Teologia (96)
Dom Lourenço Fleichman OSB
Uma oposição sistemática entre o mundo e a Igreja, entre a sociedade civil apóstata e a família católica: realidade mais do que conhecida, denunciada e lamentada. Todos nós sabemos disso e procuramos nos orientar de modo a não perder a fé, a não nos entregarmos aos prazeres e aos critérios desse mundo mau. Temos, sim, os Evangelhos e São Paulo que já nos alertavam e nos alertam ainda hoje, pela Revelação das Sagradas Escrituras. Temos a Igreja, com sua palavra forte, sua Tradição, seu depósito da fé, transmitindo, de papa a papa, de concílio a concílio, os conselhos e mandamentos que devemos seguir para não cair no abismo. E os padres lembram, em sermões e artigos, que devemos viver no mundo sem ser do mundo, que devemos estudar, nos armar contra a enganação do mundo, defender as crianças contra as escolas deformadoras, a televisão invasora e destruidora da moral católica.
Tudo isso nós sabemos e por isso devemos estar atentos e fortalecidos pela graça.
Mas não adiantou muito!
Não adiantou muito sabermos disso tudo, não adiantou muito os pais católicos saberem e desejarem um mundo católico para seus filhos. O testemunho dos pais é eloquente. Mesmo as famílias que não têm televisão sofrem do mesmo mal. Mesmo as crianças que estudam nos colégios de padres da Tradição, passam pela mesma crise.
Onde vamos encontrar os instrumentos para recompor a Cristandade? É possível recompor a Cristandade? Onde vamos encontrar forças para manter nossas famílias num mundo católico se “devemos combater as forças adversas espalhadas pelos ares”?
Pelos ares? Que forças são essas de que nos fala o Apóstolo, forças do mal, que nos ameaçam pelos ares? Vamos reler esta passagem do cap. VI da Ep. aos Efésios:
“Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue e sim contra os príncipes e poderosos, contra os governadores deste mundo de trevas, contra as ondas iníquas espalhadas pelos ares”.
Os comentadores atribuem estes ataques aos demônios e traduzem principes e potestates como sendo parte da hierarquia dos anjos maus, por “principados e potestades”. São Tomás de Aquino explica que se deve entender assim estes termos porque o diabo é o mandante, a causa principal, tendo o poder de atacar os homens com forças tão estranhas que são chamadas pelo Apóstolo de “spiritualia”, ou seja, forças imateriais, ondas, que causam dano maior do que as tentações da carne, ondas contra as quais só conseguiremos resistir com a armadura de Deus.
Mas hoje, vivendo neste mundo de alta tecnologia, podemos perfeitamente entender o que sejam estas ondas imateriais que atravessam os céus (in caelestibus) e que são comandadas pelos poderosos deste mundo de trevas que é o nosso. Parece-me portanto lícito e importante traduzir os termos “principes et potestates” com seu significado próprio que é de “príncipes e poderosos, e incluir nesses “príncipes e poderosos” os que controlam esse mundo da Informação, das ondas que atravessam os céus. Para São Tomás, os únicos nomes de anjos que poderiam servir tanto para os anjos bons como para os demônios seriam os Principados e Potestades, por esta razão nomeados aqui. Mas a explicação do Doutor Angélico confirma a participação dos homens maus nesta passagem de São Paulo:
“Eles são, portanto, poderosos e grandes e por isso possuem um grande exército contra o qual deveremos lutar, contra os governantes deste mundo de trevas, a saber, dos pecadores.” (São Tomás de Aquino, Comentário sobre Efésios, Cap.VI, leit.3)
Isso tudo leva São Paulo a indicar o uso de uma armadura como único remédio contra o ataque final do demônio, que não seria pelos pecados da carne, pelos pecados próprios ao corpo humano. E devemos ligar esta grave advertência à grandeza do que o Apóstolo dizia no cap. 5,8:
“Outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz, porque o fruto da luz consiste em toda a espécie de bondade, de justiça e de verdade, examinando o que é agradável a Deus; e não tomeis parte (nolite communicare) nas obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as. Porque as coisas que eles fazem em secreto, vergonha é até o dizê-las. Mas todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, porque tudo o que é manifestado é luz. Por isso a Escritura diz: Desperta, tu que dormes e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.”
E São Paulo completa esta maravilhosa passagem dizendo que devemos “recobrar o tempo porque os dias são maus”.
Eis, assim, que o Apóstolo grita para despertar a homens que, segundo ele, tinham sido iluminados pelo batismo. Estavam dormindo, então?
Não me parece que os homens passaram estes dois mil anos dormindo. O mundo conheceu mil anos de atividades enriquecedoras tanto no ponto de vista natural quanto do ponto de vista sobrenatural, do estudo da doutrina, da teologia e da filosofia, e da compreensão dos mistérios da união mística com Deus. Isso tudo animou e desenvolveu os homens da Idade Média nos mil anos em que o demônio ficou amarrado no inferno, como nos revela o Apocalipse (cap. 20, 1-3).
Nós é que dormimos. A nós se dirige o Apóstolo quando grita para nos despertar. E de onde vem o nosso sono? A resposta a esta pergunta é o ambiente profetizado por São Paulo nesta passagem que citei, e que impregna tudo, vai roendo e dilacerando as nossas forças sem percebermos, como procuro descrever abaixo.
Inteligência, vontade e imaginação
É conhecido o fenômeno que ocorre com nossa consciência quando lemos um romance. Acontece de nos transportarmos em espírito ao ambiente, ao mundo que vivemos pela leitura. Com o uso da imaginação, esquecemos temporariamente da realidade que nos cerca a ponto de, muitas vezes, termos os próprios sentidos externos diminuídos. Já não ouvimos os sons do ambiente e não vemos os objetos que nos cercam.
Com a leitura do livro, somos obrigados a interromper esse mundo virtual criado pelo romance, por conta das nossas obrigações e necessidades. Voltamos à realidade e, num próximo momento de lazer mergulhamos novamente no país das maravilhas. No caso do cinema, a concentração do mundo virtual é muito maior, apesar de o tempo ser reduzido. A sala escura, a ausência de som exterior, o tamanho da tela e sobretudo a imagem viva, em movimento, provocam um mergulho profundo dos nossos sentidos no mundo virtual. Mas ele termina logo e permite um retorno à realidade e às obrigações do dia à dia.
Este ritmo de leitura dos bons livros permite à nossa alma assimilar o bem que ali se encontra, seja ele a beleza artística do estilo ou o exemplo moral das virtudes dos personagens, ou a descrição viva dos lugares desconhecidos. No caso do cinema o proveito é nitidamente menor, na medida em que a arte da escrita cede lugar à arte da imagem fotográfica, muito mais material do que aquela, exigindo menos elevação e domínio da razão. O ritmo do mundo virtual, porém, é mais forte e não é raro um filme marcar profundamente, por suas imagens fortes, nosso comportamento, por vezes durante alguns dias, até que voltamos ao normal.
Apesar de não estarmos aqui analisando o valor moral dos romances ou dos filmes, não podemos deixar de assinalar que é obrigação do artista apresentar aos seus leitores ou espectadores luzes para a razão e elevação moral. Uma obra de arte que, se dirigindo à nossa inteligência, como é o caso dessas duas artes, nos levasse ao pecado ou à quebra dos costumes naturais e cristãos, não deveria ser apresentada ao público. Gustavo Corção explica como deve agir o artista: “A literatura moderna tem produzido muita obra demonstrativa das chagas e da baixeza humana, coisa que não oferece maior dificuldade; mas são poucos que sabem fazer nos seus romances, nas suas cenas, aparecer um homem como Marmeladof, de Crime e Castigo, que na pior abjeção deixa entrever ainda um último fulgor de grande dignidade, de quem foi feito à imagem e semelhança de Deus” (artigo Dostoievski, Diário de Notícias de 27/9/61).
Escravos da Imaginação
O que aconteceria com uma pessoa que tomasse um livro para ler, entrasse no mundo virtual do romance e nunca mais saísse dele? Quais as consequências de ordem moral, psiquica e espiritual que adviriam a um homem prisioneiro do mundo da imaginação? E sobretudo, seria possível isso acontecer, mesmo na continuidade dos afazeres domésticos?
Em 1968 o mundo foi sacudido por manifestações políticas estudantis. O centro dessa febre foi Paris. Lá, no meio de uma enxurrada de faixas e slogans revolucionários e contra a natureza, lia-se o seguinte: “A imaginação no poder”.
Trinta anos depois, não podemos deixar de considerar que esta frase, como as demais também, não estava ali por acaso; não se tratava de uma tirada esperta de algum estudante mais vivo. Ela e as demais foram escritas e expostas com objetivos mais definidos do que parece. Hoje podemos compreender que, não somente a imaginação está no Poder, como entendemos que a imaginação já escraviza a nossa sociedade. Fomos levados, sem nos darmos conta, ao mundo virtual da imaginação, que assumiu o controle dos homens, das famílias, da política e da Igreja. Trata-se de um envenenamento maciço de toda a população mundial, mantida sob o domínio alegre e feliz do mundo virtual. As fontes dessa vida da imaginação se multiplicaram tanto que hoje já podemos dizer que vivemos grande parte da nossa vida mergulhados naqueles sentimentos estranhos de um mundo imaginário, como se vivêssemos num mundo de romance. Claro está que o contato desse mundo em que vivemos presos com a dura realidade do dia a dia causa-nos diversas reações perigosas e doentias, aumentando o drama em que vive a humanidade.
Nosso sistema de coordenadas espirituais
A inteligência é uma faculdade de nossa alma espiritual pela qual nós conhecemos a verdade. Conhecer a verdade é encontrar uma luz sobre alguma coisa. Uma vez esta luz encontrada, um certo repouso produz-se na alma que conhece um objeto. Esse descanso significa que chegou-se ao termo do ato de conhecer. Por isso podemos definir a verdade como sendo a “adequação do objeto conhecido com a inteligência que conhece”. Este exercício do ato de conhecer supõe que exista um objeto a ser conhecido, e este objeto, de alguma forma, deve chegar até nós, pelos nossos sentidos e deve se “encaixar” perfeitamente em nós, pela sua essência objetiva e natural.
Vemos assim que o ato de nossa inteligência banha-se na realidade da coisa.
Agora, se nós somos levados insensivelmente a não tomarmos parte na realidade, se o mundo virtual levar nossas vidas a concentrar-se na nossa imaginação, deixando de lado o real concreto, nossas atividades de conhecimento nunca alcançarão a verdade, limitando-se a conhecer as coisas como supostas. Com isso ocorrerá uma atrofia da nossa inteligência, a qual não encontrará o objeto próprio de seu ato, que é a coisa real.
A conseqüência imediata deste desvio de nossa atividade de conhecimento é o desaparecimento da certeza em nossas vidas. Já não há lugar, em nossa atividade de conhecimento, para a verdade, já que o acesso às coisas reais está ofuscado pelo uso contínuo da imaginação. Desaparece aquele repouso da alma no objeto conhecido, e nasce a dúvida, a angústia, a incerteza.
Como se não bastasse essa atrofia da inteligência, ocorrerá um outro distúrbio psíquico em nossa alma. A nossa vontade também ficará atrofiada.
A vontade é uma faculdade da alma que nos move em busca do objeto real. Ela é movida porque a luz que a inteligência lança sobre a coisa, apresenta-a como um bem, levando a alma a querer possuí-la. Quando nossa inteligência alimenta-se da verdade, o amor nos move ao bem. Mas se nossa inteligência não conhece mais os objetos reais, o que vamos amar, então? Vamos querer os frutos da nossa imaginação: prazer, bens de consumo, viagens, dinheiro, lazer etc. Tudo aquilo que o mundo da Informação nos apresentar em suas campanhas publicitárias e em seus programas políticos e sociais, em sua televisão e no mundo virtual da internet, nas drogas, na pornografia e nas diversões.
Isso afetará fortemente nossa força de vontade. Fugiremos de nossas mais simples obrigações, que serão vistas como coisas pesadas e desagradáveis. Perderemos a concentração no estudo, no trabalho e na vida de oração. Haverá nesta espécie de “depressão” a soma de um certo desespero pela falta de um objeto de conhecimento que repouse nossa inteligência, com a tendência evidente em dirigir nosso ato de vontade às coisas que nos trazem prazer, na ausência do bem verdadeiro. E estaremos como que entregues a todos os erros ensinados por esses poderosos nos programas de mídia e de informação. Os homens passaram assim a condenar como absurdas as mais claras verdades, aceitando calados todas as mentiras sobre nós mesmos, sobre o mundo e, principalmente, sobre a atuação da Igreja Católica na história da humanidade.
Mais do que isso. Vivendo com este mundo virtual pingando gôta à gôta na alma, como um sôro espiritual nefasto, mesmo quando, num momento de lucidez, vermos que estamos mergulhados no vício, não encontraremos forças para dele sair, pois para isso precisaríamos romper com muitos costumes considerados “normais” e apresentados noite e dia como sendo de uso comum e universal.
Terremoto psíquico
A consequência desse tremendo distúrbio interior é a perda das referências da nossa existência. Vamos tomar um exemplo. Quando estamos num determinado plano, nossa vista toma alguns parâmetros como referência: as paredes de uma casa, a inclinação de uma montanha, a linha do horizonte, dependendo de onde estivermos. Se num determinado momento o lugar começa a se mover de modo rápido e por muito tempo, nossa vista não tem tempo de mudar seu eixo referencial. Por exemplo quando um avião faz voltas, perdemos a linha do horizonte. O que acontece? Ficamos tontos, enjoados, podendo até mesmo perder a consciência e desmaiar. Pois o mesmo acontece com o veneno que descrevi acima. Nossa inteligência e nossa vontade atrofiadas e nossa imaginação super-excitada provocam o estado tão conhecido de stress, angústias, depressões, tão comuns no homem moderno. Ele perdeu seus critérios de vida, tanto psíquica quanto social.
E quais são esses critérios?
O critério da inteligência é a verdade natural, pela qual nós conhecemos a natureza de todas as coisas, sua essência. Na vida da graça, a verdade sobrenatural, o Verbo divino e seu Evangelho, a Revelação, de onde brota a nossa fé, que nada mais é do que o conhecimento infalível da verdade revelada.
O critério da vontade é o bem natural que flui de tudo o que é verdade; e a fonte de todo o bem sobrenatural é o Divino Espírito Santo, o amor de Deus em nós, que se chama Caridade. O sistema de coordenadas de nossa alma é o Sinal da Cruz, mas o Sinal da Cruz fincado na terra. Nossa referência maior é Jesus Cristo crucificado, restaurando nossas vidas, vida do corpo, vida psíquica e vida espiritual, pelo seu Sacrifício, para seu fim último que é a felicidade de Deus, no céu.
