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Category: PensamentoConteúdo sindicalizado

A independência do Brasil

Gustavo Corção

A independência das nações não pode ser definida nem medida em termos de autossuficiência econômica. Sendo uma categoria antes de tudo política, e portanto moral, a independência de uma nação consiste na sua autonomia política como nação, na consciência nacional dessa autonomia, e, para ser efetiva, no reconhecimento pacífico dessa autonomia pelas outras nações, e principalmente por aquelas a que anteriormente estava vinculada essa nação.

No vocabulário da moderna civilização, marcada pelo funesto princípio da vital inimizade entre os homens, de Hobbes a Marx, essa autonomia das nações é enfaticamente chamada de soberania. Este termo vem carregado de uma espécie de macroegoísmo, que é a característica principal da civilização nascida do humanismo renascentista e protestante, que já anunciava, há quatro séculos, a revolta idolátrica da anti-Igreja que hoje adora um bizarro bonzo chamado Homem Moderno.

Por paradoxo, essa mesma filosofia política que exalta as “soberanias” nacionais, a partir de uma “descoberta do Homem”, obscurece a lei natural que pede o concurso e a convergência de todas as nações no bem comum mundial.

E a partir dessas considerações cabe a pergunta: será sempre um bem, para a própria nação e para o mundo, a sua independência? A essa pergunta responderemos tranquilamente contra toda a onda desencadeada pelas esquerdas e concentradas no vácuo chamado ONU. A independência, como processo de consciência e afirmação de maioridade, pede toda uma constelação de condições, e só se reduz a um lema de brutal simplificação nos momentos históricos marcados pela estupidificação.

Parece-me claro que, para a mais bela manifestação da grande aventura humana neste mundo, Deus quer a diferenciação de nações, como quer a variedade de rosas e de pássaros. Nessa variedade, cada grupo nacional terá uma missão, uma vocação, um papel especial, um especial timbre da mesma grande voz. Mas eu creio que há nações que indubitavelmente se constituem para esse testemunho do homem, e para esse louvor de Deus, enquanto outras há que nasceram ao acaso, e ao acaso dos ventos se desfizeram. O frenesi anticolonialista é indubitavelmente uma das muitas asneiras de nosso bravo século; mas o reconhecimento do valor e do papel transcendente das nações autônomas é lema da mais sábia filosofia.

No caso do Brasil parece-me transluminosamente clara a glória de sua independência, e a mim me parece mais clara essa evidência por duas razões principais, uma que está na origem histórica, cujos 150 anos agora festejamos, e outra que está no desenrolar da nossa história, e principalmente na atualíssima proclamação que vale por uma confirmação profunda de nossa verdadeira independência.

A primeira razão reside na feição singularmente pacífica e continuadora, que deu à nossa maioridade um caráter único no continente. Devo declarar, para desfazer qualquer equívoco, que não pertenço à família espiritual dos que se molestam por esse caráter de continuidade luso-brasileira de nossa independência, e muito menos dos que se entusiasmam com as influência do iluminismo e do revolucionarismo produzidos pelo século XVIII, que, para meus parentes espirituais, foi o menor dos séculos, a despeito dos seus “filósofos”, enciclopedistas e revolucionários; ou foi o mais chato dos séculos precisamente por causa desses “filósofos” e de todos os pedantíssimos iluminados. Não me aquece o sangue a ideia de ter sido Pedro I pressionado pelos que daqueles iluminismos se inspiravam; antes o aquece a ideia de descendermos de Nuno Álvares Pereira.

É digno de nota o fato de terem sido nobremente ponderadas e pacíficas as independências dos dois grandes países americanos. Se é verdade que os norte-americanos tinham queixas sérias da metrópole, não é menos verdade que souberam exprimir sua Declaração de Independência nos mais sóbrios e serenos termos: “Quando, no curso dos acontecimentos humanos, sente-se um povo compelido a dissolver os laços políticos  que o ligavam a outro povo, e a assumir, entre as várias nações do mundo, uma independente e igualada situação, à qual tem direito pelas leis da natureza e pela lei de Deus, um decente respeito pela opinião de toda a humanidade exige que esse povo declare as causas que o compelem à independência.”

A independência do Brasil, por suas razões profundas e a despeito de todas as intrigas com que se tecem as histórias superficiais dos povos, foi a transmissão de um legado, e só merece ser hoje comemorada festivamente se esse legado foi dignamente cumprido. Ora, é aqui que cabe inserir a segunda razão que concorre para nos rejubilarmos especialmente nesta Semana da Pátria de 1972

***

Hoje o Brasil, graças ao movimento de 64, emancipou-se do mais cruel e estúpido imperialismo: o da ideologia revolucionária que, no mundo inteiro, inebria os “intelectuais” e envenena as fontes de informação. Sim, o que está poluído – como gritou o doutor Thomas Stockmann, no “Inimigo do Povo” de Ibsen – não é o ar que respiramos, nem são as fontes d´água que bebemos, é antes a trama de informações e o sistema de comunicações da civilização em agonia. E dentro deste envoltório o Brasil deu ao mundo inteiro uma lição de real independência. Resistindo à mais volumosa e eficiente cadeia de calúnias e pressões, o Brasil de hoje repeliu os adversários de sua vocação e proclamou, ou melhor, confirmou gloriosamente seus cento e cinquenta anos de independência. O Brasil será um baluarte dos valores cristãos, ou não será o Brasil. Rezemos a Deus pedindo que nossos governantes, a tempo e contratempo, e a despeito das dificuldades criadas por alguns bispos e arcebispos, persevere na defesa dos valores humanos e divinos, e corajosamente mantenha e amplie sua independência.

(O Globo, 7/9/72)

"Acaso eram eles mais pecadores do que vós?"

-- E logo nas vésperas de Natal! Murmurou a meu lado alguém. O jornal escancarava a notícia: TERREMOTO EM MANÁGUA. E os mortos e feridos já empilhados em cifras, amortalhados para as estatísticas. Na família reunida para a noite feliz houve um silêncio e passou um frêmito, como na história da Morte da Máscara Vermelha, de Edgard Poe. Cada um de nós sentia a presença da Intrusa, que não fora convidada, e que não era da família porque família se define por casamentos e nascimentos, e não por falecimentos. A Intrusa, que rejeitamos com o instinto e com a Fé, estava ali a nos espionar. Ou a trazer algum recado?

Em menos de um mês tivemos cortada, esmagada contra um poste, uma vida maravilhosamente bela e generosa que saíra de casa para fazer compras, isto é, para amamentar a família enorme. No dia seguinte, na mesma rua, quase na mesma hora, outra vida em flor era pisada pelo mesmo e mais mortífero dos inventos de que se gabam os homens, e com que sonham os moços. Há estatísticas que provam e dão ao fato brutal a auréola dos algarismos: acima das guerras, das calamidades, e de qualquer doença, o mais mortífero engenho é esse lustroso brinquedo de quatro rodas com que os homens de nosso tempo graduam as importâncias sociais.

Nesta mesma quinzena ou vintena desaba o supermercado que ainda fizera o favor de avisar a catástrofe com uma miniatura de terremoto. Em vão. Os homens deste século de ida à Lua estão seguros de si a multiplicar as torres de Babel. Nesse entretempo, aqui e ali, pingam da estratosfera aviões maravilhosamente modernos, com suas máquinas perfeitas, seus passageiros muito cônscios do século XX e suas aeromoças sequestradas pela necessidade para o serviço do otimismo universal.

A intrusa está ali a querer também seu presente de Natal, e nós a sentimos dentro de nós, mal escondida. De vez em quando, como feto de cinco meses, ela se mexe dentro de nós, e nossa atenção, fugazmente desviada do circo e da máquina do mundo, enverga-se sobre si mesma e ausculta-se. Passou? Passou. Ela se encolhe e a atenção abre as janelas para o variado e divertido espetáculo do fim do ano. Os orgulhosos vivos, sem se sentirem grávidos da própria mortal fragilidade, passam a pé, ou nos automóveis, todos com a mesma fundamental convicção: o chão é o chão, sólido, constante, antigo, eterno. A terra é a terra, regaço de rochas com que se pode contar, e em que nem precisamos pensar. Ela está ali “Elle est lá”, dizia Claudel pensando naquela que estava “stabat” ao pé da cruz. Mas nós somos filhos de duas mães, uma que nos quer inteiros, e outra que nos quer dilacerados...

Passou? Passou. E a atenção abre as janelas. Mas desta vez é da própria janela, como um mau hálito, que entra o bafo da morte de um supermercado inteiro. Ele estava pousado sobre o chão, firmado na terra, e de repente a terra mesma o rejeita, o enjeita. E agora, Santo Deus! é uma cidade que se agita numa dança macabra em cima de um chão enlouquecido. Trinta mil mortos. Duzentos mil feridos. E logo os elementos que o homem julgara domesticados entram na conjuração: a água inunda, o fogo cresta, o ar sufoca, e a terra mastiga os seus filhos. Como retornar agora o ritmo do “otimismo” que hoje no mundo católico é uma virtude teologal? É só fechar a janela, dobrar o jornal, e recomeçar a festa do príncipe Próspero. Vem-me à lembrança o que escrevi em Dois Amores, Duas Cidades (vol. II, pág. 297): “Foi nos princípios do século XVIII que surgiu a filosofia e o vocábulo “otimismo”. Todo o ocidente, inebriado de iluminismo, e da convicção de viver no Grand Siècle, num curioso e sinistro paradoxo, diminuía o homem e aumentava a confiança no homem, acinzentava os horizontes e sorria para nesgas de um azul imaginário. Foi o terremoto de Lisboa em 1755 que soou na Europa como um despertador. Voltaire esfrega os olhos e começa a desconfiar que sonhou.

Em Candide, Cacambo pergunta o que é otimismo. – Helás! Diz Candide, c´est la rage de soutenir que tout est bien quand tout est mal.1

Aquele terremoto foi efetivamente mais do que uma catástrofe física, foi um escândalo cultural que vinha mostrar “em pleno século XVIII” que o homem é apenas homem, e apenas um pouco mais forte do que as moscas. Aliás, em caso de terremoto, torna-se até mais fraco, porque as moscas dependem menos da firmeza do chão.

Mais perto de nós, em 1936, outra crise de otimismo correu o mundo e a França, em noitadas de prazer com o Front Populaire, descarregava no humor trágico toda sua insouciance e cantava, à beira dos abismos: “Tout va três bien Madame la Marquise”.

Agora, nesta cômica “era pós-conciliar”, ou “era espacial”, ou “era da imagem” ou “era do já era”, novo ataque de estupidez entra na história com as cores rosadas do otimismo. Vemos com pavor acumularem-se as provas de soberba do homem que pomposamente e pedantemente recusa o senhorio de Deus.

Será tudo isto um castigo de Deus? – perguntou-me uma filha.

Não pertenço ao grupo espiritual dos que imediatamente, horrorizados, repeliriam a idéia de um castigo divino; mas no caso prefiro pensar no terrível mistério da permissão divina, e decididamente prefiro ouvir a lição que Jesus nos deixou para tais casos. Quando chegaram diversos com a horrorosa notícia das violências praticadas por soldados romanos contra os galileus, cujo sangue Pilatos assim misturava ao do sacrifício que faziam (Lc 13, 1). Jesus – para desespero dos atuais teólogos da Revolução – sem dar nenhuma resposta ao aspecto do odioso abuso imperialista, sem parecer sequer ter ouvido este aspecto do acontecimento, dá aos recém-vindos uma resposta desconcertante que vai diretamente ao centro da questão, isto é, daquilo em razão de que se encarnou por obra do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem e padecerá sob Pôncio Pilatos, por nós homens, e para nossa salvação.

Nesta vigília de Natal pareceu-me ouvir o Menino Jesus repetir: -- Acaso eram as vítimas de Manágua mais pecadores do que vós? Digo-vos eu que não. Acaso eram mais pecadores do que vós os dezoito esmagados na queda da torre de Siloé? (...) Digo-vos que não e que, se não fizerdes penitência, todos perecereis...” E em outros textos: “Vigiai e orai porque não sabeis a hora.”

(O Globo, 28/12/1972)

  1. 1. Ai de mim! É a raiva de sustentar que tudo vai bem quando tudo vai mal. (N. da P.)

Para que existem as nações

Gustavo Corção

Andei estes dias pensando no problema do um e do múltiplo que divide as filosofias e as mentalidades. Nas filosofias de inspiração nominalista, infensas às idéias universais, predomina a tendência de valorizar a diversidade; nas filosofias de inspiração aristotélico-tomista, ao contrário, ensina-se que a perfeição de uma coisa deve ser procurada na sua maior unidade, desde que saibamos distinguir entre unidade vista do lado da forma e uniformidade tomada do lado da matéria.

