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Anônimo (222)

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

Vida de Santo Tomás de Aquino

“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’, para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Papa Pio XI – Encíclica Studiorum Ducem – 29 de Junho de 1923)

“Invoquei (o Senhor) e veio a mim o espírito da sabedoria. Preferia-a aos cetros e aos tronos, e julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação.” (Sb 7, 7-8)

 

Introdução

O século XIII foi um período de extraordinária atividade intelectual, mas não foi isento de perigos. Na busca entusiasmada por conhecimento, os estudantes reuniam-se aos milhares nas grandes universidades, que apesar de serem escolas de fé, foram também muitas vezes escolas de infidelidade. Os filósofos da época deviam tudo a um único mestre, que fora um pagão. “Aristóteles”, diz Lacordaire, “foi tomado como representante da sabedoria, mas, infelizmente, ele e o Evangelho nem sempre concordam um com o outro”. E muitos, entrando no oceano inexplorado do pensamento sem nenhum guia, naufragaram sem esperança a sua religião. Grandes professores, que eram tidos como os “oráculos do dia”, nem sempre souberam resistir às seduções da vaidade, e algumas vezes buscaram o renome propondo audaciosas teorias em assuntos em que a especulação original era raramente amigável à fé.

Foi em meio à confusão dessas novas opiniões que Santo Tomás foi dado ao mundo para demarcar os limites da filosofia cristã e para integrar, em uma estrutura grande e completa, as matérias de teologia dogmática, moral e especulativa, que até então estavam separadas. Ao mesmo tempo, enriqueceu a liturgia da Igreja com algumas de suas mais belas devoções, e mostrou, em sua vida e em seu caráter, todas as virtudes que as graças de um santo produzem.

 

1. Nascimento e infância

Situada de um modo pitoresco no sul da Itália, no topo de um penhasco escarpado,  flanqueando o pico dos Apeninos e divisando as águas correntes de Melfi, lá estava em tempos medievais a fortaleza de Roccasecca. Ali nasceu Santo Tomás por volta do ano de 1225 – os autores não chegaram a um consenso acerca da data precisa – e devido ao condado vizinho de Aquino, ele recebeu seu sobrenome. 1 O conde, seu pai, era sobrinho do imperador Frederico Barba-Roxa, e pelo lado de sua mãe, era descendente dos barões normandos que haviam conquistado a Sicília dois séculos antes. A família Aquino arrogava-se de parentesco com São Gregório Magno e era ligada pelo sangue a São Luís de França e a São Fernando de Castela. A futura vocação e santidade do pequeno Tomás foram preditas à sua mãe, a condessa Teodora, por um santo eremita de nome Bonus, e quando ainda era uma criança, a Providência vigilante de Deus sobre ele já estava manifesta de uma maneira surpreendente: uma terrível trovoada rebentou no castelo, fulminando sua babá e sua irmã no mesmo quarto em que Santo Tomás dormia, ficando ele ileso. Essa circunstância explica o grande medo de trovão e relâmpago que diziam ter Santo Tomás durante toda a sua vida, e que o fazia freqüentemente se refugiar na igreja durante uma trovoada, a ponto de inclinar sua cabeça contra o tabernáculo para se colocar o mais próximo possível sob a proteção de Nosso Senhor. 2

Ave Maria foram as primeiras palavras que se ouviu pronunciar por seus lábios de bebê. Muito antes de aprender a ler, descobriu-se que um determinado livro era um meio infalível de enxugar suas lágrimas e suas mágoas infantis. Ele costumava se deleitar em manuseá-lo, passando suas páginas com uma gravidade pueril.

 

2. Educação Primária

Quando tinha apenas cinco anos de idade, Santo Tomás começou a ser educado pelos monges da famosa Abadia Beneditina do Monte Cassino, que ficava a poucas milhas de Roccasecca. Os monges descobriram que seu novo pupilo era uma criança grave e quieta, que amava passar a maior parte de seu tempo na igreja, e nunca estava sem um livro nas mãos. Ele tinha uma considerável influência sobre seus jovens colegas, aos quais estava sempre pronto a ajudar e a quem a doçura de sua disposição o fazia muito querido. Porém, importava-se pouco com os divertimentos da infância, e raramente participava deles. Um dia, quando o restante dos colegas brincava alegre pelos bosques, Santo Tomás se isolou em silenciosa meditação. O monge encarregado dos garotos indagou o motivo de suas reflexões, e ele, levantando a cabeça, disse: “Diga-me, mestre, o que é Deus?” Essa foi a pergunta mais repetida por ele, o que mostrava que toda a tendência de sua mente e de seu coração estava já voltada para o Céu.

Aos dez anos, tinha progredido tanto em seus estudos que seus pais resolveram enviá-lo, sob os cuidados de um tutor, à recentemente fundada Universidade de Nápoles. Antes, levaram-no para passar algumas semanas em companhia deles em outro castelo de sua propriedade, em Loreto – um local destinado depois a ser tão famoso como o lugar de repouso da Santa Casa de Nazaré. Na época, uma fome assolou a cidade, e Santo Tomás se deleitou em distribuir as abundantes esmolas que seus caridosos pais tinham reservado para os pobres. Ele levou sua liberalidade tão longe, que o mordomo do castelo reclamou ao seu pai. O conde então surpreendeu o menino enquanto ele se apressava para o portão e perguntou severamente o que estava escondendo embaixo da capa. Santo Tomás a desdobrou e deixou cair no chão não o alimento que carregava, mas uma profusão de flores adoráveis e docemente perfumadas.

Em sua chegada a Nápoles, os extraordinários talentos dos quais ele já havia dado provas a seus professores beneditinos tornaram-se mais e mais manifestos, ao mesmo tempo em que progredia rapidamente na ciência dos santos. Era continuamente tomado como modelo para seus colegas estudantes, o que feria muito sua humildade, mas a modéstia, a doçura, e a gentileza de seu caráter o preservaram da inveja, fazendo-o unanimemente querido. Ele afastava-se de todas as más ocasiões e devotava suas horas de lazer à oração e às boas obras.

