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Category: Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.Conteúdo sindicalizado

A plenitude de graças no instante da Encarnação e depois

Garrigou Lagrange, O.P.

[Nota da Permanência: O texto da semana é a continuação do livro "A Mãe do Salvador e nossa vida interior", do dominicano Garrigou-Lagrange, um dos maiores teólogos do século XX e um grande autor espiritual. A bonita magem que escolhemos para ilustrar esse artigo é de Sano di Pietro, da escola de Siena. A tradução é de Ricardo Bellei] 

 

Neste capítulo falaremos do progresso espiritual de Maria até a Anunciação, do aumento considerável da graça que ocorreu nela no instante da Encarnação e de sua virgindade perpétua; em seguida, do aumento sucessivo da caridade em certas horas mais importantes de sua vida, sobretudo no Calvário; e finalmente da inteligência de Maria, de sua sabedoria, de suas principais virtudes e de seus carismas ou graças denominadas gratis datae, gratuitamente concedidas e em certo modo exteriores, como a profecia e o discernimento de espíritos.

 

   

A plenitude inicial da graça em Maria

 Ave, gratia plena.

(Lc, 1, 28).

 

Depois de termos visto quão sublime é Maria por seu título de Mãe de Deus, razão de todos os privilégios que lhes foram conferidos, convém considerar qual é o significado e o alcance das palavras que lhe foram ditas pelo Arcanjo Gabriel no dia da Anunciação: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres1. Para compreendermos o significado dessas palavras ditas em nome de Deus, consideraremos:

1º, as diferentes plenitudes de graça;

2º, o privilégio da Imaculada Conceição;

3º, a sublimidade da primeira graça em Maria. 

 

 

  1. 1. Lc 1, 28.

A eminente dignidade da maternidade divina

 

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

As duas grandes verdades que, na doutrina revelada sobre a Virgem Maria, dominam tudo como dois picos e de onde derivam todas as outras, são a Maternidade Divina e a plenitude da graça, afirmadas ambas pelo Evangelho e pelos Concílios.

Para compreender bem sua importância, será bom compará-las, inquirindo qual das duas é a primeira e da qual tudo deriva na Mariologia. O que há de mais grandioso em Maria: sua Maternidade Divina, seu título de Mãe de Deus, ou a plenitude da graça?(Continue a ler)

 

 

 

Pecados de ignorância, fraqueza e malícia

Garrigou Lagrange, O.P.

Espalha-se, em alguns lugares, a opinião de que apenas o pecado de malícia é mortal, e que os pecados de ignorância e fraqueza jamais o são. É importante recordar, acerca deste ponto, o ensinamento da teologia, tal como se encontra formulado por Santo Tomás de Aquino na sua Suma Teológica (Ia-IIae, q. 76, 77, 78).

O pecado de ignorância é o que provém de ignorância voluntária e culpável, chamada ignorância vencível. O pecado de fraqueza é o que provém de forte paixão, que diminui a liberdade e obriga a vontade a dar seu consentimento. Quanto ao pecado de malícia, é o que se comete com plena liberdade “quasi de industria”, com aplicação e frequentemente com premeditação, sem paixão, nem ignorância. Recordemos o que Santo Tomás nos ensina sobre cada um deles. (Continue a ler)

Caridade e bem-aventuranças

 

Garrigou-Lagrange, OP

 

 

Introdução

A perfeição cristã, segundo o testemunho do Evangelho e das Epístolas, consiste especialmente na caridade que nos une a Deus1. Essa virtude corresponde ao maior dos Mandamentos, que é o do amor de Deus. Também foi dito: “quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele2. E ainda: “sobretudo, porém, tende caridade, que é o vínculo da perfeição3.

Os teólogos perguntaram-se sobre se, para alcançar a perfeição propriamente dita, não a dos iniciantes, ou a das almas em progresso, mas a que caracteriza a via unitiva, seria preciso grande caridade, ou se poderia obtê-la sem grau elevado dessa virtude.

Alguns autores4 sustentaram que não seria preciso alto grau de caridade para a perfeição propriamente dita, visto que, segundo Santo Tomás “a caridade, mesmo em grau inferior, é capaz de vencer todas as tentações”5.  (Continue a ler)

  1. 1. Cf. S. Tomás, IIa IIae, q. 184, a. 1.
  2. 2. 1Jo 4, 16.
  3. 3. Cl 3, 14.
  4. 4. Entre eles, é preciso citar Suarez, de Statu perfectionis, 1. 1, c. 4, nº. 11, 12, 20. Essa opinião invocaram alguns que não queriam admitir que a perfeição cristã requer grande caridade e os dons do Espírito Santo em grau proporcional; em outras palavras, que a contemplação infusa procedente da fé viva iluminada pelos dons está na via normal da santidade e é como que o prelúdio normal da visão beatífica.
  5. 5. Cf. III Sent., d. 31, q. 1, a. 3; IIIa q. 62, a. 6, ad 3.

Dever de reparação

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

 

“Alter alterius onera portate”.

Levais os fardos uns dos outros

Gl 6.

 

    Tratamos recentemente do dever do reconhecimento, convém falar agora do dever de reparação. A reparação da ofensa feita a Deus é geralmente chamada em teologia de “satisfação”. Os fiéis instruídos costumam conhecer suficientemente bem a doutrina do mérito; porém, é menos conhecida a doutrina da satisfação ou reparação, que, se lembra a do mérito, dela difere, contudo. Os fiéis crêem firmemente que Jesus satisfez por nós em estrita justiça, que a Santíssima Virgem satisfez por nós de uma satisfação de conveniência; mas conhecem menos o lugar que a satisfação deve ocupar nas nossas vidas.

    Lembremos sobre esse ponto os princípios; veremos em seguida como o católico em estado de graça pode satisfazer ou reparar por si e pelo próximo. (Continue a leitura)

A obrigação de buscar a perfeição da caridade

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

Estado e dificuldade da questão: não se está tratando da perfeição ínfima, que exclui apenas os pecados mortais, nem tão-somente da perfeição média, que exclui os mortais e os veniais plenamente deliberados, mas da perfeição propriamente dita, que exclui imperfeições deliberadas e atos imperfeitos; logo, não é meramente o convite à perfeição propriamente dita pois, quanto a isso, não há dúvida: todos homens estão convidados à perfeição propriamente dita.

A questão versa sobre a existência de uma obrigação geral de todos católicos tenderem à perfeição da caridade. Não é, contudo, uma obrigação especial, cuja violação seria um pecado especial, como no estado religioso, mas de uma obrigação geral.

A dificuldade surge quando queremos conciliar certas sentenças de Nosso Senhor que, num primeiro momento, parecem contradizer-se.

Por um lado, Cristo aconselha o adolescente rico (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres... e vem e segue-me”. Estas palavras – “Se queres ser perfeito” – parecem exprimir um conselho, não uma obrigação. Logo, todos os católicos não estão obrigados a buscar a perfeição; aparentemente, somente aqueles que já prometeram seguir os conselhos evangélicos estariam obrigados a buscar a perfeição 1

Por outro lado, declara Cristo a todos (Mt 5, 48): “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”.  (continue a ler)

  1. 1. Sobre esta dificuldade, ver Suma Teológica IIa IIae, q. 184, a. 3 ad 1.

Irmã Maria-Marta Chambon e a devoção às Santas Chagas

Pe. Garrigou-Lagrange, OP

A vida desta brava irmã conversa da Visitação de Chambéry, nascida em 1841, falecida em 1907, foi escrita em 1928 com muito zelo, precisão e piedade pelas religiosas desse convento, conforme as notas deixadas pelas superioras. Este livro, que traz nas páginas iniciais a autorização e um precioso elogio de Mons. Castellan, arcebispo de Chambéry, contém sobretudo exemplos de piedade e virtude, e apresenta uma vida profundamente marcada à semelhança de Jesus crucificado, com algumas imperfeições involuntárias, que subsistem até o fim na serva de Deus, a fim escondê-la.

Julgamos útil assinalar aqui alguns traços desta fisionomia espiritual: as graças dos primeiros anos; aquilo que parece bem ser sua missão especial: fazer recordar ao mundo a devoção às santas chagas do Salvador; suas virtudes cristãs, particularmente, a mortificação, a humildade, a obediência, a simplicidade e as virtudes teologais. Há nesta vida uma grande lição para os nossos tempos.

 

Primeiros anos e vocação

Françoise Chambon nasceu em Croix-Rouge, pequenina aldeia verdejante situada perto de Chambéry, em 6 de março de 1841. Neste mesmo dia, tornou-se ela filha de Deus pelo santo batismo. Pobreza extrema, mesmo miséria, reinava no lar onde sua mãe lhe deu à luz, semelhança notável com a penúria de Belém. Destinada a seguir o divino Mestre em suas humilhações, esta criança privilegiada reproduzia-lhe os traços desde a aurora de sua vida. Pequenina, o pensamento de Deus lhe absorve, lhe invade, ao ponto de deixar fugir a única cabra confiada aos seus cuidados. Seus pais, honestos, piedosos e trabalhadores, transmitiram aos seus filhos os sentimentos de fé profunda, o espírito de dever, o amor do trabalho. Seu pai, homem simples e reto, trabalhador rude, dedicava-se à agricultura ou trabalhava na pedreira das proximidades. Pelo trabalho, sua família atingiu certo bem estar material.

Sua mãe tinha gosto em levar a pequena primogênita às cerimônias da Via Sacra. Uma tia estimulava igualmente seu pendor pela oração. Numa Sexta-feira Santa, levou-a à adoração da Cruz. Françoise tinha oito ou nove anos. Solicitada pela tia, e apesar do grande cansaço, diz os cinco Pater com os braços em cruz. Neste momento, Nosso Senhor aparece-lhe pela primeira vez, crucificado, a carne em pedaços, coberto de sangue. Esta visão causou-lhe grande impressão e acendeu na sua alma ardente caridade. Comungar tornou-se, a partir de então, seu maior desejo. Logo aprende oralmente seu catecismo, pois jamais soube ler nem escrever. Foram a estas poucas noções elementares que se restringiu toda sua instrução. Françoise, possuída do amor de Jesus, sente nascer nela a necessidade de mortificar-se...o amor quer comunicar-se! “Mãe, roga ela, dá-me a sopa antes de pôr-lhe manteiga” (p. 11). De noite, quando todos repousam, ela levanta-se para rezar longo tempo, joelhos sobre a terra nua.

Os sacrifícios preparam-na para sua primeira comunhão, que foi para ela um acontecimento decisivo. “Ao comungar, dizia ela, foi o menino Jesus que vi e recebi... Oh! Como fiquei feliz!... Ele me disse que sempre que eu comungasse seria assim... Era o céu! Tem-se o paraíso no coração”(pp 12-13).

Aquele que se regozija com os humildes manifestar-se-á a esta alma predestinada, quer carregando sua cruz, quer sob a forma de uma adorável criança. Ele mesmo se incumbirá da direção de sua vida interior, e purificará, instruí-la-á e imprimirá nela os traços de sua Infância e Paixão.

A Paixão do Salvador é o grande motivo de Françoise. Ela só pensa em Jesus, quer “ocupar-se somente dele, viver como os anjos... não considerar mais as coisas do mundo...” (p. 15).

Não demora a aspirar à vida religiosa. Sua saúde, de aparência pouco robusta, foi um obstáculo a sua admissão ao Carmelo. Encaminha-se à Visitação de Chambéry, onde ingressa no ano de 1862. Françoise tinha vinte e um anos. Era aí que Deus a queria, entre as filhas da Visitação, cuja vocação é a de reproduzir a vida escondida de Nosso Senhor, adorá-lo e imitar a humildade do Verbo Encarnado. “Erigidas no Monte Calvário, devem crucificar-se com Nosso Senhor” (Constituição XLIV). Veremos a que ponto Nosso Senhor realiza este programa nessa alma de elite.

A nova postulante foi inicialmente admitida entre as moças do serviço de pensionato. Foi aí, na prática dos mais humildes trabalhos, um pouco à margem da comunidade, que a veremos levar uma vida de sofrimento e apostolado. Sua tomada de hábito ocorreu no dia 29 de abril de 1863, quando recebeu o nome de Irmã Maria-Marta. O ano seguinte foi o da sua profissão.

É preciso reconhecer que a Irmã Maria-Marta não possuía as graças da natureza, os charmes do espírito, que atraem a simpatia e favorecem as relações. De caráter rude e pouco refinado, temperamento vivo, vontade tenaz e pensamento limitado, suas características exteriores pouco amáveis tornavam a pobre irmã, por vezes, fatigante. Apesar dos esforços que fazia, suas imperfeições subsistiram até o fim de sua vida: Nosso Senhor servia-se delas como de um meio para mantê-la na obscuridade. Queixava-se delas ao divino Mestre: “Com todas as vossas graças, não me tirastes todos os meus defeitos” – “Tuas imperfeições, respondia-lhe, são a grande prova de que vem de Deus aquilo que se passa em ti. Jamais as tirarei; são o manto que esconde meus dons. Tens desejo de se ocultar? Muito mais o tenho eu” (p. 30). Contudo, como soube modelar essa alma a seu gosto, cultivá-la em sua tão simples inteligência, ocupando-a com as verdades eternas, encher esse coração de desejo do divino, de sede de sacrifício, de amor pelas almas!

 

O tesouro das Santas Chagas

Nosso Senhor fê-la conhecer os tesouros infinitos guardados nas suas Chagas, e instava-a a oferecê-los sem cessar a Deus Pai pelas necessidades da Igreja e de sua comunidade, para a conversão dos pecadores e para retirar almas do purgatório. “Com minhas Chagas, disse-lhe, tens todas as riquezas do céu para distribuir na terra”. “Deves fazer valer as riquezas de minhas santas Chagas”. “Tua riqueza é minha santa Paixão” (pp. 54-55).

