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Category: Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.Conteúdo sindicalizado

Mãe de misericórdia

Consideraremos primeiro esse título em si mesmo e, em seguida, em suas principais manifestações, que são como o resplendor da doutrina revelada sobre Maria e que a tornam acessível para nós.

Artigo 3: Universalidade da mediação de Maria e sua definibilidade

Depois de termos falado das características gerais da mediação da Santíssima Virgem, de seu mérito e de sua satisfação por nós durante sua vida mortal, de sua intercessão no Céu, da forma como ela nos transmite as graças que recebemos, consideraremos agora a universalidade de sua mediação, sua certeza e o sentido exato segundo o qual deve ser entendida.

 

Certeza dessa universalidade

Pressuposto o que vimos, essa universalidade deriva de todos os princípios admitidos, de tal forma que não requer uma prova especial; os adversários desse privilégio é que deveriam provar a sua posição 1.

Vimos, com efeito, que em sua qualidade de Mãe de Deus Redentor e Mãe de todos os homens, Maria Corredentora nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Nosso Senhor nos mereceu em justiça, e que ela satisfaz por nós em união com Ele. Segue-se daí que Maria pode, no Céu, por sua intercessão, obter-nos a aplicação de seus méritos passados e que obtém-nos, de fato, não somente todas as graças em geral, mas todas as graças particulares que cada um de nós recebe, sem excluir evidentemente a intervenção subordinada dos santos aos quais também recorremos.

Essa asserção não é somente uma piedosa conjectura, seriamente provável, mas uma certeza teológica em virtude dos princípios expostos anteriormente, já afirmados pelos Padres, comumente admitidos pelos teólogos, expostos pela pregação universal e confirmados pelas encíclicas dos Papas. Leão XIII, na encíclica Octobri mense, de 22 de setembro de 1891, sobre o Rosário2, diz particularmente: “Nihil nobis nisi per Mariam, Deo sic volente, impertiri”. Nenhuma graça nos é dada sem a intervenção de Maria, porque Deus o tem querido assim.

A universalidade dessa mediação é confirmada também pelas orações da Igreja, que são a expressão de sua fé. Por elas pedimos a Maria todos os tipos de graças, temporais e espirituais, e, entre estas últimas, todas as que conduzem a Deus, desde as primeiras que levam à conversão até as da perseverança final, sem omitir as que são particularmente necessárias aos Apóstolos para o seu apostolado, aos mártires para continuarem firmes na perseguição, aos confessores da fé para conformar toda a sua vida com os ensinamentos de Cristo, às virgens para conservar intacta a virgindade etc. Maria, de fato, nas litanias lauretanas, universalmente recitadas em toda a Igreja, é chamada de Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos, Rainha dos Apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens, de todos os santos.

Por ela, pois, nos são outorgadas todas as categorias de graças necessárias a uns e outros, segundo seu estado. Em outros termos, todas as graças que Nosso Senhor nos mereceu em justiça e que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência nos são distribuídas incessantemente pela Virgem no decorrer das gerações humanas há 20 séculos, e assim sucederá até o fim do mundo para ajudar-nos em nossa viagem rumo à eternidade.

Mais ainda, em cada uma dessas categorias de graças ― necessárias aos Apóstolos, aos mártires, aos confessores, às virgens ― a mais particular de todas as graças para cada um de nós, quer dizer, a graça do momento presente, não nos é outorgada sem a intervenção de Maria. Todos os dias, de fato, e muitas vezes ao dia, pedimos-lhe essa graça ao dizermos na Ave Maria: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”. Por este advérbio “agora”, pedimos a graça que nos é necessária para o dever do momento presente, para rezar bem ou praticar qualquer outra virtude, e, se não estamos atentos a essa palavra, a Santíssima Virgem, que conhece no Céu as necessidades atuais de cada uma de nossas almas, está atenta; quando obtemos essa graça do momento (por exemplo, a necessária para continuar a rezar bem), é por sua intercessão que nós a obtemos, e esse é um sinal de que, nessa ocasião, fomos ouvidos. A graça do momento presente é evidentemente a mais particular de todas, e varia para cada um de nós, de minuto em minuto, como as ondulações do ar que chega incessantemente aos nossos pulmões para que a respiração continue renovando nosso sangue.

A mediação de Maria é, pois, segundo a Tradição, verdadeiramente universal, uma vez que se estende a toda obra da salvação, tanto à aquisição das graças pelo mérito e pela satisfação passadas, quanto pela aplicação das mesmas graças através da oração sempre atual e à sua distribuição. Essa mediação não está limitada a um determinado tipo de graças, mas estende-se a todas. E mesmo sobre esse ponto há uma unanimidade moral dos Padres, dos Doutores e da crença dos fiéis expressa pela liturgia.

 

Definibilidade dessa verdade

Essa doutrina parece não apenas teologicamente certa, mas definível como dogma de fé, porque está primeiro implicitamente revelada nos títulos gerais que a Tradição dá a Maria: Mãe de Deus onipotente por sua intercessão junto ao seu Filho; nova Eva intimamente associada a Cristo Redentor; Mãe de todos os homens. Ademais, é uma verdade explícita e formalmente afirmada pelo consentimento moral unânime dos Padres, dos Doutores, pela pregação universal e pela liturgia.

Leão XIII, loc. cit., depois de ter afirmado que “nada nos é dado sem a intercessão de Maria”, acrescenta que “assim como ninguém pode vir ao Pai senão por meio de Seu Filho, assim também ninguém pode vir a Cristo senão por Maria”3, pois ela é a “Medianeira diante do Mediador”4.

Pio X chama a Virgem de “dispensadora de todos os bens que Jesus nos adquiriu por seu sangue”5.

Essa doutrina foi sancionada por Bento XV em janeiro de 1921 pela instituição da festa universal de Maria Medianeira de todas as graças. Parece, portanto, definível como dogma de fé, porque está ao menos implicitamente revelada, e já universalmente proposta pelo magistério ordinário da Igreja.

 

Qual é o significado exato dessa universalidade?

Devem-se fazer sobre esse ponto várias observações para determinar o significado exato da expressão “mediação universal”.

Em primeiro lugar, as graças já recebidas após a queda do primeiro homem até a Encarnação do Verbo foram concedidas por Deus em vista dos méritos futuros do Salvador, aos quais se devem unir os méritos de Maria. Mas nem nosso Senhor nem sua Santa Mãe distribuíram-nas ou transmitiram-nas, pois são graças pretéritas.

Não acontece o mesmo quando se trata de graças recebidas pelos homens depois da vinda de Cristo. Deve-se mesmo dizer que é sobretudo depois da Assunção que Maria, conhecendo as necessidades espirituais de cada um de nós, intercede em favor de cada um e distribui-nos as graças que recebemos.

Mesmo as graças sacramentais nos são obtidas por ela, no sentido em que nos obtém tudo o que nos mereceu, e vimos que nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Jesus nos mereceu em justiça e, portanto, também as graças sacramentais. Ademais, ela nos distribui e nos transmite ao menos enquanto nos dá as graças que nos dispõem para aproximarmo-nos dos sacramentos e para recebê-los devidamente, e às vezes nos envia o sacerdote, sem o qual não nos seria concedida a graça sacramental 6.

Não se deve entender a universalidade dessa mediação no sentido de que nenhuma graça nos será conferida sem que a tenhamos explicitamente pedido a Maria; isso seria confundir nossa oração que se dirige a ela com a súplica que a Virgem dirige a Deus. Maria, de fato, pode rogar por nós sem que a invoquemos explicitamente. É certo que muitas graças são dadas não só às crianças, mas também aos adultos, antes mesmo que eles as tenham pedido; em particular, o auxílio necessário para começar a rezar. Também pode-se dizer o Pai Nosso sem invocar explicitamente a Santíssima Virgem, mas ainda assim ela é invocada implicitamente quando se roga segundo a ordem estabelecida pela Divina Providência.

Tampouco é preciso crer que Maria foi medianeira para consigo mesma. Mas, ao contrário, não seria suficiente dizer que ela nos obtém, por sua mediação, quase todas as graças ou, moralmente falando, todas as graças. Essa vaga expressão pareceria indicar 90% ou 80%, o que carece de qualquer fundamento. Deve-se dizer que, por uma lei geral estabelecida pela Providência, todas e cada uma das graças nos vêm pela mediação de Maria, pois não há nenhum indício claro de que existam exceções7.

Note-se, ademais, que a mediação de Maria difere da mediação dos santos, não somente por sua universalidade, mas também porque, sendo Mãe de todos os homens, ela é de direito e não só de fato mediadora para cooperar na obra de nossa salvação, o que torna a sua intercessão onipotente; e não só tem direito a obter, mas obtém de fato todas as graças que recebemos. Suas orações são mais eficazes que as de todos os santos reunidos, uma vez que, segundo a doutrina da mediação universal, os santos não podem nada obter sem a intercessão da Santíssima Virgem 8.

Note-se, finalmente, que essa mediação universal estende-se às almas do Purgatório. Como explica o Pe. E. Hugon9: “É certo que a Mãe de Misericórdia conhece todas as necessidades dessas almas... Ela pode apoiar suas súplicas sobre suas satisfações de outros tempos... jamais teve necessidade delas, e as entrega ao domínio da Igreja, que as distribui às almas pelas indulgências... A partir do momento, portanto, em que as satisfações de Maria são aplicadas aos pobres devedores do Purgatório, ela tem certo direito a sua libertação, posto que paga as dívidas deles com seus próprios tesouros... A Virgem obtém por suas maternais habilidades que seus filhos que moram na Terra roguem para seus fiéis no Purgatório, ofereçam nessa intenção suas boas obras e façam celebrar por elas o augusto sacrifício da libertação... Ela pode obter ainda que os sufrágios destinados a outras almas que não têm mais necessidade ou que são incapazes de recebê-los favoreçam os filhos de sua predileção”.

Por isso garante um doutor da Igreja, São Pedro Damião10, que a cada ano, no dia da Assunção, Maria liberta muitos milhares de cativos. Santo Afonso de Ligório acrescenta11, citando Dionísio, o Cartuxo, que essas libertações acontecem particularmente nas festas do nascimento do Senhor e de Sua Ressurreição. Esses últimos testemunhos, sem serem de fé, traduzem e explicam à sua maneira, uma conclusão que é teologicamente certa.

Assim pode-se fixar o sentido do termo “mediação universal”.

 

Objeções

Alguns têm objetado: a mãe de um rei não tem, pelo fato de sua maternidade, o direito de dispor dos bens daquele; e, portanto, a Mãe do Cristo-Rei não tem positivamente o direito de dispor de suas graças.

Tem-se justamente respondido12: não há aqui comparação; a mãe de um rei é somente a mãe de uma criança que mais tarde se tornou rei, e na maioria das vezes não cooperou intimamente em seu governo. Ao contrário, Maria é, por sua própria Maternidade Divina, a Mãe de Deus Redentor, Rei universal de todas as criaturas; ela Lhe deu sua natureza humana e esteve intimamente associada aos Seus méritos e aos Seus sofrimentos reparadores; participa, portanto, da Sua realeza espiritual com um direito subordinado ao de Cristo para dispor das graças adquiridas por Ele e por ela.

Tem-se objetado ainda que essa mediação não é mais que uma pura conveniência e, portanto, não é uma certeza.

Isso é fácil de responder: trata-se de uma conveniência, de uma conaturalidade que deriva da Maternidade Divina de Maria, de sua maternidade espiritual com relação aos homens, de sua união ao Cristo Redentor, de quem deriva de tal modo que o oposto não seria conveniente, como é conveniente que Nosso Senhor tivesse tido desde o primeiro instante da Sua concepção a visão beatífica. É conatural à Mãe espiritual de todos os homens o velar espiritualmente por eles e lhes distribuir os frutos da redenção.

Ademais, segundo a Tradição, é uma conveniência que motivou de fato a escolha divina e na qual esta se comprouve. É assim que foi considerada pelos Padres e pelos Doutores da Idade Média, principalmente Santo Alberto Magno13, São Boaventura14, Santo Tomás em sua explicação da Ave Maria, e pelos teólogos posteriores, que têm posto cada vez mais em destaque a universalidade dessa mediação.

 

Conclusão

Nenhuma dificuldade séria se apresenta, portanto, à definição da mediação universal de Maria, entendida como acabamos de descrever: a mediação subordinada àquela do Salvador e dependente de Seus méritos; mediação que não acrescenta um complemento necessário aos méritos de Jesus, cujo valor é infinito e superabundante, mas que permite ver o resplendor e todos os frutos numa alma perfeita plenamente conformada a Ele.

As dificuldades que têm surgido contra essa mediação universal são certamente menores se comparadas àquelas formuladas no século XIII contra a Imaculada Conceição, que, no entanto, foi definida como dogma de fé.

Admite-se também geralmente hoje a definibilidade da Assunção, cuja festa, que remonta pelo menos ao século VIII, é um testemunho da Tradição. Ora, a mediação universal de Maria aparece ainda mais certa pelos princípios que a fundamentam: a Maternidade Divina e a maternidade espiritual com relação a todos os homens, e mais certa ainda pelos documentos da mais remota tradição onde se opõe Eva a Maria.

A Mediação universal da Santíssima Virgem tem sido muito menos atacada que a Imaculada Conceição e a Assunção; já é muito certa pelo Magistério ordinário da Igreja e só nos resta desejar sua definição para melhor promover a devoção de todos em relação àquela que é verdadeiramente a Mãe espiritual de todos os homens e que vela incessantemente por eles.

Essa mediação, longe de obscurecer a de Nosso Senhor, manifesta seu resplendor, uma vez que os maiores méritos suscitados por Jesus Cristo são aqueles da Sua Santa Mãe, e Ele é quem lhe comunica a dignidade da causalidade na ordem da santificação e da salvação. A história demonstra, ademais, que precisamente as nações que perderam a fé na divindade de Jesus Cristo primeiro abandonaram a devoção à Sua Santíssima Mãe, enquanto que as nações que mais exaltaram a Mãe de Deus têm conservado a fé no dogma da Encarnação redentora. O anglicano Pusey condenou esta frase de Faber: “Jesus fica encoberto porque Maria é mantida em segundo plano”. Newman respondeu: “Como atestado pela história, essa verdade fez-se manifesta pela vida e pelos escritos dos santos que viveram no período moderno”15. E cita como exemplo Santo Afonso de Ligório e São Paulo da Cruz, cujo amor fervoroso a Jesus Redentor era inseparável de uma grande devoção a Maria.

Esses fatos demonstram uma vez mais que o verdadeiro culto dado à Mãe de Deus, assim como o influxo que ela mesma exerce sobre nós, conduz inevitavelmente à intimidade com Jesus. Longe de diminuí-la, mais a consolida, e a torna mais profunda e frutuosa, como a influência da Santa Alma do Salvador aumenta em nós a união com a Santíssima Trindade.

A universalidade dessa mediação ficará cada vez mais clara quando considerarmos Maria como Mãe de Misericórdia e a extensão de sua realeza universal.

  1. 1. Foi negada pelos jansenistas, que quiseram modificar, no Ave Maris Stella, o versículo Bona cuncta posce, com o qual suplicamos a Maria que peça para nós todas as graças que devem conduzir-nos a Deus.
  2. 2. Denzinger, nº 3033.
  3. 3. Encíclica Octobri mense, de 22 de setembro de 1891 (Denzinger, nº 3033): “Nada se nos distribui senão por meio de Maria, porque assim Deus o quer; de modo que, como ninguém pode chegar ao sumo Pai senão pelo Filho, assim ninguém pode chegar a Cristo senão por Maria”.
  4. 4. Idem.
  5. 5. Cf. denzinger, 3034: “A dispensadora de todos os bens que Jesus nos adquiriu por sua morte e seu sangue”. Encíclica Ad diem, de 2 de fevereiro de 1904
  6. 6. Cf. Dict. de Théol. cath., art. Marie (e. dublanchy), col. 2403: essa doutrina da mediação universal de todas as graças “é verdadeira sobre todas as graças sobrenaturais provenientes da redenção de Jesus Cristo. A conclusão, sem nenhuma restrição, deve aplicar-se às graças conferidas pelos sacramentos, no sentido de que as disposições que devem ser levadas para sua recepção e das quais depende a produção sacramental da graça são obtidas pela intercessão de Maria”.
  7. 7. Cf. merkelbach, Mariologia, p. 375.
  8. 8. Isso é o que afirma santo anselmo ao dizer (orat. 46): 

    Te tacente, nullus (sanctus) orabit, nullus invocabit. 