É errado, e meio tolo, atribuir à diversidade, ao pluralismo, um título de nobreza, e dizer, como diz o professor Anísio Teixeira, que uma sociedade se torna mais evoluída na medida em que se torna mais complexa e mais diferenciada. Chega a dizer que haveria vantagem, para o Brasil, se em lugar da predominância católica nós tivéssemos uma solução maior, um estoque mais variado de credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de consistência de tal opinião. Afirmando o que afirma, o conhecido autor de livros sobre pedagogia professa, simplesmente, um total ceticismo religioso, e deseja a diversidade dos credos como se nenhum deles pretendesse conter verdades, e de fato as contivesse. Duvidamos que o professor Anísio Teixeira desejasse para o Brasil, para o desenvolvimento, para a emancipação econômica e cultural do Brasil, um pluralismo científico, uma diversidade de opiniões a respeito do funcionamento do fígado, das causas do câncer, e das propriedades do triângulo retângulo. É claro, amigo leitor, que também nós desejamos o pluralismo no campo do direito de pesquisar, mas é claríssimo que só diremos que há progresso científico na proporção em que se unificam os conhecimentos e as opiniões.

Há entretanto certas diversidades que têm uma significação de riqueza e de perfeição, além daquela que tem o título precário de direito de pesquisa. A variedade de indivíduos concretos dentro de uma espécie, a variedade das rosas, por exemplo, é uma riqueza, é, digamos assim, um belo esforço que as existências concretas realizam para exprimir o conteúdo total de uma essência. Para conhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o pensamento de Deus que ganha corpo na rainha das flores, é preciso ter visto muitas pétalas, muitos matizes, muitas raças diferentes do mesmo sonho divino. A diversidade aí é um discurso, é um poema que se estende para com muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da questão como se vê, há sempre o primado da unidade, mas no caso que tomamos como exemplo a diversidade não tem o sentido melancólico, amargo, que tem o da diversidade de opiniões toleradas enquanto não se acha a verdade única de uma coisa. E o que disse da rosa vale também para o homem. A perfeição da humanidade-essência se realiza na humanidade-existência. A riqueza da idéia “homem”, que Deus concebeu e criou, não cabe num só individuo, não se esgota no mais belo, no mais talentoso dos homens. Foi preciso deixar a história correr. Foi preciso deixar nascer um Mozart, um Gauss, uma Catarina de Sena, um Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros exemplares mais obscuros, foi preciso deixar nascer o rapaz que dias atrás me contava que não aceitara um trabalho com o triplo de sua remuneração atual, porque precisava fazer certas coisas que sua consciência desaconselhava, foi preciso multiplicarem-se os talentos, as inclinações, as vocações, as nomeações de Deus, para que a vasta multidão, numa espécie de longo e ardoroso discurso, explicasse aos astros, aos anjos, a toda a criação, o que é este ser espantoso, absurdo, incongruente, maravilhoso, que um deles definiu como “animal racional”. A definição essencial é breve, mas a explanação, para corresponder à profundidade de tão singela definição, teve de ser extensa como a história da humanidade.

Essa diversidade, que é uma explicação, uma demonstração prática e existencial de uma natureza definida por uma fórmula universal – essa diversidade que pertence à didática de Deus, é boa, é excelente, e nem sequer representa uma tolerância, uma expectativa, um alargamento à espera de uma unidade maior. Não. A diversidade da multiplicação de indivíduos da mesma espécie, ao mesmo tempo que dilata os limites da definição, fortifica os vínculos da unidade interna da coisa. Ao contrário do que pensa o nominalista, nós sentimos ainda mais forte a unidade de natureza humana quando passeamos pelo imenso jardim onde nasceram e desabrocharam as flores da humanidade. Cada vez mais entendemos, sentimos, penetramos a idéia de um ser que pelo gênero pertence à animalidade e pela espécie pertence à racionalidade.

E o que dizemos para os homens diremos também para as nações. A variedade delas é uma riqueza, desde que seja vista naquela perspectiva que enriquece e fortifica a unidade. Para que existem as nações? Para si mesmas? Para serem poderosas potências armadas e engenhos mortíferos e enfeitadas com bandeiras e hinos? Para serem temas de discursos? Para trazerem cores diversas à cartografia, e tornarem as etapas mais agradáveis? Para que existirá o Brasil? Para o sr. Negrão de Lima ser embaixador dele em outra nação que por sua vez manda embaixadores para o Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como pátria, para as crianças de colégio fazerem composições patrióticas, e para os construtores de Brasília se encherem de lucro à custa da mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá para o hino, para a bandeira?

Parece-nos claro que, se fosse para tais serventias, melhor seria que houvesse um só país, falando uma só língua. A transcendental utilidade, a finalidade das nações tem de ser procurada mais alto e na mesma direção em que se explica a diversidade dos homens. Além da variedade de pessoa para pessoa, a idéia de homem, pensada e criada por Deus, precisa da variedade de grupos. Existem nações com timbres culturais diferentes, como existem instrumentos diversos da mesma sinfonia. E cada nação trás ao mundo a contribuição preciosa de um timbre, de um matiz, de um odor que compõe a grande apoteose do plano de Deus, no centro da qual está a Cruz do Salvador como grande síntese do pensamento de Deus sobre o Homem, ou melhor, do pensamento de Deus tornado Homem.

Em palavras mais frias diremos que as nações têm vocações diversas na partitura, e idênticas no objetivo final que é a glória de Deus e a exposição universal das obras e feitos do homem, que se completará no dia do juízo final. Por aí se vê que as nações, não só para as trocas imediatas de utilidades, existem, umas para outras numa grande e essencial solidariedade. E é nessa perspectiva que deveriam ser armados todos os problemas nacionais, e não na mesquinha e tola perspectiva do egoísmo coletivo que faz da nação um fim em si mesma.

E qual será, nessa ordem de idéias, a razão de ser do Brasil? Qual será a vocação coletiva, a vocação nacional deste povo que anda perplexo, tonto, sem saber o que fazer de seu imenso território, e sem o tipo de almas que aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e chora, com um sotaque espiritual diferente dos outros povos. E dança como o francês ou o russo não sabem dançar. Dizem que o Garrincha, assistindo um jogo dos russos, sorria com ar de certa superioridade, e quando lhe perguntaram se não estava com medo do treinadíssimo time soviético, respondeu: -- “Não. Eles são duros de cadeiras.” E era verdade. Eles não tinham os requebros de nossa astúcia física, a flexibilidade de nossa graça felina, certamente serão duros de cadeiras em muitas outras coisas em que somos graciosos e ágeis.

A verdade manda confessar que, fora do futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apoteose da essência humana. Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Por mais insensato que possa parecer tal idéia aos que vivem estudando os chamados problemas brasileiros, é nesta perspectiva profética, teológica, metafísica, que deveriam estar situados todas as pesquisas. Há problemas imediatos, como o socorro devido às vítimas do nordeste, mas há o grau de problema da vocação, da direção geral, que anda esquecido, ou que está sob a ameaça de uma trágica apostasia. E aqui – deixando para outro dia a continuação desta louca conversa – ouso dizer o que penso de um Brasil que trai a sua vocação e que se desvia dos caminhos de Deus. Rasguem as vestes os fariseus do nacionalismo materialista (aliás outro não há), dêem-me os títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro vê-lo apagado do mapa, afundado na terra, tragado pelo mar, do que vê-lo instalado num desenvolvimento que nem sequer trás a felicidade material, animal, das multidões, e que volta as costas ao chamamento de Deus e à esperança dos homens.

O cristianismo que não morrerá

Gustavo Corção

As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.

A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita. Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”

É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!

O leitor encontrará no livro Progresso e Progressismo, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas.

No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.

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Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.

Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.

Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.

Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

(O Globo, 14/8/71)

Singularidade do Cristianismo

Gustavo Corção

Num de seus mais belos livros, The Everlasting Man, que o editor com toda a razão diz ser "more thrilling than any novel", Chesterton, no apogeu de seu gênio rutilante e explosivo, deixou-nos um acervo de idéias onde cada uma parece responder com suas cintilações à soma de espantosos disparates e tolices com que o mundo, sai século, entra século, pretende empoeirar, esconder ou destruir o Cristianismo. Com sobeja razão disse desse livro um crítico: "É um poderoso e belo livro. Para realizá-lo assim, formoso e poderoso, o poeta e o soldado em Mr. Chesterton se coligaram, e juntos conseguiram dar-lhe as cores, a fúria e a fé romântica das cruzadas."

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Uma das tolices de todos os tempos que tentou atravessar-se no caminho do poeta-soldado e cruzado foi a que hoje tem calorosa acolhida no mundo católico, e especialmente nas casas religiosas que, por isso mesmo, deixaram de ser religiosas. Eu a definiria assim: idéia da não singularidade do cristianismo. E Chesterton a derruba num só golpe: "aqueles que vêem Cristo lado a lado com outros mitos similares, e sua religião lado a lado com outras religiões, estão apenas repetindo desgastadas e sujas fórmulas que são desmentidas pela fulgurante evidência dos fatos."

Em outro lugar Chesterton retoma esta idéia que anima toda a sua estratégia apologética: "escrevi este livro apenas para mostrar que o Cristianismo, surgido em certa altura da história, tem todas as características de uma coisa única. Não se parecia com nenhuma outra coisa; e quanto mais o estudamos menos se parece ele como outras coisas". No sentido mais absoluto do termo, o cristianismo foi uma coisa nova na história; é a única coisa nova, não apenas no seu surgimento histórico mas em cada momento em que o considerarmos.

Em torno de mim, no meu escritório, estão os objetos familiares, os livros amados e os livros detestados, as cartas lidas e ainda não respondidas. E diante de mim a mesa desarrumada dá-me boa imagem das coisas velhas que seguem a lei da matéria, a lei do envelhecimento. Se me adornarem a jarra com uma rosa insolentemente jovem e formosa, ainda assim já advinho atrás da seiva a corrupção e atrás do viço o desbote. Tudo em torno de nós envelhece irresistivelmente. Sobre todas as coisas desce a névoa crepuscular de um desgaste universal. A grande e bela criação de Deus segue sua sorte de criatura sujeita a todas as vicissitudes. Mas suas abóbadas fechadas sobre si mesmas, economicas, zelosas de suas causas segundas, de seus ciclos e epiciclos, um dia foram atravessadas, e um dardo de luz trouxe a esta criação a notícia de uma nova criação e o anunciador desta boa-nova é o Verbo Divino que se encarnou para nossa salvação e que estará sempre entre nós, na sua Igreja, no meio de nós como o Novo absoluto e perpétuo que levou São Paulo a exclamar, ébrio de graça divina: quem está em Cristo e torna nova criatura... Vede! tudo é novo! (2Cor 5, 17).

***

A leitura, mesmo distraída, do Antigo Testamento revelará a chave, o segredo que troveja pela voz dos profetas, e que grava nas pedras: Ele é Um, e não admite outros deuses diante de sua Face. Mas é no Novo Testamento que eclode, explode, o Novo absoluto, o Novo eterno; mas também é aqui que, por um paradoxo da Encarnação, se torna mais velada a face de Deus. A Trindade é, sem dúvida alguma, o mais majestoso, o mais profundo dos mistérios; mas a Encarnação é o mais perturbador, o que mais induziu a heresias e erros que, no fundo, querem sempre a mesma coisa: reduzir o Cristianismo a um humanismo. Jesus passou três anos a ensinar que o cristianismo não é um humanismo. Todas as suas respostas tem sempre o mesmo cunho de quem não aceita o plano e os termos em que é feita a pergunta. Ao longo de vinte séculos a história do cristianismo oscila sempre entre dois acervos, dois modos de capitalizar e de guardar o tesouro das palavras de Cristo. De um lado está o cabedal de sabedoria e de santidade guardada no seio, no interior, no lado de dentro da Igreja, e de outro lado estão todas as tentativas feitas, no exterior da Igreja, por homens que se julgavam tanto mais eclesiais quanto originais.

A tendência natural do homem, o peso do corpo e as feridas da alma levam-no sempre a querer fazer do cristianismo um humanismo, e do candente amor de Deus uma filantropia.

Quando os homens, num relance, desconfiam da absoluta e insólita novidade do cristianismo, duas reações opostas e violentas podem surgir: a violência de um vislumbre de amor divino precipita a alma agradecida e maravilhada, no meio da Igreja, in medio Ecclesia; a outra violência, ditada ao orgulho por Satã, fará dessa alma um rebelde que sairá pelo mundo a anunciar que o cristianismo é não somente um humanismo, mas também, e sobretudo, um humanismo ávido de cooperar com o desumanismo que não admite sequer o Nome de Deus, nem admite que seus membros humanos queiram ser especificamente humanos.

***

Pensando na explosão de imbecilidade que encheu nosso século graças aos tão festejados meios de comunicação, repassando na memória as frases infinitamente tolas que foram pronunciadas dentro do chamado catolicismo "progressista", vêm-me à memória, irresistivelmente, as palavras com que Jesus diz que não foi para dirimir estas questões que Ele nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi morto e crucificado. Através dos abismos ouço esta resposta de Jesus aos desajustes humanos: "Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós outros?" (Lc 12,13).