Já estamos perdendo contato, cada dia mais, com o eixo de coordenadas da nossa vida, com o mundo real, luminoso e moral, e com a verdadeira religião de Jesus Cristo. Os homens já dão mostras evidentes de um distúrbio interior impressionante. Estamos todos numa epidemia mundial, uma lepra, uma Aids espiritual que nos tirou todos os recursos naturais e sobrenaturais necessários para viver numa civilização natural e cristã. A peste! A peste! E as almas vão se acumulando pelas ruas, desfiguradas, mortas, como nos tempos da peste negra e do cólera. As consequências práticas desse distúrbio já fazem parte do nosso mundo globalizado.
- A política perdeu seu caráter de bem comum, acima dos bens particulares. O poder será disputado acirradamente na busca desenfreada de um lugar na máquina democrática alimentadora de propinas e corrupção. A Demagogia reinará como rainha no mundo mitológico da manipulação das consciências, pela imaginação. Os políticos, semi-deuses deste Olimpo, serão mestres na arte de enganar e levar as massas de milhões de eleitores a crer na lisura e integridade de suas vidas. Veremos idéias destruidoras da humanidade serem aceitas com todo o respeito e homens ditos de bem venderem-se por um prato de lentilhas (de votos).
- Na vida social, de relacionamentos dos homens com seus semelhantes e consigo mesmo, o mundo virtual e imaginário cria laços também imaginários, selados pelo interesse próprio, mesquinho e egoísta, animados pelo uso generalizado das drogas e da pornografia, coisas aparentemente combatidas pelos governantes mas que parecem ser, ao contrário, estimuladas, senão financiadas, pelo Poder do mundo da Informação. Como em “Admirável Mundo Novo”, são coisas que ajudam os pobres homens escravizados a manterem-se fora da realidade quando chegam do trabalho. Ainda outro evento estranho que se espalha pelo mundo são os programas de reality shows, com os quais o mundo da Informação está habituando seus escravos a viver sob vigilância constante. Os homens vão acabar não sabendo mais viver sem uma câmerazinha ligada neles. Os semi-deuses aqui são os artistas, desportistas, jornalistas e intelectuais.
- Os cientistas, infelizmente, fazem parte do Olimpo da Informação, divulgando tantas mentiras e falsidades que disputam com os políticos e intelectuais o primeiro lugar, bem perto do Zeus da Informação. Tudo inventam para denegrir a Igreja. Inventaram o Evolucionismo, onde a matéria vai ganhando maiores perfeições, sem que expliquem de onde elas vêm; inventaram a vida em outros planetas cujo dogma principal é que os tais seres são sempre apresentados como mais fortes, mais inteligentes e capazes do que o homem. Tentam agora manipular a vida e se arriscam no orgulho de “ser como deuses” e sentir o fogo da espada divina a lhes expulsar do “Paraíso”.
- Do ponto de vista da religião, estamos vendo o desaparecimento dos dogmas, das verdades de fé, reveladas e infalíveis, base da nossa salvação. Em seu lugar os homens modernos só aceitam as religiões que se apresentem como uma escolha entre outras, fruto de opiniões, todas elas respeitáveis. E então podemos compreender todo o enlace do Concílio Vaticano II, cúmplice dessa manobra dos infernos, impondo às almas dos católicos a liberdade religiosa e o falso ecumenismo. Religião da liberdade ao erro, da escolha de “opções”; religião da democracia e da imaginação. E trememos diante de tal realidade, quando consideramos que os escravos que aceitam isso estão perdendo a fé sobrenatural, e com isso, correm o risco de se perderem para sempre.
Em busca da cura
O que fazem, atualmente, os homens, quando percebem que vivem depressivos e angustiados? Vão ao analista. Uma vez por semana, de quinze em quinze dias, cada um no seu ritmo, todos vão buscar no psicólogo o remédio do seu mal. Funciona? Dando sorte de encontrar uma pessoa boa, sensata, experiente, pode-se dizer que funciona até certo ponto. Mas como poderá curar a pessoa? Como poderá extirpar pela raiz a doença do espírito, se o paciente continua vivendo da imaginação, no seu sonho acordado do mundo virtual? Como poderá ser fonte de cura uma psicologia que não dá conta das atividades mais elevadas da alma, restringindo-se ao seu aspecto sensível e dando muitas vezes soluções em sentido contrário às necessidades espirituais dos seus pacientes? A psicologia freudiana encaixa-se perfeitamente dentro desse mundo alimentado pela imaginação. É um círculo vicioso e a pessoa vai sempre necessitar do analista. O eixo de referências continua sendo falsificado.
Só haverá cura verdadeira do mal da humanidade quando se oferecer às pessoas a pacificação das suas angústias pelo restabelecimento do eixo de coordenadas verdadeiro, de cada um de nós: a verdade e o bem, a certeza e o amor espiritual, elevado e determinante, no lugar da enxurrada de opiniões que nos levam como vagas amorfas e sem repouso. Só haverá cura verdadeira se os homens compreenderem que não podem se entregar cegamente às atividades manipuladoras da nossa consciência no envenenamento do mundo virtual. Só venceremos se colocarmos os pés no chão, sentirmos a brisa forte e o sol quente, a hora de levantar e trabalhar por razões divinas e por dever humano.
Proponho o confessionário, uma cura de confissões, para as almas depressivas e angustiadas. Lá, junto a um padre paciente e espiritual, a alma encontrará o aconselhamento adequado, baseado nas atividades mais importantes e necessárias da alma, sua inteligência e sua vontade, seu conhecer e seu amor, além de receber o perdão de seus pecados e restabelecer a amizade com Deus. Alimentados com a grande realidade da fé, o Pão Divino descido do céu, teremos acesso ao conhecimento verdadeiro de Deus e a seu Amor substancial: “Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças, com toda a tua mente, com todo o teu espírito”
O que eu queria dizer ao longo destas já longas linhas é que não nos basta viver na Tradição. Não nos basta assistir à missa tradicional, e depois viver desatentos diante de todas estas coisas que nos devoram por dentro e que fazem parte de nossas vidas, hoje, querendo ou não querendo. Temos que conviver com o monstro dentro de casa, na rua, no trabalho, na escola. E se nos demorarmos dormindo, seremos transformados em estátuas de sal. A Sodoma e Gomorra de hoje queima por dentro, como numa explosão atômica e não encontraremos o caminho do céu se não acordarmos e levantarmos para tomar as armas descritas por São Paulo quando profetizou esta situação final.
“Portanto, tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau e estando aperfeiçoados em tudo.
“Estai pois firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade” [perfeitos na inteligência]
“E vestindo a couraça da justiça” [perfeitos na vontade]
“Tendo os pés calçados para anunciar o Evangelho da paz” [perfeitos na vida social]
“Sobretudo, tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados dos piores” [perfeitos na religião]
“Tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito que é a palavra de Deus”
“Orando continuamente em espírito com toda sorte de orações e de súplicas e vigiando nisto mesmo com toda perseverança”.
Que os leitores me entendam bem. São variadas as formas como cada um vive e não devemos julgar nosso vizinho. Cada um vive como pode, procurando manter-se na vida da graça, na busca da salvação. Mas é necessário, imprescindível, questão de vida e de morte: reconhecer que estamos sendo levados como cordeirinhos ao matadouro por estas atividades do mundo virtual. Já é hora de levantar-se do sono. Voltar a dominar a imaginação com a luz da inteligência, com a força da vontade firme, reta, e santa. E só conseguiremos isso com o esforço de exercitar as faculdades mais elevadas da alma tanto no conhecimento das coisas naturais quanto na vida de oração e na prática das virtudes.
Não sei se ainda haverá, sem um milagre espantoso de Deus, uma Cristandade, um Reino Social de Jesus Cristo, como deveriam ser todas as nações. A impressão que temos é que precisamos nos armar e nos formar para um combate rude e solitário, contando com a ajuda da graça de Nosso Senhor e o manto maternal da Virgem Maria. Mas temos a Igreja, temos os santos, seus livros e seus ensinamentos, para levar o combate até a vitória final.
O demônio lançou seu ataque final. E o Justo vive da Fé.
Pe. José Maria Mestre
Celebramos hoje a festa da Imaculada Conceição, ou seja, o privilégio que a Virgem Maria recebe, no momento mesmo de sua concepção no seio de sua mãe, Santa Ana, de ver-se livre do pecado original. Este dogma celebra, pois, a primeira vitória total contra o pecado, porque significa isenção de todo o poderio do pecado e do demônio sobre a alma bem-aventurada de Maria; vitória de Cristo, único Salvador do gênero humano, pois a Imaculada Conceição foi concedida a Maria em vista dos méritos de Cristo em sua Paixão e morte.
Gostaria de considerar, por ocasião desta festa, dois pontos: em primeiro lugar, o aspecto combativo e atual deste dogma; em segundo, como, por este dogma, se nos revela o grandioso plano de Deus de redimir o gênero humano por um Homem e uma Mulher.
1º Aspecto combativo e atual da Imaculada Conceição.
Em 1917, a Maçonaria celebrou em Roma seu segundo centenário. Por todas as partes, apareceram bandeiras e cartazes que representavam o Arcanjo São Miguel vencido e derrubado por Lúcifer; e, na mesma praça S. Pedro, podia-se escutar o seguinte slogan: « Satanás reinará no Vaticano, e o Papa tomará parte em seu corpo de guarda! ».
O irmão Maximiliano Kolbe, franciscano conventual polaco, era então estudante de teologia na Gregoriana de Roma. Ante essas demonstrações de audácia do inimigo, pergunta-se: « Por que os católicos tem de ser tão pusilânimes na defesa de sua fé, enquanto os inimigos são tão audazes em atacá-la? Não possuímos nós armas mais eficazes que eles, o Céu e a Imaculada?» E meditando nas Sagradas Escrituras e nos Santos Padres, inspirando-se nos escritos dos santos marianos, especialmente São Luís Maria de Montfort; considerando o dogma da Imaculada e as aparições de Nossa Senhora de Lurdes, e a extensão prática de todas estas verdades, chega a esta conclusão: « A Virgem Imaculada, vitoriosa contra todas as heresias, não cederá ante seu inimigo que levanta a cabeça; se encontrar servidores fiéis, dóceis às suas ordens, logrará novas vitórias, muito maiores do que poderíamos imaginar... ».
E funda assim, em 16 de outubro de 1917, três dias apenas após o milagre de Fátima, a Milícia da Imaculada. O emblema desta nova milícia será a Medalha Milagrosa. Sua exigência, a consagração total à Imaculada Mãe de Deus, para viver praticamente esta consagração. Seu fim, arrancar as massas das garras de Satanás e pedir à Imaculada a conversão dos inimigos da Igreja, especialmente os mações.
Se São Maximiliano Kolbe dá a sua Milícia o nome de Milícia da Imaculada, é também, e é preciso sabê-lo, porque a definição do dogma da Imaculada Conceição, em 1854, por Pio IX, apresenta um aspecto combativo que os inimigos da Igreja souberam discernir em seguida, e que nós não devemos esquecer. Com efeito, em 1854, estão em plena circulação todos os princípios do Contrato Social de Rousseau, que iriam levar ao estabelecimento universal desta grande mentira que é a democracia e os direitos humanos. Qual é o cimento de todas estas fábulas, de todas estas mentiras em que, de tão boa fé, crê o homem moderno? Um só: o dogma da imaculada conceição... do gênero humano. Postula-se que o homem é bom por natureza, que o homem nasce bom e que é a sociedade quem o corrompe. Sem este postulado latente, todo o sistema social revolucionário cai.
Ora, Pio IX, com sua definição dogmática, o põe por terra. Pois, ao definir a Imaculada Conceição de Maria, não faz senão assentar o seguinte: a imunidade do pecado original, longe de ser uma lei geral, válida para todos os homens, é, ao contrário, o privilégio único e exclusivo de uma única criatura, que é a Santíssima Virgem Maria. E que, portanto, para os demais homens, segue vigente o pecado original, com todas as conseqüências que ele implica: a necessidade de um Redentor, a que devem submeter-se todos os homens; a necessidade da autoridade, da graça, dos sacramentos, da Igreja, da educação, da família e da necessidade, enfim, da ordem social cristã, concebida e construída especialmente para curar os homens que nascem sob o pecado original... A necessidade, pois, de tudo o que pretendiam negar os revolucionários.
2º O plano de Deus na economia da Redenção.
Mas, se nos aprofundarmos um pouco, veremos que o dogma da Imaculada Conceição, especialmente comemorado no Advento, no começo da celebração dos mistérios de Cristo, revela o plano de Deus na obra de nossa Redenção. Com efeito, nos mostra, antes de Cristo, o Novo Adão, Maria, em toda a plenitude de sua santidade, como Nova Eva. A cena do Evangelho é, a este propósito, muito sugestiva.
Deus quis que o gênero humano fosse propagado segundo a carne por um homem e uma mulher. Também quis que, na ordem sobrenatural, fosse restaurado por um Homem e uma Mulher.
Ou seja, a obra da Redenção é concebida ao modo de uma vingança divina, como no-lo ensinam unanimemente os Santos Padres.
O plano de Satanás foi o de perder o homem e, como ele, toda sua descendência, através da mulher, escudando-se nela, dissimulando-se por trás dela. Eva teve, assim, na ordem da queda, um papel de introdução, de preparação e de colaboração.
O plano de Deus será o de salvar a humanidade através de um Homem, um Novo Adão, mas com a colaboração de uma Mulher, uma Nova Eva. O Novo Adão é Cristo, a Nova Eva, Maria. Maria tem, assim, na ordem da redenção e por vontade divina, um papel de introdução (encarnação), preparação (Caná) e de colaboração (em todos mistérios de Cristo, mas especialmente, no Calvário).
Para cumprir de modo conveniente esta missão, que era de luta e vitória contra o diabo, era preciso que Maria não tivesse parte alguma com ele, que fosse Imaculada: Imaculada para ser digna Mãe do Redentor; Imaculada para poder ser a Corredentora do gênero humano; Imaculada para ser, em toda a linha, associada à obra de santificação do Redentor.
Conclusão.
Assim o vemos. O dogma da Imaculada Conceição nos mostra, ainda que em esboço e preparação, a Santíssima Virgem totalmente entretida com a obra da Redenção, da qual Ela mesma é o primeiro fruto, e o mais bem acabado. E, portanto, nos mostra a Santíssima Virgem totalmente entretida com a Igreja Católica, com a nossa própria vida espiritual, com a de nossas famílias e sociedades.
Deus guardou o bom vinho para o final. A visão grandiosa do papel de Maria e a intervenção extraordinária da Virgem Santíssima na obra da Redenção, que há de se fazer muito mais visível no final dos tempos, é uma graça que Deus reservou para o fim, para o momento em que a Igreja, como o grão de mostarda, tenha já crescido muitíssimo e, com ela, o conhecimento, o amor, a honra e o serviço à Santíssima Mãe de Deus.
