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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A crise das elites

Marcel de Corte

Com esse título abrangente e ambicioso demais, gostaria de falar com a maior simplicidade possível sobre coisas conhecidas e, principalmente, sobre coisas desconhecidas, que só se tornaram desconhecidas por causa do mundo moderno. Hoje conhecemos muitas coisas que nossos pais ignoravam. A civilização atual, que é essencialmente uma civilização do livro ou do impresso, a cada dia introduz nos cérebros uma massa de conhecimentos que digerimos mais ou menos bem, ou melhor, nem tão bem assim. Estendem-se tais conhecimentos a objetos tão numerosos que a multidão deles amedrontaria as gerações que nos precederam. Para tanto, comparem-se os estudos que se exigiam dos médicos há trinta ou quarenta anos, com os que se exigem atualmente – e isso vale para todas as profissões. Em contrário, segundo uma lei bem simples, expressa no provérbio “um prego empurra o outro”, esse afluxo de informações submergiu certas evidências elementares e as relegou ao esquecimento. Os leigos e os cientistas já não conhecem, por ex., os nomes das quatro virtudes cardeais que outrora o comum do povo conseguia apontar nos vitrais ou nas estátuas das catedrais. Recobriu-se de sombras uma área imensa do saber; em todo lugar regrediu o saber moral, o saber propriamente humano. (Continue a ler)

Soa o dobre por Notre Dame

Dom Lourenço Fleichman OSB

Acompanhei um pouco a situação em Paris pelos jornais franceses, e me parece importante escrever para os meus fiéis e leitores do site, para lhes falar um pouco sobre esse acontecimento estranho do incêndio de Notre Dame de Paris.

Muitas catedrais, igrejas, mosteiros queimaram em incêndios antes desse. Muitos terremotos derrubaram suas flechas monumentais, como vimos hoje cair a de Paris. 

Mas não posso deixar de considerar que essa destruição tem um caráter diferente. Antes do fogo destruir esta Citadela da Fé católica, há muito tempo já desaparecera o fogo que a levantara há cerca de 1.000 anos atrás.

Quando leio nos jornais os políticos falando de cultura, de Europa, de arte, não posso deixar de pensar na culpa que esses senhores têm por tudo o que foi jogado fora de civilização católica, dos mil anos da Cristandade, da Idade Média. Não posso impedir que brote no coração o ódio por essa Revolução que há 250 anos destrói o que nossos heróis construíram, para pasmo do mundo moderno, pelo simples amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Mãe Maria, e a sua Esposa, a Santa Igreja  Católica Apostólica Romana.

Não posso deixar de odiar com todas as forças da alma esse Modernismo de Vaticano II, que ainda hoje derruba as simbólicas cruzes da fé nos corações.

Na verdade o mundo moderno e a Igreja modernista não merecem esses monumentos da fé antiga, pois que a repudiaram com desprezo e violência.

Era normal que, na Apostasia Geral em que vivemos, os marcos da fé de outrora fossem desaparecendo, como destruídos foram os Sacramentos, as Orações, o Sacerdócio, as igrejas e tudo o mais que ocupava pela vida interior esses mesmos monumentos.

Mas a vida continua.

Já estão arrecadando o dinheiro da reconstrução. Muito dinheiro. Já anunciaram que reunirão os melhores artífices do mundo para refazer o que foi destruído pelas chamas. De que serve? Levantarão uma Catedral do Pluralismo revolucionário. Cantarão loas à Fraternidade universal. Incensarão a deusa Liberdade no altar da nova Notre Dame. E todos, unidos pela Igualdade sem Jesus crucificado, soltarão fogos no dia da inauguração. 

No limiar da nossa Semana Santa, quando nos preparamos para o luto litúrgico pela Paixão e Morte de Cristo, soa o dobre por Notre Dame.

E mais uma vez choramos a destruição da fé.

Domingo que vem nos alegraremos com Cristo Ressuscitado, e poderemos tratar da nossa salvação eterna, nos nossos esconderijos, nas nossas catacumbas da Tradição.

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A reação católica

Mons. Louis-Gaston de Ségur

Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.

Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.

Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)

Prefácio ao livro A Descoberta do Outro

Como já é do conhecimento de muitos acaba de ser reeditado o primeiro livro de Gustavo Corção - A Descoberta do Outro. Durante muitos anos várias editoras procuraram em vão os herdeiros de Corção para pedir autorização de publicar esta obra-prima do nosso fundador e mestre. Agora foi acordado à Vide Editorial. Mérito deles.

Não posso deixar de recomendar vivamente a leitura deste livro e a Editora Permanência não deixará de promover sua venda. Por outro lado, resta-nos uma ponta de tristeza pois, sendo os herdeiros espirituais do pensamento e do combate de Gustavo Corção, seria muito mais coerente e natural que nós pudéssemos difundir a obra de Gustavo Corção. Mas não nos foi acordada essa possibilidade. 

No intuito de aconselhar a leitura e de assinalar os aspectos mais importantes desse livro único no seu gênero, e para ajudar o leitor menos acostumado com as belas letras, escrevi o Prefácio que segue. 

Foi aos dezesseis anos que eu li pela primeira vez A Descoberta do Outro. Abri-o como quem abre um testamento, tão grande era a presença do autor em minha vida. Em casa o chamávamos Vovô Corção, pois de fato ele fora um pai para o meu próprio pai. O pensamento e a obra de Gustavo Corção tornaram-se como uma herança espiritual que recebi enquanto crescia, e que assumi na Permanência.

Ao longo desses 40 anos reli este livrinho dezenas de vezes, ora por gosto, ora por estudo. Em 1980, por exemplo, foi para ajudar na revisão da edição francesa, publicada em 1987. Mais recentemente, colaborei na preparação de uma matéria sobre Gustavo Corção, na Revista Conhecimento Prático de Literatura[1], e mais uma vez fui buscar o primeiro livro do grande escritor para ilustrar o artigo que escrevi para a ocasião.

(Clique aqui para continuar a leitura)

Civilização católica e erros modernos

Donoso Cortés

 

CARTA AO CARDEAL FORNARI

 

Eminentíssimo Senhor:

Antes de submeter à alta penetração de Vossa Eminência as breves indicações que houve por bem pedir-me em carta de maio último, parece-me conveniente assinalar aqui os limites que me impus a mim mesmo na redação destas indicações.

Entre os erros contemporâneos não há nenhum que não se reduza a uma heresia; e entre as heresias contemporâneas não há nenhuma que não se reduza a outra, condenada de há muito pela Igreja. Nos erros passados, a Igreja condenou os erros presentes e os erros futuros. Idênticos entre si quando considerados sob o prisma de sua natureza e de sua origem, os erros oferecem, todavia, o espetáculo de uma variedade portentosa quando vistos através de suas aplicações. Meu propósito hoje é considerá-los mais pelo lado de suas aplicações do que pelo de sua natureza e origem; mais pelo que tem de político e social do que pelo que tem de puramente religioso; mais pelo que tem de diverso do que pelo de idêntico; mais pelo que tem de mutável do que pelo de absoluto.

Tradição, tradição católica e falsa tradição

 

Paolo Pasqualucci

Sumário:

1. A noção de tradição. 2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.  3. Definição da Tradição católica. 4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica. 5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa. 5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a idéia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, conseqüentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A idéia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecê-la.  Leia mais

Vida intelectual versus vida de curiosidade

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição).

 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar em nossos priorados consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Ela exige um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso, chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico, e o efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa. Leia mais

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Dom Vital

Oração fúnebre por Dom José Pereira Alves,

Bispo de Natal, na cidade de Recife,

aos 17 de agosto de 1924.

 

 

Exmos. Revmos. Senhores Prelados,

Digníssimas altas autoridades,

Meus senhores,

 

Em festas tão solenes, comemorativas da Consagração da antiga diocese de Olinda ao Sagrado Coração de Jesus, neste jubileu de ouro, não podia ser esquecida a memória de Dom Vital, o pastor desvelado que, do fundo do cárcere, entrega o rebanho ao Coração Santíssimo do Divino Redentor.

Os Bispos, o Governo, os sacerdotes, o povo, todos nós, agradecidos, devemos esta homenagem ao nosso grande e excelso morto.