    Te orante, omnes orabunt, omnes invocabunt.

  9. 9. Marie, pleine de grâce, 5.ª edic., 1926, p. 201.
  10. 10. Epist. 52 e Opusc. XXIV: Disput. de variis apparit. et miraculis.
  11. 11. As Glórias de Maria, 1ª parte, c. VIII.
  12. 12. Cf. merkelbach, Mariologia, p. 377.
  13. 13. Mariale, q. 29, 33, 147, 150, 164.
  14. 14. Serm. I, in Nat. Dom.
  15. 15. Certain difficulties felt by anglicans in catholic teaching considered, Londres, 1910, t. II, pp. 91 ss.

Artigo 2: A distribuição de todas as graças. Seu modo de influenciar.

Seria a Santíssima Virgem a distribuidora de todas as graças unicamente por interceder em favor de cada um de nós, a fim de que os méritos precedentes do Salvador e os seus próprios nos sejam aplicados no momento oportuno, ou então nos transmitiria ela também as graças que recebemos, ao modo de transmitir da Humanidade de Jesus, que é, segundo Santo Tomás e muitos teólogos “causa instrumental física dessas graças”, instrumento sempre unido à divindade, superior aos sacramentos, que são instrumentos separados.

Com respeito a Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, essa doutrina foi exposta muitas vezes por Santo Tomás1; pergunta-se agora se é preciso admiti-la também para Maria, já que ela é, segundo a Tradição, como se fosse o pescoço do Corpo Místico, que une a cabeça com os membros e transmite-lhes o influxo vital.

A causalidade moral de Maria pela satisfação, pelos seus méritos passados e por sua intercessão sempre atual é comumente admitida por todos. Mas muitos teólogos detêm-se aqui e negam-se a admitir que Maria transmita as graças por uma causalidade física instrumental, análoga na ordem espiritual ao que ocorre na ordem sensível, como a ação da harpa que, tocada pelo músico, emite sons harmoniosos2.

Mas outros teólogos atribuem-lhe também essa segunda influência de uma forma subordinada à Humanidade de Cristo, insistindo sobre o que diz a Tradição: a Virgem Santíssima é verdadeiramente no Corpo Místico como o pescoço, que, unindo a cabeça aos membros, transmite-lhes o influxo vital 3.

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É certo que Santo Tomás ensinou explicitamente que a Humanidade do Salvador e os Sacramentos da Nova Lei são a causa física instrumental da graça, da qual somente Deus pode ser a causa principal, uma vez que é uma participação de sua vida íntima.

Mas não vemos que o Santo Doutor tenha afirmado algo semelhante a respeito de Maria. No dizer de certos autores, ele até a excluiria em um texto, embora pensemos não existir tal exclusão 4.

Em sua obra Exposição sobre a Ave Maria, Santo Tomás atribui à Santíssima Virgem uma plenitude de graça que transborda sobre os homens para santificá-los, mas não diz explicitamente se essa influência contém algo mais que a causalidade moral do mérito, da satisfação passada e da intercessão atual5.

Não sendo ― no julgamento de Santo Tomás e de seus comentadores ― a causalidade física instrumental uma impossibilidade para a Sagrada Humanidade de Cristo nem para os Sacramentos ― por exemplo, nas palavras do sacerdote na Consagração e na absolvição sacramental ― tampouco seria impossível para Maria6. O Santo Doutor chega até a admitir que o taumaturgo é, algumas vezes, a causa instrumental do milagre, que se opera, por exemplo, pela sua bênção7. Não somente o obtém por suas orações, mas às vezes o realiza como instrumento de Deus.

Não se pode afirmar que a Santíssima Virgem não exerça também essa influência. É melhor dizer que as obras-primas de Deus contêm mais riquezas, belezas e vitalidade do que podemos expressar. Não pensamos, no entanto, que se possa provar de uma maneira certa a existência dessa causalidade em Maria. Esse é um dos pontos sobre os quais a teologia, ao que parece, não se atreve a passar da constatação de uma séria probabilidade. Por quê? Porque é muito difícil ver nos textos tradicionalmente invocados onde termina o sentido próprio e onde começa a metáfora. Aqueles que se expressam mesmo habitualmente de uma maneira metafórica, ali onde poderiam e deveriam empregar termos próprios, não prestam atenção à dificuldade que apontamos. Mas quanto mais nos atermos à propriedade dos termos, melhor compreenderemos a verdade dessa observação. Quando a Tradição nos diz que Maria, no Corpo Místico, é comparável ao pescoço que une a cabeça aos membros e transmite-lhes o influxo vital, isso é certamente ao menos uma metáfora muito expressiva, mas não podemos afirmar com certeza que não existe metáfora ou sentido figurado na frase.

Essas palavras, no entanto, não teriam sentido completo ― como disse o Pe. Hugon ― se não admitíssemos a causalidade física instrumental de que estamos falando8.

O Pe. R. Bernard, O. P. declara-se da mesma maneira em seu livro O Mistério de Maria9: “Deus e Seu Cristo servem-se dela [Maria] no sentido em que fazem passar por ela todas as graças que nos destinam... A ação d’Eles, por esse meio, impregna-se de mais humanidade sem nada perder, bem entendido, de sua força divina. Eles fazem nossa Mãe viver a vida que pretendem que vivamos. Antes de tudo, Maria é cheia e transbordante dessa vida; a graça é pré-formada em Maria e impregna-se de uma especial beleza. Toda a graça e todas as graças, socorros e estados, virtudes e dons chegam a nós assim canalizados e distribuídos por ela, impregnados dessa particular suavidade que Maria difunde em tudo aquilo que toca e deixa em tudo o que faz.

“Maria, portanto, por sua ação, intervém em toda a nossa vida e é portadora de todo dom divino em nós. Durante todo o curso da nossa existência, desde o berço até o sepulcro e ainda mais além, não há nada que esteja fora de seu império: nem a graça habitual e as graças atuais, nem a graça e a glória. Ela dá forma e modela todo o nosso ser em Jesus Cristo... Ela imprime a sua forma a tudo e dá um aumento de perfeição a tudo o que passa por suas mãos. Todo cristão é um filho de Maria, e um filho é indigno desse nome se não é realmente moldado por sua Mãe”.

Se admitirmos que a Santíssima Virgem não só nos obtém por sua oração, mas também nos transmite todas as graças que recebemos, o título de tesoureira e dispensadora de todas as graças adquire um sentido mais completo do que lhe é geralmente atribuído.

Isso parece igualmente indicado em certas palavras belíssimas e vigorosas da liturgia, sobretudo no Stabat Mater, onde a repetição admirável do Fac demonstra que Maria não só nos obtém por suas súplicas a graça de alcançar a intimidade de Cristo, mas, de certa maneira, cria em nós essa divina intimidade:

 

Eia, Mater, fons amoris

me sentire vim doloris

fac, ut tecum lugeam.

Faze, ó Mãe, fonte de amor

que eu sinta o espinho da dor

para contigo chorar.

Fac, ut ardeat cor meum

in amando Christum Deum

ut sibi complaceam.

Faze arder meu coração

do Cristo Deus na paixão

para que o possa agradar.

Fac, ut portem Christi mortem,

passionis fac consortem,

et plagas recolere.

Traga em mim do Cristo a morte,

da Paixão seja consorte,

suas chagas celebrando.

Fac me plagis vulnerari,

fac me Cruce inebriari,

et cruore Filii.

Por elas seja eu rasgado,

pela cruz inebriado,

pelo sangue de teu Filho!

 

Essa influência de Maria sobre nossas almas é, sem dúvida, misteriosa, mas parece claro que ela não só intervém moralmente, mas que o faz na própria produção da graça, como instrumento consciente e livre, da mesma forma que o taumaturgo cura por seu contato e bênção. Mesmo na própria ordem natural, o sorriso, o olhar, a inflexão e o próprio timbre da voz transmitem algo da vida da alma.

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A essa interpretação dos termos tradicionais comumente admitidos acrescentam-se razões teológicas que não carecem de valor. 

Como diz o Pe. Hugon10: “Uma vez estabelecido que os anjos e os santos são muitíssimas vezes as causas físicas secundárias dos milagres, é muito natural que reivindiquemos essa eficácia para a Mãe de Deus e num grau superior”. E se ela é causa instrumental física dos milagres que Deus só produz como causa principal, por que não admitir que é, do mesmo modo, a causa da graça? Como observa o teólogo que acabamos de citar11: “Toda prerrogativa que é possível e que convém à função, ao ofício ou à dignidade de uma Mãe de Deus, deve encontrar-se na Santíssima Virgem... Ela recebeu por título secundário tudo o que Cristo possui por título pleno e principal: méritos, satisfações, intercessão... por que haveria de cessar essa relação na ordem da causalidade física? É necessária essa exceção?12 Não parece, ao contrário, que o paralelismo sobrenatural deve continuar-se até o fim, e que a Mãe deve ser o instrumento secundário em todos os lugares em que o Filho é o instrumento primário e principal?... Parece algo muito natural que os atos [de Maria] dos quais Deus quer se servir a cada instante na ordem da intercessão sejam elevados, transformados pela fecundidade infinita e encarregados de comunicar instrumentalmente a vida celeste às almas”.

Ademais, se o sacerdote, pela absolvição sacramental, é causa instrumental da graça, em virtude de sua união ao Cristo Redentor, Maria não Lhe está menos unida em sua qualidade de Mãe de Deus e de Corredentora, pois é mais perfeito ter dado ao Verbo a sua natureza humana e tê-lo oferecido na Cruz do que torná-lo presente e oferecê-lo nos altares.

A influência certíssima de Cristo, Cabeça do Corpo Místico, permanece também em profundo mistério, uma vez que é essencialmente sobrenatural. A influência que parece exercer Maria, fora de sua intercessão, não é menos secreta, claro, mas seriamente provável, pensamos nós, sem que possamos nada afirmar além disso. Assim, quando se trata das últimas ondulações do som ou da luz no ar, é muito difícil dizer com certeza onde existem ainda ou onde terminam verdadeiramente.

Notemos finalmente que a influência própria de Maria parece se exercer sobre a nossa sensibilidade, muitas vezes desorientada e distraída, para acalmá-la e subordiná-la às nossas faculdades superiores e facilitar nestas a docilidade para seguir o impulso de Cristo, Cabeça da Igreja, que nos transmite o influxo da graça divina13.

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Embora o modo da influência de Maria permaneça oculto e misterioso, o fato mesmo de sua influência não é duvidoso.

A Santíssima Virgem é certamente a dispensadora de todas as graças, ao menos por sua poderosa intercessão. Deve observar-se com o Pe. Merkelbach14 que Maria não intercede da mesma maneira que os outros santos ― por uma súplica que poderia não ser satisfeita ― mas sim como Cristo, constituído Mediador e Salvador, cuja intercessão é sempre ouvida não só de fato, mas também de direito. A intercessão de Cristo, diz Santo Tomás15, é a expressão de seu desejo de nossa salvação adquirida com o preço de seu sangue. Como Maria Medianeira está associada muito intimamente à obra redentora de seu Filho, está igualmente associada à Sua intercessão e exprime seu desejo, que Deus decidiu considerar como sempre unido ao de Cristo. Nesse sentido, a Santíssima Virgem dispõe sempre das graças que pede; sua oração é a causa eficiente para a obtenção das mesmas e parece estar associada também à influência de Cristo para a transmissão dessas graças.

Por isso a Igreja canta no hino das Matinas do Ofício de Maria Medianeira de todas as graças:

 

Cuncta, quae nobis meruit Redemptor, 

dona partitur Genitrix Maria, 

cujus ad votum sua fungit ultro

munere Natus.

 

Maria nos distribui todas as graças que seu Filho Redentor nos mereceu, e ao seu menor desejo o bom Jesus derrama, com generosidade, todos os seus dons.

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Se, como parece, Maria, por uma causalidade física instrumental, transmite-nos todas as graças que recebemos, todas as graças atuais que nos são dadas para a respiração da alma ― como o ar que chega incessantemente aos pulmões para a respiração do corpo ― estamos assim constantemente sob sua influência subordinada à de Cristo, Cabeça da Igreja; ela nos transmite continuamente o influxo vital que procede de Nosso Senhor.

Mas, ainda que não aja sobre nós atualmente mais que pela causalidade moral de intercessão, ela está presente nas almas em estado de graça que a ela acodem segundo uma presença afetiva, da mesma forma que o objeto amado, mesmo quando fisicamente distante, está presente naquele que o ama. Maria está presente em corpo e alma no Céu; está, pois, fisicamente distante de nós; mas está presente com uma presença afetiva nas almas interiores e recolhidas que a amam, como o objeto amado que atrai para si nossa afeição e está presente em nós16.

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Essa influência de Maria faz-se mais íntima nas almas interiores fidelíssimas, como São Luís Grignion de Montfort muitas vezes observou. Diz ele: “O Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia outra pessoa divina, tornou-se fecundo em Maria. É com ela, nela e dela que Ele produziu sua obra-prima, um Deus feito homem, e que produz todos os dias, até ao fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe adorável. Eis por que, quanto mais, em uma alma, Ele encontra Maria, sua querida e inseparável esposa, mais operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo.

“Não se quer dizer com isso que a Santíssima Virgem dê a fecundidade ao Espírito Santo, como se Ele não a tivesse. (...) O que se quer dizer é que o Espírito Santo, por intermédio da Virgem, da qual se quis servir, se bem que não lhe fosse absolutamente necessário, reduziu ao ato a sua fecundidade, produzindo, nela e por ela, Jesus Cristo e seus membros. É um mistério da graça, inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos”17.

Como observa o Pe. Hugon18 em relação a essas palavras do Santo de Montfort: “A fecundidade exterior do divino Paráclito consiste na produção da graça, não na ordem da causalidade moral, porque o Espírito Santo não é uma causa meritória ou impetratória, mas na ordem da causalidade física. Reduzir essa fecundidade ao ato é produzir fisicamente a graça e as obras de santidade que são próprias da terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Se é verdadeiro que o Espírito Santo reduz ao ato sua fecundidade por meio da Virgem Maria, se se faz operante por ela, por ela produz também fisicamente a graça nas almas: Maria é, pois, instrumento físico secundário do Espírito Santo. Tal nos parece o alcance dessas fortes palavras do santo autor; tal seria essa elevada doutrina que ele chama de ‘um mistério da graça, inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos’”.

Assim como a Encarnação prolonga-se de certo modo indefinidamente pela influência vivificadora de Cristo, Cabeça da Igreja, sobre seus membros, a maternidade virginal de Maria completar-se-ia pelo fato de transmitir-nos todas as graças que suas orações nos obtêm.

O santo de Montfort fala sempre dessa forma 19. É preciso citar também, com relação a esse assunto, a obra L' union mystique à Marie, escrita por uma religiosa flamenca, Maria de Santa Teresa (1623-1677), que o experimentou pessoalmente. Esses escritos demonstram que existe uma influência profundíssima ― toques secretos de Maria, Medianeira de todas as graças ― para conduzir as almas interiores e fidelíssimas a uma intimidade cada vez maior com Nosso Senhor 20. A alma que segue essa senda entra cada vez mais no mistério da comunhão dos santos e participa dos sentimentos mais elevados que a Mãe de Deus tinha ao pé da Cruz e após a morte de Nosso Senhor, em Pentecostes ou mais tarde, quando rezava pelos Apóstolos e obtinha-lhes as graças sublimes de luz, o amor e fortaleza de que precisavam para levar o nome de Jesus até os confins do mundo conhecido pelos antigos. Mas a influência de Maria, Medianeira universal, tornou-se ainda maior, mais universal e mais esplendorosa após sua Assunção ao Céu.

