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Category: LiberalismoConteúdo sindicalizado

Da caridade nas chamadas “formas de polêmica”

 

Louis Veuillot

Pe. Félix Sardá y Salvani

(...) Ele [o liberalismo] prefere acusar incessantemente os católicos de serem pouco caridosos em suas formas de propaganda. É neste ponto, como dissemos, que certos católicos, bons no fundo, mas contaminados da maldita peste liberal, costumam insistir contra nós.

Vejamos o que dizer sobre isso. Nós, católicos, temos razão neste ponto como nos demais, ao passo que os liberais não têm nem sombra dela. Para nos convencermos disso analisemos as seguintes considerações:

1°) O católico pode tratar abertamente o seu adversário de liberal, se ele o é de fato; ninguém porá em dúvida esta proposição. Se um autor, jornalista ou deputado começa a jactar-se de liberalismo e não trata de ocultar suas preferências liberais, que injúria se faz em chamá-lo de liberal? É um princípio do Direito: Si palam res est, repetitio injuriam non est: "Não é injúria repetir o que está à vista de todos". Muito menos em dizer do próximo o que ele diz de si mesmo a toda hora. Entretanto, quantos liberais, particularmente os do grupo dos mansos ou temperados, consideram grande injúria que um adversário católico os chame de liberais ou de amigos do liberalismo?

O liberalismo de todo matiz e caráter foi já formalmente condenado pela Igreja?

 

Pe. Félix Sardá y Salvany

 

Sim, o liberalismo, em todos os seus graus e em todas as suas formas, foi formalmente condenado; de modo que, além das razões de malícia intrínseca que o fazem mau e criminoso, todo fiel católico tem acesso à suprema e definitiva declaração da Igreja a respeito do liberalismo: ela o julgou e anatematizou. Não se podia permitir que um erro de tal transcendência deixasse de ser incluído no catálogo das doutrinas oficialmente reprovadas, e aliás foi ele incluído em várias ocasiões.

Já quando apareceu na França, durante sua primeira Revolução, a famosa Declaração dos Direitos do Homem, que continha em germe todos os desatinos do moderno liberalismo, foi condenada por Pio VI.

Mais tarde, essa doutrina funesta foi desenvolvida e aceita por quase todos os governos da Europa, até pelos príncipes soberanos, o que é uma das mais terríveis cegueiras que ofereceu a história das monarquias. Tomou em Espanha o nome pelo qual hoje é conhecida em toda parte: liberalismo.

Breve história do liberalismo católico

Nesta conferência, vamos falar de um tipo de liberalismo que se tornou de fato um inimigo real: o liberalismo católico. Podemos dizer que o liberalismo em geral, como uma posição na ordem metafísica, baseia-se principalmente no nominalismo - a idéia de que a única realidade vem do indivíduo; isso cria para seus adeptos um obstáculo fundamental para a compreensão de uma realidade diferente, por exemplo, a dos grupos da sociedade. Mas a maioria dos liberais não chega a alcançar um entendimento desenvolvido sobre esse assunto, porque eles estão presos ao que podemos chamar de questão principal, que é o problema do conhecimento.

O liberalismo em geral sempre se apresenta como cético quando se trata do problema de verdade; o proto-liberal é Pilatos, que no julgamento de Nosso Senhor lhe perguntou: "O que é verdade?" e depois se afastou sem ouvir a resposta. O liberal não acredita que o homem seja capaz de saber o que as coisas são realmente. 

Outro desafio vem dos relativistas, que acreditam que não há realidade; que a realidade muda,  e por si mesma está em constante mutação. Portanto, aquele que crê compreender ou pensa ter uma concepção verdadeira da essência da realidade apenas termina por deformá-la.

Uma terceira variante do liberalismo é o subjetivismo. O subjetivista acredita que a realidade varia segundo a percepção do sujeito, e não é determinada pelo objeto em si mesmo. Daí o ditado: "Cada cabeça uma sentença" ou "Tudo depende do ponto de vista”.

