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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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A guerra dos cristeros

M.J.C.F.

Há pouco mais de oitenta anos, o povo católico mexicano, perseguido por causa da fé, pegava em armas para a defesa de Cristo Rei. Assinava com o seu sangue o texto Quas Primas (1925) de Pio XI sobre a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Praticamente ausente dos livros de história e dos arquivos do Vaticano, essa segunda Vendéia militar é, no entanto, muito rica em ensinamentos e exemplos, como se verá a seguir.

 

1. ”Pobre méxico, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"1

 

1.1 As primícias do conflito

Evangelizado no século XVI pelos espanhóis, o México conquistou a independência em 1821. O século XIX foi marcado por uma permanente instabilidade: guerras civis, ditaduras, golpes de Estado, revoluções. Após a ditadura de Dom Porfírio Diaz, que redundou em um tempo de paz entre 1876 e 1910, chegaram ao poder os protestantes, os maçons e os marxistas vindos do norte do país. “Aos seus olhos, o protestantismo explicava o sucesso norte-americano, de molde que eles retomaram o libelo anglo-saxão contra o passado hispânico e colonial do México: o velho México era degenerado por causa dos índios e dos padres, e a salvação dependia dos homens da fronteira do norte, que trariam a civilização” 2, explica Jean Meyer. “O conflito com a Igreja era inevitável, na medida em que a nação, como a Igreja Romana, não admitia nada acima dela.” Os dirigentes envidaram esforços para esmagar toda oposição ao Estado centralizador. Em 1917 foi instituída uma Constituição revolucionária que proclamou a ditadura suprema do Estado. Todos os corpos intermediários tornaram-se ilegais, especialmente os sindicatos católicos. Os dirigentes podiam dizer como o general J.B. Vargas aos católicos: “Aceitaria de bom grado a vossa seita católica se fosse nacional, se nomeassem um papa mexicano.”

Muitos artigos antirreligiosos foram proclamados na Constituição, mas o presidente Obregon não ousou aplicar essas leis em todo o território, limitando-se às regiões menos católicas:

  • O artigo 3º impunha a secularização do ensino;
  • O artigo 5º proibia as ordens monásticas;
  • O artigo 24 proibia o exercício do culto fora das igrejas;
  • O artigo 27 restringia o direito das organizações religiosas à propriedade;
  • O artigo 130 atentava contra os direitos cívicos dos membros do clero: os padres perderam o direito de usar o hábito religioso, perderam o direito ao voto, e foram proibidos de comentar quaisquer assuntos públicos nos órgãos da imprensa.

 

1.2. O governo callista

Em 1924 Plutarco Elías Calles chegou ao poder. O general Roberto Cruz dizia a seu respeito: “No governo não havia, já não digo alguém que lhe recusasse obediência ou o enfrentasse, mas simplesmente alguém que resistisse a qualquer uma das suas decisões. Ele era absoluto e resolvia tudo de modo definitivo. Se ditador for aquele que não concebe nada para além da sua vontade, então Calles foi a personificação da ditadura.” 3 “Para alcançar seus objetivos, que eram “ordem e progresso”, estava disposto a tudo e decidido a ser ‘mestre absoluto’. Ele obteve para isso o apoio americano, mostrando-se capaz de pagar o serviço da dívida exterior: os banqueiros americanos, as companhias petrolíferas e os proprietários de bens de capital no México tornaram-se favoráveis a ele.

Para ele, a Igreja era a única causa de todos os males do México e, por isso, devia ser destruída: “Calles é o porta-voz de espanhóis e ibero-americanos que julgam o catolicismo incompatível com o Estado; ele, espírita, frequentador de curandeiros (…) votava à Igreja um ódio mortal." 4

A Constituição foi então aplicada à letra em todo o território. O governo procedeu a um inventário dos bens da Igreja, mandou fechar escolas católicas, expulsou as congregações e proibiu os sindicatos católicos. Ordenou o confisco ou a profanação de numerosas igrejas, que se tornaram estrebarias ou salões de festas, quando não foram destruídas5.

Calles fundou uma igreja nacional mexicana separada de Roma, importou missionários protestantes dos Estados Unidos e financiou a abertura de 200 colégios protestantes. Outras leis anti-católicas foram votadas. Em 1926, a seguinte proclamação foi pregada nas portas de todas as igrejas:

Art. 1o: Todo indivíduo responsável por uma igreja será condenado a uma multa de 50 pesos e a um ano de prisão se os sinos repicarem.

