Lamentações 5, 7: Nossos pais pecaram; já não existem, e nós é que carregamos o peso de suas culpas.
  132. 132. W. Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança, DC no 2220, 20/2/2000, p. 168.
  133. 133. Congregação do Santo Ofício, Instrução de 20/12/949, AAS 42, 1950, p. 144.
  134. 134. 1o Esquema Preparatório do Concílio Vaticano I sobre a Igreja, publicado nos Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 2, p. 8: «Reprovamos a impiedade daqueles que fecham aos homens a entrada no Reino dos Céus, assegurando-lhes sob falsos pretextos que é desonroso e nada necessário à salvação abandonar a religião – mesmo falsa – na qual se nasceu, na qual se foi educado e instruído; e que censuram a própria Igreja por se apresentar como a única religião verdadeira, por proscrever e condenar todas as religiões e seitas separadas da sua comunhão, como se houvesse possibilidade de participação entre a luz e as trevas, de acordo entre Cristo e Belial.»
  135. 135. João Paulo II, Ut unum sint, no 17.
  136. 136. João Paulo II, Ut unum sint, no 18.
  137. 137. W. Kasper, Conferência no Kirchentag Ecuménico de Berlim, DC no 2298, 21/9/2003, p. 820
  138. 138. Conc. Ecum. Vat. II, Dec. Unitatis redintegratio, no 4; cf. todo o no 6.
  139. 139. W. Kasper, Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação: um Motivo de Esperança. DC no 2220, 20/2/2000, p. 167.
  140. 140. Pio XI, Encic. Mortalium animos, 6/1/928, AAS 20, 1928, p. 14, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 872.
  141. 141. Pio XII, Mystici Corporis, AAS 35, 1943, p. 2453, Ensinamentos Pontifícios de Solesmes, A Igreja, vol. 1, no 1105.
  142. 142. Dom Marcel Lefebvre, Conferência de 14/4/78
  143. 143. Salmos 12 (11), 2-4: «Socorro, Senhor! Pois acabaram-se os varões piedosos; desapareceram os leais dentre o homens. Falsidades falam uns aos outros, lábios enganadores falam com coração dúplice. Extirpe o Senhor todos os lábios enganadores, toda a língua que fala com arrogância» ... Relativamente ao último versículo citado, referir-se-á utilmente o comentário que dele faz São João Crisóstomo: (In Sl 11, 1): «Não é nada contra eles que fala, é no seu interesse; não pede a Deus que os perca, mas que ponha fim às suas iniquidades. Com efeito, não diz: “Deus os exterminará”, mas “extirpará todos os lábios enganadores”. Portanto, uma vez mais ainda, não é a sua natureza que [o salmista] deseja ver aniquilada, mas sua linguagem.»

Ecumenismo e "liberdade religiosa"

Agosto 11, 2018 escrito por admin

O fato

O teólogo da Casa Pontifícia, Georges Cottier, disse em uma entrevista a Avvenire (19 de janeiro de 2002) que por trás da rejeição da reforma litúrgica de Paulo VI «se esconde muito mais: a rejeição do Concílio, do ecumenismo, do principio da liberdade religiosa». Não seremos nós quem lhe contradirá; antes, ao contrário, confessamos que identificou muito bem os dois pontos em que se centra a resistência ao Concílio: ecumenismo e “liberdade religiosa”. Acrescentemos que estes dois pontos poderiam reduzir-se a um só, dado que o novo e falso conceito de “liberdade religiosa” se elaborou com vistas ao ecumenismo. Em todo o caso, ecumenismo e “liberdade religiosa” constituem os dois maiores pontos de ruptura com a doutrina tradicional da Igreja, e não seria difícil demonstrar que com eles se conecta qualquer outra “novidade” que vá contra o “antigo” presente nos textos do Concílio, assim como tampouco seria difícil provar que qualquer “novidade” que vá contra a doutrina da Igreja constitui uma corrupção inaceitável dela.

 

Desenvolvimentos e corrupções doutrinais

O Vaticano I declara:

«E, com efeito, a doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta como um achado filosófico que deva ser aperfeiçoado pelo engenho humano, mas sim entregue à Esposa de Cristo como um depósito divino, para ser fielmente guardada e infalivelmente declarada» (Denzinger nº 1800). Por isso não se dá nunca nada substancial e absolutamente novo na doutrina da Igreja. O “novo” que aparece nela em virtude do desenvolvimento ou explicitação doutrinal não passa de uma novidade acidental e relativa. Assim, por exemplo, quando a Igreja fazia rezar pelos fiéis defuntos, já ensinava implicitamente o dogma do purgatório; e, quando desta prática litúrgica se inferiu o dogma do purgatório, deu-se a passagem do ensinamento implícito ao explícito, mas não houve nenhuma “novidade” em sentido próprio. Diga-se o mesmo do primado, implícito na prática do recurso a Roma, ou do dogma da Imaculada Conceição, implícito na maternidade divina de Maria, etc.

A Igreja, com efeito, exerce seu magistério de vários modos:

— de maneira explícita (mediante documentos do magistério, teólogos “aprovados”, catequese, pregação etc.);

— de maneira implícita (mediante a prática, particularmente a litúrgica, e as leis disciplinares).

— de maneira tácita, por fim, mediante os documentos ou “monumentos” da tradição 1, nos quais o magistério da Igreja tomou corpo, por assim dizer, no curso dos séculos: livros litúrgicos, normas disciplinares, instituições, ordens religiosas, igrejas e monumentos, devoções, práticas de caridade, obras de zelo ou de piedade, vida dos Santos canonizados, civilização, costumes, língua e arte dos povos cristãos 2, etc.

Pode suceder que, por diversas circunstâncias (heresias, ofuscamento de uma verdade ensinada só implícita ou tacitamente, etc.), se dê a passagem do magistério implícito ao explícito, ou se faça necessário o retorno ao ensinamento explícito de uma verdade que a Igreja se havia limitado a propor tacitamente por um tempo 3.

Um exemplo do retorno do magistério tácito ao explícito se deu, por exemplo, em relação à Tradição, quando a Igreja definiu a noção exata daquela no Concílio de Trento, contra os protestantes, noção que se havia limitado a propor tacitamente no período escolástico.

Assim, pois, toda a explicitação da doutrina não é mais que «uma maneira de afirmar com mais clareza, com mais precisão, com mais certeza, com mais insistência as verdades reveladas que sempre se creram, ao menos implicitamente» 4. Razão por que, apesar do desenvolvimento doutrinal de vinte séculos, Pio XII podia escrever que a Igreja «cumpre o mandato que tem de conservar sempre puras e íntegras as verdades reveladas, e as transmite sem contaminações, sem acréscimos, sem diminuições» 5. Todo o “novo” que seja irredutível ao “antigo” não é um desenvolvimento, mas uma corrupção da doutrina católica.

  

As “novidades” do Vaticano II

Com o Vaticano II houve uma irrupção de algo “novo” na Igreja. E isto é já de per si uma novidade sem correspondência na história do progresso doutrinal, sempre lento, gradual, ponderado. Trata-se de algo “novo” que, a partir do Concílio e em nome deste, se infiltrou em todas as maneiras em que se expressa o magistério ordinário:

— modo explícito: “novas” doutrinas, “novas” catequeses, “novas” interpretações ou “releituras” dos Padres da Igreja e até da Escritura Sagrada;

— modo implícito: “nova”, ou melhor, “novas” liturgias, “nova” disciplina (se é que a podemos chamar assim), “novas” práticas, e a verdadeira Igreja de Jesus Cristo considerada do mesmo modo que as seitas heréticas e/ou cismáticas, que o hebraísmo e que as religiões falsas;

— modo tácito: a todos os documentos do magistério precedente se desconsidera na medida do possível, destruindo-os ou sepultando-os no esquecimento, enquanto uma “doutrina” nova de alto a baixo vai tomando corpo e fazendo-se sensível ante nossos olhos em “monumentos” inteiramente novos.

Diante de tamanha irrupção de “novidades”, aos católicos lhes cabe o dever perante Deus, e por conseguinte o direito irrenunciável perante os homens, de perguntar-se se estas “novidades” são desenvolvimentos ou corrupções doutrinais, «se a Igreja de hoje — para dizê-lo com o Cardeal Ratzinger — é realmente a de ontem, ou se a mudaram por outra sem fazê-lo saber» 6.

 

O contraste com o “antigo”: índice de corrupção doutrinal

Em tais circunstâncias, os católicos não estão desprovidos em absoluto de um critério objetivo para poder distinguir o desenvolvimento legítimo das corrupções doutrinais.

O critério, acessível a todos, ensinam-no os Padres da Igreja, a unanimidade dos teólogos realmente católicos (quer dizer, que “conhecem as regras da fé” e as respeitam), a prática e o próprio magistério da Igreja.

São Vicente de Lérins escreve em seu Commonitorium (século V), ideado precisamente para encontrar «uma regra certa» que permitisse aos católicos distinguir a verdade do erro em tempos em que «a astúcia dos novos hereges exige uma vigilância e uma atenção cada vez maiores»«Mas se objetará: Não se dará, segundo isso, progresso algum da Religião na Igreja de Cristo? Dê-se em boa hora, e grande. Quem haverá tão mesquinho para com os homens e tão aborrecível a Deus que trate de impedi-lo? Mas de tal maneira, que seja verdadeiro progresso da fé, não uma alteração dela. A saber, é próprio do progresso que cada coisa se amplifique em si mesma; e o próprio da alteração é que algo passe de ser uma coisa a ser outra» (XXIII, 1-3). Depois, comentando a exortação de São Paulo a Timóteo (I Tim 6, 20: «Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as profanas novidades de palavras»), São Vicente de Lérins explica: «Profanas novidades de palavras. De palavras, a saber: as novidades de dogmas, de matérias, de sentenças que são contrárias à antigüidade e ao passado...».(XXIV, 3-4) 7.  

Aí está, pois, a regra: se no âmbito da Igreja desponta algo “novo” contrário ao antigo não é uma verdade tirada de seu tesouro, mas a cizânia do erro semeada pelo inimicus homo (Mt 13, 24-3O) 8. Não cabe dúvida quanto a tal coisa. «Ao antigo é que há que ater-se: se a novidade é profana, a antigüidade é sagrada»; é a novidade a que deve cessar «de fazer recair suspeitas sobre a antigüidade e de formular acusações contra ela»; é a novidade a que há de deixar de «molestar e perseguir a antigüidade», enquanto a fé antiga não deve cessar «de opor-se à novidade com todas as suas forças» 9.  

Entre os teólogos realmente católicos nos apraz citar aqui o Cardeal Newman, porque os modernistas tergiversam com respeito a ele injustamente.

Entre os critérios que pormenoriza para distinguir um desenvolvimento legítimo da corrupção doutrinal, o Cardeal Newman põe «a tendência dos desenvolvimentos posteriores em conservar a doutrina possuída precedentemente»; assim, pois, quando o “novo” tenda, em contrapartida, a excluir o “antigo”, estamos sem dúvida ante uma corrupção doutrinal 10. Trata-se, em essência, do cânon leriniano.

No mesmo critério aparece inspirada a prática da Igreja nos Concílios dogmáticos consagrados a distinguir a verdade católica da heresia.

Já determinou o segundo Concílio de Nicéia (787), ao condenar o conciliábulo dos iconoclastas (Constantinopla, 753), que a coerência doutrinal com a tradição constitui uma das condições da ecumenicidade de um Concílio: «Como poderia ser por sua vez o Sétimo [Concílio] aquele que não concorda com os seis santos Concílios ecumênicos que lhe precederam? [...] Seria como se alinhássemos seis moedas de ouro e lhes acrescentássemos depois um vintém: não se poderia chamar sétima à última, e isso em razão da diversidade de sua matéria...» 11.

«Como poderia [...] pretender ser o Sétimo o que não segue os seis Concílios que lhe precederam?... Vós, que haveis violado as tradições daqueles seis [Concílios precedentes], como haveis podido chamar sétimo ao vosso?»: assim o santo abade Estêvão havia reprovado aos iconoclastas, 25 anos antes, sua ruptura com a tradição, razão por que o mataram a pauladas 12.

Por último, o magistério infalível da Igreja fez sua a regra leriniana no Vaticano I, repetindo-a ao pé da letra na Constitutio de fide catholica, sessão III: «Cresça, pois, e muito e poderosamente se adiante em quilates, a inteligência, ciência e sabedoria de todos e de cada um, ora de cada homem particular, ora de toda a Igreja universal, das idades e dos séculos, mas somente em seu próprio gênero, quer dizer, no mesmo dogma, no mesmo sentido, na mesma sentença» (Denzinger nn.1800 e 1818).

 

Ecumenismo e “liberdade religiosa”: não progresso, mas corrupção doutrinal

Quando se iniciou o Vaticano II, a Igreja gozava da posse secular e indiscutida de doutrinas explícitas relativas:

— à verdadeira Igreja de Jesus Cristo e, por conseguinte, à posição das seitas heréticas e/ou cismáticas, do hebraísmo e das religiões falsas;

— às relações Igreja/Estado e, em particular, à noção exata de “liberdade religiosa” e à tolerância dos cultos falsos 13.

Ademais, a Igreja gozava, na abertura do Vaticano II, de uma liturgia, expressão íntegra e inequívoca de fé católica.

A estes três campos (eclesiologia, relações Igreja/Estado, liturgia) invadiu-os o que de “novo” trazia o Concílio. Por desgraça, era algo “novo” contrário, ou melhor, em pugna com o antigo. Com efeito, se a Igreja ensina, como ensinou sempre até o Vaticano II, que a Igreja de Cristo é uma só, que fora dela não há salvação e que, portanto, as demais supostas “Igrejas” não são igrejas, mas seitas, «igrejas ilegítimas» (São Irineu), «sarmentos secos» (Santo Agostinho), e que os indivíduos particulares, se padecem de ignorância invencível, podem salvar-se só em virtude da pertença in voto à Igreja verdadeira, de modo algum desta doutrina constante pode inferir-se hoje, com o Vaticano II, que «as igrejas e comunidades separadas [...] de nenhuma maneira estão desprovidas de sentido e valor no mistério da salvação. Porque o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como meios de salvação» 14. Não pode inferir-se tal coisa porque a doutrina “nova” exclui a antiga abertamente e ofende as verdades reveladas que se contêm nela a título de conseqüências. Com efeito, a doutrina nova descobre que são legítimas as “igrejas ilegítimas”, que a seiva da graça divina corre pelos “sarmentos secos” e, em conseqüência, que a Igreja de Cristo já não é única nem constitui «a arca única de salvação» (Denzinger n. 1647). Depois, no pós-Concílio, em nome do decreto conciliar Nostra Aetate, se promoveu também as religiões não-cristãs à categoria de caminhos de salvação, pelo menos «extraordinários».

Mais ainda: se a Igreja ensina, como o fez sempre até o Vaticano II, que Nosso Senhor Jesus Cristo tem direito, por ser Deus, de reinar não só sobre os indivíduos mas também sobre as sociedades, e que, por conseguinte, só a Igreja Católica goza do direito natural e divino à assistência negativa e positiva do Estado, na qual se compreende outrossim o dever de impedir o culto público das religiões falsas, a não ser que motivos de prudência política aconselhem sua tolerância, desta doutrina constante da Igreja não pode deduzir-se de maneira alguma, com o Vaticano II, que exista um “direito” da pessoa humana de que não se lhe impeça a profissão pública e associada de sua crença falsa ou até irreligiosa 15, nem que o mesmo “direito” caiba às seitas e às religiões falsas 16. Não se pode deduzir isso porque a doutrina “nova” exclui a antiga e não deixa imune a verdade revelada que esta compreende a título de conseqüência. Com efeito, no dizer da doutrina “nova”, a Igreja católica já não é a única igreja instituída por Deus e, por conseguinte, cessa o direito unicamente da Igreja católica à assistência do Estado, cessa o dever do Estado de impedir o culto público das religiões falsas e lho substitui pela obrigação de favorecê-las sem discriminação; e já nem há meio de falar em “tolerância”. Em suma, Nosso Senhor Jesus Cristo já não goza do direito de reinar sobre as sociedades; seus próprios ministros o destronaram.