 

Nota

O modo de presença da Santíssima Virgem nas almas que lhe estão unidas

 

Para esclarecer essa doutrina, é necessário dizer brevemente o que os teólogos entendem por contato virtual, de um lado, e por presença afetiva, de outro.

 

O contato virtual ou dinâmico

A propósito da presença de Deus em todas as coisas ou da presença dos anjos nos corpos sobre os quais agem, distingue-se geralmente o contato virtual (contactus virtualis) do contato quantitativo. Dois corpos estão presentes ou contíguos um ao outro pelo contato quantitativo, quer dizer, pela proximidade da sua própria quantidade ou extensão. 

Um espírito puro, não tendo corpo e, portanto, nem quantidade ou extensão, está presente ali onde age pelo contato virtual, por sua virtude, princípio de sua ação. Esse é o contato dinâmico de uma força espiritual sobre aquilo em que opera. 

A virtude divina não é distinta do próprio ser de Deus. Logo, Deus está real e substancialmente presente, pelo contato virtual, em tudo o que Ele produz imediatamente, ou sem o intermédio de um instrumento, quer dizer, em tudo o que cria por criação propriamente dita, do nada (ex nihilo), e conserva imediatamente na existência; está assim presente na matéria, nas almas espirituais e nos anjos, que não podem ser produzidos a não ser pela criação ex nihilo, a qual não pode fazer-se por intermédio de um instrumento21.

Pela mesma razão, os teólogos admitem geralmente que o anjo, que propriamente falando não se encontra num lugar, posto que é espírito puro, está realmente presente ali onde age, porque toca por um contato virtual (contactus virtualis) o corpo que ele move localmente22. Um anjo pode também esclarecer a inteligência humana e agir sobre ela por meio da imaginação, como um professor que ensina.

A presença da Alma de Jesus e a da Santíssima Virgem nas pessoas que estão unidas a eles assemelha-se a dos anjos, mas diferem, no entanto, em um ponto. A diferença provém de que a alma humana unida ao seu corpo, como a alma de Jesus e a de sua Mãe Santíssima, está realmente presente (definitive) ali onde está seu corpo e não em outro lugar; ora, o Corpo de Jesus, após a Ascensão, só está no Céu enquanto lugar natural, e o mesmo se pode dizer do corpo de Maria após a Assunção. E a alma, estando por natureza unida ao seu próprio corpo, não age sobre os demais senão por ele. Nisso ela difere de um anjo, pois este não tem corpo.

Mas como Deus pode servir-se dos anjos para produzir instrumentalmente um efeito propriamente divino como o milagre, pode também servir-se da alma de Jesus, de Seus atos, e até mesmo de Seu próprio corpo, ou ainda da alma de Maria, de seus atos e de seu corpo.

Quando Deus se serve da Humanidade do Salvador como de uma causa física instrumental para produzir a graça em nós ― assim o admite Santo Tomás23 ― estamos sob a influência ainda física da humanidade de Cristo. No entanto, ela não nos toca, uma vez que está no Céu. Da mesma forma, se alguém de longe nos fala por um telefone, esse telefone não nos toca imediatamente; nesse caso, há somente contato virtual e não contato quantitativo entre o aparelho e o sujeito sobre o qual ele opera; contato virtual semelhante ao do sol que de longe nos ilumina e aquece.

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Se a Santíssima Virgem é causa física instrumental da graça, de um modo subordinado à Humanidade de Cristo, estamos também sob sua influência física, ainda que, não obstante, toque-nos apenas pelo contato virtual.

Deve-se notar, no entanto, que a alma humana, enquanto é espiritual e domina o corpo, não está, como tal, num lugar. Desse ponto de vista, todas as almas, na medida em que vivem mais amplamente da vida espiritual e estão mais desprendidas dos sentidos, ao aproximar-se espiritualmente de Deus, aproximam-se espiritualmente umas das outras. Assim se explica a presença espiritual da Santa Alma de Cristo e da alma de Maria, sobretudo se admitirmos que ambas são causas físicas instrumentais das graças que recebemos.

Nesse aspecto, pode-se dizer que estamos constantemente sob sua influência na ordem espiritual, como na ordem material está o nosso corpo constantemente sob a influência do sol que nos ilumina e aquece, e sob a influência permanente do ar que respiramos sem cessar 24.

À presença espiritual que acabamos de mencionar podem acrescentar-se a influência da causalidade instrumental denominada física, que é aqui de ordem espiritual, e a presença chamada afetiva, sobre a qual insistiremos, e que não só é provável, mas certa.

 

Presença afetiva

Mesmo se a Santíssima Virgem não fosse a causa física instrumental das graças que recebemos, ela estaria presente em nós com uma “presença afetiva”, como o objeto conhecido e amado naqueles que o amam, e isso nos diferentes graus de intimidade segundo a profundidade e a força desse amor.

Mesmo uma alma muito imperfeita está sob a influência física da Santíssima Virgem, se essa é a causa instrumental das graças recebidas por essa alma. Porém, quanto mais nosso amor por Maria se torna profundo, mais sua presença afetiva em nós se torna íntima. Importa insistir nisso, porque esse modo de presença é certo, e Santo Tomás explicou-o maravilhosamente na passagem da Suma25 onde se pergunta se a união é efeito do amor e se o amor causa a mútua inerência, isto é, se faz com que o amante esteja no amado e reciprocamente.

Respondeu ele que o amor, como disse Dionísio, é uma força unitiva: existem duas uniões possíveis entre aqueles que se amam: 1º, uma união real, quando estão realmente presentes um ao outro (como duas pessoas que estão no mesmo lugar e se vêem imediatamente); 2º, uma união afetiva (como a que existe entre duas pessoas fisicamente muito distantes uma da outra); essa união procede do conhecimento (da memória atual da pessoa amada) e do amor dessa pessoa. O amor é suficiente para constituir formalmente a união afetiva e leva a desejar a união real.

Existe, portanto, uma união afetiva que resulta do amor, apesar do afastamento das pessoas. Se Santa Mônica e Santo Agostinho, mesmo muito distantes um do outro, estavam espiritualmente muito unidos, e assim afetivamente presentes um ao outro de uma maneira mais ou menos profunda segundo o grau ou a intensidade de sua afeição, quanto mais unida estará afetivamente uma alma que a cada dia vive na maior intimidade com a nossa Mãe do Céu?

Santo Tomás vai ainda mais longe26; ele mostra que uma mútua adesão ou inerência espiritual pode ser um efeito do amor, apesar do afastamento das pessoas. Distingue claramente dois aspectos dessa união afetiva: lº, amatum est in amante, a pessoa amada está no amante, como que gravada na afeição deste pela complacência que lhe inspira; 2º, vice-versa, amans est in amato, o amante está na pessoa amada, enquanto se regozija extrema e intimamente com tudo o que agrada a ela.

O primeiro modo é freqüentemente mais sentido e, com respeito a Deus, existe o perigo de simular e imaginar tal união antes da hora; além disso, mesmo quando é verdadeiramente o fruto de uma graça, pode ter grande repercussão sobre a sensibilidade propriamente dita e expor à avidez e gula espiritual.

Quanto mais o amor é desinteressado e ao mesmo tempo forte e íntimo, mais o segundo aspecto tende a prevalecer. Então a alma está mais em Deus que Deus nela; e acontece algo parecido em relação à Humanidade de Jesus e a da Santíssima Virgem.

Finalmente, esse amor profundo e desinteressado ― diz Santo Tomás 27 ― produz o êxtase do amor (com ou sem suspensão do uso dos sentidos), o êxtase espiritual, pelo qual aquele que ama sai, por assim dizer, de si, porque quer o bem de seu amigo como o seu e se esquece de si mesmo 28.

A partir disso, poder-se-á ver quão grande pode ser a intimidade dessa união de amor e dessa presença não corporal, mas afetiva. É certo, portanto, que essa união afetiva tende à união real, da qual gozaremos no Céu ao vermos diretamente a Humanidade do Salvador e a Santíssima Virgem. Há, aqui na Terra, como que um prelúdio disso na influência física da Humanidade de Jesus e provavelmente da Santíssima Virgem, que nos transmite uma graça sempre mais elevada e uma caridade que se enraíza sempre mais intimamente em nossa vontade 29.

  1. 1. Cf. santo tomás, IIIª, q. 8, a. 1, ad 1; q. 13, a. 2; q. 48, a. 6; q. 49, a. 1; q. 50, a. 6; q. 62, a. 1, e da Poenitentia, q. 6, a. 4.
  2. 2. Essa resposta negativa encontra-se em suárez, III, disp. 23, sect. I, n. 2; e entre os contemporâneos, em Scheeben, Terrien, Godts, Bainvel, Campana, de la Taille, Bittremieux, Friethoff, Grabmann, Van der Meersch, Merkelbach.
  3. 3. Essa é a opinião do pe. hugon, o. p., La causalité physique instrumentale, 1907, pp. 194-205, de commer, De munere Matris Dei in Ecclesiae gerendo, Lépicier, Girerd, Fernández, Lavaud, Bernard.
  4. 4. Cf. IIIª, q. 60, a. 8. Só diz que não é possível batizar em nome de Maria, como em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, posto que não age no batismo. Mas sua intercessão é útil ao batizado para conservar a graça batismal. Esse texto demonstra que Maria não é a causa principal da graça, mas não nega que ela seja a causa instrumental.
  5. 5. Cf. Expositionem Salutationis Angelicae.
  6. 6. Essa doutrina, com relação ao próprio Jesus Cristo, apóia-se nestes textos: em São Lucas 6, 19: “Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía Dele uma virtude que os curava a todos”. Diz-se também de Cristo (Lc 8, 46): “Alguém me tocou, porque conheci que saiu de mim uma virtude”, o que não pode ser entendido de uma força moral como a da oração, que, sendo espiritual, não sai do corpo.

    E igualmente, quando Jesus não se contentava em rezar para obter os milagres, mas os realizava tocando nos enfermos (Jo 10, 25): “As obras que eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de Mim”.

    O primeiro Concílio de Éfeso (Denzinger, nº 123) diz também que “a carne de Cristo, em virtude de sua união com o Verbo, é vivificante, vivificatrix”; logo, a carne de Cristo não produz a vida da graça por uma causalidade moral do mérito ou da oração, mas por uma causalidade física instrumental. É dessa forma que podemos entender as palavras de São Cirilo, São João Crisóstomo e de Santo Agostinho, citados pelos tomistas, principalmente pelo pe. hugon, op. cit., pp. 87 e ss.

    Diz-nos também a razão teológica: agir não apenas moral, mas fisicamente, é mais perfeito que agir somente pela causalidade moral. Deve ser atribuída à Humanidade de Cristo o que é mais perfeito, sempre que não repugne à Encarnação redentora (as objeções feitas contra essa causalidade instrumental foram resolvidas pelos tomistas em IIIam, q. 13, a 2). Esse mesmo argumento de conveniência serve para Maria, guardadas as devidas proporções, a título de argumento de conveniência, que fornece uma probabilidade.

  7. 7. Cf. IIª IIae, q. 178, “Da graça dos milagres”, a. 1, ad 1: “Pode acontecer que, assim como a mente do profeta é levada por inspiração divina a um conhecimento sobrenatural, assim também a alma do que faz milagres seja levada a praticar um ato donde resulta um efeito milagroso, que Deus faz com o seu poder”.
  8. 8. La causalité instrumentale en théologie, p. 201.
  9. 9. O Mistério de Maria, o. c., Buenos Aires, 1946, p. 364-5.
  10. 10. Cf. ibid., pp. 195 e ss.
  11. 11. Ibid.
  12. 12. Seria necessário, ao que parece, uma razão positiva para admitir essa exceção.
  13. 13. Aplica-se então a Maria o que Santo Tomás diz do instrumento que dispõe para receber o efeito do agente espiritual: dispositive operatur ad effectum principalis agentis.
  14. 14. Mariologia, p. 370.
  15. 15. Commentarium in Ep. ad Hebr., VII, 25, e ad Rom., VIII, 34.
  16. 16. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 28, a. 1: “É dupla forma a união do amante com o amado. Uma real, quando este está presencialmente naquele; outra porém pelo afeto... Por onde, a primeira união o amor a causa efetivamente, porque leva a desejar e buscar a presença [real] do amado... A segunda união ele a causa formalmente, pois que o amor em si mesmo consiste nessa união ou nexo”.
  17. 17. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. I, a. 1, pp. 29-30. – Ed. Vozes (Petrópolis), 40ª edição.
  18. 18. Op. cit., p. 203.
  19. 19. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. V, a. 5: caminho fácil, curto, perfeito e seguro; cap. VI, a. 1: como Maria forma os predestinados; a. 2: ela os conduz e os defende; cap. VII, a. 5: comunicação da alma com o espírito de Maria, a. 6: transformação das almas em Maria à imagem de Jesus Cristo. Ver também em La Vie spirituelle, janeiro de 1937, o artigo do Pe. e. neubert, marianista, L' union mystique à La Sainte Vierge, pp. 15-20.
  20. 20. Les Cahiers de la Vierge do mês de maio de 1936 publicou a tradução francesa do texto holandês feita por L. van den Bossche.
  21. 21. cf. Iª, q. 8, a. 1, 2, 3, 4; q. 45, a. 5; q. 104, a. 2
  22. 22. cf. I.ª, q. 52
  23. 23. IIIª, q. 43, a. 2; q. 48, a. 6; q. 62, a. 4
  24. 24. A virtude instrumental que produz a graça é de ordem espiritual e sobrenatural, mas pode, contudo, apresentar-se de maneira transitória, algo assim como uma vibração, na atitude corporal, por exemplo, na adoração exterior ou na bênção, e passar pelas cicatrizes gloriosas do Corpo de Cristo. Pode localizar-se também nas palavras sensíveis, como nas da absolvição sacramental, transmitidas pelo ar entre o sacerdote e o penitente. Essa virtude instrumental produtora da graça pode também ser transmitida pelo meio (ar ou éter) que se encontra entre nós e o Corpo de Cristo ou o de sua Santa Mãe, presentes no céu.

    Mas, como diz santo tomás, IIª IIae, q. 178, a. 1, ad 1 e De Poenitentia, q. 6, a. 4, Deus pode servir-se como de instrumento de um ato puramente espiritual, de uma oração interior do Salvador ou de Sua Mãe; então a virtude instrumental produtora da graça é transmitida sem meio corporal. Como? Deus, que está presente em todos os lugares, em todos os corpos e nos espíritos os quais conserva na existência, pode tornar essa virtude instrumental de ordem espiritual presente ali onde deve atuar; ela que por si só não está em nenhum lugar, mas que está como o espírito numa zona acima do real. Os tomistas dizem que Deus leva-a ali onde deve operar, mas que não pode desempenhar o papel de meio, porque o meio, como o ar ou o éter, é uma causa material posta em movimento, e Deus não pode ser além de causa eficiente e final.

  25. 25. Iª IIae, q. 28, a. 1 e a. 2.
  26. 26. Ibid., a. 2, corp. et ad 1.
  27. 27. Ibid., a. 3.
  28. 28. Iª IIae, q. 28, a. 3: “O êxtase da segunda espécie o amor produz direta e absolutamente, quando é amor de amizade; não assim, mas de certo modo, quando é amor de concupiscência... Pelo amor de amizade, porém, o afeto se alheia absolutamente ao sujeito, porque quer bem ao amigo e pratica o bem, por causa mesma do amigo, quase dele tomando cuidado e providência”.
  29. 29. Ver, ao final da presente obra, o capítulo penúltimo sobre a União mística com Maria.