Nosso Senhor queixa-se do esquecimento por parte das almas de suas sagradas feridas; elas não sabem colher-lhes os frutos, e chegam a menosprezá-las. E seu amor misericordioso elegeu uma pobre religiosa, Irmã Maria-Marta, para fazer lembrar as almas da devoção às suas Chagas. Não é ela particularmente conveniente nesses tempos tão atribulados? Não é chegado o momento de espalhar nesse pobre e confuso mundo os méritos infinitos do sangue redentor?

“Eu te escolhi, diz a Irmã Maria-Marta, para fazer despertar a devoção à minha santa Paixão no tempo infeliz em que vives” (p. 61). Quantas almas meditam na Paixão de Cristo? Quão pouco são os que estimam a Cruz, ou, se a contemplam, querem carregá-la! No entanto, é ela a verdadeira escola de amor, escola austera na qual Nosso Senhor formará sua fiel discípula.

Eu te escolhi, diz ainda Jesus, para fazer valer os méritos de minha santa Paixão para todos; mas quero que tu mantenhas-te escondida. A mim caberá mais tarde de dar a conhecer que é por este meio que o mundo se salvará – e pelas mãos de minha Mãe Imaculada” (p. 61). “Minha filha, o mundo será mais ou menos atribulado conforme tu cumpras teu dever. Tu és escolhida para satisfazer minha justiça” (p. 61)

Mostrando-lhe suas Chagas: “Não desvies os olhos de cima deste livro e aprenderás mais que os grandes sábios. A oração às santas Chagas compreende tudo” (p. 61).

Segundo os testemunhos recolhidos de sua vida, Nosso Senhor fez com que ela participasse da sua crucifixão, imprimiu-lhe na carne os sagrados estigmas, alimentou-a unicamente com a Eucaristia por mais de quatro anos, enquanto seu amor a crucificava, na alma e no corpo, associando-a a sua obra redentora. Veremos como, por sua vez, Irmã Maria-Marta responde ao apelo do Mestre com todo o fervor e generosidade do seu amor.

 

Via Crucis

Bem parece que esta alma eleita, transparente como o cristal, não teria tanta necessidade de purificação para si mesma, mas as provações serão proporcionadas à sua missão apostólica e reparadora.

O divino Mestre convida-a a passar as noites estendida sobre o assoalho da sua cela. Tendo obtido de sua superiora permissão para tanto, que lhe fora inicialmente negada, dorme sobre a terra nua, e isto ao longo dos anos. Nosso Senhor vai além: é um rude cilício que ela deve usar noite e dia, que lhe causa muito sofrimento. A pedido e conforme as indicações do Mestre, faz uma coroa de espinhos muito pontiagudos e usa-a de noite. Doravante, carregada de vivas dores, não tem mais onde repousar a cabeça. Uma noite, no fim das forças, a esposa do Crucificado queixa-se ao seu Salvador. “Minha filha, persevere com mais força”, diz-lhe. Irmã Maria-Marta obedece corajosamente. Desta vez, Aquele que não se deixa vencer em generosidade, contenta-se com um simples aquiescer: e ela já não sente dor nenhuma. O dia em que Nosso Senhor disser-lhe: “Tua coroa não te faz mais sofrer o bastante” (p. 193), ela a trocará por um cinturão com pontas de ferro. Ei-la, estendida sobre o assoalho, coroada de espinhos, os braços em cruz, viva imagem do divino Crucificado. Nosso Senhor uniu desse modo a Irmã Maria-Marta à sua Paixão, que não pode fazer mais do que como Ele, com Ele. Seu coração abrasa-se de amor. Não realiza em si mesma o desejo do Salvador? “Gostaria de ver todas as minhas esposas como crucifixos!” (p. 76). Contudo, em certos momentos, a natureza se desespera; a pobre religiosa sente a tentação de abandonar essa intolerável coroa. Nosso Senhor aparece-lhe então em sofrimentos atrozes, a fronte traspassada de espinhos. “Minha filha, não abandone a minha coroa”, reprova-lhe amorosamente o Salvador (p. 194). Confusa, Irmã Maria-Marta retoma-a; cura-se de toda a recaída. Esposa, deve compartilhar a vida de seu divino Esposo, vida de sofrimentos e imolações; deve morrer a si mesma para viver somente para Ele.

“Elege em tudo e por onde for o que mais mortificar-te”, diz-lhe Jesus (p. 190). Sempre dócil, esta alma heróica escolhia, em tudo, o menos agradável, o mais penoso.

Nosso Senhor assedia a Irmã Maria-Marta com exigências, convida-a a sacrificar seu sono para velar perante o Santo Sacramento. Exausta, vemo-la solicitar um pouco de repouso aos seus superiores, mas eles, conhecendo o desejo formal de Nosso Senhor, conduzem-na a seu posto de oração, à tribuna.

Nosso Senhor aparece-lhe um dia em seu estado de crucificado, embebido em vinagre e fel. Irmã Maria-Marta afligiu-se tanto que jamais pôde esquecer. “É preciso, dizia o Mestre, que me mates a sede com tua mortificação” (p. 191). Contudo, a brava religiosa só tinha pensamentos para Jesus, desejava salvar almas para Ele. Apesar das suas vigílias, dos sofrimentos contínuos, permanecia fiel a todos os seus deveres, a ponto das superioras julgarem que fazia o trabalho de duas pessoas. Deus era toda a sua força. A esta mortificação exterior, juntava a mortificação de uma minuciosa fidelidade à Regra: sempre modesta, silenciosa, recolhida, percebia-se que estava ela mergulhada em profunda contemplação.

 

“Ele é tudo”

Nosso Senhor deliciava-se com esta alma límpida: “Tu não conheces mais o mal do que a criancinha antes de chegar à idade da razão”, dizia-lhe (p. 206). Aquele que se compraz com os lírios conservou este coração puro, sem o menor conhecimento do mundo. Ela podia dizer a uma de suas companheiras: “Ah, sim! Ele é todo amor, o bom Deus! Quando era pequenina, já me fazia compreender. Ele me deu tanto! Do mundo, não conheço nada, só conheço a Ele. Ah! eu o amo tanto!” (p. 209).

Todo seu pensamento era para Cristo. Por Ele, evitava toda reflexão inútil. Por ele, guardava seu coração desapegado. Certo dia, Jesus repreendeu-a severamente por procurar uma pequena satisfação do coração: “Ser religiosa, minha filha, significa ter banido de seu coração todo o criado... significa ver Jesus em tudo, seu Esposo, significa procurá-lo unicamente...Teu objetivo tem de ser o de estar face a face comigo” (pp. 210-211). A uma das irmãs que lhe indagava a razão das predileções divinas, respondeu: “Ah, minha irmã! eu sou ignorante, tenho um coração simples, sem estofo... tenho, portanto, um coração desapegado: Ele é tudo! Não busco nada... nada... não quero nada, não preciso de nada, não desejo nada, meu coração é livre” (pp. 209-210).

Puro, livre, o coração da Irmã Maria-Marta pertencia somente a Deus, seu pensamento ocupava-se apenas de seu objeto de amor. Semelhante a chama pura que sobe sempre, a alma desta esposa de Cristo eleva-se, degrau por degrau, rumo à perfeição do amor.

 

Combates

Nosso Senhor ensinara à Irmã Maria-Marta a fórmula para oferecer as santas Chagas; mas fazer com que a comunidade a adotasse não foi coisa fácil para as superioras. Descobre-se a origem destas invocações. O zelo da regra faz com que todas se alarmem. Não se podia tolerar que uma jovem noviça conversa se impusesse de tal modo. Quantos sofrimentos, vexações para Irmã Maria-Marta e suas devotadas superioras! Ela não demonstrava senão paciência, humildade, mansidão. Nosso Senhor encorajava, tranquilizava-a: “Maiores os obstáculos e dificuldades, mais abundantes as minhas graças” (p. 92). Nosso Senhor amava muito esta comunidade de Chambéry, apesar das críticas levantadas pela pretensa inovação. Críticas compreensíveis, diga-se. As religiosas da Visitação tinham suas Regras e Constituições como um legado sagrado de seus santos Fundadores. “Não lhes é permitido absolutamente, sob qualquer pretexto que for, incumbir-se de orações outras das que estão aqui assinaladas” (Constituição XVIII). Não se poderia ir contra isso. Deus permite, pois, essas contradições para lançar à luz do dia a virtude de sua privilegiada e aumentar seus méritos.

Uma vida tão extraordinária faz-nos compreender igualmente a atitude reservada dos superiores, e os defeitos que se verificavam sempre na humilde noviça conversa não deixam de espantar. Daí os murmúrios, recriminações. Irmã Maria-Marta sofria muito. Sustentada pelo dom da força, suportava tudo em silêncio: jamais uma alusão, uma queixa, e isso por quarenta anos! Mas quão mais dolorosa a provação que lhe veio de um superior mal informado por relatos imprudentes de algumas religiosas. O golpe foi duro. Entre outros, a comunhão quotidiana foi negada à Irmã Maria-Marta. Humildemente, ela se submete às ordens recebidas.

 

O Selo de Deus

Recordava-se ela da palavra de seu Mestre: “A vós (religiosas) só perguntarei uma coisa: o quanto obedeceram” (p. 204). A exemplo daquele que foi obediente até a morte, Irmã Maria-Marta conforma-se em tudo heroicamente à vontade divina, sancionada pela obediênca. Sua perfeita docilidade foi notável. Sacrificou sua vontade inteiramente às exigências de Nosso Senhor. Mestre absoluto, podia exercer sobre ela todos seus direitos. A Santíssima Virgem diz-lhe um dia: “Não quero que faças ato algum, por melhor que te pareça, fora desta obediência” (p. 110).

Se suas superioras recusam-se a conceder o que lhes pedia, a humilde Irmã inclinava-se sem insistir. “A obediência, para ela, é tudo” (p. 45), afirma sua superiora. Nunca uma réplica, nunca uma discussão diante dos mais duros sacrifícios. Somente esta palavra, obediência, poderia tirar-lhe de suas longas contemplações. É o sentimento unânime de seus confessores: “Ela seguia sempre literalmente as opiniões que lhe eram dadas” (p. 218). À luz das instruções divinas, Irmã Maria-Marta aprendera a pronta e simples obediência. Um dia, doente e acamada, sua superiora lhe diz: “Amanhã estarás boa” (p. 216). A dócil menina tomou o encorajamento por uma ordem. Nosso Senhor, contente com esta fé tão simples, curou-a no mesmo instante. Alimentou-se e retornou, no dia seguinte, a suas ocupações.

Quantas vezes as superioras recorreram à sua intercessão diante de Nosso Senhor! O vinho se avinagrava nos tonéis, as batatas apodreciam no porão, por obediência Irmã Maria-Marta incumbia-se de buscar a solução. Fazendo o sinal da cruz, ela invocava a Santíssima Trindade, as santas Chagas e tudo se restaurava: o vinho tornava-se bom, o bolor sobre as batatas secava. O Senhor atendia a todos seus desejos.

E era nas coisas espirituais, assim como com nas materiais; as superioras sempre experimentavam a eficácia das suas orações. Ela tinha o culto da autoridade – nela via Deus. Nosso Senhor lhe havia frequentemente repetido: “Minha filha, em tua superiora estou eu” (p. 215).

A abertura de coração, a confiança para com sua superiora, são traços distintivos de uma filha da Visitação. Para Irmã Maria-Marta Chambon, assaltada por dúvidas e temores, a palavra de sua superiora era infalível e sobremaneira eficaz. O demônio tenta-a a esse respeito; persuadindo-a de que era uma cruz para suas superioras, e por isso começa a evitá-las. Irmã Maria-Marta chega a experimentar repugnância extrema por sua superiora; não ousa mais aproximar-se e queixava-se disso a Nosso Senhor. “Se te afastares de tua superiora, errarás e perderás a verdadeira luz” (p. 217).

Amava muito sua regra, suas constituições. O temor de afastar-se delas por suas austeridades causava-lhe grande sofrimento. O santo Fundador da Visitação quis, com efeito, que o espírito de sacrifício interior e de perfeito abandono à vontade de Deus substituísse jejuns e outras mortificações exteriores do tipo, salvo em casos muito raros, desejados particularmente por Deus. São Francisco de Sales veio reconfortar sua estimada filha: “Segue o caminho que Jesus te traçou, esta é a Regra” (p. 85).

 

“Mestre, eu sou vossa pobre”

Irmã Maria-Marta não escreveu nada, não manteve conversações sábias, mas soube humilhar-se. Nosso Senhor pergunta-lhe um dia: “Minha filha, queres ser crucificada ou antes ser glorificada?” – “Bom Mestre, mais desejo ser crucificada”, responde, com ímpeto de coração (p. 76). Não busca a sua glória, mas o desprezo e a cruz. Pequenina, penetrada de sua insignificância, de sua indignidade, lançava-se no abismo do seu nada, querendo desaparecer. Viveu segundo a palavra de sua santa Fundadora: “O principal cuidado da alma deve ser o de humilhar-se”. Sua grande preocupação é sempre o temor de ser notada: vida escondida, humildade, esta é sua marca característica. Ademais, Nosso Senhor inclinava-a a isto. Ele humilhava-a severamente, repreendia as menores faltas: “Tu não serás uma verdadeira esposa se não amares a humilhação”. (p. 174)

“... A fim de te preparares a receber minhas graças, precisarás te aniquilar muito, pois só tenho olhos para o coração humilde!” (p. 174). Certo dia, extenuada de fadigas, após uma noite de sofrimentos, Irmã Maria-Marta para na porta do coro: “Bom Mestre, eu sou vossa pobre, dai-me esmolas, dai-me forças”, suplicava (p. 175). A humilde irmã não falava dos favores divinos que recebia senão com extrema repugnância. Tanto mais o Senhor cumulava-a de dons, tanto mais se apequenava. Mostrava-se ela ávida de correções, sempre a primeira a humilhar-se, a reconhecer e reparar seus erros, pois seu exterior guardara suas asperezas; daí os desencontros, os pequenos tropeços de sua natureza, tantas ocasiões de humilhações, de méritos. Por outro lado, as superioras não a poupavam. Irmã Maria-Marta, ao desprezar profundamente a si mesma, compreendia todo o benefício que daí tirava para sua alma e alegrava-se da glória que rendia a Deus. 