 

(O Globo, 12-8-71)

Um ato bom

Gustavo Corção

Se nós tivéssemos de discutir com o Senhor a salvação de nossa cidade, como se vê no capítulo dezoito do Gênese que Abraão o fez para a defesa de Sodoma, deveríamos deter o regateio da misericórdia na condicional existência de uns quinhentos justos. Se Sodoma precisava de dez, nossa gloriosa e populosa cidade precisará cinquenta vezes mais. Digamos quinhentos.

Tomando o termo no sentido sobrenatural, como convém às passagens da Sagrada Escritura, e procurando-os entre os pobres, os oprimidos, as criadas de servir, os religiosos, os simples, facilmente apresentaríamos a Deus, creio eu, os quinhentos ou mais justos que obscuramente, na invisível comunhão, afastam de nós o fogo dos céus. Mas se transpusermos o problema da ordem sagrada para a profana, e se quisermos achar quinhentos homens de bem entre os que visível e oficialmente respondem pelas vigas das instituições e pelo arcabouço temporal da República, então veremos, com profunda apreensão, que nem a décima parte conseguiríamos reunir. Homens bons, graças a Deus, conheço muitos; mas homens públicos honestos, creio que não conheço cinquenta. Conhecerei quarenta? Trinta? Vinte? Ah! Se tivesse a certeza de poder contar dez!

Antes de continuar devo definir o que entendo por honesto e o que entendo por homem público honesto. O termo honesto, no tempo de Cícero, tinha uma austera significação que se estendia por toda a ordem moral. “Ita fit, ut, quod bonum sit, id etiam honestum sit”. Das letras clássicas o termo ingressou no vocabulário da filosofia escolástica para significar aquilo que é moralmente bom e que se distingue do bom deleitoso e do útil. Com o advento da moral burguesa, que sabidamente é uma regra de exterioridades, o termo entrou na linguagem comum com uma significação diferente. Ou melhor, com duas significações. Para homens: honesto é o que não tira o dinheiro do bolso do outro diretamente com a mão; e o que não se descuida de pagar suas contas em dia certo. Para Senhoras: honesta é a excelentíssima senhora que não dorme com homem que não seja o seu marido. Note, porém, o leitor, que o homem, nessa nova acepção do termo, pode dormir com uma senhora, que não seja exatamente aquela a que o ligaram os doces laços do himeneu, sem deixar de ser honesto. E a senhora pode enganar a cozinheira na conta dos dias, sem se tornar desonesta.

Com tal definição, que aliás, ao que parece, já é considerada rigorosa demais, poderíamos congregar algumas dúzias de justos. Mas voltemos à significação clássica, e procuremos o que quer dizer dirigente honesto, homem público honesto, nesse esquecido vocabulário. A função pública se define pela promoção do bem-comum. A obrigação moral do homem com cargo público se orienta por esse critério, e sua honestidade consistirá em jamais antepor seu interesse ao interesse público no exercício da função. Para ser honesto, dentro desta definição, não basta não roubar nem deixar que outros roubem: é preciso também não empregar os filhos recém-diplomados em lugares excelentes e com vencimentos de veterano; é preciso não transformar o poder em prestígio; é preciso que o cargo seja cargo e não carga para os outros; é preciso espírito de sacrifício, desapego, e fervor na defesa do interesse público. Tudo isto, aliás, costuma ser dito nos discursos de posse e nas inaugurações. Só não costuma aparecer no lugar próprio, isto é, nos atos dos homens públicos.

Pondere agora o leitor, e conte pelos dedos os homens honestos que conhece. Verá que são poucos, muito poucos. Mas não desanimemos. Nem imaginemos que as coisas do Brasil só andarão razoavelmente quando todos os titulados forem homens de grande estatura. A história dos dez justos de Sodoma aplica-se bem à ordem temporal, à política, para ensinar que sempre serão poucos os defensores e fiadores de muitos. A famosa frase de Churchill, relativa à defesa de Londres pelos aviadores da RAF, tem a mesma significação. Apenas, onde ele diz nunca eu diria sempre. Sempre será assim: muitos devendo muito a muito poucos. A excelência é rara, a bondade é difícil, mas em compensação é difusiva. Custa a aparecer, mas quando aparece tem força de cristalizar, de polarizar, e de melhorar milhares de pessoas menores, mais pusilânimes, que só precisavam de um exemplo, de um impulso, para produzirem atos bons. Há sem dúvida muita maldade no mundo, como se vê agora em Alagoas, onde parece que o demônio firmou residência; mas o que mais há no mundo é mediocridade, tolhimento, pequenez, burrice, chatice. No amago do mais encolhido coração sempre haverá, entretanto, uma nostalgia de bondade e até um secreto desejo de heroísmo. E por isso, basta aparecer um homem bom para que os homens melhorem, basta aparecer um ato honesto, uma explosão de generosidade, para que todos tenham ao menos um pequeno movimento voltado para o bem de todos. O mal é contagioso, mas o bem é difusivo e explosivo.

 

(O Globo, 17/02/57)

O medo e o santo temor de Deus

Gustavo Corção

Os acontecimentos desses últimos dias marcados de violência levaram-me a pensar que têm muita razão os que já apontaram o predominante papel do medo na cultura moderna.

No princípio deste século – quando a morte era vencida nas cidades pelo arco-voltaico, quando os recantos mais secretos da vida e do mundo eram vasculhados pela luz da ciência, e quando os fantasmas, os lobisomens e as assombrações, expulsos de seus últimos redutos, eram relegados às anedotas e ao folclore – muita gente certamente pensava que esta civilização científica e arejada iria progredindo de claridade em claridade, de descoberta em descoberta, até o dia confortável em que o Medo, esse anacrônico personagem, fosse definitivamente dominado pela Razão.

Era assim que pensava o cidadão otimista e comodista que se extasiava diante dos pavilhões iluminados na Exposição Universal em Paris, em 1900.

Ora, no meio-dia deste mesmo século desce uma sombra sobre o mundo. O prestígio da Razão, ainda alto no domínio das ciências e das técnicas, nunca esteve tão baixo na vida cotidiana. O racionalismo deu lugar ao instintivismo. A alma humana já não é procurada na linha da razão e sim na dos instintos. O homem tem como seu, propriamente seu, não o que vê e conhece, mas o que dele mesmo se esconde nos porões da memória trancada. E o comodismo tranquilo deu lugar a um comodismo inquieto; e o grande Medo expulso voltou sob a forma do medo do Terror.

Houve tempo em que o homem tinha um terrível medo religioso de perder sua alma; depois, no apogeu da moral leiga, o homem teve um medo supersticioso de perder sua honra; mas hoje ele tem medo do abismo que, de certo modo, advinha no itinerário de um mundo liberal que quer marchar para o socialismo.

Houve tempo, em nossa vida, em que tínhamos medo de almas do outro mundo e nos abrigávamos desse temor no regaço materno; depois tivemos medo de ladrões e púnhamos embaixo do travesseiro um apito para chamar a polícia; mas hoje há teorias que nos induzem a ter medo do regaço materno, campanhas de “slogans” que nos querem levar a ter medo dos policiais e não dos assassinos.

E de todos os temores dispersos e difusos que hoje nos assaltam, filhos do comodismo otimista, o menor e mais numeroso, o básico, medo atômico fundamental, que supera os restos de amor pela justiça e pela verdade, é o medo de mudar de vida.

Agora chegados neste ponto, detenhamo-nos e procuremos adivinhar, prever, deduzir o que acontecerá nessa sociedade amolecida em que o santo temor de Deus foi substituído por esses medos pequenos, de meio quilo, de meio metro, que formam o traço mais característico desta civilização.

É fácil prever: uns poucos, por uma série de circunstâncias, vão se encontrar em posição de paralisar essa sociedade de timoratos e vão agir simultaneamente em dois sentidos, prometendo segurança e espicaçando os pontos sensíveis da pusilanimidade, tranquilizando e metendo medo. E esses mesmos, cuja maior volúpia consiste em meter medo, esses mesmos viverão constantemente com medo. E então começa aí, nessa raiz de covardia, nesse germe de abdicações, o reino da violência procurado pelos terroristas.

Vejam bem que a lógica do erro é a contradição, e que não é de admirar que seja a violência a sucessora do comodismo. Examinem bem a precisão de nosso raciocínio quando anunciamos que numa sociedade em que todos têm medo de guerra haverá guerras atrozes. Se todos têm medo de incômodos haverá bombardeios atômicos e tiranias inauditas. Se todos têm medo da pobreza haverá miséria. E houve. Aconteceu isto nos países que se entregaram a formas totalitárias, por comodismo. E continua acontecendo um pouco em todo o mundo. A violência é a filha mal-educada do comodismo. O instintivismo é o único filho que se poderia esperar do racionalismo.

Estamos sob o império da violência. Mas por favor não comparem esses tumultos com o retinir de armas que encheu a Idade Média. Há violência e violência. Há violência que se organiza em cruzadas, há violência que toma de assalto o próprio Reino de Deus; mas há também essa outra convulsão telúrica, semi-voluntária: a violência dos mornos que só se traduz em pânico, em salve-se quem puder, em massacres de reféns inocentes e em gavetas onde se trancam, com o ódio dos fracos, a verdade e a justiça.

Andei ouvindo nesses dias o belíssimo livro, o último que Bernanos escreveu, Dialogues des Carmelites, e logo no frontispício o trecho transcrito de La Joie, do mesmo autor, que reza assim: “En un sens, voyes-vous, la Peur est tout de même fille de Dieu, rachetée la nuit de Vendredi-Saint. Elle n´est pas belle à voir – non! – tantôt raillée, tantôt maudite, renoncée par tous... Et cependant, ne vous y trompez pas: elle est au chevet de chaque agonie, elle intercède pour l´homme”.

Bernanos nos fala aqui do Medo, desta terrível paixão que abala os alicerces da alma, e no-la apresenta ora escarnecida, ora maldita e sempre repelida, mas também filha de Deus, resgatada na noite de Sexta-Feira Santa, essa mesma paixão que se debruça nos leitos de agonia e intercede pelos moribundos.

Deus quer de nós a inteligência e a vontade, mas quer também as paixões porque o homem, sem paixões, é menos homem. Quer o nosso amor, quer a nossa alegria, quer as nossas tristezas. Quer também o nosso temor.

Do amor, que Deus espera todo de nós, rendido, incondicional, Ele mesmo decretou que essa grande oferta seja profusamente espalhada por tudo e por todos. E assim, dispersa, solta aos quatro ventos que a grande paixão do amor obedece melhor à Caridade que é o Santo Amor, jovem capitão de um exército inumerável de afeições.

Da alegria, que Deus manda servir à Esperança (como às vezes também a tristeza a serve do seu modo) Deus espera d enós a mesma generosa profusão, porque “un saint triste est un triste saint”, e ele mesmo nos legou palavras de agradecimento para todas as criaturas de sua gloriosa mão.

Mas o caso do temor é diferente. Ainda se refrata nas criaturas, sendo bom que exista e condicione certas relações, mas eu diria que se refrata em ângulo apertado, sem muita dispersão, porque depende disso, dessa concentração, dessa economia, o equilíbrio do homem entre os homens. A Deus dizemos: “sanctum et terribile nomem ejus. Initium sapientiae timor Domini”. Santo e terrível é o seu nome. O início da sabedoria é o temor de Deus.

E depois de termos assim temperada a nossa alma, nós podemos cantar o hino de nossa coragem perfeita, como na oitava da Ascensão a Igreja canta em seu intróito: “Dominus illuminatio mea, a quo trepidabo?” Senhor, luz minha e minha salvação, a quem temerei? Senhor, protetor de minha vida, o que me fará estremecer?

Eis aí, ó leitor, o segredo dessa paixão de nossa alma, que parece feia (elle n´est pas belle à voir...) que parece desprezível, que parece maldita, e que, entretanto, não duvide, ó leitor, está na cabeceira de cada agonia, intercedendo pelo homem. Eis aí, ó amigo, a antiga receita dos bravos, como Santa Joana D´Arc, como S. Luís de França, que só tinham medo de uma coisa: pecar contra Deus.

E eia aí também a triste explicação das nossas fraquezas. Onde morre o temor de Deus pululam os vermes de todos os medos.

(O Globo, 6/4/78) 

Divagações a respeito dos jovens

Modéstia à parte, tenho sido ultimamente entrevistado, mas permanece inevitavelmente a mesma indagação fundamental: o que penso eu da juventude. Ora, devo confessar que não penso absolutamente nada da juventude. Por mais que me esforce e que esmiúce a pergunta, por mais que analise os conceitos envolvidos no inquérito, só consigo pensar que a juventude é a juventude. Que outro juízo esperam os colegas de mim? Não consigo, sinceramente, descobrir nenhum predicado que convenha a todos os jovens, a não ser a própria juventude. O jovem é jovem, eis aí o pensamento profundo atual, avançado, audacioso, que ofereço a todos os jornais e revistas. E desde já lanço o repto: a quem me provar que o jovem não é jovem entregarei minha casa e meus livros.