 

3. Junta-se aos Dominicanos          

A igreja dominicana em Nápoles tornou-se um de seus refúgios favoritos, e enquanto ele derramava sua alma em oração diante do altar, foram vistos mais de uma vez cintilantes raios de luz emitidos de seu semblante. Um santo frade chamado João de São Julião, que testemunhou o maravilhoso sinal, disse um dia ao pio jovem: “Deus vos deu à nossa Ordem.” Santo Tomás atirou-se aos seus joelhos, dizendo que há muito desejava ardentemente tomar o hábito, mas que temia ser indigno de tão grande graça. A comunidade, então, alegremente admitiu o jovem estudante, e quando ainda era praticamente um garoto, vestiu publicamente o hábito branco de São Domingos.

A novidade logo chegou aos ouvidos da condessa Teodora, sua mãe, que, reconhecendo no evento a realização da profecia do santo eremita, correu a Nápoles para felicitar o filho. Porém, Santo Tomás e os irmãos, ignorantes das disposições dela, ficaram muito alarmados com a ideia da iminente visita, e em observância às suas fervorosas súplicas, o noviço apressou-se ao Convento de Santa Sabina em Roma. Para lá sua mãe o seguiu, mas não pôde induzi-lo a consentir em uma entrevista. O superior da Ordem, João Germano, estava prestes a partir para Paris e resolveu levar Santo Tomás e outros três companheiros com ele, e assim deixaram Roma. Quando Teodora se viu assim frustrada, enfureceu-se contra os frades e enviou ordens a dois de seus filhos mais velhos, que estavam servindo no exército do imperador na Itália, para surpreender o irmão e trazê-lo de volta. 3 O pequeno grupo de frades foi alcançado e surpreendido enquanto tirava seu descanso do meio-dia às margens de uma fonte. Os rudes soldados tentaram rasgar o hábito de Santo Tomás, mas sua forte resistência os impeliu a desistirem do intento. Seus companheiros foram impedidos de seguir viagem, enquanto o jovem noviço foi levado de volta para junto de seus irados pais em Roccasecca.

 

4. Prisão e Fuga

A condessa estava determinada a jamais permitir que Santo Tomás fosse um dominicano. E seu pai, que alegremente aceitaria que ele assumisse o hábito beneditino – como um de seus tios, ele poderia chegar ao grau de Abade do Monte Cassino – estava igualmente determinado a não permitir que ele pertencesse à desprezível ordem mendicante que tinha abraçado. Lágrimas, ameaças e súplicas foram ineficazes para fazer abalar a resolução do santo, e ele foi aprisionado em uma das torres do castelo, onde teve de passar frio, fome, e todo tipo de privação. Suas duas irmãs, Marieta e Teodora, a quem ele era ternamente apegado, tentaram em vão com afetuosas carícias induzi-lo a ceder aos desejos da mãe, mas elas próprias se renderam a uma vida de perfeição, e ambas posteriormente morreram em odor de santidade, uma como abadessa beneditina, e a outra casada como condessa de São Severino. Através da intervenção delas, Santo Tomás conseguia obter livros e roupas de seus irmãos (dominicanos) em Nápoles. Durante seu cativeiro, que durou consideravelmente mais de um ano, ele conseguiu confiar à memória toda a Bíblia e os quatro livros das Sentenças, o compêndio teológico da época. 4 Diz-se que seus primeiros escritos pertencem a esse mesmo período.

Com a chegada de seus irmãos, a constância de Santo Tomás foi posta à prova de modo ainda mais terrível. Os dois jovens oficiais conceberam o projeto infernal de introduzir uma mulher de má reputação dentro de seu quarto. Mas, apanhando da lareira um ferrete em chamas, o santo furiosamente retirou-a de sua presença. Com o mesmo ferrete, ele então traçou uma cruz na parede e lançando-se de joelhos diante dela, suplicou a Deus para conceder-lhe a graça da castidade perpétua. Enquanto rezava, caiu em um êxtase durante o qual dois anjos lhe apareceram e o cingiram com uma corda miraculosa dizendo: “Viemos da parte de Deus para te revestir com o cinto da castidade perpétua. O Senhor ouviu tuas orações e aquilo que a fragilidade humana nunca poderá merecer é assegurado para ti pela irrevogável graça de Deus”. Os anjos o cingiram tão firmemente que ele soltou um involuntário grito de dor, fazendo com que alguns empregados viessem ao lugar. Porém, Santo Tomás manteve o segredo para si mesmo, revelando-o somente em leito de morte para seu confessor, o padre Reginaldo, declarando que a partir daquele dia, nunca tinha sido permitido ao espírito das trevas se aproximar dele. O cinto foi usado pelo santo até sua morte e ainda é preservado no Convento de Chieri, em Piemonte. 5

Nesse período, a família de Santo Tomás compreendeu que sua firmeza não seria vencida pela perseguição. A contragosto, reconhecerem que foram derrotados e consentiram em sua fuga. Assim como São Paulo, ele foi descido da torre em uma cesta, e os frades, como haviam combinado, esperavam-no embaixo. Eles levaram seu tesouro resgatado para Nápoles, onde foi imediatamente admitido ao ofício.

 

5. Seus Estudos em Colônia

Mais uma tentativa foi feita para abalar a constância de Santo Tomás, dessa vez através de um apelo ao papa, que o convocou a Roma. 6 Mas o santo advogou tão bem em sua própria causa que o Santo Padre se convenceu da realidade de sua vocação. Entretanto, para satisfazer a família dele, e assegurar em um posto importante os serviços de uma pessoa tão agraciada, o papa propôs fazê-lo abade do Monte Cassino mesmo sendo dominicano. Porém, Santo Tomás implorou tão fervorosamente para continuar sendo um simples religioso na ordem que escolhera que Sua Santidade concedeu e proibiu estritamente qualquer outra interferência em sua vocação.