Art. 2o: A todo indivíduo que ensinar seus filhos a rezar será aplicada a mesma pena.

Art. 3o: O mesmo em toda casa onde se encontrar santos.

Art. 4o: O mesmo para toda pessoa que usar insígnias [religiosas]. 

… e assim por diante até o 30o artigo6.

O nome de Deus foi banido do vocabulário: quem tivesse a infelicidade de dizer “adiós” (adeus) ou “si Dios quiere” (se Deus quiser) era punido com multa de 10 pesos (uma fortuna para os camponeses). O povo mexicano, no entanto, mantinha-se fiel à sua fé.

 

1.3. O terror

Calles decidiu então impor as leis antirreligiosas pelo terror. No dia 26 de julho, dois policiais a paisana abateram friamente um comerciante por ter ele afixado na sua lojinha um cartaz com os dizeres: “Viva el Christo Rey!”. Um soldado foi fuzilado de imediato por ter sido surpreendido com uma medalha de Nossa Senhora de Guadalupe.

Os fuzilamentos, as mutilações serviam de exemplo. Após terem sido torturados por toda a noite por soldados, três rapazes foram fuzilados contra o muro da catedral de Colima, à vista de todos. Os prisioneiros eram pendurados em galhos de árvores, nos postes de telégrafo ou ao longo das estradas de ferro. As vítimas assassinadas e as cenas de tortura eram fotografadas ou filmadas para que muitos as vissem.

“Os sacrilégios eram acompanhados de um horror consciente e partilhado entre executantes e espectadores. A temática era comum: igrejas profanadas por oficiais que nelas entravam a cavalo e alimentavam suas montarias com hóstias, transformavam os altares em mesas, os prédios em estrebarias. As estátuas eram fuziladas quando não arrancavam as Virgens para dançarem com elas. Usavam os ornamentos como fantasia e comiam-se as hóstias consagradas e bebia-se café com leite no cálice.” 7

Finalmente, puseram os padres sob o controle do poder civil: eles foram “registrados”. “Os ministros do culto (…) foram postos sob controle judiciário e perderam todos os direitos. Qualquer governador tinha autorização de fixar por decreto o número [de padres] no seu terreno de caça; e de impor o chicote, o exílio ou o presídio aos recalcitrantes.” 8 Certos governadores quiseram obrigar os sacerdotes a se casarem para poderem continuar a oficiar. Foram limitados ao número de um padre para cada 30.000 habitantes no estado de Tabasco, e 140 para um milhão de batizados no estado do México, enquanto lhes esperavam o cárcere, a tortura e a execução.

 

2.  A resistência

2.1. Dos leigos

A resistência dos católicos não se fez esperar. Penitências, peregrinações e orações públicas foram a resposta dos fiéis a todas essas atrocidades. Organizaram-se Imensas procissões, viu-se 15.000 batizados desfilarem, com os pés nus e coroas de espinhos. Essas manifestações eram reprimidas à metralha9.

A ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) divulgou a seguinte agenda:

Contra o artigo 18o, que versava sobre os delitos em matéria de culto religioso punidos com multa de 500 pesos ou, na ausência, 15 dias de prisão, e sobre o uso de vestes e insígnias religiosas fora do lugar de culto, nós decidimos que o uso de nossa insígnia será obrigatório para todos os membros da ACJM a partir de 31 de julho10.

As associações católicas fizeram petições. Obtiveram 2 milhões de assinaturas num país que possuía 15 milhões de habitantes. O presidente da Câmara dos Deputados, contudo, declarará não ter recebido nada e o governo fechou outras escolas católicas e conventos.

Os fiéis tentaram então o boicote econômico. Eles se privaram de tudo o que era propriedade do Estado: transportes, alimentação, tabaco, espetáculos. Num país de grande maioria católica, esse boicote representa um grande golpe nos negócios do Estado, que acusaram uma queda de 75%. O banco nacional verá 7 milhões de pesos serem sacados em poucas semanas11. Várias salas de espetáculo tiveram de fechar as portas. Mas o sucesso não durará porque os ricos, que também sofriam as conseqüências econômicas, não querem participar. “Católicos ou não, os ricos tinham horror ao boicote.” 12

 

2.2 Dos bispos

Quanto ao episcopado mexicano, ele procura um acordo com o governo. Enquanto pediam paciência aos fiéis, apresenta propostas para a revisão das leis.