O Espírito Santo, pela iluminação dos dons de ciência e de inteligência, esclarecia-a mais e mais. Então, sentia-se como que esmagada sob o peso da grandeza divina e de sua própria miséria, sob a visão cada vez mais profunda de seus defeitos.

“Ó meu Jesus, dizia a Irmã, espero tudo de Vós somente, pois não sou senão miséria” (p. 171).

A mesma luz faz descobrir manchas nas nossas melhores ações. “Somos cheios de imperfeições, dizia ela, não há, na verdade, nada de bom em nós. – Quando nos vemos diante de Deus, não somos mais que pecado, miséria... mesmo aquilo que julgamos fazer bem, mesmo as ações mais santas, tudo é corrompido por nosso amor próprio...” (p. 186). Para retirar-lhe todo o amor próprio, Nosso Senhor mostrava-lhe por vezes, como num quadro, as qualidades bem superiores de suas irmãs, depois, humilhando-a: “Ser humilhada e tratada como mereces, eis o único desejo que deves ter” (p. 174), “Meu coração só age no selo da humildade” (p. 175). Um dia, lavando a louça, Irmã Maria-Marta viu-se de repente rodeada das Visitandinas do céu e de uma falange de santos. Cheia de alegria, falou-lhes: “Quereis transmitir uma palavra a Nosso Senhor? Dizei-lhe que sou... pecadora” (p. 175). Consciente de sua própria fraqueza, confiava totalmente no Salvador, esperando tudo dele pelos méritos infinitos de suas santas Chagas. Assim também, durante uma conversa com Nosso Senhor, Irmã Maria-Marta viu-se transportada ao céu e os santos, colocando-a num lugar de honra entre eles, cantavam em coro: “O menor torna-se o maior” (p. 188). Deus exalta os humildes!

 

Vida Teologal

Irmã Maria-Marta, enquanto imitava Jesus crucificado, trilhava a via da infância espiritual, tão propícia ao progresso e ao perfeito desenvolvimento das virtudes teologais. Com a simplicidade da criança, ela crê em Deus, espera nele e ama-o de todo seu coração.

Este espírito de fé espontânea inspira todos seus atos, todas as circunstâncias da sua vida: doenças, contradições, provações de todo gênero. Vê Deus em todas as coisas e não desperdiça parcela alguma da cruz.

A santa Missa, para ela, é a renovação do calvário. Irmã Maria-Marta vive do drama que se desenrola no altar, une-se à divina Vítima que recebe na santa comunhão com um fervor, com um amor cada vez maior. Deus faz com que ela viva dos mistérios da Santíssima Trindade, da Redenção, da Eucaristia. Ela vai o mais longe. Imersa em contemplação, é-lhe penoso voltar-se às coisas da terra. Contudo, chega o dia em que o divino sol dos espíritos se esconde, se obscurece. Desamparada, Irmã Maria-Marta sofre, busca seu Senhor e seu Deus. Estes abandonos torturam-na. Jesus, enfim, retorna: “purifiquei-te inteira ao abandonar-te” (p. 266). Outras vezes, após dias de sofrimento inauditos, Nosso Senhor, tendo-a unido a sua agonia e a seu abandono na cruz, diz-lhe: “Minha filha, chorei no jardim das Oliveiras e sobre a cruz em meu grande abandono” (p. 267).

Frequentemente, recebe rudes assaltos do espírito das trevas. Apresentando-se certo dia cinco vezes a ela sob uma forma corporal, Satanás diz-lhe: “Não há Deus!... De que servem tuas orações, não há Deus”. Irmã Maria-Marta responde-lhe: “Creio que há um Deus e que Ele é meu Esposo! Ele é meu Esposo! Meu alimento...” (p. 269). Ditas estas palavras, o demônio some numa fumaça. Perturbava-lhe também de mil maneiras com sugestões contra a autoridade, contra a humildade, contra a eficácia da oração, sempre tentando desencorajá-la, desviá-la de seu caminho. Mas esta humilde religiosa mantém-se firme no meio das trevas e lutas; fiel à sua missão, orava sem cessar com espírito de fé cada vez maior. Sua oração era ouvida, como demonstram-no as muitas conversões alcançadas.

“A terra nada é, minha filha, dizia Jesus a sua esposa, a terra inteira é um nada... olha para o céu! O céu é o único digno de teus desejos! Lembra-te da tua morada e não te esqueças de que pertences à grande família do céu...” (p. 292). Irmã Maria-Marta deseja sobretudo partir para ver a Deus. O inimigo de todo o bem aproveita-se para procurar desviá-la do único objeto de sua esperança. “O céu não é para ti”, diz-lhe (p. 265). A serva de Deus tem sua réplica, tão pronta como ingênua. Lança mão de mil astúcias para confundi-la: “bruxa hipócrita! enganas aos demais e és enganada...” (p. 264). Debocha de sua prática de oferecer as santas Chagas, chega até ao ponto de agredi-la. Irmã Maria-Marta sofre tormentos horríveis, julga ser joguete de ilusões. Torturada em sua alma e em seu corpo, embora sempre valente, repete com confiança invencível as invocações às santas Chagas. Tudo espera pelos méritos infinitos de seu Salvador. Fixando o olhar em Deus somente, abandona-se nos seus braços como uma criança, sem deixar de cumprir fielmente a missão que o Senhor lhe confiara. Como o Mestre não haveria de responder a tanta generosidade? Conduzindo-a ao seu Coração, sua doce voz lhe diz: “Minha bem-amada, estarás aqui agora e na eternidade” (p. 266)

Irmã Maria-Marta compreendera esta palavra de seu adorado Mestre: “Minha filha, ama-me acima de tudo, por mim mesmo” (p. 71). Com grande generosidade, respondia a este amor infinito que a atraía cada vez mais fortemente.

“Ensinar-te-ei a amar-me, dizia Jesus, pois não sabes como fazê-lo: a ciência do amor é dada à alma que considera o divino Crucificado e lhe fala, do coração ao coração” (p. 231). Com tocante bondade, ensina-a a rezar: “Descobre meu segredo de amor a alma que se une e entretém-se comigo no fundo se seu coração” (p. 231). “Minha união contigo é teu único bem: aqui é o teu progresso...” (p. 233). Toda sua vida foi um martírio de amor. Jesus crucificado possuíra seu coração. Podia Ele dizer-lhe: “Modelei teu coração para mim e segundo minha vontade. Tirei toda a consideração pelas criaturas... Coloquei nele a simplicidade da criança” (p. 168). “És a bem-amada de meu coração. Doravante, só amarás e respiraras pelo meu coração” (p. 72). Inteiramente livre, isenta de todo entrave humano, consumida pelo amor que a transforma, experimenta cada vez mais a fome de Deus: “Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam”.

O chamado torna-se mais insistente: “Filhinha, suba o calvário comigo” “Quero-te vítima de pé” (p. 234) “Também tu, carrega os pecados dos homens” (p. 271). O amor busca a semelhança, e a união com o Salvador só se realiza na cruz. O amor transformante realizou sua obra. Marcada à imagem do Cristo, associada à sua missão redentora, a doce vítima segue, passo a passo, as pegadas de seu Mestre. Como Ele, oferece-se pelos pecadores, roga por eles, vive suas lutas, experimenta, nela mesma, suas dores e angústias. Certo dia, dá à sua superiora o nome do doente da paróquia que tantos sofrimentos lhe custava. Após sua morte, julgou ouvir dele as seguintes palavras:  “Foi por mim que tanto sofrestes. O demônio trabalhava pela perda da minha alma. Devo-te minha salvação: meu lugar era o inferno e, se estou no céu, é pelos méritos das chagas de Jesus que invocaste por mim” (p. 270).

A alma de Irmã Maria-Marta irradiava caridade ao seu redor. Interessava-se por cada uma de suas Irmãs. Sua dedicação não conhecia cálculos nem limites. Sabia às suas custas realizar o desejo de Jesus: “Jamais preocupar-se contigo, jamais recusar um serviço” (p. 236). Nosso Senhor pedia mais: “Deves a cada dia pagar as dívidas de cada alma desta comunidade para com minha justiça... Serás a vítima que expiará cada dia o pecado de todas” (p. 140). Que amor desinteressado não seria preciso para cumprir sua missão reparadora? O aproximar da morte de uma Irmã era sempre marcado por maior intensidade de sofrimentos: Irmã Maria-Marta, pela oração e pela imolação, supria o que lhe restava reparar.

Seu zelo apostólico levava-a a rezar constantemente e a sofrer pelas intenções do Vigário de Cristo e por todos os fiéis. Quantas almas do purgatório não se beneficiaram de suas orações? Um dia, na vigília da Ascensão, Nosso Senhor diz-lhe: “Não contes descansar hoje, pois muitas almas devem, pelos teus sofrimentos, chegar ao céu para ver o meu triunfo” (p. 256). Outro dia: “Minha filha, pela rude tentação que sofreste e por teu abandono interior, muitos pecadores se converteram e muitas almas do Purgatório foram para o céu... teu sofrimento era necessário para isso” (p. 268). Quantas noites não passou ela em oração pelos agonizantes! Nosso Senhor mostrava-os à Irmã: “Estás incumbida de todas estas almas, é preciso que lhes obtenha uma boa morte” (p. 253). Buscar a glória de Deus, a salvação das almas, tal era sua única ambição: “Meu Jesus, tenho sede das almas por vossa glória” (p. 253).

Verdadeira filha da santa Igreja, ultrapassava os muros de seu estreito claustro para cultivar os campos do Senhor. Sentindo-se cumulada dos pecados dos homens, esmagada sob o peso da justiça divina, clama: “Deus meu, não olheis nossa miséria, mas a vossa misericórdia!” (p. 251).

Jesus, por sua vez, instava-a: “Vem, conquiste almas!” (p. 248) Mostrando os pecadores por todo o mundo: “Mostro-os a fim de que não percas tempo algum” (p. 250). E a fervente missionária passava suas noites a colher almas. O sangue divino era o preço. Com firmeza dizia sua grande oração: o oferecimento das santas Chagas de nosso Salvador, que prometera renovar a cada dez minutos (p. 75).

Não se encontram aqui a heroicidade das virtudes teologais e morais, tanto quanto podemos julgar, até que a Igreja se pronuncie?

 

*

Conformada na sua vida a Jesus crucificado, a humilde esposa também o foi na sua morte. Combate supremo, em que as súplicas angustiadas à Mãe do céu nos permitem adivinhar o isolamento do coração, o abandono com Jesus na cruz, faz-nos lembrar a palavra que o Senhor um dia lhe dirigiu: ”Na cruz, no auge de meus sofrimentos, estava só... Eis por que quis que tu sofresses assim” (p. 267)

Por Maria, ela obteve esta última vitória sobre o inimigo, sobre o pecado. Esta Mãe celestial veio enfim buscá-la em 21 de março de 1907, nas primeiras vésperas de sua Compaixão.

 

*

Por meio de sua humilde serva, o divino Mestre dirige-se a nós: “Uma única gota do meu Precioso Sangue basta para purificar a terra, e não pensais nisso!” (p. 62). “A Chaga de meu Sagrado Coração abre-se largamente para conter todas as vossas necessidades!” (p. 79).

Toda esta vida é um apelo para lembrar-nos dos dons de Deus. O sangue redentor é de valor infinito.

Repetindo-nos isto a cada página, esta vida heróica nos faz sentir que nossa fé, que deveria nutrir-se cada vez mais desta verdade revelada, na maioria das vezes, é superficial. Ultrapassa pouco as fórmulas conservadas na memória e repetidas respeitosamente. Não atinge suficientemente as realidades divinas que exprimem.

Dignai-vos, ó Senhor, pela intercessão desta brava religiosa, conceder-nos algo ao menos de sua fé tão penetrante, tão estimulante, de sua contemplação do mistério da Cruz, perpetuada em substância sobre o altar durante a Missa!

Desta fé procede a firme esperança, o amor ardente de Deus e das almas, do qual precisamos nas tristezas da hora presente.

No momento em que o espírito de independência absoluta, de orgulho, levado até ao ateísmo, procura espalhar-se sobre a terra e sobre os países mais católicos, o Senhor sugere a muitas almas interiores rezar como o fazia a humilde conversa da Visitação de Chambéry. Ele as convida a pedir uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e o desejo de participar, na medida desejada para cada um de nós pela Providência, de suas santas humilhações, remédio a todos os orgulhos. O Senhor faz entrever a estas almas, como o fez a esta de que acabamos de falar, que encontrarão neste sincero desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria, para suportar os sofrimentos que sobrevirem e encorajar os demais.

( La vie spirituelle, LIII, 150-168, 1937. Tradução: Permanência)

O heroismo da virtude nas crianças

Garrigou-Lagrange, O. P.