Para afastá-lo de outros aborrecimentos, o superior geral da ordem levou Santo Tomás consigo para Colônia, onde se tornou discípulo de Santo Alberto Magno, o renomado professor dominicano. Quando Santo Tomás achou-se seguro dentro das paredes do convento, devotou-se com ardor à obra de sua santificação. Seu tempo era dividido entre oração e estudo, e sua humildade fez com que ele escondesse sua vasta inteligência, e mantivesse absoluto silêncio em todas as disputas escolásticas. Sua alta estatura e a imponência de sua figura levaram seus colegas a chamarem-no “o boi mudo da Sicília”. Um dos estudantes, jovem de boa índole e seu colega, oferecia-se para lhe explicar as lições diárias – oferecimento esse que o santo humilde e gratamente aceitava. Um dia, porém, o jovem professor se deparou com uma difícil passagem que interpretou erroneamente. Então, a caridade do santo e o amor à verdade triunfaram sobre sua humildade; pegando o livro, explicou a passagem com a máxima clareza e precisão. O colega, atônito, implorou para dali em diante ser ele o aluno, ao que Santo Tomás consentiu sob a condição de que mantivesse o sigilo. Pouco depois desse episódio, um artigo escrito pelo santo contendo uma solução magistral de uma complicadíssima questão caiu acidentalmente nas mãos de Santo Alberto. Admirado com o gênio que o artigo revelava, Santo Alberto no dia seguinte pôs o conhecimento de seu virtuoso discípulo a uma prova pública, e exclamou diante dos alunos reunidos: “Nós chamamos o irmão Tomás ‘o boi mudo da Sicília’, mas eu vos digo que um dia ele fará com que seus mugidos sejam ouvidos em todos os confins da terra!”

 

6. Seus Estudos em Paris

No verão de 1245, um ano depois da chegada de Santo Tomás a Colônia, o Capítulo Geral da Ordem Dominicana ordenou que Santo Alberto partisse para Paris para receber o título de doutor na universidade daquela cidade, e ele obteve permissão de levar o irmão Tomás como seu companheiro. Os dois santos partiram a pé, de cajado na mão, tendo como bagagem principal o breviário e a Bíblia, aos quais Santo Tomás juntou o livro das Sentenças.

Ao meio dia, eles paravam para descansar às margens de alguma fonte para comer o alimento que pediam pelo caminho. À noite, geralmente encontravam abrigo nos quartos de hóspedes de algum monastério. Desse modo, chegaram ao convento de São Tiago em Paris, onde Santo Tomás se tornou um modelo para toda a comunidade pelo seu espírito de oração, sua profunda humildade, perfeita obediência e caridade universal. Ele tentava imitar as virtudes que observava em seus irmãos e julgava-se totalmente indigno de viver em tão santa companhia. Nunca se ouviu dizer que ele pronunciasse alguma palavra frívola; quando falava, a beleza de seu divino discurso enchia de consolação espiritual todos os que o ouviam. Uma graça celestial irradiava de seu belo semblante, de modo que alguns diziam que bastava contemplá-lo para sentir dentro de si uma renovação de fervor.

Um jovem franciscano de nome Boaventura estava nessa época estudando em Paris. A ele, Santo Tomás liga-se numa amizade muito próxima. Os dois, que foram posteriormente honrados pela Igreja como os Doutores Seráfico e Angélico, tornaram-se muito caros um ao outro na terra assim como Jônatas e Davi, e depois de seus três anos de estudo, receberam juntos o título de Bacharel em Teologia em 1248.

 

7. Recebe o Título de Doutor

Em novembro daquele mesmo ano, Santo Alberto foi enviado de volta a Colônia acompanhado de Santo Tomás, que ensinava sob sua orientação. Os intelectuais não demoraram a descobrir que os dois professores dominicanos excediam todos os outros, e a nova escola em Colônia rapidamente encheu-se a ponto de transbordar. As aulas de Santo Tomás corroboravam completamente os cinco princípios de ensino que ele mesmo tinha estabelecido, a saber: clareza, brevidade, utilidade, doçura e maturidade. Ele possuía uma admirável graça de comunicar o conhecimento, de modo que se aprendia mais rapidamente com ele em poucos meses do que com outros em muitos anos.

Foi logo após o retorno a Colônia que Santo Tomás ascendeu ao sacerdócio; daquele momento em diante, ele parecia mais próximo de Deus do que nunca. Costumava passar muitas horas do dia e uma grande parte da noite na igreja. Enquanto oferecia o Santo Sacrifício, derramava abundantes lágrimas, e o ardor de sua devoção comunicava-se com aqueles que assistiam à Missa.

Após ensinar por quatro anos em Colônia, a Santo Tomás foi ordenado pelo Capítulo Geral que se preparasse para receber o título de doutor. Foi um golpe terrível para sua humildade, pois julgava-se sinceramente indigno de tal honraria. A caminho de Paris, para onde ele tinha de se dirigir, pregou na corte da Duquesa de Brabante, a pedido de quem escreveu um tratado cheio de sabedoria e moderação sobre o governo dos judeus. A partir de então, ele era constantemente consultado nos mais importantes assuntos de Estado, especialmente por São Luís de França, que era ternamente afeiçoado a ele. Santo Tomás chegou a Paris em 1252, e desde o primeiro momento seu sucesso no ensino foi tão grande que os vastos salões do convento de São Tiago não podiam conter seu público. A Universidade (de Paris) parabenizou a Ordem pela aquisição de tão grande tesouro e propôs garantir-lhe imediatamente a licença preliminar para doutorar-se, embora estivesse quase dez anos abaixo da idade requerida pelos estatutos.

Esta etapa, porém, foi atrasada por uma disputa entre os frades e os doutores seculares. A querela começou com a recusa dos primeiros em fazer um juramento para fechar suas escolas, e isso se acalorou com a publicação de um livro intitulado Os Perigos dos Últimos Tempos, no qual as novas Ordens mendicantes eram atacadas nos termos mais caluniosos e escandalosos. Essa obra, que veio da pena de um doutor parisiense chamado Guilherme de Saint-Amour, um homem violento e de opiniões heréticas, foi remetida por São Luís para ser julgada pelo papa. Santo Tomás e São Boaventura foram convocados pelo Tribunal Papal para atuarem como defensores dos regulares, e a pena de Santo Alberto Magno foi também requisitada. A eloqüência de Santo Tomás obteve a condenação do livro, salvou as ordens mendicantes da destruição, e pelos esforços em conjunto do papa e de São Luís, a Universidade foi obrigada a se render e readmitir os frades em suas cadeiras teológicas.