O anterior pode bastar para provar que as “novidades” do Concílio não são progressos, mas corrupções doutrinais, e o confirma irrefutavelmente tudo o que a hierarquia vem fazendo no pós-Concílio em nome daquele, mas contrariamente à tradição católica: a primeira e segunda “reuniões de oração” de Assis, junto com as outras iniciativas ecumênicas, sempre vedadas pela Igreja; a liquidação dos Estados católicos que restavam, incluída a Itália, em razão das “novas” concordatas; a supressão das duas estrofes relativas à realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo no hino das primeiras e segundas vésperas de Cristo Rei etc. etc. Para quê continuar a enumeração? Basta pensar que o Cardeal Ratzinger chegou a declarar “perimée” 17, quer dizer superada, defunta, a doutrina católica sobre as relações Igreja/Estado (como se uma doutrina constante da Igreja pudesse negar-se sem negar também a infalibilidade desta).

Quanto à nova liturgia, de maneira alguma se pode considerar legítimo um Novus Ordo, do qual a posteridade deduzirá (fazendo uso do princípio acima mencionado segundo o qual “a lei da oração estabelece a lei da fé”) que a Igreja professou na última etapa do século XX uma fé mais protestante do que católica no tocante ao Santo Sacrifício da Missa.

Sim, o “teólogo da Casa Pontifícia” acertou em cheio: a resistência católica não luta tão-somente contra o rito de Paulo VI (que nasceu igualmente por motivos ecumênicos), mas também contra “o Concílio, o ecumenismo, a liberdade religiosa”, contra todo o “novo” que se quer acreditar como “desenvolvimento doutrinal”, segundo parece, ao passo que constitui uma corrupção evidente da doutrina à que a consciência católica está vinculada sub gravi.

Hirpinus

(Revista Sim Sim Não Não, no. 112)

  1. 1. Dictionnaire de Théologie Catholique, verbete Eglise, col. 2194.
  2. 2. V. J. M. Vacant, Le Magistère de l'Eglise et ses organes.
  3. 3. Franzelin, De Divina Traditione, tese XXIII.
  4. 4. Pio XII, Munificentissimus Deus.
  5. 5. Il Sabato, 30 de julho-5 de agosto de 1988.
  6. 6. Commonitorium, n. 1, 2, 23, 24.
  7. 7. Franzelin, De Divina Traditione, tese XXIV.
  8. 8. Commonitorium, n. 32.
  9. 9. H. Newman, Essay on the Development of Christiam Doctrine.
  10. 10. V. Peri, I Concili e le Chiese (Os Concílios e as igrejas), Roma, 1965, pp. 24-25; texto grego em Mansi, t. XIII.
  11. 11. Ibid., p. 33, n. 25.
  12. 12. V. Dictionnaire de théologie catholique, verbete Igreja, col. 2212 ss.
  13. 13. Les principes de la Théologie catholique, ed. Téqui, Paris, p. 427.
  14. 14. Unitatis Redintegratio, 3.
  15. 15. Dignitatis Humanae, n. 2.
  16. 16. Ibid., n. 4.
  17. 17. Vide Rapporto sulla Fede (Informe sobre a fé), p. 211.

Idéias claras sobre as canonizações

Agosto 11, 2018 escrito por admin

Apesar de já termos mostrado com dois textos que as dúvidas que pairam sobre a integridade das canonizações feitas ultimamente são baseadas em questões objetivas, teológicas, e não em simples opinião nossa, algumas pessoas continuam a insinuar que essas dúvidas seriam por termos um espírito cismático. Para fortalecer ainda mais o fundamento teológico da nossa posição, respondendo às calúnias injuriosas, trazemos este trabalho publicado no jornal italiano SiSiNoNo, em sua versão brasileira, SimSimNãoNão, de março de 2003

 

IDÉIAS CLARAS SOBRE AS CANONIZAÇÕES

 

Um leitor nos escreve:

«Rvdo. Diretor:

Confesso que me acho perplexo, não só diante algumas beatificações, mas também com relação a uma canonização recente. Comumente se dá por certa a infalibilidade do Papa ao canonizar santos, mas, após efetuar uma investigação por minha conta, constatei que essa questão está muito longe de se achar definida...»

Assim é, com efeito. Ainda não há uma definição da Igreja a respeito disso, nem se pode falar de uma tradição constante sobre o assunto em questão.

Desde que a Santa Sé reservou para si as causas de canonização, os teólogos e canonistas discutiram, durante mais de nove séculos, sobre a infalibilidade do Papa ao declarar santa uma pessoa, dividindo-se em “infalibilistas” e antiinfalibilistas”. Apesar disso, começou a impor-se a tese infalibilista a partir de 1800, a tal ponto que hoje constitui uma “sentença comum” entre os teólogos 1. Mas que quer dizer isso? E que atitude deve tomar um católico diante de uma “sentença comum”?

 

“Sentença comum, mas ainda não fundada satisfatoriamente

«A sentença comum é uma doutrina pertencente, de si, ao âmbito das opiniões livres, mas sustentada comumente pelos teólogos» 2.

Quanto à atitude que se deve adotar com relação à ela, seria temerário quem se opusesse, «sem fundamento, à sentença dos demais em matéria teológica» 3, quer dizer, quem «se afastar sem motivo da doutrina comum» 4; mas, se se der tal “motivo”, tal “fundamento”, isto é, se houver razões fundadas para afastar-se da sentença comum, ninguém estaria obrigado a “fazer coro com os demais”.

No tocante à infalibilidade nas canonizações (todos convêm que não se dá a infalibilidade nas beatificações), alguns teólogos, mesmo sem se afastar da sentença comum, reconhecem que «a dificuldade do problema está em achar uma prova verdadeiramente satisfatória dessa infalibilidade cuja existência se afirma» 5. Assim se exprime o teólogo alemão Scheid. E Bartmann, que o cita, observa por sua vez que a tese “infalibilista”, mais que em «argumentos particulares e peremptórios», se funda em um «‘feixe de argumentos’, como se o número devesse suprir, de certo modo, a debilidade de cada argumento tomado separadamente» 6.

Tal debilidade dos argumentos “infalibilistas” foi há pouco posta em evidência por um estudo do dominicano Daniele Ols, professor no Angelicum e “relator” da Congregação das Causas dos Santos. O estudo em questão versa sobre os fundamentos teológicos do culto aos santos. Limitar-nos-emos aqui a resumir a parte atinente a nosso tema.

 

“Fato dogmático”?

Dois aspectos na canonização devem ser levados em conta:

1) A afirmação do princípio geral segundo o qual quem pratica as virtudes cristãs em grau heróico vai para o paraíso.

2) A aplicação desse princípio geral a um indivíduo concreto, particular.

Ora, ainda que é fácil demonstrar que o princípio geral está contido na revelação divina, «é evidente, apesar disso, que o fato de que Tício ou Caio viveram santamente não se contém nela, nem de maneira explícita nem implicitamente» (pág. 34). Daí vem que os teólogos digam, comumente, que as canonizações pertencem ao domínio dos “fatos dogmáticos”, ou seja, daqueles fatos não revelados de si mesmo, mas relacionados estreitamente «com uma doutrina que deve ser afirmada ou uma heresia que é mister condenar» (pág. 33). Assim se explica por que, «em geral, quem examina o problema se detém aqui e conclui asseverando que a Igreja pode canonizar infalivelmente» (pág. 34). Mas, no caso da canonização, dá-se realmente uma conexão necessária e estreita entre a proclamação da santidade de uma pessoa e a doutrina sobre a glória dos santos?

É evidente que a Igreja é infalível na condenação não só das heresias, mas também dos hereges individualmente considerados, assim como dos escritos heréticos, porque é rigorosamente necessário para sua missão «não só condenar erros em abstrato (freqüentemente pouco compreensíveis para muitos), mas mostrar também os fautores desses erros e os escritos que os propagam, de maneira que os fiéis possam manter-se longe deles» (págs. 33 e s.). O caso da canonização, no entanto – observa o autor do estudo - , «não é exatamente igual ao da condenação de um herege. No caso da condenação, está claro que nos achamos diante de um grave perigo para a fé dos cristãos e que a identificação precisa de tal perigo é necessária para a preservação da dita fé. Ao contrário, quando se trata da canonização, não temos nada disso. [...]. Não se seguiria um dano mortal para a fé em caso de erro, ainda que, salta aos olhos, seria algo muito desagradável. Em outras palavras, se os fiéis seguissem a Lutero, seria de mortal gravidade, mas se, por acaso, venerassem um santo que estivesse de fato no inferno, isso careceria de tal gravidade; e a dita veneração poderia aproveitar à sua vida cristã como se a rendessem a um santo autêntico, porque essa veneração teria por objeto a pessoa em questão unicamente enquanto considerada santa, amiga de Deus» (pág. 33).

O autor aduz, em confirmação do que disse, o caso dos «santos duvidosos ou até inexistentes», cuja devoção não acarreta nenhum dano, nem à doutrina católica, nem à fé dos devotos que os veneram, «por causa de suas (presumidas) virtudes cristãs, sinal de sua (também presumida) união com Deus». Tampouco os pedidos «formulados por meio da intercessão desses pseudo-santos» são forçosamente ineficazes, já que, ao ser a confiança na intercessão dos santos uma forma de confiança em Deus, «compreende-se que Deus ouça favoravelmente uns pedidos que, por falta de intermediário, vão a Ele diretamente» (pág. 35; citação do bolandista 7 Delehaye). Daí a conclusão: «Por isso, como a canonização de tal ou qual pessoa não é necessária para a guarda e defesa do depósito da fé, não parece que a matéria da canonização seja tal, que esteja sujeita à infalibilidade» (ibi).

 

Uma semelhança só aparente

Demonstrada a debilidade do argumento principal dos “infalibilistas”, o autor passa a examinar «a fórmula da canonização solene», que «se considera geralmente como a prova de que o Papa pretende empenhar sua infalibilidade na canonização».

Apesar do fato de que falta nas canonizações “eqüipolentes” 8 (o qual traz algumas dificuldades aos “infalibilistas”), a fórmula das canonizações solenes só em aparência é idêntica às fórmulas dogmáticas, por exemplo, às usadas por Pio IX e Pio XII para definir, respectivamente, o dogma da Imaculada Conceição e o da Assunção da Santíssima Virgem. Idêntica nada mais que em aparência porque, segundo observa o autor, «estas últimas fórmulas dizem explicitamente que uma determinada doutrina deve ser crida (ou que constitui um dogma revelado por Deus, que vem a ser o mesmo). A fórmula da canonização é mais vaga, posto que se limita a definir (o qual significa “determinar”), não que se deve crer que fulano de tal é santo, mas só que fulano de tal é santo». Tampouco a fórmula da canonização diz «que tipo de assentimento o fiel deve prestar  à definição», enquanto que nas fórmulas dogmáticas está claro que as doutrinas definidas devem ser cridas por serem reveladas por Deus e, por isso, com fé divina.

Para comodidade de nossos leitores, transladamos aqui as fórmulas usadas por Pio IX e Pio XII, e depois as que costumam ser empregadas nas canonizações.

«Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que defende que a Beatíssima Virgem Maria [...] foi [...] preservada imune de toda mancha de culpa original foi revelada por Deus e, por conseguinte, deve ser crida firme e constantemente por todos os fiéis (esse a Deo revelatam atque idcirco ab omnibus fidelibus firmiter constanterque credendam, lê-se na bula dogmática Ineffabilis Deus, de Pio IX; «pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado (divinitus revelatum dogmam esse) que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria [...] foi assunta em corpo e alma à glória celeste. Por isso, se alguém [...] ousar voluntariamente negar ou pôr  em dúvida o que por Nós foi definido, saiba que desertou totalmente da fé divina e católica», lê-se na bula dogmática Munificentissimus Deus, de Pio XII.

Muito mais vagas e genéricas são as fórmulas das bulas ou, para nos expressarmos com mais propriedade, das cartas decretais de canonização: Sanctum esse decernimus et definimus (canonização de São José Kalinowski: 17 de novembro de 1991); Sanctos et sanctam esse decernimus et definimus (canonização de São Pio V, Santo André Avelino, São Félix de Cantalice e Santa Catarina de Bolonha: 22 de maio de 1712). Salta aos olhos a diversidade sublinhada pelo autor.

 

A carência de anátema e uma evolução significativa

A diversidade substancial que medeia, apesar de algumas semelhanças aparentes, entre as bulas dogmáticas e as canonizatórias se confirma por carecer estas últimas do anátema com que se encerram as bulas dogmáticas, assim como pela evolução sofrida na cláusula tradicional das bulas de canonização.

A primeira bula de canonização conhecida9 é também a única em que figura um anátema. Mas, naquela época (ano de 993), o “anátema”, como se adverte no decreto de Graciano, não sancionava um delito contra a fé, mas correspondia a uma forma mais grave de excomunhão por um delito de desobediência, «pelo que estaria absolutamente fora de lugar tratar de inferir, da existência daquele [único] anátema, a existência de uma definição dogmática».

Não só já não figura o anátema nas seguintes bulas de canonização, mas tampouco se faz censura ou ameaça alguma de sanção até Gregório XI (1371). Aparece com este Papa uma cláusula que, a partir de Pio II (canonização de Santa Catarina de Sena: 1461), se usou em todas as bulas de canonização até João XXIII, «com amplificações que não mudavam sua substância»; daí que constituísse a cláusula tradicional, por assim dizer. Ameaçava-se nela com «a indignação de Deus onipotente e dos Santos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo» a quem ousasse contraire (“ficar contra”) a bula papal. Depois, a dita cláusula (presente ainda nas duas primeiras bulas de canonização do Papa Roncalli) deu lugar a fórmulas cada vez mais brandas, que se limitavam a recordar as penas previstas pelo direito para os desobedientes 10, até desaparecer de todo nas canonizações do próprio João XXIII e nas de Paulo VI 11 e João Paulo II 12.

Esse desaparecimento confirma que a cláusula tradicional sublinhava a autoridade do Papa, mas não sua intenção de comprometê-la no grau em que é infalível: quer dizer, advertia «sobre as penas divinas e humanas em que incorreria quem desobedecesse», razão pela qual «se podia suprimi-la sem mudar nada da substancia das coisas, porque é sabido, ainda que se não mencione, que quem desobedece ao Papa se expõe à indignação divina e às penas previstas pelo direito».

Deve notar-se, com efeito, que, diferentemente das bulas dogmáticas, na cláusula tradicional das bulas de canonização «não se ameaça com a indignação divina aquele que não crer na verdade da canonização, mas aquele que for contra [em latim: contra-ire], quer dizer, aquele que manifestar externamente seu dissentimento. Os anátemas das definições dogmáticas, ao contrário, condenam antes de tudo os que não crêem na verdade definida, e somente depois os ameaça com censuras se expressarem publicamente sua dissensão» (págs. 41-42).