 

Recentemente, alguns estudos muito bons foram publicados sobre a vida interior das crianças 1. Nós gostaríamos de sublinhar aqui alguns aspectos relacionados às virtudes heróicas nelas, tomando como exemplo a vida de Anne de Guigné 2.

De acordo com Bento XIV 3, as virtudes heróicas, para serem comprovadas, exigem quatro condições: 1) a matéria, objeto da virtude, deve ser árdua ou difícil, acima das forças comuns dos homens; 2) os atos devem ser realizados com prontidão e facilidade; 3) também devem ser realizados com certa alegria, que é a de oferecer um sacrifício ao Senhor; 4) bem como com alguma frequência, quando surge a ocasião.

A primeira dessas condições mostra que o heroísmo nas crianças é relativo à sua idade, às suas forças, às condições que comumente possuem. Se alguns adultos são muito pequenos [espiritualmente], há crianças que, por suas virtudes, já são bem grandes. A escritura diz: Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem: "Da boca das crianças e meninos de peito fizeste sair louvor” (Sl 8, 3). Foi isso que Jesus recordou aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas indignados ao ver crianças gritarem no templo: "Hosana ao filho de Davi" (Mt 21, 16); e se, por vezes, a fé dos pequenos serve de exemplo para os grandes, o mesmo deve ser dito de sua confiança e amor.

Pensemos aqui o que pode e deve ser, de acordo com o pensamento e a vontade de Deus, o heroísmo de cada um nas várias idades da vida e nas mais diferentes condições. Deve-se tomar cuidado não apenas com o que se ensina, mas com o que se deve ensinar para se alcançar a perfeição cristã. Devemos também nos lembrar que o sacramento da confirmação já faz da criança um soldado de Cristo. Também não devemos nos esquecer de como as crianças entendem o heroísmo: na maioria das vezes, quando são heróicas, não sabem que são. A criança, quando é heróica, é simples, sem exibição; sua simplicidade lembra a de Jesus na sagrada família de Nazaré.

Convém também assinalar que, na inocência da criança batizada, o Espírito Santo não tem muito o que purificar antes de comunicar a sua luz de vida e sua força atrativa. De fato, existem certas conseqüências marcantes do pecado original, que são como feridas que curam após o batismo. Mas elas não foram agravadas pelos pecados pessoais reiterados. A criança em estado de graça, desde que não peque pessoalmente, está em contato direto com a Santíssima Trindade que nela habita; sua alma é como um diamante, que ainda precisa ser lapidado, mas que praticamente não tem escórias. Das dolorosas purificações, necessárias aos católicos pecadores na medida dos seus pecados, o Espírito Santo dispensa a criança que é fiel à graça no cumprimento dos deveres da sua idade. Então nós a vemos se elevar... ela se deixa levar, não mais por sua mãe, mas pela graça do Todo-Poderoso. Certamente, ainda é preciso deixar-se levar ou conduzir. A criança, menos cheia de coisas para sacrificar, mais livre, mais pura em suas intenções, com frequência sofre menos que o homem. 

A comunhão precoce por vezes leva a frutos de heroísmo nas almas desses pequeninos. A crisma traz uma nova floração de graças; por vezes se constata um belo desabrochar dos sete dons na alma infantil, na medida em que a criança ainda não raciocina de modo metódico e complicado, e segue diretamente para a verdade, como que por intuição.

Nas melhores delas, nota-se uma relativa elevação das virtudes teologais. Como a criança, consciente de sua ignorância e de sua fraqueza, é naturalmente inclinada a acreditar no que o seu pai e a sua mãe lhe dizem, a confiar neles e a amá-los, não apenas pelos benefícios recebidos, mas em si mesmos; do mesmo modo, ela é movida pela graça do batismo a crer na palavra de Deus, que lhe é transmitida pela sua mãe e, em seguida, pelo sacerdote que a instrui, ela é igualmente inclinada a confiar em Deus e a amá-Lo por si mesmo. Ela vive à sua maneira das três virtudes teológicas, antes de refletir sobre a necessidade das virtudes cardeais da prudência, justiça, força e temperança. Nas orações da manhã e da noite, são atos de fé, esperança e caridade que pedimos delas. Se ela é fiel, a cada dia fará esses atos um pouco melhor.

Mais tarde, quando os sentidos despertarem, quando tiverem de entrar em contato com os homens, compreenderão a necessidade das virtudes morais que disciplinam as paixões e que regulam nossos relacionamentos com os outros de maneira justa e equitativa. Então, impressionadas com a importância dessas últimas virtudes de ordem humana, talvez dêem menos atenção às virtudes muito mais elevadas que unem nossas almas a Deus. Ao perderem sua ingenuidade infantil, poderão perder também algo de sua intimidade com o Senhor; não atentarão o suficiente, talvez, para o fato de que, quanto mais avançamos, se é preciso agir menos como criança diante dos homens, é preciso agir mais como criança diante de Deus, pelo progresso da vida de graça, pela consciência de nossa dependência de nosso Pai Celestial, pela intimidade cada vez maior a que Ele se digna nos chamar; finalmente, temos de entrar, por assim dizer, no seio de Deus: os eleitos no céu estão em in sinu Dei, um pouco como o seu Unigênito que está em sinu Patris (Jo 1, 18).

A simplicidade das crianças ajudam-nas a entrar nas alturas de Deus pela Fé, pela Esperança e pela Caridade.

 

A Fé

As crianças acreditam de bom grado nas coisas do Céu, sem deixarem de querer ver e entender o máximo que podem. Não demoram a compreender que esses grandes mistérios não podem ser vistos aqui embaixo, que é preciso crer e, de todo o coração, elas querem fazê-lo. Se forem dóceis, irão crer de modo cada vez mais firme.

Essa perseverança na fé é uma maravilha em algumas crianças. Somente a graça divina pode levá-las a crer firmemente em mistérios tão elevados, invisíveis e incompreensíveis, e dedicar-lhes não uma atenção passageira, e sim uma atenção contínua e cada vez mais penetrante.

Vemos como isso foi o ponto de partida da vida interior de Anne de Guigné. Era essa a verdade fundamental que ela anotava cuidadosamente em seu caderno: “Precisamos salvar nossa alma, ela voltará a Deus, seu Criador. Nosso corpo vem da terra, mas nossa alma vem de Deus". Eis uma verdade elementar para todo católico, mas à qual ela sempre retorna quando fala com Nosso Senhor. Ela escreveu no início de um retiro em abril de 1921: "Quanto mais falo com Ele, mais Ele me responde. Jesus fala comigo poer meio do padre, por meio dos conselhos que o padre me dá. Onde Jesus mais fala comigo acima é no fundo da minha alma por meio da sua graça. O bom Senhor me dirá: quero você mais obediente, não quero que seja vaidosa. Se você já é assim na sua idade, o que será depois?"

Ela observa em outro lugar: "Devemos ter um grande respeito pela presença de Deus. Precisamos respeitar a Deus e a nossos pais... amá-los de todo coração, prestar o máximo de serviços possível, obedecê-los e fazer o que quiserem". Ela acolhe com entusiasmo a idéia de ir ao catecismo para aprender as verdades da religião.

A dificuldade da Fé não vem apenas da sua obscuridade, mas também do seu caráter prático, quando, por exemplo, ela nos pede assentimento para algum sacrifício, como a aceitação da doença ou de sofrimentos que se prolongam. Bem rápido, a criança dirá: “Chega!”. Crer que o bom Deus deseje o seu sofrimento como uma ocasião de luta e para promover um amor mais generoso lhe é difícil. É preciso uma vontade corajosa e, sobretudo, a luz e a força divina para dominar-se. 

A primeira grande dor para Anne de Guigné foi a morte do seu pai. O modo sobrenatural com que aceitou essa morte, como o seu biógrafo demonstra, representou para sua alma o ingresso numa vida nova: pela fé, ela começou a viver do pensamento do outro mundo e a enxergar a vida presente desde uma perspectiva superior. Desde então, essa criança, armada de uma vontade enorme, cede, luta a cada dia e, em alguns meses, é como que invadida pelo Espírito de luz, “doce hospedeiro da alma”. Anne se torna cada vez mais submissa; ela que era inclinada ao ciúme, busca a partir de então só pensar nos outros e não recusa mais nada ao bom Deus. Ao adoecer, declara: “Meu bom Jesus, tudo o que quiserdes!” Isso é mais do que uma simples resignação, pois inspira-se numa grande fé.

Anne, que ama muito a Santíssima Virgem sob o título de Nossa Senhora das Dores, escreve: “De pé diante da cruz, sobre a qual seu Filho estava pregado, Maria chorava… Dai-me a graça de chorar convosco…” — Por que chorar? — “Porque Jesus não é amado o bastante”.

Onde encontrar uma criança que deseje a graça de chorar? A luz divina da fé viva, esclarecida pelos dons do Espírito Santo, traçava o caminho por onde a sua alma avançava.

 

A Esperança

A Esperança não é menos viva que a fé numa criança profundamente católica. Assim como confia naturalmente em seus pais, dos quais se sente amada, a graça a leva a contar sobre o amor de Deus, a esperar o socorro da sua bondade e do seu poder. Sob a luz divina, percebe limpidamente, mas nem sempre sem pena, as manifestações da bondade infinita. Ela crê que a Providência dirige tudo, que nada acontece sem que "Deus o tenha desejado ou permitido”. Ela espera o socorro divino, conta com ele. Quando mais tarde lhe ensinarem que “o motivo formal da esperança é Deus, em quem sempre devemos contar”, compreenderá imediatamente, pois sua experiência há muito lhe terá instruído acerca do socorro divino.

Ao chegar a hora de fazer certos sacrifícios penosos, de renová-los com frequência, se a criança os fizer com perseverança, serenidade e alegria, como vemos na vida de Anne de Guigné, poderá alcançar o heroísmo, que se manifesta precisamente nisso de que a criança guarda não apenas intacta, mas muito viva, a sua confiança amorosa nesse Deus tão bom que lhe pede tantos sacrifícios.

No depoimento da Madre Saint Raymond sobre a vida e as virtudes de Anne de Guigne 4, lemos:

“Foi seu espírito de fé que lhe deu essa grande confiança em Deus que tanto admiramos nela: estava sinceramente persuadida que Deus conduz tudo, que estamos todos em suas mãos, que nada nos acontece sem que seja desejado por Ele, que tudo é, por conseguinte, bom. Daí a sua paz, a sua serenidade, essa alegria inalterável em todas as contradições. Pois Anne não teve a vida fácil que se pode imaginar. Ela sentia dores de cabeça frequentemente, precisava interromper os estudos; ela vivia um tempo aqui, outro tempo acolá; tinha de deixar seus amigos, separar-se; tudo isso devia lhe custar muito, mas ela via a mão da Providência nas menores coisas e, assim, tudo estava bem. 

"É por isso que tanto amava as Escrituras: nelas, via à descoberto a Providência de Deus. A história de Abraão, sobretudo, a impressionava. O Anjo vindo impedir a imolação de Isaac, a fé de Abraão triunfante, tudo isso fazia seu coração bater mais forte… Ela compreendeu muito bem que Deus é tudo! Ir até Ele continuamente, eis a sua vida: ela marchava para Ele em todas as suas ações.” 

As provações jamais alteraram a confiança de Anne de Guigné. Quando, em dezembro de 1921, foi acometida de graves dores de cabeça e nas costas, o seu rosto estava lívido, os músculos respiratórios paralisados. Ela não se queixava, mas gemia docemente: “Meu bom Jesus, não aguento mais”. Em seguida, um sorriso revelava o socorro divino: “Estou feliz”, dizia a pequena doente, feliz por oferecer tudo pelos pecadores. “Sim, ainda quero sofrer muito!”. Ela já vivia alhures, os olhos fixados na pátria celeste, no termo da viagem. Ao invés de ficar abatida com a dor, ela não apenas demonstrava uma confiança vivíssima, mas comunicava aos demais a sua esperança — e a pedia pelos pecadores.

 

A caridade

O amor de Deus em alguns predestinados aparece não apenas sob a forma da caridade afetiva que repousa na Bondade de Deus, amado por si mesmo, mas ainda sob a forma da caridade efetiva, que se prova pelo sacrifício e por um grande amor ao próximo.

Isso é muito marcante em Anne de Guigné; assim, falar de seu amor de Deus é falar, ao mesmo tempo, do seu despreendimento, da sua humildade, da sua mortificação e obediência.

A menina possuia a generosidade de uma noviça carmelita. Bastava-lhe compreender o que era mais perfeito para tentar fazer; foi preciso até mesmo moderar o seu desejo de mortificação quando se tornou muito pronunciado.

É o amor de Deus que lhe movia à prática das virtudes: “É preciso obedecer sempre”, era um dos pontos do seu programa. E ainda que por vezes fosse bem difícil, cumpria esse ponto admiravelmente. Fortificada pela graça da primeira comunhão, ela se dava inteiramente aos seus pequenos deveres familiares e escolares, pequenos em si mesmos, mas grandes para ela e para Deus, pela intenção que a movia a cumpri-los. Aplicava-se a servir aos seus pronta e alegremente. Chegando aos nove anos de idade, escreveu: “para mim, se faz preciso uma luta quotidiana”. Diante dos pequenos ou dos grandes esforços, dizia: “Bom Jesus, eu os ofereço a Vós”. É a sua maneira de caminhar para Deus, de adquirir coragem e perseverança. Não se sabe bem o quanto a mansidão custava à sua natureza irascível: “Ó, como é exasperante… quanta vontade de brigar!” Mas logo a graça triunfava, e a bondade dava a palavra final.