Em 23 de Outubro de 1257, os dois santos puderam doutorar-se. A humildade de Santo Tomás tinha sido tão atingida pela ideia dessa promoção que ele não conseguiu preparar o discurso preliminar até a véspera do dia em que seria proferido. Então, por inspiração divina, ele escolheu para seu texto as palavras do Salmo 103:13: “Regas os montes (do alto) das tuas moradas, com o fruto das tuas obras é saciada a terra” – palavras que em sua interpretação se referiam a Jesus Cristo, que como a cabeça dos homens e dos anjos, rega os espíritos celestes com glória, enquanto enche a Igreja Militante na terra com os frutos de suas obras através dos Sacramentos, que aplicam os méritos de sua sagrada Paixão às nossas almas. Porém, o evento deu a esse texto o caráter de profecia em relação à própria futura carreira do santo.

 

8. O Trabalho em Sua Ordem e na Igreja

Em 1259, Santo Tomás foi incumbido, juntamente com Santo Alberto Magno e outros homens doutos da Ordem, de elaborar regras para regular os estudos dos irmãos. Um ou dois anos depois, ele foi convocado à Itália para ensinar nas escolas ligadas à Corte Papal. Como essas escolas seguiam o papa de lugar em lugar, muitas das grandes cidades da Itália e muitos conventos de sua ordem desfrutaram por um tempo o privilégio dos ensinamentos do santo. 7

Após ter ficado por um período em Roma, em 1269 foi novamente indicado para ensinar em Paris. Os doutores da Universidade referiram a ele uma controvérsia que tinha se levantado sobre as espécies sacramentais na Sagrada Eucaristia. Depois de uma longa e fervorosa oração, o santo expôs por escrito sua opinião sobre o assunto, colocou o manuscrito aos pés do crucifixo no altar do Santíssimo Sacramento e rezou: “Senhor Jesus, que estais verdadeiramente presente e fazeis maravilhas neste adorável Sacramento, rogo-Vos que me concedais que, se o que escrevi for verdadeiro, Vós me habiliteis a ensiná-lo; mas que se houver algo contrário à Fé, Vós me impeçais de prosseguir em declará-lo.” Então, os outros frades, que estavam assistindo, contemplaram o próprio Nosso Senhor descendo e posicionando-se sobre o manuscrito, e ouviram de Seus Divinos lábios estas palavras: “Tomás, tu escreveste bem sobre o Sacramento de Meu Corpo.” O santo imediatamente entrou em êxtase, o que fez com que ele levitasse um cúbito do chão.

Em 1271, Santo Tomás retornou à Itália e começou a ensinar em Roma. Durante a Semana Santa daquele ano, ele pregou em São Pedro sobre a Paixão de Nosso Senhor, e aqueles que o escutaram na Sexta-Feira Santa foram levados às lágrimas e não cessaram de chorar até o Domingo de Páscoa, quando seu sermão Pascal encheu a todos de júbilo. Naquele dia, enquanto ele descia do púlpito, uma pobre mulher, doente há muito tempo, e sem esperanças de cura, beijou a barra de seu manto e ficou imediatamente curada. Nesse ínterim, as Universidades de Paris e de Nápoles estavam competindo entre si para obter a posse do grande Doutor. Nápoles levou a melhor, e o santo a premiou até o final do verão de 1272 com os últimos atos de seu trabalho como professor.

Durante todos esses ativos anos de ensino, a pena de Santo Tomás trabalhou infatigavelmente, enriquecendo as escolas e a Igreja com inestimáveis tratados que encheram muitos volumes. Dentro do estreito limite destas páginas, é impossível fazer mais do que citar alguns de seus mais importantes escritos. Ele comentou as obras de Aristóteles e livrou o texto do filósofo pagão de tudo o que era contrário às verdades da Fé. Ao mesmo tempo, adotou os termos da filosofia de Aristóteles como a classificação mais científica das ideias humanas e assim, estabeleceu um sistema completo de filosofia Cristã. Sua Suma Contra os Gentios (Summa Contra Gentiles) foi escrita a pedido de São Raimundo de Pennaforte, o terceiro Superior da Ordem, para combater as falsas doutrinas filosóficas introduzidas pelos sarracenos na Espanha e que estavam penetrando nas universidades da Europa. Nessa obra, Santo Tomás demonstra a verdade da Religião revelada e prova de modo triunfal que a Cristandade não pode ser contrária à sã razão. O Santo Doutor escreveu tratados sobre o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo8, comentários sobre as várias partes da Sagrada Escritura, e respostas a diversas questões propostas a ele para que as solucionasse. O Papa Urbano IV encarregou-o da tarefa de reunir todas as mais belas passagens dos escritos dos Padres da Igreja sobre os Evangelhos, e o resultado foi sua Catena Aurea, ou A Corrente de Ouro, que é inteiramente composta de citações, e escrita em grande parte de memória. Como viajava de convento em convento, o santo lia as obras dos Padres, uma aqui, outra ali, e sua maravilhosa memória fez com que ele guardasse e transcrevesse as passagens tendo em mente cada assunto. A mais famosa de suas obras é sua Suma Teológica (Summa Theologica), na qual ele trabalhou, nos intervalos entre o ensino e a pregação, pelos últimos nove anos de sua vida, mas que não viveu o suficiente para terminar.

Desse trabalho é dito que o Papa João XXII afirmou que Santo Tomás havia feito tantos milagres quanto a Suma continha artigos, e seu valor é talvez mais bem atestado pelo ódio com o qual ela sempre foi considerada pelos hereges. Em 1520, Lutero fê-la ser queimada em público na praça de Wittenberg, e outro dos chamados reformadores, Martin Bucer, exclamou: “Suprimi Tomás e eu destruirei a Igreja!” “Um desejo vão”, observa Leão XIII, “mas não um vão testemunho.” No Concílio de Trento, apenas três obras de referência foram colocadas na mesa do salão de reunião. Eram elas: as Sagradas Escrituras, os Atos Pontificais e a Suma de Santo Tomás. Foi por causa da Suma que o Catecismo do Concílio de Trento foi escrito por três padres dominicanos e outros teólogos. 