Eis aqui, a modo de exemplo, a cláusula da proclamação do dogma da Imaculada Conceição: «Pelo que, se alguém presumir sentir no coração [corde sentire] contrariamente àquilo por Nós definido, o qual Deus não permita, conheça e saiba com certeza que está condenado por seu próprio juízo, que naufragou na fé e se apartou da unidade da Igreja, e que ademais, por seu próprio ato, fica submetido às penas estabelecidas no direito se o que sente no coração, atrever-se a manifestá-lo em palavras ou por escrito ou de qualquer outra maneira» (Ineffabilis Deus).

Compare-se agora a cláusula anterior com a cláusula tradicional nas bulas de canonização: «Que a ninguém seja lícito violar o que Nós quisemos e determinamos neste texto ou ficar contra o mesmo com audácia temerária. Se alguém ousar tentá-lo, saiba que incorrerá na indignação de Deus onipotente e dos Santos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo» (Nulli ergo hominum liceat hanc paginam nostrae voluntatis et constitutionis infringere vel ei ausu temerario contraire. Si quis autem hoc attentare praesumpserit indignationem omnipotentis Dei et beati Petri et Pauli Apostolorum eius se noverit incursurum).

Como se vê, falta, nas bulas de canonização, a primeira parte da condenação: aquela na qual se incorre por “sentir no coração contrariamente...”, ou, falando como os teólogos, por negar o internum mentis assensum (a adesão interna da mente); subsiste somente a segunda censura, a que é reservada a quem atuar contra a bula no foro externo, quer dizer, a quem não observar o que os teólogos chamam o silentium obsequiosum (o silêncio ditado pelo respeito), que não permite àquele que dissente em seu coração, contradizer publicamente a autoridade (salvo se se dá “um perigo de escândalo para a fé”, como veremos).

Para concluir e para tirar toda possível dúvida de que a cláusula tradicional das canonizações não prova a intenção do Papa de empenhar sua infalibilidade, sobressai-se o fato indiscutível de que a dita cláusula «não é própria das bulas de canonização, mas faz parte do esquema normal de qualquer bula, inclusive do esquema das que carecem de todo alcance doutrinal». Assim, por exemplo, Clemente VIII a usa tanto na bula de canonização de Raimundo de Peñafort, quanto na bula Ea Romani Pontificis, que estabelece a jurisdição, os privilégios, etc., dos auditores da Câmara Apostólica. Daí que «não se pode inferir» que «haja definições infalíveis nas bulas de canonização porque se ameace nelas com a indignação divina, visto que também são objeto da mesma ameaça os que não respeitam as tarifas estabelecidas para os notários, etc.» (pág. 41).

 

A “definitio” e o testemunho de Bento XIV

Por outra parte, o termo “definitio” figura nas bulas de canonização pelo mero fato de que «se emprega a palavra ‘definimus’ no corpo do documento», ainda que seja para denotar uma “determinação”, uma “decisão” do Romano Pontífice, não sua intenção de pronunciar-se infalivelmente, como nas bulas dogmáticas. Sobre isto temos o testemunho acreditado e decisivo de Bento XIV, que, ainda que se inclinava pessoalmente para a infalibilidade do Papa nas canonizações, contudo, afirma ser lícito sustentar a tese oposta, a “antiinfalibilista”, o qual ele não poderia afirmar se a cláusula tradicional de canonização - usada por ele também na única canonização de seu pontificado - manifestasse a intenção papal de pronunciar uma sentença infalível, como queriam os “infalibilistas”.

 

“Certum est” e “pie credendum est”

O autor se detém também na posição de Santo Tomás, «a quem às vezes se quis contar no número dos infalibilistas, mas que propõe, na realidade, uma solução de senso comum, fundada na convicção segundo a qual o Espírito Santo assiste a Igreja, sem que se requeira, no caso específico das canonizações, que a dita assistência garanta a infalibilidade» (pág. 45).

Interrogado sobre o assunto, Santo Tomás responde, com efeito:

1) É certo que é impossível que a Igreja erre quando julga em matéria de fé (certum est quod iudicium ecclesiae universalis errare in his quae ad fidem pertinent impossibile est).

2) Ao contrário, é possível que a Igreja erre ao julgar fatos particulares, por causa de testemunhas falsas (possibile est iudicium ecclesiae errare propter falsos testes).

3) A canonização dos santos se acha «a meio caminho» entre os dois casos precedentes [medium est inter haec duo]; não obstante, dado que a honra tributada aos santos é uma profissão de fé na glória destes, deve-se crer piamente [pie credendum est] que tampouco nestes casos pode errar o juízo da Igreja (Quodlibet 9, a. 16).

O autor sublinha as diferentes fórmulas empregadas por Santo Tomás: em matéria de fé, “é certo” que é impossível” que a Igreja possa errar: certum est quod [...] errare [...] impossibile est; no tocante às canonizações, ao contrário, Santo Tomás diz que “se deve crer piamente” que tampouco nelas pode errar a Igreja: pie credendum est quod nec etiam in his [...] errare possit. Ora, a expressão pie credendum est, assim como a análoga pie creditur (“há razões para crer piedosamente”), são usadas por Santo Tomás cada vez que «nem existe nem pode existir um ensinamento infalível da Igreja sobre algo, por carecer de base na Revelação (ou porque não se trata de realidades necessárias para a salvação), o que não impede que se dêem motivos, mais ou menos decisivos, para pensar que as coisas sejam de uma maneira determinada». Os ditos motivos nos são dados pelo «conhecimento geral que a Revelação nos dá acerca da maneira de agir habitual de Deus». Donde se depreende que o pie credendum est usado para a canonização significa que, «não tendo a canonização um fundamento preciso na Revelação, nem podendo tê-lo, não pode ser considerada como ato garantido pela infalibilidade, mas como um ato que a fé que temos na assistência geral do Espírito Santo à Igreja nos convida a considerar como isento de erro» (pág. 48).

 

Conclusão do autor

Essa parte do estudo relativa à infalibilidade nas canonizações se conclui com a sentença de Bento XIV, que distingue duas questões cuidadosamente.

1) É de fé que as canonizações são infalíveis?

Bento XIV, ainda que inclinado pessoalmente para a infalibilidade, respondeu assim a essa primeira pergunta: «parece-nos que ambas as opiniões [infalibilista e antiinfalibilista] devem deixar-se em sua probabilidade até que intervenha o juízo da Sé Apostólica» (De servorum Dei I, 1 e 45, nº 27).

Na falta desse juízo definitivo, põe-se esta segunda questão:

2) É lícito negar a santidade deste ou daquele canonizado?

Bento XIV responde que quem negar a santidade deste ou daquele canonizado particular seria, «se não herege, ao menos temerário; escandaloso para toda a Igreja; injurioso para com os santos; favorável aos hereges, que negam a autoridade da Igreja na canonização dos santos; suspeito de heresia, abrindo o caminho aos infiéis para que se mofem dos fiéis; defensor de uma proposição errônea, e merecedor de penas gravíssimas» (ibid., nº 28).

Como é lógico, assim como as censuras evocadas pelas bulas de canonização, também essas “notas” de Bento XIV valem para quem, “sem motivo suficiente”, negar ou colocar em dúvida publicamente a santidade deste ou daquele canonizado, mas não para quem em “seu coração” tenha ou creia ter “motivos fundados” para negá-la ou duvidar dela, mas observe o silentium obsequiosum, abstendo-se de exteriorizar publicamente sua dissensão (pág. 49, nota 126).

 

Nossa conclusão

A tudo isso acrescentamos nós que “um perigo de escândalo para a fé” pode tornar lícito, inclusive obrigatório, até no caso das canonizações, romper o silentium obsequiosum para com a autoridade, conforme ensina Santo Tomás: «quando há um perigo para a fé, os súditos são obrigados a repreender seus Prelados, mesmo em público» (Suma Teológica IIª-IIae, q. 33, a. 4 ad 2); e diz também, citando São Gregório: «se o escândalo nasce da verdade, é mister antes suportar o escândalo que abandonar a verdade» (op. cit. IIIª parte, q. 42, a. 2 ad 1).

O dito perigo dar-se-ia se se chegasse (Deus não o permita!) à canonização de João XXIII e Paulo VI para dar crédito ao concílio e à catastrófica mudança de rumo imposta ao mundo católico, ainda que o primeiro não gozasse mais do que de uma fama postiça, fabricada, de ser um homem de “natural bonachão”, ao passo que da pessoa do segundo não emanava nada que recordasse, nem de longe, o odor de santidade. Assim, torna-se sobremaneira útil, nas circunstâncias históricas atuais, ter idéias claras também sobre a infalibilidade nas canonizações, para o qual pensamos que o estudo resumido acima pode constituir uma valiosa ajuda.

 

Hyrpinus

  1. 1. Vide E. Piacentini, Infallibile anche nelle cause di canonizzazione? [Infalível também nas causas de canonização?], Roma: E. N. M. I., 1994.
  2. 2. L. Ott, Compêndio de teologia dogmática, ed. Herder, 1956, pág. 23.
  3. 3. S. Cartechini, S. J., Dall'opinione al dogma [Da opinião ao dogma], ed. La Civilta Cattolica, 1953, pág. 137.
  4. 4. L. Ott, op. cit., pág. 24.
  5. 5. Scheid, Zeitschrift f. Katolische Theologie [Revista de Teologia Católica], 1890, pág. 509
  6. 6. B. Bartmann, Manuale di Teologia Dogmatica, vol. Iº, ed. Paoline, 1949, Pág. 65.
  7. 7. N. do T.: Um “bolandista” é um membro da sociedade de jesuítas belgas encarregados na edição dos Acta Sanctorum. Seu nome deriva do sobrenome do padre J. Bolland, de Amberes (1596-1665).
  8. 8. Dá-se a canonização solene quando o Papa pronuncia «uma solene declaração formal sobre a santidade do beato», dá-se a canonização “eqüipolente” quando o Papa «se limita a dispor que um beato seja objeto de culto por parte da Igreja universal» sem pronunciar «fórmula alguma que possa denotar definição» (pág. 36, nota 93). Trata-se de um fato que traz sérias dificuldades aos “infalibilistas”, as quais desaparecem se se admite, pelo contrário, «que nenhuma canonização põe em jogo a infalibilidade» (ibi).
  9. 9. Trata-se da bula de João XV para a canonização de Ulrico.
  10. 10. Iustis poenis plectetur (será castigado com as penas merecidas), lê-se na canonização de João de Ribera (1960), Martinho de Porres (1962) e Antônio Maria Pucci (l962), sciat se poenas esse subiturus iis iure statutas qui Summorum Pontificum iussa non fecerint (saiba que sofrerá as penas estabelecidas no direito para os que desobedecem às ordens dos Sumos Pontífices), lê-se na canonização de Maria Bertilla Boscardin (1961).
  11. 11. Só na canonização de Júlia Billiart (1969) reaparece a fórmula empregada para Maria Bertilla Boscardin.
  12. 12. Somente na canonização de Miguel Febres Cordero (1984) figura uma cláusula com a fórmula, mais branda ainda, quae egimus ac decrevimus sancta sunt, nunc et in posterum (o qual julgamos e estatuímos que seja inviolável, agora e para o futuro).

Renovação carismática: testemunho de um arrependido

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Carta dirigida a sì sì no no:

 

«Gostaria de dar a conhecer minha experiência com a Renovação Carismática e ao mesmo tempo pedir perdão a todas as pessoas, muitas seculares e sacerdotes, que convidei e induzi a entrar em contato com esta nova ‘realidade espiritual’, participando em diversas reuniões de oração de grupos carismáticos que, graças a vossa revista sì sì no no, se me mostram cada vez mais como movimentos de natureza diabólica.

Antes de tudo peço perdão a minha mulher e a minhas filhas por haver sido incapaz de ver os perigos destas ‘seitas’, ou por havê-las conduzido a atividades que, passado o tempo, contribuíram de forma essencial na divisão de minha família e até na nossa separação. Como cabeça da família não fui bem alerta, cegando-me o orgulho carismático; espero que o Senhor, em sua misericórdia, na qual creio, se dignará voltar a unir o que o homem separou.

Realmente podem classificar-se entre as ‘seitas’ os grupos da Renovação Carismática; com efeito, não se pode entrar de fato nestes grupos senão através do ‘batismo no espírito’, e, uma vez que entrou, dificilmente pode alguém sair, já que a Verdade é manipulada, crêem possuí-la, situando-se ademais em um nível espiritual superior com respeito aos demais, que ‘são incapazes de compreender’; não aceitam nenhum conselho, nem sequer de um sacerdote, enquanto este não se mostre de acordo com a visão carismática.

Comecei a assistir, junto com minha futura esposa, ao grupo da Renovação Carismática Comunidade Cristã para uma vida nova, em Villafranca (Itália), no ano de 1981, chegando a ser muito rapidamente um de seus principais membros, e recebendo até pouco tempo depois, como minha mulher, o fatídico e satânico vestígio do ‘batismo no espírito’, dentro já do grupo carismático de Bréscia, o grupo do Pe. Dino Foglio, coordenador nacional da Renovação Carismática.

O grupo, que então contava só com algumas pessoas, centrava-se na personalidade carismática de seu diretor, De Pieri Luciano, de Mântua, que havia sido expulso dos grupos da Renovação em Verona, nos quais eu havia estado, por causa de sua conduta e idéias nada conformes à maioria destes grupos.

Com o tempo, e devido à atração exercida pelo diretor do grupo com seus ‘carismas’ de cura e doutrinamento, crescia constantemente o número de pessoas que participavam nos encontros de oração, os quais tinham lugar às terças-feiras para os ‘renovados no espírito’ (quer dizer, os que já haviam sido iniciados mediante o ‘batismo no espírito’ ou ‘efusão no espírito’, segundo o jargão carismático) e aos sábados para todos em geral. Tais ensinamentos estavam orientados, amiúde, para o conhecimento do Maligno e de suas artimanhas; questões que atraíam a curiosidade dos presentes e que ao mesmo tempo davam a entender, por parte dos que as apresentavam, um profundo conhecimento do mundo referente ao ocultismo. Pouco antes de deixar tudo isso, encontrei no lugar de nossas reuniões, onde rezávamos pelas necessidades dos que se nos encomendavam, um livro de práticas esotéricas e uma pirâmide de metal.

Nas reuniões que se organizavam nos fins de semana sobre diversos temas bíblicos, podíamos ouvir amiúde oradores protestantes, tais como Fred Ladenius, Chablot, Mauro Adragna e muitos outros. Essas reuniões eram também ocasião para recolher fundos (pela inscrição nestes cursos, por fitas cassete e por várias outras coisas). O grupo crescia, muitos receberam a ‘efusão do espírito’, os ‘carismas’ iam aparecendo: amiúde esses ‘carismas’ eram concedidos ou retirados ao bel-prazer do diretor. Os mais solicitados eram os de profecia, discernimento e cura. Era uma espécie de procura dos carismas mais chamativos; só faltava um na comunidade, o principal: a caridade.

Criaram-se pequenos ‘cenáculos’ de oração nas casas dos mais antigos do grupo, para que assim as pessoas iniciadas no caminho carismático pudessem crescer ‘espiritualmente’ de forma mais intensa. Minha casa se converteu em um centro de reunião para um ‘cenáculo’ na sexta-feira pela tarde. Hoje recordo com pesar a decisão nefasta que tomei então: pensava invocar o Espírito Santo, mas invocava, em verdade, o espírito de Satanás; cria louvar a Deus falando diversas línguas, mas, muito pelo contrário, maldizia-o, e isso em minha própria casa, até na Sexta-Feira Santa.

Minhas filhas, com ainda poucos anos, começaram a rezar em línguas estrangeiras. O grupo crescia tanto, que foi necessário fazer duas reuniões no sábado.