Ela compreendeu que oferecer tudo ao Senhor é um grande socorro para nós: “Nada é difícil quando nós o amamos”. Ela despertava rapidamente todos os dias, ainda que o sono a abatesse. Renunciava aos seus gostos, privava-se de sobremesa, comia os pratos de que gosta menos; uma vez, raspou o corpo em ortigas para agradecer o Senhor por ter atendido um dos seus desejos. Outro dia, tendo deslocado um músculo do joelho, levantou-se sem dar um pio, os olhos cheios de lágrimas, inquieta por ter preocupado os seus: “Mamãe querida, não fique assim, não é nada; fico muito triste por ter te assustado”. Quem viveu perto dela pôde dizer: “nunca a vimos recusar um sacrifício”.

A religiosa que dirigia o catecismo em Cannes nunca percebeu na pequenina — salvo uma pequena vez, quando tinha cerca de quatro anos — a menor inclinação à vaidade, e isso ao longo de cinco anos. Aí está um sinal de grande amor de Deus.

Ainda que fosse inclinada à censurar e mandar, Anne se apagava, fazia-se pequena, e se contentava em ser esquecida; folgava quando lhe davam o pior e buscava sempre reservar pequenas ajudas aos necessitados.

Se a graça que a atraia era bem poderosa, o ardor com que Anne lhe correspondia era dos mais generosos. Uma derrota a deixava humilde e confiante: “Foi porque não rezei bastante…”

Mal tinha quatro anos de idade, quando lhe aplicaram cataplasmas de mostarda bastante dolorosos: “Arde muito… mas, ah meu Jesus, eu Vo-lo ofereço”. Os familiares se compadeciam:  “Sofres muito, Aninha?" — “Ah, não! Ainda estou aprendendo a sofrer”. E acrescentava: “Sempre podemos sofrer alguma coisa por Nosso Senhor porque Ele sofreu por nós”.

Com profunda convicção, aos nove anos, declarou: “Uma vida longa é uma grande graça, porque nos permite sofrer muito por Jesus”. Vê-se aí manifestadamente uma altíssima inspiração do Espírito Santo, inspiração concedida por sua perseverante docilidade.

A sua contínua alegria e perseverança — gestos apagados, ignorados, que ela chamava de “modos pequeninos” — sua contínua Caridade e a sua união a Jesus no meio das suas ocupações, dos seus jogos, não é menos bela do que a sua maneira tão natural de ser… tão sobrenatural aos dez anos.

Quanta renúncia uma fidelidade tão grande exige! “Nós a vemos subir do mesmo modo que observamos no céu o vôo de uma águiazinha”, nos disse uma alma contemplativa que nos ajudou a conhecê-la melhor.

Sem dúvida, a sua educação, o meio em que nasceu, favoreceram o desenvolvimento dessa bela vida interior — o catecismo também ajuda a alma a se refinar, se adaptar, tornar-se delicada, reservada e afável — mas mesmo num berço privilegiado, a prática contínua dessas virtudes requer uma grande generosidade, sinal certo do amor de Deus que não cessa de crescer.

Esta criança tinha o zelo muito evidente da glória de Deus, estava “pronta para suportar tudo por sua fé.” O pecado feria o seu coração: “Ó meu Deus, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem…”. Percebia surgir nela a vocação do Carmelo “pela glória de Deus”.

Ela velava, sobretudo nos primeiros sábados de cada mês, para evitar as menores faltas, para ser agradável à Santíssima Virgem e lhe oferecer nesse dia “mil sacrificiozinhos em reparação dos pecados cometidos contra a sua honra”. Oração, rosário, Ave maris Stella, rejubilavam o seu coração e o uniam a Jesus por sua Mãe Imaculada.

Entre as crianças cuja vida já foi escrita, bem poucas, aparentemente, receberam tantas graças de recolhimento, de união com Jesus, como a pequena Anne. Ela também sabia fazer penitência pelos pecadores, desejando fortemente “conversões extraordinárias… para que todos reconheçam a glória de Deus.” Ela adorava “quando lhe confiavam uma alma a ser convertida.”

Nesta menina bem equilibrada, percebemos uma caridade radiante e universal, a paz, a doçura e também a gravidade, que não impedia as brincadeiras nas horas de recreação; não encontramos nela nada de irrefletido.

Impressiona profundamente esse grande sinal do amor de Deus e do próximo que é o esquecimento de si mesmo. Desde os primeiros dias da sua doença, inquietava-se mais com a fadiga dos seus do que com o seu próprio mal, e a Nosso Senhor rezava: “Curai outros doentes”. É o ensinamento de Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13, 35)

A vida eucarística de Anne de Guigné merece menção especial; é um outro sinal do seu grande amor a Deus.

Ela ainda não sabia ler, e já seguia a missa num pequeno missa com imagens, sem perder um só gesto do padre 5.

Uns dois anos antes da sua primeira comunhão, já falava a todo hora desse dia e pedia à sua mãe que lhe falasse a respeito 6. Ela queria a todo custo preparar “uma bela morada no seu coração ao seu querido Menino Jesus”, e para isso não recusava nenhum sacrifício.

No dia da sua primeira comunhão, a alegria era grandíssima; eufórica, corria de uma a outra das suas amigas. A Madre Saint Raymond escreveu no seu depoimento que, depois desse dia, se fosse privada da comunhão por alguma falta, choraria com todas as forças do seu corpo 7

Também ficou felicíssima com a primeira comunhão das suas irmãs: ela transmitia-lhes o seu entusiasmo, vivendo com elas numa perfeita harmonia 8

Antes de se aproximar da santa mesa de comunhão, demonstrava grande delicadeza de consciência; um dia, perguntou à mãe: “Será que andei muito dispersa?” Por vezes, censurava a si mesma pela negligência na oração 9.

Desde a véspera, pensava na eucaristia, por vezes tomava seu pequeno livro, lia-o antes da Comunhão e se preparava com fervor para a grande ação do dia seguinte; ela comunicava a sua alegria à sua preceptora 10.

Ela dizia ao irmãozinho: “Ah, como você ficará feliz quando o menino Jesus estiver no seu coração!”. Mais tarde, enquanto brincava com ele, interrompeu de repente e propôs com gravidade e docilidade: “e se nós fizéssemos uma curta oração para nos prepararmos para a comunhão de amanhã?” 11 Em outro dia, nós a vemos ajoelhada sobre o degrau de uma escada. Interrogada sobre o que fazia, respondeu: “Eu agradecia ao bom Jesus, disse ela, por querer vir ao meu coração” 12. Seu biógrafo escreveu:

Nas suas visitas ao Santíssimo Sacramento, encontrava no tabernáculo o seu Deus vivo e, quando a hóstia pairava sobre o altar, seu olhar se fixava sobre o ostensório com profundidade e intensidade tão impressionantes, com uma chama tão luminosa, que sua fé parecia tocar na visão 13.

“Para que a vida de Jesus cresça em mim, escreveu Anne, é preciso que minha alma se alimente muito frequentemente.” “Eu quero comungar sempre que possível”, também escreveu. “A vida da graça é muito preciosa, e seu alimento, que é Jesus Cristo, é tão bonito que é preciso desejá-lo de todo coração."14

Ela confiou a uma das suas tias, que era religiosa: “Essa manhã, chorei porque mamãe não me deixou comungar”; em seguida, acrescentou: “mas agora já estou bem porque me ensinaram a fazer a comunhão espiritual."

Uma manhã, passou pela sua casa, à caminho da Missa, uma amiga da sua mãe; a menina lhe perguntou: “A senhora poderia me levar?” e, depois de obter a permissão da mãe, voltou tão contente que logo lhe perguntaram: “Desejas muito ir a missa?” — “Ah, sim!, respondeu ela, amo muito ir a missa… e depois, veja, é uma comunhão a mais.” 15

Durante o santo sacrifício, após ler o evangelho do dia, cerrava os olhos e, com a cabeça levemente inclinada, com as mãos juntas, deixava-se absorver inteiramente por um movimento profundo da sua alma, unindo o seu coração ao coração eucarístico de Jesus. O ardor da sua alma deixava-se trair pelos menores gestos, e quando retornava da santa mesa, estava “inteiramente perdida em Deus”, a ponto de ser preciso, por vezes, guiá-la até que reencontrasse o seu lugar 16.

Um dia, perguntou à sua mãe:

— Mamãe, posso rezar sem o livro durante a missa?

— Por que, minha filha?

— Eu já sei de cor todas orações do missal e muitas vezes me distraio ao ler. Mas, quando falo com o bom Jesus, nunca me distraio; é como quando a gente conversa com alguém, mamãe, a gente sempre sabe o que diz.

— E o que você fala ao bom Jesus?

— Que o amo. Em seguida, peço por você e pelos demais, para que Jesus os torne bons. Eu lhe falo sobretudo dos pecadores.

E, ruborizando-se um pouco, acrescenta:

— Depois eu digo a Ele que gostaria de vê-lo 17.

Diz-se que, durante a fase final da sua vida, sua piedade tinha “algo de celeste”. Após a comunhão, na festa de Todos os Santos, poucos meses antes da sua morte, ela parecia transfigurada. Na igreja ela era notada, e um fiel chegou a se levantar para “ver melhor aquele perfil que não tinha nada de humano” 18

No dia 28 de dezembro de 1921, o seu confessor lhe disse: “Quer que eu te traga Nosso Senhor?” — “Ah, sim!” respondeu com uma voz na qual transparecia um desejo imenso 19. Ela morreu alguns dias depois, após ter visto o seu anjo da guarda e voltando um olhar derradeiro à sua querida mãe. Uma única palavra saia de todo os corações: “É uma santa.” 20

Por seu amor à Eucaristia, Anne de Guigné nos faz pensar na beata Imelda Lambertini, morta aos onze anos durante a ação de graças da sua primeira comunhão.

Ao ler a sua biografia, lembramo-nos do princípio: a prova da caridade, do amor de Deus, são as obras das diferentes virtudes que a caridade inspira. “Pelos seus frutos os conhecereis”. Sem querer antecipar os julgamentos da Igreja, é possível pensar que encontramos nessa criança, também morta aos onze anos de idade, as quatro condições requeridas por Bento XIV para julgar da heroicidade das virtudes: 1a. a matéria difícil, acima das forças comuns às crianças dessa idade; 2a. a prontidão no cumprimento dos atos virtuosos; 3a. a alegria de oferecer sacrifícios ao Senhor; 4a. a freqüência desses atos, desde que a ocasião se apresente.

Isso nos faz pensar no que ensinou Santo Tomás: “além da virtude comum, [há] uma virtude heróica ou divina, que faz certos serem chamados homens divinos“21 — devemos ver aí uma inspiração especial do Espírito Santo.

O relato dessas virtudes deve nos mover a agradecer ao Senhor que se compraz em cumular os pequenos e a restabelecer, assim, o equilíbrio na balança do bem e do mal; a colocar um contrapeso em tantas vilanias que a iniquidade acumula. Nós encontramos também aí um grande exemplo e, tendo chegado ao limiar da velhice, percebemos que ainda temos muito a aprender dos melhores dentre esses pequeninos.

 

Outros exemplos de heroicidade manifesta

Anne de Guigné não foi uma exceção. Outras crianças nos oferecem exemplos semelhantes. Veja, em um ambiente completamente diferente, a filha de um operário comunista. Annette 22 perdeu a sua mãe; ela possui quatorze anos e educa seus quatros irmãos e irmãs. A caridade católica a conquistou e ela converte seus irmãos. Morre em seguida tentando impedir que seu pai cometesse numa igreja um furto sacrílego.

O pai estava desempregado; os camaradas o convidaram a roubar os vasos sacros da igreja… para transformá-los em lingotes de ouro e alimentar os filhos. O honesto operário hesita, mas os outros o desafiam e o pai da Annette entra com eles no santuário. Ela os acompanha… e se joga sobre um deles que repele este agressor desconhecido com tanta violência que a criança desmorona no chão. O pai de Annette corre, reconhece a sua filha e a leva consigo. Ela morre sob as benções do padre, como uma vítima pura e radiante de alegria. O pai, tocado, retorna à religião.

Não podemos falar desse tema sem lembrar a heroicidade da pequena Nellie, de quatro anos de idade, cuja vida foi escrita há poucos anos 23. Atormentada pela osteíte que corroía a sua mandíbula, para suportar as dores ela apertava o crucifixo contra o seu coração; enquanto lágrimas corriam, ela aceitava tudo, repetindo sem parar: “Olham como o Deus santo sofreu por mim!”

Podemos mencionar a vida de Lucila de Senilhes, morta aos quinze anos de idade, oferecendo a sua vida pela Igreja e pela sua pátria 24.

Antes de vir a pedir o sofrimento, essa menina escrevia:

“Renunciar a si mesma; não falar assim: “eu preferiria que…” — Para conservar a paz, é preciso obedecer quatro regras importantes: Procurar fazer antes a vontade de outro do que a própria. Escolher sempre ter menos do que mais. Buscar em tudo o último lugar. Desejar sempre e suplicar que a vontade de Deus se cumpra perfeitamente em nós!” 

Um dia, ela escreveu depois da comunhão:

Procurai a minha felicidade e procurarei a tua” — Eis, meu Deus, o pensamento que vós me enviastes essa manhã, durante a comunhão. Como eu procurarei a vosso felicidade, ó divino Coração do meu Jesus? Eu o farei cumprindo fielmente meu dever quotidiano, oferecendo-vos todas as minhas ações, fazendo muitos pequenos sacrifícios por amor de vós, rogando pelos pecadores, fazendo com que o Senhor seja amado, não resistindo jamais aos movimentos da vossa graça.”

Seguindo esta via e sob a inspiração do Espírito Santo, ela chegou a pedir o sofrimento.