 

9. A Festa de Corpus Christi

A obra de Santo Tomás mais amada e venerada pelos fiéis talvez seja a participação que teve na instituição da Festa de Corpus Christi. Quando ele apresentou ao Papa Urbano IV a primeira parte de sua Catena Aurea, por volta de 1263, o Pontífice maravilhado quis, em sinal de gratidão, elevá-lo ao episcopado. Porém, Santo Tomás atirou-se-lhe aos pés e implorou ao Santo Padre que lhe concedesse como única recompensa pelo seu trabalho que a Festa do Santíssimo Sacramento, já estabelecida na Alemanha e nos Países Baixos pelas orações da Bem-aventurada Santa Juliana e pela influência do cardeal dominicano Hugo de São Cher, fosse estendida para a Igreja Universal. O papa alegremente consentiu e ordenou que Santo Tomás escrevesse o ofício da festa. Nesse ofício, cada responsório nas Matinas é composto de duas frases, uma retirada do Antigo Testamento e outra do Novo, que assim são feitas para darem um único testemunho ao grande mistério central da Fé Católica. Seus hinos Verbum Supernum e Pange Lingua nos são familiares, especialmente suas últimas estrofes, O Salutaris e Tantum Ergo, sempre cantados na Bênção, e desde a infância nossos corações são tocados de emoção enquanto caminhamos nas procissões do Santíssimo Sacramento pela força do Lauda Sion.

Antes de apresentar seu ofício ao papa, Santo Tomás o colocou diante do sacrário, e o milagre anteriormente ocorrido em Paris repetiu-se: as palavras de aprovação procederam dos lábios de um crucifixo ainda venerado em Orvieto. Um testemunho semelhante da aprovação divina foi concedido ao santo em Nápoles, e foi visto por um dos frades. Nessa ocasião, também Nosso Senhor falou com ele de um crucifixo, que é preservado na Igreja de São Domingos Maior, dizendo: “Tu escreveste bem de Mim, Tomás. Que recompensa terás?” Ao que o Santo fervorosamente respondeu: “Nenhuma além de Vós, ó Senhor!”

Também devemos à pena de Santo Tomás o Adoro Te, algumas belas devoções antes e depois da Santa Comunhão, e muitas outras orações sólidas em doutrina e belas em expressão. É tradição dizer que ele compôs a tão famosa “Alma de Cristo, Santificai-me” (Anima Christi), que era a oração favorita de Santo Inácio e que foi introduzida por ele em seu livro Exercícios Espirituais, embora deixando de fora a amável súplica “Luz da Sagrada Face de Jesus, brilhai sobre mim”, que é encontrada nas formas mais antigas da oração. Essa súplica ocorre na versão de Anima Christi encontrada em um antigo livro de orações chamado Horas York, onde se afirma ter sido indulgenciada pelo Papa João XXII quando ele a recitou após a elevação na Missa. Esse livro de orações foi publicado em 1517, quatro anos antes da conversão de Santo Inácio.

 

10. Traços Pessoais

Santo Tomás era alto e forte, de cabeça fina e sólida, fronte elevada, traços refinados e belos, olhos grandes e brandos que irradiavam benevolência. Suas maneiras eram singularmente encantadoras e graciosas, e suas prodigiosas faculdades mentais eram acompanhadas de uma inocente simplicidade de caráter, que juntamente com a pureza de sua doutrina renderam-lhe o título de “Anjo das Escolas”. Embora estivesse muito acima dos outros por sua enorme inteligência, ele era o mais doce e o mais caridoso dos mestres e dos padres, sempre pronto a curvar-se diante da capacidade dos mais jovens e dos mais estultos de seus colegas. Independentemente da importância dos afazeres nos quais estava engajado, sua cela estava sempre aberta para seus irmãos todas as vezes que queriam falar com ele, e alegremente deixava a mais exaustiva ocupação para dar-lhes sua inteira atenção. Ele os ouvia em suas dificuldades, explicava suas dúvidas e confortava-os em suas aflições. Nada que dizia respeito a seus irmãos era banal aos seus olhos, e ele nunca se mostrou cansado de suas interrupções, nem de suas inconveniências. Em troca, seus irmãos lhe davam a mais terna afeição: Doctor noster (Nosso Doutor) era como eles amavam chamá-lo, e a sinceridade de sua amizade era largamente provada pela amarga tristeza de todos quando ele se ausentava.

Muito depois de sua morte, aqueles que o tinham conhecido nunca falavam dele sem lágrimas, tão ternamente o amavam. Verdadeiro filho de São Domingos, cuidou apenas de falar de Deus ou com Deus, e não conseguia entender como um religioso poderia interessar-se por outro assunto. Se a conversa mudava para outros temas, ele cessava de participar e confessava para seus colegas que o surpreendia que um religioso pudesse pensar em outra coisa que não fosse Deus. Também era completamente incompreensível para ele o fato de alguém em estado de pecado mortal conseguir comer, dormir, ou alegrar-se. Quando os seculares vinham buscar conselho e consolação, ele lhes dava ouvidos de boa vontade, e após tirar suas dúvidas e consolá-los em suas dores, nunca deixava de contar-lhes alguma pia história ou falar-lhes algumas palavras edificantes, e em seguida dispensava-os, ficando eles com os corações ardendo de júbilo espiritual e amor divino.

Podemos imaginar Santo Tomás desfrutando da simples distração de subir e descer o claustro de seu convento, ocasionalmente levado por seus irmãos para tomar ar fresco no jardim, mas certamente logo sendo encontrado em algum canto isolado, absorto em pensamentos. Dessas distrações, são contadas algumas anedotas, como a que no-lo mostra jantando com São Luís e de repente esmurrando a mesa, exclamando: “Há um argumento conclusivo contra os maniqueus!” Seus colegas gentilmente esforçaram-se para lembrá-lo da presença real, enquanto o amável rei imediatamente convocou um secretário para anotar o convincente argumento que se apresentava à mente de seu santo hóspede.