Passados dez anos desde o início destas reuniões, teve-se notícia por pessoas de fora das ‘curas’ que ali se produziam; os jornais da região transmitiram as opiniões dos que se haviam sentido ‘beneficiados’, e desta forma o bispo de Verona de então, Dom Amari, enviou um representante seu para informar-se da situação. Este sacerdote não foi bem recebido. Sentado no fundo da sala onde se dava a reunião, não pôde contar com a ajuda dos responsáveis da comunidade para levar a cabo sua missão.

O informe que entregou ao bispo não foi positivo, principalmente por estas três razões:

1) Tempos de oração que se realizam geralmente sob impulsos emocionais, sem espaço para uma adequada catequese que permita uma experiência cristã fundamentada na objetividade da fé e no caráter concreto da vida eclesial.

2) A oração para obter publicamente uma cura, levada a cabo de forma sensacionalista, está centrada na fórmula ‘ver para crer’; tudo isso vivido em um contexto muito emocional, que pode levar a confundir uma sugestão coletiva de pessoas, amiúde em situação difícil, com a intervenção milagrosa do Espírito.

3) A experiência, centralizando-se de forma quase exclusiva na petição de curas, alentava, sobretudo nos enfermos, falsas e ilusórias esperanças que podiam conduzir a uma visão religiosa deformada e às vezes a uma espécie de enfeitiçamento das consciências.

O bispo solicitou aos responsáveis que suspendessem as reuniões, proibindo os sacerdotes, religiosos e religiosas de participar nelas, e de dirigir a intervenção dos fiéis nestes atos, exortando também os seculares a que não comparecessem de maneira alguma. Mas nós, em espírito de ‘obediência’, continuamos com nossas reuniões, afirmando que o bispo não havia compreendido nada e que havia sido mal informado, e que — de qualquer forma — era preciso ‘obedecer a Deus antes que aos homens’.

Enquanto isso, minhas relações com o ‘dirigente’ do grupo se tornaram mais tensas, devido a suas atitudes autoritárias e às decisões pessoais que tomava, pelas quais as pessoas mais humildes eram excluídas amiúde de seus favores. Em nosso grupo se manifestava sempre com mais força o verdadeiro espírito carismático da renovação, quer dizer, os ‘carismas’ próprios do Maligno ou, o que é o mesmo, o orgulho, a inveja, os zelos amargos, e especialmente o ódio e a intolerância para com todos aqueles que se rebelavam contra o chefe carismático. ‘O chefe jamais se equivoca’, dizia-me um membro antigo do grupo. Então eu era o responsável pela seção ‘canto’ dentro da comunidade, mas, por causa destas atitudes contrárias ao que sentiam todos, fui cada vez mais marginalizado. Depois de lançarem contra mim uma mentira que era evidente e dita diante de todos os responsáveis da comunidade, que conheciam a verdade mas não fizeram nada para defender-me, tomei a decisão de deixar definitivamente o grupo.

Neste tempo se foi criando, de forma lenta, uma muito séria incompreensão entre minha mulher e mim, pois ela continuava participando nos encontros de oração. Tempos depois me disseram que sobre ela se haviam pronunciado amiúde orações segundo a maneira típica da ‘Renovação’, com imposição das mãos, invocação do ‘Espírito Santo’, preces em diversas línguas, profecias e leituras de passagens bíblicas. Durante a oração para os enfermos tinha lugar, às vezes, o que segundo a terminologia carismática se chama ‘repouso do espírito’. Trata-se de uma espécie de ‘transe’ consciente, no qual a pessoa afetada chega a ouvir as vozes dos que a rodeiam, mas não pode mover-se. Crê-se que é nesse estado que se está em condições ótimas para a cura.

Dois anos mais tarde minha mulher e eu nos separamos. Durante esse tempo o grupo se havia dividido: a maioria havia seguido o ‘chefe’, instalando-se na nova sede de Peschiera; eu continuava com outros no mesmo lugar, o qual agora era sede de um grupo de Pentecostais de raça negra. Outro grupo se formou graças a novos ‘batismo no espírito’, chegando-se até a pronunciar a invocação sobre um sacerdote, Pe. Saverio Mazzi, encarregado pelo bispo de Verona, Dom Nicora, sucessor de Dom Amari, de estar presente nos encontros de oração. Por essa época conheci um grupo de católicos tradicionalistas de Verona, mas sua Fé católica era incompatível com a minha. Tive de escolher e deixei definitivamente, apesar das dificuldades, a experiência carismática. Dou graças a Deus, o qual me fez conhecer verdadeiros amigos, que nunca me abandonam e que são uma referência constante para mim.

Esses quinze nos passados na Renovação Carismática não deixaram nenhum vestígio positivo em minha vida. Aos 44 anos me encontro sem família, a qual amo e à qual me sinto unido, com a sensação de haver perdido inutilmente tanto tempo e com poucas forças para rezar e seguir o único caminho que considero válido atualmente: o caminho do catolicismo tradicional. De qualquer forma, creio que para os que amam a Deus tudo sucede para seu bem e que Ele pode mudar totalmente em um momento a situação em que me encontro, da qual, ao menos por ora, não vejo saída alguma.

A crise atual da Igreja, da qual Nossa Senhora falou em Fátima e da qual faz parte a Renovação Carismática como elemento principal, terá fim. Acabarão, para maior glória de Deus, as adulações humanas, os falsos carismas e as mentiras dessa espiritualidade demoníaca».

 

Carta devidamente assinada

Pseudo-misticismo modernista

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um padre nos escreve:

 

“Senhor Diretor,

 

"Obrigado, obrigado por sua defesa da verdade católica, obrigado por seus artigos documentados e precisos. Mas, se posso me permitir uma sugestão, porque não lança um olhar mais atento às numerosas publicações "religiosas" que, atrás do biombo do decreto da Congregação pela Doutrina da Fé, confirmado pelo Papa Paulo VI, não são mais submissas ao imprimatur e publicam o que querem? 1 Por exemplo, o que se deve pensar de certas publicações das Edizioni Dehoniane de Roma, que publicam livros como La vrai vie de Dieu de Vassula Ryden, páginas pretensamente escritas "sob o ditado de Jesus"? Ela é comparada a Santa Francisca Romana; "ela comunga tanto entre os católicos como entre os ortodoxos ou anglicanos" (segundo René Laurentin). Que podemos pensar das numerosas "mensagens" de Jesus, de Nossa Senhora, etc...? das profecias sobre o próximo fim do mundo (é assim que se explica o terceiro segredo de Fátima)? E o senhor conhece L´avenir avant l´an 2000 de Jean Stiegler (Edizioni Segno)? Aí encontramos Medjugorje, dom Gobbi e outros "místicos". O que devemos pensar? Como devemos acolher tais publicações, que alguns fiéis submetem a nosso julgamento..."

 

Carta assinada.

 

Caro amigo,

 

Em tempos normais nossa resposta teria sido breve e concisa: os filhos da igreja devem seguir o exemplo de sua santa Madre Igreja, que não exclui as pretensas revelações privadas, mas pede garantias para estar certa de que não se trata de ilusões privadas ou, ainda pior, de imposturas humanas ou de enganações diabólicas. A primeira garantia é que estas "revelações" estejam em harmonia com a Revelação de que a Igreja é depositária há dois mil anos.

São João da Cruz escreve: "Tão grande é a importância de nos servirmos da razão e doutrina evangélica que, mesmo no caso de recebermos algo por via sobrenatural  queiramos ou não  só devemos admiti-lo quando é conforme à razão e aos ensinamentos do Evangelhos" (A Subida do monte Carmelo, 1.2 c. 21 n. 4; ver também em Si Si No No, ed. francesa, de agosto de 1990: Brouillards du révélationnisme et lumière de la foi, pelo padre Calmel O.P.).

E, com esta regra fundamental, se faria justiça à imensa maioria das "revelações" atuais. Mas o atual pululamento de fenômenos pseudo-místicos é tão estreitamente ligado à crise neo-modernista que atormenta a Igreja, que se torne necessária uma explanação muito mais vasta.

 

Raízes protestantes

A Igreja Católica ensina de modo infalível que a fé é essencialmente um assentimento sobrenatural da inteligência à verdade revelada por Deus (Vaticano I, Dz. 1789). Certo, a inteligência é levada a este assentimento sob a ação da graça; certo, esse assentimento é acompanhado de humildade, de confiança, de abandono (o ato de fé não é um frio julgamento científico), mas o ato de fé é antes de tudo e essencialmente um ato da inteligência, a adesão do espírito a uma verdade, obscura em seus "porque" e no "como" e, no entanto, muito certa, porque revelada por Deus, que não se engana nem pode nos enganar.

O protestantismo, ao contrário, realizou uma verdadeira revolução coperniana: o ato de fé, para Lutero, não é um ato de conhecimento ou intelectual (a razão seria, em matéria de religião, inteiramente cega e a Igreja católica teria errado em lhe dar confiança demais), mas um simples ato efetivo ou emocional; não mais a adesão a todas as verdades reveladas (fé dogmática), mas simples sentimento de bem estar espiritual, confiança de ser perdoado e salvo. A revolução coperniana de Lutero achou sua sistematização filosófica no kantismo, que desvaloriza a razão (agnosticismo) e recorre à vontade ou "razão prática" para dar um fundamento à religião.

 

A revolução modernista

O modernismo hoje e o neomodernismo marcham sobre os traços do protestantismo ou do kantismo, mesmo se à oposição kantiana entre "razão pura" (inteligência) e "razão prática" (vontade) eles preferem a oposição entre razão e sentimento: "para os modernistas, escreve São Pio X, a revelação divina não pode ser crível por sinais exteriores, e [...] é somente pela experiência individual ou pela inspiração privada que os homens são movidos à fé" (Pascendi).

De fato, para o modernista, contrariamente às definições infalíveis do Concílio dogmático Vaticano I (De Fide, can. 3 e De Revel. can. 1), o homem não pode saber com a razão se Deus existe realmente nem se interveio realmente na história do gênero humano com uma Revelação exterior. E, no entanto, o modernista não faz profissão de ateísmo. Ao contrário, ele se declara fiel: Deus  afirma  existe realmente e tenho certeza. E de onde pode tirar tal certeza? Não da razão, não da Revelação divina, mas de sua "experiência religiosa". É esta experiência individual, subjetiva, interior, esta "intuição do coração" que, sozinha, para os modernistas, torna o homem certo da existência de Deus: aquele que não "sente" Deus em si não pode achá-lo em outro lugar; somente o sentimento e a experiência religiosa, manifestando Deus ao homem, fazem do homem um "crente" (ver São Pio X, Pascendi). De onde pode deduzir-se que toda atividade do modernista é voltada a fazer e a promover a "experiência" do divino, porque para ele e contra o Concílio dogmático Vaticano I, os homens devem ser levados à fé somente "pela experiência individual ou pela inspiração privada" (Conf. Pascendi e Vaticano I, De Fide can. 3). 

Ora, é verdade que a experiência religiosa, entendida como caminho da fé, traz maior luz e mais calor às verdades da fé, mas também é certo que a vida de fé nasce das verdades da fé e que sem verdades de fé não há vida de fé autêntica, porque neste domínio, igualmente, o conhecimento deve guiar e esclarecer a vontade, a sensibilidade e toda experiência do divino, seja ela qual for. Uma vez posta a doutrina de lado, nada assegura mais ao homem que ele não seja vítima de uma ilusão (ou de uma enganação diabólica) quando segue um convite ou uma atração interior. A pretensão de um contato sensível e imediato com o divino constitui arrogância culpável e é este o abismo pelo qual o falso misticismo se precipita nas ilusões, nas enganações diabólicas, e freqüentemente na lama. Quando esta procura de experiências místicas, mesmo extraordinárias, é acompanhada da recusa, mesmo tácita, da doutrina católica, o abandono da parte de Deus ao "espírito de vertigem" (Is 19, 4) é certo e as imposturas se multiplicam.

 

Desordem doutrinal

Antes de falar nisso é necessário lançar um olhar na desordem doutrinal radical, que no modernismo nasce da exaltação da "experiência religiosa"; desordem que não poupa nenhuma das verdades católicas fundamentais. O pseudo-misticismo, de fato, é somente a ponta de um iceberg diabólico no caminho da Igreja católica.

, já vimos, não é mais (no Modernismo) um assentimento sobrenatural do espírito à Revelação divina, mas um ato emocional muito natural. A Revelação não é mais um fato histórico, exterior ao fiel, fato que se fechou com a morte do último Apóstolo e que veio a nós pela tradição escrita e oral; mas é um fato atual, interior, destinado a renovar-se continuamente em cada indivíduo e para cada geração, é a tomada de consciência pelo homem de sua "experiência" do divino. A própria religião cristã só é o fruto da experiência do divino, realizada na consciência de Cristo, "homem de natureza excelente como nunca se viu nem nunca se verá" (mas somente homem), experiência destinada a se renovar em seus discípulos. Pode-se, entretanto, até se admitir uma "experiência religiosa" análoga igualmente em Maomé, Buda e todos os outros iniciadores de grandes religiões. Além do mais, pode-se admitir em Cristo um grau mais elevado de experiência e de consciência religiosa, mas do mesmo modo que se fala da revelação cristã, assim se pode e se deve falar (como hoje de fato se fala) de uma "revelação" maometana, budista, etc. etc. Isto resulta na abolição de toda diferença entre religião natural e religião sobrenatural revelada, entre verdadeira e falsas religiões: de um lado a religião cristão "do homem Cristo", não menos que nos outros fundadores de religiões positivas, é um "fruto inteiramente espontâneo da natureza" (naturalismo) e, de outro lado, todas as religiões são boas e reveladas por Deus (ecumenismo). Uma vez descartados os motivos da credibilidade do Cristianismo e toda referência doutrinal sólida, e posto no lugar este fundamento de "experiência religiosa— escrevia São Pio X —  "a doutrina da experiência juntamente com a outra do simbolismo, consagra como verdadeira toda religião, sem excetuar a religião pagã. Não encontramos experiências deste gênero em todas as religiões? Muitos o dizem. Ora, com qual direito os modernistas negariam a verdade às experiências religiosas que se fazem, por exemplo, na religião mahometana? E em virtude de que princípio atribuiriam eles, somente aos católicos, o monopólio das experiências verdadeiras? Eles se protegem bem dessas perguntas: uns escondidos, outros abertamente, tomam por verdadeiras todas as religiões" (Pascendi).

Tradição, portanto, não é mais a transmissão das verdades reveladas por Deus mas, sim, a transmissão de "experiências religiosas", que devem suscitar novas experiências (Tradição "viva"). A própria Sagrada Escritura, no antigo e novo Testamento, é somente um produto e uma colheita de "experiências religiosas", e a inspiração não é nada mais do que um impulso que expressa estas experiências.

dogma, enfim, é somente a formulação intelectual, segundo as concepções filosóficas dominantes, de uma experiência religiosa que, contudo, assim como toda experiência, fica individual e incomunicável. Os dogmas, então, não fixam de um modo estável uma verdade revelada, mas são a formulação provisória e sempre imprópria da experiência religiosa. Eles não têm valor cognitivo, mas somente prático. Por exemplo, quando me dizem que Deus me julgará, querem dizer somente: "Comporta-te como se Deus te fosse julgar". Se em seguida Deus me julgará realmente, é um fato que não sabemos e que nunca saberemos (agnosticismo). Um dogma é "verdadeiro" enquanto demonstre ser apto para alimentar a piedade ou a suscitar novas emoções religiosas; se não for mais útil para isto, será "falso" e deverá então ser mudado (evolucionismo dogmático).