Por isso, ofereçamo-nos hoje à Santíssima Virgem, entreguemo-nos totalmente a Ela. Vivemos em tempos muito perigosos, tempos em que o demônio anda totalmente à solta; mas esses tempos também hão de ser, e forçosamente o serão, tempos da Imaculada que esmaga a cabeça do demônio. E também nós somos chamados a tomar parte na inimizade da Mulher contra a Serpente, e de sua vitória contra o demônio: à condição, no entanto, de sermos, plena e voluntariamente, descendência de Maria.
Na festa da Imaculada Conceição de Maria, 8 de dezembro
Parece difícil o rude combate pela fé? Quantos descobrem a verdade, recebem a graça de ver os graves erros de Vaticano II e, depois, não têm coragem ou forças para perseverar no bom combate. O que lhes falta? Eles estudam, passam horas na internet em bate-papos e leituras, mas mesmo assim, fraquejam. Falta-lhes talvez o essencial: vida de oração e fé, no sentido de levar sempre nossos pensamentos e nossas conclusões para as causas sobrenaturais da Revelação e da Santa Igreja. Ora, a Virgem Maria veio nos ensinar o caminho da última batalha pela conquista do céu. A devoção ao Imaculado Coração de Maria é a Cruzada dos últimos tempos. Comecemos logo, e o mais simples de tudo, é a prática da devoção aos 5 primeiros sábados do mês(Nota da Permanência).
Preâmbulo
Os dois pedidos de 13 de julho de 1917.
A 13 de junho de 1917, a Santíssima Virgem disse à Lúcia: “Jesus quer estabelecer no mundo a devoção do meu Imaculado Coração”. Depois os três pastorzinhos viram Nossa Senhora tendo em sua mão direita um coração cercado de espinhos. Compreenderam que era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que pedia reparação.
No dia 13 de julho, a rainha do céu repetiu as mesmas palavras e as esclareceu fazendo dois pedidos concretos e precisos: “Se fizerem o que vou vos dizer, muitas almas serão salvas e haverá paz. [...] Voltarei para pedir a consagração da Rússia ao meu Coração Imaculado e a devoção reparadora dos primeiros sábados (do mês).”
De fato, Nossa Senhora realizou perfeitamente sua promessa:
- Ela veio pedir expressamente a consagração da Rússia à irmã Lúcia, em Tuy, na Espanha, em 13 de junho de 1929:
É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena pelos pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora.
- Quanto à devoção reparadora dos primeiros sábados do mês, Nossa Senhora veio explicar à Lúcia, no dia 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra na Espanha, onde a vidente era jovem postulante à vida religiosa, nas irmãs dorotéias. Em dezembro de 1927, irmã Lúcia, por ordem de seu confessor, escreveu um relatório dessa aparição, mas por humildade, escreveu este texto na terceira pessoa:
Dia 10 de dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e, ao lado, suspenso em uma nuvem luminosa, um Menino. A Santíssima Virgem pondo-lhe no ombro a mão, mostrou-lhe ao mesmo tempo um coração que tinha na outra mão, cercado de espinhos. Ao mesmo tempo disse o Menino: “Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe que está coberto de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar”. Em seguida, disse a Santíssima Virgem: Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço, e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.”
Notemos que se o ato de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria depende diretamente da boa vontade da autoridade hierárquica da Igreja (papa e bispos), a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês foi pedida a todos os católicos. Desta prática depende a salvação de muitas almas e mesmo a paz do mundo. Daí a importância de todo aquele que é batizado, saber exatamente em que ela consiste.
Mas antes, vejamos como a divina Providência preparou as almas para receber esta devoção.
Premissas de uma devoção
Nossa Senhora, quando pediu à irmã Lúcia, em 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, a prática da devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês, não estava inovando: este pedido celeste aparece como o apogeu de um movimento de piedade nascido muito tempo antes e encorajado pela Santa Sé desde de 1889.
Sábado, dia consagrado especialmente à Santíssima Virgem
Esta tradição imemorável data, com toda certeza, dos primeiros séculos da Igreja: a presença da Missa de Nossa Senhora nos Sábados, no missal romano de São Pio V, de 1570, mostra a antigüidade desta prática que consiste em honrar especialmente a Santa Mãe de Deus nesse dia da semana, depois de ter consagrado o dia da sexta feira para comemorar a paixão de Nosso Senhor e os sofrimentos de seu Sagrado Coração.
Foi apoiando-se nesta piedosa tradição que os membros das Confrarias do Rosário habituaram-se a consagrar especialmente à Nossa Senhora, quinze sábados consecutivos de cada ano litúrgico: durante esses quinze sábados, eles se aproximavam dos sacramentos e cumpriam exercícios de piedade particulares em honra dos quinze mistérios do santo rosário. Em 1889, o papa Leão XIII concedeu a todos os fiéis uma indulgência plenária a ser ganha durante um desses quinze sábados.
O primeiro sábado do mês
Foi com o grande papa São Pio X que a devoção dos primeiros sábados do mês foi aprovada e encorajada por Roma.. Em 10 de julho de 1905, ele indulgenciou pela primeira vez esta devoção:
“Todos os fiéis que, no primeiro sábado ou primeiro domingo de doze meses consecutivos, consagrarem algum tempo com a oração vocal ou mental em honra da Virgem Imaculada em sua Conceição ganham, cada um desses dias, uma indulgência plenária. – Condições: confissão, comunhão e oração nas intenções do soberano pontífice”.
A devoção reparadora dos primeiros sábados do mês.
Em 13 de junho de 1912, São Pio X concedia novas indulgências à devoção dos primeiros sábados do mês, insistindo muito na intenção reparadora com a qual esta devoção devia ser praticada:
“A fim de promover a devoção dos fiéis para a gloriosa e imaculada Mãe de Deus, e para favorecer o piedoso desejo de reparação dos fiéis (et ad fovendum pium reparationis desiderium) diante das blasfêmias execráveis proferidas contra o seu augusto nome e as celestes prerrogativas desta mesma bem-aventurada Virgem, Pio X, papa pela divina Providência, dignou-se conceder uma indulgência plenária, aplicável às almas dos defuntos, no primeiro sábado de cada mês, por todos aqueles que, nesse dia, se confessarem, comungarem, cumprirem exercícios particulares de devoção em honra da bem-aventurada Virgem Maria, em espírito de reparação como indicado acima (in spiritu reparationis, ut supra) e rezarem nas intenções do soberano pontífice.
Notemos a providencial coincidência das datas: 13 de junho de 1912, são cinco anos, dia por dia antes da segunda aparição de Nossa Senhora em Fátima, durante a qual os três pastorinhos testemunharam a primeira grande manifestação do Imaculado Coração de Maria vendo-o “cercado de espinhos que pareciam enterrados nele”. “Compreendemos, escreveu Lúcia sobre isto em 1941, na sua quarta Memória, que era o Imaculado Coração de Maria ultrajado pelos pecados da humanidade que queria reparação”.
Os termos empregados por São Pio X anunciam quase exatamente os termos do pedido de Nossa Senhora em Pontevedra, em 1925: nos dois casos, é sublinhada a extrêma importância da intenção reparadora, única capaz de afastar e apaziguar a cólera de Deus.
Em Fátima e em Pontevedra, Nossa Senhora não é, pois, inovadora: ela veio dar a ratificação do Céu e um novo impulso a um movimento de piedade mariano enraizado na mais pura tradição católica, para encorajar a todos nós, a participarmos dele.
A intenção reparadora, chave desta devoção.
Respondamos, primeiramente, a uma objeção que muitas vezes escutamos da parte de pessoas pouco esclarecidas no domínio da fé. Essas pessoas contestam esta devoção afirmando que ela se opõe à perseverança na vida cristã: com efeito, dizem, bastaria praticar uma só vez na vida a devoção reparadora para ter assegurado sua salvação eterna; depois, as almas poderiam fazer o que quisessem, deixar a prática religiosa e cair nos piores pecados, pois estariam de qualquer maneira salvos para a eternidade! É fácil refutar esta objeção: uma alma que cumprir a devoção reparadora com tal espírito não obteria a graça da perseverança final, ligada por Nossa Senhora a esta prática, já que ela não a faria com reta intenção (condição indispensável a todos nossos atos religiosos e de devoção, para receber as bênçãos e graças de Deus) nem com o cuidado de reparar e consolar o Coração de Maria! Tal prática equivaleria, ao contrário, em abusar gravemente da misericórdia de Deus, utilizando a promessa da salvação eterna feita por Nossa Senhora para legitimar todos os pecados que fossem cometidos em seguida; isto é o pecado de presunção de sua salvação que é um dos sete pecados contra o Espírito Santo!
Reparar pelos pecadores.
As almas que querem praticar a devoção dos primeiros sábados do mês conforme a vontade do Céu, devem fazê-la na intenção geral de reparar e consolar Nossa Senhora, em substituição dos pobres pecadores que ultrajam e blasfemam contra ela: trata-se, por caridade fraterna, de “implorar o perdão e a misericórdia em favor das almas que blasfemam contra Nossa Senhora porque, a essas almas, a misericórdia divina não perdoa sem reparação”. Foi isso que afirmou Nosso Senhor a Lúcia em 29 de maio de 1930, depois de ter revelado as cinco espécies de ofensas e de blasfêmias que se trata de reparar (infra):
“Eis, minha filha, porque motivo o Imaculado Coração de Maria me inspirou para pedir esta pequena reparação e em consideração a ela, comover minha misericórdia para perdoar às almas que tiveram a infelicidade de ofendê-lo. Quanto a ti, procure sem cessar, por tuas orações e teus sacrifícios, comover minha misericórdia em relação às pobres almas.”
Esta intenção reparadora, movida pela caridade fraterna, deveria nos dar um grande zelo para cumprir a devoção dos primeiros sábados não apenas cinco vezes em nossa vida, para assegurar a salvação pessoal, mas cada primeiro sábado, a fim de permitir a salvação eterna do maior número possível de pecadores. Porque aí está um dos grandes objetivos da devoção reparadora ao Imaculado Coração de Maria: “salvar almas, muitas almas, todas as almas”.
Ora, o conjunto de acontecimentos sobrenaturais de Fátima, Pontevedra e Tuy nos mostra claramente e repetidas vezes, que são muitas as almas condenadas à eternidade:
- A 13 de julho de 1917, os três pastorinhos têm a visão do inferno, que está longe de ser um lugar vazio:
- A 19 de agosto de 1917, no fim da aparição, Nossa Senhora diz aos três videntes:
Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores; que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.
- A 13 de junho de 1929, na aparição de Tuy, Nossa Senhora concluiu a teofania trinitária com a qual Lúcia foi gratificada, por essas terríveis e surpreendentes palavras:
São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos que venho pedir reparação. Sacrifica-te por esta intenção e reza.
Irmã Lúcia sempre afirmou que o número de almas danadas era muito grande. Ela conclui assim sua carta para um jovem, tentado a abandonar o seminário: “Não se surpreenda se falo tanto do inferno. Esta é uma verdade que é necessária lembrar muito nos tempos presentes, porque é esquecida: é um turbilhão de almas que caem no inferno. Então, o senhor não acha que são bem empregados todos os sacrifícios que é preciso fazer para não ir para lá e para impedir que muitos outros caiam lá?”. E ao Padre Lombardi que, em outubro de 1953, a interrogou sobre o inferno, ela respondeu: “Padre, numerosos são aqueles que são condenados.[...] Padre, muitos, muitos se perderão.”
Obter a conversão de um pecador
É também louvável e frutífero praticar esta devoção para obter a conversão desse ou daquele grande pecador de nossas relações. A carta da irmã Lúcia ao bispo titular de Gurza, de 27 de maio de 1943, já citada, esclarece muito bem sobre o poder e eficácia sobrenatural da devoção aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria:
“Os Santíssimos corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto [para com o Coração de Maria] porque dele se servem para atrair todas as almas a eles e isto é tudo o que desejam: salvar as almas, muitas almas, todas as almas”. Nosso Senhor me dizia, há alguns dias: “Desejo ardentemente a propagação do culto e da devoção ao Coração de Maria porque este Coração é o ímã que atrai as almas para mim, a fornalha que irradia na terra os raios de minha luz e de meu amor, fonte inesgotável de onde brota na terra a água viva de minha misericórdia”.
Pondo toda sua confiança no Imaculado Coração de Maria, muitos católicos portugueses praticaram a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados em favor de um próximo, grande pecador e bem afastado da vida cristã. Entre outros, este belo testemunho de uma senhora de Guimarães (norte de Portugal), publicado no boletim de agosto de 2001 da Cruzada Eucarística das crianças de Portugal: esta mulher conta que ela tinha um irmão repatriado de Moçambique, que era um revoltado e um blasfemador. Tinha abandonado a esposa legítima para viver com outra mulher, da qual tinha dois filhos. Para obter do Imaculado Coração de Maria a sua conversão, sua irmã fez por ele e em seu lugar, a devoção dos cinco primeiros sábados do mês:
“No começo de agosto de 1981, meu irmão estava muito mal. Quando lhe perguntaram se queria ver um padre, proferiu blasfêmias contra os padres. Como a doença se agravava, deu entrada em um hospital de Braga. Os outros doentes diziam que ele não tinha um momento de repouso, nem de dia, nem de noite e que não deixava ninguém em paz. Para grande estupefação de todos, em 18 de agosto de 1981, pediu várias vezes um padre. Dois padres vieram administrar os últimos sacramentos. Imediatamente depois que eles saíram inclinou a cabeça para o lado e morreu. Sem dúvida, foi o Coração Imaculado de Maria que salvou meu pobre irmão, que fora tão pecador. Não queria olhar para ele depois de morto, temendo ver seu rosto deformado como o tinha durante sua doença. Mas não pude resistir e me aproximei durante a missa, que teve lugar na capela do hospital. Ele não parecia o mesmo homem! Estava tão bonito, sorridente. Parecia que sua amargura se transformara em alegria”.
O que é preciso fazer
Uma alma cristã que deseje realizar perfeitamente a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês deve fazer, durante cinco primeiros sábados consecutivos, na intenção geral de reparar seus próprios pecados e os de toda a humanidade, junto ao Coração Imaculado de Maria, quatro atos diferentes de piedade:
1 - A confissão, que pode ser antecipada, até mesmo mais de oito dias, se for impossível ou muito difícil se confessar no primeiro sábado. O mais importante é ter a intenção, se confessando, de reparar o Coração Imaculado de Maria. (É preciso também, naturalmente, estar em estado de graça no primeiro sábado do mês a fim de fazer uma boa e frutífera comunhão.) A intenção reparadora deve ser dita ao confessor? Irmã Lúcia nunca mencionou se é preciso dizer alguma coisa ao padre. Uma formulação interior, puramente mental, é suficiente. Nosso Senhor até mesmo acrescentou que aqueles que esquecessem de formular a intenção reparadora “poderão formulá-la na confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem para se confessar.”