De volta a Nápoles, o cardeal legado e o arcebispo de Cápua vieram visitar Santo Tomás. Ele, por sua vez, foi recebê-los no claustro, mas no caminho, ficou tão absorto na solução de uma dificuldade teológica que, quando chegou, tinha se esquecido dos afazeres e dos visitantes, e ficou como alguém que está sonhando. O arcebispo, que tinha anteriormente sido seu aluno, assegurou ao cardeal que aqueles devaneios eram muito familiares para todos aqueles que conheciam os hábitos do santo. Essas distrações às vezes faziam-no insensível à dor, como quando uma vela queimou sua mão enquanto ele permanecia absorto, inconsciente do fato.

A vida austera de Santo Tomás e seus incessantes trabalhos aumentaram a delicadeza natural de sua constituição, e fizeram com que ele freqüentemente caísse doente. Contudo, isso não pareceu tê-lo feito desistir de seu trabalho de composição. Cirurgias eram mal feitas no século XIII, e sua extrema sensibilidade fizeram com que as operações lhe fossem ainda mais terríveis. Em uma ocasião, quando se viu obrigado a passar por uma cauterização, implorou ao enfermeiro para avisá-lo quando os cirurgiões viessem. Quando se deitou em seu leito, imediatamente entrou em êxtase, permanecendo imóvel enquanto sua carne era queimada com ferros em brasa.

Suas roupas eram sempre as mais pobres do convento e seu amor pela santa pobreza era tão grande que sua Summa Contra Gentiles foi escrita no verso de cartas antigas e em pedaços de papel. Em vão os soberanos pontífices insistiram que ele aceitasse o arcebispado de Nápoles e outras honras eclesiásticas juntamente com amplos rendimentos. Nada pôde abalar sua determinação de viver e morrer como um simples religioso, e eles foram obrigados a retirar suas propostas, não querendo afligir alguém tão caro para eles. Ele, que era o oráculo de seu tempo, amava pregar aos pobres e aos humildes, e é sabido que eles sempre o ouviam alegremente e com muito fruto para suas almas. Ele era cheio de compaixão pelas suas necessidades e fazia-lhes o donativo de suas próprias roupas para vesti-los.

 

11. Sua Humildade e Mansidão

A humildade sempre foi a virtude característica de Santo Tomás. Ele percebia tão perfeitamente a grandeza de Deus e sua própria insignificância que em um momento de intimidade, ele disse a um amigo: “Graças sejam dadas a Deus! Nunca meu conhecimento, meu título de doutor, nem nenhum dos meus atos acadêmicos despertaram em mim um único movimento de vanglória sequer. Se algum movimento tiver sido despertado, a razão instantaneamente o reprimiu”. Da humildade brotava a extrema modéstia na expressão de sua opinião. Nunca, no calor de um debate ou em qualquer outra ocasião, se soube que ele tenha perdido a imperturbável serenidade de temperamento, ou que tenha dito alguma palavra que pudesse ferir os sentimentos de alguém, e ele suportou os mais incisivos insultos com uma calma igualmente imperturbável. Sua vida é cheia de exemplos de seu espírito de humildade e obediência religiosa. Uma vez, ainda como um jovem religioso, quando estava lendo no refeitório de Paris, o corretor oficial lhe pediu para pronunciar uma palavra de um modo evidentemente incorreto. Santo Tomás obedeceu e pronunciou a quantidade errada. 9 Quando lhe perguntaram como ele consentiu em um engano tão óbvio, ele respondeu: “Pouco importa se uma sílaba seja longa ou breve, mas muito importa que se pratique a humildade e a obediência”. Anos mais tarde, quando o santo estava ensinando em Bolonha, um irmão leigo obteve a licença do prior para tomar como companheiro o primeiro irmão religioso que encontrasse livre. Vendo Santo Tomás, que era um estranho para ele, subindo e descendo no claustro, foi em direção a ele dizendo que o prior queria que ele o acompanhasse pela cidade, onde tinha negócios a realizar. O santo, embora coxeando e estando perfeitamente consciente de que o leigo estava enganado, imediatamente obedeceu ao chamado e foi mancando pela cidade atrás de seu companheiro, que de vez em quando reclamava de sua lentidão. Quando o leigo descobriu seu engano, desculpou-se copiosamente, mas o santo respondeu: “Não se incomode, meu caro irmão. Eu sou o culpado. Apenas sinto muito de não ter podido ser mais útil”. Para aqueles que perguntaram o porquê de ele não ter explicado o engano, ele deu esta preciosa resposta: “A obediência é a perfeição da vida religiosa; por ela, o homem se submete ao seu próximo por amor a Deus, como Deus fez-se a si mesmo obediente aos homens para a salvação deles”.

A Santo Tomás, custava-lhe acreditar que os outros pudessem ser maus. Sempre achava que todos eram melhores que ele, mas quando era provada uma falta e não havia possibilidade de dúvida, chorava como se ele mesmo a tivesse cometido, e seu zelo exigia que a falta fosse severamente corrigida, de acordo com o que dizia Santo Agostinho: “com caridade para com o pecador, mas com ódio ao pecado”.

Certa vez, um dos irmãos o pressionou a dizer qual a maior graça que já tinha recebido de Deus – com exceção da Graça Santificante. Após alguns minutos de reflexão, ele respondeu: “Penso que ter entendido tudo o quanto tenho lido”. Ele lembrava-se de tudo que ouvia apenas uma vez, de modo que sua memória era como uma biblioteca muito bem abastecida. Freqüentemente, escrevia e ditava ao mesmo tempo assuntos distintos a três ou quatro secretários, e nunca perdia o fio dos argumentos.

 

12. Sua Vida Diária e suas Devoções

Algumas informações sobre o modo como Santo Tomás passava seus dias foram preservadas. Depois do tempo absolutamente necessário de sono, ele levantava durante a noite e descia à igreja para rezar, retornando à cela pouco antes de os sinos tocarem para as Matinas, de modo que sua vigília passasse despercebida. Então descia novamente para o Ofício com a comunidade, sempre prolongando sua oração até a aurora. Após se preparar para a penitência, a Confissão e a meditação, ele celebrava a primeira Missa, e em ação de graças ouvia outra Missa na qual sempre servia. Compôs orações para todas as suas ações diárias, algumas das quais ainda são preservadas. Na Elevação, era seu costume repetir as palavras “Vós, ó Cristo, sois o Rei da Glória” com os últimos versos do Te Deum. Embora licitamente dispensado de comparecer ao coral devido aos seus trabalhos de ensino e escrita e às numerosas visitas dos que procuravam sua orientação, ele assistia com os irmãos todas as horas do Ofício Divino, e sempre derramava lágrimas de devoção.