Assim, tudo no modernismo é levado ao sentimento e à experiência religiosa e explicado em função destes elementos. A própria Apologética se reduz, para um modernista, a levar a incredulidade e a dúvida a "fazer a experiência" do Cristianismo.

 

A apostasia

Pelo caminho da "experiência religiosa" o modernismo chega também a uma "nova religião", que não é mais a religião fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma verdadeira apostasia vestida de razões mais ou menos especiosas, particularmente de uma falsa "caridade", porque é privada de seu fundamento que é a fé: a caridade "ecumênica".

 

Sob os véus de uma "mística" enganosa

O repúdio a uma verdade objetiva e imutável (que por si permite julgar pretensas "revelações") associada à procura de "experiências religiosas" mesmo extraordinárias (coisa que é severamente proibida pela verdadeira mística), faz do modernismo, como já fez do protestantismo, o terreno de cultura mais propício para ilusões místicas, fruto da fantasia e do sentimento, por imposturas humanas e mesmo por enganações diabólicas. São João da Cruz escreve: "O demônio se alegra muito quando uma alma facilmente admite revelações, e quando ele a vê inclinada a isto, porque então ele tem numerosas ocasiões e modos de insinuar erros e de derrogar a fé no que lhe é possível" (Subida do Monte Carmelo I, II c. X n. 10).

É um fato (explique quem puder...) que quase todos os "místicos" e os "carismáticos" atuais, sob o véu do convite à oração, ao jejum, etc, etc. (o demônio, como se sabe, está disposto a "perder um pouco para ganhar muito") difundem os dois erros mais perniciosos do modernismo: o indiferentismo religioso e o ecumenismo.

Tomemos o exemplo de Vassula Ryden, a quem nosso amigo leitor fez alusão. Tiramos nossas informações de Medjugorge - espírito e verdade, março de 1992 (pode-se notar que Vassula Ryden e Medjugorje se fazem publicidade recíproca).

Vassula, a "santa Francisca Romana de nosso tempo" (somente porque ela tem marido e filhos), não é nem mesmo católica, mas ortodoxa, e dá a volta ao mundo para pregar aos católicos, em nome do católico "Sagrado Coração" a... "caridade sem fé" dos modernistas (São Pio X). "A chave da unidade — diz ela — é o amor e a humildade [...] Muitos padres ortodoxos gregos pensam que a unidade virá quando os católicos se converterem para se tornarem ortodoxos gregos e muitos católicos pensam o inverso. Bem, as duas partes estão erradas" (pág. 82). "Então, tudo estará no nível do coração?" pergunta o jornalista. Resposta: "exatamente" (pág. 83). E então, afirma Vassula, não há "nenhuma razão para me fazer católica" (pág. 83), o que Jesus quer é "a unidade por meio do coração. A nova (sic!) Igreja que Ele quer unir é unida no coração" (ibid).

Evidentemente, o "Jesus" de Vassula pensa muito diferente do Jesus do Evangelho, que não quer unir nenhuma "nova Igreja", porque sua Igreja Ele já uniu, e não somente "no coração", mas na realidade, e isso há dois mil anos. Depois disso Ele a manteve unida até hoje, não obstante as defecções de numerosos batizados durante os séculos.

"Você nunca se perguntou — sugere a "mística" Vassula à seu entrevistador —  por que Jesus não escolheu um católico para transmitir esta mensagem, apesar de se apresentar como o Sagrado Coração? Ele quis tomar uma ortodoxa que não conhece nada. Ele a forma como quer em termos católicos, precisamente para mostrar que Ele não faz diferença. Sim, a unidade se fará no coração. A virgem disse isso também em Medjugorje" (ibid). Então "no domingo vou à Igreja ortodoxa... nos outros dias vou à católica. Não faço diferença... Jesus me guia e nunca fez objeções a este meu modo de agir." E assim, em nome de Jesus "místico", a "vidente" pretende fechar a boca daqueles que teriam ainda objeções a fazer em nome de Jesus do Evangelho. Não! Jesus — o verdadeiro —  não se contradiz. Não contradiz tampouco o que a sua Igreja ensina infalivelmente há dois mil anos. Na realidade, este "Jesus" de Vassula, sob alguns "termos católicos", leva a crer em uma doutrina não católica: a heresia do modernismo, que considera que todas as religiões são boas; faz que seja "deglutido" o indiferentismo religioso, a "unidade na diversidade" do protestante Cullmann e do cardeal Ratzinger (ver Sim Sim Não Não, julho de 1994, "Ratzinger, Prefeito ecumênico... pela "abolição" do papado...!?").

Esta "unidade no coração", sem unidade de fé, já foi condenada por Pio XI em Mortalium Animos e com palavras que podem parecer ter sido escritas para Vassula Ryden: "Estes "pan-cristãos", que procuram federar as Igrejas, parecem perseguir o nobilíssimo desejo de desenvolver a caridade entre todos os cristãos: mas como imaginar que este crescimento de caridade se faça em detrimento da fé? Ninguém ignora que o próprio São João, o Apóstolo da caridade, aquele que no seu Evangelho transmite de algum modo os segredos do Sagrado Coração de Jesus, aquele que não cessava de lembrar a seus fiéis o novo preceito: "Amai-vos uns aos outros" (1 Jo 4, 7-11), proibia de modo absoluto toda relação com aqueles que não professassem a doutrina de Cristo inteira e pura: "Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o receba em sua casa e nem mesmo o cumprimente" (2 Jo 10). (O Ecumenismo. Publicações Courrier de Rome, pág. 137).

Mas eis em nossos dias uma nova "apóstala da caridade", escolhida por Jesus entre os ortodoxos "precisamente para mostrar que Ele não faz diferença", que vem mostrar aos católicos que o Sagrado Coração de Jesus hoje... mudou de opinião e que pensa exatamente o contrário!

 

Um clero e uma hierarquia cúmplices

Que católico pode levar a sério tais "revelações"? As regras católicas para discernir se as pretensas "revelações" vêm de Deus ou de outras fontes (ilusão ou impostura do demônio) são claras: "Devemos considerar como falsa toda revelação privada oposta a uma verdade de fé" (A. Tanquerrey - Précis de théologie ascétique et mystique no. 1501 a). "Então, se [...] nos for revelada alguma coisa nova e diferente no domínio da fé, não devemos aceitar de modo nenhum, mesmo se estivermos certos que aquele que nos manifesta é um anjo do Céu. Assim afirma São Paulo... (Gl 1, 8)" (São João da Cruz - Subida do Monte Carmelo, livro 2, capítulo 27 número 3).

O que dizer então, se não se trata de um anjo que se afirma mensageiro do Céu, mas de uma ortodoxa que, não obstante seus contatos "místicos" com o "Sagrado Coração", proclama que quer ficar no cisma e na heresia.

E no entanto, constata-se (fato mais explicável!) que estes "místicos" e "carismáticos" encontram bom acolhimento pelos clérigos neomodernistas. Os Dehonianos (o falso da imprensa "católica" não conhece mais limites nem medidas), publicam os escritos de Vassula Ryden, enquanto que Laurentin, um dos mais nefastos teólogos do pós-concílio, que não crê na virgindade de Maria mas "crê" em Medjugorje, faz uma propaganda muito ativa da "mística" ecumênica Vassula 2. E Il Segno del soprannaturale (revista italiana que mistura ingenuamente revelações verdadeiras com outras falsas   para ser mais exato: mistura mais falsas do que verdadeiras) publicava há algum tempo a foto de Vassula Ryden recebida em audiência por... João Paulo II!

Aliás, sabe-se por muitas fontes que João Paulo II observa "com inquietude e alegria" os fatos de Mejugorje (cf. Mons. Hnilica em Il Segno del soprannaturale, maio de 1988; ver também Eco di Medjugorje no. 96, outubro de 1992, pág. 1). O cardeal Ratzinger, por sua vez, exprime assim seu "julgamento de fundo positivo" sobre o movimento "carismático": "Certamente, trata-se de uma esperança, de um sinal positivo dos tempos, de um dom de Deus à nossa época" (Conferências sobre a Fé, Cardeal Ratzinger, V. Messori, Fayard, 1985, pág. 186).

Devemos então contradizer estes fiéis, que exibindo pseudo-revelações de pseudo-místicos afirmam que estes são rejeitados pela Igreja oficial. Talvez alguns padres ou bispos, ainda conscientes de sua responsabilidade diante de Deus, se recusem a ser cúmplices de uma fraude tão grave e tão grosseira, mesmo se é orquestrada em escala mundial. É, por outro lado, um fato reconhecido que hoje os "místicos" e os "carismáticos" são favorecidos imprudentemente e sem discernimento, enquanto que os verdadeiros místicos (basta pensar no padre Pio) encontram não somente uma prudente reserva, mas mesmo certa hostilidade. Assim, para nos limitar aos nossos exemplos, o movimento "neo-pentecostal", não obstante suas heresias, denunciadas de muitos lados, conseguiu aprovação e apoio por parte de João Paulo II. Assim o cardeal Ratzinger enterrou habilmente a condenação de Medjugorje pelo bispo Zanic e o julgamento substancialmente negativo ("o caráter sobrenatural dos fatos não está estabelecido") da conferência episcopal iugoslava. Assim, o bispo "guerreiro" Mons. Milingo, que garantiu o falso ridículo da foto "milagrosa" de Jesus (conf. Sì Sì No No, 15 de abril de 1994, pág. 4), contestado por seus confrades africanos, achou proteção e hospitalidade no Vaticano. Como explicar então, esta derrogação à prudência tradicional da Igreja face aos fenômenos "carismáticos"? Porque a hierarquia católica, até o cume (é nosso dever dizer), é composta de numerosos modernistas e filomodernistas favoráveis, por motivos já explicados, às "experiências religiosas" de todo gênero. Basta aqui lembrar Urs von Balthasar, um dos "padres" do neo-modernismo, perdido atrás do falso "misticismo" de Adrienne von Speyr, nomeado cardeal por João Paulo II. O qual João Paulo II desejou e cobriu com sua própria autoridade um simpósio romano em honra de Adrienne von Speyr (v. Sim Sim Não Não de fevereiro de 1994. "Urs von Balthasar, o pai da apostasia ecumênica).

 

"Perder um pouco para ganhar muito"

Há, entretanto, outro motivo que pode explicar o favor mais ou menos tácito dado pelos membros modernistas da hierarquia ao "pseudo-misticismo". Quando o velho modernismo parecia morto, A. Loisy deu assim a razão: "Com menos razão e mais entusiasmo religioso, ele foi mais forte" (Choses passées, pág. 355). Na realidade, os modernistas, conquanto inimigos da razão, são intelectuais e seus sofismas e sua linguagem, se podem fascinar algumas "elites", mostram-se frios e incompreensíveis para a massa (o cardeal Ratzinger, em 30 dias, exprimiu há algum tempo um lamento substancialmente idêntico a respeito dos "novos" teólogos). Logo, não há nada mais adaptado do que os "místicos" ou os movimentos "carismáticos" para suscitar nos simples fiéis este "entusiasmo religioso" que o neomodernismo precisa para não ser, ele também, um "estado maior sem tropa" (J. Rivière) destinado, mais uma vez, à derrota. Mesmo Teilhard de Chardin, S. J., um dos "santos padres" do neomodernismo, queria que a "nova Fé para a Terra" se desenvolvesse no seio do velho cristianismo, "partindo da maravilhosa realidade de seu "Cristo Ressuscitado", não como uma entidade abstrata, mas como objeto de uma larga corrente mística extraordinariamente adaptável e vivaz" (carta a um dominicano apóstata que o convidava a sair oficialmente da Igreja - ver Courrier de Rome, junho de 1994, pág. 5).

Não é temerário supor que os atuais membros modernistas da hierarquia vejam nos movimentos "carismáticos" de toda sorte e em diversas "místicas" ecumênicas, o instrumento mais eficaz para difundir o modernismo no nível da massa, assim como para justificar pelo "Céu" o novo curso eclesiástico. E o povo cristão, duplamente enganado, nem mesmo imagina que é levado para a apostasia através das nuvens "místicas" e "carismáticas" do convite à caridade, à oração e à penitência (jejum inclusive). Tanto é verdade que o demônio "sabe que é preciso perder um pouco para ganhar muito" (bem-aventurada Acarie, fundadora do carmelo na França). E no caso presente, o lance no jogo é enorme e decisivo. Os Papas nos advertiram muitas vezes: "o fundamento sobre o qual [o movimento para promover a união entre os cristãos] se apóia, é de natureza a desorganizar totalmente a constituição divina da Igreja", escrevia Pio IX ao episcopado inglês em 16 de setembro de 1884; e Pio XI advertiu aos católicos, que aderindo ao movimento ecumênico ou o ajudando, eles "estariam atribuindo autoridade a uma religião falsa, inteiramente estranha à única Igreja de Cristo" (Mortalium animos). Não nos deveríamos espantar que Satanás, para sustentar o ecumenismo atual, gaste todas as suas baterias.

 

Como se salvar

Como se vê, caro amigo, a impostura dos "místicos" e dos "carismáticos" atuais de todo gênero (colocamos também nesta categoria aqueles chamados "movimentos eclesiásticos", todos mais ou menos "poluídos" de pietismo), é um fenômeno muito mais grave do que o dos falsos místicos contra os quais, periodicamente, a Igreja teve que defender-se.

Você compreende agora, também, porque nós combatemos de preferência no campo doutrinal; lutando contra os erros doutrinais do neo-modernismo, vamos também à raiz do pseudo-misticismo atual. Seja sobre o plano doutrinal, seja em face às pretensas "revelações", a atitude de um filho da Igreja é substancialmente idêntica: permanecer solidamente no que a Igreja ensina desde dois mil anos e que, no que concerne aos fenômenos místicos, é assim resumido por Tanquerrey:

"toda revelação contrária à fé ou aos bons costumes deve ser inexoravelmente rejeitada, como ensinam unanimemente os doutores apoiados sobre as palavras de São Paulo: "Quando nós mesmos ou um anjo vindo do Céu vos anunciar um evangelho contrário ao que vos anunciamos, que seja anátema". A. Tanquerrey, Précis de Théologie Ascétique et Mystique, no. 1501).

Isidorus

(Revista Sim Sim Não Não n°36, dezembro de 1995)

  1. 1. Paulo VI confirmou, em 14 de outubro de 1966, o decreto da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (Acta Apostolicae Sedis no. 58/16 de 29.12.1966) permitindo a publicação de escritos concernindo às manifestações sobrenaturais, mesmo se esses escritos não estão revestidos do "nihil obstat" das autoridades eclesiásticas.
  2. 2. Na França, um dos órgãos principais do pseudo-misticismo modernista é a publicação mensal Chrétien magazine, cujo editorialista é o padre Laurentin.