“O governo mexicano, em razão de sua hostilidade agressiva, representava um grave problema à Igreja, que tinha por fim transformá-lo, a longo prazo, num regime benevolente. (…) A política que o Vaticano conduz em escala mundial [visa a] garantir à Igreja católica as melhores possibilidades de expansão. (…) Nessa perspectiva, Roma fez tudo para evitar a crise de 1926-1929, multiplicou as demonstrações de boa vontade e, finalmente, impôs a paz de 1929.”

Mas o governo não cedeu às demandas dos bispos. O Papa Pio XI interveio por um telegrama dirigido ao comitê episcopal mexicano: “A Santa Sé condena a lei bem como todo ato que possa significar ou ser interpretado pelo povo fiel como aceitação ou reconhecimento da lei mencionada” 13 (a do registro dos padres, cf. 1.3). Calles considerou isso uma rebelião e ainda agravou as medidas de repressão.

Os bispos decidiram então suspender o culto público a partir de 31 de julho. Já não haveria missas nem sacramentos nas igrejas em todo o território. Por que uma decisão dessas? Os bispos esperavam viver nas catacumbas? Como o culto público havia se tornado impossível, essa decisão seria muito corajosa se permitisse que os padres continuassem a celebrar os sacramentos junto ao povo mexicano, que já escondia espontaneamente os padres. Mas a hierarquia ordenou aos sacerdotes  reagruparem-se nas cidades e rezarem missas em capelas privadas. Ela buscava contemporizar para poder continuar as negociações com o governo.

Todos os católicos passaram seus últimos dias de liberdade aos pés do altar:

“A gente começava a vir aliviar a consciência, conquanto fosse tempo de trabalhar nos campos; a cada dia que passava aumentava na cidade a pressa de todos os camponeses que desciam de lugarejos vizinhos; em todos os peitos se percebia a angústia, os rostos estavam pálidos e os olhos cheios de tristeza. Na paróquia de Tlanltenango havia três padres, mas não bastaram para confessar tanta gente, não tinham tempo nem lazer sequer para poder comer e passavam o dia todo, do amanhecer até tarde da noite, sentados nos confessionários, mas não conseguiam confessar todo mundo.” 14

 

3. A resistência armada

No dia 31 de julho, as igrejas foram fechadas, como previsto. O povo mexicano, que suportara tudo, iniciou uma cruzada porque se viu privado de sacramentos. Após ter esgotado todos os meios pacíficos de negociação, pegou em armas para a defesa de Cristo Rei ao lado de alguns poucos padres (apenas duzentos de um total 3.500 ficaram com seus fiéis) e um bispo15 (de trinta e oito).

 

3.1. As primeiras insurreições

“Ignoro quais foram exatamente os motivos que levaram os católicos de Villa Hidalgo a se levantarem, mas na origem de tudo houve a vinda de tropas federais e o ódio com que cometeram um grande sacrilégio: os oficiais penetraram a igreja, abriram o tabernáculo, jogaram no chão as espécies consagradas antes de calcarem-nas aos pés; em seguida, lançaram milho sobre o altar para dar de comer aos cavalos.” 16

Por toda parte em que a fé foi atacada, os católicos passaram à ofensiva. “Em Santiago Bayacora, no estado de Durango, três funcionários federais vieram fazer o inventário da igreja. Foram recebidos com pedradas e tiveram de fugir. Duzentos homens armados com velhos fuzis deixaram imediatamente a cidade para evitar o cerco e partiram para cima do inimigo. O primeiro confronto se deu no meio da campo, por volta de meio-dia. Foi uma matança terrível do lado dos federais, que abandonaram o local deixando grande quantidade de cadáveres, armas e munições. Duas horas mais tarde, uma nova coluna federal foi desfeita do mesmo modo." 17

Em Pénjamo, Luis Navajo Origel, prefeito da cidade e católico fervoroso, assumiu a frente do motim. Com seus homens, refugiou-se nas montanhas e dali comandou uma guerrilha. Em Durango e no sul do estado de Guanajuato, produziu-se o mesmo cenário. Em Jalisco, sob o comando de René Capistran Garza, presidente da ACJM, as tropas pouco a pouco se fortaleceram e a região se tornou o centro nevrálgico da rebelião.

Tendo iniciado no oeste mexicano, o levante estendeu-se rapidamente até o golfo atlântico.