Quando seus exercícios matinais terminavam, ele dava suas aulas de Teologia ou sobre as Sagradas Escrituras, e depois voltava para sua cela para escrever e ditar até a hora do jantar. Comia uma vez por dia apenas, e não se importava com o que era servido. Na verdade, no refeitório, ficava tão absorto em oração e em pensamentos que não percebia as coisas externas, tanto que mudavam seu prato, ou retiravam sua comida e ele não se dava conta. Depois do jantar, conversava um pouco com os irmãos, e em seguida reanimava sua alma com uma pequena leitura espiritual, sendo as Conferências de Cassiano seu livro favorito10. Após um pequeno repouso, retomava seus trabalhos, e terminava o dia cantando no coral o Salve Regina nas Completas.

O Doutor Angélico era cheio de devoções singelas a Nossa Senhora. Seu confessor, o padre Reginaldo, declarou que Santo Tomás nunca havia pedido algo através da Virgem Maria que não tivesse obtido, e o próprio santo atribuía especialmente à sua intercessão a graça de viver e morrer na Ordem Dominicana, conforme seu sincero desejo. Durante toda uma Quaresma, ele pregou sobre as palavras “Ave Maria”, e as mesmas amadas palavras podem ser encontradas repetidas vezes nas margens de seu próprio manuscrito da Suma Contra os Gentios, recentemente descoberto na Itália. Em seu leito de morte ele confidenciou ao padre Reginaldo que Nossa Senhora tinha lhe aparecido diversas vezes e lhe assegurou do bom estado de sua alma, e da solidez de sua doutrina. Os santos Apóstolos São Pedro e São Paulo também o favoreceram com suas visitas e lhe explicaram difíceis passagens da Sagrada Escritura. As epístolas de São Paulo eram suas matérias favoritas de meditação, e ele costumava recomendá-las aos outros para o mesmo propósito. Tinha uma devoção especial a Santo Agostinho, e a partir das obras desse santo Doutor, compôs o Ofício próprio, ainda em uso na Ordem Dominicana. Santo Tomás costumava usar em volta do pescoço uma relíquia da virgem e mártir Santa Inês, da qual fez uso certa vez para curar o padre Reginaldo de uma febre que o atacou em uma viagem a Nápoles, e é dito que a partir daquele momento, o Santo Doutor resolveu celebrar a festa de Santa Inês com solenidade especial e – com um caráter natural que demonstrava compaixão humana – servir um jantar melhor no refeitório naquele dia.

“Seu admirável conhecimento”, dizia o padre Reginaldo, “era devido muito menos ao seu gênio do que à eficácia de sua oração. Antes de estudar, entrar em uma discussão, ler, escrever ou ditar, ele sempre se entregou à oração. Rezava com lágrimas para obter de Deus o conhecimento de seus mistérios, e uma luz abundante era concedida a sua mente”. Se ele encontrava alguma dificuldade, juntava jejum e penitência à sua oração, e todas as dúvidas eram esclarecidas. Certa vez, São Boaventura, vindo visitá-lo, viu um anjo auxiliando-o em seus trabalhos.

Entre suas notáveis palavras, pode ser mencionada a resposta que ele deu à irmã quando ela lhe perguntou o que deveria fazer para se tornar santa. “Velle”, respondeu ele – i.e., “Querer”. Ao lhe perguntarem quais eram os sinais de perfeição da alma, ele respondeu: “Se eu visse um homem afeiçoado a conversas frívolas, desejoso de honra e relutante em ser desprezado, eu não acreditaria que fosse perfeito, ainda que o visse obrar milagres”.

 

13. Sua Morte

Na festa de São Nicolau, no dia 6 de Dezembro de 1273, Santo Tomás estava rezando a Missa na capela do santo no convento de Nápoles, quando recebeu uma revelação que o mudou de tal maneira, que a partir daquele momento, não pôde mais nem escrever, nem ditar. Pouco depois, em resposta às prementes súplicas do padre Reginaldo, ele disse: “Chegou o termo de meus labores. Depois de tudo o que me foi revelado, tudo o que escrevi até hoje me parece apenas palha. Espero na misericórdia de Deus que o fim de minha vida possa em breve seguir o termo de meus trabalhos.”

Sofria de uma doença quando recebeu um chamado do papa para comparecer ao Concílio Geral convocado em Lião para a reunião das Igrejas Grega e Latina. 11 O santo, portanto, partiu de Nápoles, acompanhado do irmão Reginaldo e alguns outros frades em 28 de Janeiro de 1274. No caminho, piorou muito. “Se Nosso Senhor estiver prestes a me visitar”, disse aos companheiros, “é melhor que Ele me encontre em uma casa religiosa do que em meio aos seculares”.

Como não estava próximo de nenhum convento dominicano, rendeu-se ao premente convite de alguns colegas cistercienses e deixou que o levassem para a Abadia de Fossa Nova. Chegando lá, foi direto para a igreja adorar o Santíssimo Sacramento, e em seguida, ao passar pelo claustro, exclamou: “Aqui é o lugar do meu repouso eterno!” Foi instalado na cela do próprio abade e esperou com a mais extrema caridade. Os próprios monges foram cortar lenha para lhe acender uma fogueira. Ao vê-los trazendo aquela carga para sua cela, o santo gritou: “Por qual razão devem os servos de Deus servir a um homem como eu, trazendo de longe tão pesados fardos?”