Outro dia, entretanto, ouvi alguém dizer, aliás pela milésima vez, que o “jovem é autêntico”, e que o jovem, pelo fato de ser jovem, sofre a pressão ou a colisão das inautenticidades dos velhos. O que quererá dizer isto? Receio que o pressuposto de tal afirmação, se algum existe, é o de só existir, em toda a vida humana, uma estreita faixa etária, como diria o Dr. Alceu Amoroso Lima, em que o mísero bípede implume se encontra consigo mesmo. Eu poderia invocar a longa experiência de vida e contestar o fenômeno. Sim, posso assegurar que já encontrei muitos jovens com todas as características do canalhismo; e até poderia acrescentar, com robusta convicção, que essa peculiaridade da alma humana está equitativamente distribuída por todas as idades. Lembro-me por exemplo dos moços da extinta UNE, ou entidade máxima estudantil: quase todos os dirigentes que conheci eram canalhas e demonstraram uma virtuosidade capaz de causar inveja a um velho crápula aposentado. Por dois desses fui enrolado apesar de toda a experiência da vida de que me gabei pouco atrás. Mas talvez esteja enganado: os sagazes observadores da eclesialização do mundo ou da secularização da Igreja, e sobretudo os sociólogos dessa índole dirão que observei mal e que confundi canalhismo com atitudes de protesto. Os jovens que praticam atos de canalhice, segundo os padrões tradicionais, não são canalhas porque são jovens e não são canalhas porque estão apenas replicando à deixa da falida geração que só legou taras e misérias. Sim. Um dos postulados que parece presente na base de tudo o que se diz hoje dos jovens é o da total falência do mundo anterior. E aí temos um estranho conflito e até se duvidarem uma estranha revolta: a de um ente de razão contra outro ente de razão, a de um ser abstrato contra outro ser abstrato.

Outra coisa que ainda não logrei entender é a ideia de apresentar o jovem como um vanguardista. Como assim? Vanguardista sou eu. Nasci antes dele, provavelmente morrerei antes dele, e assim se vê que estou sempre na frente. Com meus setenta e um estou na ponta onde já são escassos os companheiros, e quanto mais viver e mais envelhecer, mais na frente e distanciado estarei. Quando esse moço desordeiro da França nasceu, eu já sabia trigonometria esférica, cálculo diferencial e outras coisas. Estava até começando a ficar grisalho, tal era a imensa dianteira que levava sobre esse retardatário. Já fazia a barba quando nasceu o pai do moço desordeiro. Fui autêntico algum dia? Ai de mim, no tempo em que atravessei a faixa etária da autenticidade não haviam nascido os sociólogos para fazerem a frase que me pusesse em estado de graça em relação a mim mesmo. Vivi sem essa absolvição, ou tive minha mísera e estreita autenticidade obscuramente vivida sem que dela se apercebessem a família, a cidade e o país. Minto. Um ou outro amigo certamente me estimou como se sentiu estimado, mas éramos modestos a respeito desses atributos fascinantes que cobrem hoje multidões. Fascinantes? Pensando bem creio perceber que não há nada mais melancólico do que esse efêmero esplendor que inventaram hoje para ainda mais estreitar a pobre vida humana. Já sabíamos, pela experiência e pela revelação, que o tempo é breve e que a vida é curta. Encurtaram-na ainda mais os que exaltam a supracitada faixa etária. Pobres moços! Têm missa especial no Largo do Machado, têm diversas outras regalias, mas estão condenados à inautenticidade dentro de três ou quatro anos. É só casarem-se e terem filhos e estarão definitivamente expulsos do paraíso etário, e desenganados em matéria de autenticidade. Ontem uma jovem jornalista que me entrevistava teve de repente um calafrio de terror.

− Estou ficando velha! Estou ficando velha!

Pensei que fosse mirrar à minha vista, como a velha das Minas de Salomão, mas vi que permanecia com os mesmos vinte e tantos. Ela então explicou-me:

− Estou ficando velha porque estou começando a concordar com o senhor. O que vai ser de mim lá na redação? Estou perdida!

Sim, a pobre moça estava perdida porque começava a pensar nos filhos que iam crescer, e que daqui a poucos dias estarão dizendo que são autênticos. Num momento de silêncio pesado estivemos a medir a imensa responsabilidade de sermos pessoas sem idade definida, sim, pessoas vivas e dadas em espetáculo do mundo...

(O GLOBO, 6/6/1968 )

A civilização na perspectiva da piedade

Jean Madiran

 

1. — Civilização é um termo recente, não tem dois séculos. Mas a idéia é antiga, pois os inimigos da civilização têm um nome bem antigo: BÁRBAROS. Esse nome foi dado pela civilização grega, e designava os estrangeiros. Nas primeiras páginas da Política de Aristóteles já encontramos referência aos bárbaros, os quais estarão presentes no pensamento desde os primórdios da filosofia e por toda a parte. Assim, desde o início, a civilização está presente na reflexão dos pensadores.

“Os bárbaros são definidos como povos que não vivem sob as leis”[1]. Há a lei eterna, a lei natural, as leis positivas e suas relações conhecidas ou desconhecidas:

“A lei natural, que deve ser a norma de todas as nossas leis humanas, pode ser definida como uma participação da lei eterna, que é Deus. É claro que o reconhecimento público da lei natural não gerará automaticamente a observância dessa lei — a história está aí para prová-lo, tanto na experiência dos indivíduos como na das nações. Mas, uma coisa é reconhecer que não observamos uma lei que sabemos ser preciso observar, outra coisa é pretender que não há nenhuma lei imutável e comum, e agir como se ela não existisse. Com esta atitude, instituímos a barbárie mais universal que pode haver. Os bárbaros, com efeito, eram definidos como homens que não viviam sob leis. Ora, os bárbaros da antigüidade jamais negaram a lei natural em toda a sua generalidade. O homem, para fazê-lo, e tornar-se o pessimum omnium animalium (Santo Tomás, in I Pol., lect. I) numa medida tão draconiana, precisaria esperar pelo século das luzes.”[2]

Por onde se vê que a civilização se define antes de mais nada por sua relação com a lei natural. Sob um primeiro enfoque, a civilização identifica-se com a lei natural. Sob um segundo enfoque, verifica-se o que a distingue: a lei natural é universal e imutável, enquanto as civilizações são particulares, com seus progressos e declínios, com sua história. As civilizações decaem ou desaparecem sob o peso da barbárie interior ou exterior; ou ainda, desmoronam após acontecimentos aparentemente fortuitos, sem relação visível com o bem ou o mal, ou com a oposição entre o homem civilizado e o bárbaro. Elas também conhecem ressurgimentos inesperados. A civilização de Cnossos e de Festo[3] desapareceu completamente por algum motivo desconhecido, como um inútil empecilho ao gênero humano; desde outro ponto de vista, ela sobreviveu por sua influência sobre Micenas e, por intermédio de Homero, talvez ela ainda nos diga algo sem que o saibamos. Há casos em que a decadência se dá de modo tranqüilo, com a civilização apodrecendo lentamente e de pé, sem que o ferro do bárbaro venha do exterior para dar cabo da sua vida. Decadências quase hermeticamente fechadas em si mesmas, peças de laboratório, porém misteriosas. Que os filósofos, ao menos os maiores, surjam de preferência no declínio das civilizações e não no seu alvorecer ou no apogeu, apenas aumenta o mistério.

 

2. — A lei natural foi inscrita por Deus na natureza das coisas e dos seres, gravada por Ele no coração dos homens e finalmente revelada no Decálogo. Ela é de si mesma acessível à razão humana, mas não sem dificuldades imensas e um grande risco de erro. Ela relaciona-se com a história, foi inscrita, enunciada e promulgada em vista de uma história: com efeito, a civilização é a lei natural e sua história entre os homens. O fluxo e refluxo de civilização e barbárie, é a história do modo com que a lei natural é recebida, conhecida, acatada e praticada pelo gênero humano.

A lei natural é conhecida de três maneiras. Na sua mais ampla generalidade, “é preciso fazer o bem e evitar o mal”[4], é a primeira evidência imediata da razão prática. A esse respeito, já é para nós inseparável de uma história, aquela que marca mais fortemente o ser humano: a história dos seus primeiros anos. Uma vez que o despertar da razão é posterior ao nascimento físico, esse despertar é favorecido, guiado, retardado ou paralisado pela educação. A lei natural “está inscrita no coração dos homens e nenhuma iniqüidade a pode apagar”[5], mas “é eclipsada quando se trata de uma ação particular a ser realizada, na qual a razão é impedida de aplicar o princípio geral ao caso particular do qual se trata, por causa da concupiscência ou de alguma paixão qualquer”[6]. Cabe à educação formar o homem para o domínio das paixões e concupiscências e, por isso, se não cumprir seu papel, será em parte responsável pelos eclipses que poderão ocorrer à lei natural mesmo na sua mais ampla generalidade.

Em segundo lugar, a lei natural é conhecida nos seus preceitos secundários por uma atividade discursiva da razão (ou ainda por conaturalidade). Ora, a lei natural comporta não apenas “princípios gerais conhecidos por todos”, mas também “princípios secundários mais particulares, que são como que as conclusões que decorrem dos princípios gerais”[7]. Sob esse aspecto, a educação intelectual e moral é muito importante para o conhecimento da lei natural. E esse conhecimento é bem mais frágil: “Quanto aos preceitos secundários, a lei natural pode ser apagada do coração dos homens, seja em razão de propagandas perversas[8], (…) seja por conseqüência de costumes depravados e hábitos de corrupção moral”[9].

Em terceiro lugar, a lei natural é conhecida como verdade revelada, pois além de acessível à razão ela nos foi dada por Deus no Decálogo: “Os Mandamentos do Decálogo são os primeiros preceitos da lei, e sua absoluta evidência os impõe facilmente ao assentimento da razão natural”[10]. Os domínios da razão e da fé não são tão estanques que uma mesma verdade não possa pertencer a um e outro domínio sob diferentes pontos de vista. “Mesmo no que se refere àquilo que a razão humana é capaz de conhecer acerca de Deus, era preciso que o homem fosse instruído pela revelação divina. Caso contrário, apenas poucos alcançariam o conhecimento de Deus, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros. No entanto, a salvação do homem depende do conhecimento dessa verdade… Logo, para que a salvação adviesse aos homens de modo mais conveniente e seguro, cumpria que eles fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas”[11]. A lei natural foi expressamente recebida de Deus num dado momento da história do povo hebreu e, por meio dele, transmitida a toda a humanidade.

O conhecimento da lei natural aparece assim sob a dependência de uma educação, de uma transmissão e de uma história. Sua dependência é menor, sua sobrevivência é mais fortemente assegurada sob o primeiro aspecto, pois, uma vez que foi gravada por Deus no coração do homem, não pode ser arrancada dali. Contudo, isso não a põe inteiramente ao abrigo das particularidades da história individual ou coletiva. — Na medida em que comporta conclusões tiradas pela razão, sua dependência aumenta. Enquanto ela é a transmissão de uma revelação feita uma única vez, ela está inteiramente engajada nas vicissitudes da história.

O conhecimento natural da lei, “depois de longo tempo e de mistura com muitos erros”, foi a obra do pensamento grego, e nós recolhemos sua herança em Ésquilo e Sófocles, Platão e Aristóteles. A revelação sobrenatural da lei foi confiada ao povo hebreu e nos foi transmitida pela “história santa” e pela Igreja. O nascimento da civilização pode portanto ser situado no tempo e no espaço — ela nos vem da Grécia e da Palestina, e não de outra parte. No entanto, se é verdade que a civilização é a história da lei natural por entre os homens, existem claramente outros focos de civilização: contudo, estão eles não apenas privados do Decálogo, como chegaram muito aquém do pensamento grego no conhecimento racional da lei natural. Por analogia com os “preambula fidei”, poderíamos com maior exatidão chamá-las de “preâmbulos de civilização”.

 

3. — Vê-se, pois, a que ponto o homem é devedor:

“Nós nos tornamos obrigados para com os outros, segundo a excelência diversa deles e os benefícios diversos que nos fizeram. Ora, em ambos os casos o lugar supremo pertence a Deus, por ser perfeitíssimo e o princípio primeiro que nos deu o ser e nos governa. Mas, em segundo lugar, os princípios que nos governam e nos dão o ser são os pais e a pátria, em que e de quem nascemos, e que nos educaram. Portanto, depois de Deus, somos obrigados sobretudo aos pais e à pátria.”[12]

Este célebre texto de Santo Tomás, bem como a seqüência a que nos referiremos adiante, deveria estar no centro de todo pensamento sobre a civilização. Ele assinala a etapa inevitável, e fundamental, de uma reflexão sobre o assunto; a saber, escrutar a condição essencialmente devedora do homem: uma dívida que, não importa o seu talento, nem as suas ações, ele jamais poderá quitar. No tocante a Deus compreende-se claramente, mas isso também vale ao que se refere “aos pais e à pátria”. Essa dívida está além da justiça, pois esta última “implica render a outrem o que lhe é devido, de maneira a restabelecer uma igualdade”. Ora, por um lado “o homem não pode dar nada a Deus que não lhe seja devido, de modo que jamais quitará a sua dívida” e, por outro lado, "não podem os pais ser pagos, com igualdade, o que lhes é devido”[13]. Aristóteles já havia indicado: “É impossível quitar inteiramente as dívidas em todas as circunstâncias, como é o caso no que se refere às honras que rendemos aos deuses e aos pais… é justo que o beneficiário retribua os serviços que recebeu: o filho, contudo, faça o que fizer, jamais quitará os benefícios de que seu pai o cumulou e sua dívida subsistirá para sempre.”[14]

Essa condição devedora é o ponto de partida da reflexão de Charles Maurras sobre a civilização:

“O indivíduo que vem ao mundo numa 'civilização' recebe incomparavelmente mais do que dá. Uma desproporção que podemos chamar de infinita se estabelece entre o valor próprio de cada indivíduo e o acúmulo de valores no meio do qual surge.

