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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

A mulher que daria luz a Cristo teria, necessariamente, que ser uma virgem?

As considerações anteriores mostraram que a Mãe de Deus não apenas era virgem antes, durante e após o nascimento de seu Filho Jesus Cristo, mas que fez um voto de castidade por inspiração do Espírito Santo. Nessas condições, é natural indagar-se se deveria ter um marido.

Na verdade, o Arcanjo Gabriel foi enviado "a uma virgem desposada por um homem cujo nome era José, da Casa de Davi" (Lc 1,27). Esse detalhe, expressamente descrito na Sagrada Escritura, bem como nos relatos do Evangelho, mostra a vontade de Deus nesse ponto. Mas os Padres e teólogos questionaram o que motivou o plano divino. Santo Tomás resume a questão com sua clareza habitual.

 

Em consideração com a Encarnação do Filho de Deus

O Verbo assumiu a natureza humana em todos os seus aspectos, com exceção daquilo que seria contrário a Sua dignidade; ele, portanto, tinha vida social e, em primeiro lugar, vida familiar: por isso Ele nasceu em uma família.

Era igualmente importante que o Messias não fosse rejeitado como um filho ilegítimo: "Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos?" (Jo 6,42).

A filiação era essencial para os judeus do Antigo Testamento. Isso pode ser observado nas genealogias que a Sagrada Escritura faz até mesmo no Evangelho. Mas ela deve ser realizada, de acordo com o costume, pela linha paterna.

Finalmente, Deus quis que a divina criança tivesse um protetor e um pai. O papel de pai consiste, no plano especial da Redenção, dar ao Verbo Encarnado a possibilidade de levar uma vida oculta.

 

Em consideração com a Mãe de Deus

Uma jovem que falhasse no cumprimento de seus deveres era apenada com apedrejamento. O nascimento de Cristo na Sagrada Família fez essa ameaça desaparecer.

E, presumindo que essa pena não fosse aplicada, o nascimento de Jesus protegeu Maria da infâmia de ser uma mãe solteira. A desonra, ainda que aparente, teria passado, de alguma maneira, para o Filho de Deus.

Finalmente, esse casamento assegurou à Santíssima Virgem o auxílio de São José. E sabemos quão precioso esse auxílio foi depois.

 

Em consideração com os homens

Os costumes judeus não permitiriam que uma mulher não se casasse, devido às regras de transmissão da herança e ao dever de gerar o povo de Israel. De fato, para evitar a passagem de uma porção da herança a outra tribo, as mulheres se casavam dentro de sua tribo.

O testemunho de São José eloquentemente confirma a concepção virginal do Salvador. De fato, era incumbência dele denunciar o adultério. Essa hesitação de José mostra a virtude da Virgem Maria.

O testemunho de Maria afirmando sua virgindade, porém, tem maior autoridade. Se a Virgem diz que foi concebida sem perder sua virgindade, seu testemunho é digno de maior confiança sendo ela casada que solteira.

Também era necessário que a Mãe de Deus fosse um exemplo às jovens. Se ela tivesse concebido carnalmente sem ser casada, sua reputação poderia ser -- erroneamente -- maculada. A concepção virginal de uma mulher casada protege sua reputação e serve de exemplo a todas as mulheres.

Desse modo, a Virgem se torna uma maravilhosa imagem da Igreja Católica: ela é virgem, esposa e mãe.

Finalmente, em Maria, a virgindade e o casamento estão honrados na mesma pessoa: assim, a dignidade desses dois estados é garantida.

A Mãe de Deus fez um voto de virgindade perpétua?

Nossa Senhora preservou sua virgindade por toda sua vida. Os Padres da Igreja se indagaram se Maria fez um voto de virgindade. Santo Tomás resume seus pensamentos sobre essa questão.

O ponto de partida dessa reflexão é a resposta de Maria ao Arcanjo Gabriel, que anunciou sua maternidade: "Como isso se dará, se não conheço homem?" (Lc 1,26). Para compreender adequadamente essa resposta, devemos lembrar que o verbo "conhecer" é empregado pela Sagrada Escritura para se referir a relações carnais.

Como a Virgem Maria estava noiva de São José -- noivado esse que, entre os judeus do Antigo Testamento, praticamente equivalia a um casamento -- essa pergunta significa que Nossa Senhora tinha a intenção de preservar sua virgindade em espírito de consagração a Deus.

É assim que Santo Agostinho compreende a passagem: "Na anunciação do Anjo, Maria responde: 'Como isso se dará, se não conheço homem?' Resposta essa que ela, certamente, não teria dado se ela não tivesse consagrado sua virgindade a Deus previamente" (De Sancta Virginitate, citada por Santo Tomás). Muitos Padres seguem Santo Agostinho.

 

A bela explicação do Doutor Comum

Ao expor a adequação desse voto, Santo Tomás aplica o princípio da atribuição de privilégios: é necessário presumir o mais perfeito possível na Santíssima Virgem; ora, a virgindade consagrada pelo voto é mais perfeita que a virgindade não consagrada. Então ela fez esse voto.

O Doutor Angélico, em outra passagem, explica que "o que é feito pelo voto se torna mais perfeito. Mas o principal fim do voto é fortalecer a vontade no bem". Ele também diz que a "uma vontade já santificada como a de Nossa Senhora, que goza de perfeita virtude, não é útil fazer muitos votos".

Portanto ele se indaga: "Por que o voto de virgindade, se a prática da castidade perfeita já era suficiente?" A resposta é clara e belíssima: "porque ele [o voto] fixa um estado de vida", para que, nesse voto, possa-se doar a própria vida.

Ele prossegue: "Se o comparamos [o voto de castidade] com os outros votos de religião, o de obediência é suficientemente substituído pelo casamento sob a autoridade de São José, e o voto de pobreza não é prudente para uma mãe de família"

Porém, ele observa que as regras sociais da época não aceitariam que uma mulher não se casasse, porque todos os membros do povo escolhido eram obrigados a participar da propagação da espécie. Então ele crê, com alguns Padres, que a Virgem, primeiramente, noivou com São José, e então, de mútuo acordo, ambos fizeram voto de castidade.

Mas também é possível, de acordo com outros autores, que o acordo de José e Maria aconteceu antes do noivado, e que eles fizeram o voto antes de se casarem.

O Cardeal Caetano -- um grande comentador de Santo Tomás -- acrescenta: "Não é natural que creiamos que esse Santo marido, ao aceitar que sua esposa dedicasse sua virgindade a Deus na constância do casamento, fez ele mesmo esse voto?"

É necessário levar em conta ainda, acima de tudo, a Divina Providência, que teria que inspirar José com essa resolução, para que a Santíssima Virgem tivesse, como companhia e guardião, um esposo que fosse também virgem. Além disso, Maria não seria "cheia de graça" se essa graça, que ela desejava acima de tudo em sua santidade, estivesse ausente em seu marido.

Portanto, a Virgem Maria, de acordo com a opinião comum, foi a primeira a fazer o voto de castidade de acordo com o tempo e de acordo com a perfeição do ato.

A Mãe de Deus permaneceu virgem após o parto?

A Tradição distingue a virgindade em Nossa Senhora antes do parto, durante o parto e após o parto (ante partum, in partu e post partum). A presente questão diz respeito ao terceiro aspecto: virgindade post partum. A Mãe de Cristo permaneceu virgem após o nascimento de Seu Divino Filho?

Algumas pessoas quiseram ver, nos "irmãos de Cristo", mencionados em São João, outros filhos de Maria. A propaganda modernista [N.T.: e protestante] apresentou esse argumento. Mas outros textos do Evangelho também sugerem essa ideia: em São Mateus, Nosso Senhor é chamado de "primogênito de Maria" (Mt 1,25).

Deve-se asseverar que a Sagrada Escritura frequentemente chama de irmãos a outros parentes que não nasceram da mesma mãe. Nesse sentido, os "irmãos de Jesus" tiveram inveja dEle (Mc 6, 4); deram-lhe conselhos (Jo 7,1); tentaram levá-Lo para casa (Mc 3,21). Na Igreja Oriental, isso só seria compreensível se eles fossem mais velhos que Ele. Mas Nosso Senhor foi o primogênito.

O termo "primogênito" tem um certo sentido absoluto, independentemente de haver nascimentos posteriores. É um status jurídico. Em 1930, por exemplo, descobriu-se o túmulo de uma jovem mulher em Jerusalém em um cemitério judeu do Século I, que morreu dando à luz seu primogênito.

Mas, no relato da Anunciação, a Santíssima Virgem indaga ao Anjo: "Como isso se dará, se não conheço homem?" Conhecer, no sentido bíblico, refere-se a relações carnais. A objeção de Maria só faria sentido se ela tivesse a intenção de permanecer sem conhecer homem no futuro.

 

Os Padres da Igreja

Eles repetem essas verdades frequentemente. Santo Efrém afirma que Maria permaneceu virgem após o parto. São Zenão resume essa doutrina: "Maria foi concebida sem corrupção, ela gerou permanecendo virgem e permaneceu virgem após a Natividade". E Santo Ambrósio fulmina: "Alguns negaram que ela permaneceu virgem (após o parto). Preferimos desprezar tal sacrilégio".

São Sirício, papa, afirma: "Não podemos negar que Maria não teve outros filhos, e é com boas razões que sua santidade rejeita que, do mesmo ventre virginal, do qual Cristo nasceu de acordo com a carne, outro filho tenha nascido. O Senhor Jesus não teria escolhido nascer de uma virgem se a julgasse tão incontinente a ponto de profanar o palácio do Eterno Rei"

Portanto, é de fide que a Mãe de Deus permaneceu virgem post partum.

 

Razões disso

Elas estão enumeradas por São Tomás de Aquino na Suma Teológica (III, 28, 3):

- É adequado que Aquele que é o Filho do Pai, gerado na eternidade, seja o único filho perfeito de sua Mãe no tempo;

- Não seria apropriado que o corpo virginal de Maria, que havia se tornado o Santuário do Verbo através de obra do Espírito Santo, viesse a ter uma nova concepção. Isso implica dizer que a concepção virginal de Jesus foi uma nova consagração de Nossa Senhora a Deus, para que ela estivesse inteiramente dedicada à glória de Deus. Usar o relacionamento conjugal nessas condições seria uma violação. Maria é o modelo da vida religiosa;

- Não estaria de acordo com a gratidão que Maria, tendo a honra e graça de ser Mãe de tal Filho, conhecesse um homem e gerasse outro filho; de maneira semelhante, a santidade de José respeitava a pureza de Maria.

A maternidade divina da Mãe de Deus é integralmente virginal. A virgindade é uma característica tão própria de Maria, que se tornou um de seus títulos mais comuns: a Virgem Maria.

Vida de Santo Tomás de Aquino

“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’, para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Papa Pio XI – Encíclica Studiorum Ducem – 29 de Junho de 1923)

“Invoquei (o Senhor) e veio a mim o espírito da sabedoria. Preferia-a aos cetros e aos tronos, e julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação.” (Sb 7, 7-8)

 

Introdução

O século XIII foi um período de extraordinária atividade intelectual, mas não foi isento de perigos. Na busca entusiasmada por conhecimento, os estudantes reuniam-se aos milhares nas grandes universidades, que apesar de serem escolas de fé, foram também muitas vezes escolas de infidelidade. Os filósofos da época deviam tudo a um único mestre, que fora um pagão. “Aristóteles”, diz Lacordaire, “foi tomado como representante da sabedoria, mas, infelizmente, ele e o Evangelho nem sempre concordam um com o outro”. E muitos, entrando no oceano inexplorado do pensamento sem nenhum guia, naufragaram sem esperança a sua religião. Grandes professores, que eram tidos como os “oráculos do dia”, nem sempre souberam resistir às seduções da vaidade, e algumas vezes buscaram o renome propondo audaciosas teorias em assuntos em que a especulação original era raramente amigável à fé.

Foi em meio à confusão dessas novas opiniões que Santo Tomás foi dado ao mundo para demarcar os limites da filosofia cristã e para integrar, em uma estrutura grande e completa, as matérias de teologia dogmática, moral e especulativa, que até então estavam separadas. Ao mesmo tempo, enriqueceu a liturgia da Igreja com algumas de suas mais belas devoções, e mostrou, em sua vida e em seu caráter, todas as virtudes que as graças de um santo produzem.