2 – Recitação do terço: Nossa Senhora, em Fátima, insistiu muito na recitação quotidiana do terço. Foi esse o único pedido que ela repetiu para as crianças em todas as seis aparições, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917: nesse dia revelou aos pastorinhos sua identidade: “Sou Nossa Senhora do Rosário”. Não é, pois, de espantar que a recitação do rosário seja encontrada na devoção reparadora dos primeiros sábados . Além disso, como não existe oração vocal mais mariana do que o terço, convém que este seja integrado a essa devoção já que se trata de reparar as ofensas feitas à Nossa Senhora e a seu Coração Imaculado.
3 – Os 15 minutos de meditação sobre os 15 mistérios do rosário: Trata-se de “fazer companhia a Nossa Senhora durante15 minutos, meditando sobre os 15 mistérios do rosário, em espírito de reparação”. Isto não quer dizer que se deva meditar todo primeiro sábado sobre os 15 mistérios em sua totalidade, passando um minuto em cada mistério. Ao contrário, cada alma está livre para organizar seu quarto de hora de meditação como entender, desde que o objeto da meditação seja os mistérios do rosário. Algumas almas preferirão meditar o mesmo mistério durante vários primeiros sábados, outras um mistério diferente cada primeiro sábado, outras ainda três mistérios cada primeiro sábado (cinco minutos por mistério), etc. Sendo as almas diferentes umas das outras, é normal que tenham gostos e necessidades espirituais diferentes; é por isso que a Igreja sempre teve o cuidado de deixar aos fiéis uma grande amplidão para cada um organizar sua vida espiritual.
4 – A comunhão, que é o ato essencial da devoção reparadora. Para compreender bem toda sua importância, convém colocá-la em paralelo com a comunhão das nove primeiras sextas-feiras do mês, pedidas pelo Sagrado Coração em Paray-le-Monial e com a comunhão milagrosa dos três pastorinhos de Fátima, no outono de 1916: o Anjo da Guarda de Portugal deu então a esta comunhão um espírito eminentemente reparador, repetindo seis vezes com as crianças (três vezes antes da comunhão e três vezes depois) as palavras que são chamadas a segunda oração do Anjo:
“Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos de seu Sacratíssimo Coração e do Imaculado Coração de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.”
No contexto da atual crise da Igreja é certo que esta intenção reparadora toma uma nova dimensão: quantas irreverências, sacrilégios são causadas pela reforma litúrgica de Paulo VI: não apenas pela comunhão dada na mão, como também distribuída a todos os assistentes sem nunca lembrar a necessidade do estado de graça; pela supressão das marcas de adoração ao Santíssimo Sacramento, etc. Hoje, a comunhão dos primeiros sábados deve ser feita para reparar todas essas profanações.
É pois, aos padres, e não à consciência individual de cada um, que Jesus confia o cuidado de conceder esta facilidade suplementar, tão misericordiosa. Por essa concessão, talvez Nosso Senhor fizesse alusão a estes tempos em que estamos, onde não é sempre fácil aos fiéis assistir à verdadeira missa no sábado. Em todo caso, esta disposição torna mais fácil a prática da comunhão reparadora para os católicos fiéis de hoje.
Disposições requeridas
É muito simples praticar a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês. Está ao alcance de toda alma que põe um mínimo de generosidade na base de sua vida cristã, ainda mais que o Céu deu uma grande amplidão para a confissão e a comunhão. Infelizmente, muitas vezes, a ignorância, a moleza espiritual e a negligência se conjugam para afastar as almas, mesmo as mais fiéis, desta prática que, no entanto, é tão salutar, já que Nossa Senhora a ligou à perseverança final e à salvação eterna: “Prometo assisti-las na hora da morte com todas as graças necessárias à sua salvação.”
A desproporção entre a pequena devoção pedida (os primeiros sábados de cinco meses consecutivos, uma só vez na vida!) e a graça prometida (a salvação eterna de sua alma) ilustra de maneira estrondosa o grande poder de intercessão concedido à Virgem Maria para a salvação de nossas almas: Nossa Senhora é verdadeiramente, em virtude de sua maternidade divina, nossa advogada e nossa medianeira junto ao coração de Deus. Padre Alonso, claretiano espanhol que foi o grande especialista de Fátima até sua morte em 1982, escreveu sobre este assunto:
“A grande promessa [da salvação eterna] não é nada mais do que uma nova manifestação deste amor de complacência da Santíssima Trindade para com a Virgem Maria. Para aquele que compreende isto é fácil admitir que a humildes práticas estejam ligadas maravilhosas promessas. Ele se entrega então filialmente à elas com um coração simples e confiante na Virgem Maria.”
Em algumas linhas o Padre Alonso nos desvenda algumas boas disposições necessárias para fazer bem esta devoção:
- uma grande simplicidade e humildade de coração;
- uma devoção marial inteiramente filial e cheia de confiança.
O Menino Jesus, aparecendo à irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 1926, nos dá a terceira disposição necessária:
- um fervor profundo.
Com efeito, nesse dia, irmã Lúcia dirigiu estas palavras ao Menino Jesus:
“Mas meu confessor dizia em sua carta que esta devoção não fazia falta ao mundo porque já havia muitas almas que vos recebia todo primeiro sábado, em honra de Nossa Senhora e dos quinze mistérios do rosário”.
O Menino Jesus lhe respondeu:
“É verdade, minha filha, que muitas almas começam, mas poucas vão até o fim; e aquelas que perseveram, não fazem para receber as graças que estão prometidas. As almas que fazem os cinco primeiros sábados com fervor e com o fim de reparar o Coração de tua Mãe do Céu me agradam mais do que aquelas que fazem quinze, sem ardor e indiferentes”.
Para falar agora da quarta disposição requerida para esta prática é preciso lembrar que o Céu nos pede cinco primeiros sábados de cinco meses consecutivos, e não nove, doze ou quinze. Porque este número? Lúcia perguntou a Nosso Senhor durante uma Hora Santa, em 29 de maio de 1930, em Tuy, e lhe foi respondido:
“Minha filha, o motivo é simples. Há cinco espécies de ofensas e de blasfêmias proferidas contra o Coração Imaculado de Maria:
1 – as blasfêmias contra a imaculada conceição da Virgem Maria;
2 – as blasfêmias contra sua virgindade;
3 – as blasfêmias contra sua maternidade divina, recusando ao mesmo tempo reconhecê-la como mãe dos homens;
4 – as blasfêmias daqueles que procuram publicamente por no coração das crianças a indiferença ou o desprezo, ou mesmo o ódio em relação a esta Mãe imaculada;
5 – as ofensas dos que a ultrajem diretamente nas suas santas imagens.
Ai está, minha filha, o motivo pelo qual o Coração Imaculado de Maria me inspirou para pedir esta pequena reparação”.
Como, hoje em dia, não pensar nos ataques à dignidade, aos privilégios, às honras devidas à Virgem Maria, perpetradas pelos próprios homens da Igreja? Lembremos o que se passou no concilio Vaticano II, onde, longe de definir a mediação universal e a corredenção de Nossa Senhora, como muitos pediam, os bispos progressistas conseguiram fazer rejeitar o esquema sobre a Virgem Maria para pô-lo como simples anexo no esquema sobre a Igreja e isto para agradar aos protestantes; triste concílio, onde nem mesmo um só texto cita o terço como devoção a ser encorajado junto aos fiéis. Seguiu-se uma diminuição considerável do culto mariano em toda a Igreja. A impiedade da nova religião para com Nossa Senhora é certamente para ser incluída na intenção reparadora daqueles que praticam a devoção dos primeiros sábados.
Notemos que as três primeiras espécies de blasfêmias que se trata de reparar vão contra três dogmas de fé definidos. Pode-se então acrescentar uma quarta disposição às três já citadas:
- convém fazer esta devoção reparadora com espírito de fé e para pedir a Nossa Senhora a insigne graça de conservar a verdadeira fé católica em nossas almas, até a hora da nossa morte, no meio da apostasia geral do mundo que nos cerca, nutrido por utopias malsãs, de revoltas e de impiedade.
Tomemos a peito reparar a honra de Nossa Senhora, tão ultrajada pela ingratidão dos homens e para isso utilizemos a devoção que ela mesmo veio nos indicar, pedindo-lhe com insistência e perseverança as boas disposições de alma para bem praticá-la.
Revista Le Sel de la Terre, nº 53
Lúcia, Jacinta e Francisco eram, antes de 1916, crianças católicas do vilarejo de Aljustrel, na diocese de Leiria, Portugal. Brincavam como todas as crianças, gostavam de jogos e de dançar animados, enquanto pastoreavam as ovelhas da família. Viviam um catolicismo verdadeiro, porém como muitas crianças, limitavam-se ao mínimo necessário. Lúcia conta que às vezes, para que o terço passasse mais depressa, em vez de rezar as orações completas, limitavam-se a dizer: Pai Nosso, Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria.... Ora, para que estas alminhas, inocentes e comuns, pudessem ter a honra de ver Nossa Senhora, um anjo lhes aparecerá por três vezes, fazendo dessas crianças verdadeiras almas de oração.
Vamos acompanhar a transformação.
Estamos em 1916.
Na primavera deste ano (março ou abril), Lúcia, Jacinta e Francisco estavam na Loca do Cabeço pastoreando as ovelhas quando viram um ser luminoso vindo em sua direção. Ele tinha os traços de um rapaz de 14 a 15 anos. O anjo lhes disse:
«Não tenham medo. Rezem comigo».
E num gesto de grande familiaridade e simplicidade, pôs-se ao lado das crianças e prostrando-se com o rosto por terra disse esta oração:
«Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam.
Orai assim; os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas» (2ª Memória).
E o anjo desapareceu.
Esta primeira aparição do anjo foi como uma aproximação do sobrenatural na vida das crianças. Servirá para familiariza-las com os seres e os costumes do céu: a adoração, os atos de fé, esperança e caridade, a reparação e o nome de Deus, deste Deus atento às suas súplicas. A própria Lúcia, na 4ª Memória, dirá que «Levados por um movimento sobrenatural, imitamo-lo e repetimos as palavras que o ouvimos pronunciar».
Nossos pastorinhos, doravante alunos do céu, sentirão imediatamente o peso da presença da vida sobrenatural. Passarão vários dias num estado de abatimento físico, de recolhimento, de um silêncio difícil de ser rompido e principalmente de paz interior.
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«Acontece, porém, ainda depois de passado, ficar a vontade tão embebida e o entendimento tão absorto, que assim permanecem o dia todo e até vários dias...Quando volta a si, está com tão imensos lucros e tem em tão pouco as coisas da terra que todas lhe parecem cisco em comparação do que viu. Daí em diante vive muito penada, e tudo o que lhe costumava causar prazer não lhe infunde a menor consolação.» - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sextas Moradas, cap. IV e V
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Tinham dificuldade de brincar, de falar e até mesmo de se mover. Daí em diante eles passarão várias horas em oração, prostrados como o amigo do céu, repetindo: Meu Deus eu creio, adoro, espero e vos amo.... Só muitos dias depois que este estado de alma diminuirá pouco a pouco.
Eis como nos conta Lúcia, na 4ª Memória:
«A atmosfera do sobrenatural, que nos envolveu era tão intensa que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima, que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo. Nesta aparição, nenhum pensou em falar, nem em recomendar segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima, que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos talvez também maior impressão por ser a primeira assim manifesta».
A segunda aparição foi no verão deste mesmo ano (julho ou agosto). Será a segunda lição de vida sobrenatural, centrada sobre o espírito de sacrifício. Após lhes dizer para rezar muito, o anjo acrescenta:
– Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. E acrescenta: Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.
– Como nos havemos de sacrificar? pergunta Lucia.
– De tudo o que puderes oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria a Paz....sobretudo aceitai e suportai com submissão os sofrimento que o Senhor vos enviar. (2ª Memória)
Eis, então, que Deus pede a Lúcia e seus companheiros muito mais do que na primeira vez. É normal que eles tenham perguntado ao anjo como se sacrificar. Para crianças daquela idade a palavra sacrifício tem um sentido limitado, infantil. Deus queria que eles fossem além. Por isso o anjo lhes ensina a se sacrificar, e traz para eles algumas noções até então ignoradas: ato de reparação pelos pecados, súplica pela conversão dos pecadores, aceitação das cruzes que Deus nos envia.
Que impressão causou esta nova lição do anjo, em suas almas? Lúcia nos conta:
«Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus; como nos amava e queria ser amado; o valor do sacrifício, e como ele lhe era agradável; como, por atenção a ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse momento começamos a oferecer ao Senhor tudo o que nos mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências, exceto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado». (4ª Memória)
Vemos neste texto a origem da grande mortificação das três crianças. Ela não nasceu de uma vontade mórbida qualquer, de um fanatismo fabricado pela imaginação; ela não lhes foi inspirada por nenhum sacerdote exagerado. A luz divina que invadiu suas almas as levou com mansidão e naturalidade a um conhecimento tal da vida divina, do olhar de Deus sobre nós, que eles não conseguiriam mais viver sem este espírito e prática do sacrifício reparador.
É de se notar que os efeitos da primeira aparição limitam-se a um estado de alma por certa presença do sobrenatural. Nesta, trata-se de um verdadeiro conhecimento de Deus e de seu relacionamento com suas almas.
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Por aí se vê que é impossível proceder da imaginação. Também não pode ser obra do demônio, pois não tem ele poder para apresentar coisas que tanta operação e paz e sossego e aproveitamento produzem na alma. Especialmente três são os frutos que deixa em subido grau.
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Primeiro: conhecimento da grandeza de Deus, a qual se nos dá a entender na medida das luzes maiores que temos sobre Ele.
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Segundo: conhecimento próprio e humildade, ao ver como criatura tão baixa em comparação do Criador de tantas grandezas, ousou ofendê-lo; até mesmo não sabe como se atreve a por nele os olhos.
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Terceiro: baixo apreço de todas as coisas da terra, com exceção das que lhe podem ser úteis para serviço de tão grande Deus. - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sextas Moradas, cap. V
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A terceira aparição do Anjo levará a formação espiritual das crianças a um ponto altíssimo, onde a própria comunhão eucarística marcará a Caridade que Deus lhes comunica.
Estavam eles numa gruta de difícil acesso, para rezar escondidos. Estavam assim, prostrados, repetindo a oração do Anjo: "Meu Deus eu creio, adoro...etc."
«Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós bilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo, tendo na mão esquerda um cálice, sobre o qual está suspensa uma Hóstia, da qual caem algumas gotas de sangue dentro do cálice. O Anjo deixa suspenso no ar o cálice, ajoelha junto de nós e faz-nos repetir três vezes:
– Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.