“Quanto mais uma civilização prospera e se sofistica, mais crescem estes últimos valores (…) segue-se daí que uma civilização tem dois suportes. Ela é antes de mais nada um patrimônio, e é em seguida um patrimônio transmitido (…).

"O indivíduo é esmagado por uma quantidade de bens que não são seus e dos quais, contudo, tira proveito em maior ou menor medida. Rico ou pobre, nobre ou camponês, ele se banha numa atmosfera que absolutamente não é da natureza bruta, mas da natureza humana, que não é fruto das suas mãos, senão o resultado da grande obra dos seus predecessores diretos e próximos, ou antes, da sua associação fecunda e da sua útil e justa comunidade (…).

“De todos esses indivíduos, o mais insolvente é sem dúvida aquele que pertence à civilização mais rica e preciosa (…) Deveríamos, segundo penso, protestar contra um erro de linguagem muito comum. Falamos indistintamente a civilização ou as civilizações. Não se trata de coisas iguais, absolutamente. Na China, há uma civilização: quer dizer, um patrimônio material e moral que se transmite. Há indústrias, artes, ciências, costumes. Há riquezas, monumentos, doutrinas, opiniões, qualidade adquiridas, favoráveis à vida do ser humano. Mesmo fenômeno na Índia, Peru (…). Contudo, por mais desenvolvidas que forem essas diferentes civilizações, não são propriamente dizendo a civilização.

"A civilização só será definível pela história. Houve um momento, nos fastos do mundo, onde, mais inventivo e industrioso do que jamais fora, o homem percebeu, contudo, que tanta arte se consumia em vão. Com efeito, de que adianta aumentar o número de bens e a quantidade das riquezas? Toda quantidade é suscetível de novos acréscimos, e todo número, de um aumento indefinido. O maravilhoso, o sublime, o grandioso, o enorme, tudo o que depende da quantidade ou do número de elementos utilizados, não pode prometer à avidez do homem mais do que decepção. Uma torre ou uma coluna de cem pés pode ser aumentada em outros cem pés, que também podem ser aumentados em outro tanto. De que valem, pois, esses progressos meramente materiais? Nem nas ciências, nem nas artes, nem mesmo nas simples comodidades da vida, esse amontoado de coisas vale alguma coisa. Quanto mais incham, mais excitam nossos desejos, desesperando-nos (…).

"Sim, o desejo sempre crescerá e, com ele, a dor, a decepção e a inquietude. As civilizações, ao impor ao homem uma dívida, prometeram-lhe apenas uma corrida absurda e sem fim, rumo ao sentimento da ‘infinita vaidade de tudo’, como dizia o desventurado Leopardi.

“Os gregos, porém, ao perceberem a vaidade das buscas, não quiseram permitir que fosse infinita. Buscaram um termo à incessante corrida. Um instinto maravilhoso, muito mais do que a reflexão, ou antes, se quisermos, um brilho da razão sobre-humana ou divina, fez com que compreendessem que o bem não estava nas coisas, mas na ordem das coisas; que o bem não estava no número, mas na composição; e que o bem não se referia absolutamente à quantidade, mas à qualidade. Eles introduziram a forte noção dos limites, não apenas na arte, mas no pensamento e na ciência dos costumes. Em moral, ciência, arte, sentiram que o essencial não estava no lado da matéria e, mesmo utilizando os materiais mais preciosos, aplicavam-lhes a sua medida. A idéia do “ponto de perfeição e de maturidade” dominou esse grande povo pelo tempo em que seguiu fiel a si mesmo.

"O Rei Salomão julgava fazer ciência compilando a nomenclatura das plantas, desde a mais pequena até a mais alta. Um grego, Aristóteles, nos ensinou que esse catálogo de conhecimentos é apenas o ponto de partida, que não há absolutamente ciência verdadeira sem ordem e que a ordem da ciência não é aquela da grandeza ou da pequenez. Assim também, os artistas do Egito e da Ásia enviaram para lá amostras da sua arte: desenvolvendo-se nesta terra e nesta raça favorecida, os modelos orientais testemunharam que a arte não consiste em fazer colossos, nem em deformar a natureza em caretas monstruosas, nem em copiar ao máximo ou até à perfeição da semelhança: a arte grega inventou a beleza. Do mesmo modo, no governo de si mesmo, os moralistas ensinaram que a felicidade não consiste na multiplicidade dos bens de que nos apropriamos, nem tampouco na avareza ressecada da alma que se furta ao contato e se isola; é importante que a alma seja mestra de si mesma, mas também convém que saiba encontrar o seu bem e cultivá-lo, aperfeiçoando-se num esforço feliz. A filosofia grega abordou assim a virtude.

"Esta civilização toda voltada para a qualidade foi chamada simplesmente, nos seus belos dias, de Grécia. Coube a Roma difundi-la pelo universo, de início com as legiões dos seus soldados e colonos, em seguida com os missionários da fé cristã. As duas Romas conquistaram assim quase todo o mundo conhecido…”[15]

O pensamento maurrasiano segue, ao menos neste ponto, inteiramente alheio à idéia de uma civilização cristã: a Roma católica, do ponto de vista da civilização, não teria feito mais do que recolher e transmitir o capital inegável da civilização grega.

Trata-se seguramente de uma função histórica que a Igreja realizou de fato, da qual se honra de ter realizado e que há sempre de realizar: a Igreja não é indiferente à sabedoria dos Antigos[16]. Por outro lado, é verdade que o pensamento grego é aquele que iniciou a humanidade em um conhecimento natural da ORDEM, da BELEZA e da VIRTUDE. Mas, na época em que escrevia sua análise da civilização, que se tornou clássica, Maurras não conhecia claramente dívidas maiores do homem: ter recebido o Decálogo e a Fé católica. Mas não se enganava absolutamente ao assinalar que o homem é irremediavelmente constituído devedor, que não poderá jamais quitar sua dívida, e que quão mais civilizado for, mais devedor é.

Qual é, portanto, o dever em tal situação? Não se trata de um dever de justiça, estritamente falando, visto que não poderíamos satisfazer a justiça “que implica retribuir o que é devido de maneira a restabelecer uma igualdade”. Trata-se de um dever de piedade.

Mas, a piedade, dir-se-á, não é própria da religião, das “obras piedosas”, da atitude perante Deus? De modo algum! A virtude de piedade não é a virtude da religião. No entanto, clandestina, anônima, deixou-se levar e perdeu seu nome: assim como ocorreu com a virtude da prudência e outras, a linguagem fez delas o que bem quis. As palavras não esperam muito tempo para serem desfiguradas com a dissolução das realidades por elas designadas.

*

4. — Definamos:

A virtude da piedade não diz respeito ao culto devido a Deus, de que trata a virtude da religião. A virtude de piedade é a virtude da “piedade filial” e, por extensão, da “piedade nacional”. Ela é, como a virtude de religião, anexa à virtude principal da justiça. Ensina Santo Tomás:

“Nas virtudes anexas a uma virtude principal, devemos considerar dois elementos: primeiro, que essas virtudes hão de convir de algum modo com a principal; segundo, que, por outro lado, hão de se afastar da noção perfeita da principal. (…) Ora, a justiça, por natureza, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, de modo a se restabelecer uma igualdade (…) Mas, tudo o que o homem retribui a Deus lhe é devido; logo, não pode haver aí igualdade, de modo que lhe retribua o quanto deve (…) Tampouco podem os pais ser pagos, com igualdade, do que lhes é devido.”[17]

Nessa situação, em que a justiça está fora do nosso alcance, a religião define nossa atitude com respeito a Deus; a piedade define nossa atitude com respeito aos homens, ela é a "manifestação de amor que temos para com os pais e a pátria”[18]; "a religião, que presta culto a Deus, é uma virtude diferente da piedade, que reverencia os pais e a pátria”[19]. A piedade nacional não esgota nossos deveres para com a pátria, pois é nosso dever para com a pátria enquanto “princípio conatural que nos deu o ser e nos governa”[20], e não enquanto é o lugar de um bem comum a ser promovido, defendido ou distribuído: “a piedade se estende à pátria, enquanto princípio da nossa existência; ao passo que a justiça legal visa ao bem da pátria, enquanto bem comum. Logo, a justiça legal tem, mais que a piedade, a natureza de virtude geral”[21]. Logo, "assim como o fim da religião é prestar culto a Deus, assim, em segundo grau, o objeto da piedade é reverenciar os pais e a pátria”[22].

O dever de piedade decorre dos primeiros princípios da lei natural, e está contido no Quarto Mandamento do Decálogo. O Mandamento ordena “honrar o pai e a mãe”, mas ele certamente concerne a toda a família, os ancestrais, a pátria inteira, conforme ensina Santo Tomás: "Os nossos deveres para com os pais têm prevalência sobre o que devemos à pátria e aos que nos são próximos pelo sangue; pois é por termos recebido de nossos pais a vida, que também temos consangüíneos e pátria. Portanto, como os preceitos do decálogo são os primeiros preceitos da lei, eles nos obrigam antes para com os pais do que para com a pátria e os demais consangüíneos. Nem por isso, porém, devemos deixar de entender que o preceito de honrar os pais também nos manda cumprir os nossos deveres para com qualquer outra pessoa, assim como o secundário está incluído no principal”[23].

Que a “piedade” tenha recebido na linguagem corrente um sentido religioso provém, muito provavelmente, da confusão entre a “virtude da piedade” e o “Dom de Piedade”. Este último é um dom do Espírito Santo, ou seja, uma das “disposições habituais da alma, que fazem com que ela se deixe facilmente mover por Ele”, e nos inspira, em particular, “um afeto filial para com Deus, conforme às palavras do Apóstolo (Rom 8, 15): Recebestes o espírito de adoção de filhos, segundo o qual chamamos, dizendo: Abba! Pai![24]. A analogia explica por que a virtude e o dom receberam o mesmo nome: assim como a virtude de piedade nos faz render aos nossos pais a honra que lhes devemos, do mesmo modo, o Dom de Piedade nos incita a prestarmos culto e reverência a Deus como a um Pai[25]; assim, “A piedade pela qual prestamos reverência aos pais carnais é uma virtude; mas a piedade, como dom, presta culto a Deus, como Pai”[26]. Por outro lado, o Dom de Piedade é distinto da virtude de religião, pois esta presta culto a Deus como Criador e Senhor, enquanto aquele o cultua como Pai[27]. Ademais, o Dom de Piedade não se encerra em Deus, mas estende-se a todos os homens inquantum pertinent ad Deum, isto é, "a todos os homens, enquanto filhos de Deus”. Pelo Dom de Piedade somos introduzidos na família de Deus.

Comenta João de Santo Tomás:

“O Dom de Piedade exige essencialmente estender-se aos homens enquanto filhos de Deus (…) é impossível que uma virtude ou um dom incline ao culto filial para com Deus e não incline, por via de conseqüência, à piedade no tocante a tudo o que é do Pai e concerne a seus filhos enquanto tais. E assim como todas as criaturas espirituais, salvo os condenados, são filhos de Deus, ou podem vir a se tornar, a todos se estende o Dom de Piedade.”[28]

 

5. — Um conhecimento não obscurecido da lei natural e uma observância habitual dela se formam e crescem em nós normalmente pela educação recebida no seio da família e da pátria ou nação[29]. A essa dívida, que não podemos quitar, corresponde, ou deveria corresponder, nossa piedade: assim, a civilização passa pela pátria, pela família e pela virtude de piedade.