Sedevacantismo: uma resposta ilógica e indefensável

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Um leitor nos escreve:

 

Caro diretor,

Li com grande interesse seu artigo no Sim Sim Não Não de setembro passado (há sete anos devoro esse jornal, forte alimento espiritual que tem renovado minha vida) e gostaria de partilhar certas considerações e questões sobre um assunto que para mim é de importância vital. O senhor diz com Leão XIII que às vezes é preciso desobedecer aos homens para obedecer a Deus, o que é muito correto. Pergunto-me, entretanto, como o simples fiel pode fazer distinção, cada vez que o Papa fala, entre o que está correto e o que não está. O simples fiel tem uma noção da infalibilidade que talvez não seja teologicamente exata, mas é uma noção de bom senso: normalmente, podemos confiar tranqüilamente no que diz o Papa quando se trata de um assunto justo e santo, mesmo que tal assunto não esteja dentro do âmbito da infalibilidade. O Papa age e fala normalmente para o bem das almas e não para sua perdição. Na verdade, a atitude da maioria esmagadora dos católicos em relação aos que são fiéis à tradição é uma atitude de desconfiança, pois aparentemente, estes “pretendem saber mais do que o Papa”. Nós temos o Sim Sim Não Não e outras publicações excelentes para nos guiar, mas o que farão os que não têm essa chance? Como pode o simples católico se orientar nos meandros do magistério papal, guardando o que deve ser guardado e rejeitando o que deve ser rejeitado? O Papa não é a norma estrita da verdade? Quero dizer que, se formalmente o discurso de Georgius não muda de rumo, conclui-se que, pelo intuito ou pelo bom senso (não falo do sensus fidei), ou deve-se aceitar tudo o que o Papa diz ou deve-se tudo desprezar. Não me refiro a assuntos menores, mas à linha magisterial em seu conjunto, linha caracterizada por um extremismo ecumênico sem precedentes, fundada sobre um erro doutrinal de fundo (o fundamento da salvação deslocado da Redenção para a Encarnação), como bem mostrou o professor Doerman em suas obras. Eis porque as posições sedevacantistas, sem entrar nas distinções entre elas, me parecem mais lógicas e mais defensáveis, entre outras razões, porque permitem não nos  alinharmos com os extremistas de “esquerda”, que criticam o Papa por motivos opostos. Não ignoro que o sedevacantismo origina alguns problemas doutrinais, mas eles me parecem menos graves do que o fato de reconhecer como Pontífice uma pessoa que, ocasionalmente, tem razão em pontos particulares, mas que fundamenta seu pontificado sobre uma doutrina já condenada pela Igreja, e que instaurou na própria Igreja (os senhores ilustram isso regularmente na rubrica “Semper Infideles”) uma situação aparentemente desesperadora. Não foi o senhor que nos explicou (esses princípios estão gravados na minha alma) que “a fé ou é inteira ou não é”, que “a pior mentira é aquela que se aproxima da verdade”, e que nas heresias e nas falsas religiões “a verdade serve ao erro”? Não podemos repetir tudo isso, falando de João Paulo II? Ele não parece lembrar-se da doutrina católica somente de vez em quando? Para que tenhamos certeza de que ele não é Papa, ao menos formalmente (o caso do Papa herético é previsto pela doutrina), o que teria ele ainda de dizer ou fazer, pior do que já tenha dito ou feito até hoje?

Essas questões me atormentam há anos, desde que conheci o tradicionalismo. A divisão sobre esse ponto separa muitas pessoas, muitos bons combatentes, espalhando incompreensões e ódio entre eles, a ponto de fazer o que Leopardi deplorava em “Ginestra”: voltar as armas contra os próprios companheiros em vez de apontá-las contra o inimigo comum. Essa é uma situação que literalmente me impede de dormir. É possível que tudo isso esteja no plano de Deus? 

Com devoção e gratidão, in Jesu et Maria,

Carta assinada.

 

Caro amigo,

A posição sedevacantista não é nem a mais lógica nem a mais defensável; ela é apenas a resposta mais simplista que se pode dar à atual crise da Igreja. Ela se justifica apoiando-se sobre o seguinte silogismo: 1) o Papa é sempre infalível; 2) o Papa se engana; 3) logo ele não é Papa. Mas quando foi que a Igreja ensinou que o Papa é sempre infalível, mesmo quando não fala ex cathedra?

Antes do Concílio Vaticano I, em 1859, o Padre Zaccaria S. J., escrevendo contra Febronius, exprimia assim a fé da Igreja: “o privilégio dado aqui [Lc 22, 32, ss] a Pedro e a seus sucessores comporta a infalibilidade [1onas decisões solenes[2oem matéria de fé e de moral[3odirigidas por ele mesmo a toda a Igreja (Anti-Febronius, t. II c.X). O Concílio Vaticano I apenas dogmatizou essa fé perene da Igreja.

A Cilviltà Cattolica, que era editada sob o controle da Santa Sé, escrevia em seu número 4, de março de 1902:

Mas todo ensinamento é infalível?

"Eis o ponto da questão que muitos negligenciam sem malícia. Mas é dessa negligência que provêm os escândalos que enumeramos abaixo.

Um assunto pode encontrar-se fora da esfera da infalibilidade do magistério eclesiástico de dois modos, isto é, por duas razões: seja por estar fora do objeto da infalibilidade prometida à Igreja, seja por estar fora do sujeito ao qual a infalibilidade foi prometida. São objetos da infalibilidade todas as verdades que concernem à fé e à moral ou que estão necessariamente ligadas a elas. O sujeito da infalibilidade é duplo: O Papa, mesmo sozinho, e a Igreja com seu chefe, quando exercem a autoridade de ensino em seu grau supremo. É preciso reter bem esse último ponto, para não cair em equívoco; na verdade é raro que a Igreja e o Papa, no exercício de seu poder e ensino, façam uso de seu poder no mais alto grau, porque eles podem – e é o que acontece normalmente – exortar, aconselhar, permitir, ordenar, sem verdadeiramente definir ex cathedra por sentença irrevogável”.

A posição sedevacantista é fundada sobre uma premissa errada (o Papa é sempre infalível), e essa razão já é suficiente para considerá-la como ilógica e indefensável.

Todos os textos de teologia católica, além disso, (da verdadeira teologia católica, naturalmente, não da “nova teologia” que é elucubração neomodernista) distinguem o magistério pontifical infalível do magistério pontifical simplesmente autêntico (isto é, provido de autoridade, mas não infalível), e portanto, distinguem o assentimento absoluto, incondicional, sem exame (cego), devido ao magistério infalível, do assentimento que se deve ao magistério “mere authenticum”: assentimento relativo, condicionado, em que o exame é permitido, e portanto também a eventual suspensão ou eventual recusa do próprio assentimento. Os sedevacantistas pularam essa página da teologia católica. Com que direito?

Além do mais: a questão do “Papa herético” é ainda uma questão controvertida, sobre a qual teólogos (e canonistas) estão longe de entrar num acordo e sobre a qual a própria Igreja não se pronunciou.

Assim, certos teólogos competentes excluem o fato de que o Papa, como “pessoa privada” (mas o que significa pessoa privada não está muito claro) possa cair em heresia, outros teólogos tão competentes quanto os anteriores sustentam o contrário, enquanto que outros ainda levam em consideração as duas hipóteses. Quase todos os teólogos autorizados sustentam que o Papa herético é destituído de seu pontificado, mas outros, como Bouix, afirmam o contrário, e mesmo dentro do primeiro grupo há divergência: alguns pensam que o Papa herético perde seu pontificado no mesmo momento em que cai na heresia, outros pensam que ele o perde quando sua heresia torna-se manifesta (esses últimos não chegam a um acordo sobre o que se deve entender por heresia “manifesta”); enfim, segundo alguns, o Papa herético perde ipso facto, automaticamente, o pontificado; segundo outros, é necessária uma declaração de heresia por parte – e aqui também há divergência – de um concílio ou de cardeais ou de bispos.

Resumimos tudo isso rapidamente1 mas é o suficiente para podermos indagar: é lógica e defensável uma posição cujo fundamento, em matéria tão grave, está numa hipótese (e não numa doutrina) teológica ainda controvertida?

Além de tudo, o senhor próprio escreve que para poder falar de um “Papa herético” é necessário que ele seja formalmente herético. Portanto, é preciso que ele professe um erro contrário à fé (heresia material) e também, consciente e deliberadamente, sustente a heresia com obstinação, o que constitui propriamente a essência, a forma da heresia. Ora, podemos afirmar com certeza que os últimos Papas sejam Papas formalmente heréticos? Não poderiam ser eles – e esta é nossa modesta opinião – Papas teologicamente mal formados e, sobretudo, fascinados pela ilusão ecumênica, em que eles não percebem plenamente todas as implicações heréticas?

Não queremos discutir opiniões, e o que acabamos de expor é apenas uma opinião. De definido e claro há apenas o fato de que, enquanto a heresia formal não for provada, não se pode falar em “Papa herético”.

Abordemos agora o problema das almas. Normalmente  (o senhor tem toda razão de sublinhar esse termo) é de bom senso confiar tranqüilamente no Papa, mesmo quando o que ele ensina não está garantido pelo carisma da infalibilidade. O Papa normalmente (ainda é o senhor que frisa) fala e age para o bem das almas, mas o sensus fidei e os frutos da atual corrente eclesial nos advertem de que não estamos mais em tempos normais.

Uma vez que o fiel tenha tomado consciência da anormalidade dos tempos, não é preciso que ele faça distinção, cada vez que o Papa se pronuncia, entre o que está certo e o que está errado. Não. Basta que ele, em cada caso, recuse o que ele percebe ser contrário à fé constante da Igreja. Essa fidelidade, que não exige grande ciência teológica, atrairá para ele, da parte de Deus, luzes cada vez maiores. Para quem teve a sorte de conhecer a normalidade dos tempos com Pio XII, basta ater-se ao que foi ensinado naqueles tempos de posse tranqüila da doutrina. É verdade que a doutrina já estava atingida pelo modernismo, mas ela era defendida por Roma (e hoje os modernistas acusam a Igreja de ter feito isso). As gerações seguintes, mesmo se não tiverem acesso ao Sim Sim Não Não e outras ótimas publicações, têm a ajuda interior do Espírito Santo e o catecismo de São Pio X, que resume a fé perene da Igreja (e por isso ele é tão mal visto pelos modernistas). Os erros de hoje são tão enormes que basta, para percebê-los (não estou dizendo para refutá-los), conhecer bem o catecismo da Santa Igreja.

Infelizmente, o Concílio aconteceu quando os católicos já se encontravam num deplorável estado de ignorância culpável e de fé morta não traduzida em atos na vida prática. Os Pontífices Romanos pré-conciliares lutaram, sem terem sido escutados, contra essa decadência. Lembremo-nos do brado de S. Pio X: “Catecismo! Catecismo!” e do doloroso discurso de Pio XII sobre as “almas mortas”, numerosas demais.

Como o sensus fidei não pode se exercer sem um conhecimento elementar das verdades da Fé e um esforço sério para viver segundo a Fé, compreende-se que muitos católicos não tenham sabido enfrentar a prova, cuja gravidade talvez nem tenham percebido (o que demonstra falta de vitalidade espiritual). O ensinamento da Sagrada Escritura se verifica aqui: os maus pastores são uma punição para todo o povo infiel.

Seja como for, a provação atinge também as almas de boa vontade, e é uma verdadeira prova, pois, como escreve o Padre Palmieri2, o Papa, “mesmo que não fale com toda plenitude de sua autoridade (magistério infalível), fala com autoridade, eis porque não se pode considerá-lo como um doutor qualquer”. É então difícil e doloroso – eu diria até antinatural – para toda consciência católica ter de resistir ao Papa, assim como seria difícil, doloroso e antinatural um filho ter de resistir ao pai se este o obrigasse a fazer qualquer coisa contra Deus. Difícil e doloroso, mas justo, por fidelidade a Cristo e para sua própria salvação e previsto pela doutrina católica (mesmo se até Pio XII não foi necessário ensiná-la comumente ou lembrá-la). Na verdade, deve-se ao Pontífice Romano, quando ele não ensina infalivelmente, “um assentimento religioso desde que não haja nada que aconselhe, segundo a prudência, a suspensão do assentimento”3. Hoje, o motivo que aconselha a suspensão prudente do assentimento é fundamental: o magistério dos últimos Pontífices, dotado de autoridade, mas não de infalibilidade, está, por razões abertamente ecumênicas, em contradição com o ensinamento infalível e bimilenar da Igreja. Ora, é claro que “o Papa é norma estrita da Fé”, mas, precisamente por ser “norma estrita”, o Papa tem o dever de estar em harmonia com a norma mais alta da Fé: a Revelação divina (Sagrada Escritura e Tradição), tal como ela foi fiel e infalivelmente transmitida e explicada pela Igreja durante dois mil anos. Eis porque um Papa em ruptura com a Tradição, que em lugar do “depósito da Fé” propõe suas opiniões pessoais e suas utopias, cessa de ser norma “estrita da Fé”.

A suspensão do assentimento pode também ser geral, se a prudência exigir, mas tal suspensão não tem nada a ver com a proclamação de que o Papa é “herético” e que a sede de Pedro está vazia, proclamação que seria também – esperamos tê-lo demonstrado – altamente imprudente, pois corre o risco de lançar os sedevacantistas num cisma irreparável.

Nessa provação, que é castigo para uns e provação para outros, o fiel é socorrido pela graça divina e reconfortado pela certeza de que, mesmo a partir dos males atuais, Deus saberá tirar um bem maior para a Igreja e para as almas. Além disso, sabemos por experiência própria – e sua carta no-lo confirma – que Deus não permite que almas sinceras e de boa vontade se percam por causa da crueldade do tempos. Parece que Ele, ao contrário, aumenta Sua graça na proporção em que crescem as necessidades. Se os semeadores da cizânia trabalham nessa noite pós-conciliar, Deus, como o fazendeiro da parábola, não perde o controle da situação e tudo voltará à ordem no tempo oportuno. Então, confiança e coragem!

Passemos às divisões entre os que resistem ao neomodernismo. Essa divisões certamente não são desejadas por Deus mas elas não são de admirar nesse quadro tão transtornado da atualidade. Quando a cabeça não funciona, todo o resto do corpo vacila (“Ferirei o Pastor e as ovelhas se dispersarão” Mc 14, 27). Além disso, essas divisões têm uma função providencial porque elas nos lembram a importância da Autoridade na Igreja e afastam as almas de boa vontade da tentação de erigir uma “Igreja” por conta própria sob pretexto de que a infidelidade dos homens da Igreja encobriu com um véu a Igreja de Nosso Senhor.

Essas divisões (não achamos que cheguem a ser ódios) nascem, enfim, da fraqueza e da miséria humana. Deus nos previne, pela boca de São Paulo: “Não discutam sobre opiniões!” Mesmo assim, alguns não sabem se limitar a defender a Fé sem emitir opiniões pessoais que gostariam de impor aos outros, apesar de não terem a menor autoridade para isso. Eles não se dão conta de que somos como pessoas mergulhadas nas trevas do imprevisto, a quem só resta esperar imóveis que a luz volte, exatamente no mesmo lugar onde a escuridão os surpreendeu. E isso, sem se aventurar a fazer movimentos irrefletidos, bruscos, arriscando cair não se sabe onde.

O centro de unidade estabelecido por Deus é e continua sendo o Pontífice Romano, guardião supremo da verdadeira Fé. Ora, mesmo que os últimos Pontífices pareçam (contra os princípios do Concílio dogmático Vaticano I) ter exercido mais o papel de “inventores” de uma “nova religião” do que o de guardiões da Fé revelada, não estamos totalmente nas trevas, apesar de estarmos mergulhados na obscuridade desde que a lâmpada mais próxima de nós se apagou: contra as heresias do modernismo, temos para nos guiar, diferentemente dos cristãos dos primeiros séculos, dois mil anos de Magistério ordinário e extraordinário. Nenhum “Papa de hoje em dia” tem autoridade para contradizê-lo e é em sua direção que podemos e devemos nos voltar como faríamos em direção a uma luz que ilumina nossas trevas, começando pelo simples e luminoso catecismo de S. Pio X. Tudo isso não significa pretender “saber mais do que o Papa”, é somente pretender saber o que sabe a Igreja, infalível “coluna e fundamento da verdade” (S. Paulo). Nós participamos dessa infalibilidade quando professamos a fé perene, que todo Papa tem o dever de “confirmar” e que ele não tem o direito de transformar nem de por em perigo.