"Minha natureza é tão fraca que ela se queixará — é o que temo, meu Deus, se vós a fizerdes sofrer; mas então, Senhor, não escutai o que eu vos disser, e quando tiverdes começado, ó Jesus, não parai mais; eu me entrego a vós; a única coisa que eu vos demando, é de me ajudar a suportar o sofrimento… Ó meu Deus! Eu vos consagro os meus quinze anos com todo o fervor da minha alma… Enviai-me o sofrimento… aumentai o número dos justos que salvarão a França.”

Pouco depois, ela morreu de pneumonia, suportando heroicamente, sem um suspiro sequer, uma punção na coluna vertebral feita com agulhas bem curtas.

Qual o peso de uma alma de criança tão heróica nas mãos de Deus?

Em 1909 morria também heroicamente, na Itália, a pequena Guglielmina Tacchi Marconi, conhecida em Pisa pelo seu amor extraordinário pelos pobres 25. Nas ruas, ela os procurava para poder vir socorrê-los. À mesa, ela não conseguia comer se algo lhes faltasse.

Ela morreu aos onze anos, torturada ao longo de sete meses por uma endocardite; durante esses meses, não se viu um capricho sequer. Desde o primeiro dia, ela, que não tinha mais do que uma hora de sono tranquilo, contentava-se em repetir com muita confiança: “Tutto per amore di Gesù!” Após a sua primeira comunhão, feita antes de morrer, permaneceu longo tempo em êxtase, e morreu dizendo: “Vinde, Jesus! Vinde, Jesus.”

Um livro recente: Mes Benjamins 26, relata os atos heróicos realizados por criancinhas anamitas, japonesas, das quais algumas, já conhecidas, morreram como mártires. Para terminar, citaremos algumas.

Uma pequena anamita, Dân, que morreu martirizada aos treze anos, havia sido aprisionada com sua família, sofreu de sede e, apesar dos maus-tratos, manteve-se sempre inflexível, dizendo: “Eu jamais negarei o meu Deus.” Como poderia ela, sem se queixar, suportar inúmeros golpes de rattan com que lhe fustigavam o corpo? Ela não cessava de rezar, adorando o Senhor, o Verbo incarnado, e depois gritou: “Que me acorrentem, que me metam na canga, que me submetam às demais torturas ou ao cruel suplício até a morte pela fé… já me decidi: estou decidida a sofrer tudo.” — Submeteram-lhe ao vergaste, a roda, ao cavalete; queimaram-lhe as extremidades dos membros, arrancaram-lhe as unhas, derramaram-lhe chumbo nas orelhas. Mas ela manteve-se inquebrantável. Sobre as suas chagas vivas, continuavam a golpeá-la! Dân logo viu os insetos roerem seus machucados.

A criança não pôde mais se reerguer; no entanto, nenhuma queixa! E Dân deixou assim a terra rumo ao Céu.

No mesmo livro, lê-se o relato do martírio de três meninos japoneses canonizados por Pio IX em 1862. Eles queriam morrer como mártires, como os católicos. Maximiniano, com onze anos de idade, pediu com lágrimas no rosto que o mandassem para a morte. Um soldado lhe deu um golpe de espada na cabeça. — Antônio, de trezes anos, antes de ser martirizado, soube responder ao governador que lhe exigia a apostasia: “Quão insensato eu seria de abandonar hoje os bens certos e eternos por bens incertos e passageiros!”— Luís Ibragi, com doze anos, era tão pequeno que julgaram que seria fácil fazer dele um apóstata. Mas, ao contrário, durante a longa e dolorosa viagem que teve de fazer antes de morrer, era ele que apoiava o missionário, recebendo os golpes em seu lugar. Ele obteve do padre permissão para cantar sobre a cruz o Laudate, pueri, Dominum. Mas o missionário, sobre a cruz, entrou em êxtase, e o menino teve de cantar o Salmo com os outros27.

Lendo esse relato dos feitos realizados por essas crianças de dez a doze anos, e mesmo menores, ao se lembrar das palavras sublimes pronunciadas por muitas delas antes de morrerem, percebemos que possuem uma sabedoria incomparavelmente superior, na sua simplicidade e na sua humildade, à complexidade normalmente pretensiosa da ciência humana. Encontramos aqui o dom de sabedoria em grau eminente, proporcional à caridade desses pequenos servidores de Deus, grandes pelo testemunho heróico que deram até a morte.

 

Roma, Angélico.

  1. 1. Cf., em particular, Etudes Carmélitaines, abril de 1934, L’enfant et la “voie d’Enfance”, Pe. Bruno de Jésus-Marie, O.C.D.
  2. 2. Anne de Guigné, Etienne-Marie Lajeunie, O.P., Éditions du Cerf, Juvisy - La vie Spirituelle, maio de 1931, p. 177 ss, “Un témoignage sur la vie et les vertus d’Anne de Guigné”.
  3. 3. De Servorum Dei beatificatione, I. III, c. 21 e ss.
  4. 4. Cf. La Vie Spirituelle, maio de 1931, pág. 184. Todos os outros aspectos que citamos aqui foram mencionados na biografia escrita pelo P. Lajeunie.
  5. 5. Vie, p. 67.
  6. 6. Ibid., p. 22.
  7. 7. Un témoignage (Vie Spirituelle, loc. cit.), p. 195.
  8. 8. Vie Spirituelle, loc. cit., p. 196.
  9. 9. Vie, p. 43.
  10. 10. Ibid, p. 68.
  11. 11. Ibid., p. 70.
  12. 12. Ibid., p. 70.
  13. 13. Ibid., p. 71.
  14. 14. Ibid,. p. 71.
  15. 15. Ibid., p. 67.
  16. 16. Ibid., p. 68.
  17. 17. Ibid., p. 73.
  18. 18. Ibid., p. 104.
  19. 19. Ibid., p. 111.
  20. 20. Ibid., p. 119.
  21. 21. Ia IIae q.68, a. 1 ad 1.
  22. 22. Petite annette, por Jeanne Froehlich, Apostolat de la Prière, Toulouse.
  23. 23. Nellie, Ir. Bernard des Ronces, Maison du Bon Pasteur, Paris, boulevard Pereire.
  24. 24. Librairie Sainte Cécile, 59 ter, rue Bonaparte, Paris.
  25. 25. Guglielmina, 1898-1909, por Myriam de G., Paris, Lethielleux, tradução italiana: Berruti, Turin.
  26. 26. Escrito por Myriam de G., Éditions du Foyer, Paris, 4, rue Madame.
  27. 27. Nas mesmas páginas, lê-se sobre o pequeno Chales, indiano, que, doente e sofrendo muito, dizia ao missionário que se compadecia dos seus sofrimentos: “Ah, padre, eu fico muito feliz quando me sinto mal, pois penso no Senhor que tanto sofreu por mim!”— O mesmo livro cita dois meninos (prefácio de E. Baumann) onde se fala de dois meninos que viveram frequentemente d emodo heróico. O menor tinha sede de sofrer mais, para que a sua coroa fosse mais bela. Sua irmã conheceu, antes de morrer, a tortura de crer que não havia feito nada pelo bom Deus.

Apêndice

Terminaremos esta obra recordando as principais bênçãos que a França tem recebido da Mãe de Deus. 

Após os anos tão dolorosos que acabamos de atravessar desde 1939 a 1945, para voltarmos a encontrar a vitalidade e as energias necessárias para o restabelecimento intelectual, moral e espiritual de nossa pátria, temos imensa necessidade do socorro de Deus; nós o obteremos pela intercessão de Maria, recordando-nos de tudo o que ela têm feito pela França no curso da nossa história, quando tudo parecia perdido. Recordemos primeiramente os centros de oração de nossa pátria.

 

Santuários antigos e novos de Nossa Senhora

Desde a alta Idade Média, a antiga França esteve repleta de santuários da Santíssima Virgem. Basta recordar os principais: Nossa Senhora de Paris, começada no início do século VI e continuada por São Luís; Nossa Senhora de Chartres, mais antiga ainda; Nossa Senhora de Rocamadour, onde foram rezar Branca de Castela e São Domingos; Nossa Senhora de Puy, que São Luís visitou; Nossa Senhora de la Garde em Marselha; Nossa Senhora de Fourvière em Lyon; muitos santuários conhecidos com o nome de Nossa Senhora do Bom Socorro, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora da Recuperação, Nossa Senhora das Maravilhas. Quantos milagres e graças concedidos ao longo dos séculos nesses lugares de peregrinação!

Os santuários mais recentes de Nossa Senhora de Laus, nos Alpes, de Nossa Senhora de La Salette, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Pontmain, Nossa Senhora de Pellevoisin e muitos outros dizem-nos que as bênçãos de Maria estão sempre conosco. Recentemente quarenta e três paróquias, quarenta e três novas Nossas Senhoras foram construídas nos arredores de Paris.

A Virgem Maria também inspirou, em tempos passados, Santa Genoveva, padroeira de Paris, e Joana d'Arc, a santa da pátria.

Nos momentos mais difíceis, ela suscitou Ordens religiosas, como a de Cister, ilustrada por São Bernardo; a de São Domingos, fundada em Toulouse; ela deu ao Carmelo da França uma admirável vitalidade, bem como a muitas congregações religiosas fundadas antes ou depois da tormenta revolucionária e que freqüentemente levam seu nome.

Como recordou o Papa Pio XI ao proclamar, em 1922, Nossa Senhora da Assunção a padroeira principal de nosso país, a França foi com toda justiça chamada “O reino de Maria, pois foi consagrada a ela por Luis XIII, que ordenou que a cada ano as funções solenes se fizessem no dia 15 de agosto na festa da Assunção da Virgem. No mesmo discurso, o Papa Pio XI recordou que trinta e cinco de nossas catedrais levam o nome de Nossa Senhora e invocou, como uma resposta do Céu à piedade francesa, as aparições e milagres de Maria em nosso solo; e saudou o rei Clóvis e muitos dos nossos monarcas como defensores e promotores dessa devoção à Mãe de Deus.

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Num livro recente, La Vierge Marie dans l'histoire de France, de 1939, escrito por M. A. L. de la Franquerie, encontra-se o relato das múltiplas intervenções da Santíssima Virgem para a salvação de nossa pátria. Como disse no prefácio desse livro V. Em.ª Revma o Cardeal Baudrillart: “Folheamos as páginas desta obra, ficamos assombrados e perguntamo-nos: é possível isso? Então, dirigimos os olhos para o fim destas páginas, para as abundantes referências, as inumeráveis leituras, as fontes, a erudição impressionante de primeira mão... e ficamos convencidos. Devemos também a M. de la Franquerie um surpreendente quadro, através das épocas, um resplandecente ramalhete das virtudes religiosas e da piedade mariana na França... É um fluxo e refluxo incessante, um movimento que pressupõe o outro, da nação que invoca e do Céu que ouve. Visão de esperança para o presente e para o futuro”.

Recordaremos os principais documentos recolhidos por M. de la Franquerie relativos aos grandes períodos de nossa história, para sublinhar as intervenções mais extraordinárias da Santíssima Virgem em nosso favor.

 

Desde Clóvis e São Remígio até a morte de Joana d’Arc

O que sabemos do santuário de Ferrières, no Sénonais, que o Rei Clóvis visitou e com cuja reconstrução contribuiu, e onde ia rezar Santa Clotilde, mostra muito claramente a ação de Maria na conversão de Clóvis e o estabelecimento da realeza cristã1. As palavras de São Remígio que nos foram conservadas e que explicam seu testamento são bem conhecidas: “O reino da França está predestinado por Deus à defesa da Igreja Romana, que é a única verdadeira Igreja de Cristo... Ele será vitorioso e próspero enquanto permanecer fiel à fé romana. Mas será terrivelmente castigado todas as vezes que for infiel à sua vocação 2. Essa profecia tem se realizado incessantemente.

De todos os reis da França, o mais fiel a essa vocação foi incontestavelmente São Luís, que teve para a Santíssima Virgem uma imensa devoção, como mostram as igrejas que mandou construir em sua honra 3. Ia freqüentemente rezar à Virgem Maria na igreja de Nossa Senhora de Paris, e quando construiu a Sainte Chapelle, contígua a seu palácio, para receber nela as preciosas relíquias da Paixão do Salvador, sua piedade, não separando a Mãe do Filho, procurou que a cripta da capela fosse dedicada à Santíssima Virgem. Antes de sua primeira cruzada, veio ajoelhar-se em Nossa Senhora de Pontoise diante da imagem milagrosa para consagrar-lhe o destino da França, de seu exército e de si mesmo 4. No decorrer da cruzada, em meio aos maiores perigos, a calma não o abandonou jamais. Ao prestígio de sua santidade se deveu também a universal influência que exerceu sobre seus contemporâneos e o poder de levar a bom termo as reformas fundamentais que propôs. Durante a última cruzada, da qual participou, morreu de peste em Túnis, no sábado 25 de agosto de 1270, demonstrando uma última vez sua devoção à Mãe de Deus 5.

Seu filho, Filipe III, o Bravo, mostra-se seu digno herdeiro. Mas, posteriormente, as faltas de Filipe, o Belo, em relação ao Papa Bonifácio VIII são castigadas como havia anunciado São Remígio. Seus três filhos sucedem-lhe no trono sem deixar herdeiro. A coroa passa à estirpe dos Valois e a Guerra dos Cem Anos começa pelo fato de que o rei da Inglaterra recusa-se a reconhecer a lei sálica que regia a ordem de sucessão ao trono da França 6.

Durante todo esse período, os Valois reinaram sofrendo muitas vezes a derrota, apesar de sua incontestável coragem, e não cessando de invocar o socorro de Maria até o dia em que, com as faltas finalmente expiadas, a Rainha do Céu interveio por meio de Joana d'Arc para manter inviolada a lei sálica e salvar a França do jugo da Inglaterra, que poderia ter nos arrastado à heresia, pois essa passou ao protestantismo no século seguinte.