 

3.2 Os combatentes

Toda a gente ingressou na cruzada com poucas armas e munições, e nenhuma ajuda estrangeira. Mas nem coragem nem generosidade faltaram a esse povo profundamente católico. A maior parte deles rumou para o combate esperando o martírio. Até as crianças beijavam suas mães dizendo: “Mamacita, não vais querer que eu perca o céu agora que está tão barato, não é?”

José Sanchez tinha 14 anos. Cercado em fevereiro de 1928 pelos federais, cede seu cavalo ao chefe do grupo, que estava ferido, e cobre a sua retirada. A munição acaba e ele é capturado: “Saibam que eu não me rendi”, declarou, “não tenho mais cartuchos, é isso.” Ele é massacrado. No bolso, tinha esse bilhete: “Minha querida mamãe. Fui preso e vão me matar. Estou feliz. A única coisa que me inquieta é que você vai chorar. Não chore, nós nos reencontraremos. José, morto por Cristo Rei.” 18

A alegria nunca está ausente, apesar dos sofrimentos e da abnegação. Alguns são cheios de audácia e de humor, mesmo nas horas mais trágicas.

Tomasino é membro do comitê diretor da ACJM, e prefeito da Congregação de Maria. Depois de preso, prometeram-lhe a liberdade se falasse:

“Os senhores cometeriam um erro, claro, pois uma vez livre continuaria a luta por Cristo Rei. O combate pela liberdade do culto [verdadeiro] não é para nós opcional.

“— Não sabes o que é a morte, moleque!

“— É verdade, nunca me aconteceu de morrer. E o sr., meu general?” 

Em agosto de 1927 foi enforcado, tinha 17 anos de idade19.

Os chamados Cristeros — um termo de desprezo cunhado pelos revolucionários pois eles combatem ao grito de “Viva el Cristo Rey” — não tinham nenhuma nenhuma noção de combate ou de clandestinidade.

Na Cidade do México, em 6 de setembro de 1926, Joaquim de Silva, 28 anos, irrompeu na casa do seu confessor, os olhos brilhavam. Nos seus bolsos estava a sua “bagagem”: uma pistola, cinquenta cartuchos, nove cartas e seu precioso terço.

“Faço questão de não ser um católico medíocre. Parto para unir-me ao exército de Cristo Rei! Peço a bênção do senhor.

“— Vais abandonar a sua mãe e suas irmãs sem sustento?

“— O Senhor cuidará delas. Ademais, elas mesmas me pediram para ir.”

O Pe. Cardoso, apesar da grande inquietação, se deixou vencer e Joaquim da Silva tomou o trem naquela mesma noite em companhia de dois camaradas. No trem, os três aprendizes de Cristeros entabulam conversa com um general aposentado, que carregava uma impressionante bateria de medalhas e escapulários. Joaquim da Silva convidou o general a examinar o plano de guerra. O soldado aceitou juntar-se a eles no bom combate; o encontro é marcado para o dia seguinte. Mas os Cristeros são entregues pelo general e fuzilados sem julgamento. Joaquim despede-se do seu delator nesses termos: “O senhor me entregou à morte. Em troca, eu ofereço minha intercessão em teu favor diante do Pai Onipotente.” 20

As mães não foram excluídas do sacrifício de todo o povo católico. A mãe de Luis Navajo Origel dizia simplesmente: “Eu ofereci a vida de meus quatro filhos a Cristo. Mas o Senhor não quis tantos, só tomou dois”. E aos comissários do governo que vieram confiscar nas suas fazendas suas reservas de trigo: “Meus bons senhores, se permiti que entregassem meu filho à morte por Nosso Senhor Jesus Cristo, como poderia recusar hoje o trigo dos meus campos? Aqui está a chave para entrar nas reservas, confisquem tranquilamente.”

De abril a dezembro, os Cristeros, que não tinham organização nenhuma, eram vencidos assim que se aproximavam das grandes cidades. Confrontavam um exercito federal com cerca de 80.000 homens equipados pelos Estados Unidos com metralhadoras, trator de artilharia e aviões de combate. Os confrontos são verdadeiros massacres, a ponto de o general Jesús Ferreira, comandante em chefe das tropas federais do estado de Jalisco, declarar: “Não partimos para uma campanha, mas para uma caça” 21. Os federais julgam então que a revolta acabara.

 

3.3 A organização da Cristiada

Mas os Cristeros se reagrupam e se organizam. Em 1927, põem-se às ordens de um general em chefe: o general Gorostieta, militar aposentado. Grande estrategista, alcança-lhes muitas vitórias.