(Parêntesis sobre o amor à pátria. O que aflige atualmente é não o vermos colocado em seu devido lugar na vida moral, é não ser chamado pelo seu nome, é ser incerta sua natureza exata. Devemos falar em “patriotismo”, “nacionalismo”, “civismo”? Trata-se de um sentimento, uma atitude política, um dever? Todo mundo admite o termo “civismo”, mas ele não designa exatamente o amor à pátria. “Nacionalismo" designou, sobretudo em França, desde Barrès, e Maurras, várias doutrinas políticas que, em todo caso, e seja qual for o julgamento que delas fizermos, situam-se aquém ou além da piedade nacional. “Patriotismo" é um termo geralmente admitido, mas o vemos em todas as cores: desde os “patriotas" jacobinos até os “patriotas" comunistas. Os deveres para com a pátria têm necessidade de ser ordenados numa ética explícita, de encontrar o seu lugar numa filosofia moral abrangente. O amor à pátria pode inspirar, de modo legítimo ou aberrante, sentimentos, paixões, doutrinas e sistemas em todos os níveis. Seria útil compreender e ensinar que se trata, antes de mais nada, de uma virtude[30], e que esta virtude é primeiramente uma piedade, a piedade nacional; e que se trata em seguida de outra virtude, que é uma justiça, a justiça social ou geral, a qual ordena ao bem comum os atos das outras virtudes. As virtudes, definidas e praticadas em seu lugar, numa ética de virtudes gerais e conexas, resistem mais fortemente aos contágios ideológicos, aos desvios práticos e ao desuso.)

Mas as definições clássicas da piedade filial e nacional correm o risco de não deixar ver o seu alcance num primeiro olhar mais apressado: “Honrar pai e mãe” soa protocolar, mesmo se tratando de um protocolo sagrado. “Honrar”, “render homenagens”, manifestar “uma certa expressão de amor”, isto é certamente devido, certamente bom, mas parece desprovido de impacto sobre a marcha do mundo. A piedade não parece inicialmente essencial à civilização: ela se apresenta como um fruto ou mesmo como um epifenômeno da civilização, não como uma condição da sua sobrevivência. Não reconhecer o que recebemos, ou não conceber nenhuma gratidão por isso, seguramente não é nobre, mas não impede o dom de ter sido realizado. O homem civilizado pode eventualmente não ser piedoso; será um erro não sê-lo, mas não será por isso menos civilizado.

É este o ponto.

O homem ímpio pode até ser um homem civilizado, mas é um homem que interrompe a civilização. Indiferente ou negligente acerca do que recebeu, ingrato no que concerne àqueles que o beneficiaram, será especialmente impróprio para transmiti-lo por sua vez. Influente por suas ações mais do que por seu discurso, difundirá ao redor de si a mesma indiferença, a mesma negligência, a mesma ingratidão. Ele respirará e inspirará um clima, um espírito de menoscabo, de ignorância do patrimônio moral da civilização.

Vamos mais longe. O homem ímpio tem toda probabilidade de não ser civilizado senão na aparência. Poderá conservar da civilização todo o exterior: a linguagem refinada, modos polidos diante dos demais, gestos e palavras benevolentes, um respeito literal pelas regras recebidas. Ele será um fariseu da civilização. Se, ao contrário, tivesse entrado no espírito da civilização, que é a formação para o conhecimento seguro e refinado da lei natural e uma prática habitual desta lei, teria normalmente, correlativamente, talvez sem saber o nome nem cultivar todas as suas delicadezas, o espírito de piedade. Exceções podem existir, por razões acidentais, boas ou más — mas não passam de exceções.

O homem civilizado é invariavelmente o homem piedoso. Inversamente, a impiedade é sinal certo e causa de uma interrupção na civilização. Para a transmissão dos valores civilizacionais é indispensável a atitude de coração e de espírito que desenvolve a virtude da piedade.

 

6. — Atitude de espírito e de coração pela qual se honra aquilo que se recebe, a virtude da piedade pode parecer um freio ao progresso da civilização, ao “progresso autêntico que é a vocação da sociedade civil”[31]. Atitude mais conservadora do que inovadora, que nos leva a recolher e a transmitir, que é tradicional e tradicionalista — é, apesar de ter seu valor, limitada, acostumada à rotina e inimiga da inovação. Se Aristóteles tivesse apenas uma atitude de piedade por seu mestre Platão, jamais teria realizado aquilo que o axioma resume: Amicus Plato, sed magis amica veritas. Os pensadores do tradicionalismo têm de convir aqui com Maurras: “Em toda tradição, como em toda herança, o ser racional tem de procurar suprimir o passivo. A verdadeira tradição é crítica, e sem estas distinções, o passado não serve mais para nada, seus êxitos deixam de ser exemplos e suas falhas deixam de servir de lição”[32]. Não é tudo: iniciativa, invenção e inovação são necessidades quotidianas da vida individual e coletiva, das quais a civilização se beneficia; podemos mesmo dizer que jamais teria havido espécie alguma de civilização sem elas. Essa é a objeção que nos fazem.

A linguagem, que tanto maltratou a piedade, vem em nosso socorro. Se dissermos que o professor corrigiu  o aluno piamente, isso não significa de modo algum que teria corrigido pouco. A piedade concorda com o amicus Plato, sed magis amica veritatis, e é fecunda: Aristóteles não teria sido quem foi se tivesse menosprezado a herança intelectual de Sócrates e Platão, ou se tivesse oposto a todo o pensamento que lhe precedeu uma negação universal e radical, como a negação cartesiana ou a negação kantiana. E aqui podemos sonhar com o que o gênio de Descartes teria produzido sem essa negação; ou com o que representaria contra Rousseau e os Enciclopedistas o talento de Voltaire, se fosse homem piedoso…

Particularmente desde o ponto de vista mais amplo e fundamental, que é também o primeiro em matéria de civilização, ou seja, no que se refere ao conhecimento e ao respeito da lei natural, a piedade não é má conselheira. Não é desejável, nem sensato, nem justo, reconstruir a lei moral a cada manhã ou a cada geração. O conhecimento que temos dela é certamente tributário das vicissitudes históricas. Mas existe um conhecimento adquirido e seguro no que se refere à natureza, ao fundamento e ao conteúdo da lei natural. Ele aponta o lugar onde podemos construir, o ponto a partir do qual poderemos progredir. Recolocar tudo em questão pode ser útil de modo acidental, mas não é essencialmente a via ou a condição do progresso; e se os questionamentos se renovam ou mesmo se multiplicam sistematicamente a cada geração, conforme a experiência feita pelo mundo moderno a partir de Descartes, chegamos ao caos no pensamento e nos costumes, chegamos ao nada.

O progresso está em outra parte. Uma vez firmemente sustentada a lei natural, suas implicações, conseqüências e aplicações descobrem-se pouco a pouco à humanidade. Se implicações novas são descobertas isoladamente, sem referência ao lugar que devem tomar no conjunto do patrimônio sólido da humanidade, tornam-se loucas, engendrando um turbilhão de ideologias e revoluções.

Porém, que a humanidade não tenha descoberto imediatamente todo o conteúdo da lei natural, e que seja sua vocação aprofundar e refinar o conhecimento e a prática que dela possui, isso sim é o progresso fundamental. Maritain percebeu isto:

“Abraão era um grande santo, um santo de estatura incomparável. Mas não sabia que certas ações que condenamos hoje estavam proibidas pela lei natural (…). O conhecimento preciso das leis morais naturais — exceção feita ao primeiro princípio, de si evidente, 'é preciso fazer o bem e evitar o mal' — é adquirido lentamente, com maior ou menor dificuldade (…).

"Nosso conhecimento das leis morais é progressivo por natureza. O senso de dever e de obrigação sempre esteve presente, mas o conhecimento explícito das diversas normas da lei natural cresce com o tempo. E algumas dessas normas, como a lei da monogamia, foram conhecidas mais tardiamente na história da humanidade, pelo que nossa investigação pôde alcançar. Podemos igualmente crer que o conhecimento dos preceitos particulares da lei natural, em todas as suas exigências e em todas as suas nuances, continuará a crescer até o fim da história humana.

“Penso que este progresso da consciência moral quanto ao conhecimento explícito da lei natural oferece um dos critérios menos duvidosos de progresso na humanidade. Bem entendido, não tenho absolutamente em vista um progresso no comportamento humano (ou um progresso na pureza e na santidade da consciência, pois Abraão, repitamo-lo, era um grandíssimo santo, com um coração absolutamente puro). O que tenho em vista é um progresso da consciência moral no tocante ao conhecimento dos preceitos particulares da lei natural. Esse progresso no conhecimento pode se dar ao mesmo tempo em que ocorre uma deterioração na conduta efetiva de muitos, mas isto é outra questão.

“Tomemos, por exemplo, a noção de escravidão. Temos hoje consciência do fato de que a escravidão é contrária à dignidade humana[33]. E, no entanto, vimos nos nossos dias o surgimento de Estados totalitários que reduzem sistematicamente o homem à escravidão. De resto, eles não querem reconhecer a coisa, precisamente porque é muito comumente reconhecido hoje que a escravidão é contrária à dignidade do homem; e é por isso que a propaganda lhes é tão necessária.”[34]

Certamente, o conhecimento da lei moral e o comportamento moral não são o mesmo. “Não basta possuir uma boa filosofia moral para ser um homem de bem”; e, inversamente, seria errôneo dizer: “Se você é um homem de bem, conhece a filosofia moral e essa filosofia é boa”[35]. É, em revanche, muito menos certo que uma “deterioração da conduta” não exerça, tanto no nível individual como no coletivo, alguma influência sobre o conhecimento mesmo da lei moral: ela certamente degrada o conhecimento moral por conaturalidade (que tem um lugar capital na vida quotidiana de cada um de nós, e mesmo na reflexão do filósofo), e é suscetível de manchar o conhecimento moral discursivo. Por outro lado, houve na história recuos no conhecimento moral — como é o caso atualmente — bem como progressos. De resto, podemos dizer que esse progresso, como os outros, e este talvez mais que os outros, é próprio da vocação das sociedades humanas. Feitas estas ressalvas, que Maritan provavelmente não contradiria, podemos continuar a seguir seu pensamento:

“Durante séculos e séculos, e mesmo em tempos cristãos, considerava-se inteiramente normal matar prisioneiros de guerra. Não se distinguia o combatente inimigo do prisioneiro. Quando se poupava a vida de um prisioneiro de guerra, tratava-se de um favor que se retribuía pela escravidão. Mas, hoje em dia, temos uma compreensão completamente diferente de nossas obrigações no que se refere aos prisioneiros de guerra. Outro exemplo se refere ao trabalho infantil. No início da idade industrial, o trabalho infantil era considerado inteiramente legítimo. Temos atualmente outras idéias nesta matéria, e são elas certamente mais conformes à lei natural. Outro exemplo ainda: este lida com a noção mesma do trabalho humano. A idéia de que o trabalho das massas é impossível sem o chicote da miséria — idéia largamente difundida no século XIX — parecia então em conformidade com a lei natural (…) Enfim, posso dizer que ainda estamos na obscuridade a respeito do papel que devem normalmente desempenhar, nas coisas temporais e políticas, as leis que se referem diretamente à vida espiritual, como a lei do perdão mútuo?”[36]

Esse progresso é tanto mais incerto quando é realizado fora da perspectiva da piedade. Um progresso isolado do conhecimento moral pode ser um fator de desordem e de imoralidade pelo tempo em que não estiver integrado no seu devido lugar no conjunto da vida moral. Os surtos violentos em prol da liberdade ou da dignidade do trabalho manual produziram ideologias devastadoras e perturbações sangrentas. O espírito de descoberta e de inovação, o espírito de progresso, o gênio mesmo, separados da virtude da piedade, julgam necessário derrubar todo o patrimônio da humanidade para impor nos espíritos e nos costumes mudanças que de si mesmas são benéficas: mas então, não se trata mais de um aporte, nem de um progresso, mas de uma revolução, uma inversão dos valores, um obscurecimento correlativo das consciências, um desencadeamento das paixões. É pouco evitável, com efeito, que isso não se produza periodicamente, ainda que por escleroses, incompreensões ou farisaísmo. Mas não é a via normal, nem a melhor. O esforço dos homens, quando consciente, quando equilibrado, não tende à revolução, que é a tentação ímpia e satânica, mas à reforma, à renovação e ao aperfeiçoamento.

 

7. — Desse modo, a piedade é útil: “a piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura”[37]. A piedade que tem a promessa também da vida presente, “a fim de viver longamente”, é bem aquela do Quarto Mandamento. Santo Tomás interpreta assim:

"A longevidade é prometida aos que honram os pais, não só na vida futura, mas também nesta, segundo aquilo do Apóstolo: 'A piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura'. E é razoável. Pois, quem demonstra gratidão por um benefício merece, por conseqüência, que se lhe conserve o benefício; e quem foi ingrato merece perdê-lo. Ora, o benefício da vida corporal, é dos pais que o temos, depois de Deus. Por isso, quem honra os pais, como agradecido a um benefício, merece a conservação da vida; e o que não os honra merece, como ingrato, ser dela privado.”[38]

É uma conveniência justa e racional: isso se dá rationabiliter. Mas o contrário também se dá, e é o mistério da história, a misteriosa (oculta) sabedoria dos julgamentos divinos. Santo Tomás acrescenta:

"Ora, os bens ou os males da vida presente não são meritórios ou demeritórios senão enquanto ordenados à remuneração futura, como dissemos. Por isso, às vezes, por uma razão oculta dos juízos divinos, que visam sobretudo à remuneração futura, alguns, embora tivessem sido pios para com os pais, são privados cedo da vida; ao passo que outros, que não o foram, vivem mais longamente.”[39]

Ocorre o mesmo na vida das civilizações. Dissemos que a ausência de piedade é sinal e causa de uma interrupção na civilização. Contudo, não possuímos o conhecimento pelas causas do fenômeno da decadência, que permanece misterioso. Por um lado, a relação entre a piedade e sua utilidade é uma relação que se dá rationabiliter, mas não automaticamente. Por outro, qual é a causa da impiedade? Pode ser o farisaísmo que se introduz na civilização. O farisaísmo é causa de impiedade, e a impiedade é causa do farisaísmo. As causas estão aqui ordinariamente numa relação recíproca de interdependência e intercausalidade. O mistério da história é finalmente aquele dos julgamentos de Deus, cuja sabedoria nos permanece escondida (occulta).