 

1. Nascimento e infância

Situada de um modo pitoresco no sul da Itália, no topo de um penhasco escarpado,  flanqueando o pico dos Apeninos e divisando as águas correntes de Melfi, lá estava em tempos medievais a fortaleza de Roccasecca. Ali nasceu Santo Tomás por volta do ano de 1225 – os autores não chegaram a um consenso acerca da data precisa – e devido ao condado vizinho de Aquino, ele recebeu seu sobrenome. 1 O conde, seu pai, era sobrinho do imperador Frederico Barba-Roxa, e pelo lado de sua mãe, era descendente dos barões normandos que haviam conquistado a Sicília dois séculos antes. A família Aquino arrogava-se de parentesco com São Gregório Magno e era ligada pelo sangue a São Luís de França e a São Fernando de Castela. A futura vocação e santidade do pequeno Tomás foram preditas à sua mãe, a condessa Teodora, por um santo eremita de nome Bonus, e quando ainda era uma criança, a Providência vigilante de Deus sobre ele já estava manifesta de uma maneira surpreendente: uma terrível trovoada rebentou no castelo, fulminando sua babá e sua irmã no mesmo quarto em que Santo Tomás dormia, ficando ele ileso. Essa circunstância explica o grande medo de trovão e relâmpago que diziam ter Santo Tomás durante toda a sua vida, e que o fazia freqüentemente se refugiar na igreja durante uma trovoada, a ponto de inclinar sua cabeça contra o tabernáculo para se colocar o mais próximo possível sob a proteção de Nosso Senhor. 2

Ave Maria foram as primeiras palavras que se ouviu pronunciar por seus lábios de bebê. Muito antes de aprender a ler, descobriu-se que um determinado livro era um meio infalível de enxugar suas lágrimas e suas mágoas infantis. Ele costumava se deleitar em manuseá-lo, passando suas páginas com uma gravidade pueril.

 

2. Educação Primária

Quando tinha apenas cinco anos de idade, Santo Tomás começou a ser educado pelos monges da famosa Abadia Beneditina do Monte Cassino, que ficava a poucas milhas de Roccasecca. Os monges descobriram que seu novo pupilo era uma criança grave e quieta, que amava passar a maior parte de seu tempo na igreja, e nunca estava sem um livro nas mãos. Ele tinha uma considerável influência sobre seus jovens colegas, aos quais estava sempre pronto a ajudar e a quem a doçura de sua disposição o fazia muito querido. Porém, importava-se pouco com os divertimentos da infância, e raramente participava deles. Um dia, quando o restante dos colegas brincava alegre pelos bosques, Santo Tomás se isolou em silenciosa meditação. O monge encarregado dos garotos indagou o motivo de suas reflexões, e ele, levantando a cabeça, disse: “Diga-me, mestre, o que é Deus?” Essa foi a pergunta mais repetida por ele, o que mostrava que toda a tendência de sua mente e de seu coração estava já voltada para o Céu.

Aos dez anos, tinha progredido tanto em seus estudos que seus pais resolveram enviá-lo, sob os cuidados de um tutor, à recentemente fundada Universidade de Nápoles. Antes, levaram-no para passar algumas semanas em companhia deles em outro castelo de sua propriedade, em Loreto – um local destinado depois a ser tão famoso como o lugar de repouso da Santa Casa de Nazaré. Na época, uma fome assolou a cidade, e Santo Tomás se deleitou em distribuir as abundantes esmolas que seus caridosos pais tinham reservado para os pobres. Ele levou sua liberalidade tão longe, que o mordomo do castelo reclamou ao seu pai. O conde então surpreendeu o menino enquanto ele se apressava para o portão e perguntou severamente o que estava escondendo embaixo da capa. Santo Tomás a desdobrou e deixou cair no chão não o alimento que carregava, mas uma profusão de flores adoráveis e docemente perfumadas.

Em sua chegada a Nápoles, os extraordinários talentos dos quais ele já havia dado provas a seus professores beneditinos tornaram-se mais e mais manifestos, ao mesmo tempo em que progredia rapidamente na ciência dos santos. Era continuamente tomado como modelo para seus colegas estudantes, o que feria muito sua humildade, mas a modéstia, a doçura, e a gentileza de seu caráter o preservaram da inveja, fazendo-o unanimemente querido. Ele afastava-se de todas as más ocasiões e devotava suas horas de lazer à oração e às boas obras.

 

3. Junta-se aos Dominicanos          

A igreja dominicana em Nápoles tornou-se um de seus refúgios favoritos, e enquanto ele derramava sua alma em oração diante do altar, foram vistos mais de uma vez cintilantes raios de luz emitidos de seu semblante. Um santo frade chamado João de São Julião, que testemunhou o maravilhoso sinal, disse um dia ao pio jovem: “Deus vos deu à nossa Ordem.” Santo Tomás atirou-se aos seus joelhos, dizendo que há muito desejava ardentemente tomar o hábito, mas que temia ser indigno de tão grande graça. A comunidade, então, alegremente admitiu o jovem estudante, e quando ainda era praticamente um garoto, vestiu publicamente o hábito branco de São Domingos.

A novidade logo chegou aos ouvidos da condessa Teodora, sua mãe, que, reconhecendo no evento a realização da profecia do santo eremita, correu a Nápoles para felicitar o filho. Porém, Santo Tomás e os irmãos, ignorantes das disposições dela, ficaram muito alarmados com a ideia da iminente visita, e em observância às suas fervorosas súplicas, o noviço apressou-se ao Convento de Santa Sabina em Roma. Para lá sua mãe o seguiu, mas não pôde induzi-lo a consentir em uma entrevista. O superior da Ordem, João Germano, estava prestes a partir para Paris e resolveu levar Santo Tomás e outros três companheiros com ele, e assim deixaram Roma. Quando Teodora se viu assim frustrada, enfureceu-se contra os frades e enviou ordens a dois de seus filhos mais velhos, que estavam servindo no exército do imperador na Itália, para surpreender o irmão e trazê-lo de volta. 3 O pequeno grupo de frades foi alcançado e surpreendido enquanto tirava seu descanso do meio-dia às margens de uma fonte. Os rudes soldados tentaram rasgar o hábito de Santo Tomás, mas sua forte resistência os impeliu a desistirem do intento. Seus companheiros foram impedidos de seguir viagem, enquanto o jovem noviço foi levado de volta para junto de seus irados pais em Roccasecca.

 

4. Prisão e Fuga

A condessa estava determinada a jamais permitir que Santo Tomás fosse um dominicano. E seu pai, que alegremente aceitaria que ele assumisse o hábito beneditino – como um de seus tios, ele poderia chegar ao grau de Abade do Monte Cassino – estava igualmente determinado a não permitir que ele pertencesse à desprezível ordem mendicante que tinha abraçado. Lágrimas, ameaças e súplicas foram ineficazes para fazer abalar a resolução do santo, e ele foi aprisionado em uma das torres do castelo, onde teve de passar frio, fome, e todo tipo de privação. Suas duas irmãs, Marieta e Teodora, a quem ele era ternamente apegado, tentaram em vão com afetuosas carícias induzi-lo a ceder aos desejos da mãe, mas elas próprias se renderam a uma vida de perfeição, e ambas posteriormente morreram em odor de santidade, uma como abadessa beneditina, e a outra casada como condessa de São Severino. Através da intervenção delas, Santo Tomás conseguia obter livros e roupas de seus irmãos (dominicanos) em Nápoles. Durante seu cativeiro, que durou consideravelmente mais de um ano, ele conseguiu confiar à memória toda a Bíblia e os quatro livros das Sentenças, o compêndio teológico da época. 4 Diz-se que seus primeiros escritos pertencem a esse mesmo período.

Com a chegada de seus irmãos, a constância de Santo Tomás foi posta à prova de modo ainda mais terrível. Os dois jovens oficiais conceberam o projeto infernal de introduzir uma mulher de má reputação dentro de seu quarto. Mas, apanhando da lareira um ferrete em chamas, o santo furiosamente retirou-a de sua presença. Com o mesmo ferrete, ele então traçou uma cruz na parede e lançando-se de joelhos diante dela, suplicou a Deus para conceder-lhe a graça da castidade perpétua. Enquanto rezava, caiu em um êxtase durante o qual dois anjos lhe apareceram e o cingiram com uma corda miraculosa dizendo: “Viemos da parte de Deus para te revestir com o cinto da castidade perpétua. O Senhor ouviu tuas orações e aquilo que a fragilidade humana nunca poderá merecer é assegurado para ti pela irrevogável graça de Deus”. Os anjos o cingiram tão firmemente que ele soltou um involuntário grito de dor, fazendo com que alguns empregados viessem ao lugar. Porém, Santo Tomás manteve o segredo para si mesmo, revelando-o somente em leito de morte para seu confessor, o padre Reginaldo, declarando que a partir daquele dia, nunca tinha sido permitido ao espírito das trevas se aproximar dele. O cinto foi usado pelo santo até sua morte e ainda é preservado no Convento de Chieri, em Piemonte. 5

Nesse período, a família de Santo Tomás compreendeu que sua firmeza não seria vencida pela perseguição. A contragosto, reconhecerem que foram derrotados e consentiram em sua fuga. Assim como São Paulo, ele foi descido da torre em uma cesta, e os frades, como haviam combinado, esperavam-no embaixo. Eles levaram seu tesouro resgatado para Nápoles, onde foi imediatamente admitido ao ofício.

 

5. Seus Estudos em Colônia

Mais uma tentativa foi feita para abalar a constância de Santo Tomás, dessa vez através de um apelo ao papa, que o convocou a Roma. 6 Mas o santo advogou tão bem em sua própria causa que o Santo Padre se convenceu da realidade de sua vocação. Entretanto, para satisfazer a família dele, e assegurar em um posto importante os serviços de uma pessoa tão agraciada, o papa propôs fazê-lo abade do Monte Cassino mesmo sendo dominicano. Porém, Santo Tomás implorou tão fervorosamente para continuar sendo um simples religioso na ordem que escolhera que Sua Santidade concedeu e proibiu estritamente qualquer outra interferência em sua vocação.

Para afastá-lo de outros aborrecimentos, o superior geral da ordem levou Santo Tomás consigo para Colônia, onde se tornou discípulo de Santo Alberto Magno, o renomado professor dominicano. Quando Santo Tomás achou-se seguro dentro das paredes do convento, devotou-se com ardor à obra de sua santificação. Seu tempo era dividido entre oração e estudo, e sua humildade fez com que ele escondesse sua vasta inteligência, e mantivesse absoluto silêncio em todas as disputas escolásticas. Sua alta estatura e a imponência de sua figura levaram seus colegas a chamarem-no “o boi mudo da Sicília”. Um dos estudantes, jovem de boa índole e seu colega, oferecia-se para lhe explicar as lições diárias – oferecimento esse que o santo humilde e gratamente aceitava. Um dia, porém, o jovem professor se deparou com uma difícil passagem que interpretou erroneamente. Então, a caridade do santo e o amor à verdade triunfaram sobre sua humildade; pegando o livro, explicou a passagem com a máxima clareza e precisão. O colega, atônito, implorou para dali em diante ser ele o aluno, ao que Santo Tomás consentiu sob a condição de que mantivesse o sigilo. Pouco depois desse episódio, um artigo escrito pelo santo contendo uma solução magistral de uma complicadíssima questão caiu acidentalmente nas mãos de Santo Alberto. Admirado com o gênio que o artigo revelava, Santo Alberto no dia seguinte pôs o conhecimento de seu virtuoso discípulo a uma prova pública, e exclamou diante dos alunos reunidos: “Nós chamamos o irmão Tomás ‘o boi mudo da Sicília’, mas eu vos digo que um dia ele fará com que seus mugidos sejam ouvidos em todos os confins da terra!”

 

6. Seus Estudos em Paris

No verão de 1245, um ano depois da chegada de Santo Tomás a Colônia, o Capítulo Geral da Ordem Dominicana ordenou que Santo Alberto partisse para Paris para receber o título de doutor na universidade daquela cidade, e ele obteve permissão de levar o irmão Tomás como seu companheiro. Os dois santos partiram a pé, de cajado na mão, tendo como bagagem principal o breviário e a Bíblia, aos quais Santo Tomás juntou o livro das Sentenças.