No dia 21 de junho de 1927, a brigada feminina de Santa Joana D’Arc (a B.B.) foi criada. Organizada como uma rede secretíssima, mobilizou até 25.000 mulheres cristeras como espiãs, enfermeiras ou para a logística.

“Trata-se em suma de uma organização que, durante dois anos, pôs milhares de mulheres em ação, dia e noite, fazendo a ligação entre a cidade e os campos de batalha." 22

“Algumas delas, possuindo conhecimentos científicos bem superiores aos dos camponeses, cumpriam a função de artífices e de professoras, ensinando os Cristeros a fabricar explosivos, dinamitar os trens, manipular armas de artilharia e detonadores. As B.B. levaram muito a sério sua missão de guerra… Valendo-se de todos os meios, organizavam bailes nas cidades para ganhar a confiança dos militares, despistar as suspeitas e obter informações. […] O cuidado dos feridos escondidos nos povoados ou na cidades incumbia à B.B. bem como a direção dos rudimentares hospitais dos campos de Altos, Colima, Sul de Jalisco e do hospital clandestino de Guadalajara. […] Elas trabalhavam na propaganda e na imprensa clandestina, […] garantiam sobretudo o correio político e militar dos Cristeros e contribuíam na sua rede de informação.” 23

Valendo-se de seu bom conhecimento do terreno, armamentos, munições e dos cavalos subtraídos ao inimigo (em novembro, 40% estavam armados com excelentes Mauser “federais”), os Cristeros ganharam terreno.

Em Puerto Obristo, 600 federais caíram mortos. No dia 1o. de janeiro de 1927, 1.200 homens se insurgiram e controlaram o estado de Durango. “Nosso movimento é firmemente apoiado por toda a população, e os esforços do tirano para impedir o seu crescimento estão votados ao fracasso. Sem contar com nenhuma ajuda estrangeira, em um ano reunimos 40.000 homens armados”, declarou o general Gorostieta a um amigo mexicano24.

No apogeu do seu efetivo, os Cristeros serão 50.000.

O seu general em exercício, Gorostieta, testemunhou a moralidade das suas tropas: “O efetivo é composto de homens de ordem, de uma moralidade absolutamente sem precedentes nas tropas mexicanas. Daí o fracasso do governo, a despeito do apoio estrangeiro, de seu ouro e de suas práticas criminosas.” 25

Os federais buscaram então reunir a população nas cidades. “O Estado-Maior decidiu organizar concentrações, prelúdio necessário às razzias das colunas federais. O princípio era simples: deram o prazo de algumas semanas para que a população civil evacuasse um dado perímetro e viesse a se refugiar numa série de localidades previstas. Passado esse prazo, toda pessoa que se encontrasse numa zona vermelha era executada sem julgamento. As colunas confiscavam a colheita e o gado, incendiavam os pastos e florestas, abatiam à metralha o gado que não pudessem levar no trem.” 26  Não obtiveram, porém, grandes resultados. Em 1929, os Cristeros controlavam três quartos do México habitado. A vitória estava ao alcance das mãos.

 

4. O fim da rebelião

No dia 22 de junho de 1929, a imprensa publicou os “arreglos” ou “acordos”. As negociações secretas entre o governo mexicano e os bispos chegaram na véspera a uma resolução que previa o fim imediato e incondicional dos combates e o reinício do culto público no dia seguinte.  

Não se tratou da modificação ou supressão das leis anti-católicas. Foi mantido até mesmo o registro dos padres. Retornou-se à situação de 1926, sem consideração pelo povo mexicano que, há três anos, dava sua vida pelo retorno de Cristo aos altares… e que estava próximo do sucesso.

Jesus Degollado, general em exercício dos Cristeros, julgou que era preciso se submeter. Ele se dirigiu às suas tropas, com a voz embargada pela dor: “Sua Santidade, o papa, por intermédio do excelentíssimo núncio apostólico, decidiu, por razões que ignoramos mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja alterada… Esse acordo arrancou o que há de mais nobre e santo em nosso estandarte, no momento em que a Igreja se declarou resignada com o que obteve… Em conseqüência, a Guarda nacional assume a responsabilidade do conflito… Enquanto homens, possuímos uma satisfação que ninguém nos poderá tirar: a Guarda Nacional não desaparece vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e abnegação! Ave Cristo! Aqueles que, por vós, seguem para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte não gloriosa, com o mais acendido amor vos saúdam e, mais uma vez, vos aclamam rei de nossa pátria.” 27

Os 6.000 Cristeros que se submeteram são logo massacrados, 5% da população do México foge para os Estados Unidos, para o deserto ou para a cidade grande. A maioria dos combatentes, no entanto, retomou suas ocupações civis sem se esconder. Foram estrangulados em casa, esfaqueados nos campos, fuzilados na saída da Missa, diante do povoado reunido. Até 1941 houve quem morresse nos campos mexicanos pelo singular crime de Cristiada. De 1926 a 1929, os católicos não haviam perdido mais do que 5.000 homens.