 

8. — Até aqui falamos de civilização, mas não de civilização católica. A lei natural, e a virtude de piedade que é parte dela, foram conhecidas e praticadas antes da vinda de Cristo. Elas podem ser conhecidas e praticadas fora do catolicismo, mas sob duas reservas.

Primeiro, a situação da humanidade não é a mesma antes da vinda de Cristo e depois. Segundo uma fórmula de Henri Charlier, “desde a Ressurreição o pensamento divino, a cada instante, nos confronta com o Filho morto por nós e que nos abriu as portas da Vida”. A situação não é a mesma para os que não conheceram Cristo e para os que, tendo-O conhecido, recusaram-No. A civilização grega não pôde conhecer o Cristo. A civilização dos chineses ou dos indianos, também elas anteriores à Incarnação, prolongaram-se ignorando a vinda de Cristo porque não lhes deram de conhecer. A civilização judaica, na qual veio Cristo, O recusou. O Islamismo a um tempo surgiu depois de Cristo e O recusou. O comunismo, sob este aspecto, é um segundo islamismo. Cada um desses casos é distinto, e deixa subsistir diversamente possibilidades bastante distintas de conhecer e de respeitar a lei natural.

Segundo, o homem abandonado a suas próprias forças não pode conhecer a lei natural de modo fácil, seguro, isento do risco de erro. Não pode tampouco respeitá-la normalmente e habitualmente sem a graça (mas o Espírito sopra onde quer, e é por isso que podem existir, e existiram, casos individuais de muçulmanos que respeitaram admiravelmente a lei natural).

 

9. — Depois de Cristo, a civilização é normalmente a civilização católica. Mas uma civilização pode ser dita católica sob diferentes aspectos (ao menos, quanto à diversidade dos critérios imediatos de apreciação). Uma civilização que, seja qual for o estado da sua cultura, das suas instituições e dos seus costumes, deixa à Igreja de Cristo a liberdade de transmitir as palavras e os sacramentos da salvação, pode ser dita católica.

Há uma eventualidade que é teórica, ou provisória, pela dupla razão da fecundidade da Igreja e da malícia humana: uma sociedade que fosse materialista e atéia por um lado, e que de outro deixasse a Igreja, por indiferença, ceticismo ou tática, a liberdade de realizar plenamente sua missão, não poderia permanecer por muito tempo num equilíbrio tão instável; rapidamente seria conduzida, seja à conversão, seja à perseguição. E é sem dúvida essa a razão de a Igreja não temer definir por vezes a civilização católica de modo meramente negativo:

“A vida de um povo, de uma nação, transcorre num domínio bastante variado que ultrapassa o da atividade propriamente religiosa. Desde que, em toda a extensão deste vasto domínio, uma sociedade respeitosa dos direitos de Deus interdiz a si mesma de transgredir os limites demarcados pela doutrina e moral da Igreja, ela pode legitimamente se dizer cristã e católica.”[40]

Definição gramaticamente negativa, mas cujo conteúdo real e cujas implicações necessárias estendem-se à toda vida individual e social.

Observemos que uma sociedade materialista e atéia não é uma sociedade civilizada. É por um abuso de linguagem que se fala hoje em civilização materialista, civilização atéia, civilização comunista. Jamais houve na história uma civilização materialista e não poderia haver; é uma não-civilização, é a barbárie mais completa: “uma barbárie certamente mais pavorosa do que aquela em que a maioria das nações se encontrava antes da vinda do divino Redentor”[41]. Outrora, eram chamados de bárbaros, sem que houvesse um nome para a civilização. Atualmente, só temos o nome de civilização, e atribuímo-lo a qualquer sociedade, de modo que o conceito e o termo de barbárie aparentemente perderam-se. Com efeito, o nome “bárbaro” sobreviveu na linguagem com o sentido de “cruel”. E civilização designa assim o conjunto de características particulares de uma sociedade, independente de todo critério referente à civilização e à barbárie. Fala-se em civilização técnica, civilização marxista, civilização moderna.

Ora, o desconhecimento da lei natural e, por mais forte razão, a sua negação radical, são o contrário da civilização. Não há civilização marxista. Não há civilização materialista. Mas ninguém tem a coragem intelectual — ainda que a sós com seus pensamentos — de chamá-la de barbárie: barbárie materialista, barbárie marxista. Tampouco há quem perceba que um cristão, ou seja, um homem que crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus, pode ser em maior ou menor medida um bárbaro se recusa ou desconhece a constância, a universalidade, a obrigação da lei natural. Quanto à “civilização moderna”, ela coloca uma questão muito mais complexa, pois é uma mistura: mistura de um espírito moderno essencialmente bárbaro naquilo que tem de próprio; de uns resquícios e de diversos ressurgimentos do espírito católicos; e de algumas outras coisas.

Assim como a civilização é a história da lei natural entre os homens, a civilização católica é essa mesma história ajudada, elevada e transfigurada pela religião católica. Assim como aprendemos normalmente a conhecer e a observar a lei natural graças a uma educação recebida no seio de uma família e de uma pátria, assim aprendemos normalmente a conhecer e praticar a religião católica. De nossos pais e da pátria nos vêm a vida física, a vida moral e a vida religiosa.

Não escolhemos a fé católica: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi a vós[42]. A fé é um dom livre que recebemos livremente; mas nossa liberdade é exercida, mesmo aqui, segundo a condição humana, e não segundo a condição angélica; ou seja, ela é exercida no interior e por intermédio de um estatuto histórico e social; pelos pais, que têm a liberdade, o direito e a responsabilidade de decidir o batismo. Existiram, existem e existirão muitos batismos de homens adultos: mas estes mesmos não adiam o batismo de seus filhos até a idade adulta. Isso faz com que a maioria dos católicos tenha se tornado tal pela vontade livre e responsável de seus pais. A fé pede uma adesão livre: mas normalmente trata-se, antes de mais nada, da livre adesão dos pais.

A fé é transmitida de qualquer maneira pela onipotência e misericórdia de Deus; mas a maneira que é conforme à nossa condição humana, e que é incomparavelmente mais freqüente, é, segundo a expressão de Pio XII, aquela em que “a religião é uma herança viva dos ancestrais”. De resto, todo dia nascem homens que hão de ser os ancestrais da vida espiritual. O batismo de um adulto é o início de uma família católica que transmitirá a fé pelos séculos.

A virtude da piedade, que concerne a “nossos pais e nossa pátria, pelos quais e no seio da qual recebemos a vida e a educação”, também lhes concerne no tocante à vida espiritual e à educação religiosa. Aqui também encontramos a piedade e a impiedade, a história, o progresso, o aperfeiçoamento ou a revolução numa relação equivalente ou análoga ao que encontramos no que se refere à lei natural. Com a ressalva de que a Revelação encerrou-se e o Magistério da Igreja é o seu guardião e intérprete infalível, a virtude da piedade tem aqui as mesmas exigências e, segundo a palavra de São Paulo, a mesma “utilidade”.

 

10. — A lei natural e a religião de Cristo são universais. A sua transmissão, o seu conhecimento, o seu cumprimento até aos extremos do universo, constituem a essência da civilização católica.

Não inventemos falsos problemas. A unicidade da civilização católica não uniformiza mais os indivíduos e as nações do que a unidade da Igreja uniformiza os indivíduos. Claro que, pela estupidez dos homens ou pela sua malícia, tudo é sempre possível: e assim como podemos imaginar, sob as cores de apostolado, uma imprensa de massa e organizações de massa transformando os indivíduos em robôs (mas isto iria na contra-mão da religião católica), podemos conceber, do mesmo modo, sob o pretexto de civilizar, um Imperialismo totalitário (mas isto iria na contra-mão da civilização católica). Em todo caso, seria tão absurdo recusar a unicidade da civilização católica em nome da vocação particular das nações, quanto seria recusar a unidade da Igreja em nome da vocação de cada alma em particular.

O helenista mais fervoroso não chegará a ponto de impor à sua mulher o uso do peplo e, se for francês, é provável que não faça uso da culinária grega salvo em caso de absoluta necessidade. Tampouco saudará as pessoas na rua dizendo Kyrié.

Respeito pelos costumes, pelas particularidades étnicas e pelos idiomas? Sem dúvida. Mas é impossível, por um lado, escrutar a universalidade da lei natural e da religião de Cristo e, de outro lado, as condições sociais e históricas normais da sua transmissão, sem perceber certas necessidades.

O latim, o grego e o hebraico seguirão até o final do mundo línguas privilegiadas, as “três línguas”. Mediterrâneas? Sim, mas são estudadas e ensinadas nas Américas. E é bom que seja assim: não poderia ser diferente. Como as elites intelectuais dos povos não mediterrâneos que vieram ao cristianismo poderão se dispensar de vir ao latim, ao grego e ao hebraico? Sem isso, estes povos estariam desamparados: incapazes de estudar diretamente o texto das Escrituras, da teologia e da filosofia, seriam eternamente tributários de traduções estabelecidas e eternamente refeitas pelos outros. A justa autonomia intelectual de um povo católico requer que suas elites estejam em medida de compulsar elas mesmas as fontes da filosofia, da teologia e da fé. É inevitável que, ao mesmo tempo, em maior ou menor medida, de uma maneira ou outra, esse patrimônio cultural e essas línguas exerçam sua influência no interior de culturas não mediterrâneas.

Não é possível que os povos que vieram ao Cristianismo e entraram na Igreja considerem São Gregório Magno e São Pio X como estrangeiros, como pontífices “greco-latinos” ou “ocidentais”, e Santo Tomás como uma particularidade específica da cultura mediterrânea. É impossível que a piedade que tenham por eles, e por todos os ancestrais na fé desde São Pedro e São Paulo, não seja um fator de influência cultural.

É bem provável que a influência não se dê num sentido único: os povos mediterrâneos herdeiros das velhas culturas podem encontrar matéria para aprender em toda parte deste vasto mundo. Mas é inconcebível que não haja influência; e que esta influência não seja principalmente no sentido de uma extensão a todo o orbe do patrimônio a que o latim, o grego e o hebreu dão acesso.

Interrompamos aqui nosso ensaio, que poderemos desenvolver, ou que outros desenvolverão, numa outra oportunidade. A universalidade da verdade natural e sobrenatural, a condição histórica do homem, a virtude da piedade têm implicações necessárias. Podemos sair delas. Mas então não será uma outra civilização, mas a barbárie.

 

[Tradução: Permanência. La civilisation dans la perspective de la pieté, Revue Itinéraires

 


[1] Charles de Koninck, “Deux tentatives de contourner par l’art les difficultés de l’action”, Laval théologique et philosophique, vol. XI, nº 2, 1955, p. 205.

[2] Ibid.

[3] Cnossos e Festo, grandes sítios arqueológicos na ilha de Creta, pertenciam à extinta civilização minóica. [N. do E.]

[4] Santo Tomás, S. T, Ia. IIae, q. 94, a. 2.

[5] Santo Agostinho, Confissões, II, 4.

[6] S. T., Ia. IIae, q. 94, a. 6.

[7] Ibid.

[8]Malas persuasiones” no original. A tradução “propagandas perversas” restringe um pouco o sentido, mas, em contrapartida, é muito apropriada para os dias de hoje.

[9] Ibid.

[10] S. T., IIa. IIae, q. 122, a. 1.

[11] S. T. Ia. q. 1, a. 1.

[12] S. T., IIae IIae, q. 101, a. 1.

[13] S. T., IIae IIae, q. 80.

[14] Aristóteles, Ética a Nicômaco, VIII, 14, 4.

[15] Charles Maurras, “Qu’est-ce que la civilisation?” publicado na Gazette de France, 9 de setembro de 1901 — texto recolhido no livro Mes idées politiques, Fayard, 1937, reedição de 1948, pp. 71-84.

[16] Ver, entre outros, o início da Constituição apostólica Veterum sapientia, 22 de fevereiro de 1962.

[17] S. T., IIa IIae, q. 80.

[18] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 3, ad 1.

[19] Ibid, ad 2.