Artigo 1: O poder de intercessão de Maria

Desde sua vida terrena, a Santíssima Virgem aparece no Evangelho como a dispensadora das graças. Por ela, Jesus santificou seu precursor, quando sua Mãe foi visitar sua prima Isabel e cantou o Magnificat. Por ela, Jesus confirmou a fé dos discípulos em Caná, realizando o milagre que sua Mãe lhe pedia. Por ela, Jesus confirmou a fé do Apóstolo João no Calvário, ao dizer: “Filho, eis aí tua mãe”. Por ela, finalmente, o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos, pois está escrito1 que rezava com eles no Cenáculo quando se preparavam para o apostolado para o qual foram iluminados e fortalecidos pelas graças de Pentecostes.

Com maior fundamento, após a Assunção, depois de ter entrado nos Céus e de ter sido elevada acima de todos os anjos, Maria é poderosa por sua intercessão.

O senso cristão de todos os fiéis considera que uma mãe beatificada conhece no Céu todas as necessidades espirituais dos filhos que deixou na Terra e que intercede pela salvação deles. Em toda a Igreja, os cristãos rencomendam-se às orações dos santos que já chegaram ao término da sua viagem. Como diz Santo Tomás2, se quando estavam na Terra, sua caridade os levava a rezar pelo próximo, com maior razão no Céu, uma vez que sua caridade, iluminada não só pela fé, mas pela visão beatífica, é muito maior, posto que seu ato é ininterrupto e que conhecem muito melhor nossas necessidades espirituais e o preço da vida eterna, a única necessária.

O Concílio de Trento, na sessão XXV3, definiu que os santos no Céu rogam por nós e que é útil invocá-los. O mérito e a expiação cessaram no Céu, mas não a súplica; não é mais, certamente, a oração suplicante com lágrimas, mas a oração intercessora.

Jesus Cristo vive sempre para interceder por nós 4, disse São Paulo. Jesus é, sem dúvida, o intercessor necessário e principal, mas a Providência e Ele mesmo ordenaram que recorramos ao auxílio de Maria, para que nossas orações, apresentadas por ela, tenham mais valor.

Em sua qualidade de Mãe de todos os homens, ela conhece todas as suas necessidades espirituais e tudo o que está relacionado com a sua salvação; em virtude de sua imensa caridade, roga por eles; e como é onipotente sobre o coração de seu Filho por causa do amor mútuo que os une, obtém-nos todas as graças que recebemos e todas as graças que recebem aqueles que não querem obstinar-se no mal.

O senso cristão formado pelas sublimes orações da Igreja, expressão da Tradição, afirma tudo isso ao recorrer cotidianamente à intercessão da Santíssima Virgem por meio da Ave Maria.

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A teologia explica essa crença universal dos fiéis considerando as três razões fundamentais do poder de intercessão de Maria.

Em primeiro lugar, como Mãe de todos os homens, Maria conhece todas as suas necessidades espirituais.

É um princípio admitido por todos os teólogos que a beatitude dos santos no Céu não seria completa, como deve sê-lo, se não pudessem conhecer tudo o que lhes interessa aqui na Terra por razão de seu ofício, de sua função e de suas relações conosco. Esse conhecimento é motivo de um desejo legítimo que deve ser satisfeito pela beatitude perfeita, tanto mais que, se se trará do conhecimento de nossas necessidades espirituais, esse desejo procede da caridade dos santos a nosso respeito; é ela que os induz a desejar a nossa salvação, para que glorifiquemos a Deus eternamente com eles e sejamos partícipes de sua beatitude.

Por isso um pai ou uma mãe que tenham ido para o Céu conhecem as necessidades de seus filhos, sobretudo as referentes à salvação e tudo o que se relaciona direta ou indiretamente com esta. Da mesma forma, um fundador de alguma ordem entrando na glória conhece os interesses da sua família espiritual e os de cada um dos seus membros. Com maior razão, pois, Maria, Mãe de todos os homens e que tem o mais alto grau de glória diante de seu Filho, Nosso Senhor, deve conhecer tudo o que se relaciona direta ou indiretamente com a vida sobrenatural que está encarregada de nos comunicar e de conservar em nós: os atos bons e meritórios que a engrandecem, as faltas que a diminuem ou a destróem e, por conseguinte, todos os nossos pensamentos, desejos, perigos que nos ameaçam, graças de que temos necessidade, e mesmo interesses temporais que tenham alguma afinidade com a nossa salvação, como, por exemplo, o sustento diário.

Esse conhecimento universal, certo e preciso de tudo o que concerne ao nosso destino, é uma prerrogativa que pertence a Maria pelo título de sua Maternidade Divina e por sua maternidade espiritual em relação a todos os homens5.

Conhecendo todas as nossas necessidades espirituais e mesmo as de ordem material que tenham alguma afinidade com a nossa salvação, Maria está evidentemente inclinada, por sua imensa caridade, a interceder por nós. É suficiente a uma mãe suspeitar das necessidades de seu filho para que trate de aliviá-las. Para nossa Mãe do Céu, assim como para Nosso Senhor, não se trata de adquirir novos méritos, mas de fazer com que os méritos anteriores de seu Filho e os seus próprios nos sejam aplicados no momento oportuno.

Essa oração da Santíssima Virgem é onipotente? 

A Tradição tem chamado Maria de omnipotentia supplex, a onipotência suplicante6.

É, com efeito, um princípio certo que o poder de intercessão dos santos é proporcionado ao seu grau de glória no Céu, ou de sua união com Deus 7. Igualmente, segundo o testemunho constante da Tradição, Maria, cuja glória ultrapassa incomparavelmente a de todos os outros santos, possui a onipotência de intercessão. Antes do século VIII, essa doutrina encontra-se explicitamente em Santo Efrém; no século VIII, as declarações mais claras são as de Santo André de Creta, São Germano de Constantinopla e São João Damasceno. No final do século XI, Santo Anselmo e seu discípulo Eadmero afirmaram formalmente essa onipotência de intercessão, que São Bernardo explicou e transmitiu aos teólogos que lhe seguiram.

Bossuet, em seu Sermão sobre a Compaixão da Santíssima Virgem 8, demonstra admiravelmente os fundamentos dessa doutrina, recordando esta verdade da fé: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu próprio Filho9, e “se o entregou à morte por nós, como não nos dará também com Ele todas as coisas?10; como não dará as graças necessárias para a salvação a todos os que as pedem com humildade, confiança e perseverança? Ora, Maria amou a Deus e as nossas almas de tal modo a ponto de entregar seu próprio Filho no Calvário. Ela é, portanto, onipotente sobre o coração de Deus Pai e sobre o coração de seu Filho para obter os bens necessários à salvação daqueles que não se obstinam na resistência à graça, mas que, ao contrário, pedem-na como convém.

Em seu sermão, Bossuet assim se expressa: “Intercedei por nós, ó bem-aventurada Maria; tendes em vossas mãos, atrevo-me a dizê-lo, a chave das bênçãos divinas. Vosso Filho é essa chave misteriosa pela qual são abertas as arcas do Pai Eterno: Ele as fecha e ninguém pode abri-las; Ele as abre e ninguém pode fechá-las; é Seu sangue inocente que faz descer sobre nós os tesouros das graças celestes. E a quem mais que a vós, Virgem Maria, dará mais direitos sobre esse sangue, a vós que lhe destes todo o seu sangue?... Ademais, viveis com Ele numa amizade tão perfeita que é impossível não fôsseis ouvida”. Basta, diz São Bernardo, que Maria fale ao coração de seu Filho.

Esse ensinamento da Tradição assim formulado por Bossuet foi proclamado pelo Papa Leão XIII na primeira encíclica sobre o Rosário, a 1º de setembro de 1883, onde Maria é chamada de “dispensadora das graças celestiais”, coelestium administra gratiarum. Na encíclica Jucunda semper, de 08 de setembro de 1894, o mesmo Papa fez suas estas duas frases de São Bernardo: que Deus, em sua amorosa misericórdia, fez de Maria a nossa Medianeira, e que Ele quis que todas as graças nos venham por ela. A mesma doutrina é encontrada no início da epístola Diuturni temporis, de 5 de setembro de 1898. O Papa Pio X disse o mesmo na Encíclica Ad diem illum, de 02 de fevereiro de 1904. Maria é chamada de “a dispensadora de todas as graças que nos foram adquiridas pelo sangue de Jesus Cristo”. Nosso Senhor é a fonte dessas graças e Maria é o aqueduto, ou, segundo outra imagem muito utilizada, é como o pescoço que, no corpo místico, une a cabeça aos membros, transmitindo-lhes o influxo vital: “Ipsa est collum capitis nostri, per quod omnia spiritualia dona corpori ejus mystico communicantur. O Papa Bento XV consagrou essa doutrina aprovando, para toda a Igreja, a Missa e o ofício litúrgico de Maria Medianeira de todas as graças.

Como observa o Pe. Merkelbach11, é preciso notar aqui três coisas.

Em primeiro lugar, é de fé que a Santíssima Virgem roga por nós, e até por cada um de nós, em sua qualidade de Mãe do Redentor e de todos os homens, e que sua intercessão nos é utilíssima, segundo o dogma geral da intercessão dos santos12. Assim a Igreja canta: Sancta Maria, ora pro nobis. E como “Lex orandi statuit legem credendi, o dogma e a oração são regidos pela mesma lei13.

Em segundo lugar, é certo, segundo a Tradição, que o poder de intercessão de Maria pode obter para todos aqueles que a invocam devidamente 14 todas as graças da salvação e que ninguém é salvo sem ela. Também a Igreja diz a Maria: “Sentiant omnes tuum juvamen, que todos experimentem tua ajuda.

Em terceiro lugar, enfim, é uma doutrina comum e segura, ensinada pelos Papas, pela pregação universal e pela liturgia, que nenhuma graça nos é dada sem a intervenção de Maria; isso é o que diz o Ofício e a Missa de “Maria Medianeira de Todas as Graças” (31 de maio), e seria ao menos temerário negar tal doutrina.

Essa doutrina aprovada pela Igreja está implicitamente contida, até o século VIII, na afirmação geral da mediação universal de Maria. Posteriormente, do século VIII ao XV, está mais explicitamente afirmada, ao se dizer que todos os dons de Deus nos vêm por meio da Santíssima Virgem. Desde o século XVI até nossos dias, essa verdade tem sido teologicamente exposta sob seus diversos aspectos, e se ressalta que se trata de todas as graças sobrenaturais provenientes da Redenção de Jesus Cristo, mesmo das graças sacramentais, no sentido em que as disposições necessárias para receber os sacramentos são obtidas pela intercessão de Maria15. Se, ademais, a Santíssima Virgem nos mereceu de congruo tudo o que Cristo nos mereceu de condigno, como vimos anteriormente, ela nos mereceu de um mérito de conveniência as próprias graças sacramentais.

Vê-se, por isso, que a intercessão de Maria é muito mais poderosa e eficaz que a de todos os outros santos, mesmo reunidos, pois os outros santos não obtêm nada sem ela. A intercessão deles fica compreendida na de Maria, que é universal, ainda que sempre subordinada à de Nosso Senhor. Ademais, as graças que Maria pede para nós, ela já no-las mereceu, e não é assim com os santos; eles pedem freqüentemente para nós os auxílios que não nos têm merecido. Sua oração, ademais, não tem a mesma eficácia que a de Maria.

E, finalmente, em relação à eficácia das orações de Maria, convém recordar um princípio que se aplica até mesmo à oração de Jesus Cristo. Este é sempre ouvido naquilo que pede, não de uma forma condicionada, como quando rezou no Jardim das Oliveiras, mas de uma maneira absoluta e conforme as intenções divinas completamente conhecidas por Ele16. Deve-se dizer o mesmo de Maria: por sua intercessão, obtém infalivelmente de seu Filho tudo o que lhe pede de maneira não condicional, mas absoluta e em conformidade com as intenções divinas, que ela não ignora.

Pode haver, para a realização de certas orações, algum obstáculo que a Divina Providência podia impedir, mas que, de fato, não impede sempre. Esse obstáculo pode advir ou porque não se pede à Santíssima Virgem com as disposições requeridas, com humildade, confiança e perseverança, ou porque se pede algo que não é julgado útil ao bem espiritual, ou porque a vontade daquele por quem se roga recusa deliberadamente a conversão exigida 17. Às vezes isso é permitido por um bem superior, que entenderemos claramente no Céu: a manifestação das perfeições divinas, o esplendor da Misericórdia ou da Justiça.

Vê-se por essas explicações que a onipotência da intercessão de Maria, baseando-se nos méritos do Salvador e no seu amor por sua Mãe, longe de antepor-se à mediação universal de Cristo, é um reflexo esplêndido da mesma e manifesta a Redenção soberana realizada pelo Redentor perfeito naquela que lhe é mais intimamente associada na obra da salvação da humanidade.

  1. 1. At 1, 14.
  2. 2. IIª IIae, q. 83, a. 11: “Se os santos que estão na pátria oram por nós”.
  3. 3. Denzinger, nº 984.
  4. 4. Hb 7, 25; Rm 8, 34.
  5. 5. Cf. e. dublanchy, Dict. Théol. cath, art. Marie, col. 2412: “Pode ser dito que Maria, em sua vida mortal, conheceu em detalhes tudo o que concerne à santificação e à salvação de cada um dos membros da humanidade? Parece que não é possível dar uma prova convincente, sobretudo quando se trata de um conhecimento universal e estendendo-se aos detalhes de cada indivíduo. No Céu, depois de sua Assunção, exerce a função de intercessão universal e de mediação para todas as graças decorrentes da redenção e possui esse conhecimento perfeito em relação a cada um dos membros de toda a humanidade”.
  6. 6. Afirmam isso em termos equivalentes: santo efrém, Opera, t. III, gre. lat., pp. 511, 537, 540; santo andré de Creta, Triod.; são Germano de Constantinopla, Homilia in Dorm. II; Teodoro Estud., P. G., CXXIX, 1779; são Nicéforo de Const., P. G., C, 341; Jorge de Nicomedia, ibid., 1438; Santo Anselmo, Orat., XLVI, P. L., CLVIII, 944; Eadmer, De excel. B. M., XII, P. L., CLIX, 579; são Bernardo, Serm. de acquaeductu, 7, P. L., CLXXXIII, 441, ibid., 415, 432, 436; Adão de Perseigne, Mariale, serm. I, P. L., CCXI, 703; Hugo de São Caro, Postilla in Eccli., xxiv, 15. — E. Dublanchy, Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2436 traz também as declarações de Santo Alberto Magno, Jacobo de Vorágine, Raymond Jordán, Gerson, São Bernardino de Sena, São Lorenzo Justiniano, Gabriel Biel, Viguier, Santo Tomás de Villanueva, Luis de Blois e Santo Afonso de Ligório. — Muitas dessas declarações são citadas mais ou menos amplamente pelo Pe. E. Hugon em seu livro Marie, pleine de grâce, 5ª edição, 1926, pp. 160-66, e acrescenta ainda as de Suárez, De Mysteriis Vitae Christi, d. 23, sect. 3, parágrafo 5, de Vega, Theol. Mariana, palestra XXIX, cert. IV, de Contenson, Theol. mentis et cordis, 1. X, diss. IV, c. I, de são luís Grignion de Montfort, Tratado, Iª parte., c. I, de Bossuet, Sermon sur la Compassion de la Sainte Vierge, e a declaração dos teólogos contemporâneos: Petitalot, Sauvé, de la Broise, Lépicier, Terrien, Bover. — Cf. também Merkelbach, Mariologia, pp. 345-371.
  7. 7. santo tomás, IIª IIae, q. 83, a. 2.
  8. 8. Ver o final do primeiro ponto.
  9. 9. Jo 3, 16.
  10. 10. Rm 8, 32.
  11. 11. Mariologia, p. 345-349.
  12. 12. Concílio de Trento, sessão XXV.
  13. 13. Denzinger, nº 139.
  14. 14. Dizemos “para todos aqueles que a invocam devidamente” para indicar que um obstáculo à obtenção dessa graça pode proceder de que não se rogue a Maria com as disposições necessárias ou de que se rogue por alguém que se nega a converter-se e se obstina no mal. Mas por outro lado, não é necessário para o exercício dessa mediação universal de intercessão que se peça explicitamente a Maria, nem mesmo que se peça efetivamente. De fato, em virtude de rogar a Deus ou aos santos, pede-se implicitamente a Maria, segundo a economia geral do plano divino, e ademais, muitas graças nos são concedidas sem que as peçamos: por exemplo, a graça atual necessária para começar a rezar. Mas a oração dirigida a Maria e com as devidas disposições confere maior segurança de obter a graça divina.
  15. 15. Cf.. Dict. Théol. Cath., art. Marie, col. 2403.
  16. 16. santo tomás, IIIª, q. 21, a. 4.
  17. 17. Cf. santo tomás, IIª IIae, q. 83, a. 15, ad 2.