Depois levanta-se, toma em suas mãos o cálice e a Hóstia. Dá-me a Sagrada Hóstia a mim, e o Sangue do cálice dividiu-O pela Jacinta e o Francisco, dizendo ao mesmo tempo: – Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos! Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus. E prostrando-se de novo em terra, repetiu conosco outras três vezes a mesma oração e desapareceu. Nós permanecemos na mesma atitude, repetindo sempre as mesmas palavras, e quando nos erguemos vimos que era noite, e por isso horas de virmos para casa» (2ª Memória)
Na quarta Memória, Lúcia dá detalhes sobre as conseqüências desta última aparição do Anjo:
«A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico que nos prostrava também era grande».
Um pouco antes ela escrevia: «Na terceira aparição a presença do sobrenatural foi ainda muitíssimo mais intensa. Por vários dias nem mesmo o Francisco se atrevia a falar. Depois dizia: Gosto muito de ver o Anjo; mas o pior é que depois não somos capazes de nada! Eu nem andar podia! Não sei o que tinha».
Era tanto o abatimento espiritual e corporal, era tal o êxtase dessas crianças, que nem viram a noite chegar: «Apesar de tudo, foi ele (Francisco) que se deu conta das proximidades da noite. Foi quem disso nos advertiu e quem pensou em conduzir o rebanho para casa».
Procurei citar toda a passagem das Memórias de Lúcia devido ao seu caráter eminentemente sobrenatural. É muito difícil ler estas palavras e dizer que tudo foi invenção. Os detalhes de vida espiritual são muito fortes. Já estavam as crianças levadas espiritualmente à oração constante e mortificada. O Anjo lhes ensina uma oração nova, onde destacamos:
- a adoração à Santíssima Trindade
- o oferecimento de Jesus na Sagrada Hóstia como reparação
- o Imaculado Coração de Maria medianeira de todas as graças, participando dos méritos do Sagrado Coração.
Lúcia conta que recebeu uma verdadeira hóstia. Jacinta recebe o Preciosíssimo Sangue sabendo que é a comunhão. Já Francisco não percebe de imediato que está comungando.
Só passados alguns dias, quando conseguem falar novamente, é que o menino pergunta:
«O Anjo, a ti deu-te a Sagrada Comunhão; mas a mim e à Jacinta, que foi o que ele nos deu?!
Foi também a Sagrada Comunhão! respondeu a Jacinta numa alegria indizível. Não vês que era o Sangue que caía da Hóstia?!
E Francisco diz então estas palavras, que são a prova da veracidade das graças com as quais Deus enchia estas almas infantis:
«–Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era!
E prostrando-se por terra, permaneceu por largo tempo, com sua irmã, repetindo a oração do Anjo: Santíssima Trindade...etc.».
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Aqui se lhe comunicam todas três Pessoas, e lhe falam, e lhe dão a compreender aquelas palavras do Senhor no Evangelho, quando disse que viria Ele com o Pai e o Espírito Santo a morarem na alma que o ama e guarda os seus mandamentos... E cada dia se admira mais esta alma, porque lhe parece que as Pessoas Divinas nunca mais se apartaram dela; antes, notoriamente vê que, do modo sobredito, as tem em seu interior, no mais íntimo, num abismo muito fundo; e não sabe dizer como é, porque não tem letras, mas sente em si esta divina companhia. - Sta Tereza d'Avila, Castelo Interior, Sétimas Moradas, cap. I
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É no exemplo vivo desta criança que aprendemos o que muitos espirituais nos ensinam com palavras humanas e que nos torna difícil a compreensão do que seja a Santa Comunhão. Que extraordinária ação de graças fazem estas crianças, dias depois de receberem a comunhão, milagrosamente, das mãos de um Anjo, elevadas a um júbilo sobrenatural ao compreenderem que era Jesus escondido que os visitara.
A lição estava dada, a formação espiritual alcançara um grau em que já era possível que elas entendessem profundamente as graças que a Mãe do Céu viria lhes dar.
A história da vida de oração, da vida interior deles, apenas começava. E se foi com razão que disseram que o grande milagre de Lourdes foi a alma de Santa Bernadete, podemos dizer o mesmo destas três crianças, ou pelo menos das duas menores, visto que Lúcia ainda vive.
As aparições de Nossa Senhora
Chegamos ao dia 13 de maio de 1917.
Comecemos pela descrição que Lúcia nos faz na sua 4ª Memória. Transcrevo-a toda para os que nunca a leram. As crianças viram um reflexo de luz no céu, como um relâmpago, e com medo de uma chuva, vão tocando as ovelhas em direção à casa, quando vêem um segundo clarão e, logo depois, uma senhora sobre uma carrasqueira «Vestida de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio d'água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente...estávamos tão perto que ficávamos dento da luz que a cercava ou que ela espargia. Talvez a metro e meio de distância, mais ou menos». Esta proximidade com a luz que dela saía tem sua importância pelo que virá.
«– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
– De onde é vossemecê? perguntei.
– Sou do Céu.
– E o que é que Vossemecê me quer?
– Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.
– E eu também vou para o Céu? – Sim, vais.
– E a Jacinta? – Também.
– E o Francisco? – Também, mas tem que rezar muitos Terços.»
Depois desta introdução, que segue com perguntas sobre as amigas de Lúcia já falecidas, Nossa Senhora dirá o que realmente quer das crianças, dizendo coisas parecidas com as palavras do Anjo, já conhecidas dos três. Não vemos aqui Nossa Senhora ensinando-os a rezar ou as crianças perguntando do que se trata. Tudo é claro e rápido:
– «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ide pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
Dentro do nosso estudo das graças místicas das três crianças, temos os seguintes elementos nesta primeira aparição:
- elas se encontram dentro da luz que emana da Virgem.
- Nossa Senhora lhes pede sofrimentos e eles aceitam já sabendo do que se trata.
- Ela confirma que sofrerão muito e terão o socorro especial da graça de Deus.
O que segue, é a conseqüência disso:
«Foi ao pronunciar as últimas palavras que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que nos penetrava no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.»
Estando dentro da luz que emana de Nossa Senhora elas vêem, das palmas das mãos da Senhora, brotar mais luz ainda. E essa nova luz penetra no íntimo de suas almas, dando-lhes um conhecimento que uma simples criança não poderia ter: conhecimento de si mesmos em Deus que era aquela luz. Ora, isso é o que acontecerá conosco no céu. Durante alguns instantes, que não foram demorados, mas também não foram muito rápido, elas estiveram no céu. O que mais impressiona é que elas não tenham morrido de amor, passando do êxtase para a glória. O fato é que a terra, naquele momento desapareceu para eles:
«Então, por um impulso íntimo, também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente: "Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento". Passados os primeiros momentos Nossa Senhora acrescentou: Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra».
Nossa Senhora não repetiu para eles a oração. Ela brota da iluminação em que estão mergulhados. A Santíssima Trindade já era deles conhecida pela oração do Anjo, assim como o amor por Jesus escondido no Santíssimo Sacramento. Ambos lhes foram comunicados na terceira aparição do Anjo, quando as crianças comungam de suas mãos.
É preciso compreender que o que há de mais rico e elevado nesta aparição de Nossa Senhora está escondido no coração das crianças: «Omnis glóriae filiae Regis ab intus – toda a glória da filha do Rei vem do interior» (Sl.44). E a Virgem Maria permanece ali, no silêncio das colinas de Fátima, rodeada por três inocentes criancinhas, mergulhadas num êxtase de amor. Quanto tempo ficou ali a Mãe de Deus? Ninguém sabe.
Na verdade, o que Nossa Senhora comunicou às almas das crianças naquele momento foi algo diferente das aparições do Anjo: «A aparição de Nossa Senhora veio de novo a concentrar-nos no sobrenatural, mas mais suavemente. Em vez daquele aniquilamento na Divina presença, que prostrava mesmo fisicamente, deixou-nos uma paz e alegria expansiva que nos não impedia falar, em seguida, de quanto se tinha passado.» (4ª Memória).
E, de fato, os três falavam entre si com facilidade sobre o grande acontecimento. Jacinta será mesmo indiscreta, contando em casa o acontecido, o que será motivo de muito sofrimento e humilhações para os três.
«...foi ela que, não podendo conter em si tanto gozo, quebrou o nosso contrato de não dizer nada a ninguém. Quando, nesta mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo: Ai! que Senhora tão bonita!» (1ª Memória)
E Francisco também expansivo:
«Oh! Minha Nossa Senhora, terços rezo todos quantos Vós quiserdes!» E ainda: «Gostei muito de ver o Anjo; mas gostei ainda mais de Nossa Senhora. Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus! Mas Ele está tão triste por causa de tantos pecados. Nós nunca havemos de fazer nenhum.»
A vida dos pastores se transforma e seria muito longo nós comentarmos todas as impressionantes mortificações que eles farão, pela conversão dos pecadores, para que as almas não se percam no inferno, para consolar o Bom Deus já tão ofendido.
No entanto devemos marcar a vocação própria dos dois menores: Jacinta fica muito impressionada com o inferno, antes mesmo de terem a visão da terceira aparição; a pequenina pensa com freqüência nos pobres pecadores que sofrerão para sempre ali.
Francisco, o mais interior dos três, isola-se em oração, rezando o Terço, pensando sempre em consolar a Deus.
Mas as graças não param na primeira aparição. Suas almas ainda têm mais a aprender sobre Deus e sobre elas mesmas. E a lição de vida mística continuará na segunda aparição.
A Segunda Aparição: 13 de junho de 1917.
Tanto pelas palavras de Nossa Senhora quanto pela visão da luz que se irradia novamente de suas mãos, esta segunda aparição nos mostra a missão de cada uma delas e a importantíssima revelação da devoção ao Imaculado Coração de Maria:
– Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu.
– Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá m ais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.
– Fico cá sozinha? perguntei com pena.
– Não filha. E tu sofres muito?! Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio, e o caminho que te conduzirá até Deus.
Foi no momento em que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu, e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um coração cercado de espinhos que parecia estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação.» (4ª Memória)
Esta visão sublime e tão importante foi como um segredo que eles conseguiram guardar, pois tratava-se da vida deles. Só em 1941, ao redigir estas Quartas Memórias, é que irmã Lúcia revelará ao mundo esta luz.
Porém, o modo como Deus se serviu de seus inocentes amiguinhos para revelar ao mundo o Imaculado Coração de sua Mãe Santíssima é outra marca da grandeza dos acontecimentos de Fátima.
«Parece-me que neste dia, este reflexo teve por fim principal infundir em nós um conhecimento e amor especial para com o Coração Imaculado de Maria, assim como das outras duas vezes o teve, me parece, a respeito de Deus e do mistério da Santíssima Trindade.» (3ª Memória).
Vemos assim que não foi por causa da visão do Coração na palma da mão que os corações das crianças passaram a ter grande amor pelo Imaculado Coração, mas sim pela luz divina que lhes foi comunicada, com o conhecimento infuso da realidade de fé que se escondia por detrás daquela visão extraordinária. Devoção real, sólida, profunda, sem nada de sentimental. «Desde esse dia sentimos no coração um amor mais ardente pelo Coração Imaculado de Maria.A Jacinta dizia-me de vez em quando: "Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do seu Coração. É tão bom!» E antes de ir para o hospital ela insistia com Lúcia para não ter medo de, chegada a hora, dizer ao mundo que Deus queria a devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Não sei se as longas citações das Memórias de Irmã Lúcia nos desvia das considerações de ordem espiritual, no sentido da vida mística das crianças. Mas tudo o que foi citado mostra as principais etapas e acontecimentos que foram formando e elevando as suas almas.
Assim é que, entre a segunda e a terceira aparição aconteceu um fato de grande importância para o que estamos a tratar. Lúcia passa por uma grande noite da Fé. Ela, cheia de dúvidas, achando que tudo aquilo pode ser do demônio, e os seus priminhos chorando e sofrendo por ver a prima naquele estado. Grandes purificações para grandes almas. Todos os esforços foram vãos para convencer a mais velha, que só foi ao encontro por ter sido arrancada de sua casa por um impulso mais forte do que ela, indo encontrar os dois pequenos chorando de joelhos em sua casa. E Francisco dirá depois como se comporta os santos diante das grandes decisões: «Credo! Aquela noite não dormi nada; passei-a toda a chorar e a rezar para que Nossa Senhora te fizesse ir!» (4ª Memória)
Eles estavam, enfim, prontos para a grande revelação que Nossa Senhora queria lhes fazer.
A Terceira Aparição: 13 de julho de 1917.
A narrativa da terceira aparição nos afastaria do nosso assunto. Lembremos apenas que ela é o centro do conjunto de aparições e de fatos sobrenaturais que as três crianças assistiram:
- a visão do inferno para onde vão as almas dos pecadores
- o Imaculado Coração de Maria como remédio para salvar a humanidade desse inferno
- a Rússia, castigo para esse mundo pecador
- a terceira parte do segredo, que segundo testemunho de altas personalidades da Igreja, que a leram, fala da terrível crise de fé que assola o mundo e a Igreja desde o último Concílio.
O que mais nos interessa aqui é a impressão que lhes ficou da visão do inferno e das profecias ditas por Nossa Senhora: «Na terceira aparição, o Francisco pareceu ser o que menos se impressionou com a vista do Inferno, embora lhe causasse também uma sensação bastante grande. O que mais o impressionava ou absorvia era Deus, a Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma. Depois dizia: "Nós estávamos a arder naquela luz, que é Deus e não nos queimávamos! Como é Deus!...não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!...» (4ª Memória)
Esta elevada e bela afirmação vem se juntar a todas as outras que já fizemos da vida de Francisco Marto, onde sua alma de criança e de santo se desenha com tanta clareza, inundada desta graça de vida mística, de vida perdida em Deus.
Jacinta, ela, viverá até o fim com esta visão do inferno diante de si, como um aguilhão que lhe dará sempre mais forças para sofrer: «A vista do Inferno tinha-a horrorizado a tal ponto que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, para conseguir livrar de lá algumas almas... Algumas pessoas, mesmo piedosas, não querem falar às crianças do Inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três e uma de seis anos apenas, e que Ele sabia se havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, de susto se definhar.