A partir dessa negação da realidade e da idéia de que o homem possa conhecer o que as coisas são, a antropologia liberal torna-se fundamentalmente individualista. O indivíduo é a única realidade. Desse modo, quando surge a questão ética, se não há normas objetivas para orientar a conduta humana, a decisão do indivíduo é a única regra que deve ser levada em conta. Em princípio, essa falsa idéia até pode ser sustentada na teoria, mas enfrenta problemas incontornáveis quando se pretende construir uma sociedade a partir dela.

Se todo homem vivesse como Robinson Crusoé em uma ilha deserta, ele poderia até certo ponto fazer o que quisesse. Mas quando há muitos indivíduos livres, autônomos e soberanos que precisam viver juntos, o problema começa a ficar mais complicado. Por esse motivo, em geral, doutrinas políticas baseado no liberalismo, têm de resolver esse enigma: Como homens criados livres, soberanos e autônomos, podem viver juntos? E, na verdade, eles ainda não encontraram a solução. 

Eles passaram do ideal hobbesiano, em que o homem renuncia totalmente a sua soberania em prol do Leviatã, à famosa "quadratura do círculo" do Contrato Social de Rousseau, em que - sob o mito de uma vontade geral - todo homem obedece a vontade geral, mas acaba obedecendo apenas a si mesmo, cumprindo uma liberdade obrigatória. 

Existe também o esquema de Kant, que é um pouco mais complicado, onde é preciso admitir que existem limites para a liberdade, porque, caso contrário, não poderíamos sequer exercer a liberdade que temos. 

Ora, essas teorias liberais, que vêm se espalhando pelo mundo praticamente desde o século XVII, tiveram uma influência muito grande dentro da Igreja, especialmente desde o acontecimentos cruciais da Revolução Francesa. Até aquele momento, podíamos dizer que as posições liberal e católica estavam claramente separadas. Esse acontecimento terrível, que  afetou profundamente não apenas a França, mas a Europa inteira e a América com seus ecos e repercussões, foi a primeira tentativa de criar um estado que dispensasse diretamente Deus e a religião. 

Todas as tentativas anteriores enfrentaram problemas. Poderíamos dizer que as primeiras tentativas de formar um Estado liberal vieram junto com o protestantismo. Mas essas experiências protestantes - na Inglaterra, por exemplo - consistiram simplesmente em separar a Igreja inglesa da romana, e transformá-la em religião do Estado. O rei tornou-se a autoridade suprema da igreja na Inglaterra, como é até hoje. Nos territórios alemães, sobretudo, o protestantismo também favoreceu essas religiões de Estado, não apenas por uma questão de oportunidade, mas por causa de uma necessidade que podemos dizer que provém da própria lógica do protestantismo. O protestantismo, no momento em que afirma a livre interpretação da Bíblia como um ponto, faz de todo protestante um seguidor de coração de uma religião particular. Eles não têm Magistério; não há autoridade. 

Tal estado de coisas até pode funcionar  nas questões religiosas. Mas quando é preciso construir uma sociedade protestante, tudo se torna mais difícil. 

Por isso, em todos os países protestantes, o rei teve de fundar sua própria igreja protestante, para impedir a divisão do país em inúmeras seitas. Os Estados Unidos são a exceção a isso, mas por outras razões. Isso foi o que aconteceu na Suécia, na Noruega, na Holanda, na Alemanha… 

A Revolução francesa, no entanto, trouxe o novo elemento do liberalismo.