Mediação universal de Maria no céu

Essa mediação que Maria exerce depois da Assunção tem por objetivo obter-nos em tempo oportuno a aplicação dos méritos passados, adquiridos por Jesus e por ela durante sua vida terrena e sobretudo no Calvário. Trataremos da poderosa intercessão de Maria, da maneira como ela distribui todas as graças ou da forma de sua influência sobre nós e, finalmente, da universalidade de sua mediação e da definibilidade desta.

Artigo 3: Sofrimentos de Maria corredentora

Como a Virgem Maria satisfez por nós?

A satisfação tem por objeto reparar a ofensa feita a Deus pelo pecado e fazer-nos agradáveis a Ele. Ora, a ofensa proveniente do pecado mortal, pelo qual a criatura dotada de racionalidade afasta-se de Deus e prefere um bem criado a Ele, tem uma gravidade infinita. A ofensa, com efeito, é tanto mais grave quanto mais elevada é a dignidade da pessoa ofendida, e o pecado mortal, ao nos afastar de Deus, nosso fim último, nega praticamente a Deus a dignidade infinita de soberano bem e destrói seu reino em nós.

Segue-se disso que somente o Verbo feito carne podia oferecer a Deus uma satisfação perfeita ou adequada à ofensa que decorre do pecado mortal 1. Para ser uma satisfação perfeita, era necessário que o amor e a oblação do Salvador agradassem a Deus tanto ou mais quanto Lhe desagradaram todos os pecados reunidos, como diz Santo Tomás 2. Isso acontecia com todos os atos de caridade de Cristo, pois tomavam da pessoa divina do Verbo um valor infinito tanto para satisfazer como para merecer. A obra meritória torna-se satisfatória ou reparadora e expiatória quando tem algo de aflitivo ou penoso, e Jesus, ao oferecer sua vida em meio aos maiores sofrimentos físicos e morais, ofereceu desde então a seu Pai uma satisfação de valor infinito e superabundante. Só Ele podia assim satisfazer plenamente e em estrita justiça, pois o valor da satisfação, assim como o do mérito, provém da excelência da pessoa que, em Jesus, tem uma dignidade infinita.

Mas à satisfação perfeita do Salvador pôde unir-se uma satisfação de conveniência, assim como se acrescentou ao seu mérito um mérito de conveniência. É necessário insistir nisso para melhor ver qual foi a profundidade e a extensão dos sofrimentos da Santíssima Virgem.

 

Maria ofereceu por nós uma satisfação de conveniência do mais alto valor, depois da satisfação de seu Filho

O mérito torna-se o fundamento da satisfação quando a obra meritória adquire um caráter aflitivo. Assim, depois dos princípios expostos no artigo precedente, os teólogos ensinam comumente esta proposição: Beata Maria Virgo satisfecit de congruo ubi Christus de condigno; Maria ofereceu para nós uma satisfação de conveniência, enquanto Jesus satisfez por nós em estrita justiça.

Em sua qualidade de Mãe de Deus Redentor, ela esteve de fato unida a Cristo por uma perfeita conformidade de vontade, pela humildade, pobreza, sofrimento e lágrimas, sobretudo no Calvário; e, nesse sentido, ela satisfez com Ele, e essa satisfação de conveniência adquire um valor inestimável de sua eminente dignidade de Mãe de Deus, da perfeição de sua caridade, do fato de que Maria não tinha nada a expiar, e da intensidade de seus sofrimentos.

Isso é o que dizem os Santos Padres quando falam de “Maria ao pé da Cruz”, como o afirma São João 3; eles recordam as palavras do velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma4, e nos mostram que Maria sofreu na medida de seu amor a seu Filho crucificado por causa dos nossos pecados, e também em proporção à crueldade dos verdugos e da atrocidade do suplício infligido Àquele que era a própria inocência 5.

A liturgia diz também, há muitos séculos, que Maria mereceu o título de Rainha dos Mártires pelo martírio do coração, o mais doloroso de todos; isso é o que indicam as festas da Compaixão da Santíssima Virgem (Sexta-feira Santa), de Nossa Senhora das Sete Dores e o Stabat Mater.

O Papa Leão XIII resume essa doutrina ao dizer que Maria esteve associada a Cristo na obra dolorosa da redenção do gênero humano 6.

O Papa Pio X chama a Virgem de “reparadora do mundo caído” 7 e mostra como ela esteve unida ao sacerdócio de seu Filho: “Não só porque consentiu em ser a Mãe do Filho Unigênito de Deus para tornar possível um sacrifício destinado à salvação dos homens; mas a glória de Maria consiste também em ter aceitado a missão de proteger e alimentar o Cordeiro destinado ao sacrifício e, tendo chegado o momento, de conduzi-lo ao altar da imolação. Desse modo, a comunhão de vida e de sofrimentos de Maria e de seu Filho não foi jamais interrompida. A ela, assim como a seu Filho, aplicaram-se de forma similar as palavras do profeta: “A minha vida vai se consumindo com a dor e os meus anos com os gemidos8.

O Papa Bento XV ensina enfim: “Ao unir-se à Paixão e à morte de seu Filho, Maria sofreu semelhante morte... para aplacar a justiça divina; e naquilo que estava a seu alcance, imolou seu Filho, de forma que se pode dizer que resgatou o gênero humano juntamente com Ele 9. Isso equivale a chamá-la Corredentora 10.

 

A profundidade e a fecundidade dos sofrimentos de Maria Corredentora

O caráter de satisfação ou expiação dos sofrimentos da Santíssima Virgem provém de que, assim como Nosso Senhor e com Ele, também ela sofreu pelo pecado ou pela ofensa feita a Deus. E sofreu na medida de seu amor para Deus ofendido, de seu amor para seu Filho crucificado por causa das nossas faltas, e de seu amor por nossas almas, que o pecado desfigura e faz morrer. Essa medida foi, portanto, a da plenitude de graça e de caridade, que a partir do instante de sua concepção imaculada superava a graça final de todos os santos reunidos, e que não tinha deixado de crescer desde então. Considerando apenas seus atos mais fáceis e simples, Maria merecia mais que os mártires em seus tormentos, porque punha naqueles muitíssimo mais amor. Qual não foi então o preço de seus sofrimentos ao pé da Cruz, pressuposto o conhecimento que recebeu do mistério da Redenção!

Na luz sobrenatural que esclarecia sua inteligência, a Virgem compreendia que todas as almas são chamadas a cantar a glória de Deus, incomparavelmente mais que as estrelas do céu. Cada alma deveria ser como um reflexo da divindade, um reflexo espiritual pleno de conhecimento e de amor, uma vez que nossa inteligência foi feita para conhecer a Deus e nosso coração para amá-Lo. Mas, enquanto que os astros seguem regularmente o caminho fixado pela Providência e cantam a glória do Criador, milhares de almas, cada uma das quais valendo um mundo, desviam-se de Deus. No lugar desse reflexo de Deus, dessa glória exterior do Altíssimo ou do seu reino, encontram-se em inúmeros corações as três chagas chamadas por São João a concupiscência da carne, como se não houvesse outro amor apetecível além do amor carnal; a concupiscência dos olhos, como se não houvesse outra glória além daquela da fortuna e das honras; e o orgulho da vida, como se Deus não existisse, não fosse nosso Criador e Senhor, nem nosso fim último; como se não houvesse outro fim além nós mesmos.

A Santíssima Virgem via esse mal nas almas como nós vemos as chagas purulentas num corpo doente. E a plenitude de graça, que não havia cessado de crescer em Maria, aumentava consideravelmente nela a capacidade de sofrer pelo maior dos males, o pecado, uma vez que se sofre mais quanto mais se ama a Deus, a quem o pecado ofende, e as almas, a quem o pecado mortal afasta de seu fim tornando-as dignas de uma morte eterna.

Maria observava, sobretudo, sem o menor erro e ilusão possíveis, como se ia preparando e consumando o maior dos crimes, o deicídio, e via também o paroxismo do ódio contra Aquele que é a própria Luz e o Autor da salvação.

Para compreender um pouco o que foram os sofrimentos de Maria, deve-se pensar em seu amor natural e sobrenatural ― teologal ― pelo seu Filho Unigênito, não só querido, mas legitimamente adorado, a quem ela amava muito mais que a sua própria vida, uma vez que era seu Deus. Ela o havia milagrosamente concebido e amava-o com um coração de Virgem ― o mais puro, terno e pleno de caridade que jamais existiu.

Também não ignorava nenhuma das causas da crucificação; nem as causas humanas: a obstinação dos judeus, o povo escolhido, seu próprio povo; nem as causas superiores: a redenção das almas pecadoras. Pode-se vislumbrar dessa forma a profundidade e a extensão dos sofrimentos de Maria Corredentora.

Se Abraão sofreu heroicamente ao preparar-se para imolar seu filho, esse sofrimento não durou mais que algumas horas, e um anjo desceu do Céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde o momento em que o velho Simeão predisse à Maria a Paixão de seu Filho, já claramente anunciada por Isaías, e sua própria Paixão, nunca deixou de oferecer Aquele que devia ser Sacerdote e vítima, e oferecer-se com Ele. Essa oblação dolorosa durou não somente algumas horas, mas anos, e se um anjo desceu do Céu para impedir a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

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*   *

Bossuet, em seu sermão sobre a Compaixão da Santíssima Virgem, diz soberbamente: “Foi vontade do Pai Eterno que Maria não só fosse imolada com essa vítima inocente, e cravada na Cruz do Salvador com os mesmos cravos que O perfuraram, mas que também fosse associada a todo o mistério que se cumpriu por sua morte...

“(...) Três coisas concorrem juntamente ao sacrifício de nosso Salvador e constituem a sua perfeição. Em primeiro lugar, os sofrimentos pelos quais a sua humanidade ficou literalmente triturada; em segundo, a resignação pela qual se submeteu humildemente à vontade de seu Pai (oferecendo-se a Ele); e, em terceiro, a fecundidade pela qual nos gera a graça e nos dá a vida com sua morte. Sofre como a vítima que deve ser destruída e ferida de golpes; submete-se como o sacerdote que deve sacrificar voluntariamente: voluntarie sacrificabo tibi ― eu te oferecerei um sacrifício voluntário 11; finalmente, gera-nos por meio do sofrimento, como o Pai de um povo novo, que dá à luz por suas feridas; eis aqui as três coisas sublimes que o Filho de Deus realizou na Cruz...

“Maria coloca-se ao lado da Cruz; com que olhos observa seu Filho todo ensangüentado, coberto de chagas e que não tem mais a figura de homem! Essa visão causa-lhe a morte; se ela se aproxima do altar, é porque quer ser imolada também, e ali, com efeito, sente o golpe da espada cortante que, segundo a profecia do bom Simeão, deveria... abrir seu coração maternal com feridas crudelíssimas...

“Mas a dor a abateu? Prostrou-a por terra desfalecida? Ao contrário, Stabat juxta crucem: estava de pé junto à Cruz. Não, a espada que atravessou seu coração não pôde diminuir suas forças: a constância e a aflição estão em uníssono, e ela atesta por sua constância que não estava menos submissa que afligida.

“O que resta, pois, caros cristãos, senão que seu Filho amado, que lhe fez sentir seus sofrimentos e imitar sua resignação, comunique-lhe também sua fecundidade? E é também nesse pensamento que Cristo lhe deu São João por seu filho... Mulier, ecce filius tuus 12: ‘Mulher ― disse Ele ― eis o teu filho’. Ó mulher, que sofres comigo, sê fecunda também comigo, sê a mãe dos meus filhos; Eu vos entrego sem reservas, na pessoa deste único discípulo; Eu os gero por minhas dores, e como saboreais as amarguras comigo, também terás a eficácia, e vossa aflição vos tornará fecunda” 13.

No mesmo sermão, Bossuet desenvolve esses três grandes pensamentos, demonstrando que o amor de Maria por seu Filho crucificado bastava para seu martírio: Não é necessário mais que uma única cruz para seu Filho amado e para ela; está cravada pelo seu amor por Jesus, que a faz sentir todos os seus sofrimentos físicos e morais, muito mais que o podem sentir os estigmatizados. Sem um auxílio excepcional, ela teria verdadeiramente morrido naquela hora.

Uma grande dor é como um mar enfurecido; pessoas houve que se tornaram loucas pela dor, mas Jesus subjugou as águas, e da mesma maneira que conserva a paz na Cruz no meio da tempestade, Ele também dá forças à sua Mãe para que a conserve.

Maria, finalmente, que deu à luz seu Filho sem o mínimo de dor, dá à luz os cristãos em meio aos maiores tormentos.A que preço os resgatou! continua Bossuet. Foi necessário que entregasse o seu Unigênito; ela não pode ser a Mãe dos cristãos sem que entregue à morte o seu Filho muitíssimo amado. Ó fecundidade dolorosa!... Era essa a vontade do Pai Eterno: fazer nascer os filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro... Entrega o seu próprio Filho à morte para que nasçam os adotivos. Quem adotaria a esse preço um filho para entregá-lo a estranhos? Pois isso foi, não obstante, o que fez o Pai Eterno... O próprio Jesus nos diz: “de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho único 14.

“(Maria igualmente) é a Eva da Nova Aliança e a Mãe comum de todos os fiéis; mas é preciso que lhe custe a morte de seu Primogênito; é necessário que se una ao Pai Eterno e que entreguem livremente seu Filho de comum acordo ao suplício. Por isso a Providência chamou-a ao pé da Cruz; veio até ali para imolar o seu Filho verdadeiro, para que os homens vivam... Tornou-se a Mãe dos cristãos pela força de uma aflição incomensurável”. O cristão deve recordar isso sempre, e encontrará aí o motivo de um verdadeiro arrependimento de suas faltas. A regeneração das nossas almas custou a Nosso Senhor e à sua Mãe Santíssima mais do que poderíamos imaginar.

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*   *

Devemos dizer, para concluir, que Maria Corredentora deu-nos à luz ao pé da Cruz de Nosso Senhor, mediante o maior ato de fé, de esperança e de amor que ela podia realizar em semelhante momento.