Ao meio dia, eles paravam para descansar às margens de alguma fonte para comer o alimento que pediam pelo caminho. À noite, geralmente encontravam abrigo nos quartos de hóspedes de algum monastério. Desse modo, chegaram ao convento de São Tiago em Paris, onde Santo Tomás se tornou um modelo para toda a comunidade pelo seu espírito de oração, sua profunda humildade, perfeita obediência e caridade universal. Ele tentava imitar as virtudes que observava em seus irmãos e julgava-se totalmente indigno de viver em tão santa companhia. Nunca se ouviu dizer que ele pronunciasse alguma palavra frívola; quando falava, a beleza de seu divino discurso enchia de consolação espiritual todos os que o ouviam. Uma graça celestial irradiava de seu belo semblante, de modo que alguns diziam que bastava contemplá-lo para sentir dentro de si uma renovação de fervor.

Um jovem franciscano de nome Boaventura estava nessa época estudando em Paris. A ele, Santo Tomás liga-se numa amizade muito próxima. Os dois, que foram posteriormente honrados pela Igreja como os Doutores Seráfico e Angélico, tornaram-se muito caros um ao outro na terra assim como Jônatas e Davi, e depois de seus três anos de estudo, receberam juntos o título de Bacharel em Teologia em 1248.

 

7. Recebe o Título de Doutor

Em novembro daquele mesmo ano, Santo Alberto foi enviado de volta a Colônia acompanhado de Santo Tomás, que ensinava sob sua orientação. Os intelectuais não demoraram a descobrir que os dois professores dominicanos excediam todos os outros, e a nova escola em Colônia rapidamente encheu-se a ponto de transbordar. As aulas de Santo Tomás corroboravam completamente os cinco princípios de ensino que ele mesmo tinha estabelecido, a saber: clareza, brevidade, utilidade, doçura e maturidade. Ele possuía uma admirável graça de comunicar o conhecimento, de modo que se aprendia mais rapidamente com ele em poucos meses do que com outros em muitos anos.

Foi logo após o retorno a Colônia que Santo Tomás ascendeu ao sacerdócio; daquele momento em diante, ele parecia mais próximo de Deus do que nunca. Costumava passar muitas horas do dia e uma grande parte da noite na igreja. Enquanto oferecia o Santo Sacrifício, derramava abundantes lágrimas, e o ardor de sua devoção comunicava-se com aqueles que assistiam à Missa.

Após ensinar por quatro anos em Colônia, a Santo Tomás foi ordenado pelo Capítulo Geral que se preparasse para receber o título de doutor. Foi um golpe terrível para sua humildade, pois julgava-se sinceramente indigno de tal honraria. A caminho de Paris, para onde ele tinha de se dirigir, pregou na corte da Duquesa de Brabante, a pedido de quem escreveu um tratado cheio de sabedoria e moderação sobre o governo dos judeus. A partir de então, ele era constantemente consultado nos mais importantes assuntos de Estado, especialmente por São Luís de França, que era ternamente afeiçoado a ele. Santo Tomás chegou a Paris em 1252, e desde o primeiro momento seu sucesso no ensino foi tão grande que os vastos salões do convento de São Tiago não podiam conter seu público. A Universidade (de Paris) parabenizou a Ordem pela aquisição de tão grande tesouro e propôs garantir-lhe imediatamente a licença preliminar para doutorar-se, embora estivesse quase dez anos abaixo da idade requerida pelos estatutos.

Esta etapa, porém, foi atrasada por uma disputa entre os frades e os doutores seculares. A querela começou com a recusa dos primeiros em fazer um juramento para fechar suas escolas, e isso se acalorou com a publicação de um livro intitulado Os Perigos dos Últimos Tempos, no qual as novas Ordens mendicantes eram atacadas nos termos mais caluniosos e escandalosos. Essa obra, que veio da pena de um doutor parisiense chamado Guilherme de Saint-Amour, um homem violento e de opiniões heréticas, foi remetida por São Luís para ser julgada pelo papa. Santo Tomás e São Boaventura foram convocados pelo Tribunal Papal para atuarem como defensores dos regulares, e a pena de Santo Alberto Magno foi também requisitada. A eloqüência de Santo Tomás obteve a condenação do livro, salvou as ordens mendicantes da destruição, e pelos esforços em conjunto do papa e de São Luís, a Universidade foi obrigada a se render e readmitir os frades em suas cadeiras teológicas.

Em 23 de Outubro de 1257, os dois santos puderam doutorar-se. A humildade de Santo Tomás tinha sido tão atingida pela ideia dessa promoção que ele não conseguiu preparar o discurso preliminar até a véspera do dia em que seria proferido. Então, por inspiração divina, ele escolheu para seu texto as palavras do Salmo 103:13: “Regas os montes (do alto) das tuas moradas, com o fruto das tuas obras é saciada a terra” – palavras que em sua interpretação se referiam a Jesus Cristo, que como a cabeça dos homens e dos anjos, rega os espíritos celestes com glória, enquanto enche a Igreja Militante na terra com os frutos de suas obras através dos Sacramentos, que aplicam os méritos de sua sagrada Paixão às nossas almas. Porém, o evento deu a esse texto o caráter de profecia em relação à própria futura carreira do santo.

 

8. O Trabalho em Sua Ordem e na Igreja

Em 1259, Santo Tomás foi incumbido, juntamente com Santo Alberto Magno e outros homens doutos da Ordem, de elaborar regras para regular os estudos dos irmãos. Um ou dois anos depois, ele foi convocado à Itália para ensinar nas escolas ligadas à Corte Papal. Como essas escolas seguiam o papa de lugar em lugar, muitas das grandes cidades da Itália e muitos conventos de sua ordem desfrutaram por um tempo o privilégio dos ensinamentos do santo. 7

Após ter ficado por um período em Roma, em 1269 foi novamente indicado para ensinar em Paris. Os doutores da Universidade referiram a ele uma controvérsia que tinha se levantado sobre as espécies sacramentais na Sagrada Eucaristia. Depois de uma longa e fervorosa oração, o santo expôs por escrito sua opinião sobre o assunto, colocou o manuscrito aos pés do crucifixo no altar do Santíssimo Sacramento e rezou: “Senhor Jesus, que estais verdadeiramente presente e fazeis maravilhas neste adorável Sacramento, rogo-Vos que me concedais que, se o que escrevi for verdadeiro, Vós me habiliteis a ensiná-lo; mas que se houver algo contrário à Fé, Vós me impeçais de prosseguir em declará-lo.” Então, os outros frades, que estavam assistindo, contemplaram o próprio Nosso Senhor descendo e posicionando-se sobre o manuscrito, e ouviram de Seus Divinos lábios estas palavras: “Tomás, tu escreveste bem sobre o Sacramento de Meu Corpo.” O santo imediatamente entrou em êxtase, o que fez com que ele levitasse um cúbito do chão.

Em 1271, Santo Tomás retornou à Itália e começou a ensinar em Roma. Durante a Semana Santa daquele ano, ele pregou em São Pedro sobre a Paixão de Nosso Senhor, e aqueles que o escutaram na Sexta-Feira Santa foram levados às lágrimas e não cessaram de chorar até o Domingo de Páscoa, quando seu sermão Pascal encheu a todos de júbilo. Naquele dia, enquanto ele descia do púlpito, uma pobre mulher, doente há muito tempo, e sem esperanças de cura, beijou a barra de seu manto e ficou imediatamente curada. Nesse ínterim, as Universidades de Paris e de Nápoles estavam competindo entre si para obter a posse do grande Doutor. Nápoles levou a melhor, e o santo a premiou até o final do verão de 1272 com os últimos atos de seu trabalho como professor.

Durante todos esses ativos anos de ensino, a pena de Santo Tomás trabalhou infatigavelmente, enriquecendo as escolas e a Igreja com inestimáveis tratados que encheram muitos volumes. Dentro do estreito limite destas páginas, é impossível fazer mais do que citar alguns de seus mais importantes escritos. Ele comentou as obras de Aristóteles e livrou o texto do filósofo pagão de tudo o que era contrário às verdades da Fé. Ao mesmo tempo, adotou os termos da filosofia de Aristóteles como a classificação mais científica das ideias humanas e assim, estabeleceu um sistema completo de filosofia Cristã. Sua Suma Contra os Gentios (Summa Contra Gentiles) foi escrita a pedido de São Raimundo de Pennaforte, o terceiro Superior da Ordem, para combater as falsas doutrinas filosóficas introduzidas pelos sarracenos na Espanha e que estavam penetrando nas universidades da Europa. Nessa obra, Santo Tomás demonstra a verdade da Religião revelada e prova de modo triunfal que a Cristandade não pode ser contrária à sã razão. O Santo Doutor escreveu tratados sobre o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo8, comentários sobre as várias partes da Sagrada Escritura, e respostas a diversas questões propostas a ele para que as solucionasse. O Papa Urbano IV encarregou-o da tarefa de reunir todas as mais belas passagens dos escritos dos Padres da Igreja sobre os Evangelhos, e o resultado foi sua Catena Aurea, ou A Corrente de Ouro, que é inteiramente composta de citações, e escrita em grande parte de memória. Como viajava de convento em convento, o santo lia as obras dos Padres, uma aqui, outra ali, e sua maravilhosa memória fez com que ele guardasse e transcrevesse as passagens tendo em mente cada assunto. A mais famosa de suas obras é sua Suma Teológica (Summa Theologica), na qual ele trabalhou, nos intervalos entre o ensino e a pregação, pelos últimos nove anos de sua vida, mas que não viveu o suficiente para terminar.

Desse trabalho é dito que o Papa João XXII afirmou que Santo Tomás havia feito tantos milagres quanto a Suma continha artigos, e seu valor é talvez mais bem atestado pelo ódio com o qual ela sempre foi considerada pelos hereges. Em 1520, Lutero fê-la ser queimada em público na praça de Wittenberg, e outro dos chamados reformadores, Martin Bucer, exclamou: “Suprimi Tomás e eu destruirei a Igreja!” “Um desejo vão”, observa Leão XIII, “mas não um vão testemunho.” No Concílio de Trento, apenas três obras de referência foram colocadas na mesa do salão de reunião. Eram elas: as Sagradas Escrituras, os Atos Pontificais e a Suma de Santo Tomás. Foi por causa da Suma que o Catecismo do Concílio de Trento foi escrito por três padres dominicanos e outros teólogos. 

 

9. A Festa de Corpus Christi

A obra de Santo Tomás mais amada e venerada pelos fiéis talvez seja a participação que teve na instituição da Festa de Corpus Christi. Quando ele apresentou ao Papa Urbano IV a primeira parte de sua Catena Aurea, por volta de 1263, o Pontífice maravilhado quis, em sinal de gratidão, elevá-lo ao episcopado. Porém, Santo Tomás atirou-se-lhe aos pés e implorou ao Santo Padre que lhe concedesse como única recompensa pelo seu trabalho que a Festa do Santíssimo Sacramento, já estabelecida na Alemanha e nos Países Baixos pelas orações da Bem-aventurada Santa Juliana e pela influência do cardeal dominicano Hugo de São Cher, fosse estendida para a Igreja Universal. O papa alegremente consentiu e ordenou que Santo Tomás escrevesse o ofício da festa. Nesse ofício, cada responsório nas Matinas é composto de duas frases, uma retirada do Antigo Testamento e outra do Novo, que assim são feitas para darem um único testemunho ao grande mistério central da Fé Católica. Seus hinos Verbum Supernum e Pange Lingua nos são familiares, especialmente suas últimas estrofes, O Salutaris e Tantum Ergo, sempre cantados na Bênção, e desde a infância nossos corações são tocados de emoção enquanto caminhamos nas procissões do Santíssimo Sacramento pela força do Lauda Sion.

Antes de apresentar seu ofício ao papa, Santo Tomás o colocou diante do sacrário, e o milagre anteriormente ocorrido em Paris repetiu-se: as palavras de aprovação procederam dos lábios de um crucifixo ainda venerado em Orvieto. Um testemunho semelhante da aprovação divina foi concedido ao santo em Nápoles, e foi visto por um dos frades. Nessa ocasião, também Nosso Senhor falou com ele de um crucifixo, que é preservado na Igreja de São Domingos Maior, dizendo: “Tu escreveste bem de Mim, Tomás. Que recompensa terás?” Ao que o Santo fervorosamente respondeu: “Nenhuma além de Vós, ó Senhor!”