Sob Filipe VI de Valois e João, o Bom, os desastres haviam se amplificado e ocorrera a derrota de Crécy e depois a de Poitiers. O rei João foi feito prisioneiro; o povo lançou-se aos pés de Maria. Humanamente, a França estava perdida; em 1360, foi quase reduzida ao estado de província inglesa. A situação era desesperada, mas Maria interveio. O exército inglês havia colocado Chartres em estado de sítio, quando um furacão dos mais violentos não lhe permitiu avançar. O rei da Inglaterra viu nesse flagelo a intervenção de Nossa Senhora de Chartres e fez a paz, que não durou muito.

Sob Carlos V, o Sábio, que tinha uma fé profunda e uma grande piedade mariana, Bertrand Du Guesclin e Olivier de Clisson reorganizaram o exército e livraram uma grande parte do território francês do domínio inglês.

Mas o reinado de Carlos VI é marcado pela invasão inglesa, a traição da rainha Isabel da Baviera e a do duque de Borgonha, a guerra civil e a fome; a loucura do rei leva-o ao cúmulo da desordem geral. Finalmente, o rei morre em 1422; a situação parecia desesperada.

O povo suplica à Santíssima Virgem que venha em seu auxílio, e essa era a única esperança de Carlos VII. É o momento em que Joana d’Arc vem nos salvar da invasão inglesa: “Venho diante do rei da França, da parte da Bem-Aventurada Virgem Maria dirá ela aos seus juízes; e, de fato, não há nenhum evento importante na vida da Donzela em que Maria não esteja implicada. Dois nomes estão escritos em seu estandarte: Jesus-Maria. Em Orleans, depois de ter rezado a Maria, na capela de Nossa Senhora do Socorro, Joana obteve sobre os ingleses a grande vitória que salvou a França. Pouco depois, fez cantar o Te Deum na igreja de Nossa Senhora dos Milagres e renovou o pacto concluído em Tolbiac; ela pede o reino a Carlos VII, que lhe dá; ela mesma o oferece a Jesus Cristo, que, por intermédio de Joana, devolve-o ao rei 7. Esse pacto proclama a realeza universal de Cristo sobre o mundo e particularmente sobre nossa pátria.

Mas, depois da consagração do rei em Reims, o resto da missão de Joana d'Arc a conclusão da libertação da França e o reconhecimento da realeza de Cristo não poderia realizar-se de outra forma que por seu martírio, o ponto culminante da vida da Donzela e a prova da santidade de sua missão, selada com seu sangue. Após a libertação do território, Carlos VII foi render homenagem por suas vitórias em Nossa Senhora de Puy, aos pés daquela a quem freqüentemente tinha vindo rezar nos tempos de suas calamidades. Joana d'Arc tinha categoricamente afirmado que “apesar de sua morte, cumprir-se-iam todas as coisas pelas quais havia vindo8.

 

Depois da morte de Joana d’Arc até os mártires da Revolução

Luis XI reuniu à Coroa: Berry, Normandia, Guiana, Borgonha, Anjou, Maine e Provença. Infelizmente, cometeu um abuso de poder agravado por um crime: participou do assassinato do príncipe bispo de Liège. São Francisco de Paula anunciou, então, ao rei que ele tinha um ano para expiar seu crime. Luis, durante esse ano, entregou-se a uma severa penitência, fez construir uma capela reparadora e morreu no dia anunciado. Seu crime estava perdoado, mas a expiação deveria seguir; sua descendência foi rejeitada: seu filho Carlos VIII não teve herdeiro sálico e o trono passou a seu primo Luis XII. São Remígio havia escrito em seu testamento sobre o rei infiel à sua vocação: “Seus dias serão abreviados e outro receberá a realeza” 9. Era a segunda vez que essa profecia se realizava, e se realizaria ainda em breve.

Luis XII testemunha seu reconhecimento a Maria pelos muitos favores que havia recebido dela. Assim também o fez Francisco I depois da brilhante vitória de Marignan, e construiu em Milão uma igreja em honra da Mãe de Deus. Mas a proteção divina o abandona quando ele favorece o renascimento pagão, pactua com os protestantes e erige em dogma o direito ao erro. É feito prisioneiro em Pavia (1525). Arrepende-se, oferece uma reparação à Santíssima Virgem em três igrejas: Bayonne, Puy e Paris; mas volta a cair em seus erros e de novo a proteção divina o abandona, realizando-se uma vez mais a profecia de São Remígio: golpe após golpe, seis de seus sete filhos morrem e o país encontra-se à beira das guerras de religião.

A situação agrava-se com Catarina de Médici. Os protestantes não tardam em devastar a França, incendiando e destruindo igrejas e mosteiros, mas não contam com a proteção de Maria; graças à devoção da França à Santíssima Virgem o protestantismo fracassou. Um dos primeiros atentados dos huguenotes havia sido a sacrílega profanação de uma estátua dedicada à Virgem. O tratado de Péronne, ao contrário, em que foi organizada a Liga, foi confiado Àquela que sempre triunfa sobre as heresias. Sob sua influência, a alma da França reanima-se. Os príncipes da casa real são os primeiros a inscrever-se. Cada um dos partidários da Liga concorda, com um juramento, “a manter a dupla e inseparável unidade católica e monárquica do santo reino da França tal como estabelecida milagrosamente no batistério de Reims, por São Remígio, tal como restaurada milagrosamente por Joana d'Arc, tal como inscrita na lei sálica”; “a fazer com este fim o sacrifício de seus bens e de sua vida...”.

Finalmente, depois de muitas lutas, é aos pés de Nossa Senhora que vem espatifar-se a heresia pela conversão de Henrique IV, que regressa ao Catolicismo, e por sua coroação em Nossa Senhora de Chartres 10.

Ajudado por seu primeiro ministro Sully, restaura completamente o reino, reduz os impostos, reorganiza a agricultura, recupera o comércio e a indústria, favorece as empresas coloniais e, graças ao seu apoio, Champlain funda a cidade de Quebec. Ao final do seu reinado, a França era a nação mais rica, mais próspera e populosa.

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Depois de Henrique IV, Luis XIII, o Justo, modelo de rei cristianíssimo, consagra a França a Maria. Tendo-se inteirado do fervor com o qual se recitava o Rosário em Paris, na igreja dos Irmãos Pregadores, todos os sábados para o reino da França, ordenou que se praticasse a mesma devoção em seu exército, para triunfar sobre os protestantes.

A vitória sobre os Calvinistas, apoiados pela Inglaterra, foi tão brilhante que a Universidade de Paris, em 1º de novembro de 1628, declarou: “Confessamos altamente regozijados que a maior parte da nossa França, infecctada pela peste da heresia, tem sido curada pelo Rosário de São Domingos 11.

Luis XIII, tendo sido assim favorecido, fundou a Igreja de Nossa Senhora das Vitórias em 09 de dezembro de 1629.

Em 05 de setembro de 1638, o nascimento de Luis XIV foi a ocasião determinante do ato oficial pelo qual Luís XIII consagrou a França à Santíssima Virgem e instituiu a procissão solene de 15 de Agosto.

O próprio reinado de Luis XIII terminou gloriosamente, e uma plêiade de santos foi dada à França: São Francisco de Sales, Santa Joana de Chantal, São Vicente de Paulo, Santa Luísa de Marillac, São João Eudes. Todo o renascimento cristão do século XVII, o grande século, resulta diretamente do reinado de Luis XIII, o Justo, e de seu ato de consagração da França a Maria.

O autor da obra que resumimos conclui 12: “Consagrando a França à Santíssima Virgem, Luis XIII deu à Rainha do Céu um direito de propriedade total e irrevogável sobre nosso país, e Maria não pode abandonar definitivamente ao poder de Satanás o que lhe pertence especialmente, sem incorrer no mesmo instante numa diminuição definitiva de sua onipotência de intercessão, de sua soberania e de sua realeza, o que é uma impossibilidade”.

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Luis XIV veio a Chartres em 25 de agosto de 1643, no início de seu reinado, para colocá-lo sob a proteção de Maria; renovou essa consagração a cada ano e, mesmo no tempo de seus erros, conservou uma real devoção à Mãe de Deus, e foi assim que ele se impôs a obrigação de recitar cotidianamente o terço. Como mostra Mons. Prunel em seu livro O Renascimento católico na França no século XVII, o episcopado teve em seu conjunto uma vida profundamente digna e apostólica, tomando por modelo São Francisco de Sales. As ordens religiosas foram reformadas: Beneditinos, Cistercienses, Agostinianos, Dominicanos rivalizavam de ardor para refazer uma França nova. São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal fundam a Visitação; os Carmelitas são introduzidos na França pela Sra. Acarie; o cardeal de Bérulle institui o Oratório; São João Eudes, a congregação dos Eudistas; São Vicente de Paulo, os Padres da Missão e as Filhas da Caridade. M. Olier estabelece o seminário de São Sulpício e pouco a pouco organiza-se um seminário em cada diocese. Ao fim do reinado de Luis XIV, o Santo de Montfort, fundador da Companhia de Maria e das Irmãs da Sabedoria, evangeliza o Poitou, Anjou, a Vendée, e nessas regiões inculca nas almas uma profunda devoção ao Sagrado Coração e a Maria, que lhes protegerá contra os sofismas dos filósofos do século XVIII e contra a impiedade revolucionária, e assim nasce o heroísmo dessas populações durante as Guerras da Vendée sob o regime do Terror.

O quadro do renascimento católico na França no século XVII estaria incompleto se não falássemos da evangelização do Canadá pelos religiosos e religiosas franceses que, desde Quebec, resplandecem em todas aquelas regiões; foi desse modo que em 1642 começou a fundação de Montreal com o nome de Vila Maria 13.

São Vicente de Paulo envia os padres Lazaristas para evangelizar a Argélia, Bicerta, Tunísia e mesmo Madagascar. Os Jesuítas franceses, Carmelitas e Capuchinhos partem para a China e Tonkin. O seminário das Missões Estrangeiras é fundado e também a Congregação do Espírito Santo, para formar igualmente os missionários.

Esse renovamento católico no século XVII mostra os frutos alcançados pela consagração do reino da França à Virgem Maria, consagração renovada por Luis XIV quando colocou o seu reino sob a proteção da Mãe de Deus.

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Em sua História do culto à Santíssima Virgem na França 14, Hamon observa: “Até o século XVII, a devoção a Maria vai crescendo incessantemente, e ali, mais do que nunca, resplandeceu em todos os lugares... (Mas pouco depois) o espírito religioso e, como conseqüência necessária, o amor à Virgem, debilitaram-se sob a Regência e diminuíram sob o sopro gelado do Jansenismo; os dias nefastos da França preparavam-se”.

Pervertido e sem convicções religiosas, o Regente deixou os incrédulos e libertinos preparar o terreno às sociedades secretas e combater as tradições mais sagradas. As primeiras lojas maçônicas instalaram-se na França e dispersaram-se por todo o reino, formando uma rede formidável e secreta que minará silenciosamente o edifício e o fará desmoronar durante a Revolução. A profecia de São Remígio vai se realizar novamente.

Como o confirmam os trabalhos recentes sobre as sociedades secretas, com uma duplicidade e destreza satânicas, a Maçonaria fomenta o orgulho, a ambição, a inveja e se serve de espíritos utópicos. Eleva os seus adeptos aos mais altos postos e mina, pouco a pouco, todas as instituições, até o Exército e a Marinha. Todos os filósofos do século XVIII são seus adeptos e a Enciclopédia é o compêndio de seus erros; ela trabalha incansavelmente para a descristianização da França.

À morte de Luis XV, as lojas, pela boca de Turgot, procuram obter a supressão do sagrado para laicizar o reino cristianíssimo. Calunia-se gravemente a rainha.

Luis XVI percebe que a tempestade está prestes a começar; a 10 de fevereiro de 1790, renova o voto de Luis XIII, consagrando a França ao Coração Imaculado de Maria.

Mais tarde, opondo seu veto ao decreto de deportação dos sacerdotes, compreendeu que disputavam sua coroa e expunha-se à morte, mas diante da revolta desencadeada, responde dignamente aos líderes: “Antes renunciar à coroa que participar em semelhante tirania das consciências. Prefere morrer a trair a missão confiada por Deus à sua linhagem.

A Revolução é, então, o sinal dos crimes mais atrozes; em seu ódio satânico contra Deus, ela vai muito mais longe do que pretendiam aqueles que a desencadearam: arrasta-os e quer descristianizar a França para sempre. Satanás parece triunfar, mas sua vitória não pode ser definitiva: a França está consagrada à Virgem Maria. Esse é um dos grandes motivos que permitem ter esperança na sua ressurreição, quando a expiação tiver sido suficiente.

Do ponto de vista da fé, que é o de Deus, o que há de mais notável sob o Terror é, evidentemente, o martírio de muitas vítimas que consumaram seu sacrifício invocando a Santíssima Virgem, como os mártires de Orange, as Carmelitas de Compiègne e as Ursulinas de Valenciennes.

Como demonstrou M. Gautherot, em seu livro L'epopée vendéenne, depois de uma resistência heróica e muitas vezes vitoriosa, os Vendeanos derramaram o seu sangue cantando a Salve Regina, o Magnificat ou os hinos populares à Santíssima Virgem.

Em dez anos, o Santo de Montfort havia transformado tão profundamente, no final do século XVII, as províncias do Oeste, que os netos de seus fiéis levantaram-se como um só homem para defender a sua fé, carregando no peito o escapulário do Sagrado Coração e na mão o terço. De tal modo que Napoleão, por sua própria confissão, negociou a Concordata porque não tinha sido capaz de dominar essas províncias sem restabelecer a religião. Chouanos e Vendeanos salvaram assim a religião na França, apesar da sua derrota.