Pode-se mesmo dizer que esse ato de fé foi o maior que já existiu, pois Jesus não tinha fé, mas a visão beatífica que todavia conservava no Calvário. Nessa hora de escuridão, que foi chamada de ‘a hora das trevas’, quando a fé dos próprios Apóstolos parecia vacilar, quando Jesus parecia completamente derrotado e sua obra aniquilada para sempre, quando até o próprio Céu parecia não responder às suas súplicas, Maria não cessou nem por um instante de crer que seu Filho era o Salvador da humanidade e que ao terceiro dia ressuscitaria como havia anunciado. Quando Cristo pronunciou suas últimas palavras: Tudo está consumado, na plenitude de sua fé Maria compreendeu que a obra da salvação estava cumprida pela mais dolorosa imolação, que todas as Missas recordarão até o fim do mundo. Jesus tinha instituído, na véspera, esse sacrifício eucarístico e o sacerdócio cristão, e entreviu o resplendor infinito do sacrifício da Cruz. Maria compreendeu que seu Filho agonizante era verdadeiramente “o Cordeiro que tira os pecados do mundo, o vencedor do pecado e do demônio e que, em três dias, seria o vencedor da morte, conseqüência do pecado. Ela viu a intervenção suprema de Deus ali onde os mais crentes vêem apenas trevas e desolação. É seguramente o maior ato de fé que já existiu numa criatura; uma fé muito superior à dos próprios anjos quando estavam em vias de prova.

Foi também para ela o ato supremo de esperança no momento em que tudo parecia desesperado. Compreendeu todo o sentido das palavras dirigidas ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso”; o Céu abrir-se-ia para os eleitos.

Foi enfim, para Maria, o ato mais intenso de caridade: amar a Deus até o ponto de oferecer-Lhe seu Filho único e inocente, em meio às piores torturas; amar a Deus acima de tudo no momento em que, por nossas faltas, foi golpeada por Ele em sua afeição mais profunda e mais elevada, no objeto próprio de sua legítima adoração; amar as almas até o ponto de entregar por elas seu próprio Filho.

Sem dúvida, as virtudes teologais cresceram ainda em Maria até o momento da sua morte, pois esses atos de fé, esperança e caridade, longe de serem interrompidos, continuaram nela como em um estado ou hábito. Pode-se dizer que na calma tomaram até maior amplitude, como um rio que após a turbulência nas passagens mais difíceis e tortuosas de seu percurso torna-se mais e mais poderoso e majestoso até que se lança ao oceano.

A Teologia destaca aqui que o sacrifício de Maria ao pé da Cruz iguala o mérito; ambos são de um valor inestimável e sua fecundidade supera nesse ponto sem atingir a de Jesus Cristo ― a tudo o que poderíamos imaginar 15. Isso é o que os teólogos exprimem quando dizem que Maria satisfez por nós com uma satisfação de conveniência fundada em sua imensa caridade, assim como Jesus satisfez em estrita justiça para nossa salvação.

Os santos que têm sido mais associados aos tormentos do Salvador não penetraram tanto quanto Maria nas últimas profundezas da Paixão. Santa Catarina de Ricci teve todas as sextas-feiras, por 12 anos, um êxtase de dor que durava 28 horas e durante o qual revivia todos os sofrimentos da Via Crucis. Mas esses sofrimentos de Santa Catarina de Ricci e de outros estigmatizados foram apenas uma pálida sombra e não se aproximaram dos da Virgem. Todos os tormentos do Sagrado Coração de Jesus repercutiam no Coração de Maria, que teria morrido por semelhante tortura se não tivesse sido sobrenaturalmente sustentada por um auxílio excepcional. Tornou-se assim a Consoladora dos aflitos, pois sofreu muito mais que eles; a Padroeira da boa morte; e não podemos certamente suspeitar quão fecundos têm sido esses sofrimentos depois de vinte séculos.

 

A participação de Maria Corredentora no sacerdócio de Cristo

Se Maria pode ser chamada Corredentora no sentido que acabamos de explicar, não poderíamos dizer que ela é sacerdote no sentido próprio da palavra, pois não recebeu o caráter sacerdotal e não podia consagrar a Eucaristia nem dar a absolvição sacramental. Mas, como vimos ao falar da Maternidade Divina, esta é superior ao sacerdócio dos padres de Cristo, no sentido em que é mais perfeito dar a Nosso Senhor sua natureza humana que tornar presente seu Corpo na Eucaristia. Maria deu-nos o Sacerdote do sacrifício da Cruz, o Sumo sacerdote do sacrifício da Missa e a Vítima oferecida em nossos altares.

É também mais perfeito oferecer seu Filho único e seu Deus na Cruz ― oferecendo-se com Ele nos maiores tormentos ― que tornar presente o Corpo de Nosso Senhor e oferecê-lo no altar, como o faz o sacerdote durante o sacrifício da Missa.

Deve-se dizer como afirmava recentemente um bom teólogo que estudou durante anos essas questões: “É uma conclusão teológica certa que Maria cooperou, de certa maneira, no ato principal do sacerdócio de Jesus Cristo, dando, como exigia o plano divino, seu consentimento ao sacrifício da Cruz tal qual foi cumprido por Jesus Cristo”. “Não considerando mais que certos efeitos imediatos da ação do sacerdote, como a consagração eucarística ou o perdão dos pecados pelo sacramento da penitência, é certo que o sacerdote pode cumprir atos que Maria não poderia jamais realizar, pois não tinha o poder sacerdotal. Mas não se trata aqui de comparação de dignidades, apenas de efeitos particulares provenientes de um poder que a Virgem Maria não tinha, mas que não supõem uma dignidade superior” 16.

Se Maria não pode ser chamada “sacerdote” no sentido próprio da palavra, pelo fato de não ter recebido o caráter sacerdotal, e não pode realizar os atos próprios deste, sempre permanece, como diz M. Olier “que ela recebeu a plenitude do espírito do sacerdócio, que é o espírito de Cristo Redentor”. Por isso lhe é dado o título de Corredentora, que, assim como o título de Mãe de Deus, supera a dignidade conferida pelo sacerdócio cristão 17.

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A participação de Maria na imolação e na oblação de Jesus Sacerdote e Vítima não poderia ter sido melhor expressa que pelo Stabat do franciscano Jacopone da Todi (1228-1306).

Essa seqüência manifesta de uma maneira singularmente impressionante como a contemplação sobrenatural do mistério de Cristo crucificado concilia-se com os caminhos normais de santidade. Tem formas precisas, fervorosas e esplêndidas para expressar a ferida do Coração do Salvador e mostrar-nos a influência tão íntima e penetrante de Maria para conduzir-nos a Ele. A Santíssima Virgem não só nos conduz para essa divina intimidade, mas também, em certo sentido, a faz em nós; isso é o que nos diz nestas estrofes a repetição admirável da palavra Fac, expressão da súplica fervorosa.

É a súplica da alma que, sob uma inspiração especial, quer também conhecer espiritualmente a ferida do amor e estar associada aos dolorosos mistérios da adoração reparadora como o estiveram, depois de Maria, São João e as santas mulheres no Calvário, e também São Pedro quando derramou abundantes lágrimas.

Essas são as lágrimas da adoração e da contrição pedidas pelo poeta no final do Stabat.

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Maria exerceu na Terra, portanto, sua mediação universal, merecendo para nós por um mérito de conveniência tudo o que Jesus Cristo nos mereceu em estrita justiça, e também oferecendo para nós uma satisfação de conveniência fundada sobre sua imensa caridade, enquanto Nosso Senhor satisfazia em justiça por todas as nossas faltas e nos reconciliava com Deus. Para Jesus e para sua Santíssima Mãe, essa mediação universal exercida durante suas vidas terrenas é o fundamento da mediação que exercem no alto do Céu, e da qual devemos falar agora.

  1. 1. É mais fácil destruir que reedificar. A ofensa proveniente do pecado mortal tem uma gravidade infinita porque nega a Deus praticamente uma perfeição infinita, enquanto que o nosso amor a Deus tem apenas um valor finito, permanece limitado e finito da parte da pessoa que é o seu princípio. Nossas negações a respeito de Deus vão mais longe e têm mais alcance que nossas afirmações; ademais, uma ofensa grave feita a Deus destrói em nós a vida da graça e da caridade, e quando a perdemos não podemos devolvê-la a nós mesmos.
  2. 2. IIIª, q. 1, a. 2, ad 2, et q. 48, a. 2.
  3. 3. Jo 19, 25.
  4. 4. Lc 2, 35.
  5. 5. Cf. santo efrém, Oratio ad Virg., edic. Venecia, t. III, p. 195; santo ambrósio, De Instit. Virg., c. 7, Epist. 25 ad Eccles. Vercell.; são bernardo, Sermo de Passione, Sermo de duodecim stellis, Sermo Dom. infra Oct. Ass.; santo alberto magno, Mariale, q. 42; são boaventura, Sermo de B. V.; são lorenzo justiniano, Sermo de nativ. Virg.
  6. 6. Encíclica Jucunda semper, de 8 de setembro de 1894: “Consors cum Christo existit laboriosae pro humano genere expiationis”.
  7. 7. Encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904: Reparatrix perditi orbis.
  8. 8. Ibidem.
  9. 9. Carta Inter Sodalicia: Ita cum Filio patiente et moriente passa est et poene commortua, sic materna in Filium jura pro hominum salute abdicavit, placandaeque Dei justitiae, quantum ad se pertinebat, Filium immolavit, ut dici merito queat, ipsam cum Christo humanum genus redemisse”.
  10. 10. Cf. denzinger, nº 3034, n. 4, onde é citado o texto de Bento XV. No mesmo lugar, indica-se que Pio XI (Litt. Apost., 02 de fevereiro de 1923) escreveu também: “Virgo perdolens redemptionis opus Jesu Christo participavit, e um decreto do Santo Ofício elogiou “o costume de adicionar ao nome de Jesus o nome de Maria, nossa Corredentora, a bem-aventurada Virgem Maria”, “nomem Matris suae, corredemptricis nostrae beatae Mariae. Finalmente, essa mesma Congregação indulgenciou a oração na qual Maria é chamada de “Corredentora da humanidade” (22 de janeiro de 1914).

    Dict cf. Théol. cath., art. Marie, col. 2396: “Não existe nenhuma séria dificuldade em servir-se da palavra Corredentora, significando uma simples cooperação com a Redenção de Jesus Cristo e tendo recebido depois de muitos séculos na linguagem teológica o significado muito concreto de uma cooperação secundária e dependente, de acordo com os testemunhos citados anteriormente, com a condição que se tenha o cuidado de acompanhá-la de algumas expressões indicadoras de que o papel de Maria, nessa cooperação, é um papel ou função secundária e dependente”.

  11. 11. Sl 53, 8.
  12. 12. Jo 19, 26.
  13. 13. Esse é o exórdio do sermão e nele são desenvolvidos esses três pontos
  14. 14. Jo 3, 16.
  15. 15. Tal é o caso de uma assíntota ou linha reta que, prolongada indefinidamente, aproxima-se continuamente de uma curva sem nunca tocá-la. Os lados de um polígono inscrito numa circunferência, igualmente, podem ser multiplicados cada vez mais, sem nunca atingi-la. Assim, as forças desconhecidas da natureza produzem efeitos que a ciência vai descobrindo incessantemente, como descobriu recentemente os efeitos do rádio, mas nunca essas forças naturais poderão produzir os efeitos próprios de Deus, como a criação propriamente dita ex nihilo ou a ressurreição de um morto.
  16. 16. E. dublanchy, Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2396, 2366.
  17. 17. Ibid, col. 2365.

Artigo 2: Os méritos de Maria para nós

Natureza e extensão desses méritos

Não é somente no Céu que a Santíssima Virgem exerce suas funções de Medianeira universal pela intercessão e distribuição de todas as graças; ela as exerceu já sobre a Terra, segundo a expressão comum, “pela aquisição dessas graças”, cooperando com a nossa redenção pelo mérito e pela satisfação. Nisso esteve associada a Nosso Senhor, que foi inicialmente mediador durante sua vida terrena, sobretudo pelo sacrifício da Cruz. Essa associação é também o fundamento da mediação que Ele exerce no Céu, pela intercessão de Maria, para nos aplicar os frutos da redenção que Ele nos transmite. Vejamos qual é o ensinamento comum dos teólogos sobre os méritos de Maria para nós, partindo dos próprios princípios da teologia sobre os diferentes gêneros de mérito.

 

Três gêneros de mérito propriamente dito

O mérito em geral é um direito a uma recompensa; ele não a produz, mas a obtém; o ato meritório confere direito. O mérito sobrenatural que pressupõe o estado de graça e a caridade é um direito a uma recompensa sobrenatural. Distingue-se da satisfação, que tem por objetivo reparar, pela expiação, a ofensa cometida pelo pecado à majestade infinita de Deus e torná-lo favorável a nós. O mérito, que pressupõe o estado de graça, distingue-se também da oração que, por uma graça atual, pode existir no homem em estado de pecado mortal, e que se dirige não à justiça divina, mas à misericórdia. Até mesmo no justo, ademais, a força impetratória da oração distingue-se do mérito, e por isso a oração consegue obter graças que não podem ser merecidas, como a da perseverança final, que é a continuação do estado de graça no momento da morte.

Mas é preciso distinguir três gêneros de mérito propriamente dito. 

Existe primeiro, em sumo grau em Cristo, o mérito perfeitamente digno de sua recompensa, ou mérito perfeito de condigno, porque o valor da obra ou do ato de caridade teândrica, que na alma de Jesus procede da divina pessoa do Verbo, iguala ao menos o valor da retribuição em estrita justiça. Os atos meritórios de Cristo que eram, em sua santa alma, atos de caridade ou inspirados por ela, têm um valor infinito e superabundante em virtude da pessoa do Verbo da qual derivam. E Ele pôde, em estrita justiça, merecer por nós as graças da salvação, porque foi constituído Cabeça da humanidade, pela plenitude de graça que devia derramar sobre nós para nossa salvação.

Em segundo lugar, é de fé1 que todo justo ou toda pessoa em estado de graça que tem o uso da razão e do livre arbítrio, e que está ainda em estado de viator, pode merecer o aumento da caridade e a vida eterna por um mérito real, comumente chamado mérito de condigno, porque é digno de sua recompensa. Não significa que o mérito do justo esteja em pé de igualdade com a recompensa, como no Cristo, mas que ele lhe é proporcional, enquanto procedendo da graça habitual, germe da vida eterna prometida por Deus àqueles que observam os Seus mandamentos. Esse mérito de condigno tem, todavia, um direito à recompensa em justiça distributiva, ainda que não seja, segundo todo o rigor da justiça, como o de Cristo. Por isso a vida eterna é chamada de coroa de justiça 2, uma retribuição que se deve fazer à obra realizada 3, a recompensa de um trabalho que a justiça divina não pode esquecer 4.

Mas o justo não pode merecer por um mérito de condigno baseado na justiça, a graça para um outro homem, a conversão de um pecador ou o aumento da caridade em outra pessoa; a razão é que não foi constituído cabeça da humanidade para regenerá-la e conduzi-la à salvação; isso pertence apenas a Cristo 5. Em outros termos, o mérito de condigno dos justos, e mesmo o mérito da Virgem Maria, contrariamente ao de Cristo, é incomunicável.

Não obstante, todo justo pode merecer a graça para os outros por um mérito de conveniência, de congruo proprie, que está fundado não na justiça, mas na caridade ou amizade que o une a Deus; os teólogos dizem que está fundado nos direitos da amizade, in jure amicabili. Santo Tomás o explica dizendo: “Pois o homem, constituído em graça, cumprindo a vontade de Deus, é congruente que Deus, por uma amizade proporcional, cumpra a vontade de um relativa à salvação de outro. Embora, às vezes, possa advir impedimento por parte daquele a quem esse justo desejava a justificação”, de tal modo que não se converterá de fato6. Em outros termos: se o justo cumpre a vontade de Deus, seu amigo, convém, segundo os direitos de amizade, que Deus, seu amigo, cumpra o desejo de seu bom servidor. Assim, uma boa mãe cristã pode, por suas boas obras, por seu amor a Deus e ao próximo, merecer de congruo proprie, com um mérito de conveniência, a conversão de seu filho; assim Santa Mônica obteve a conversão de Santo Agostinho, não somente por suas orações dirigidas à infinita Misericórdia, mas por esse gênero de mérito: “O filho de tantas lágrimas ― disse-lhe Santo Ambrósio ― não poderia perecer”.