[20] Ibid, corp.

[21] Ibid, ad 3.

[22] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 1.

[23] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5.

[24] S. T., IIa IIae, q. 121, a. 1.

[25] Ibid.

[26] Ibid., ad 1.

[27] Ibid, ad 2.

[28] João de Santo Tomás, Les dons du Saint-Esprit, Téqui, 1950.

[29] De direito e de fato, os termos “pátria" e “nação" são distintos. Não os distinguimos aqui, tomando-os no sentido lato, em que sua significação é comum, e não no sentido estrito, em que sua significação é distinta.

[30] Isto pressupõe, claro está, o que mais falta, na ordem natural, ao pensamento e ao mundo modernos: uma ética e uma vida moral que sejam uma doutrina e uma prática das virtudes.

[31] Enc. Div. Red., §7.

[32] Maurras, op. cit., p. 67.

[33] No original, “dignité de la personne humaine”. Optamos pela tradução acima por ser mais fiel, se não ao pensamento do autor, ao menos à doutrina católica de sempre. Reconhecemos a dignidade da natureza humana criada por Deus, mas negamos o desvario de uma dignidade inalienável da pessoa humana, idéia que decorre do personalismo do mesmo Maritain, já muitas vezes refutado por grandes autores. "Quanto à idéia de 'dignidade' da pessoa humana", escreveu Júlio Fleichman, "lembremos que uma pessoa concreta e real que singulariza uma natureza humana, será digna ou indigna conforme seu comportamento moral” (http://permanencia.org.br/drupal/node/674). [N. do T.]

[34] Maritain, Pour un philosophie de l’histoire, Éd. du Seuil 1959, pp. 115-116.

[35] Charles de Koninck, “Liberté des consciences et droit naturel”, Revista Itinéraires, número 66, p. 212 e p. 214.

[36] Maritain, op. cit., pp. 117-118.

[37] 1 Tim 4, 8.

[38] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5 ad 4.

[39] Ibid.

[40] Pio XII, Discurso pela canonização de Nicolau de Flüe, 16 de maio de 1947.

[41] Pio XI, Encíclica Divini Redemptoris, §2.

[42] Jo 15, 16.

Não se adaptar, eis a divisa das almas fortes.

Pe. Xavier Beauvais - FSSPX

 

 

Há em nossos tempos um demônio que nos interessa e que temos o máximo interesse em combater: o demônio mudo, o respeito humano. Como podemos defini-lo?

Dá-se o respeito humano quando um indivíduo, numa ação ou omissão, ao invés de expressar concretamente a sua personalidade e tudo o que ela comporta de idéias, crenças, afeições e sentimentos, leva em consideração a mentalidade dos que o rodeiam e adapta a sua atitude pessoal a ela, de modo a evitar o disse-me-disse, o deboche, os gracejos e críticas de todo tipo. Numa palavra, é culpado de respeito humano quem respeita os homens mais do que a Deus, quem respeita o sentimento geral mais do que a verdade, quem respeita a moda mais do que a moral. Não se pode tornar-se mais escravo, não se pode rebaixar-se mais, nem se tornar mais abjeto e, no fundo, lastimável, do que respeitando tais coisas mais do que a Deus, a verdade e a moral.

É preciso ser de seu tempo, dirão alguns. Não é essa uma maneira bastante hipócrita de se esconder um profundo respeito humano? Seria preciso citar sobre esse tema páginas inteiras de Abel Bonnard1:

“Os imbecis jactam-se de serem do seu próprio tempo: isto prova que são dele. A verdade é que escapamos à nossa época à medida que desenvolvemos a nossa pessoa. É isto que torna tão cômicos os que, briosos, nos anunciam que são do seu tempo, que o querem ser; isso significa que se atam a si mesmos no fio do telefone, que se fazem servos das máquinas que deveriam servi-los, que vivem segundo um ritmo que lhes é imposto. Orgulham-se de fazer o que se faz, de correr aonde se corre, de comprar o que se vende, de pensar o que se diz, de se vestir segundo a moda do tempo; não se poderia proclamar com maior glória a própria inexistência. Não se adaptar, eis aqui, segundo penso, a verdadeira divisa das almas fortes. Os seres fortes não se adaptam, eles se afirmam.”

Escreveu o Papa Pio XII:

“Nada fere mais a alma do que ver que, de ordinário, não é tanto a presença de elementos perversos o que torna doentio e pernicioso o lugar do trabalho profissional, e sim o respeito humano. Respeito humano dos jovens, alguns dos quais dão-se ares desenvoltos e zombam de tudo o que toca a religião e os bons costumes, enquanto outros seguem usos inconvenientes, sem ter a coragem de reagir, e assim os vemos estabelecer tristes usos de linguagem, de familiaridade, de licença, que fazem tremer. Se tudo isso é verdadeiro e lamentável na juventude, ainda mais deplorável em seus efeitos se torna o respeito humano em homens maduros, que poderiam tão facilmente se opor ao mal, corrigir um abuso com elegância, impedir uma imprudência indecente, mudar o rumo de uma conversa que da leviandade dirige-se para a obscenidade.  Mas eles não o ousam. E por que não? Porque o respeito humano é como o medo, como o pavor do escuro das criancinhas. E eis então o espetáculo tristemente paradoxal: todo um ajuntamento de homens, de mulheres, de moços, de moças, transforma em lugar de perdição o santuário do trabalho, enquanto que cada um deles, desgostoso no fundo do coração do que vê, do que escuta, da falta de dignidade e de caráter do ambiente, e sobretudo de si mesmo, de sua própria covardice e pusilanimidade, poderia, com uma palavra oportuna, com um olhar severo, um sorriso de reprovação, e mesmo com uma pilhéria, purificar a atmosfera viciada, seguro de lançar-se a empreitada com a aprovação dos pais e das mães, a confiança respeitosa e mesmo o reconhecimento filial daqueles moços e adolescentes.”Não seria difícil listar passagens dos Evangelhos em que se impõe aos fiéis a obrigação de agir, não em consideração do que possam os outros pensar ou dizer, mas sim à vista dos deveres impostos pela reta consciência.

Em suas palavras, Nosso Senhor condena não só a hipocrisia, mas igualmente essa atitude de respeito humano. Obriga mesmo, em certas circunstâncias, aqueles que o seguem a confessá-lo perante os homens, ainda que advenham inconvenientes: “Digo-vos mais: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus. O que me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12, 8-9).

São Paulo Apóstolo recordou esse dever em muitas passagens, e ele mesmo mostrou-se bastante escrupuloso em segui-lo, sobretudo porque sua vocação especial ao apostolado implica uma obrigação particular de anunciar o Evangelho sem temer as conseqüências: “Em verdade, eu não me envergonho do Evangelho” (Rom 1, 16). Ele quer que os fiéis em geral, mas sobretudo os que ele constituiu chefes da Igreja, sigam o seu exemplo: “Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas participa comigo dos trabalhos do Evangelho, segundo a virtude de Deus” (2Tim 1, 8).

O elogio que dirige aos corajosos comporta também uma nota de desdouro para aqueles que não o foram tanto. Essa exortação do Apóstolo, de que é preciso saber confessar sua fé quando surge a ocasião, ou ao menos não se envergonhar do Evangelho, foi sempre mantida pela Igreja. Em tempos de perseguição, ela jamais admitiu que seus filhos fraquejassem, jamais considerou que o temor das pressões externas servisse de escusa para a covardia. Em 1635, por exemplo, a Congregação para a Propagação da Fé, em Roma, lembrava aos missionários em países islâmicos que não era permitido batizar aqueles que, temendo incorrer em perigos, não se dispunham a professar sua fé exteriormente. Passado mais de um século, a mesma congregação protestava contra a atitude dos católicos que, em terras infiéis, assistiam aos ofícios, mas, por temor aos estrangeiros que assistiam por curiosidade as cerimônias, evitavam todos os sinais que pudessem trair suas convicções interiores.

Finalmente, o próprio Direito Canônico exprime de modo categórico a obrigação que incumbe a todos os católicos de professar exteriormente a sua Fé em dadas circunstâncias. Prescrições severas, julgará o católico moderno, impregnado de laicismo, desta verdadeira traição a Jesus Cristo que é o vírus da laicidade. Contudo, estes princípios da Igreja são muito razoáveis. Ora, aquele que, por temor do sentimento das testemunhas, não professa sua Fé, diminui-se moralmente, pois renega a si mesmo no seu coração, no seu espírito e na sua vontade. Rebaixa-se intelectualmente, pois contraria a Fé, a doutrina da Fé que aprendeu a conhecer e à qual aderiu. Desdenha seus mais profundos sentimentos, aquilo que ama. Finalmente, usa mal da sua liberdade, pois ao invés de escolher o que serve para o seu bem moral, dispersa seus esforços no sentido oposto.

Fala-se muito hoje em dia em distensão da personalidade, em relaxar: é aqui o lugar do respeito humano, a um tempo negação prática e ato pecaminoso. Ao invés de manter-se fiel aos seus deveres religiosos, o sujeito desvia-se do bem soberano e considera apenas o seu interesse humano e sua tranqüilidade pessoal. De resto, quem cede freqüentemente ao respeito humano expõe-se ao risco de perder a Fé. A prática exterior da religião é uma proteção ao assentimento interior. Ceder por respeito humano a todas as modas intelectuais e morais significa muitas vezes dinamitar as proteções interiores, engendrando a diminuição da Fé até sua completa ruína.

O medo de mostrar-se cristão exteriormente conduz, a longo prazo, a uma atonia da vida religiosa, com sua conseqüência quase fatal: a dúvida, de início admitida timidamente, em seguida instalando-se definitivamente e minando o assentimento dado ao conjunto das verdades ensinadas pela Igreja. Essa covardia é culpável principalmente por servir de ocasião de escândalo e pedra de tropeço para almas fracas, testemunhas do ato positivo ou negativo ditado pelo respeito humano. O respeito humano é igualmente uma falta para com a Igreja, cuja unidade exterior pode ser comprometida por aquele que não ousa afirmar concretamente as suas convicções. Sua influência exterior, de todo modo, se vê seriamente impedida por isso. Ao invés do contágio benfazejo do exemplo, vê-se produzir o fenômeno inverso; a moleza de alguns avança pouco a pouco e acaba por tomar conta da massa. O pequeno rebanho começa a definhar.

Finalmente, o respeito humano é um ato de irreverência diante de Deus, uma vez que a opinião humana é anteposta ao julgamento divino do Mestre de todas as coisas. A honra devida a Deus certamente exige que a profissão da Fé católica seja, em dados momentos, não apenas privada, mas também pública, sejam quais forem os perigos que possam ameaçar aqueles que permanecem exteriormente fiéis às suas convicções. Aqui, as hesitações, as ambigüidades não são toleráveis, sobretudo quando se trata de se afirmar perante o poder estabelecido.

Essa disposição malsã do respeito humano é freqüentemente ocasião de lamentáveis omissões, mas também leva a atos pecaminosos. É assim que, por respeito humano, muitos se deixam associar mais ou menos timidamente a conversações anti-religiosas que degeneram em zombarias, quando não em blasfêmias. É certo que, sob nenhum pretexto, é permitido praticar atos positivos contrários à lei divina: quaisquer que sejam as circunstâncias atenuantes que ela concede aos cristãos que, por temor, se tenham tornado culpáveis de atos exteriores de idolatria, a Igreja sempre os considerou como lapsi, e sua disciplina foi bastante severa no que lhes concerne.

Precisemos, contudo, que certas circunstâncias podem autorizar um católico a omitir certas práticas prescritas na lei eclesiástica. Se não somos nunca autorizados a negar nossas convicções por atos positivos, não estamos obrigados a exibi-las em certas circunstâncias. Pode mesmo ocorrer casos em que a jactância, a fanfarronice, o desejo de exibir-se sejam mais nefastos à causa que servimos. Mas não é isso o mais freqüente.

Como tão bem escreveu o Pe. de Chivré2:

“A nova liturgia gasta seu tempo envergonhando-se da divindade de Cristo, envergonhando-se da sua diferença dos homens: atenua a sua transcendência em textos que já não ousam conservar-lhe o lugar. Envergonha-se de Cristo, sugerindo a todo o tempo e em toda a parte uma hesitação em reconhecer que Ele é o Juiz Soberano, ainda que não ouse negá-lo. Envergonha-se dele escamoteando a razão principal da sua morte: um sacrifício de expiação.

“É, pois, chegada a hora de uma coragem espiritual obrigatória, até às aparências de desobediência que não são outra coisa que uma magnífica obediência a Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Tenhamos um único medo no mundo, o de sermos mudos até a apostasia.”

 

(L’Acampado, 113. Tradução: Permanência)

  1. 1. Abel Bonnard (1883-1968) foi um poeta, romancista e político francês, membro da Academia Francesa. [N. do T.]
  2. 2. O celebrado Padre de Chivré (1902-1984), dominicano, foi um discípulo e aliado de primeira hora de Dom Marcel Lefebvre.  [N. do E.]
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