Também devemos à pena de Santo Tomás o Adoro Te, algumas belas devoções antes e depois da Santa Comunhão, e muitas outras orações sólidas em doutrina e belas em expressão. É tradição dizer que ele compôs a tão famosa “Alma de Cristo, Santificai-me” (Anima Christi), que era a oração favorita de Santo Inácio e que foi introduzida por ele em seu livro Exercícios Espirituais, embora deixando de fora a amável súplica “Luz da Sagrada Face de Jesus, brilhai sobre mim”, que é encontrada nas formas mais antigas da oração. Essa súplica ocorre na versão de Anima Christi encontrada em um antigo livro de orações chamado Horas York, onde se afirma ter sido indulgenciada pelo Papa João XXII quando ele a recitou após a elevação na Missa. Esse livro de orações foi publicado em 1517, quatro anos antes da conversão de Santo Inácio.

 

10. Traços Pessoais

Santo Tomás era alto e forte, de cabeça fina e sólida, fronte elevada, traços refinados e belos, olhos grandes e brandos que irradiavam benevolência. Suas maneiras eram singularmente encantadoras e graciosas, e suas prodigiosas faculdades mentais eram acompanhadas de uma inocente simplicidade de caráter, que juntamente com a pureza de sua doutrina renderam-lhe o título de “Anjo das Escolas”. Embora estivesse muito acima dos outros por sua enorme inteligência, ele era o mais doce e o mais caridoso dos mestres e dos padres, sempre pronto a curvar-se diante da capacidade dos mais jovens e dos mais estultos de seus colegas. Independentemente da importância dos afazeres nos quais estava engajado, sua cela estava sempre aberta para seus irmãos todas as vezes que queriam falar com ele, e alegremente deixava a mais exaustiva ocupação para dar-lhes sua inteira atenção. Ele os ouvia em suas dificuldades, explicava suas dúvidas e confortava-os em suas aflições. Nada que dizia respeito a seus irmãos era banal aos seus olhos, e ele nunca se mostrou cansado de suas interrupções, nem de suas inconveniências. Em troca, seus irmãos lhe davam a mais terna afeição: Doctor noster (Nosso Doutor) era como eles amavam chamá-lo, e a sinceridade de sua amizade era largamente provada pela amarga tristeza de todos quando ele se ausentava.

Muito depois de sua morte, aqueles que o tinham conhecido nunca falavam dele sem lágrimas, tão ternamente o amavam. Verdadeiro filho de São Domingos, cuidou apenas de falar de Deus ou com Deus, e não conseguia entender como um religioso poderia interessar-se por outro assunto. Se a conversa mudava para outros temas, ele cessava de participar e confessava para seus colegas que o surpreendia que um religioso pudesse pensar em outra coisa que não fosse Deus. Também era completamente incompreensível para ele o fato de alguém em estado de pecado mortal conseguir comer, dormir, ou alegrar-se. Quando os seculares vinham buscar conselho e consolação, ele lhes dava ouvidos de boa vontade, e após tirar suas dúvidas e consolá-los em suas dores, nunca deixava de contar-lhes alguma pia história ou falar-lhes algumas palavras edificantes, e em seguida dispensava-os, ficando eles com os corações ardendo de júbilo espiritual e amor divino.

Podemos imaginar Santo Tomás desfrutando da simples distração de subir e descer o claustro de seu convento, ocasionalmente levado por seus irmãos para tomar ar fresco no jardim, mas certamente logo sendo encontrado em algum canto isolado, absorto em pensamentos. Dessas distrações, são contadas algumas anedotas, como a que no-lo mostra jantando com São Luís e de repente esmurrando a mesa, exclamando: “Há um argumento conclusivo contra os maniqueus!” Seus colegas gentilmente esforçaram-se para lembrá-lo da presença real, enquanto o amável rei imediatamente convocou um secretário para anotar o convincente argumento que se apresentava à mente de seu santo hóspede.

De volta a Nápoles, o cardeal legado e o arcebispo de Cápua vieram visitar Santo Tomás. Ele, por sua vez, foi recebê-los no claustro, mas no caminho, ficou tão absorto na solução de uma dificuldade teológica que, quando chegou, tinha se esquecido dos afazeres e dos visitantes, e ficou como alguém que está sonhando. O arcebispo, que tinha anteriormente sido seu aluno, assegurou ao cardeal que aqueles devaneios eram muito familiares para todos aqueles que conheciam os hábitos do santo. Essas distrações às vezes faziam-no insensível à dor, como quando uma vela queimou sua mão enquanto ele permanecia absorto, inconsciente do fato.

A vida austera de Santo Tomás e seus incessantes trabalhos aumentaram a delicadeza natural de sua constituição, e fizeram com que ele freqüentemente caísse doente. Contudo, isso não pareceu tê-lo feito desistir de seu trabalho de composição. Cirurgias eram mal feitas no século XIII, e sua extrema sensibilidade fizeram com que as operações lhe fossem ainda mais terríveis. Em uma ocasião, quando se viu obrigado a passar por uma cauterização, implorou ao enfermeiro para avisá-lo quando os cirurgiões viessem. Quando se deitou em seu leito, imediatamente entrou em êxtase, permanecendo imóvel enquanto sua carne era queimada com ferros em brasa.

Suas roupas eram sempre as mais pobres do convento e seu amor pela santa pobreza era tão grande que sua Summa Contra Gentiles foi escrita no verso de cartas antigas e em pedaços de papel. Em vão os soberanos pontífices insistiram que ele aceitasse o arcebispado de Nápoles e outras honras eclesiásticas juntamente com amplos rendimentos. Nada pôde abalar sua determinação de viver e morrer como um simples religioso, e eles foram obrigados a retirar suas propostas, não querendo afligir alguém tão caro para eles. Ele, que era o oráculo de seu tempo, amava pregar aos pobres e aos humildes, e é sabido que eles sempre o ouviam alegremente e com muito fruto para suas almas. Ele era cheio de compaixão pelas suas necessidades e fazia-lhes o donativo de suas próprias roupas para vesti-los.

 

11. Sua Humildade e Mansidão

A humildade sempre foi a virtude característica de Santo Tomás. Ele percebia tão perfeitamente a grandeza de Deus e sua própria insignificância que em um momento de intimidade, ele disse a um amigo: “Graças sejam dadas a Deus! Nunca meu conhecimento, meu título de doutor, nem nenhum dos meus atos acadêmicos despertaram em mim um único movimento de vanglória sequer. Se algum movimento tiver sido despertado, a razão instantaneamente o reprimiu”. Da humildade brotava a extrema modéstia na expressão de sua opinião. Nunca, no calor de um debate ou em qualquer outra ocasião, se soube que ele tenha perdido a imperturbável serenidade de temperamento, ou que tenha dito alguma palavra que pudesse ferir os sentimentos de alguém, e ele suportou os mais incisivos insultos com uma calma igualmente imperturbável. Sua vida é cheia de exemplos de seu espírito de humildade e obediência religiosa. Uma vez, ainda como um jovem religioso, quando estava lendo no refeitório de Paris, o corretor oficial lhe pediu para pronunciar uma palavra de um modo evidentemente incorreto. Santo Tomás obedeceu e pronunciou a quantidade errada. 9 Quando lhe perguntaram como ele consentiu em um engano tão óbvio, ele respondeu: “Pouco importa se uma sílaba seja longa ou breve, mas muito importa que se pratique a humildade e a obediência”. Anos mais tarde, quando o santo estava ensinando em Bolonha, um irmão leigo obteve a licença do prior para tomar como companheiro o primeiro irmão religioso que encontrasse livre. Vendo Santo Tomás, que era um estranho para ele, subindo e descendo no claustro, foi em direção a ele dizendo que o prior queria que ele o acompanhasse pela cidade, onde tinha negócios a realizar. O santo, embora coxeando e estando perfeitamente consciente de que o leigo estava enganado, imediatamente obedeceu ao chamado e foi mancando pela cidade atrás de seu companheiro, que de vez em quando reclamava de sua lentidão. Quando o leigo descobriu seu engano, desculpou-se copiosamente, mas o santo respondeu: “Não se incomode, meu caro irmão. Eu sou o culpado. Apenas sinto muito de não ter podido ser mais útil”. Para aqueles que perguntaram o porquê de ele não ter explicado o engano, ele deu esta preciosa resposta: “A obediência é a perfeição da vida religiosa; por ela, o homem se submete ao seu próximo por amor a Deus, como Deus fez-se a si mesmo obediente aos homens para a salvação deles”.

A Santo Tomás, custava-lhe acreditar que os outros pudessem ser maus. Sempre achava que todos eram melhores que ele, mas quando era provada uma falta e não havia possibilidade de dúvida, chorava como se ele mesmo a tivesse cometido, e seu zelo exigia que a falta fosse severamente corrigida, de acordo com o que dizia Santo Agostinho: “com caridade para com o pecador, mas com ódio ao pecado”.

Certa vez, um dos irmãos o pressionou a dizer qual a maior graça que já tinha recebido de Deus – com exceção da Graça Santificante. Após alguns minutos de reflexão, ele respondeu: “Penso que ter entendido tudo o quanto tenho lido”. Ele lembrava-se de tudo que ouvia apenas uma vez, de modo que sua memória era como uma biblioteca muito bem abastecida. Freqüentemente, escrevia e ditava ao mesmo tempo assuntos distintos a três ou quatro secretários, e nunca perdia o fio dos argumentos.

 

12. Sua Vida Diária e suas Devoções

Algumas informações sobre o modo como Santo Tomás passava seus dias foram preservadas. Depois do tempo absolutamente necessário de sono, ele levantava durante a noite e descia à igreja para rezar, retornando à cela pouco antes de os sinos tocarem para as Matinas, de modo que sua vigília passasse despercebida. Então descia novamente para o Ofício com a comunidade, sempre prolongando sua oração até a aurora. Após se preparar para a penitência, a Confissão e a meditação, ele celebrava a primeira Missa, e em ação de graças ouvia outra Missa na qual sempre servia. Compôs orações para todas as suas ações diárias, algumas das quais ainda são preservadas. Na Elevação, era seu costume repetir as palavras “Vós, ó Cristo, sois o Rei da Glória” com os últimos versos do Te Deum. Embora licitamente dispensado de comparecer ao coral devido aos seus trabalhos de ensino e escrita e às numerosas visitas dos que procuravam sua orientação, ele assistia com os irmãos todas as horas do Ofício Divino, e sempre derramava lágrimas de devoção.

Quando seus exercícios matinais terminavam, ele dava suas aulas de Teologia ou sobre as Sagradas Escrituras, e depois voltava para sua cela para escrever e ditar até a hora do jantar. Comia uma vez por dia apenas, e não se importava com o que era servido. Na verdade, no refeitório, ficava tão absorto em oração e em pensamentos que não percebia as coisas externas, tanto que mudavam seu prato, ou retiravam sua comida e ele não se dava conta. Depois do jantar, conversava um pouco com os irmãos, e em seguida reanimava sua alma com uma pequena leitura espiritual, sendo as Conferências de Cassiano seu livro favorito10. Após um pequeno repouso, retomava seus trabalhos, e terminava o dia cantando no coral o Salve Regina nas Completas.

O Doutor Angélico era cheio de devoções singelas a Nossa Senhora. Seu confessor, o padre Reginaldo, declarou que Santo Tomás nunca havia pedido algo através da Virgem Maria que não tivesse obtido, e o próprio santo atribuía especialmente à sua intercessão a graça de viver e morrer na Ordem Dominicana, conforme seu sincero desejo. Durante toda uma Quaresma, ele pregou sobre as palavras “Ave Maria”, e as mesmas amadas palavras podem ser encontradas repetidas vezes nas margens de seu próprio manuscrito da Suma Contra os Gentios, recentemente descoberto na Itália. Em seu leito de morte ele confidenciou ao padre Reginaldo que Nossa Senhora tinha lhe aparecido diversas vezes e lhe assegurou do bom estado de sua alma, e da solidez de sua doutrina. Os santos Apóstolos São Pedro e São Paulo também o favoreceram com suas visitas e lhe explicaram difíceis passagens da Sagrada Escritura. As epístolas de São Paulo eram suas matérias favoritas de meditação, e ele costumava recomendá-las aos outros para o mesmo propósito. Tinha uma devoção especial a Santo Agostinho, e a partir das obras desse santo Doutor, compôs o Ofício próprio, ainda em uso na Ordem Dominicana. Santo Tomás costumava usar em volta do pescoço uma relíquia da virgem e mártir Santa Inês, da qual fez uso certa vez para curar o padre Reginaldo de uma febre que o atacou em uma viagem a Nápoles, e é dito que a partir daquele momento, o Santo Doutor resolveu celebrar a festa de Santa Inês com solenidade especial e – com um caráter natural que demonstrava compaixão humana – servir um jantar melhor no refeitório naquele dia.