 

Religião Civil

Alguns anos depois, Pio VII assinou sua famosa Concordata com Napoleão. Já escrevi muito sobre o assunto, e não pretendo repassar todos os detalhes, mas basicamente a primeira intenção da Revolução era seguir ao pé da letra o Contrato Social e criar uma religião civil. Há um capítulo no livro de Rousseau que aborda muito superficialmente o tema. De fato, na Argentina, na primeira tradução da obra, impressa por Mario Moreno, em Buenos Aires, pouco depois da Revolução de Maio de 1810 (o estabelecimento da primeira governo local na América do Sul) esse capítulo sobre religião civil foi omitido. Moreno disse que o suprimiu porque "naquele ponto, o autor está delirando!" (Na verdade, o trabalho inteiro de Rousseau é um delírio. Mas, tudo bem, é nesse ponto que isso é mais evidente, e Moreno o suprimiu).

Mas o que exatamente Rousseau diz nesse capítulo? Rousseau tem um problema: para que a “vontade geral” funcione, é preciso eliminar qualquer outro tipo de associação de grupo entre seus cidadãos que não seja o Estado. Por quê? Porque se isso não acontecer, quando as pessoas tiverem de votar para determinar o conteúdo da vontade geral, eles irão preferir as idéias de suas corporação, de sua família, de seu grupo - de sua Igreja. 

Rousseau viu que na França, naquela época, além do catolicismo, havia uma seita protestante de relativa importância. Sua ideia então era simples: criar uma religião civil que substituísse o cristianismo como ortodoxia pública. Foi o que se tentou na França. Primeiro, com a famosa Constituição Civil do Clero, que fracassou. Foi uma tentativa de “organizar” a Igreja: já que o catolicismo não podia ser suprimido diretamente, buscou-se uma maneira dele ser diretamente controlado pelo governo. 

Isso acabou por dividir a Igreja na França. Uma parte significativa do clero rejeitou a Constituição, recusando-se a jurar; e daí surgiu a guerra épica da Vendéia, em que grande parte da população francesa se insurgiu em defesa dos padres e bispos que se recusaram a prestar juramento de submissão à Constituição Civil do Clero, e travou uma guerra contra a Revolução que durou anos. 

Quando Napoleão Bonaparte viu quão complicado o assunto se tornara, impôs uma mudança, dizendo "Precisamos fazer um acordo diretamente com Roma" e assinou a Concordata com o papa. Esta Concordata, embora tenha trazido a vantagem da reabertura das igrejas e do retorno do culto público na França, no entanto, estabeleceu como condição que os bispos que prestaram o juramento à Constituição fossem reconhecido pela Santa Sé. 

Esta situação permaneceu depois da queda de Napoleão e a restauração da monarquia. E quando houve uma tentativa de retornar a uma ortodoxia católica mais forte, no século 19, houve uma oposição radical dos que haviam aceitado a Constituição do Clero. E aqui, pela primeira vez, o liberalismo católico vem à tona. 

Nesse momento, surgem em cena um personagem importante, um padre católico chamado Felicité de Lamennais, que em muitos de seus trabalhos e escritos sustentava o conceito por ele resumido em uma frase: Estado livre, Igreja livre. Isto é, separação entre Igreja e Estado, mas de um modo em que a Igreja tivesse absoluta liberdade para pregar, dar os Sacramentos, designar seus ministros, sem a intervenção dos poderes políticos. 

Lamennais expôs sua doutrina; e, é claro, uma época em que os papas cumpriam seu dever, ele se viu condenado pelo Papa Gregório XVI na encíclica Mirari Vos, publicada em 1834. No entanto, apesar da condenação, as idéias de Lamennais continuaram circulando pela Europa e por todo o resto do mundo. Mais tarde, no século 19, após a queda da monarquia francesa na revolução de 1848 — um momento de muitas revoluções políticas em toda a Europa — houve um novo ressurgimento desse liberalismo católico, encarnado principalmente na figura de Montalembert, outro pensador francês. 