Humilde bispo de Mimosa, parte do rebanho de Dom Vital, explico bem a minha presença diante deste auditório conspícuo, nos funerais litúrgicos do imortal Prelado Olindense.

Mas sinto-me constrangido ante esse negro mausoléu. O meu coração desejava encontrar aqui não um catafalco. Era um altar que eu queria, um altar branco de luz e de flores para receber os ossos de Dom Vital.

Meus senhores, eu não antecipo os juízos da Igreja. Deo Optimo Maximo, porém, permita que o povo brasileiro possa um dia beijar, como se beijam os ossos dos santos, as relíquias sagradas daquele que foi na terra pernambucana a sentinela impávida, o guardião da Fé Católica. Com esse pio voto eu começo, consciente de minha fraqueza, certo da generosa indulgência que sempre me tendes dispensado.

 

Meus senhores:

A Igreja Católica tem um caráter acentuadamente, absolutamente dogmático: é uma suma luminosa de sentenças, de afirmações definidas. A Igreja é um dogma. O Cristo enviando os Apóstolos à conquista social, ordenou-lhes: Ide, ensinai a todos os povos — O dogma é a substância da Igreja, a sua essência, a sua razão existencial.

É o que magnificamente escreve Sertillanges: “Um Deus, um Cristo, uma fé, um batismo, diz S. Paulo. Assim os padres da Igreja chamam a conversão à fé, a volta à unidade de Cristo, à unidade de Deus. Não se pode dizer mais energicamente que a fé é para nós um primeiro princípio; que a doutrina de fé ou dogma é o laço ideal que liga, para dar-lhes um sentido, os elementos desta carta do Cristo que a alma religiosa, segundo S. Paulo, compõe.

Intimar o dogma, convidando os homens à fé, é, pois para nossa Igreja a função primordial, aquela que antes de qualquer outra resulta de sua natureza e da consciência viva que dela toma — Existir para ela, sem reclamar dos que consentem em incorporar-se em seu grupo a fé, seria existir não existindo, isto é, recusando reconhecer-se por aquilo que é, e tirar as suas consequências”.

Compreende-se então, meus senhores, toda a nobre beleza da Igreja, armada em cavaleira da verdade, em dama guerreira do Cristo brandindo entre os povos a cruz como a espada vitoriosa da batalha cristã. A intolerância é a prerrogativa da verdade. Há vinte séculos que a Igreja com desassombro repete a palavra de Jesus Cristo: eu sou a verdade; há vinte séculos afirma pela palavra, pelo amor, pelo sangue a sua missão de ensinar a verdade ao mundo. A Igreja sempre esteve disposta a perder tudo as suas igrejas, os seus altares, os seus vasos sagrados, os seus túmulos, a vida dos seus fiéis e dos seus pastores, de preferência ao sacrifício da verdade evangélica, de preferência a trair o mandato supremo do seu Divino fundador.

Quando Ela desceu do Calvário, envolta, para usar da frase de Joaquim Nabuco, envolta no sudário do Grande Redentor, com o evangelho sobre o peito e a cruz na mão de peregrina, para percorrer e iluminar o mundo, [a] Roma imperial, Roma dominadora, Roma senhora do mundo, quis embargar os passos da estrangeira. Bradou-lhes pelos seus césares divinos, bradou-lhe pelos seus sacerdotes ambiciosos, pelos seus cônsules audazes, por suas legiões aguerridas, pelo povo rei e escravo, voluptuoso e sanguinário: detém-te.

E a grande peregrina, levantando o facho da verdade através da temerosa noite secular das perseguições, passou por sobre as grelhas ardentes, pelas grades dos cárceres infames, pelos tenazes e pelos cavaletes, pelas feras, pelo fogo, pelo sangue, com o sacrifício de tudo menos da verdade e da sua missão. Os hereges primeiros e os bárbaros, os potentados os infiéis e os ímpios têm arrebentado armas de todo o gênero — as armas da hipocrisia, da calunia, da venalidade, da violência e do sofisma — de encontro ao granito do dogma católico. Ela não cede uma linha só, não receia de uma só afirmação, não sacrifica um só artigo doutrinal, não tolera uma só concessão no terreno intangível do credo secular.