“Seu admirável conhecimento”, dizia o padre Reginaldo, “era devido muito menos ao seu gênio do que à eficácia de sua oração. Antes de estudar, entrar em uma discussão, ler, escrever ou ditar, ele sempre se entregou à oração. Rezava com lágrimas para obter de Deus o conhecimento de seus mistérios, e uma luz abundante era concedida a sua mente”. Se ele encontrava alguma dificuldade, juntava jejum e penitência à sua oração, e todas as dúvidas eram esclarecidas. Certa vez, São Boaventura, vindo visitá-lo, viu um anjo auxiliando-o em seus trabalhos.

Entre suas notáveis palavras, pode ser mencionada a resposta que ele deu à irmã quando ela lhe perguntou o que deveria fazer para se tornar santa. “Velle”, respondeu ele – i.e., “Querer”. Ao lhe perguntarem quais eram os sinais de perfeição da alma, ele respondeu: “Se eu visse um homem afeiçoado a conversas frívolas, desejoso de honra e relutante em ser desprezado, eu não acreditaria que fosse perfeito, ainda que o visse obrar milagres”.

 

13. Sua Morte

Na festa de São Nicolau, no dia 6 de Dezembro de 1273, Santo Tomás estava rezando a Missa na capela do santo no convento de Nápoles, quando recebeu uma revelação que o mudou de tal maneira, que a partir daquele momento, não pôde mais nem escrever, nem ditar. Pouco depois, em resposta às prementes súplicas do padre Reginaldo, ele disse: “Chegou o termo de meus labores. Depois de tudo o que me foi revelado, tudo o que escrevi até hoje me parece apenas palha. Espero na misericórdia de Deus que o fim de minha vida possa em breve seguir o termo de meus trabalhos.”

Sofria de uma doença quando recebeu um chamado do papa para comparecer ao Concílio Geral convocado em Lião para a reunião das Igrejas Grega e Latina. 11 O santo, portanto, partiu de Nápoles, acompanhado do irmão Reginaldo e alguns outros frades em 28 de Janeiro de 1274. No caminho, piorou muito. “Se Nosso Senhor estiver prestes a me visitar”, disse aos companheiros, “é melhor que Ele me encontre em uma casa religiosa do que em meio aos seculares”.

Como não estava próximo de nenhum convento dominicano, rendeu-se ao premente convite de alguns colegas cistercienses e deixou que o levassem para a Abadia de Fossa Nova. Chegando lá, foi direto para a igreja adorar o Santíssimo Sacramento, e em seguida, ao passar pelo claustro, exclamou: “Aqui é o lugar do meu repouso eterno!” Foi instalado na cela do próprio abade e esperou com a mais extrema caridade. Os próprios monges foram cortar lenha para lhe acender uma fogueira. Ao vê-los trazendo aquela carga para sua cela, o santo gritou: “Por qual razão devem os servos de Deus servir a um homem como eu, trazendo de longe tão pesados fardos?”

Em observância às diligentes súplicas dos cistercienses, ele começou a explicá-los o Cântico dos Cânticos, mas não viveu para completar sua exposição. Como se aproximasse seu fim, ele, com muitas lágrimas, fez uma confissão geral de toda sua vida ao padre Reginaldo, e então pediu para deitar-se sobre cinzas no chão quando lhe foi trazido o Santo Viático. Ao contemplar o Santíssimo Sacramento, colocou-se de joelhos e disse em clara e distinta voz, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto: “Recebo-Vos, ó preço da redenção da minha alma; recebo-Vos, ó viático da peregrinação de minha alma, por amor de quem eu tenho estudado, observado, trabalhado, pregado e ensinado. Escrevi muito, e freqüentemente discuti os mistérios de Vossa lei, ó meu Deus. Vós sabeis que não desejei ensinar nada salvo o que aprendi de Vós. Se o que escrevi for verdadeiro, aceitai-o como uma homenagem à Vossa infinita majestade; se for falso, perdoai minha ignorância. Consagro-Vos tudo o que já fiz e submeto tudo ao julgamento infalível de Vossa Santa Igreja Romana, em cuja obediência estou prestes a partir desta vida”.

Pouco antes de receber a Sagrada Hóstia, pronunciou sua jaculatória favorita: “Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória, Vós sois o Filho Eterno do Pai”. Após receber o Santo Viático, ele fez fervorosos atos de fé e amor nas palavras de seu belíssimo Adoro te. No dia seguinte, ao receber a Extrema Unção, respondia calmamente todas as orações, enquanto as vozes dos assistentes eram atravancadas por soluços. Tentou confortar seus irmãos, que estavam inconsoláveis com a perda que se aproximava, e muito agradeceu aos cistercienses por sua caridade. Um deles lhe perguntou qual era a melhor maneira de viver sem ofender a Deus. “Esteja certo”, respondeu o santo, “que aquele que caminha na presença de Deus e está sempre pronto a dar a Ele contas de seus atos nunca se separará Dele pelo pecado”. Essas foram suas últimas palavras. Logo em seguida, entrou em agonia e expirou tranqüilamente em 7 de março de 1274, não tendo ainda completado cinqüenta anos.

No mesmo dia, Santo Alberto, então em Colônia, rompeu em lágrimas na presença de toda a comunidade e exclamou: “Irmão Tomás de Aquino, meu filho em Cristo, que foi a luz da Igreja, está morto! Deus revelou-mo.”

Em Nápoles, também, agradou a Deus tornar conhecida a morte do santo de uma maneira milagrosa. Um dos frades, enquanto rezava na igreja, entrou em um êxtase no qual pareceu contemplar o Santo Doutor ensinando nas escolas, rodeado de uma grande multidão de discípulos. São Paulo Apóstolo também apareceu acompanhado de muitos santos, e Santo Tomás perguntou-lhe se tinha interpretado suas Epístolas corretamente. “Sim”, respondeu o Apóstolo, “até onde alguém ainda na terra pode entendê-las. Mas vem comigo; eu te conduzirei a um lugar onde terás um conhecimento ainda mais claro de todas as coisas”. O Apóstolo, então, pareceu tocar o manto de Santo Tomás e levá-lo, e o frade que contemplara a visão surpreendeu a comunidade ao gritar três vezes em alta voz: “Ai de nós! Ai de nós! Nosso Doutor está sendo levado de nós!”

 

14. Honras Após Sua Morte

O funeral de Santo Tomás foi realizado na Abadia com grande solenidade. Padre Reginaldo fez um breve discurso, freqüentemente interrompido por seus próprios soluços e pelos de seus ouvintes. Ele declarou que, tendo sido por muitos anos o confessor de Santo Tomás, podia solenemente atestar que o Santo Doutor nunca tinha perdido sua inocência batismal, e tinha morrido tão puro e livre de mácula como uma criança de cinco anos de idade. Ele então revelou alguns favores particulares que Santo Tomás lhe tinha proibido revelar durante sua vida.

Muitas revelações da glória do santo deram-se após sua morte, das quais a que se segue talvez seja uma das mais interessantes: um fervoroso discípulo seu orou ardentemente para que pudesse saber qual a categoria a que seu amado mestre tinha sido elevado em glória. Um dia, enquanto fazia suas preces usuais diante do altar de Nossa Senhora, dois veneráveis personagens cercados de uma maravilhosa luz pararam de repente diante dele. Um deles estava vestido como um bispo; o outro usava o hábito de um frade pregador, mas estava resplandecente com pedras preciosas. Em sua cabeça estava uma coroa de ouro e diamantes, de seu pescoço pendiam duas correntes, uma de ouro, outra de prata, e uma joia na forma de um sol brilhava sobre seu peito, vertendo raios de luz por toda parte. “Deus ouviu tua oração”, disse o primeiro personagem. “Eu sou Agostinho, Doutor da Igreja, enviado para te comunicar a glória de Tomás, que reina comigo e que iluminou a Igreja com seu conhecimento. Isso é representado pelas pedras preciosas com as quais ele está coberto. Isto que brilha em seu peito significa a reta intenção com a qual ele defendeu a Fé; as outras simbolizam os livros e escritos que ele compôs. Tomas é igual a mim em glória, mas excedeu-me pela auréola da virgindade.”

Santo Tomás foi canonizado pelo papa João XXII em 1323 na cidade de Avignon. Apenas em 1367 os dominicanos conseguiram obter a posse de seu corpo, que foi levado para o convento de Toulouse, onde foi recebido com todas as demonstrações de honra. Uma festividade anual foi realizada pela ordem em 28 de janeiro, em memória dessa transladação, que foi acompanhada de muitos milagres. Porém, em 1923 foi suprimida em favor da nova festa do Patrocínio de Santo Tomás, em 13 de novembro. Valiosas relíquias do santo foram dadas a vários conventos da ordem. Na época da Revolução Francesa, os restos mortais do santo foram removidos para a cripta da igreja de São Saturnino em Toulouse, onde ainda repousam.

Em 1567, São Pio V conferiu a Santo Tomás o título de Doutor da Igreja, sendo conhecido como “o Doutor Angélico” devido à sua inocência e sua inteligência. Na carta encíclica Aeterni Patris (1879), o Papa Leão XIII instou a restauração do ensinamento de Santo Tomás em todas as escolas, e por um Breve apostólico (1880), o mesmo Pontífice nomeou Santo Tomás de Aquino como Patrono de todas as universidades, academias, colégios e escolas católicos. Para o louvor de seus predecessores, o Papa Pio XI adicionou o toque final ao declarar que o Doutor Angélico merecia o esplêndido título de “Doutor Universal da Igreja” (29 de junho de 1923).

“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’ para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Da encíclica Studiorum Ducem do Papa Pio IX, 29 de Junho de 1923)

O dia da festa tradicional de Santo Tomás de Aquino é 7 de março.

 

***

 

Oremos:

Ó Deus, que ilustrais a Igreja com a admirável ciência do bem-aventurado Tomás, Vosso Confessor e Doutor, e a fecundais com a santidade de suas virtudes, concedei-nos a graça de compreender o que ele ensinou e de fielmente imitar o que ele fez. Por nosso Senhor Jesus Cristo12.

R/ Amém.