Mais uma vez, a Cátedra de Pedro os desafiou com o documento magnífico que foi a Encíclica Quanta Cura do Papa Pio IX; e com o Syllabus, uma coleção de erros modernos condenáveis. A partir desse momento, o Syllabus dos erros se tornou a bête noire do liberalismo católico. Em muitos debates, inclusive na Argentina, na segunda metade do século XIX, uma acusação comum contra os católicos era "Eles defendem o Syllabus!" — um insulto que poucos eram capazes de suportar.

 

Legislação Católica

O século XIX prosseguiu e o novo Papa, Leão XIII, começou a executar uma política, especialmente na França, mas também na Espanha e na Argentina, de uma certa aliança com os liberais católicos. Isso passou para a história com o nome de Ralliement, uma palavra difícil de traduzir, mas que pode ser traduzida como "tratado" ou "acordo". A idéia de Leão XIII era distinguir entre a república, como estrutura política, e a republica como legislação. 

Assim, ele pediu aos católicos da França que rejeitassem a ideia da monarquia como a única solução possível e aceitassem de boa fé o governo republicano, mas continuassem lutando contra a legislação anti-católica. Isso é claramente um sofisma, uma confusão do abstrato com o concreto. De fato, na doutrina política católica, em princípio, a forma de governo é uma questão indiferente. Pode haver uma monarquia católica, bem como uma aristocracia ou república católicas — por outro lado, qualquer uma delas pode igualmente ser anti-católica. Mas isso é puramente abstrato. Concretamente, em cada nação, em qualquer ponto definido da história, existem certas possibilidades políticas definidas — e impossibilidades. Na França, naquele ponto do século XIX, a única república possível era uma república maçônica. Na Irlanda do século 19, por outro lado, a única monarquia possível era a monarquia protestante inglesa. 

Este conceito provocou a divisão entre católicos. Houve quem continuasse a defender a  monarquia católica como a única solução possível, prática e concreta; e aqueles que apoiaram a ideia da República. 

No entanto, a política de Leão XIII estava fadada ao fracasso. Depois da queda de Napoleão III, no final da Guerra Franco-Prussiana, os elementos jacobinos mais fortes - os personagens maçônicos mais revolucionários - assumiram o controle do stablishment na França e passaram a instituir uma série de leis completamente contrárias à Igreja, até que, em 1905, finalmente chegou a conhecida lei da completa separação entre Igreja e Estado.

Nesta fase, São Pio X reinava como papa e, vendo os problemas da situação com clareza, imediatamente interrompeu a política de aliança e rompeu com a facção liberal. Ele também condenou a versão final do catolicismo liberal: le Sillon, um movimento fundado por um pensador chamado Marc Sagnier. O movimento foi condenado em um documento de São Pio X: Notre Charge Apostolique, em que o papa condenava de maneira claríssima os erros do catolicismo liberal, daquela Democracia Cristã tão proeminente naquele momento.

No século 20, na década de 1920, dois eventos muito importantes ocorreram. No México, estourou a Guerra dos Cristeros -- na qual a intervenção papal de Pio XI foi deplorável, porque ele ordenou aos católicos rebelados que desistissem do combate armado, o que os levou a depor suas armas e a serem prontamente assassinados -- sem repercussões - pelo governo maçônico que não depôs suas armas. 

Na França, ocorreu outro evento importante: a condenação da Action Française e de Charles Maurras. Maurras era um pensador interessante que fora positivista e discípulo de Comte; não um católico, mas um homem de boa fé que amava seu país e a verdade. Seu estudo objetivo das condições sociais o convenceu de que o catolicismo estava certo, o que produziu um paradoxo interessante: no final do século 19, esse movimento chamado Action Française, em um centro de estudos que eles criaram, promoveu um simpósio sobre o Syllabus, ministrado por um padre cujo trabalho era ensinar o Syllabus. 

Sobre o Syllabus, Maurras dizia que “não há nada neste documento que se oponha ao bom senso”. Esse documento, inaceitável para os católicos liberais, foi aceito e defendido, e até promovido por um agnóstico! Um paradoxo da história, de fato.