 

CONCLUSÃO

À revolução dos federais, com seu cortejo de violências, pilhagens ou destruição (o seu grito de guerra era “Viva el demonio”) contrapôs-se o fervor e a moralidade irretocável dos combatentes de Cristo Rei. A ordem do dia de um dos seus generais era a seguinte: “Não buscamos nem honrarias, nem ouro, nem imóveis, trabalhamos pelo reinado de Cristo e é por Ele que lutaremos até a vitória ou até a morte. Pouco importa se sucumbirmos, é preciso que o sangue dos católicos lave o México de suas enormes máculas. Portemo-nos como dignos soldados de Cristo.” 28

Luis Navajo Origel, declarou: “Matarei por Cristo os que matam Cristo, e talvez venha morrer por Ele, que tanto preciso disso; eu oferecerei o sangue da Redenção.” Ele caiu morto à frente da sua tropa em 10 de agosto de 1928, tinha 30 anos.

Manuel Bonilla, estudante, escreveu no seu diário de guerra: “Eu bem sei que, para as grandes coisas, Deus se serve dos pequeninos e que o remédio não vem de onde se espera… Confio na bondade de Deus: todos esses sacrifícios não serão em vão.” 29

Abandonado por todos, o povo católico mexicano aceitou a terrível provação das perseguições com espírito de reparação. Seu único apoio: a fé em Cristo Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dito mexicano.
  2. 2. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 298-299.
  3. 3. J. Meyer, op. cit., p. 141.
  4. 4. J. Meyer, op. cit., p. 167.
  5. 5. Conforme H. Keraly, op. cit, p. 31 a 36.
  6. 6. Testemunho de Dom Francisco Campos, Santiago Bayacora, Estado de Durango, citado por Keraly, op. cit., p. 33-34.
  7. 7. J. Meyer, La cristiade, l’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit, p. 162.
  8. 8. H. Keraly, op. cit., p. 46.
  9. 9. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  10. 10. A. Rius Facius, Mejico Cristero, Ed. Patria, Mexico, 1966, citado por H. Keraly, p. 62.
  11. 11. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  12. 12. J. Meyer, La cristiade, L’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit., p. 62.
  13. 13. H. Keraly, op. cit., p. 39.
  14. 14. J. Meyer, Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, p. 54-55.
  15. 15. José de Jesus Manriquez y Zarate foi aprisionado e em seguida exilado por 17 anos.
  16. 16. Depoimento de Clemente Pedroza a Jean Meyer, H. Keraly, op. cit., p. 73.
  17. 17. H. Keraly, op. cit., p. 78.
  18. 18. Cf. Rius Facius, op. cit., Ed. Patria, Mexico, 1966, em H. Keraly, op. cit., p. 71.
  19. 19. H. Keraly, op. cit., p. 70.
  20. 20. Cf. Rius Facius, op. cit., em Keraly, p. 66.
  21. 21. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 170.
  22. 22. J. Meyer, La christiade, L’Église et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por Keraly, p. 105.
  23. 23. J. Meyer, op. cit, citado por Keraly, p. 119.
  24. 24. Miguel Augustin Pro, carta de 30 de maio de 1929, Ed. Tradicion, Mexico, 1976, p. 461-462, citada por H. Keraly, op cit., p. 151.
  25. 25. Miguel Augustin Pro, p. 461-462, citado por H. Keraly, p. 151.
  26. 26. J. Meyer. Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, citado por H. Keraly, op. cit., p. 155.
  27. 27. Rius Facius, op. cit., p. 391-392, citado em H. Keraly, op. cit., p. 193.
  28. 28. Ordem do dia do general Ochoa, morto carbonizado no dia 13 de novembro de 1927, devido à explosão de uma bomba incendiária, conforme Joachim Blanco Gil, El clamor de la sangre, Ed. Jus, Mexico 1967.
  29. 29. Conforme Joachim Blanco Gil, op. cit.
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