Com freqüência se sentava no chão ou nalguma pedra e pensativa começava a dizer: "O inferno, o inferno! Que pena eu tenho das almas que vão para o inferno! E as pessoas lá, vivas, a arder como a lenha no fogo! E meio trêmula ajoelhava, de mãos postas, a rezar a oração que Nossa Senhora nos havia ensinado: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem".» (3ª Memória)
Muitas graças extraordinárias são descritas por Lúcia sobre seus primos. A visão que Francisco tem de um demônio, como o que eles viram na visão do inferno, a visão que Jacinta tem do Papa, bi-locação, as profecias sobre as modas que ofenderão a Deus. Um pouco antes de sua morte, Nossa Senhora aparece para ela e lhe pergunta se ela aceita continuar a salvar as almas do inferno. Todas elas são confirmações, conseqüências da elevação a um alto grau de santidade operada pelo aprendizado do Céu, desde as aparições do Anjo até a morte das duas crianças. Mas voltemos ao dia 13 de julho:
Quando Nossa Senhora chega sobre a azinheira, Lúcia fica muda, em êxtase, diante dessa luz intensa, da qual ela tinha duvidado. Foi Jacinta que a alertou: fale pois ela já está falando com você. Lúcia, sempre discreta sobre as graças recebidas por ela própria ficará sempre com saudades do céu, e quando ela manifestava isso a eles, Jacinta lhe lembrava que o Imaculado Coração de Maria seria o seu refúgio. Sua missão quase profética de anunciar a revelação do Imaculado Coração de Maria parece, aliás, ter começado ainda no dia da última aparição. Eis o que nos conta o Dr. Carlos Mendes:
«Quando o sol voltou ao normal, tomei Lúcia nos meus braços para leva-la até o caminho. Meus ombros foram assim o primeiro púlpito de onde ela pregou a mensagem que acabara de lhe confiar Nossa Senhora do Rosário. Com grande entusiasmo e Fé ela gritava: "Façam penitência, façam penitência! Nossa Senhora quer que façais penitência. Se fizerdes penitência a guerra acabará". Ela parecia inspirada. Era impressionante ouvi-la. Sua voz tinha entoações como a voz de um grande profeta.»
A Continuação
Depois da morte de Francisco e Jacinta, Lúcia continuará recebendo muitas graças e procurando desempenhar seu papel de testemunha da vontade de Nossa Senhora. No dia 10 de dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e ao lado, suspenso numa nuvem luminosa, um Menino. Nossa Senhora pôs sua mão no ombro da religiosa e mostrou-lhe na palma da outra mão, seu Coração cercado de espinhos. Disse o Menino: "Tem pena do coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar."
E Nossa Senhora pede, então, que irmã Lúcia espalhe pelo mundo a devoção dos 5 Primeiros sábados do mês. A todos os que se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de desagravar ao Imaculado Coração de Maria, a boa Mãe do Céu promete assistir na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação. E mais tarde Nossa Senhora explicará porque pediu 5 sábados: porque são cinco as espécies de ofensas e blasfêmias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria:
- blasfêmias contra a Imaculada Conceição
- contra sua Virgindade
- contra a Maternidade divina, e recusa de recebe-la como Mãe
- os que procuram infundir nos corações das crianças a indiferença, o desprezo e até o ódio para com esta Imaculada Mãe.
- os que a ultrajam em suas sagradas imagens.
Os grandes mistérios revelados e vividos pelas criancinhas de Fátima continuam, portanto, diante de nós, diante do mundo indiferente. Cabe a cada um de nós tomar a iniciativa de se entregar ao amor desta incomparável Mãe, que trouxe o Céu até a terra, nas terras de Portugal, para a nossa salvação. Que os bem-aventurados Francisco e Jacinta de Fátima intercedam por nós, para que nós estejamos à altura deste amor Maternal que Nossa Senhora quer nos comunicar. Rezemos o Terço todos os dias.
Na volta às aulas deste ano de 1999, ficou patente o quanto estamos à mercê de um poder que nos escraviza. Já há muito que as aulas de ciências servem para corromper a inocência das crianças, desde as primeiras séries. Vestindo a máscara do assunto "científico", livros para crianças de 8 anos descrevem a reprodução humana sem o menor cuidado com as alminhas delicadas de crianças inocentes, mas que carregam a inclinação da concupiscência e as levam a ter curiosidades perigosas.
A cada ano aquele assunto voltará, sob diversos aspectos, mantendo a atenção da criança na fonte de pecados contra a pureza do corpo.
Mas o que vimos este ano ultrapassou todos os limites.
Depois de ter estudado todos esses anos este assunto, depois de terem suas forças minadas, ouvindo os professores falarem (científicamente!) sempre sobre isso, as crianças de 12-13 anos que ingressaram na 7ª série tiveram que comprar livros de ciências sobre o corpo humano. Mais uma vez vão falar do assunto. Porém, desta vez, aquilo que era ciência passou a ser Moral. Dentro do livro, em páginas de coloração diferente, bem destacado, introduziu-se uma verdadeira aula sobre pecados diversos contra o 6º mandamento da lei de Deus: não pecar contra a Castidade. Com ilustrações e desenhos de alta qualidade, o autor ultrapassa todas as barreiras da ética profissional, invade o campo alheio para deixar de lado a ciência do corpo e querer falar sobre a ciência da alma! Que autoridade tem esse autor, ou o diretor da escola que adota este livro, ou um professor que ouse falar destas coisas para meninas de 12 anos, que autoridade, repito, têm eles para falar sobre relacionamento sexual e ensinar as crianças a pecar?
Mas eles são materialistas, não acreditam em nada que não seja palpável e mensurável, não acreditam mais na alma, criada à imagem e à semelhança de Deus, ou seja, espiritual, inteligente e livre. Como pode um cérebro, um mecanismo, um corpo animal, conhecer como nós conhecemos, e amar livremente (conscientemente) como nós amamos, isso eles não explicam e nem podem explicar. Mentem! Inventam mágicas inexplicáveis cientificamente segundo as quais o cérebro foi evoluindo, evoluindo e, aos poucos começou a pensar.....
Logo, nada mais somos do que animais evoluídos e por isso, devemos usar do sexo como animais!Claro! Não existe a alma racional para impor aos sentidos uma razão elevada, uma finalidade sobrenatural. A dúvida é que eles não explicam porque, sendo tão evoluídos, eles ensinam aos homens um comportamento sexual tão degradante e baixo, inexistente no mundo animal. Se os homens seguissem o exemplo da natureza dos animais, que respeitam totalmente as finalidades criadas por Deus, não pecariam tanto!
Mas voltemos à escola pervertedora de crianças.
Falta ainda analisar a atitude dos pais diante desta monstruosidade.
Não existe nada que me faça entender que um pai, ou uma mãe, deva assistir ao envenenamento de seus filhos sem nada fazer. Eu bem sei que as crianças não aprendem estas coisas somente nestes livros, que é preciso acompanhar passo a passo as descobertas que elas fazem, e ir conversando, instruindo de modo católico, dando-lhes a consciência do pecado e a simplicidade da confissão, quando caírem. Quantas vezes eu mesmo ensinei assim.
Mas existem limites.
Uma coisa é a escola ensinar antes da hora, um aspecto natural do nosso organismo que, em si, nada tem de errado. Por ser ensinado antes da hora pode provocar curiosidades e mesmo pecados. Neste caso, pode acontecer que a única saída seja conversas e explicações para defender os filhos.
Outra coisa inteiramente diferente é a escola ensinar a pecar, pura e simplesmente. Neste caso, só existe uma atitude possível. Puxar a espada! Qualquer outra atitude seria uma fraqueza pecaminosa da parte dos pais.
Creio que a diferença entre as duas atitudes postas em negrito é bastante clara. Essa diferença estabelece o tipo de ação, assim como a responsabilidade dos pais em reagir à altura da gravidade da contaminação.
Daí vem a orientação que dei aos pais de rasgarem estas páginas dos livros antes das crianças lerem, e de se organizarem para que seus filhos não assistam às aulas que os professores derem sobre isso. Mais uma vez: eles não têm autoridade para ensinar a Moral, para ensinar quando um ato humano é bom e quando ele é mau. A moralidade dos nossos atos vem de Deus, de sua Lei Santa, da natureza criada e dirigida por Ele só. Por isso, só a Igreja Católica, única religião Revelada por Deus, pode nos dizer o que é certo e o que é errado. E os pais têm obrigação de ensinar assim aos filhos.
Depois que o papa Bento XVI recusou-se a assinar o documento que falsifica a doutrina sobre o Limbo das crianças mortas sem batismo, chega-nos agora a notícia de que o documento acaba de ser publicado com a autorização do Pontífice. Método típico da Revolução, que toma atalhos extra-oficiais apimentados com uma ou duas mentiras difíceis de serem confirmadas. Ou será que, de fato, teria o papa autorizado a publicação? Por enquanto não encontrei nenhuma versão oficial da notícia, mas o texto é citado pelas agências de informação.
Quanta asneira dizem esses falsos teólogos! Quanta arrogância e pretensão, de querer enganar o povo fiel com argumentos tendenciosos e de falsa doutrina. Basta uma formação média na doutrina para sentir o cheiro da heresia. Iniciam seu raciocínio com a questão da vontade de Deus. Dizem estes senhores que Deus é misericordioso e quer a salvação de todos os homens. Dizendo assim, parece que a Igreja Católica, de tantos santos doutores, de um Sto Anselmo que festejamos neste dia 21 de abril, de um São Tomás de Aquino, de tantos santos papas, não percebeu, ao longo de seus dois mil anos, a límpida verdade. Ora, ora... descobriram a pólvora! Deus quer a salvação de todos os homens! Pois eu digo que se Jesus Cristo estivesse diante desta tal comissão, diria: "Raça de víboras"! porque não apresentam aos fiéis a doutrina completa sobre a vontade de Deus? Porque não dizem que, na sua vontade absoluta, sim, Deus só pode querer a salvação de todos os homens. Mas na sua vontade aplicada, ou seja, diante da realidade de cada um dos homens, a vontade de Deus como que respeita as circunstâncias das causas segundas, da vontade livre do homem, da situação das almas, dos atropelos da vida. A vontade de Deus só se torna eficaz com a colaboração do homem. Se assim não fosse, seríamos robôs, e não seres criados à imagem e semelhança de Deus.
Depois de falsificar assim o princípio básico do raciocínio, a quadrilha de "teólogos" parte para outra frente de combate revolucinário: a doutrina do Limbo seria apenas uma hipótese teológica. Desconhecem estes bastardos da fé o modo como a doutrina da Igreja forma sua unidade coesa e sólida? Claro que sabem. Mas escondem e querem impor a novidade a qualquer preço, e escondem a verdade. E onde está a verdade? É dogma ou não é dogma? A verdade é que a teologia católica não é feita apenas de dogmas. Existem muitas verdades anexas aos dogmas, as quais, se forem negadas, atingem em cheio o dogma a que elas se referem. Por isso elas são intocáveis, não havendo autoridade neste mundo que as possa mudar. No caso do Limbo, o dogma do pecado original e o dogma da necessidade do batismo para a salvação. Com que autoridade podem eles sair por aí, numa revista americana, com ou sem o aval do Vaticano, dizendo que o Limbo é uma hipótese? Hipótese é Vaticano II, meus senhores! Hipótese é esta tese revolucinária, anti-católica, herética e que só serve ao senhor das Trevas. E porque razão pretendem estes modernistas evolucionistas, prestidigitadores, que os católicos deixem de dar seu assentimento de fé ao que a Igreja sempre ensinou, com a garantia de dois mil anos de santos e santidade, para aderir a eles? E por quanto tempo, pergunto eu, deveriam os católicos "obedecer" a estas fantasias? Até que um próximo passo seja dado e um documento novo venha acrescentar que, na verdade, não é só o Limbo que não existe, mas o inferno também?
Do mesmo modo, ao afirmar que é pela misericórdia de Deus que se estabelece esta novidade, mostram o total desconhecimento dos dogmas referentes a Deus. Reduzem a misericórdia divina a um sentimento humano, onde Deus teria pena das crianças mortas sem batismo, como se fosse possível para Deus ter sentimentos de pena e agir como um homem poderoso que agracia um criminoso que lhe pede perdão. Quanta fantasia. E dizem que são teólogos! Os autores tentam afirmar que esta doutrina não atinge o dogma do pecado original. Vamos mostrar que atinge sim.
A questão do Limbo está ligada intimamente à doutrina da necessidade do batismo para se entrar no Céu. Isto é um dogma da nossa fé, declarado explicitamente por Nosso Senhor a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito Santo não entrará no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito." (S. Jo, 3,5) Já aqui nos deparamos com uma justificativa dos modernistas de quererem acabar com o Limbo. De fato, depois de Vaticano II, estabeleceu-se a prática de deixar o batismo para um momento em que a pessoa possa escolher. Prática certamente diabólica, pela qual muitas almas, já contaminadas pelas tentações, tomaram o caminho do pecado e se embrenharam nas trevas do inferno. Porque, se é indiferente às crianças antes da idade da razão, morrerem com ou sem batismo, então desaparece a necessidade de batizar-se desde o nascimento. Mas não é esta a Tradição dos Apóstolos: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de batizar também as criancinhas" (Orígines, Ad Rom. VI,6). E o Concílio de Trento determinará que sejam batizadas as crianças recém-nascidas "ex traditione Apostolorum" (Dec. sobre o Pecado Original, 4). Sejamos honestos: não se pode dizer que o Limbo não existe porque Deus, na sua misericórdia, leva as almas das crianças para o céu mesmo sem batismo e, ao mesmo tempo, afirmar que esta nova doutrina não afeta o dogma do pecado original e da necessidade do batismo.
Vários erros grosseiros são cometidos por esta super "Comissão Teológica Internacional", da Congregação para a Doutrina da Fé. Segundo as citações apresentadas pela imprensa, um dos membros "acrescentou que os muitos fatores analisados oferecem a suficiente base teológica e litúrgica para se acreditar que as crianças que morrem sem batismo se salvarão e gozarão da visão beatífica". Pelo visto estas razões teológicas são tão fracas quanto o argumento levantado na notícia: Para este membro da Comissão, no caso das crianças mortas antes da idade da razão, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado. Oh! trevas da ignorância; Oh! astúcia do antigo inimigo! A quem querem estes senhores enganar? Pois quem foi que disse que as crianças mortas sem batismo vão para o Limbo por causa do pecado? Este senhor acaba de provar que o Limbo existe, pois se a razão da não existência do Limbo é uma suposta prevalência da misericórdia sobre o pecado, basta assinalar a doutrina católica que dá razões bem diferentes para a existência do Limbo e todo o trabalho desta comissão será posto a nu diante de todos, como mais uma armação contra a fé católica.