 

(St. Thomas Aquinas, Saint Benedict Press, LLC 2009)

  1. 1. [N. da T.] O Condado de Aquino pertencera à família de Santo Tomás até o ano de 1137.
  2. 2. Por isso, a devoção popular a Santo Tomás o coloca como padroeiro contra trovoadas e morte repentina. São bentas cruzes contra relâmpagos, trazendo de um lado a imagem do Santo e do outro, uma inscrição em latim que ele deixou escrita na parede de uma caverna em Anagni, onde ele mais de uma vez se refugiou durante as trovoadas. Esta é uma tradução da inscrição: “A Cruz para mim é a certeza da salvação. A Cruz é o que eu sempre adoro. A Cruz do Senhor está comigo. A Cruz é meu refúgio.”
  3. 3. [N. da T.] O imperador era Frederico II da Germânia, neto de Frederico I e primo de Santo Tomás, que governou o Sacro Império Romano-Germânico entre os anos de 1220 e 1250.
  4. 4. [N. da T.] Os Quatro Livros das Sentenças (Libri Quattuor Sententiarum), escrito do bispo e teólogo Pedro Lombardo, são uma compilação de textos bíblicos e sentenças de Padres da Igreja e outros pensadores que expõe de maneira detalhada toda a teologia cristã da época. Santo Tomás escreveu um comentário a essa obra – Scriptum super sententiis.
  5. 5. No século XVI, foi estabelecida uma confraria chamada “Milícia Angélica”, para obter através da intercessão de Santo Tomás de Aquino a virtude da castidade. Essa confraria foi enriquecida com muitas indulgências.
  6. 6. [N. da T] Corria o ano de 1244, e o papa era Inocêncio IV.
  7. 7. [N. da T.] O papa a essa época era Alexandre IV.
  8. 8. [N. do E.] A Editora Permanência promoveu a digitação integral da Suma Teológica, bem como traduziu e publicou os Sermões sobre o Pai Nosso e a Ave Maria, sobre o Credo e sobre os Dez Mandamentos. Com exceção deste último, estão todos no nosso site: www.permanencia.org.br
  9. 9. [N. do E.] Quantidade de uma vogal ou de uma silaba é a maior ou menor duração de sua pronúncia. Em latim, a pronúncia da vogal ou sílaba longa dura o dobro da pronúncia da vogal ou silaba breve.
  10. 10. [N. da T.] São João Cassiano (360-435) foi teólogo e monge, ordenado diácono por São João Crisóstomo, de quem se tornou amigo e defensor quando este foi perseguido pela imperatriz Eudóxia e levado a exílio. São Bento recomendou a leitura de suas Conferências a todos os monges.
  11. 11. [N. da T.] Esse Concílio, o Segundo Concílio de Lion, foi convocado em março de 1272 e reunido nessa cidade dois anos depois, em 1274, pelo Papa Gregório X.
  12. 12. [N. do E.] Oração retirada do Missal de Gaspar Lefebvre.

Introdução à festa do Nascimento do Senhor

O Verbo desde toda a eternidade gerado pelo Pai elevou à união pessoal com Ele o fruto bendito do seio virginal de Maria; quer dizer que a natureza humana e a natureza divina se ligaram em Jesus na unidade duma só pessoa que é a segunda da Santíssima Trindade e visto que quando se fala de filiação é a pessoa que se designa, deve dizer-se que Jesus é o Filho de Deus, porque a sua Pessoa é divina: É Verbo incarnado. Daqui se segue que Maria é com razão chamada Mãe de Deus, não porque ela tenha gerado o Verbo, mas porque gerou a humanidade que o Verbo uniu a Si no mistério da Incarnação. Compreendemos então que a Igreja cante na Missa o solene Intróito: “Tu és meu Filho, hoje Te gerei”.

Filho eterno do Pai, constantemente gerado por Ele na eternidade, Cristo continua a sê-lO no dia do seu nascimento sobre a Terra, revestido da nossa humanidade. É no meio da noite que Maria dá à luz o Filho divino e O coloca no presépio. Por isso celebra-se a Missa à meia noite, e a estação faz-se na Basílica de Santa Maria Maior, no altar onde se conservam as relíquias do presépio.

Este nascimento de Cristo em plena noite é simbólico: “Deus nascido de Deus, Luz nascido da Luz” (Credo), Cristo dissipa as trevas do pecado; “É a verdadeira luz” cujo esplendor ilumina os olhos da nossa alma, para que, enquanto conhecemos a Deus de uma maneira visível, por Ele sejamos arrebatados ao amor das coisas invisíveis. Veio arrancar-nos à impiedade e aos prazeres do mundo e ensinar-nos a merecer, pela dignidade da vida neste mundo, a feliz esperança que nos foi prometida. Será em plena luz que se realizará a vinda da glória de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Natal, é a aparição na noite do mundo da Luz divina, cujo fulgor, em nós, e em volta de nós, se estende até ao fim dos tempos.

 

Do Evangelho: Por que, pergunta São Gregório, esse recenseamento, no momento do nascimento do Senhor, senão para nos dar a entender que é a aparição na carne d’Aquele que, um dia, deve recensear na eternidade os seus eleitos? (Matinas). O aparecimento do Homem Deus durante a noite é a figura da sua vinda no fim do mundo. Di-lo o próprio Jesus: No meio da noite far-se-á ouvir um clamor. Eis que vem o Esposo, ide ao seu encontro e as almas que tiverem esperado por Ele entrarão para as bodas eternas, enquanto que às outras dirá: Não vos conheço (parábola das dez virgens).

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Dois capítulos de "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'"

[Nota da Permanência: apresentamos a seguir dois capítulos do livro "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'". Trata-se de uma história real. A Sra. Marie de Sainte Hermine narra o que viu e viveu ao lado dos seus parentes durante a Guerra da Vendeia e o Terror Revolucionário. Um livro imperdível à venda na nossa livraria ]

 

Capítulo XXV

A prisão de Geneviève

Depois da batalha que entregou Fougères ao exército católico, a cavalaria vendeana, da qual o Marquês de Sérant e Jacques Bureau faziam parte, perseguiu vigorosamente os republicanos. Duas horas depois, ao regressarem ao povoado, cruzaram com o sr. Henri que saía pela estrada de Rennes para examinar as posições onde seria aconselhável estabelecer as tropas, caso o inimigo fizesse um retorno ofensivo. O Generalíssimo, de quem meu cunhado era então ajudante de ordens, lhe pediu que o acompanhasse com alguns cavaleiros para servir-lhe de escolta. Jacques Bureau, é claro, seguiu seu mestre.

A viagem do sr. de La Rochejaquelein continuou por várias horas, e Arthur só pôde retornar a Fougères tarde da noite.

Enquanto ele galopava pelo campo com o sr. Henri, Geneviève era tomada por uma mortal inquietude. Fazia muito tempo que a batalha havia terminado e o seu marido não havia retornado, ele que sempre voltava imediatamente para ela, depois de cada ação, para livrá-la de suas angústias!

Ansiosa, ela questionava todos os cavaleiros que encontrava; ninguém podia lhe dizer o que havia acontecido com o sr. de Sérant.

Sem poder aguentar mais, procurou Pierre Bureau. Meu cunhado lhe tinha dado a responsabilidade especial de zelar pela segurança de sua esposa; assim, o rapaz, fora dos dias de batalha, estava sempre a seu serviço. “Venha comigo”, disse-lhe ela, “o sr. de Sérant ainda não voltou e nem o seu irmão. Estou em uma inquietude mortal. Foi na direção de Avranches que eles perseguiram o inimigo: devo ir ao seu encontro”.

Pierre logo atrelou Fauvette e Mignon, e alguns minutos depois, Geneviève e seu pajem estavam deixando a cidade.

Vocês sabem que laços recíprocos de apego respeitoso e afeto maternal uniam o filho dos Bureau e a jovem Marquesa de Sérant. Há vários dias que ela procurava uma ocasião favorável para lembrar a esse jovem da horrível vingança que ele havia exercido contra Urbain, e tentar inclinar seu coração ao arrependimento.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela lhe disse suavemente:

– Você sabia, meu amigo, que eu estava com muito medo por você durante a batalha de Laval?

– Verdade? minha senhora; e por quê?

– Porque, meu pobre jovem, você cometeu, há duas semanas, um grande pecado ao atentar uma atroz vingança ao seu inimigo... você pediu perdão ao bom Deus?

– Oh! sim, senhora marquesa. Veja, no primeiro momento, eu estava loucamente perdido. Eu dizia assim: “Foi bem-feito, mesmo assim... Você vingou o pai e Joséphine!”. E aí, depois, me remoeu a consciência. Então eu falava assim: “Mas se o bom Deus te pegasse, te levaria sei lá pra onde!”. E então os rapazes lá de casa quase deram as costas para mim! “Você não agiu como um bom cristão”, me disseram. “Isto é verdade”, eu disse a eles. Mas senhora, eu perdi a cabeça; eu via tudo vermelho, tudo vermelho... mas eu sinto muito por isso, agora! Então, quando vi que íamos pegar os Azuis de novo, disse: “Isso não; temos que nos limpar”. Daí que fui procurar o vigário de Liré, a senhora sabe muito bem, o padre Rochard, que veio para junto da gente, e eu falei tudo para ele... no momento, não sobrou nada. Não desejo isso para ninguém. Sem isso, veja bem, não estaria no pensamento de Deus de nos perdoar.

– Você fez bem, meu rapaz – respondeu Geneviève sorrindo com a ingenuidade da confissão. – Agora vou ficar tranquila em relação a você. Se você morrer, sua alma, pelo menos, será salva.

– Claro, minha senhora. Nos dias de hoje, é quase melhor ir para o bom Deus do que ficar por aqui, com tantas pessoas más que existem.

No entanto, nossos dois cavaleiros haviam avançado até o ponto em que a perseguição ao inimigo havia cessado e todas as suas buscas foram infrutíferas. Cada vez mais perturbada, minha irmã decidiu voltar para a cidade, na esperança de que seu marido tivesse voltado durante sua ausência.

Após alguns momentos ela cavalgou em direção a Fougères. De repente, enquanto ela seguia um caminho entre dois arbustos, balas assobiaram em seus ouvidos e clamores ecoaram à direita e à esquerda. Alguns segundos depois, uma dúzia de hussardos republicanos avançou, de sabre em punho, sobre a jovem e seu criado.

Pierre se defendeu com raiva e, sob seus furiosos golpes, quatro cavaleiros inimigos comeram terra; mas finalmente, sucumbindo ao número, o heroico rapaz, coberto de feridas, caiu por terra, morrendo. Os republicanos então se lançaram sobre Geneviève que, certamente, teria sofrido o mesmo destino, se não fosse a intervenção do oficial que comandava o destacamento e que obrigou seus soldados a recolocar o sabre na bainha. Então ele se aproximou da minha irmã, ajudando-a a desmontar: “Quem é você, cidadã?”, ele perguntou asperamente.

“Antes de responder, senhor”, respondeu Geneviève em tom suplicante, “rogo-lhe que me permita socorrer este jovem que acabou de dar sua vida para me defender”. Ela apontou para Pierre Bureau, que, estendido no meio da estrada, com o peito perfurado pelos golpes do sabre, estava a ponto de expirar. “Que seja!”, disse friamente o oficial.

Minha irmã apressou-se em tirar proveito da permissão e, correndo em direção ao ferido, levantou-o delicadamente nos braços, com a ajuda de um hussardo republicano e deitou-o na grama ao pé de um carvalho, a poucos passos de distância do lugar onde ele havia caído. O jovem vendeano parecia ter perdido a consciência.

– Você pode me ouvir, meu querido? – disse-lhe ela; sou eu, sua senhora, que estou perto de você para cuidar e curar você, se isso agradar a Deus.

Pierre abriu os olhos e olhou para Geneviève com uma expressão de amargo pesar:

– Oh! Perdoe-me, senhora marquesa – disse ele com esforço; desculpe por ter defendido a senhora tão mal e por deixá-la nas mãos desses miseráveis! O que vai pensar o Pai, lá em cima, quando descobrir que não consegui salvar minha boa senhora? Ele não ficará contente comigo!

– Deixa disso, meu pequeno Pierre, e pense apenas no bom Deus.

Mas a mesma preocupação ainda o obcecava. Geneviève então, entrando nos pensamentos ingênuos do jovem, disse sorrindo, para acalmá-lo:

– Se seu pai te repreende, diga-lhe de minha parte que você se comportou muito bem, que você me defendeu corajosamente e que ele pode se orgulhar de você. Está mais tranquilo agora?

– Oh! sim, senhora marquesa – disse o jovem ferido, que, com tal garantia, acalmou-se repentinamente.

– Você se arrepende de seus pecados, não é?

– Oh! lá, sim.

– Porque você ama a Deus de todo o coração?

– Com certeza, minha senhora.

– Você perdoa seus inimigos?

– Ah sim, para agradar ao bom Jesus.

– Vá então para o céu, meu filho; invejo o teu destino, porque todos os teus males vão acabar. Reze por nós lá em cima, para que Deus tenha misericórdia de nós também.

Pierre estava visivelmente abatido; a morte era iminente.

– Oh! senhora...  marquesa – sussurrou novamente; eu teria mesmo muito prazer em vê-la bem longe daqui... vou pedir isso ao bom Deus!

O jovem vendeano acabara de expirar. Geneviève fechou seus olhos; então, depois de ter dito uma curta e fervorosa oração junto ao cadáver, ela se levantou e aproximou-se do comandante republicano, que parecia muito comovido: “Eu vos agradeço, senhor”, disse-lhe ela.