A Action Française foi condenada por Pio XI, o que levou ao desaparecimento, ou ao menos à perda de influência, de um movimento político que questionava com veemência a República francesa. Esse fato foi muito importante porque, acima e além do aspecto puramente político da condenação, uma espécie de expurgo interno na Igreja desenvolvido ao mesmo tempo, afastou todos os membros da Igreja que favoreciam ou pareciam favorecer a Action Française

Isso fez com que posições de influência nas universidades, dioceses etc., fossem assumidas pelos personagens que estavam até ali, por assim dizer, nos bastidores por serem suspeitos de modernismo. Personagens como Henry de Lubac, por exemplo, na Companhia de Jesus, foram promovidos porque estavam dispostos a perseguir e atacar os membros da Action Française. Padre Calderón emprestou-me um livro de que gostei muito, de um autor contemporâneo chamado Philippe Prévost, L’Église et le Ralliement, que nos dá uma descrição detalhada de todo esse processo.

Foi nesse momento que apareceu uma pessoa muito importante em nossa história, e que acredito ser, no século XX, a figura mais importante para se compreender o catolicismo liberal: Jacques Maritain. Ele seria o homem que proclamaria o liberalismo católico no coração da Igreja e influenciaria profundamente o Concílio Vaticano II. Mas isto já é tema para outra palestra.

 

(Professor Luis Roldán, traduzido a partir de Angelus Press - tradução: Permanência)

Liberalismo mortífero

Pe. François-Marie Chautard

“O fim dos modernos é a segurança na fruição privada; e eles chamam de liberdade
as garantias concedidas pelas instituições a essa fruição”
(Benjamim Constant)

 

Fecundação artificial, “barriga de aluguel”, uniões homossexuais, eutanásia, aborto, contracepção, divórcio, a lista dos vícios validados, avalizados e encorajados pelas leis não cessa de crescer.

E se por acaso os católicos buscam — ainda que timidamente — impedir uma nova legislação imoral, lança-se ao seu rosto o repetitivo argumento: Como vocês ousam se opor a uma disposição legal que não faz mal a ninguém? Com base em quê a opinião dos católicos deveria prevalecer sobre a dos demais cidadãos, quando se trata de práticas que em nada lesam os católicos? Não é prova de intolerância querer impor aos demais uma conduta que não lhes diz respeito? 

O argumento é revelador do princípio fundamental que caracteriza os tempos modernos: a autonomia absoluta do homem como único limite da liberdade dos demais.

Desde que uma lei não fira um “direito” individual nem [incomode] uma minoria, desde que não gere transtornos à ordem pública, o homem é soberanamente livre de promulgar leis: eis o credo do “homo modernus”.

Benjamin Constant exprimia esse princípio de um modo límpido: 

“Eu defendi por quarenta anos o mesmo princípio, a saber, liberdade em tudo, em religião, filosofia, literatura, indústria e política: e por liberdade, compreendo o triunfo da individualidade, tanto sobre a autoridade que gostaria de governar pelo despotismo, como sobre as massas que reclamam o direito de sujeitar a minoria à maioria. O despotismo não tem direito algum. A maioria tem, sim, o direito de obrigar a minoria a respeitar a ordem: mas tudo o que não perturba a ordem, tudo o que é meramente interior, como a opinião; tudo o que, na manifestação da opinião, não perturba o próximo, quer provocando violências físicas, quer impedindo a manifestação contrária; tudo o que, de fato, em assuntos industriais, permite à indústria rival operar livremente, é individual e não poderia ser legitimamente submetido ao poder público.”

Essa pretensão é duplamente especiosa. Primeiro porque essa autonomia é a recusa categórica de uma autoridade transcendente que veio dar uma regra à qual o homem está obrigado a se submeter. Jacques Chirac é conhecido por ter dito esta máxima digna das lojas maçônicas: “Não pode haver leis ‘religiosas’ acima das leis da República”, isto é, das leis humanas.