De fato, o que obriga a existência do Limbo é a ausência de vida sobrenatural antes do batismo. Esta ausência se deve à presença do pecado original, sua marca na alma. Mas a presença do pecado original não significa que exista a culpa do pecado original, sendo esta atribuída a Adão e Eva. Não havendo a culpa, não há como se contrapor a este pecado a misericórdia de Deus. Esta só poderia ser apresentada como argumento diante de pecados pessoais, com a culpa correspondente. Mas, por definição, estes pecados atuais não existem na alma das crianças antes da idade da razão. Não há como negar, isso é dogma da nossa fé (e eles afirmam que o Limbo nada tem a ver com o dogma!) Quando um bebê nasce, ele possui a alma espiritual em estado natural: capacidade de conhecer, pela razão natural, e capacidade de amar, por atos livres da sua vontade. Mas ela não está apta, apenas por sua natureza, a ter em si a presença de Deus, a graça santificante, a posse do Divino Espírito Santo. Em outras palavras: ela não é o templo da Santíssima Trindade. Deus Nosso Senhor quis que só mediante o batismo nos fosse dada, em acréscimo, esta capacidade de vida sobrenatural. (cf. S. Marcos 16, 15) Se alguém achar isso injusto, que vá se entender com Nosso Senhor lá na porta do céu. Não temos o que discutir o que é Revelado por Deus, basta-nos o ato de fé; e o batismo é o meio de obter a vida da graça, sendo, certamente, o melhor para nós, o mais fácil, o mais comum, o mais usual. As Sagradas Escrituras nos trouxeram pelo menos um exemplo maravilhoso desta imensa bondade e misericórdia de Deus, que facilitou a entrada de tantas almas na visão beatífica: o batismo é dado com água, e qualquer pessoa pode batizar. Foi na estrada de Gaza, onde viajava o eunuco da Rainha da Etiópia, sentado em um carro, lendo o livro de Isaías. A ele foi enviado o diácono Felipe, por obra do Espírito Santo. E ali mesmo, na beira da estrada, o pobre homem pergunta a Felipe: "Eis água, que motivo me impede de ser batizado". (Atos, 8, 26) E Felipe o batiza, na beira da estrada, em açude ou riacho, e o milagre se consuma: aquela alma já não é um pagão, já não é incapaz da graça, mas tornou-se luminosa, filho de Deus, plenamente apta para a vida sobrenatural e mergulhada nela. E este milagre, os falsos teólogos querem roubar das criancinhas, atacando um dos flancos da muralha protetora da fé, que é o Limbo.
O que é o Limbo?
Diante da guerra levantada contra a doutrina católica sobre o Limbo, as pessoas sem formação tendem a pensar que este lugar é um castigo, quando na verdade não é. Trata-se de um lugar apropriado para a capacidade de uma alma humana impedida, pela presença do pecado original, de ter a vida sobrenatural. E o que acontece com esta alma, no Limbo? Ela vai agir segundo as suas capacidades naturais, e isto vai depender da idade em que tiver morrido. Se chegou a desenvolver um pouco sua inteligência e sua vontade, poderá receber algum conhecimento natural de Deus e dos eleitos do paraíso, que lhe trará uma felicidade natural compatível com o seu estado. É, portanto, um lugar de paz, de felicidade natural. Não é um lugar de visão beatífica, porém isso não afeta as almas dali, pois elas não têm nem mesmo a noção do que seja a visão beatífica, não podendo assim desejá-la ou sentir inveja dos eleitos do Paraíso. Ao contrário, Deus pode perfeitamente alegrar estas alminhas permitindo que algum lampejo da luz do Céu venha iluminar este lugar, como fogos de artifício para que batam palmas ao Criador.
Onde querem chegar?
Vários erros modernistas, da Nova Teologia de Henri de Lubac, von Balthasar e outros exigem as mudanças que esta comissão tenta empurrar goela abaixo aos católicos. Toda a Nova Teologia e Vaticano II baseiam-se na redução da ordem sobrenatural à ordem natural. Ou seja, a graça e a glória do céu deixariam de ser acréscimos sobrenaturais dados gratuitamente por Deus, para fazerem parte da própria natureza do homem. A partir daí, fica fácil introduzir outras novidades, como a salvação universal de todos os homens, já ao nascer, ou ainda o emparelhamento de todas as religiões como sendo eficazes para salvar os homens. De fato, se as crianças mortas sem batismo vão necessariamente para o céu, já não se faz necessária a fé católica, abre-se a porta para o ecumenismo radical e alucinado proposto durante mais de trinta anos por João Paulo II. Abre-se também as portas para canonizações de pessoas que, pelos critérios católicos, nunca alcançariam os altares. O próprio João Paulo II, absurdamente proposto para ser beatificado; Madre Tereza de Calcutá, a queridinha da mídia mundial, que proibia que fossem batizados, em seus hospitais, as crianças em perigo de morte vindas de outras religiões. Se elas iriam para o céu, então esta atitude seria tolerável, mas se a doutrina verdadeira, do Limbo, é a tradicional, então esta religiosa nunca poderá ser canonizada pelos ritos tradicionais, tendo impedido tantas e tantas alminhas de irem para o céu.
Ainda na questão das intenções destes agentes do mal, devemos assinalar a frase citada na imprensa: "o limbo representava um "problema pastoral urgente", pois há cada vez mais crianças que nascem de pais não católicos e que não são batizados e também "outras que não nasceram ao serem vítimas de abortos". A se confirmar o teor desta afirmação, estamos diante de um curioso critério dogmático: já que Vaticano II derrubou a fé católica no mundo inteiro, aumentou consideravelmente o número de crianças nascidas de pais não católicos. Cabe então, segundo a frase citada, uma modificação no dogma católico, para arrombar a porta do céu, explodir tudo, deixar entrar todo mundo, batizado ou não batizado, vindos de pais católicos ou não. É impressionante a pretenção dos desvairados: arrombaram as portas da Igreja com sua "abertura ao mundo" e com isso acham, sem se darem conta do ridículo, que abriram também as portas do céu.
Não estamos mais em 1965, ou em 1969. Naqueles dias, os católicos engoliram a heresia progressista sem perceber e hoje já não sabem mais o que são. Diante destes fatos urge ao católico armar-se com a armadura de Deus, resistindo-lhes fortes na fé, com a espada da verdade, o elmo da salvação, a alegria no coração no bom combate, na esperança da salvação, na vida eterna do céu.
Estamos debaixo de uma verdadeira avalanche. Ouvimos o ruído estrondoso de uma montanha que despenca morro abaixo, sobre os homens: a maioria acha lindo e bate palmas; outros poucos choram e pedem a Deus "que as montanhas caiam sobre nós". Será de neve, a avalanche, como nos Andes? Ou de lama e rochas, como na serra de Petrópolis? Será de lixo e barracos como nas favelas cariocas? Apesar de todas estas avalanches serem graves e horríveis, falo aqui de outro tipo de destruição. A humanidade, orgulhosamente fincada em pés de barro, achando-se forte como o ferro e rica como o ouro, ousou gritar no desfiladeiro e se alegra com o rufar da neve, da lama, do lixo e de tudo o mais. Porque não restará pedra sobre pedra quando a vingança de Deus se levantar.
Esta avalanche provocada por sérios cientistas de jaleco branco, provocada por não tão sérios políticos de terno e gravata, está em todos os jornais, em todas as revistas de nosso pobre país. Está liberada a manipulação de cadáveres, de inocentes criancinhas abortadas. Depois do assassinato, vem a feira. O produto do assassinato é, assim, posto nas prateleiras da feira da esquina, onde os embriões humanos, aqueles mesmos que poderiam, amanhã ser um grande homem, bom, honesto, santo talvez, e que teve sua existência roubada antes mesmo da luz, antes mesmo da tosse e do choro, do abrir dos olhos para ver os olhos da mãe, estes bebês vão virar remédio! Dizem que já viram cosméticos num mercado macabro e paralelo. Agora vão ser sopinhas nutritivas.
Não vou entrar aqui nos detalhes da coisa, do monstro horrendo que nos devora sob os aplausos do mundo. Quisera antes tremer como o homem do leme diante do monstrengo do fim do mundo, tremer mas lutar, em nome d´El Rei e Senhor de toda a terra, e do céu e do mar:
"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
Um corpo sem cérebro tem alma?
Podem juntar todos os argumentos que estes homens maus e desgraçados lançam enganando a gente simples. Todos juntos não valem um graveto de palha. Começa que são materialistas até o fundo da alma. E sendo materialistas, querem nos impingir a falsa idéia de que um corpo humano sem cérebro não é humano, logo poderia ser abortado. Falso. Um corpo humano, no primeiro momento de sua existência, ou seja, na primeira divisão celular que ocorre quando as células reprodutoras do homem se unem às da mulher, neste momento em que se forma maravilhosamente o código genético que nunca mais será alterado, até a morte; neste momento em que todas as características do homem maduro já estão presentes, neste momento em que não existe nem cérebro, nem coração, nem órgão algum, Deus, o Criador dos homens e do mundo, sopra, num ato único de criação, particular, daquele ser, uma alma imortal, espiritual, racional. A presença desta alma é atestada pela nossa própria reflexão, pela própria observação do ateu que afirma não existir a alma. Só um ser dotado de alma espiritual seria capaz de escrever um artigo para tentar provar a não existência da alma racional. Só um ser dotado de vontade livre e espiritual, e não de instinto material, poderia tomar uma decisão tão grave de enfiar uma ferramenta dentro do útero de uma mulher para estraçalhar a cabeça de uma criancinha inocente, linda, maravilhosamente viva, que se debate defendendo sua vida, como se fora um adulto nas mãos de inimigos cruéis. O assassino cruel tem nas mãos a ferramenta da contradição e o castigo clama aos céus. O ato pecaminoso que comete é a prova da nulidade de seus argumentos.
Mas eles não se dão por vencidos, lá vem os materialistas enlouquecidos insistir que um embrião sem cérebro não é humano, que pode ser abortado. Vamos tentar entender a argumentação. Se eles dizem que não é humano porque não têm cérebro, significa que, para essa gente, é o cérebro que define o homem. Se tem cérebro é humano, se não tem cérebro não é. Para um materialista, faz sentido, pois onde poderia ele se apoiar para explicar a vida? No centro de comandos dos sinais vitais. É compreensível, mas é pobre como explicação, é falso. Mas a questão é, como já assinalei acima, que o fato do organismo humano ter um centro nervoso que explique seus atos, seus movimentos físicos e psíquicos, não dá razão de um único pensamento racional. Não há nada na matéria que possa explicar como uma criança, olhando um ser estranho, pergunte para seu pai: — Pai, isso é bicho ou gente? A formulação da questão onde aparecem conceitos racionais definindo seres diferentes só é possível a partir de algo que está acima do centro nervoso ou do bater do coração. O simples bom senso permite que se entenda isso com facilidade, mas esta sabedoria popular parece faltar nos políticos e cientistas ateus. Ou será que eles entendem, mas têm outros interesses inconfessáveis? Imaginem um quadro de botões para apagar e acender um jogo de luzes. Dizer que o cérebro é a razão da vida, significaria dizer que o quadro de botões explica a luz. Do mesmo modo que o coração não explica a vida, apenas bombeia o sangue que alimenta os órgãos, assim também o cérebro, apenas abre e fecha comandos. Poderíamos imaginar que o funcionário de uma estrada de ferro que move com uma alavanca os trilhos para desviar o trem para determinada direção seria a razão essencial da viagem?
Como se combinam corpo e alma
Se o cérebro é matéria, faz-se necessário encontrar a forma substancial que explique o seu funcionamento. Desde Aristóteles que o homem aprendeu que todo ente material não possui na própria matéria a razão do seu ser. Todo ser material precisa da forma substancial para explicar o que ele é. O corpo humano, portanto, precisa de uma forma que explique e defina o ser humano e todas as suas faculdades. O cérebro só é causa dos impulsos nervosos, ou seja, algo material e físico; nada tem a dizer sobre uma série de atos que se constata no agir humano e que ultrapassam o domínio da matéria: o saber intelectual, o querer livre que comporta uma escolha, a renúncia de um bem material por escolha de um bem espiritual etc. A forma substancial do homem precisa dar razão também desta atividade espiritual, que se constata tão facilmente. Logo deve-se concluir na existência de uma forma substancial espiritual, capaz de todos os atos não materiais. Esta forma substancial é a alma. O termo procede de "coisa animada" e por isso será usada por Aristóteles de modo analógico em cada nível de atividade vital: a alma vegetativa explica como um ser material consegue atividades vitais nos vegetais; alma sensitiva explica como um ser material consegue atividades sensíveis e vitais nos animais; alma espiritual explica como um ser material consegue atividades espirituais, sensíveis e vitais, no homem. É na seqüência deste raciocínio que se alcança a compreensão da imortalidade da alma. Pois se as atividades espirituais do homem não têm sua origem na matéria (que se decompõe), mas sim na alma espiritual criada por Deus na concepção, então deve permanecer mesmo quando o organismo material falha, causando a morte, ou seja, a separação daquela matéria de sua forma substancial que a organizava, a mantinha na vida, a fazia agir.
A morte cerebral
Se é na origem da vida, no embrião, que a sociedade apóstata descarrega todo o seu ódio e loucura, na outra ponta da vida também estará presente a fraude do homem brincando de Deus. Tudo começou com os transplantes de coração, mas acontece também com transplante de fígado e outros órgãos vitais. Para que estes órgãos sejam viáveis para um transplante, é necessário que o coração do doador ainda esteja batendo, que o sangue ainda corra em suas veias, em outras palavras: que o doador esteja VIVO. Evidentemente a prática das doações de órgãos vitais trouxe para o mundo da medicina interesses que passam longe da cura dos doentes. Um mercado impressionante se estabeleceu nos grandes países e é a peso de ouro que este tipo de operação é feita. Era preciso continuar matando doadores para que as pesquisas continuassem e o mercado não se extinguisse. Calaram o crime e inventaram rapidamente um subterfúgio: a morte cerebral. A sociedade, por estar adormecida e sedada pelos prazeres, pela televisão, pelo grande objetivo de enriquecer, não percebeu o engano e foi engolindo a falsa noção de morte que estes senhores inventaram. Quando o cérebro não apresenta mais determinado nível de atividade nervosa, considera-se que a pessoa está morta e começa a carnificina, sob os eufemismos de "caridade", "benemérito da humanidade" e "salvador de vidas", que são passados para as famílias, em geral já anestesiadas pela dor do momento. A guerra é tão absurda que os organismos internacionais e os governos calam os cientistas que têm provado que certos tratamentos como a hipotermia (diminuição da temperatura do corpo) têm trazido grande número de "mortos cerebrais" de volta às atividades cerebrais. Se voltam é porque não estavam mortos. E se arrancam seus órgãos neste estado, estão assassinando. Portanto, não permitam que se faça o retalhamento dos seus doentes em coma profundo. Se não for possível que voltem, pelo menos que possam morrer em paz, assistidos por um padre para a salvação de suas almas.