Vemos aqui o que deve ser o mérito de Maria para nós; deve-se notar a esse respeito que esse terceiro gênero de mérito, chamado de congruo proprie, ou de conveniência, é também um mérito propriamente dito, baseado in jure amicabili, sobre os direitos da amizade divina, que pressupõe o estado de graça.

A razão é que a noção de mérito não é unívoca ou suscetível de ser tomada num só sentido, mas é análoga, ou seja, tem sentidos diversos, mas proporcionalmente semelhantes, que são ainda sentidos próprios e não somente metafóricos ou em sentido lato, da mesma maneira que a sabedoria dos santos, sem ser a de Deus, é também e em sentido próprio, uma verdadeira sabedoria; igualmente a sensação, sem ser um conhecimento intelectual, é, em sentido próprio, um verdadeiro conhecimento em sua ordem.

Assim, abaixo dos méritos infinitos de Cristo, que apenas em estrita justiça pôde nos merecer a salvação, abaixo do mérito de condigno do justo para si mesmo, que lhe dá o direito em justiça a um aumento da caridade e (se morre em estado de graça) para a vida eterna, existe o mérito de conveniência de congruo proprie, baseado nos direitos da amizade, que é ainda um mérito propriamente dito e que pressupõe o estado de graça e a caridade 7.

Há ainda um mérito impropriamente dito, que é aquele que se encontra na oração de um homem em estado de pecado mortal, oração que tem um valor impetratório e que se dirige não à justiça de Deus, mas à sua misericórdia, e que se funda não nos direitos da amizade divina de caridade, mas na graça atual que o leva a rezar. Esse último mérito é chamado de conveniência em sentido lato somente, de congruo improprie, não sendo um mérito propriamente dito.

Tais são, pois, os três gêneros de mérito propriamente dito: o de Jesus Cristo para nós, o do justo para si mesmo e o do justo para outro homem.

 

O mérito propriamente dito de conveniência de Maria para nós

Se tal é o ensino geral dos teólogos sobre os diferentes gêneros de mérito, se Santa Monica pôde merecer, propriamente falando, com um mérito de conveniência, de congruo proprie, a conversão de Agostinho, como a Santíssima Virgem, Mãe de todos os homens, pôde merecer por nós? Apresentada assim a questão à luz dos princípios já enunciados, é mister resolvê-la.

Não é, pois, de admirar que a partir sobretudo do século XVI, os teólogos ensinem comumente de forma explícita que isso que Cristo nos mereceu de condigno, a Santíssima Virgem nos mereceu por um mérito de conveniência, de congruo proprie.

Esse ensinamento foi explicitamente formulado por Suárez, que demonstra, pelos múltiplos testemunhos da Tradição, que Maria, embora não nos tenha nada merecido de condigno, porque não foi constituída cabeça da Igreja, cooperou, no entanto, para nossa salvação pelo mérito de conveniência, ou de congruo 8. João de Cartagena 9, Novatov, Cristóvão de Veja 10, Teófilo de Raynaud 11 e Jorge de Rhodes 12 reproduzem essa mesma doutrina.

O mesmo ensinamento é comumente dado pelos teólogos posteriores, notadamente nos séculos XIX e XX, como Ventura, Scheeben, Terrien, Billot, Lepicier, Campana, Hugon, Bittremieux, Merkelbach, Friethoff e todos os que têm escrito nos últimos anos sobre a mediação universal da Santíssima Virgem.

Finalmente, o Papa Pio X, na encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904, diz: “Maria... porque supera todas as outras criaturas pela santidade e união a Cristo, e porque foi associada por Ele à obra de nossa salvação, nos mereceu por um mérito de conveniência, de congruo, como dizem, o que Ele mesmo nos mereceu por um mérito de condigno, e ela é a principal tesoureira das graças que são distribuídas” 13..

Como se observa14, há uma dupla diferença entre o mérito de conveniência de Maria e o nosso: a Santíssima Virgem pôde assim nos merecer não apenas algumas graças, mas todas e cada uma delas, e não só nos mereceu a aplicação, mas a aquisição, porque esteve unida a Cristo Redentor no ato mesmo da redenção aqui na Terra, antes de interceder por nós no Céu.

Essa conclusão, tal como foi aprovada pelo Papa Pio X, é simplesmente a aplicação à Maria da doutrina comumente admitida sobre as condições do mérito de conveniência, de congruo proprie, fundado in jure amicabili, na amizade que une o justo com Deus. Portanto, certos teólogos consideram essa conclusão como moralmente certa, outros como uma verdadeira conclusão teológica inteiramente certa, e outros até como uma verdade formal e implicitamente revelada e definível como dogma. É ao menos, pensamos, uma conclusão teológica certa. Voltaremos a esse assunto no cap. III, art. III.

 

Qual é a extensão desse mérito de conveniência de Maria para nós?

Como a Virgem tem sido associada à totalidade da obra redentora de Cristo, e como os teólogos que acabamos de citar dizem geralmente que tudo o que Cristo nos mereceu de condigno Maria nos mereceu de congruo, e como, enfim, o Papa Pio X, ao sancionar essa doutrina, não colocou nenhuma restrição, bastará recordar o que Cristo nos mereceu 15.

Jesus nos mereceu em justiça todas as graças suficientes necessárias para que todos os homens possam realmente observar os preceitos, ainda que não os observem de fato 16, todas as graças eficazes com seu efeito conseqüente, ou seja, que alcançam o cumprimento efetivo da vontade divina e, finalmente, mereceu para os eleitos todos os efeitos da sua predestinação: a vocação cristã, a justificação, a perseverança final e a glorificação ou a vida eterna 17.

Segue-se daqui que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência todas essas graças, e que no Céu pede a aplicação das mesmas e as distribui 18.

*

*   *

Tudo isso nos mostra em que sentido tão elevado, tão íntimo e tão extenso Maria é nossa Mãe espiritual, a Mãe de todos os homens, e, por conseguinte, quanto deve velar pelos que não só a invocam às vezes, mas que se consagram a ela, para serem conduzidos por ela à intimidade de Cristo, como explicou admiravelmente São Luís Grignion de Montfort 19: “Maria é necessária aos homens para chegarem ao seu fim último”. A devoção à Virgem não é, pois, superrogatória, como a que se pode ter por este ou aquele santo; ela é necessária e, quando verdadeira, fiel e perseverante, é um sinal de predestinação. Essa devoção “é ainda mais [necessária] para aqueles que são chamados a uma perfeição particular; nem creio ― diz São Luís ― que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem e uma grande dependência de seu socorro... Disse ― acrescenta ― que isso aconteceria particularmente no fim do mundo... porque o Altíssimo e Sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos... Essas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra... Isso lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus”.

Essa sublime doutrina espiritual, cujos frutos veremos pouco a pouco, aparece a partir do cume da contemplação e da união íntima com Deus como a conseqüência natural dessa verdade admitida por todos os teólogos e afirmada hoje em todas as suas obras: Maria nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Nosso Senhor nos mereceu em estrita justiça e, em particular para os eleitos, os efeitos de sua predestinação.

  1. 1. Concílio de Trento, Sess. VI, cânon 32 (Denzinger, Nº 842).
  2. 2. “Pelo mais me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”, diz São Paulo (2Tim 4, 8).
  3. 3. “Que há de retribuir a cada um segundo as suas obras; com a vida eterna, por certo, aos que, perseverando em fazer obras boas, buscam glória e honra, e imortalidade” (Rom 2, 6-7).
  4. 4. “Porque Deus não é injusto, para que se esqueça de vossa obra” (Hb 6, 10).
  5. 5. Cf. At 4, 12. “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual devamos ser salvos”. Cf. santo tomás, Iª IIae, q. 114, a. 6
  6. 6. Iª IIae, q. 114, a. 6.
  7. 7. Certa vez a expressão latina meritum de condigno foi traduzida por "mérito propriamente dito”, e isso é inexato, pois implicaria que o mérito chamado de congruo proprie não é um mérito propriamente dito. Também o é, ainda que seja mais imperfeito que o precedente, como este é menos perfeito que o de Cristo
  8. 8. In Iam P. S. Thomae, t. II, disp. XXIII, sect. I, nº 4: “Quamvis B. Virgo nec nos redemerit, nec aliquid de condigno nobis meruerit, tamen impetrando, merendo de congruo, et ad incarnationem Christi suo modo cooperando, ad salutem nostram aliquo modo cooperata est... Et eisdem modis saepissime sancti Patres B. Virgini attribuunt, quod nostrae fuerit salutis causa”. Suárez cita nessa passagem Santo Irineu, Santo Agostinho, São Fulgêncio, Santo Anselmo, São Bernardo, São Germano, Santo Efrém, São Pedro Damiano, Ricardo de São Vitor e Inocêncio III.
  9. 9. Opera, t. II, pp. 30 ss.
  10. 10. Theologia Mariana, Napóles, 1866, t. II, pp. 441 ss.
  11. 11. Opera, t. VI, pp, 224 ss. Teófilo Raynaud insiste, não obstante, neste ponto: que a redenção realizada por Jesus Cristo, sendo de um valor infinito e superabundante, não tem necessidade de um complemento oferecido por Maria.
  12. 12. Disp. theol. schol, tr. VIII, De Deipara virgine Maria, t. II, p. 265, Lyon, 1661. Jorge de Rhodes diz que Maria nos mereceu de congruo tudo o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno.
  13. 13. O texto latino diz: “Maria... quoniam universis sanctitate praestat conjunctioneque cum Christo, atque a Christo adscita in humanae salutis opus, de congruo, ut aiunt, promeret nobis quae Christus de condigno promeruit estque princeps largiendarum gratiarum ministra”. (denzinger, nº 3034). Cf. sobre esse texto, merkelbach, Mariologia, p. 328.
  14. 14. Cf. merkelbach, op. cit., p. 329
  15. 15. No Antigo Testamento, as graças foram distribuídas como em crédito, em virtude dos méritos futuros do Redentor, aos quais sempre estão unidos, no plano divino, os méritos de sua santa Mãe. O mérito de conveniência de Maria estendeu-se, pois, também por antecipação, aos justos do Antigo Testamento.
  16. 16. Convém recordar aqui que se o homem resiste por culpa própria à graça suficiente, merece ser privado da graça eficaz, que lhe é oferecida na graça suficiente, como o fruto na flor. A resistência ou pecado é como o granizo que cai numa árvore no período da floração e que prometia abundantes frutos.
  17. 17. Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 24, a. 4: “Se, porém, considerarmos a [nossa] predestinação, quanto ao seu termo, então a predestinação de Cristo é a causa da nossa; porque Deus preordenou a nossa salvação, predestinando desde sempre, que seria ela operada por Cristo. Ver sobre esse artigo alguns comentadores como, por exemplo, Gonet e Billuart, que demonstram claramente, pelo que se diz ali e em outros lugares, que Jesus Cristo, sob inspiração divina, nos mereceu todos os efeitos da nossa predestinação, e que também rezou especial e eficazmente pelos eleitos.

    Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 19, a. 4: “O mérito de Cristo se estende aos demais, como membros seus; assim como num homem a ação da cabeça de certo modo pertencente a todos os membros, pois, não sente só para si, mas por todos eles”.

    Não podemos merecer por nós mesmos a graça da perseverança final, e nossa predestinação — segundo Santo Agostinho e Santo Tomás — não depende da previsão divina de nossos méritos, porque esses, sendo o efeito da predestinação, não podem ser a sua causa. Cf. santo tomás, Iª,q. 23, a. 5, Iª IIae, q. 114, a. 9.

    Mas se não podemos merecer, propriamente falando, nossa perseverança final (que só pode ser obtida através da oração, cujo valor é diferente do mérito), Nosso Senhor mereceu-a em justiça para aqueles que perseverarem e a Santíssima Virgem mereceu-a também com mérito de conveniência. Os tomistas costumam dizer: “Praedestinatio nostra non est ex praevisis nostris meritis, sed effectus ejus sunt ex praevisis meritis Christi”. Em outras palavras, Cristo é a causa meritória da nossa salvação e Maria está sempre associada a Ele.

  18. 18. Cristo, segundo o que acabamos de dizer, mereceu Ele mesmo, para Maria, todos os efeitos de sua predestinação, exceto a Maternidade Divina, pois de outro modo teria merecido a Encarnação, quer dizer: teria merecido a si mesmo (cf. Santo tomás, IIIª, q. 19, a. 3); nesse lugar, demonstra-se que “Jesus Cristo não poderia merecer nem a graça, nem a beatitude da alma, nem sua divindade (nem sua personalidade divina), pois o mérito influi sobre aquilo que não se tem ainda, e teria sido necessário que Cristo, no primeiro instante de sua concepção, não tivesse tido esses dons divinos, e isso diminuiria sua dignidade muito mais do que o mérito poderia aumentar. Mas Ele mereceu a glória de seu corpo ou sua Ressurreição, sua Ascensão e a exaltação do seu nome”. Os comentadores de Santo Tomás, em relação à IIIa, q. 2, a. 11, “Se à união da Encarnação precederam alguns méritos”, provam que Cristo, que não pôde merecer-se a si mesmo, não pôde merecer nem a Encarnação nem as circunstâncias que pertencem, por assim dizê-lo, à substância e à individuação da Encarnação; por exemplo, não mereceu ser concebido pelo Espírito Santo, nem nascer da Virgem Maria, e, portanto, tampouco mereceu a Maternidade Divina da Santíssima Virgem (cf. salmanticenses, ibid.); mas mereceu as circunstâncias que não pertencem à substância da Encarnação: as previsões dos profetas, a Anunciação pelo anjo etc., ou as que derivaram dela, como a adoração dos magos, os cuidados proporcionados por Maria e José quando Ele era criança. Mereceu certamente a plenitude inicial da graça para Maria, a preservação do pecado original, todas as graças atuais pelas quais cresceu a graça inicial e, finalmente, a perseverança final e a glória.
  19. 19. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cap. I, a. 2, pp. 42, 45-46, 48-49. Ed. Vozes – 40ª edição.

Artigo 1: A mediação universal de Maria em geral

A Igreja aprovou, sob o pontificado de Bento XV, a 21 de janeiro de 1921, o Ofício e a Missa próprios de Maria Medianeira de Todas as Graças 1, e muitos teólogos consideram essa doutrina como suficientemente contida no depósito da Revelação para ser, um dia, solenemente proposta como objeto de fé pela Igreja infalível; ela é ensinada, de fato, pelo magistério ordinário que se manifesta pela liturgia, encíclicas e cartas pastorais dos bispos, pela pregação universal e pelas obras dos teólogos aprovados pela Igreja.

Veremos o que se deve entender por essa mediação e como ela é confirmada pela Tradição e fundamentada pela razão teológica.

 

O que se deve entender por essa mediação?

Santo Tomás nos diz ao falar da mediação do Salvador 2: “É ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs”. Quer dizer, como explica mais adiante3, o mediador deve oferecer a Deus as orações dos homens e sobretudo o sacrifício, o ato principal da virtude da religião; e deve também distribuir aos homens os dons de Deus que santificam: a luz divina e a graça.

Há, portanto, uma dupla mediação: uma ascendente, em forma de oração e de sacrifício; outra descendente, pela distribuição dos dons divinos aos homens.

Esse ofício de mediador convém com absoluta perfeição somente a Jesus Cristo, o Homem-Deus, o único que pôde nos reconciliar com Deus, oferecendo-lhe, por toda a humanidade, um sacrifício de valor infinito, o da cruz, que é perpetuado substancialmente no sacrifício da Missa; somente Ele, também, como Cabeça da humanidade, pode nos merecer, com justiça, as graças necessárias para a salvação, e as distribui a todos os homens que não se afastam de sua ação santificadora. É, portanto, mediador como homem, enquanto a sua humanidade está pessoalmente unida ao Verbo e recebeu a plenitude da graça, a graça capital, que deve derramar-se sobre nós. Diz também São Paulo: “Porque há um só Deus, e há um só Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo para redenção de todos, (tal é o) testemunho (dado por Deus) no tempo devido 4.