Esta intolerância constitui a sua grandeza, a glória de sua vida, a pujança de sua força no meio das vicissitudes filosóficas e religiosas.

São de notável apologista de nosso século as seguintes magistrais conclusões: “Censurar a Igreja pela sua intolerância doutrinal é censurá-la por ter e crer-se a verdade necessária, é fazer o seu elogio. O próprio da verdade é excluir o que lhe é contrário”.

Toda a ciência é intolerante; desde que um teorema lhe é demonstrado, o matemático tem por absurdas as proposições contrárias. Por isso mesmo que está certa de possuir a verdade religiosa integral, a Igreja deve condenar todo o erro. Assim Bossuet proclamava “que a religião católica é a mais severa e a menos tolerante de todas as religiões em matéria de erros dogmáticos”. E Júlio Simon confessava que “a legitimidade da intolerância eclesiástica está acima de toda a discussão”.

“Reconhecemos que em matéria de dogma as outras sociedades religiosas não são intolerantes. J. J. Rosseau pode dizer o mesmo do Protestantismo: a religião protestante é tolerante por princípio, é tolerante essencialmente, é tanto quanto é possível ser, pois que o único dogma que ela não tolera é o da intolerância. Uma tal confissão é para uma doutrina religiosa a mais esmagadora das refutações.

Mas se a Igreja Católica é justamente intolerante para as doutrinas más e para os vícios, como devem necessariamente ser a verdade e o bem, ela é cheia de indulgência e de misericórdia para os transviados e para os pecadores que reconhecem sua falta e imploram o seu perdão — estabelecida para salvar os homens, nada poupa para arrancar as almas à eterna perdição. Sempre fiel ao mandato que recebeu de Jesus Cristo, ela se limita, para converter o mundo, a pregar o Evangelho, isto é, sempre procedeu por via de persuasão. Como seu Divino Mestre, sofreu em todos os tempos a perseguição e derramou o Sangue pela salvação dos homens. Se por vezes julgou de boa conveniência castigar os seus próprios filhos rebeldes, exerceu um direito que jamais se cuidava em contestar-lhe; ela o fez com mão maternal para convertê-los, para destruir os escândalos e impedir a corrupção de estender-se mais”.

“Tolerância! Tolerância! O século não comporta mais tiranias: nem as tiranias da força que escravizam o corpo, nem as tiranias da força que escravizam o espírito. Todas as religiões fazem o bem, conduzem a alma às ascensões morais, consolam o homem. Toda a religião é boa” — Estranha linguagem! Que Deus é esse cuja essência não seria mais que a colcha de retalhos de diferentes formas religiosas?

Senhores, a minha religião, a vossa religião, a religião do Brasil, meus senhores, a Religião Católica, não suporta essa linguagem, não admite essa equiparação. Ela sabe que a linguagem do Liberalismo é a morte do credo religioso. A Religião que aceita semelhante fórmula suicida-se. A verdade não pode ser múltipla: é uma. O Catolicismo se isola, se separa, se diferencia, se opõe e se afirma na intolerância sublime de suas atitudes gloriosas — a Religião verdadeira, a Religião única, a Religião obrigatória para a humanidade, com exclusão de qualquer outra.

Assim escreve Huby: “A Igreja se apresenta a nossos contemporâneos guardiã incorruptível, e por consequência, intransigente das verdades que tem a consciência de deter, mantendo firme uma hierarquia que não existe senão para o bem dos fiéis que rege heroica e compreensiva, a Igreja Católica.

Como o seu Mestre, e por Ele, tem morada para todos aqueles que não querem deliberadamente pecar contra a luz. Aos grupos fundados sobre a comunidade de raça, a identidade de condições sociais, a adesão revogável das inteligências que se emprestam sem se darem, ela opõe uma comunidade de crenças e ritos que faz com centenas de milhões de homens que, às vezes, tudo separa, um grande povo fraterno”.