Eutanásia
Evidentemente estamos entrando à galope na era da eutanásia. Hollywood está aí, desprezando o sucesso estrondoso do excelente filme "A Paixão de Cristo" para elevar à gloria dois filmes de propaganda de eutanásia ou suicídio assistido, como gostam de dizer. Já passou o aborto, já passou o homossexualismo, agora chegamos à escolha da morte. O homem que já se acha no direito de matar as criancinhas inocentes agora exige aos berros o direito de matar a si mesmo quando achar razoável. Não é preciso conversarmos sobre o que seja razoável ou não; Deus só é Senhor da vida e da morte. Nossa vida nos foi dada por Ele e só Ele pode tomá-la da volta. Nós somos depositários e temos contas a prestar no dia do juízo. É preciso viver num mundo pagão e sem razões profundas como é o neo-paganismo atual para achar que uma doença sem solução seja motivo para buscar a morte. Não é. Todo sofrimento tem uma razão, a qual se refere necessariamente com o resgate do gênero humano realizado por Jesus na Cruz. Ele deu sua vida por nós num sofrimento infinitas vezes maior do que qualquer sofrimento nosso, pois somava ao martírio terrível do seu corpo a expiação espiritual do peso tremendo de todos os pecados. Se os homens soubessem o que é o dogma da Comunhão dos Santos, não perderiam um minuto de sofrimento sem oferecer. Se soubessem que todos os nossos atos atuam sobre as almas do nosso próximo, por ação da pura vontade divina, que aplica uma oração, um sacrifício oferecido, para o bem de outros que, muitas vezes, nem conhecemos. É como uma grande equilíbrio espiritual onde o fiel da balança é a vontade divina, o coração de Deus amolecido pela dor de seus filhos que oferecem uns pelos outros. É preciso lembrar aos nossos velhinhos que eles têm uma razão muito forte para suportar o peso da idade, da doença, das dores. Eles podem carregar o mundo nas costas, converter os piores pecadores, salvar almas para o céu. Nossa missão aqui na terra só termina na hora da morte, quando Deus nos chama para o descanso eterno. Não aceitem os falsos argumentos da televisão. Estudem e mostrem aos familiares e amigos que só Deus pode nos dar a recompensa.
Porque a morte é a separação da alma e do corpo quando o corpo não tem mais organização material suficiente para ser "animado". A morte não é um dado da religião. Vamos deixar as coisas claras. Nem a questão da morte cerebral, nem a eutanásia, nem o aborto, nem a manipulação de embriões são temas apenas religiosos. Não é preciso invocar nenhum tratado de teologia, nem passagem da Bíblia ou texto do Magistério para se rechaçar com todas as forças tais crimes. Estamos lidando com argumentação filosófica, natural, horizontal e humana. E se o Papa aparece diante do mundo como um ferrenho defensor do "direito à vida", não significa que ele o faça porque é o chefe da Igreja. Ele o faz porque é homem e assim como ele, todos os homens, de qualquer credo que for, devem também fazer. A moral católica vem reforçar a argumentação com os dados da Revelação e com o ensinamento infalível da Tradição. Mas não significa, de modo algum, que a defesa destes valores da vida humana seja uma "opção" de tal ou tal credo religioso. Portanto, o pecado existe para todos e se não houver uma conversão de tudo isso, em breve o castigo de Deus cairá sobre a humanidade.
Existe um direito à vida?
Costuma-se alegar como motivo para combater o aborto, o direito à vida. Os que assim argumentam costumam afirmar que a vida é um bem sagrado, um direito absoluto e o que há de mais importante para o homem. Apesar de compreender a boa intenção desta argumentação, não posso deixar de salientar que não me parece correto o argumento. É verdade que, estando vivos, existe um certo direito civil de desenvolvermos esta vida, de podermos viver em paz, de termos alimento para saciar a nossa fome etc. Mas este "direito" é da ordem civil, no trato entre homens dentro de uma sociedade. Mas quando argumentamos sobre aborto, eutanásia ou morte cerebral, estamos, antes de tudo, diante de Deus. E neste caso, devemos lembrar que recebemos a vida de Deus sem mérito algum da nossa parte. Existimos mas poderíamos perfeitamente não existir. E se não temos méritos, também não temos direitos. Antes, ao contrário, temos muitos deveres para com Deus e para com o próximo, seja ele a sociedade civil ou o padeiro da esquina. O que quero dizer é que nossa argumentação para condenar o aborto, o uso dos embriões, a eutanásia e tudo mais, é que estas coisas são crimes e pecados contra a Lei Santa de Deus, que foi inscrita nos corações de todos os homens, chamada Lei Natural; que foi explicitada na Revelação do Antigo Testamento, nos dez mandamentos, e que foi santificada pela doutrina salvífica do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que serve uma doutrina de salvação? Para nos dar uma vida feliz e com saúde, como se costuma desejar? Não me parece. A vida para nós só pode ser um bem imenso e absoluto se estivermos falando da Vida Eterna! A vida, em si mesmo, não é sagrada. Ela faz parte da ordem natural. Torna-se sagrada pelo Santo Batismo, quando recebemos a vida sobrenatural, divina, dentro de nós, nos transformando e nos tornando aptos para a Vida Eterna. E é nela, na Beatitude de Deus, no Céu, na Visão beatífica que estaremos descobrindo no próprio Deus a razão de ser de tantos sofrimentos neste vale de lágrimas.
Dom Lourenço Fleichman OSB
O que deve ser o voto de Feliz Natal de um padre, de uma Capela como a nossa a todos os nossos fiéis, a todos os nossos amigos e leitores? É de praxe e de bom tom trocar votos de felicidades nesta data do nascimento do Menino Jesus. E fazemos bem. Pois no fundo de nossas almas paira ainda a teologal esperança que avança sem tréguas em meio ao mar revolto deste mundo. Servirão os votos que damos e recebemos, pois de alguma forma as pessoas precisam da paz natural para viver em sociedade.
Mas é esse lado natural o que me incomoda. E onde está a realidade sobrenatural do Natal? Onde encontraremos, perdidos e abandonados nos cantos das ruas, os santos de outrora, que talvez corressem agitados, preparando tudo, organizando os mínimos detalhes de uma festa sem fim: Et Verbum caro factum est! Pois o Verbo se encarnou e habitou entre nós. O Verbo de Deus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, recebe uma natureza como a nossa para nascer na manjedoura em Belém. E onde estão as almas admiradas e contemplativas para fugir do shopping, largar as bolsas de compras, os presentes dos filhos, o novo celular, e correr desembestado por um estacionamento entupido..... Ah! Ele nasceu, eu vi a estrela, eu vi o Menino. Hosanna in excelsis! Eu vi, eu compreendi o que acontece. Por que não nos dizem isso? Onde estão os padres, onde estão os bispos, onde está o sangue católico, que já não corre nas veias dos homens, para nos dizer, para nos lembrar que o louco não sou eu que corri feito doido largando tudo no chão; os loucos são eles, que estão lá dentro, fazendo compras e mais compras; os doidos são eles, que, mesmo quando criticam o esvaziamento do Natal católico, não param para meditar no Mistério dos mistérios, na candura e inocência, na paz... na paz... Para que foi mesmo que ele nasceu? Para nos trazer a paz...
Não foi isso o que eu vi, não foi isso o que Ele quis me dizer quando me fez mergulhar naquele mundo de silêncio, no meio da multidão que corria agitada atrás das compras, das promoções, da última moda. Não foi isso o que o Príncipe da Paz me disse, quando abri seu Livro Santo e li: "Não vim trazer a paz, mas sim a espada!" Não, ele não veio nos trazer a paz, nesse sentido natural que os homens querem. É isso! Era isso o que me incomodava. Às favas com essa falsa paz de que nos fala o profeta, esse romantismo abusado que usa o Inocente, nosso Deus, para fingir que deseja a paz a todos. Não, não é isso o que eles desejam! O que eles querem é o paraíso na terra, é prolongar a vida até não poder mais, é liberar-se de toda obediência à Verdade Eterna. Pergunte a um deles se querem seguir os ensinamentos da Verdade? Qual Verdade? Eles não querem aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Eles querem, exigem, e batem pé: nós queremos a verdade de Pôncio Pilatos! Trata-se da verdade relativa, do liberalismo, de você seguir o que você pensa, autônomo, achando-se adulto, responsável... sem Deus, sem Cristo, sem a Igreja! Depois vêm me cantar musiquinhas bonitinhas na televisão para fazer chorar de emoção numa confraternização universal. Chega disso!
Por favor, não venham me dizer que é preciso esquecer certos acontecimentos, e deixar de lado as convicções, pois é noite de Natal. Acho que esse argumento pode ser válido para muitas ocasiões e para muitos natais. Mas se a causa de tantos desastres e tragédias está justamente no esquecimento de Jesus, no abandono da Criança de Belém, como não pensar nisso tudo? Se hoje a Argentina vive um Natal terrível e amanhã qualquer país o poderá viver também; se hoje aviões são lançados sobre prédios porque os loucos assassinos querem matar todos aqueles que não pensam como eles. Se tudo isso acontece porque o Rei Pacífico não tem direito de reinar sobre as nações, então essa paz e essa felicidade que eles desejam é de uma hipocrisia total!
E no entanto... E no entanto há lugar para a Paz, desde que não seja a paz dos jornais. Há lugar para cantar, numa noite de Natal, um cântico novo ao nosso Deus, ao Menino-Deus, desde que nossos olhos sejam olhos de filhos, puros e espirituais. Desde que nossas almas sedentas saibam dobrar os joelhos e rezar no silêncio da noite: Venite adoremus! vinde, adoremos a Criança, Jesus nosso Deus e Salvador, que nasceu hoje para morrer amanhã, para nos dar seu Sangue, para nos dar sua vida. Há lugar para desejar, ao menos para desejar, que o Rei da Paz seja o chefe das nações, o chefe de nossa Pátria; que ela se dobre diante do seu cetro e se deixe governar por seu Evangelho e por sua Igreja.
Então, sim, nesta hora em que nas igrejas soam os sinos, a missa do Galo, a Santa Eucaristia: meu Senhor e meu Deus. Que nossos corações tenham um ímpeto de amor e queiram com todas as forças espalhar pelo mundo as luzes do nosso Bom Deus. Então, sim, mergulhados na oração, saudemos nossos amigos e irmãos, troquemos nossos votos e orações, pois Ele nasceu, ele nos foi dado. "Hodie, filius datus est nobis — hoje, um Filho nos foi dado".
É por isso que desejamos a todos um Feliz Natal e um ano-bom repleto de todas as graças de Deus.
Casamento Nulo: Será?
Dom Lourenço Fleichman OSB
Uma questão que de vez em quando volta à tona e que reveste, diante da crise da Igreja, um aspecto de grave importância é a questão dos casamentos nulos e o modo como os padres da Tradição, marginalizados pelo Vaticano, devem tratá-lo.
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OS TRIBUNAIS DE ANULAÇÃO MATRIMONIAL
Apresentamos o artigo publicado no Boletim da Fraternidade São Pio X, dos EUA, pelo seu Superior do Distrito, Pe. Scott, explicando as razões graves para a Fraternidade manter Tribunais para analisar os casos de nulidade de casamento.
Caros amigos e colaboradores da Sociedade São Pio X,
Freqüentemente somos interrogados sobre nossa posição no tocante a delicada questão da anulação de casamentos, se devemos aceitar as concedidas por tribunais modernistas, e por que a Fraternidade S. Pio X deveria atrever-se a estabelecer tribunais para fazer seus próprios julgamentos. É uma questão interessante, pois demonstra mais uma vez quão séria é a crise em que a Igreja realmente está.
As estatísticas são interessantes. Em 1968 existiram nos EUA um total de 338 anulações. Em 1992 existiram nada menos que 59.030, o que representa um número cento e setenta e cinco vezes maior. Outro dado interessante: o número total de anulações na Igreja Católica em todo o mundo em 1992 foi de 76.286, ou seja, nada menos que 75% de todas anulações provieram dos EUA, que não possui mais que 5% dos católicos do mundo. Ademais, não apenas um em cada dois matrimônios católicos aqui nos Estados Unidos termina em divórcio, mas um em cinco é oficialmente anulado, sendo que 90% dos pedidos de anulações são bem sucedidos. O que estes números nos dizem sobre a gravidade de tais processos de anulação, especialmente ao se considerar que a vasta maioria é concedida por razões puramente psicológicas — nominalmente, falta de maturidade — como se a juventude bastasse para tornar alguém incapaz de entrar em um contrato vitalício? O que isto nos diz sobre a autoridade do Papa João Paulo II, que por diversas vezes se manifestou contrário a tais abusos, mas sem jamais trazer quaisquer sansões contra ou ter fechado tribunais que permitem que tal fraude continue?
Com efeito, uma anulação não é criada por decisão de um tribunal de anulação. A função do tribunal é simplesmente a de estabelecer como fato indubitável que um dado casamento jamais existiu, ou seja, que jamais existiu verdadeira troca de votos matrimoniais.
Conseqüentemente, uma decisão mal fundada não torna nulo um matrimônio. É inválida, sem valor. Se alguém que obtivesse uma tal anulação caminhasse para um segundo matrimônio, mesmo abençoado por um padre, este seria certamente um matrimônio inválido. Quão numerosas são as milhares de uniões desta natureza, que no papel parecem ser matrimônios católicos, mas que são nada mais que concubinatos com benção oficial?
Qual deve ser a atitude de um padre Católico ante a tragédia da destruição da indissolubilidade do matrimônio pelos próprios ministros da Igreja? Seu dever é preservar a santidade do sacramento, acima de tudo, defender o laço sagrado do casamento que é o fundamento da sociedade humana e, conseqüentemente, da vida social da própria Igreja. Como poderia ele se atrever a aceitar tais anulações, tão incertas? Está claro, pois, que assim como a Igreja provê a jurisdição para os padres tradicionais abençoarem os matrimônios, assim também ela, em tais circunstâncias trágicas, provê a autoridade para formar tribunais, sem os quais seria impossível chegar a qualquer tipo de certeza. A manutenção da reta consciência e a salvação das almas depende disto. É claro, pois, que um padre tradicional não pode nem casar alguém com anulação, nem aconselhar seu casamento, a não ser que tal casamento tenha sido estudado e declarado nulo e vácuo por um tribunal tradicional, operando com princípios verdadeiramente católicos, — o que sempre será uma coisa rara e extremamente excepcional. Estejam preparados, então, a encontrar nossos padres totalmente firmes nestes princípios. Não é porque alguém sinceramente acredite que sua “anulação” é diferente das outras 59.030 que ela será aceita.
Que a fidelidade aos seus votos matrimoniais solenes, a santidade deste sacramento da Igreja, o senso de verdadeira submissão à Providência divina e o desejo de estar afastado da vaidade deste mundo ajude a todos no combate para viver casamentos católicos. Que a Santíssima Virgem Maria garanta perseverança em nossos casamentos, “no bem e no mal, até que a morte nos separe”.
Sinceramente, no Imaculado Coração de Maria,
Padre Peter R. Scott
Superior do Distrito. (District Superior’s Letters, 1 de Agosto de 1995).