O oficial azul olhou para ela com uma expressão de pena muito nítida. Era um velho capitão, de quarenta e cinco a cinquenta anos, cujo heroico bigode não conseguia esconder por muito tempo sua boa índole. Geneviève entendeu que não havia caído nas mãos de um inimigo cruel e essa constatação a tranquilizou um pouco.

A um sinal de seu líder, os hussardos afastaram-se e permaneceram distantes, fora da escuta; por isso foi em tom bastante ameno e, por assim dizer, paternal, que se deu o interrogatório.

– Qual é o seu nome, senhora? – O oficial perguntou suavemente.

A jovem não tinha nada a esconder; seu crime era evidente.

– Geneviève de Sérant – respondeu num tom digno e simples. O comandante estremeceu.

– Pobre jovem!... – Ele suspirou. – Perdoe-me, senhorita... ou senhora, visto esse nome familiar... – retomou depois de um momento. – Eu sou pai, você vê; tenho uma filha que deve ter a sua idade. Ela fica lá no Sul e teme muito pela vida do seu velho papai... eu queria te salvar, acredite; mas infelizmente! meus hussardos são patifes perfeitos que me denunciariam e eu entregaria a minha cabeça se deixasse você escapar. Aqui está tudo o que posso fazer: você montará em seu cavalo e nos seguirá até Rennes. Lá, vou entregá-lo ao Representante da Convenção, delegado para assuntos departamentais. Ele não é um homem tão ruim... ele já fez favores... a algumas pessoas... espero que ele poupe sua vida. Vou defender seu caso calorosamente, mas não há nada mais que eu possa fazer.

Geneviève agradeceu tristemente.

– Não quero que o senhor se exponha por mim, e rezarei a Deus para que recompense sua boa vontade.

Por ordem do capitão, os hussardos montaram a cavalo e se prepararam para partir. Geneviève subiu em Fauvette, cuja sela estava firmemente presa, à direita e à esquerda, à sela de dois cavaleiros. Mignon, o cavalo do pobre Pierre, foi mantido na coleira por um dos homens da escolta.

 

 

Capítulo XXVI

Pobre Geneviève

Eram cerca de cinco da tarde quando a tropa retomou a marcha. Por volta das oito horas ela chegou à aldeia de Sainte-Luce, situada a meio caminho entre Rennes e Fougères. O capitão Bernard – esse era o nome do oficial Azul – percebendo que sua prisioneira estava tomada pelo cansaço e pela dor, quis dar a ela um pouco de descanso. “Vamos passar a noite nesta aldeia”, disse ele, “e amanhã de manhã terminaremos nossa jornada”.

Os hussardos apearam e seu líder bateu à porta da casa mais próxima. Era a casa de uma corajosa camponesa chamada Jeanne Robin, que desde sua viuvez morava lá com o pequeno Jean-Marie, seu único filho, com mais ou menos dez anos. À primeira palavra que o senhor Bernard lhe disse, mostrou-se bastante disposta a dar comida e abrigo à vendeana, cuja tristeza e cansaço lhe estimularam sobremaneira a piedade.

Antes de deixar a prisioneira aos cuidados de sua anfitriã caridosa, o capitão lembrou-lhe que ela teria que partir cedo no dia seguinte porque ele deveria chegar a Rennes antes do meio-dia e acrescentou: “Sou obrigado a confiscar seus cavalos. Eles são boas presas. Mas não quero levá-los comigo; pois são animais magníficos e o representante certamente os atribuiria a si mesmo, embora eles sejam propriedade de meu regimento. Portanto, vou deixá-los nesta aldeia, e vou levá-los de volta depois de amanhã à noite, de passagem”.

Como essa declaração pareceu afetar Geneviève, ele continuou: “Claro que a senhora não vai viajar a pé; vai montar de garupa atrás de mim. Meu dever me obriga”, acrescentou retirando-se, “a colocar uma sentinela em cada uma das portas desta casa, na rua da aldeia e para o lado dos campos. Lamento, senhora, o rigor das instruções, mas não posso evitar”.

Esse capitão Bernard, que certamente não era um homem mau, sem dúvida tinha uma forte dose de ingenuidade. Sua prisioneira percebeu isso rapidamente e como ela não podia esperar que ele a entregasse pura e simplesmente em liberdade, dada a pusilanimidade de caráter do oficial azul, ela decidiu, ao menos, aproveitar-se da simplicidade do bom homem para tentar alertar Arthur do perigo que a ameaçava.

Assim que o sr. Bernard desapareceu, a viúva Robin, posta por Geneviève a par da situação, expressou-lhe, em palavras simples e comoventes, a simpatia que seu triste destino lhe inspirava. A excelente mulher apressou-se em preparar-lhe o jantar e a pôr à disposição o único quarto de seu pobre alojamento.

– Meu filho e eu dormiremos no sótão – disse ela; e como Geneviève se opunha, ela continuou:

– Estamos felizes por poder vos servir. Nós também somos monarquistas nesta aldeia; mas o que podemos fazer, quando há tantos iníquos ao nosso redor?

– Bem, minha boa amiga – exclamou Geneviève, muito feliz por ver sua anfitriã com tão boas disposições – talvez você possa me prestar um imenso serviço... seria para levar o quanto antes a Fougères, algumas palavras que escreverei a lápis, se não tiver tinta para me dar. É para meu marido que está no acampamento dos vendeanos (se ele ainda estiver neste mundo!). Você conhece alguém que aceitaria levar minha carta?

Jeanne Robin refletiu por alguns momentos e disse:

– Eu posso ajudá-la. Agora é impossível sairmos daqui; as sentinelas nos impediriam; mas amanhã de manhã, assim que vocês forem embora, meu pequeno Jean-Marie levará seu recado – e ela apontou para seu filho, um garotinho afável e esperto que estava sentado na lareira e olhando para a estranha com seus grandes olhos meio escondidos por uma floresta de cabelos loiros.

– Você tem certeza? – disse Geneviève; uma criança dessa idade ir tão longe!

– Acho que a senhora faria bem em aceitar mesmo assim – respondeu Jeanne Robin. – Meu Jean-Marie não é robusto; mas senhora! ele é um rapazinho que vale por dois – acrescentou ela com doce orgulho. – Se a senhora visse como ele conduz seu burro até o mercado de Saint-Aubin-du-Cormier! E depois, as crianças... não se presta atenção neles; passam para todo lado... não é, meu Jean-Marie? – continuou, se dirigindo ao lourinho que estava ouvindo com todos os seus ouvidos – não é verdade, meu menino, que você irá, no burro, a Fougères, levando uma carta da senhora para o marido?

– Sim, mamãe – respondeu a criança com voz clara e confiante.

– Você vai dizer assim....

– Diga-nos, por favor, senhora, o nome do seu marido.

– Marquês de Sérant – disse Geneviève. – Aliás, vou colocar o nome sobre o endereço, e a criança, se não souber ler, pode mostrar ao primeiro soldado da Vendéia que encontrar.

– Como quiser, senhora – respondeu a boa mulher; mas Jean-Marie não esquecerá o nome. É só ouvir alguma coisa e isso fica para sempre na sua cabeça. Vamos, Jean-Marie, diga à senhora o que você vai fazer amanhã de manhã, quando os soldados tiverem partido.

A criança se levantou; seus olhos azuis brilhavam de coragem e orgulho.

– Vou vigiar os soldados amanhã – disse ele com sua voz perolada – e assim que eles forem embora, vou pegar Coco e correr direto sem parar para Fougères. Lá perguntarei pelo Marquês de Sérant e entregarei a ele a carta que a senhora vai escrever.

– Perfeitamente! meu pequeno amigo – exclamou Geneviève, acariciando os cabelos louros de Jean-Marie; vejo que posso ter total confiança em você. Se não encontrar o Marquês de Sérant, pergunte pelo general, sr. de La Rochejaquelein, e entregue-lhe a minha carta... você se lembrará?

– Oh! Sim senhora.

– Veja! – continuou dirigindo-se à mãe – certamente foi o bom Deus que me enviou a vocês.

Reanimada pela esperança de se comunicar com o marido, minha irmã concordou em comer um pouco; depois começou a preparar seu bilhete e como a viúva Robin não tinha nem tinta nem papel para lhe oferecer, ela rasgou uma folha de sua caderneta e escreveu a lápis.

Reencontrei essa carta entre os papéis que minha irmã me deu no mesmo dia de sua morte. Quase não está legível agora; mas eu a transcrevi há muito tempo.

Sainte-Luce (esse é o nome desta pequena aldeia),

5 de novembro, I793: 10 horas da noite

"Meu amado Arthur,

É a sua pobre Geneviève quem lhe escreve, de um pequeno quarto de camponês, numa aldeia remota, mais ou menos a meio caminho entre Rennes e Fougères. Como fui parar aqui? Parece-me que estou sonhando... vou explicar-lhe tão brevemente quanto possível; pois, no momento em que você receber essas linhas, seu tempo será precioso.

Ah! meu amigo, estou falando com você... e nem sei se você ainda está neste mundo e se este pequeno bilhete vai alcançá-lo! Minhas lágrimas cobrem meus olhos e mal consigo distinguir os caracteres que traço.

Imagine que, nesta tarde, devorada pela angústia de não ter te visto voltar depois do combate, resolvi ir ao seu encontro com Pierre Bureau. Surpreendida, no caminho, pelos hussardos republicanos, sou sua prisioneira agora, depois de ter visto o heroico jovem que me acompanhava, morrer sob seus golpes enquanto me defendia. Diga a Jacques que ele cumpriu valentemente seu dever e que morreu em meus braços como um bom cristão. Agora os republicanos vão me levar a Rennes, para me entregar ao representante em missão naquela cidade. Eu serei levada para a casa dele. Parece que às vezes ele nos poupa. Se ele não estiver bem-disposto, a morte me espera. Mas tenha coragem, meu amigo e confie na bondade de Deus. Ele lhe dará, não duvide, os meios para me salvar. Sei que assim que receber minha carta, você correrá para libertar sua esposa com toda sua audácia tantas vezes manifestada. Queira Deus ajudá-lo a conseguir e nos reunir novamente neste mundo!

Um detalhe importante: levaram minha querida Fauvette; deixaram-na aqui com Mignon e os republicanos devem retomá-los em três dias, ao passar de novo pela aldeia. Como você pode precisar das pernas dela para me tirar das garras desses inimigos cruéis, tente, portanto, libertar este pobre animal também. Minha boa anfitriã, que me cobre de atenções maternais, estará esperando por você amanhã, o dia todo, na estrada e lhe mostrará onde os republicanos puseram nossos cavalos.

Adeus, meu querido, meu amado marido; eu sei que dor imensa você sentirá quando souber que sua pobre esposa está nas mãos de tais bandidos. Julgo sua aflição por aquilo que eu mesmo sinto. No entanto, não torne as coisas piores. Até agora não fui maltratada e o líder da tropa que me leva é um bom homem que parece lamentar muito ter-me levado. Vendo meu cansaço e minha tristeza, ele me concedeu esta noite para descansar um pouco. Este sr. Bernard me parece possuir uma dose pouco comum de simplicidade. Foi graças a esta qualidade, preciosa para nós, nessas circunstâncias, que pude saber por sua própria boca o lugar para onde deveria ser levada, a hora da nossa chegada a Rennes (onze horas da manhã, acredito), e os outros detalhes que lhe dou.

Recompensa, por favor, meu mensageiro (um menino de dez anos). Ele pegará a estrada para encontrá-lo, mas só amanhã, depois que partirmos para Rennes; porque temos duas sentinelas à nossa porta, e a criança seria presa e minha carta tomada, se tentasse sair nessa noite. Adeus, à Deus.

Sua Geneviève, desolada, que espera por você.

 

No entanto, Jeanne Robin exortava minha irmã a repousar, o que lhe era tão necessário.

– Vamos minha senhora! – dizia alegremente – deves dormir, e imediatamente. Acho que, na próxima noite, seu marido terá feito sua parte e que os dois galoparão, virando as costas para a cidade de Rennes. Amanhã – acrescentou ela – vou esperar o dia todo na minha porta, para ver o seu senhor chegar. Já sei que levaram seus animais para a casa do François, o pedreiro, a dois passos daqui. Esse homem é um dos nossos amigos. Ele nos devolverá quando quisermos. E depois rezarei terços o dia todo, para que a Santíssima Virgem a tire dessa situação.