Creonte não se exprimia de outro modo a Antígona: “É preciso obedecer àquele que a cidade escolheu como senhor, tanto nas coisas pequenas como nas grandes, nas justas e nas iníquas”. 

No fundo, nessa recusa obstinada de uma autoridade superior à do homem, ouve-se o eco do grito de Lúcifer: non serviam, não servirei.

Essa legislação dita liberal é, na verdade, uma legislação intrinsecamente blasfematória. A autoridade humana erige-se em juiz supremo da boa conduta humana, e recusa-se a se submeter à autoridade de seu criador. E quando os católicos repetem o grito de São Miguel, “Quem é como Deus?”, um ódio surdo vindo dos infernos se levanta contra eles.

Em segundo lugar, o individualismo congênito dos “Direitos do homem” supõe que as ações imorais, mesmo privadas, de uma parte considerável da população, não exercem nenhum impacto sobre o resto da nação e não lesam em nada os demais cidadãos.

Isso equivale a esquecer que o homem não é, nem de longe, um ser isolado de seus semelhantes. Por suas escolhas, seus julgamentos, suas afirmações, suas ações e mesmo seus hábitos de consumo e todo o resto do seu comportamento, ele imprime uma marca ao redor.

Quando uma lei iníqua é votada, a virtude é ipso facto humilhada, a tentação facilitada, o pecado banalizado, o vício encorajado. O simples fato de autorizar legalmente o pecado põe, publicamente, o vício em pé de igualdade com a virtude. Isso é começar uma falsificação da consciência pública, é abrir as portas à degradação moral de uma parcela importante do país. Pouco a pouco, esse vício que rompeu as amarras se espalha tão facilmente quanto uma epidemia. O nível moral do país se rebaixa, e já se prepara para novas quedas, ainda mais graves.

A decadência de um país segue um itinerário semelhante à decadência de um indivíduo. Uma primeira queda — sobretudo se não é corrigida, mas admitida em seu princípio — facilita uma outra, torna a queda seguinte menos chocante e até mais sedutora.

É impressionante ver um país manter-se numa indiferença tão avassaladora diante das leis iníquas votadas por um Parlamento democraticamente eleito. Como milhões de homens podem aceitar sem pestanejar que se permita que crianças não sejam concebidas, gestadas, paridas, amadas e educadas como eles mesmos o foram, e como o foram os seus pais desde a aurora dos tempos?

Mas nos impressionaremos menos se considerarmos que o vício tão difundido da luxúria, exibido por toda parte na nossa sociedade, penetrou tão completamente a alma, o coração e o espírito de nossos contemporâneos que eles já não vêem mal algum em liberar novas depravações. Mesmo privado, mesmo escondido, o vício produz, mais dia, menos dia, os seus efeitos na esfera pública. Uma alma que decai, diminui o mundo.

Segue verdadeiro, no entanto — e a esperança católica estriba-se nesse belo dogma da comunhão dos santos — que uma alma que se eleva, eleva consigo o mundo. Cabe a nós sermos uma dessas almas, discípulas do Salvador.

Os escravos da imaginação

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Uma oposição sistemática entre o mundo e a Igreja, entre a sociedade civil apóstata e a família católica: realidade mais do que conhecida, denunciada e lamentada. Todos nós sabemos disso e procuramos nos orientar de modo a não perder a fé, a não nos entregarmos aos prazeres e aos critérios desse mundo mau. Temos, sim, os Evangelhos e São Paulo que já nos alertavam e nos alertam ainda hoje, pela Revelação das Sagradas Escrituras. Temos a Igreja, com sua palavra forte, sua Tradição, seu depósito da fé, transmitindo, de papa a papa, de concílio a concílio, os conselhos e mandamentos que devemos seguir para não cair no abismo. E os padres lembram, em sermões e artigos, que devemos viver no mundo sem ser do mundo, que devemos estudar, nos armar contra a enganação do mundo, defender as crianças contra as escolas deformadoras, a televisão invasora e destruidora da moral católica.