Meus senhores, a Igreja Católica, como todo o organismo vivo, defende a sua existência com a plenitude de suas forças interiores e exteriores; afirma e acentua a sua inconfundível individualidade; repele toda a confusão, opondo-se tenazmente aos elementos corruptores do seu dogma e da sua moral, da sua verdade e da sua vida. É o seu direito e é o segredo do seu indiscutível prestígio no mundo. A consciência de sua missão é absoluta. Não pode transigir fora dos limites dos seus princípios dogmáticos e morais. A Igreja está certa de sua finalidade. O Cristo não esqueceu nada. Deu-lhe tudo e traçou-lhe a luminosa rota a seguir. Cousin, algumas semanas antes de morrer, dizia: “Nós outros filósofos, navegamos ao acaso, sujeitos aos desvios, expostos ao naufrágio. Vós católicos, tendes a bússola, a carta do país, as estrelas, o piloto e o porto”.

O Catolicismo é por excelência a religião da ordem, da disciplina, a religião da autoridade.

Lembrada da sentença de Santo Agostinho — amai os homens e destruí os seus erros — a Igreja mantem firme a sua autoridade doutrinal, impõe os seus princípios e a sua lei, e gloria-se da sua intolerância da verdade contra o erro, a intolerância do bem contra o mal.

Meus senhores, Dom Vital foi na terra pernambucana, no Brasil, na América, o expoente glorioso dessa intolerância, o cavaleiro indomável da verdade, o Apóstolo do direito, o Arcanjo do sobrenatural defendendo com o gládio de chamas as portas do santuário contra os inimigos do seu Cristo e de sua Religião.

A justiça da História consagrou a memória desse homem extraordinário do Brasil, verdadeiro gigante moral diante de quem se achatam, no proscênio histórico, os pigmeus da questão religiosa.

E a sua figura heroica se agiganta ainda mais quando, alguns raros caracteres acidentalmente eclipsados na sombra política daquela época, resgataram a sua criminosa cooperação com a nobreza das grandes almas trabalhadas, pelo remorso e tocadas de salutar arrependimento.

O centurião, ouvindo o estalar dos rochedos, assistindo aos espasmos da natureza, sentindo os tremores do universo na morte de Jesus Cristo desceu, aterrado, o Calvário murmurando: Ele era realmente o Filho de Deus. Assim, meus senhores, esses grandes homens de nossa pátria desceram o Gólgota em que uma desgraçada política governamental crucificara o Atanásio brasileiro, desceram envergonhados de si mesmos proclamando a grandeza moral, a justiça e a imortal beleza da augusta vítima.

Meus senhores, hoje todo o mundo reconhece o vulto épico do herói; todos exaltam a sua coragem apostólica; o desassombro verdadeiramente episcopal com que enfrentou as audácias do poder temporal e desmascarou as maquinações das trevas.

Aos olhos do historiador imparcial, Dom Vital esplende com um brilho pessoal próprio que se irradia de sua poderosa personalidade. Foi um cordeio. Poderia repetir com Nosso Senhor Jesus Cristo: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.

“De espírito calmo, eminentemente lógico, escreve um dos seus companheiros, firme nos princípios, rigoroso nas consequências, sincero indagador da verdade, o jovem Antonio Gonçalves com o trabalho tenaz, o versar os mestres, com mão diurna e noturna, alentou as disposições da natureza. Diz Montaigne que as nossas almas desferem aos vinte anos o que hão de ser depois e, desde então, prometem as posses que hão de ter. foi o que se deu com Antonio Gonçalves — Era o mais lindo desabrochar de rosas a prometeram aromas. Perdido na multidão, não sobrara o jovem Oliveira em virtude aos demais.

O que, porém, atraia a atenção de todos, superiores e iguais, é que sempre achavam-no cingido ao regulamento e nunca ultrapassara os limites do dever. E se por acaso incorria na menor falta, a reparação era pronta.

Mas os seminaristas de S. Sulpício, nós, sobretudo os brasileiros, não devíamos gozar por muito tempo da amável companhia do jovem pernambucano”.

Todos o conheceram risonho, amável, doce, delicado.

A doçura que emoldurava aquela alma varonil e forte, era filha de sua humildade profunda — a virtude dos grandes santos e dos grandes homens.

Foi seu grande espírito de caridade evangélica que ditou ao grande prelado as palavras magníficas da sua posse no sólio da Catedral de Olinda.