Já dissemos, mas não nos cansaremos jamais de repetir: é tempo que as almas de boa vontade reconstruam em si mesmas e em suas vidas o que elas, sofrendo, vêem se destruído na Santa Igreja de Deus. É assim, e não através de polêmicas perigosas e estéreis contra as vítimas do neomodernismo (que também são, a nosso ver, sedevacantistas) que apressaremos a hora da divina Misericórdia.

Hirpinus

  1. 1. Remetemos os leitores interessados por esta questão ao excelente estudo, detalhado e documentado, que Arnaldo Xavier da Silveira fez sobre este assunto em Considerações sobre o “Ordo Missae” de Paulo VI (edição francesa La nouvelle Messe de Paul VI. Qu’en penser?). Limitamo-nos a citar aqui uma observação importante do autor, que vem a ser igualmente a conclusão do estudo: no estado atual da questão teológica do Papa herético, ninguém pode adotar uma posição determinada, e ainda menos impô-la aos outros.
  2. 2. Tractatus de Romano Pontífice, tese 32, scholion 2.
  3. 3. Ibidem

O drama histórico de dois sacrifícios

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Deus é simples, ou seja, sem partes, sem nenhuma possibilidade de divisão e, portanto, de corrupção. Portanto, Deus é perfeito e eterno. Não pode mudar nem morrer. A Santíssima Trindade não pode perder nem diminuir a sua perfeita simplicidade e a unidade de sua substância; mesmo a própria Trindade das Pessoas exprime com a maior plenitude a perfeição da sua natureza divina.  

Por isso, a simplicidade e a unidade são os sinais da perfeição ou da união da alma com Deus. Por conseguinte, quanto mais uma criatura é composta e complexa mais é imperfeita! Os Anjos são compostos somente de sua essência e da existência que receberam de Deus. O homem, ao invés, além desses dois elementos dos Anjos, é composto ainda de alma e corpo. Todos os outros seres (animais, vegetais e minerais) são ainda mais complexos, e precisamente toda essa composição é a fonte de sua decomposição, ou seja, de sua corrupção e morte.

Daí podemos constatar como a característica da divindade ou santidade de uma obra é sempre a simplicidade. Quando Deus quer significar sua presença — ou quando o homem quer significar a presença de Deus, ou procura fazer qualquer coisa de santo e divino — imprime à obra composta a marca da simplicidade. Todo “dualismo” introduziria na obra divina alguma imperfeição como germe da divisão, da corrupção e, por fim, a duplicidade!

Recordo-me a esse propósito de uma reflexão de meu diretor espiritual — um santo religioso — quando foi eleito papa o cardeal Luciani no ano de 1978, o qual escolheu o nome duplo de João Paulo. Ele me disse: “Desagrada-me ver que desse modo se estabelece a duplicidade no cimo da Igreja! O Corpo Místico de Cristo exige uma cabeça única para manter a unidade. Este nome duplo não me deixa esperar nada de bom...”. De fato, os sucessores de São Pedro tiveram sempre empenho em escolher um nome único para manifestar a vontade de governar a Igreja em nome de seu único chefe, Jesus Cristo. A escolha de um nome duplo destruiu esse símbolo muito significativo, preferindo-se significar no nome a referência aos dois papas do Concílio Vaticano II. O que poderia significar coisa de pouca importância, a mim me parece ser uma característica típica da Igreja conciliar, à qual apraz a duplicidade ou, ao menos, o dualismo, batizado com o nome de “abertura” ou “liberdade religiosa” ou “pluralismo”. Vemo-lo ainda hoje a propósito do conflito entre os sustentadores do antigo e os do novo rito da missa, quando se procura obviar com a introdução do bi-ritualismo (celebrar-se nos dois ritos). E isso me faz temer, porque toda história do sacrifício se resume no drama do conflito entre dois sacrifícios.

Devemos amar uns aos outros. Não como Caim, que era do maligno e matou o irmão. E por qual motivo o matou? Porque suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram boas” (I Jo, 3, 12).

De fato, sabemos que “Abel foi pastor de rebanho e Caim agricultor. Passado certo tempo, Caim ofereceu a Deus sacrifícios dos frutos da terra. Abel depois ofereceu os mais pingues dos primogênitos do seu rebanho. Deus olhou Abel e os seus dons, mas não olhou Caim e os seus dons” (Gen. 4, 2- 5).

Abel ofereceu o mais belo cordeiro de seu rebanho, enquanto Caim ofereceu os frutos da terra. Talvez a sua intenção era boa, mas não soube escolher a coisa mais bela para sacrifica-la a Deus: não ofereceu o mais belo fruto da terra.

A história do homem pode chamar-se a história do conflito entre os dois sacrifícios: o do cordeiro, que foi aceito, e o dos frutos da terra, que não foi aceito; o que foi oferecido sobre o altar em nome do Senhor, e o que foi feito em nome do homem.

O 1° Livro dos Reis (18, 21-40) narra um episódio análogo acontecido entre Elias e os profetas do Baal. Estes — eram quatrocentos e cinqüenta — puseram-se a invocar o nome de Baal de manhã ao meio-dia, depois se agitavam em torno do altar que tinham feito... mas “não se tinha ouvido nenhuma voz e ninguém respondia ou prestava atenção ao que eles pediam”. A primeira concelebração da história resultou em um tremendo conflito (todos foram mortos pelo profeta Elias). Elias, por seu turno, “edificou com pedras um altar em nome do Senhor”, pedindo-Lhe que manifestasse o seu poder: “Mostrai que sois o Deus de Israel e que eu sou teu servo”. E Deus se agradou de seu sacrifício e devorou o holocausto com o fogo.

Não é esse o drama que vivemos hoje? De fato temos a missa de Abel — na qual a Igreja oferece a Deus sobre o altar o seu bem mais precioso, ou seja, o Corpo e o Sangue do Cordeiro imaculado, o primogênito dos filhos de Deus; e temos a missa de Caim, que não tem mais nada a oferecer que “os frutos da terra e do trabalho do homem”, enquanto todos dançam e cantam em torno do altar que foi construído pelo homem como uma mesa. 

Este dualismo não é tolerável, e um destes sacrifícios deverá perecer: o que não foi instituído por Deus para a sua glória! Deverá perecer porque Deus não poderá ser glorificado por um sacrifício inventado pelos não católicos (maçons, protestantes, modernistas) para agradar aos não católicos, como confessou Paulo VI a Jean Guitton. 

Como a Igreja não é bicéfala, assim o seu sacrifício não pode ser senão único (embora seja expresso por ritos católicos diversos). Portanto, se a Missa Tridentina é válida, boa, santa..., como dizem aqueles mesmos que a vetaram há já trinta anos, por que inventaram outra? Por que querer manter a todo custo essa nova missa, quando já foi demonstrado tantas vezes que é dúbia, na sua história como na sua natureza? Como se podem fazer rezar ainda hoje os sacerdotes e o povo católico através dessas preces de um ofertório que não é outra coisa que uma fórmula da Cabala hebraica? Por que esta obstinação em impor o “bi-ritualismo” àqueles que querem conservar a Missa tridentina?

Queira Deus que nossa Mãe, a Santa Igreja Católica, não deva mais suportar esse falso sacrifício. É já muito que tenha sofrido trinta anos. Que a Santíssima Virgem venha logo esmagar esta serpente que quer morder o coração da Santa Igreja, a santa Missa de sempre.

A protestantização litúrgica

Agosto 10, 2018 escrito por admin

Em la Nostra Valle, publicação mensal interparoquial da diocese de Fano-Fossombrone (julho de 1997, pp. 4-5) lemos o título: "Menos missas para uma missa mais verdadeira" [sic!]

O articulista se alegra por "ter ouvido dizer" que "nossos bispos italianos deram normas concretas" para a celebração das missas: "por exemplo: numa mesma igreja, entre uma celebração e outra, interponha-se um espaço de tempo razoável determinado em uma hora e meia, ao menos" (embora o articulista não o precise, temos que supor ques e trata das missas dos dias festivos, dado que uma hora e meia de intervalo para a minimissa de Paulo VI, que não ultrapassa o quarto de hora nem mesmo no melhor dos casos, seria absolutamente incompreensível nos dias de trabalho).

Eis os motivos dessa disposição: "não acumular as celebrações..., pois ninguém deve sentir-se forçado a celebrar apressadamente uma liturgia para não invadir o tempo assinalado para a seguinte". Suposto isto, ainda que não seja verdade, não estaria mais em consonância com a fé limitar o tempo da homilia (geralmente tão prolixa e tão vazia, ou algo pior ainda), do que diminuir o número das missas? Isto porque uma diminuição ulterior do número das missas é a conseqüência inevitável do dispositivo supracitado. Daqui o lema lançado pelo artigo: "menos missas e mais missa", ou seja, "um menor número de missas para uma missa mais verdadeira". Sim, porque -- explica o articulista -- esta é a "razão fundamental" das disposições ditadas pelo episcopado italiano: "é pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário diminuir o número de missas" (como se o seu número não tivesse já sido diminuído consideravelmente pelas "concelebrações", nas quais há muitos concelebrantes, porém uma só missa), dado que a sua multiplicação (em tempos passados, entenda-se) "não favoreceu o incremento da estima em que os fiéis tinham um ato tão divinamente grande como a celebração da Eucaristia (...). A multiplicação das missas ofuscou o seu valor, rebaixando a sua celebração ao nível do rotineiro, do obrigatório (preceito!) [sic!], do mero sufrágio pelos defuntos, do devocionismo; a celebração por excelência converteu-se na celebração para todas as circunstâncias... [e então? não o é?]. Eis aí os "Ofícios de missa" pelos mortos [horror!]: uma missa celebrada atrás da outra; eis aí as "festas", cuja solenidade se mede pelo número de suas missas...".

Médico, cura-te a ti mesmo!

Antes de tudo, é evidente que quem assim escreve (e fazemos votos de que não seja um sacerdote, como tememos) não tem a menor estima nem pela santa missa nem pela sua "divina grandeza", embora afirme esta e se levante como seu paladino.

O concílio de Trento definiu solenemente que Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a santa Missa a fim de que a virtude salvífica de seu sacrifício cruento "se nos aplique para a remissão dos pecados que diariamente cometemos" (Denz. 938); e Pio XII escreve na Mediator Dei, ratificando este ensinamento solene: "o augusto sacrifício do altar é um insigne instrumento para a distribuição aos fiéis dos méritos derivados da Cruz do Divino Redentor": cada vez que se oferece este sacrifício, se realiza a obra da nossa Redenção" (1)

Em conclusão, diremos com o Pe. De Condren que "o sacrifício da cruz merece tudo, mas não aplica nada; o sacrifício da missa não merece nada, mas aplica tudo" (2).

Ora, posto que a Missa nos aplica todos os méritos do Calvário, é mister dizer com Santo Tomás: "o bem comum espiritual de toda a Igreja se encerra essencialmente no Sacramento da Eucaristia" (3), e "com mais Missas... se multiplica a oblação do sacrifício e, por isso, se multiplica o efeito do sacrifício" (4), multiplicar as Missas significa multiplicar a efusão sacramental do sangue de Cristo, e, por conseguinte, de toda a graça, sobre a Igreja e toda a humanidade.

Se o articulista de La nostra valle acreditasse, com a Igreja, que cada vez que se celebra uma Missa "se realiza a obra da nossa redenção", consideraria, com a Igreja, "pastoralmente oportuno, ou melhor, necessário" não diminuir, mas multiplicar o número das Missas.

O eco de Lutero

Digna de nota é a impressionante semelhança que prevalece entre os motivos pretextados pelo articulista de La nostra valle e as "razões" aduzidas por Lutero e seus colegas "reformadores".

Na Confissão Augustana que, embora redigida por Melanchton, exprime a "teologia" de Lutero e ainda hoje os protestantes a consideram "como a expressão oficial da fé da igreja luterana" (5), se lê: "é manifesto -- seja dito sem jactância -- que a Missa se celebra com mais recolhimento e seriedade entre nós [protestantes] que entre os inimigos da nossa causa [os católicos]" (6). Como se a disputa versasse sobre o fervor subjetivo, pessoal, e não sobre o valor intrínseco, objetivo, da Missa, sacrifício verdadeiro e próprio, e não comemoração pura e simples da Ceia e do Calvário!

Na Confissão Augustana - protestante - tudo se passa depois do ataque contra as "missas inúteis e supérfluas": do "erro abominável" da Missa como sacrifício "proveio a grande quantidade, a quantidade incalculável das Missas". Pretendia-se obter, assim, com tal ato, tudo o que era necessário. ao mesmo tempo, a fé em Cristo e o verdadeiro culto de Deus caíam no esquecimento" (7). Também os protestantes, portanto, pediam "menos Missas e mais Missa", ou seja "um menor número de Missas para uma Missa mais verdadeira".

Não obstante, os luteranos eram coerentes com a sua heresia: rechaçavam a práxis católica da multiplicação das Missas porque rejeitavam a doutrina católica da Missa como sacrifício; a troco de quê multiplicar um simples "memorial", uma "comemoração pura e simples" do sacrifício efetuado e concluído duma vez por todas?

Mas... e o articulista de "La nostra valle"? É um incoerente ou um outro herege?

Da Missa "protestantizada" a uma mentalidade protestantizante

Em Sì Sì No No (ed. italiana de 30 de novembro de 1996), na seção Semper infideles, escrevemos sobre outra "novidade" publicada por um boletim paroquial da diocese do Cardeal Carlo M. Martini, S. J.: a Missa sem comunidade "só da medo"; portanto, é "absolutamente" necessário reduzir o número das Missas nos dias de festa para ter "menos Missas" e "mais comunidade" (o pretexto é distinto, porém o alvo é o mesmo).

Este também é o eco dito "católico" da polêmica luterana contra as "Missas ditas num canto" (Winkelmess), isto é, "as Missas particulares, celebradas pelo sacerdote, sem a assistência dos fiéis" (8). Porém, também nisto os luteranos são coerentes com a sua heresia: com efeito, ao negar a Missa como sacrifício, negam o valor objetivo, intrínseco, da Santa Missa.

Mas os católicos, que sabem ter a Missa valor em si, independente do número dos presentes, ou melhor ainda: independente da própria presença dos fiéis, podem continuar, pergunta-se, a chamar-se católicos quando, como os protestantes, fazem depender o valor da Missa da assistência da comunidade, e duma comunidade numerosa?

Na Mediator Dei (1947), Pio XII, entre os desvios que então se propagavam subrepticiamente e "contaminam" a auspiciada "renovação litúrgica" com "erros concernentes à fé católica e à doutrina ascética", condena também o erro dos que "aproximando-se de erros já condenados ensinam (...) ser preferível que os sacerdotes "concelebrem" junto com o povo presente a oferecerem, na ausência deste, em particular, o "Sacrifício" e até "reprovam absolutamente as Missas celebradas em particular e sem a assistência do povo", ou afirmam também "que os sacerdotes não podem oferecer a Vítima divina em altares distintos ao mesmo tempo, porque, desta maneira, dissociam a comunidade e põem sua unidade em perigo".

Salta à vista que hoje triunfam os erros condenados por Pio XII, "erros relativos à fé católica", e, por detrás deles, triunfam "os já condenados", muito semelhantes aos de Martinho Lutero e demais heresiarcas do protestantismo. O Novus Ordo Missae nos deu um rito da Missa com o qual "se aproxima, substancialmente, da teologia protestante, que destruiu o Sacrifício da Missa" (9). Hoje colhemos os frutos da Missa "protestantizada": a presença de uma mentalidade cada vez mais protestantizante. E é inevitável: a lex orandi é inseparável da lex credendi; reza-se como se crê e crê-se como se reza: se se reza como os protestantes, acaba-se pensando como eles.