“Mas nada impede diz Santo Tomás5 certos outros serem, de algum modo, considerados mediadores entre Deus e os homens; isto é, se cooperam para a união dos homens com Deus, por via de preparação ou de ministério, quer dizer, que disponham os homens a receber a influência do mediador principal ou que a transmitam, mas sempre em dependência dos méritos de Cristo.

Assim, no Antigo Testamento, os profetas e os sacerdotes da ordem levítica eram os mediadores para o povo eleito, anunciando o Salvador e oferecendo sacrifícios que eram figura do grande sacrifício da Cruz. Os sacerdotes do Novo Testamento podem também ser chamados de mediadores entre Deus e os homens, tanto que são ministros do Mediador supremo, pois oferecem o santo Sacrifício e administram os sacramentos em nome de Jesus Cristo.

Pergunta-se então se Maria, de forma subordinada e em dependência dos méritos de Cristo, é Medianeira universal para todos os homens desde a vinda de Nosso Senhor e para a obtenção e distribuição de todas as graças em geral, e até mesmo em particular. Não o é precisamente na qualidade de ministro, mas como associada à obra redentora de seu Filho, segundo a expressão de Santo Alberto Magno “non in ministerium, sed in consortium et in adjutorium 6.

Os protestantes negam essa mediação. Pelo contrário, à questão assim apresentada, o senso cristão dos fiéis educados desde muitos séculos pela liturgia católica, que é expressão do Magistério ordinário da Igreja, está inclinado a responder de imediato: Maria, em sua qualidade de Mãe de Deus, Redentor de todos os homens, está totalmente designada para ser a Medianeira universal, pois é verdadeiramente intermediária entre Deus e os homens, mais particularmente entre seu Filho e nós.

Com efeito, por ser uma criatura, ela permanece sempre inferior a Deus e a Cristo, mas está elevada muito acima de todos os homens pela graça da Maternidade Divina, que é de ordem hipostática por seu fim, pela plenitude de graça, recebida no instante da sua concepção imaculada e que não cessou de crescer depois e, finalmente, pelo privilégio da preservação de toda falta.

Vê-se então o que se deve entender por essa mediação que a liturgia e o senso cristão dos fiéis atribuem à Maria. Trata-se, propriamente falando, de uma mediação subordinada, e não coordenada, à mediação do Salvador, de modo que ela depende inteiramente dos méritos de Cristo, o Redentor universal; trata-se também de uma mediação não necessária (pois a de Jesus é já superabundante e não precisa de complemento), mas preparada e querida pela Providência como uma irradiação da do Salvador, e de todas as irradiações a mais excelente. A Igreja considera-a como muitíssimo útil e eficaz para obter-nos de Deus tudo o que pode conduzir-nos direta ou indiretamente à perfeição e à salvação. Trata-se, por fim, de uma mediação perpétua, que se estende a todos os homens e a todas as graças, sem exceção alguma, como se verá em seguida.

É nesse sentido preciso que a Mediação universal é atribuída à Santíssima Virgem pela liturgia na Festa de Maria Medianeira e pelos teólogos que têm recentemente publicado numerosos trabalhos sobre esse ponto.

 

O testemunho da Tradição

Essa doutrina é afirmada de uma maneira geral e implícita desde os primeiros séculos. Tanto que Maria tem sido chamada desde o século II de a nova Eva, a Mãe dos viventes, como dissemos anteriormente, e ainda mais porque esse título sempre foi reconhecido, não só porque ela fisicamente concebeu e deu à luz ao Salvador, mas também porque cooperou moralmente com a sua obra redentora, sobretudo ao unir-se intimissimamente ao sacrifício da Cruz 7.

A partir do século IV e sobretudo do século V, os Padres afirmam claramente que Maria intercede por nós e que todos os benefícios e auxílios convenientes para a salvação nos vêm por ela, por sua intervenção e proteção especial. Desde a mesma época, ela é chamada de medianeira entre Deus e os homens, ou entre Cristo e nós.

Estudos recentes lançam uma grande luz sobre esse ponto 8.

A antítese entre Eva, causa da morte, e Maria, causa da salvação para toda a humanidade, é reproduzida por São Cirilo de Jerusalém 9, Santo Epifânio 10, São Jerônimo 11, e São João Crisóstomo 12. Convém citar esta oração de Santo Efrém: “Ave Dei et hominum Mediatrix optima. Ave totius orbis conciliatrix efficacissima, e post mediatorem mediatrix totius mundi. Ave, Medianeira admirável de Deus e dos homens. Ave, conciliadora eficacíssima da Terra, e Medianeira depois do Medianeiro supremo 13

Em Santo Agostinho, Maria é chamada Mãe de todos os membros de nossa Cabeça, Jesus, e diz que ela “cooperou por sua caridade para o nascimento espiritual dos fiéis, que são os membros de Cristo” 14. São Pedro Crisólogo diz que “Maria é a mãe dos que vivem pela graça, enquanto que Eva é a mãe dos mortais por natureza” 15 e vê-se que, para ele, Maria foi associada ao plano divino de nossa redenção.

No século VIII, São Beda falou no mesmo sentido 16; Santo André de Creta chamou Maria de Medianeira da graça, dispensadora e causa da vida 17, São Germano de Constantinopla disse que ninguém foi resgatado sem a cooperação da Mãe de Deus 18. São João Damasceno deu também a Maria o título de Medianeira e afirmou que lhe devemos todos os bens que nos são concedidos por Jesus Cristo 19.

No século XI, São Pedro Damião ensinou que na obra da nossa redenção nada é realizado sem Maria 20.

No século XII, Santo Anselmo 21, Eadmero 22 e São Bernardo expressaram-se da mesma maneira. Este chamou Maria de gratiae inventrix, mediatrix salutis, restauratrix saeculorum 23.

A partir da metade do século XII e sobretudo do século XIV, é freqüente a afirmação muito explícita da cooperação de Maria em nossa redenção, consumada por seu próprio sacrifício oferecido no momento da Anunciação e realizado no Calvário. Encontra-se esse testemunho em Santo Alberto Magno24, Arnaldo de Chartres, Ricardo de São Lourenço e Ricardo de São Vítor. Santo Tomás 25 indicou essa cooperação e a afirmam, de modo cada vez mais claro, São Bernardino de Sena, Santo Antonino 26, Suárez 27, Bossuet 28, e Santo Afonso. No século XVIII, São Luís Grignion de Montfort foi um dos que mais propagaram essa doutrina, mostrando todas as conseqüências práticas da mesma 29. Desde então é um ensinamento comum dos teólogos católicos.

O Papa Pio X disse na encíclica Ad diem illum, de 02 de fevereiro de 1904, que Maria é a poderosíssima Medianeira e reconciliadora de toda a Terra perante seu Filho Unigênito: “Totius orbis terrarum potentissima apud Unigenitum Filium suum mediatrix et conciliatrix. O título está doravante consagrado pela Festa de Maria Medianeira, instituída em 21 de janeiro de 1921.

 

Razões teológicas dessa doutrina

As razões muitas vezes invocadas pelos Padres e mais explicitamente pelos teólogos são as seguintes:

Maria merece o nome de Medianeira universal subordinada ao Salvador se é a intermediária entre Deus e os homens, apresentando suas súplicas e obtendo-lhes os benefícios de seu Filho.

Ora, tal é precisamente, em relação a nós, o papel da Mãe de Deus, que, permanecendo uma criatura, alcançou por sua divina maternidade as fronteiras da Divindade e recebeu a plenitude de graça que deve derramar sobre nós. Ela de fato cooperou para a nossa salvação ao consentir livremente em ser a Mãe do Salvador e em unir-se o mais intimamente possível ao sacrifício de seu Filho. Veremos mais tarde que ela mereceu e satisfez com Ele por nós. 

Finalmente, segundo a doutrina da Igreja, ela continua intercedendo para obter-nos todas as graças necessárias à salvação; com isso exerce sua maternidade espiritual, da qual falamos antes.

Cristo permanece, dessa forma, o mediador principal e perfeito, pois é somente em dependência de seus méritos que a Virgem Maria exerce sua mediação subordinada, que não é absolutamente necessária, uma vez que os méritos do Salvador são superabundantes30, mas que foi desejada pela Providência por causa da nossa debilidade e para comunicar a Maria a dignidade da causalidade na ordem da santificação e da salvação.

Assim, a obra redentora é totalmente de Deus como causa primeira da graça; é totalmente de Cristo como mediador principal e perfeito, e é totalmente de Maria, como medianeira subordinada. São três causas, não parciais e coordenadas, como três homens puxando um barco, mas totais e subordinadas, de modo que a segunda não age senão pelo influxo da primeira e a terceira pelo influxo das outras duas. Assim, o fruto de uma árvore é, por distintos motivos, inteiramente de Deus, autor da natureza, e inteiramente da árvore e do ramo que o sustenta. Não há parte do fruto que seja parte da árvore e parte do ramo, e também no caso de que falamos 31.

Acrescentemos que era conveniente que Maria por ter sido resgatada pelo Salvador por uma redenção soberana e preservadora de toda falta original e atual cooperasse dessa forma em nossa salvação, quer dizer, em nosso resgate das cadeias do pecado, em nossa justificação e em nossa perseverança até o fim.

Sua mediação supera assim em muito a mediação dos santos, pois somente ela nos deu o Salvador, somente ela esteve intimamente unida com um coração de Mãe ao sacrifício da Cruz, somente ela é a medianeira universal para todos os homens e, como veremos adiante, para todas as graças, não só em geral, mas em particular, até na mais particular de todas, que é para cada um de nós a graça do momento presente, que assegura nossa fidelidade de minuto a minuto.

Compreendemos melhor essa universalidade depois de ter demonstrado que Maria nos mereceu por um mérito de conveniência tudo o que Jesus Cristo nos mereceu por estrita justiça, que satisfez com Ele por nós com uma satisfação de conveniência, e que depois, pela aplicação dos frutos da redenção, continua intercedendo em favor de cada um de nós, mais especialmente por aqueles que a invocam, e que todas as graças particulares dadas a cada um de nós, de fato, somente o são por sua intervenção mediadora.

  1. 1. Ver o decreto de 21 de janeiro de 1921, da Sagrada Congregação dos Ritos: De festo Beatae Virginis Mediatricis omnium gratiarum.
  2. 2. IIIª, q. 26, a. 1.
  3. 3. IIIª, q. 26, a. 2.
  4. 4. 1Tm 2, 5-6.
  5. 5. Loc. cit., a. 1.
  6. 6. Mariale, q. 42.
  7. 7. Cf. são justino, Dialogo, 100; P. G., t. VI, col. 711. - santo irineu, Adv. Haer., III, XXII, 4; V, XIX, 1; P. G., t. VII, col. 958 ss., 1175. - tertuliano, De carne Christi, 17; P. L., t. II, col. 782
  8. 8. Cf. bittremieux, De mediatione universali B. M. Virginis, 1926, Marialia, 1936. - e. dublanchy, art. Marie, no Dict. de Théol. Cath., col. 2389-2409, e do mesmo autor, Marie médiatrice, na Vie Spirituelle, 1921-1922 -. bover, s. j., A Mediação Universal da Segunda Eva na Tradição Patrística, Madri, 1923-4. - friethoff, o. p., Maria alma socia Christi mediatoris, 1936. – b. h. merkelbach, Mariologia, 1939, p. 309-323 -. génevois, o. p., La Maternité spirituelle de Marie en Saint Irénée, na Revue Thomiste, 1935 -. galtier, s. j., La Vierge qui nous regenere, em Rech. de sc. rel., 1914.
  9. 9. Cat., XII, 5, 15; P. G., t. XXXIII, col. 741.
  10. 10. Haer., LXXVIII, 18; P. G., t. XXII, col. 728.
  11. 11. Epist., t. XXII, 21; P. L., XXII, col. 408.
  12. 12. Homil. in sanctum Pascha, 2; P. G., t. IV, col. 193, e em Gen., III, hom. XVII, I; P. G., LIII, col. 143.
  13. 13. Opera Omnia, edic. Assemani, Roma 1740, t. III, grecolatina, col. 528 ss., 531 ss., 551; edic. Lamy, II, p. 547, e t. I, proleg., p. XLIX.
  14. 14. De sancta Virginitate, VI, 6; P. L., XL, col. 399.
  15. 15. Serm. 140 e 142; P. L., LII, col. 576, 579.
  16. 16. Homil. I in fest. Annunc. et homil. I in fest. Visit., P. L., XCIV, col. 9, 16.
  17. 17. In Nat. B. M., hom. IV, et in Dorm.. S. M., III; P. G., t. XCVII, col. 813, 1108.
  18. 18. In Dorm. B. M., P. G., XCVIII, col. 349.
  19. 19. In Dorm. B. M., hom. I, 3, 8, 12; II, 16; P. G., t. XCVI, col. 705, 713, 717, 744.
  20. 20. Serm. 45; P. L., CXLIV, c. 741, 743.
  21. 21. Orat. 47, 52; P. L., CLVIII, col. 945, 955, 964.
  22. 22. De excellentia B. M., IX, XI; P. L., t. CLIX, col. 573, 578.
  23. 23. Ep. 174, 2; P. L., CLXXXII, col. 333; Super Missus est. hom. IV, 8; P. L., CLXXXIII, col. 83.
  24. 24. Mariale, q. 42. Ele chama Maria de coadjutrix et socia Christi.
  25. 25. Santo Tomás diz que Maria, no dia da Anunciação, deu seu consentimento em nome de toda a humanidade, loco totius humanae naturae. Cf. também sua Expos. Salut. Ang.
  26. 26. Chama Maria de adjutrix nostrae redemptionis et Mater nostrae spiritualis regenerationis. Summ. theol., part. IV, tít. V, cap. XIV, 2.
  27. 27. In IIIam S. Thomae, t. II, disp. XXIII, sect. I, n. 4. Demonstra pela Tradição que Maria mereceu de congruo nossa salvação, a qual Jesus Cristo nos mereceu de condigno. O mesmo ensinamento encontra-se em João de Cartagena, Novato, Cristovão de Vega, Teófilo Raynaud, Jorge de Rhodes etc.
  28. 28. IV sermão sobre a festa da Anunciação; cf. também no índice das obras de Bossuet, na palavra Marie.
  29. 29. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. I e II.
  30. 30. Não há necessidade de um complemento oferecido por Maria; por isso é comparada ao pescoço que une os membros do Corpo Místico com a Cabeça, e é também chamada de aqueduto das graças.
  31. 31. Não afirmamos aqui nada mais que uma causalidade moral, exercida ― veremos mais tarde ― pelo mérito, pela satisfação e pela intercessão; não obstante, é provável também (explicaremos posteriormente) que exerça na ordem espiritual, como a humanidade de Jesus, uma causalidade física instrumental para a transmissão e produção das graças que recebemos por meio dela; isso é apenas uma mera probabilidade, mas acreditamos que não podemos negá-la sem correr o risco de diminuir a influência de Maria, que é seguramente mais real e íntima do que comumente imaginamos. Cf. infra, cap. III, art. II.

A mediação universal de Maria durante a sua vida terrena

Veremos primeiro em que consiste essa mediação em geral, quais são suas principais características e, depois, como foi exercida durante a vida terrena de Maria sob dois aspectos: pelo mérito e pela satisfação.

A mãe do Redentor e de todos os homens

Esses dois títulos são evidentemente intimamente conexos, e o segundo deriva do primeiro. Será, pois, muito importante considerar um após o outro.

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