Geneviève agradeceu efusivamente à excelente mulher e lhe disse:

– Eu gostaria muito de recompensar sua generosidade e a de Jean-Marie; mas os republicanos tiraram minha bolsa e minha maleta... não tenho mais nada.

– Dinheiro para isso! – exclamou a boa mulher; não diga mais nada sobre isso, minha senhora, senão ficarei inteiramente zangada. Vamos! boa noite e durma bem; o quarto é seu: eu ficarei lá em cima com o meu filho. Até amanhã!

O dia tinha sido tão cansativo que Geneviève, apesar das preocupações, logo adormeceu profundamente. Esse descanso lhe fez um grande bem, e agora ela estava fortalecida pela esperança da libertação. Ela conhecia a habilidade e o destemor de seu marido e de Jacques Bureau, e tinha certeza de que fariam prodígios para salvá-la.

Na manhã seguinte, depois de comer um pouco, ela se despediu da viúva Robin; depois, percebendo pela janela o capitão que viera buscá-la, se inclinou para o pequeno Jean-Marie, beijou-o na testa e disse-lhe: “Não se esqueça, meu pequeno, que minha vida e a felicidade do sr. de Sérant estão nas suas mãos”. Jean-Marie ergueu seu olhar límpido e profundo para ela. “Confie em mim, senhora”, disse ele gravemente.

Dois minutos depois, Geneviève montou atrás do capitão e o pelotão de hussardos tomou, a trote, o caminho para Rennes.

Eram cerca de onze horas quando as tropas chegaram aos portões da cidade. O capitão Bernard conduziu imediatamente sua prisioneira ao gabinete do Representante, na rua da Moeda. Pretendia pleitear, sem se comprometer muito, a causa da senhora de Sérant, a quem havia recomendado que não dissesse seu verdadeiro nome, nem seu título; por isso, quando soube que o membro da Convenção Nacional não estava em casa e que só voltaria bem tarde da noite, ficou muito desapontado. Não sabendo o que fazer com Geneviève, decidiu confiá-la ao porteiro do edifício, depois de ter tomado todas as precauções para tornar inútil qualquer tentativa de fuga. O medo do capitão Bernard servia de instrumento para vis empreendimentos, apesar de detestar os excessos da Revolução. Pessoas com esse caráter não eram raros naquela época. Existem menos hoje em dia?

Brutus Souriceau – esse era o nome do zelador a quem o oficial Azul entregara sua prisioneira – era um homem de cinquenta anos, talhado como Hércules e de aparência assustadora. Republicano feroz, abominava os aristocratas e frequentava assiduamente os jacobinos mais exaltados. O Representante da Convenção o encarregava sempre da custódia dos prisioneiros que mantinha temporariamente em seu domicílio e nunca se ouviu dizer que o formidável carcereiro tivesse deixado que ocorresse uma fuga.

Esse republicano austero tinha, porém, uma fraqueza: ele amava o suco da videira e quando se entregava a abundantes libações, o que não era absolutamente raro, desmaiava miseravelmente no local mesmo do combate, perto das garrafas, e, derrotado, dormia profundamente como uma pedra.

Depois da “diva” garrafa, o seu mais terno carinho ia para a sua esposa, a digna senhora Olympe, que, já viúva de um primeiro marido, não tinha ficado com o coração insensível aos suspiros do Hércules bretão e tinha-lhe dado sua mão, alguns meses antes, no frescor de suas cinquenta e duas primaveras. Mas a lua-de-mel tinha passado rapidamente e a amada esposa já sentia muitas vezes a força do braço conjugal. Além disso, nas horas em que a embriaguez reduzia seu senhor e mestre à sua mercê, o que normalmente acontecia sempre no último dia da semana, Olympe se vingava e conscienciosamente devolvia a seu querido Brutus os golpes e as feridas recebidas durante a semana. Na manhã seguinte, o bom homem acordava, com os olhos escurecidos e o nariz machucado. Mas, como não se lembrava de absolutamente nada do que lhe acontecera no dia anterior, Olympe, com ar ingênuo, descartava facilmente todas as suspeitas, e o bêbado naturalmente atribuía suas desventuras aos espinhos e às pedras do caminho.

A senhora Souriceau, que havia recebido uma certa educação na juventude, era, aliás, uma honesta mulher, cujo entusiasmo republicano não estava, nem de perto, em sintonia com o de seu marido; e era essa falta de harmonia que causava, na maioria das vezes, problemas ao casal.

No último dia da semana (no decadi), Olympe trabalhava como carcereira, no lugar do seu homem, ocupado então em correr pelos cabarés da cidade, e aproveitava seu poder efêmero para facilitar a vida dos presos daquele dia, sem chegar, porém, a dar-lhes a chave da prisão.

Para completar o retrato da mãe Souriceau, digamos que, tagarela aos excessos, ela contava histórias sem fim, protestando a cada instante, o quanto amava o silêncio: uma mania inocente compensada por suas boas qualidades. Infelizmente, o dia em que Geneviève chegou a Rennes não era o último dia da semana e seu feroz guardião desfrutava de todas as suas faculdades. A pedido do capitão Bernard, apressou-se em conduzir sua prisioneira a um quarto no terceiro andar, onde a trancou com uma fechadura dupla.

– Na gaiola, o lindo pássaro! – exclamou com um tom irônico, sacudindo seu molho de chaves ruidosamente – é caça para a guilhotina que o senhor nos trouxe, capitão! Não há perigo dela fugir – acrescentou –, a menos que ela tenha asas ou queira bater a cabeça no chão.

Antes de se retirar, o capitão Bernard, seguindo as indicações do carcereiro, colocou um soldado em sentinela na entrada do corredor, outro no meio da escada e um terceiro no pátio interno da casa. Depois, com a consciência tranquila, foi embora muito satisfeito consigo mesmo, amaldiçoando os excessos dos perseguidores e sentindo pena do destino de suas vítimas. O pobre homem realmente acreditava ter realizado um ato heroico e, meu Deus, talvez não estivesse totalmente errado, dado seu caráter medroso e excessivamente pacífico.

Sozinha no quarto que servia de prisão, Geneviève logo sentiu cair toda a sua energia e o horror de sua situação apareceu claramente aos seus olhos. Ela estava à mercê de um tirano cruel, que mandava suas vítimas para o cadafalso ou para a liberdade, dependendo do humor do momento. Ele deveria voltar para casa naquela mesma noite e, se estivesse mal-disposto, a entregaria ao carrasco no dia seguinte. Sem dúvida, ela esperava uma intervenção do marido para a noite seguinte: mas quanto agora parecia-lhe frágil essa esperança que a sustentara até então! Arthur havia recebido sua carta? Ele estaria em Rennes esta noite? E, sobretudo, como ele poderia alcançá-la e arrancá-la da fúria de seus inimigos? O sucesso agora parecia impossível para ela. Esta casa estava tão bem protegida! O Marquês de Sérant nem chegaria perto da sua masmorra e se perderia desnecessariamente tentando salvá-la. Oh! como ela se culpava por tê-lo chamado para ajudá-la! Não teria sido melhor ter se submetido ao seu destino com resignação, sem fazê-lo perecer com ela? E o que seria de seu pobre Louis, sem seu pai e sua mãe para protegê-lo?

Um profundo desânimo tomou conta da jovem. Deus, então, a havia abandonado! Qual era a utilidade, agora, de amá-Lo, orar e servi-Lo, se Ele nada fazia para libertar seus servos? Por que a deixou cair nas mãos daqueles miseráveis... ela que havia deixado tudo para garantir a salvação eterna de seu marido? Estaria ela presa, às vésperas de ser levada à morte, se esta Providência de que tanto falamos realmente cuidasse de nós? Ela se sentia invadida por tentações de blasfêmia e pensamentos de revolta contra a justiça de Deus. Por um momento, no limite de sua força e coragem, abriu a janela e seu olhar mergulhou nas pedras da calçada que dava para a sua cela. Atraída para o abismo, sentia um desejo horrível de acabar com seus tormentos, livrando-se da vida. Mas, de repente, a fé adormecida durante esta tempestade despertou em sua alma, e a pobre cativa, repelindo a tentação com horror, se ajoelhou, implorando a Nosso Senhor que a perdoasse por sua falta de confiança e submissão.

A oração restituiu-lhe a calma e a paz. Ela se rendeu inteiramente à vontade de Deus para a vida e para a morte, implorando-lhe armá-la contra todas as fraquezas do corpo e da alma.

Na angústia profunda em que se debatera há pouco, ela rejeitou os alimentos que lhe foram trazidos; mas quando triunfou sobre o terrível ataque do inferno e a ajuda divina tranquilizou sua alma, ela disse a si mesma que deveria conservar suas forças na expectativa do cansaço que logo teria que suportar, se Deus permitisse que seu marido conseguisse chegar a ela. Sem dúvida, era impossível prever que meios seriam utilizados para sua libertação; mas precisaria, em todo caso, de toda a sua energia para auxiliar a ação dos seus defensores. Feitas essas reflexões, decidiu comer, e quando recuperou as forças corporais, pôs-se a rezar com fervor.

Há imperfeições na Mãe de Deus?

Foi ninguém menos que um Doutor Católico, um Padre da Igreja, que identificou alguns fatos que atribuiu à Santíssima Virgem como imperfeições, durante o encontro do Menino Jesus no Templo e, também, nas Bodas de Caná. Trata-se de São João Crisóstomo.

Em sentido contrário, deve-se dizer que a Santíssima Virgem nunca cometeu a menor imperfeição. As razões explicando isso são inúmeras.

Primeiro, porque a Mãe de Deus não tinha a “fonte do pecado” – também chamada de concupiscência – que é uma das causas principais das imperfeições. Essa ausência está ligada à sua imunidade ao pecado original.

Além disso, a virgem das virgens possuía a virtude perfeita em razão da graça que lhe havia sido dada. Ela também estava destinada a ser um modelo de santidade, porque Nossa Senhora é a primeira dos redimidos: é conveniente que seja ela, que tem o primado na ordem da santidade, deveria incorporá-la em sua perfeição consumada

Finalmente, sua perfeita prudência sempre determinou sua atividade na maneira que estava mais conformada à vontade de Deus.

É por isso que Santo Tomás de Aquino não hesita em dizer que São João Crisóstomo foi longe demais em seu escrito. E, embora São Pio V tenha ordenado que fossem republicadas as obras do grande doutor, pediu que as passagens incriminadas não fossem incluídas.

 

A Mãe de Deus possuía impecabilidade

Mas a maior razão explicando a ausência de pecado e imperfeições em Maria é que ela era impecável.

O Concílio de Trento, na Sessão VI, Cânone 23, afirma: “Se alguém disser que... em sua vida, [um homem] pode evitar todos os pecados, até mesmo os veniais, exceto por um privilégio especial de Deus, como a Igreja sustenta em relação à Santíssima Virgem: seja anátema”

De sua parte, Santo Tomás reconhece a confirmação na graça em razão da adequação à Mãe de Deus. Impecabilidade consiste em não poder pecar em razão de uma capacidade interior. Ela se distingue da confirmação na graça, que é manter o estado de graça até a morte, em outras palavras, não cometer pecado mortal: essa graça se explica pela ajuda externa de Deus. Mas a impecabilidade requer uma causa interna no sujeito, que evita o pecado.

Isso é, claramente, o caso do Verbo Encarnado, Jesus Cristo: é uma impossibilidade a pessoa divina cometer um pecado. No caso do homem-Deus, a visão beatífica e a virtude perfeita são acrescidas à personalidade divina.

A impecabilidade também existe, em grau menor, nos que já foram salvos: inundados pela luz da glória, eles não podem mais pecar. Seria impossível possuir a visão beatífica e pecar.

Em grau menor, a impecabilidade advém da grande dificuldade de pecar que resulta do dom de uma graça especial. Ela inclina tanto uma pessoa ao bem que se torna quase impossível romper com ele. Deus deu uma assistência especial a Sua Mãe, que removeu de todas as causas do pecado.

Essa doutrina permite uma compreensão mais profunda dessas palavras magníficas do Papa Pio IX em Ineffabilis Deus: “fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.

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