"Uma simples festa da unidade humana"

Até aqui o desprezo essencial que o articulista de La nostra valle mostra sentir pela Missa. Entretanto, relativamente aos fiéis, ele é assaltado por uma dúvida: a de que o seu menosprezo pela Missa não se deva à multiplicação das Missas, mas a fatores muito diversos, entre os quais se conta, embora não em último lugar, a subversão posta em marcha pelo Papa Montini sob a capa de "reforma litúrgica"

 A estima dos fiéis pela Missa não se consegue diminuindo o número delas, e sim restabelecendo aquele rito que é uma "contínua profissão de fé católica" (Pio XII, Mystici Corporis) com a dignidade que sempre teve e hoje não mais possui, e que simultaneamente alimentava a piedade pessoal ou subjetiva, tão denegrida hoje (também pelo articulista) como "devocionismo".

Na Mediator Dei, Pio XII também condenou o erro, que então já se prenunciava, de quantos "queriam abandonar ou atenuar 'a piedade subjetiva' ou 'pessoal', porque 'consideravam que se deviam abandonar as outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto privado".

"É verdade -- escreve ele -- que os sacramentos e o Sacrifício do altar têm uma virtude intrínseca, enquanto são ações do próprio Cristo que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros do corpo místico; porém, para ter a devida eficácia, exigem boas disposições da nossa alma". E estas se adquirem recorrendo precisamente a "todos os preâmbulos e exercícios de piedade não estritamente litúrgicos", como "a meditação das realidades sobrenaturais", o exame de consciência e todas as demais "práticas espirituais" (hoje em desuso): "desta maneira, a ação individual e o esforço ascético, dirigido à purificação da alma, estimulam as energias dos fiéis e os dispõem para participarem, com melhores disposições, do augusto Sacrifício do altar; e assim tirarem melhor fruto da recepção dos Sacramentos, bem como a celebrarem os sagrados ritos de modo a saírem deles mais animados e formados na oração e abnegação cristã; e a cooperarem ativamente com as inspirações e convites da graça imitando sempre mais as virtudes do Redentor, não só em proveito próprio, mas também no de todo o corpo da Igreja; dessa igreja onde todo o bem que se realiza provém da virtude da Cabeça e redunda em benefício dos membros". Assim, da piedade pessoal, nasce a participação frutuosa, e, desta, a estima da Santa Missa.

"Por grandes motivos -- assinala Pio XII -- prescreve a Igreja aos ministros do altar e aos religiosos que, em tempos determinados, se dediquem à piedosa meditação, ao diligente exame e emenda da consciência e aos outros exercícios espirituais (cf. CIC, can. 125, 126, 565, 571, 595, 1397), visto estarem eles, de modo particular, destinados a cumprir as funções litúrgicas do Sacrifício e do louvor divino". E conclui: "sem dúvida, a prece litúrgica, por ser uma súplica oficial da inclita esposa de Jesus Cristo, tem uma dignidade maior que as orações particulares; mas esta superioridade não significa uma oposição ou contraste entre estes dois tipos de oração. Ambas se fundem e se harmonizam por estarem animadas por um único espírito: "Cristo é tudo em todos" (Col. 3, 11) e tem o mesmo objetivo: "ver Cristo formado em vós" (Gal 4, 19)".

Ora, o que aconteceu com a "piedade subjetiva" e com as "orações particulares" depois do Concílio? Deixemos que no-lo diga o Cardeal Siri, ao escrever em 1978: "experimenta-se um tipo de oração considerado válido somente se é feito em comunidade e em virtude dela. A oração particular, sobre ser negligenciada, é escarnecida, e daí não se reza, se falta um membro duma comunidade. Parece um simples erro de fato, mas, pelo contrário, não é assim. Debaixo dele se difundem erros veladamente, não percebidos diretamente, mas adquiridos inconscientemente mediante a práxis: quando cometidos conscientemente, constituirão as melhores mostras da raiva contra tudo o que é, que foi e que será. Eis os erros: negação da pessoa em proveito da comunidade (não é difícil ver nisto uma provável nota marxista); a supervalorização da comunidade, não tanto por amor dela (ou do gueto, talvez) quanto por causa da prioridade dada à base sobre o vértice, ou seja: invertem a instituição da Igreja e, portanto, a tornam agradável aos supostos protestantes (...)

"Não é difícil ver nisto o dedo dos que desejam retornar a Lutero. Mas, para cúmulo, há de permeio um Concílio Ecumênico Tridentino que creu fazer muitas dezenas de definições infalíveis no sentido estrito. A práxis inconsciente é o caminho do erro subversivo. A doutrina católica, magnificamente exposta e resumida na "Mediator Dei", concede à piedade e à oração particular o que lhes corresponde, como a princípios de verdade e diligência, (como preparação) para a oração pública e oficial. Aqueles que, nas igrejas, martelam continuamente nos ouvidos, não deixando instante algum para a concentração pessoal, estão, sem sabê-lo (assim o esperemos!) na parte não bem informada [eufemismo caridoso]" (10).

Ao mesmo tempo, quando se denegria e desanimava a piedade pessoal, se introduziam na Missa, reduzida a um rito pressuroso e ambíguo: "costumes estrambóticos e dignos de um circo -- continua o Cardeal Siri -- e com isto não é de admirar que a Eucaristia se torne para alguns uma simples festa da unidade humana" (12). Com a estima que merece "uma simples festa da unidade humana" -- acrescentamos nós.

Dois jubileus e o triunfo da "seita antilitúrgica"

E aqui está a exortação final do articulista de La nostra valle: "neste primeiro ano do triênio de preparação imediata para o jubileu do segundo milênio (...), a reflexão encaminhada para operar a nossa "conversão" deveria levar-nos a pôr a Eucaristia no centro do nosso trabalho de revisão e compromisso". Trabalho de "revisão", cuja primeira etapa se funda na diminuição ulterior do número de Missas, já notavelmente reduzido pelas concelebrações. Exatamente nos antípodas do "ano de Jesus Cristo" celebrado por Pio XI para comemorar o XIX Centenário da Redenção (1935). Naquela ocasião, se celebraram na gruta de Lourdes, ininterruptamente, por três dias e três noites, cento e quarenta Missas, em conclusão do "Jubileu da redenção humana", com sumo agrado de Pio XI, que aplaude "sem reservas" a iniciativa (imitada noutras dioceses) numa carta a D. Gerlier, bispo de Lourdes, na qual declara que o jubileu não se poderia concluir "mais digna e convenientemente". Hoje, a um jubileu concluído com a multiplicação das Missas se quer opor, ao que parece, um jubileu coroado pela... diminuição do número de Missas.

O que D. Guéranger escrevia sobre o que chamava "a seita antilitúrgica" tem todas as características de uma profecia. A propósito do sínodo de Pistóia, cujos erros derivam do protestantismo através do jansenismo, escreve D. Guéranger: "porém, voltando ao divino Sacrifício, vede quão insistentemente se repete esta verdade (em si mesma incontestável, mas da qual é tão fácil abusar nesta época de calvinismo mascarado): que o povo oferece (o Sacrifício) junto com o sacerdote (...). E não basta à seita poder insultar o Sacrifício católico, mas não aboli-lo. Por isso, todos o seu esforço tenderá a tornar menos freqüente a sua celebração (...). Vê-la-emos proibir a celebração simultânea das Missas numa mesma igreja; chegará até a reduzir o número dos altares a um só (...); achará um novo meio para limitar ulteriormente a oblação deste sacrifício a ela tão odioso: seria (é um pretexto!) o restabelecimento do uso da igreja primitiva segundo o qual todos os sacerdotes duma igreja concelebravam uma única Missa..." (13)

A partir da "reforma litúrgica" de Paulo VI, assistimos uma realização minuciosa deste programa de "autodemolição" litúrgica e, se as coisas andam como pressagia o articulista de La nostra valle, o jubileu do ano 2000 coroará, entre outras coisas, também o triundo da "seita antilitúrgica".

 

 

Notas:

(1) Missale Romanum, secreta do IX domingo depois de Pentecostes, citada também pelo Vaticano II no Decreto Presbyterorum Ordinis

(2) Cit. em Per meglio servire Dio, Ed. Paulinas, 1957

(3) S. T., II q. 65, a. 3 ad 1: "bonum commune spirituale totius Ecclesiae continetur substantialiter in ipso Eucharistiae sacramento". Cf. Concílio de Trento, seção de 17 de setembro de 1562: decreto sobre a Santa Missa.

(4) S. T., q. 79, a. 7 ad 3: "In pluribus vero missis multiplicatur sacrificii oblatio. Et ideo multiplicaur effectus Sacrificii" [certamente num número maior de Missas se multiplica a oblação do sacrifício, e por esta razão se multiplica o efeito do Sacrifício]

(5) Segundo Pierre Jundt na introdução à Confissão de Augsbourg (tradução da Aliança Nacional das Igrejas Luteranas da França, 1979)

(6) Ibidem

(7) Ibidem

(8) Ibidem

(9) Breve exame crítico do "Novus Ordo Missae", apresentado a Paulo VI pelos cardeais Ottaviani e Bacci

(10) Renovatio XIII (1978), fasc. 2, pp. 147-150.

(11) Rivista Diocesana Genovese, outubro de 1977, pp. 278-280.

(12) Renovatio VI (1970), fasc. 4, pp. 477-490.

(13) Dom Guéranger, Institutions liturgiques, Le Mans-Paris, 1841, t. II, pp. 607 e ss

O concílio e o ateísmo de Estado

Agosto 9, 2018 escrito por admin

Por mais difícil e desagradável que seja, teremos de admitir cedo ou tarde que o senhor Adel Smith, Presidente da União dos muçulmanos da Itália, recentemente fez calar a elite política e intelectual italiana. Nós vismos alguns "laicistas", "moderados" e pessoas "políticamente corretas" escandalizarem-se com o tom e as afirmações deste senhor e saírem das posições em que estavam instalados, convencidos de que deviam se retratar. Como? Depois de vários anos de "doutrinação" sobre o "diálogo", sobre o multiculturalismo, sobre o Estado multi-étnico, sobre a riqueza das diferenças... Traição! Entretanto, ninguém, até o momento, foi capaz de se opor com argumentos sólidos ao Presidente da União dos muçulmanos da Itália, se bem que todos reagiram como se tivessem sido picados por uma tarântula. Parece que a lógica desse "novo Averróis" não tem uma falha: se, com a Nova Concordata a religião católica não é mais reconhecida como a religião do estado italiano, que sentido tem deixar os crucifixos nos lugares públicos? Alguns pensarão: "Será que o Sim Sim Não Não também mudou de idéia?" Não, senhores! Mas temos de reconhecer que não há como escapar das conseqüências que o senhor Adel Smith tira das premissas nessa questão. O problema está justamente nas premissas que utiliza. Há mais ou menos vinte anos, o senador Gozzini declarou: "Em um futuro próximo, estaremos diante do problema da exposição do crucifixo em lugares públicos. E este problema deverá ser resolvido em coerência com o pluralismo, respeitando todas as confissões religiosas que emergem assim da Nova Concordata"[1]. Profecia? Não, simples lógica.

O mais triste espetáculo, infelizmente, é o que o mundo "católico" oferece: nas raras vezes em que se levantam para defender Nosso Senhor, não se dão ao trabalho de buscar a raiz do problema. Defenderam ao máximo as razões culturais para manter a presença do crucifixo nos lugares públicos; mas seria isso suficiente? Podemos nos contentar em dizer: "nós mantemos o crucifixo porque ele é o sinal das raízes cristãs de nosso país"[2]? E por que então não expor algo que faça lembrar nossa antiguidade imperial; ou ainda as raízes celtas na Lombardia, as raízes dos Bourbons no Sul...? E esses muçulmanos, não teriam eles o direito de reclamar algum sinal que lhes faça lembrar sua presença na Sicília?

O problema é outro e, infelizmente, bem mais grave: a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a sociedade não é mais reconhecida! S. Pio X afirmava: "É uma tese absolutamente falsa, um erro muito perigoso, pensar que se deve separar a Igreja do Estado. Esta opinião está fundamentada sobre o princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso. E isto é absolutamente injurioso a Deus (magnam infert iniuriam Deo) porque o Criador do homem é também o fundador das sociedades humanas... É por isso que nós lhe devemos não apenas um culto privado mas também um culto social e honras públicas (non privatim tantummodo colatur necesse est, sed etiam publice)"[3]. A imutável Tradição da Igreja afirma e repete sem cessar esse princípio, porque ela nunca pôs em dúvida que a religião católica é a única religião verdadeira, a única capaz de dar as provas de sua origem divina. Mas ninguém, manifestamente, nessa polêmica atual, ousa fazer alusão a isso. Ninguém teve a coragem (e, talvez, a capacidade) de aceitar o desafio no terreno da apologética (falando nisso, o que aconteceu com essa disciplina na formação dos seminaristas?). 

A questão está aqui, precisamente: "Não será difícil — escreve Leão XIII — distinguir qual a religião verdadeira, desde que se exerça nessa procura um julgamento prudente e imparcial. De fato, através de numerosas e evidentes provas (argumentis enim permultis atque illustribus), tais como as profecias realizadas, o número extraordinário de milagres, a rápida difusão da Fé em meio de inimigos e obstáculos muito graves, o testemunho dos mártires, e outras provas semelhantes, ficou manifesto que a única verdadeira religião é aquela que o próprio Jesus Cristo fundou e confiou à sua Igreja, para que ela a conserve e a difunda pelo mundo"[4]. 

É inaceitável que o Estado fique indiferente diante do problema religioso. O Estado delibera em matéria de economia, de saúde, de educação, de política,... mas decide não tomar nenhuma posição em matéria religiosa. Por que? Como podemos considerar que religiões resoluta e objetivamente opostas umas às outras, devam ser colocadas num mesmo plano? Um Estado que visa o bem comum de seus cidadãos pode ficar indiferente à veracidade ou à falsidade de uma religião da qual provém um resultado temporal e uma conseqüência eterna?

Um Estado que adota uma atitude neutra ("a neutralidade desarmada" de Don Abbondio?) em matéria religiosa, é um Estado ateu, de um ateísmo prático, de facto. Tal Estado exclui Deus da vida pública. Além disso, afasta-O da consciência dos indivíduos. Agindo assim, ele já declarou que Deus não tem o direito de ser considerado na esfera pública: Deus não tem o direito de ser Deus! Essa "abstenção" do Estado é na realidade uma posição arbitrária. É uma posição contra Deus e contra a verdade objetiva, que designa o Cristianismo como única religião verdadeira, revelada e instituída por Deus.

Hoje, a hierarquia eclesiástica também tem de tomar uma decisão: seguir, como é seu dever, o ensino tradicional, que tem que chamar os governantes dos países a reconhecer a Religião Católica como a religião do Estado, ou continuar no caminho atual cujo termo inevitável é o destronamento completo de Cristo na vida pública.

A Conferência Episcopal Italiana informa que "o Protocolo Adicional [da nova Concordata] adverte que 'considera-se não estar mais em vigor o princípio de que a religião católica seja a única religião do Estado'. Compreendemos as razões de uma tal mudança que, à luz da Declaração do Concílio [que agora tornou-se o Concílio!] sobre a liberdade religiosa, se inspira no respeito devido a quem quer que possua uma outra fé ou uma convicção de consciência diferente".[5] Se é possível reconhecer a árvore por seus frutos... muitíssimo obrigado, Concílio!

Lanterius 

(Sim Sim Não Não no. 136)