Mons. Freppel, em seu Panegírico de São Luís Grignion de Montfort, pronunciado em São Lourenço sobre o Sèvre, em 8 de junho de 1888, concluiu: “Pode-se dizer que a resistência heróica da Vendéia à obra satânica da Revolução salvou a honra da França... Contra a desordem revolucionária, procedente das utopias perigosas de um Jean Jacques Rousseau e dos filósofos do século XVIII, ela defendeu, com o preço de seu sangue, a ordem social cristã que havia construído, durante séculos, a honra e a força da França. Graças, sobretudo, à resistência obstinada e indomável da Vendéia, a França pôde recuperar suas liberdades religiosas. Infrutífero na aparência, seu sacrifício não permanecerá estéril, porque se é verdadeiro que o sangue dos mártires torna-se uma semente fecunda e que Deus regula o seu perdão em conformidade às nossas expiações; se, alguns anos depois dessa guerra de gigantes, como a chamava um homem que a entendia, tendes visto vossos altares reerguerem-se, vossos sacerdotes retornar do exílio e a Igreja da França resurgir de suas ruínas mais pujante que nunca, é porque o sangue dos justos tinha merecido todas essas restaurações”.

 

Depois da Revolução até nossos dias

Foi na Festa da Assunção, em 15 de agosto de 1801, que Pio VII ratificou a Concordata, e em 8 de setembro, outra festa da Santíssima Virgem, o Primeiro Cônsul colocou sua assinatura. Maria decidiu salvar a França, cuja ressurreição havia sido comprada pelas mais puras vítimas durante o Terror.

Os regimes políticos posteriores que não quiseram reconhecer os direitos de Deus e os nossos deveres desabaram miseravelmente, para monstrar que somente Deus pode dar a estabilidade e a duração.

Maria manifestou sua ação benéfica pela restauração ou fundação de institutos religiosos plenos de zelo, suscitando valentes defensores da fé, e pelas intervenções pessoais como as de La Salette, Lourdes e de Pontmain.

Primeiro, o Pe. Emery restaurou o Seminário de São Sulpício, onde se formou a maioria dos grandes bispos da primeira metade do século XIX; pouco a pouco reapareceram, em 1808, os Irmãos das Escolas Cristãs (Irmãos Lassalistas); em 1814, os Jesuítas; em 1815, as Missões Estrangeiras e a Trapa; em 1816, os Cartuxos; em 1837, os Beneditinos com Dom Guéranger e, em 1839, os Dominicanos com o Pe. Lacordaire.

Depois surgiu um número considerável de novas congregações, particularmente a dos Marianistas, os Oblatos de Maria Imaculada, os Maristas, os Padres do Sagrado Coração de Bétharram, as Irmãs do Sagrado Coração, as Religiosas da Assunção, as Irmãs de São José de Cluny, os Oblatos e Oblatas de São Francisco de Sales, as do Bom Pastor de Angers, entre outras.

Desde 1825, em Lyon, Paulina de Jaricot organizou a obra do “Rosário Vivo” e três anos depois fundou a Propagação da Fé.

Para evangelizar a classe trabalhadora deixada sem defesa depois que a Revolução tinha suprimido as corporações, que asseguravam aos trabalhadores a segurança na honestidade, obras admiráveis foram fundadas: as Conferências de São Vicente de Paulo, estabelecidas por Ozanam, o Instituto dos Irmãos de São Vicente de Paulo, os círculos operários, as obras do patronato. Para ajudar os pobres e os idosos, muitas congregações foram fundadas, particularmente, em 1840, as Irmãzinhas dos Pobres, que atendem hoje quarenta mil idosos e, em seguida, as Irmãzinhas da Assunção.

A França tem retomado assim, depois da Revolução, sua nobre missão de evangelizar o mundo inteiro pelas antigas Ordens restauradas, pelas fundações novas dos Missionários Africanos de Lyon, os Padres Brancos do Cardeal Lavigerie, os Missionários de La Salette, as Missionárias Franciscanas de Maria.

A Santíssima Virgem tem suscitado ainda eminentes defensores da fé, como Joseph de Maistre, Bonald, Lacordaire, Montalembert, Luis Veuillot, Dom Guéranger, o Cardeal Pie, que viu na proclamação do dogma da Imaculada Conceição o sinal certo dos próximos triunfos da Igreja e da França.

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Maria tem, enfim, intervindo pessoalmente de forma excepcional muitas vezes no transcurso do século XIX.

Em 1830, no momento em que os abalos da Revolução sacudiam o solo da pátria e derrubavam o trono, a Santíssima Virgem apareceu a uma humilde filha de São Vicente de Paulo, ainda noviça, Catarina Labouré, e revelou-lhe a medalha milagrosa que carrega a inscrição: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Ela preludiava assim a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, as aparições de Nossa Senhora em Lourdes e os prodígios que viriam depois. Nessa medalha estão também representados o Sagrado Coração de Jesus, rodeado de uma coroa de espinhos, e o Coração Imaculado de Maria, traspassado por uma espada.

Em 1836, a Santíssima Virgem inspirou o seu servidor, Pe. Desgenettes, pároco de Nossa Senhora das Vitórias, a fundar a Arquiconfraria de seu Coração Imaculado, para a conversão dos pecadores. Essa paróquia, a partir desse instante, é transformada e hoje essa arquiconfraria conta mais de 50 milhões de membros espalhados pelo mundo.

Em 1842, a Santíssima Virgem suscitou um grande movimento para a conversão dos judeus, aparecendo, tal qual está representada na Medalha Milagrosa, ao jovem israelita Afonso de Ratisbona, enquanto este visitava por curiosidade a Igreja de Sant’Andrea delle Fratte, em Roma, e nem sequer pensava em converter-se. Maria fez-lhe um gesto para que se ajoelhasse, e ele sentiu uma força irresistível que o converteu instantaneamente e o fez ardentemente desejar o batismo. Assim como seu irmão mais velho, Teodoro, Afonso de Ratisbona entrou pouco depois no sacerdócio e ambos fundaram o Instituto dos Religiosos e Religiosas de Nossa Senhora de Sion, cuja ação é muito eficaz na França e estende-se amplamente no exterior, notadamente no Brasil.

Em 1846, Maria apareceu a duas crianças em La Salette e deu-lhes uma mensagem para “seu povo”. “Não posso mais disse segurar o braço de Meu Filho”. Ela enumerou as faltas que vão provocar os castigos divinos se não houver arrependimento; apontou como crimes “a blasfêmia, a profanação do domingo, a violação da abstinência e do jejum, o esquecimento da oração”. A advertência da Mãe de Misericórdia é pouco compreendida, mas essa indiferença não cansa o seu amor materno.

Em 8 de dezembro de 1854, no mesmo dia da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, o bispo de Puy colocou a primeira pedra da estátua gigantesca que desejava erigir a Nossa Senhora da França no Monte Corneille, e que foi construída com os 213 canhões tomados do inimigo durante a expedição para a Criméia, pelo marechal Pélissier.

Em 1858, Maria apareceu 18 vezes em Lourdes a Bernadette Soubirous e se nominou “A Imaculada Conceição”, como que dizendo: eu sou a única criatura humana que escapou completamente da dominação infernal. Em virtude desse privilégio que lhe assegura a vitória sobre o inimigo de nossa salvação, ela nos traz o perdão de Seu Filho dizendo: “Orai e fazei penitência”.

A segunda advertência é ainda pouco entendida. Assim, a França não tardou a sofrer em 1870 a invasão alemã e a guerra civil. É o custo por não ter seguido os conselhos da Virgem de La Salette e de Lourdes.

Não obstante, por distintos caminhos, muitas pessoas recebem então a inspiração de fazer um voto nacional ao Sagrado Coração, cuja Basílica de Montmartre perpetua a memória.

Em 17 de janeiro de 1871, Maria apareceu a duas crianças em Pontmain e lhes disse: “Rezem, meus filhos, Deus os escutará em breve. Meu Filho se deixa comover pela piedade”. Ora, é um fato certo que a partir do momento em que a Virgem apareceu em Pontmain o inimigo não deu sequer mais um passo no território francês. Dois meses mais tarde a paz foi feita e seis meses depois a Comuna foi vencida; a França estava salva.

Em 1876, Maria apareceu a Estela Faguette, paralítica e tísica, em Pellevoisin; ela a cura e lhe dá a entender que também quer curar a França, a quem Satanás tornou, do ponto de vista espiritual, tísica e paralítica pelas falsas doutrinas e pelas leis ímpias. Libertada dessas cadeias, a França deve recobrar a saúde e voltar à oração e às tradições seculares da fé. Maria, ao mesmo tempo, ordena a difusão do Escapulário do Sagrado Coração, porque os méritos de Seu Filho são a fonte da salvação, e a Virgem promete sua assistência.

Apesar dessas intervenções sobrenaturais, o trabalho satânico operado pelas lojas maçônicas para a descristianização de nossa pátria continua. Mas a generosidade das almas mais crentes é tal que a França é mais ainda vítima que culpada; a qualidade predomina sobre a quantidade nos pratinhos da balança do bem e do mal. Assim, Maria nunca abandona o seu reino. A França está ainda salva apesar de uma nova invasão alemã em 1914. Após a vitória de Marne, a prisão imediata das tropas alemãs permanece humanamente inexplicável, uma vez que possuíam uma artilharia três vezes superior em número e em potência à nossa e que nossas tropas estavam privadas de munição 15.

Depois de 1918, temos ainda cometido muitíssimas faltas que mereciam uma nova lição da Providência. O amor ao prazer, o divórcio, o controle de natalidade, a luta de classes conduzem os povos à desagregação e atraem os castigos de Deus. Só o Evangelho e a graça divina podem reanimar-nos para a reorganização do trabalho, da família e da pátria.

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Todas essas graças concedidas por Maria no decorrer dos séculos depois de dois mil anos para restabelecer a paz entre os povos concederam-lhe o título de Rainha da Paz. E é para nós uma nova razão para pedir ao Soberano Pontífice a consagração do gênero humano ao Coração Imaculado de Maria para obter aos povos e para aqueles que os governam as graças da luz, da cordialidade, da união, da estabilidade e da força, que, nos tempos tão perturbados em que estamos, são indispensáveis para a pacificação do mundo, que somente Deus pode realizar.

 

Fórmula de oblação de si mesmo a Maria, para que ela nos ofereça plenamente a seu Filho

Convém que as almas interiores, sobretudo as almas consagradas, que vivem da verdadeira devoção à Santíssima Virgem tal como a expôs o Santo de Montfort, ofereçam-se à Virgem Maria para que ela mesma os ofereça plenamente a seu Filho, segundo sua perfeita prudência e a extensão de seu zelo maternal. Não caminharemos, assim, nem muito rapidamente pela presunção, nem demasiado lentamente pela falta de generosidade. Poderemos para isso nos servir, por exemplo, desta fórmula:

“Santa Mãe de Deus, eu me ofereço a vós, para que vós me ofereçais plenamente e sem reserva ao vosso Filho segundo a grandeza de vosso zelo e segundo a vossa prudência perfeita, que conhece bem meus limites, minha fraqueza e fragilidade, mas que conhece também todas as graças que me são oferecidas e os desígnios de Deus para cada um de nós. Dignai-vos oferecer-me cada vez mais e ofereço-me a mim mesmo ao amor misericordioso e abrasador do Salvador. Que ele destrua em nós tudo o que deve ser destruído e que, sobretudo, atraia-nos cada vez mais, vivificando-nos e incorporando-nos a Ele. Preparai-nos, Santa Mãe de Deus, para esse reencontro vivificante de nosso amor purificado e do amor de vosso Filho. Preparai-nos para esse reencontro que é o prelúdio da vida do Céu e fazei-nos compreender que quanto mais nos oferecemos a Ele sem reservas, mais Ele nos acolherá para vivificar-nos e fazer-nos trabalhar com Ele para a regeneração das almas. Assim seja”.

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Vê-se, por fim, como se deve responder à questão: pode-se amar demasiado a Santíssima Virgem? Deve-se responder com o Pequeno Catecismo da Santíssima Virgem, muito bem escrito: “Não; se Maria é um caminho para Deus, quanto mais a amarmos, mais amaremos a Deus, e o verdadeiro amor à Santíssima Virgem, que é amor não de adoração, mas de veneração, deve sempre aumentar”.

 

fim

  1. 1. Cf. hamon, Notre-Dame de France, t. I, p. 352; dom morim, Histoire du Gatinais, p. 765.
  2. 2. P. L., t. CXXXV, pp. 51 ss., col. 1168; hincmaro, Vita sancti Remigii, c. 54; flodoardo, Hist. Eccl. Remensis, 1. I, c. 18.
  3. 3. Cf. op. cit, pp. 63-75
  4. 4. Cf. op. cit, p. 70.
  5. 5. Cf. op. cit, p. 75.
  6. 6. Cf. op. cit, p. 77-79.
  7. 7. Cf. op. cit, p. 100.
  8. 8. Cf. op. cit, p. 107.
  9. 9. Cf. op. cit, p. 118.
  10. 10. Cf. op. cit, p. 130.
  11. 11. Cf. op. cit, p. 144.
  12. 12. Cf. op. cit, p. 166.
  13. 13. C. G. Goyau. L'Epopée française au Canada.
  14. 14. Cap. I, pp. 128 e ss.
  15. 15. Ver o que diz sobre o assunto m. de la franquerie, La Vierge Marie dans l'histoire de France, 1939, p. 271.
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