“À medida que formos trabalhando por estabelecer entre Deus e vós a mais perfeita união, não cessaremos de envidar ao mesmo tempo, todos os esforços a fim de fazer reinar entre os membros de nossa imensa família a mais bela harmonia de pensamentos e de sentimentos — Quando há dois dias chegamos a este abençoado torrão, onde tanto nos ufanamos de ter recebido o berço, e vimos um povo inumerável levantar-se como um só homem, como um só coração, digamo-lo assim, para sair ao encontro do humilde Pastor que o céu lhe envia, sentimo-nos abalado até à medula dos ossos, enternecido até as lágrimas. E hoje, enquanto lenta e vagarosamente subíamos as ladeiras desta antiga cidade de gloriosas recordações históricas, fervorosos votos e súplicas instantes subiam ao mesmo tempo de nosso coração ao trono daquele que nos mandou apascentar as vossas almas: “Ó Senhor, Deus de toda a consolação, lhe dizíamos nós com o ardor da nossa alma, fazei com que todos estes que me destes por filhos — quos dedisti mihi, se conservem sempre unidos como agora: Sint consummati in unum. Uni Senhor, as ovelhas ao pastor, os filhos ao pai, de tal forma que constituam um só corpo, animado do mesmo espírito Unum corpus et unus spiritus”.

Não são essas as palavras de um prelado imprudente, atrevido ou estouvado, como se teve a ousadia de escrever em livros escolares.

Todas as suas luminosas pastorais, tão ricas de sabedoria, tão opulentas em doutrina, tão elevadas e tão apostólicas, estão ungidas da mais suave caridade; todas elas trescalam o odor do mais admirável amor cristão e da mais terna piedade pelas almas do querido rebanho.

Oh! Como é emocionante o apelo do Pastor regressando do cárcere, restituído ao rebanho, o apelo do Pastor perseguido e ultrajado, à ovelha ingrata. Não se pode ler sem comoção essa benção amorosa e incomparável com que esse belo homem de Deus remata o seu comovente e admirável discurso da Igreja de São Pedro: “Também te abençoamos a ti, ó pobre ovelha tresmalhada, a ti que, desapiedada, tantas lágrimas, tantos gemidos tantas fadigas tem custado a teu Pastor. Não nos fora possível esquecer-te em nossas bênçãos nem tão pouco em nossas orações; antes, nelas tens a maior parte; por quem senão por ti, ovelha desgarrada, nos manda Jesus Cristo deixar as outras noventa e nove?

Tu votas desamor a teu Pastor quando ele só amor te merece; o tens por inimigo sendo ele o teu melhor amigo e o amaldiçoas, ao passo que ele te abençoa. Maledicimur et benedicimus.

Ah, volta arredia! Volta ao redil do Senhor! Volta contrita e seremos para ti médico que te cure, pai que te acarinhe, juiz que te absolva, doutor que te esclareça, sentinela que te guarde, pastor que te defenda.

Eia! Vem, infortunada! Vem, e te provaremos que se detestamos o erro, se o impugnamos com todo o rigor, temos, todavia, entranhas de misericórdia, coração de pai para o infeliz mortal que por fraqueza o comete. Diligite homines et interficite errores”.

Eis aí todo o home, senhores — Mas pela defesa da verdade, pela Igreja, por Jesus Cristo, Dom Vital não era mais um cordeiro, era um leão — Não um leão caricato, um leão de bravatas, de arremetidas e recuos. Não, meus senhores — Era um leão nobre, leal, generoso, marchando por uma estrada deslumbrante de ensinamentos sábios, profundamente meditados, de sentenças retas e perfeitas, de argumentos invulneráveis, irretorquíveis mas sempre dignos de seu alto espírito, de sua dignidade episcopal, de sua santa causa.

E as atitudes brilhantes de sua inteligência, foram esplendidamente realçadas pelos gestos impressionantes de sua ação gloriosa. Fale por mim da linha cristãmente aristocrática dessa heroica figura histórica, uma testemunha ocular e meu querido e antigo mestre: “Tomei-me de verdadeira paixão por aquela mocidade combatente que se impunha à admiração dos homens de sã consciência; por aquela invejável serenidade que se não alterava agrilhoada de máximos sofrimentos; por aquela indômita coragem de confessor da Fé a vibrar o seu non possumus, em frente da triunfante iniquidade das potestades terrenas.