Tudo isso nós sabemos e por isso devemos estar atentos e fortalecidos pela graça.
Mas não adiantou muito! Leia mais
 

Prefácio à Ilusão Liberal

Lançamento da Editora Permanência
 
 
"A ILUSÃO LIBERAL"
 
 
 
R$21,00

 

Dom Lourenço Fleichman OSB
 
Pode parecer temerário para uma editora católica, aqui no Brasil, publicar um livro sobre a doutrina dos Liberais, tantos são os equívocos despertados por este assunto. Não poderíamos, portanto, deixar de tecer algumas explicações preliminares ao apresentar este livro de Louis Veuillot.
 
Comecemos pelo autor. Ilustre desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, Louis Veuillot (1813 – 1883) é um dos grandes nomes da literatura católica do século XIX, na França. Polemista temido por seus adversários, coube a ele dar vida a um jornal católico da época, L´Univers, que estava em plena decadência. Seus artigos vigorosos em favor da liberdade de ensino, tema que sempre apaixonou os franceses, transformaram o jornal em referência do Catolicismo Romano. Numa França oscilando entre o espírito revolucionário liberal e a restauração da Monarquia, o combate católico era o combate pela liberdade, e isso naturalmente reuniu católicos que defendiam a liberdade da Igreja a todos aqueles que defendiam toda e qualquer liberdade. Com o passar do tempo, Veuillot se afastará dos Liberais, combatendo em favor da restauração da Monarquia. Na época do Concílio Primeiro do Vaticano, apoiará de forma vigorosa o dogma da Infalibilidade papal, sendo defendido várias vezes pelo papa Pio IX contra bispos que o criticavam. Quando Pio IX achou por bem apontar certos exageros nas expressões polêmicas do grande escritor, Veuillot aceitou humildemente a paternal admoestação e procurou melhorar o tom dos seus escritos. Leia Mais
 

O Bispo e o Imperador

[Nota da Permanência] O texto que se vai ler é o relato de Dom Macedo Costa da Conferência que ele e o Sr. Bispo do Rio de Janeiro tiveram com sua Majestade Dom Pedro II a propósito dos boatos da condecoração do livre-pensador e filólogo francês Ernest Renan (1823-1892), autor de A Vida de Jesus e obras contrárias à religião católica.

Pastoral coletiva do Episcopado brasileiro contra a Liberdade Religiosa

INTRODUÇÃO DA PERMANÊNCIA
 
"Este é um bispo, meu Deus!", exclamou Corção do martírio de S. Inácio de Antioquia. Proporções guardadas, queremos repetir a exclamação do velho mestre, estendendo-a a todo o episcopado brasileiro que, em 1890 — mal finda a revolução — ergueu-se condenando, na mais enérgica pastoral jamais escrita neste país, a infâmia que então se promovia graças a aliança liberal-maçônica: a Separação Igreja e Estado e a promulgação da Liberdade Religiosa.   
 
O redator desta pastoral foi Dom Antônio de Macedo Costa, o célebre companheiro de Dom Vital nos combates e no cárcere, e líder intelectual do clero brasileiro. Sua posição inflexivelmente anti-liberal, aliada a um talento literário e firmeza incomuns, dão ao texto que se vai ler toda a gravidade que a ele convinha:   
 
"Mas o que pedis à Igreja Católica é a tolerância ou é o suicídio? Ela não pode, sem contradizer toda a sua história, sem renegar a sua própria essência, sem anular-se, sem aniquilar-se completamente, sem trair a Jesus Cristo, admitir o princípio que todas as religiões são igualmente verdadeiras, ou que todas são falsas, ou que sendo uma só verdadeira, seja indiferente abraçar esta ou as outras; como se a verdade e o erro tivessem os mesmos direitos perante a consciência!"

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