Vi-o desrespeitado em sua autoridade, escarnecido em seus mandatos, insultado de mil formas nos comícios e jornais maçônicos, caluniado em seus atos, ridicularizado em torpes jornais caricatos...

Vi-o depois processado, preso, transportado à corte, julgado por um tribunal sectário e condenado a quatro anos de prisão com trabalhos na Ilha das Cobras.

E tudo isto porque quis separar o joio do trigo; porque quis separar o católico sincero do hereje encapotado.

Em todas as frases da tormentosa luta, vi-o sempre o mesmo, sereno, doce, risonho, imperturbável e nobre sem recuar nem ceder, sem se queixar nem temer; sempre a fazer flutuar bem alto o sagrado vexilo da Fé”.

Meus senhores, nada faltou ao esplendor desse caráter cristão, justo orgulho de nossa terra, honra da religião e da Pátria que dá lustre e glória não só à América Católica, mas, digamo-lo com ufania, à toda Cristandade. Foi digno dos primeiros mártires da Igreja pela sua fé, pelo amor ao Cristo e ao Evangelho, pelo heroísmo sem par, pelo sacrifício absoluto de tudo e da própria vida.

Nada faltou a esse assombroso prelado, a grandeza dos pensamentos, a inigualável bondade, a beleza sobrenatural dos lances mais patéticos da vida pastoral — para sagrá-lo o maior bispo do Brasil, o Antístite perfeito, o pastor glorioso e atribulado, que na Terra da Santa Cruz, pelas virtudes e assinalados méritos, pelo martírio, transformou o seu cárcere em santuário de amor nacional.

Dir-se-ia um doa antigos Padres da Igreja ou um daqueles veneráveis bispos da antiguidade cristã resistindo a Cesar com santa liberdade apostólica, e só inclinando a mitra refulgente diante do Vigário Supremo de Jesus Cristo.

Dom Vital, cuja vida no dizer de um dos seus autorizados biógrafos, foi um ato de coragem episcopal, Dom Vital encarnou em sua personalidade extraordinária a intolerância doutrinal, a intolerância necessária, infrangível da verdade.

“Um bispo cerrando o Evangelho sobre o peito e empunhando a Cruz, é invencível: morre, porém não se rende; e só deixa de pelejar os bons combates do Senhor quando exausto, coberto de gloriosas feridas cai sem alento e sem vida no campo das batalhas da fé, envolvido no misterioso estandarte sempre vitorioso, onde se lê em letra de refulgente brilho: Si Deus pro nobis quis contra nos?” Que afirmação! Que destemor! Foi um bravo da fé, um defensor acérrimo do pensamento católico. Ergueu a muralha granítica que salvou o Catolicismo no Brasil, detendo com seu sacrifício pessoal a onda da corrupção religiosa.

Criou assim uma alma nova, integralmente católica na pátria brasileira, preparando o advento de uma era feliz de fervor religioso. Foi o grande mártir e o redentor da fé no Brasil.

Meus senhores, porque hei de continuar? Guardemos silêncio diante desses heróis.

Ali na urna funerária estão escritas as memoráveis palavras do morto: Jesus autem tacebat.

Os ossos de Dom Vital repousam silenciosos. Mas se nós, bispos, se nós sacerdotes e católicos mentíssemos à fé jurada sobre o altar, se nós recuássemos do indeclinável dever da fé, se fugíssemos à honra do sacrifício da prisão, da morte por Jesus Cristo, esses ossos sagrados fremiram no protesto do seu silêncio augusto para amaldiçoarem a nossa covardia.

Isso jamais acontecerá, porque tu, Vital, incomparável Apóstolo, hás de ser sempre, pela tua inspiração e pelo teu exemplo, o custódio de nossa fé, a firmeza inquebrantável de nosso báculo, a força de nosso sacerdócio, o sereno guiador do nosso querido povo.

Dom Vital, se algum dia mãos sacrílegas tentarem apagar no céu da consciência nacional o cruzeiro glorioso, tu, arcanjo do Brasil, aparece de novo e brandindo a tua espada de luz, castiga os malfeitores da Pátria e, castigando-os na verdade e no amor, entrega-os ao Coração de Jesus Cristo para o supremo perdão.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

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