Em observância às diligentes súplicas dos cistercienses, ele começou a explicá-los o Cântico dos Cânticos, mas não viveu para completar sua exposição. Como se aproximasse seu fim, ele, com muitas lágrimas, fez uma confissão geral de toda sua vida ao padre Reginaldo, e então pediu para deitar-se sobre cinzas no chão quando lhe foi trazido o Santo Viático. Ao contemplar o Santíssimo Sacramento, colocou-se de joelhos e disse em clara e distinta voz, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto: “Recebo-Vos, ó preço da redenção da minha alma; recebo-Vos, ó viático da peregrinação de minha alma, por amor de quem eu tenho estudado, observado, trabalhado, pregado e ensinado. Escrevi muito, e freqüentemente discuti os mistérios de Vossa lei, ó meu Deus. Vós sabeis que não desejei ensinar nada salvo o que aprendi de Vós. Se o que escrevi for verdadeiro, aceitai-o como uma homenagem à Vossa infinita majestade; se for falso, perdoai minha ignorância. Consagro-Vos tudo o que já fiz e submeto tudo ao julgamento infalível de Vossa Santa Igreja Romana, em cuja obediência estou prestes a partir desta vida”.

Pouco antes de receber a Sagrada Hóstia, pronunciou sua jaculatória favorita: “Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória, Vós sois o Filho Eterno do Pai”. Após receber o Santo Viático, ele fez fervorosos atos de fé e amor nas palavras de seu belíssimo Adoro te. No dia seguinte, ao receber a Extrema Unção, respondia calmamente todas as orações, enquanto as vozes dos assistentes eram atravancadas por soluços. Tentou confortar seus irmãos, que estavam inconsoláveis com a perda que se aproximava, e muito agradeceu aos cistercienses por sua caridade. Um deles lhe perguntou qual era a melhor maneira de viver sem ofender a Deus. “Esteja certo”, respondeu o santo, “que aquele que caminha na presença de Deus e está sempre pronto a dar a Ele contas de seus atos nunca se separará Dele pelo pecado”. Essas foram suas últimas palavras. Logo em seguida, entrou em agonia e expirou tranqüilamente em 7 de março de 1274, não tendo ainda completado cinqüenta anos.

No mesmo dia, Santo Alberto, então em Colônia, rompeu em lágrimas na presença de toda a comunidade e exclamou: “Irmão Tomás de Aquino, meu filho em Cristo, que foi a luz da Igreja, está morto! Deus revelou-mo.”

Em Nápoles, também, agradou a Deus tornar conhecida a morte do santo de uma maneira milagrosa. Um dos frades, enquanto rezava na igreja, entrou em um êxtase no qual pareceu contemplar o Santo Doutor ensinando nas escolas, rodeado de uma grande multidão de discípulos. São Paulo Apóstolo também apareceu acompanhado de muitos santos, e Santo Tomás perguntou-lhe se tinha interpretado suas Epístolas corretamente. “Sim”, respondeu o Apóstolo, “até onde alguém ainda na terra pode entendê-las. Mas vem comigo; eu te conduzirei a um lugar onde terás um conhecimento ainda mais claro de todas as coisas”. O Apóstolo, então, pareceu tocar o manto de Santo Tomás e levá-lo, e o frade que contemplara a visão surpreendeu a comunidade ao gritar três vezes em alta voz: “Ai de nós! Ai de nós! Nosso Doutor está sendo levado de nós!”

 

14. Honras Após Sua Morte

O funeral de Santo Tomás foi realizado na Abadia com grande solenidade. Padre Reginaldo fez um breve discurso, freqüentemente interrompido por seus próprios soluços e pelos de seus ouvintes. Ele declarou que, tendo sido por muitos anos o confessor de Santo Tomás, podia solenemente atestar que o Santo Doutor nunca tinha perdido sua inocência batismal, e tinha morrido tão puro e livre de mácula como uma criança de cinco anos de idade. Ele então revelou alguns favores particulares que Santo Tomás lhe tinha proibido revelar durante sua vida.

Muitas revelações da glória do santo deram-se após sua morte, das quais a que se segue talvez seja uma das mais interessantes: um fervoroso discípulo seu orou ardentemente para que pudesse saber qual a categoria a que seu amado mestre tinha sido elevado em glória. Um dia, enquanto fazia suas preces usuais diante do altar de Nossa Senhora, dois veneráveis personagens cercados de uma maravilhosa luz pararam de repente diante dele. Um deles estava vestido como um bispo; o outro usava o hábito de um frade pregador, mas estava resplandecente com pedras preciosas. Em sua cabeça estava uma coroa de ouro e diamantes, de seu pescoço pendiam duas correntes, uma de ouro, outra de prata, e uma joia na forma de um sol brilhava sobre seu peito, vertendo raios de luz por toda parte. “Deus ouviu tua oração”, disse o primeiro personagem. “Eu sou Agostinho, Doutor da Igreja, enviado para te comunicar a glória de Tomás, que reina comigo e que iluminou a Igreja com seu conhecimento. Isso é representado pelas pedras preciosas com as quais ele está coberto. Isto que brilha em seu peito significa a reta intenção com a qual ele defendeu a Fé; as outras simbolizam os livros e escritos que ele compôs. Tomas é igual a mim em glória, mas excedeu-me pela auréola da virgindade.”

Santo Tomás foi canonizado pelo papa João XXII em 1323 na cidade de Avignon. Apenas em 1367 os dominicanos conseguiram obter a posse de seu corpo, que foi levado para o convento de Toulouse, onde foi recebido com todas as demonstrações de honra. Uma festividade anual foi realizada pela ordem em 28 de janeiro, em memória dessa transladação, que foi acompanhada de muitos milagres. Porém, em 1923 foi suprimida em favor da nova festa do Patrocínio de Santo Tomás, em 13 de novembro. Valiosas relíquias do santo foram dadas a vários conventos da ordem. Na época da Revolução Francesa, os restos mortais do santo foram removidos para a cripta da igreja de São Saturnino em Toulouse, onde ainda repousam.

Em 1567, São Pio V conferiu a Santo Tomás o título de Doutor da Igreja, sendo conhecido como “o Doutor Angélico” devido à sua inocência e sua inteligência. Na carta encíclica Aeterni Patris (1879), o Papa Leão XIII instou a restauração do ensinamento de Santo Tomás em todas as escolas, e por um Breve apostólico (1880), o mesmo Pontífice nomeou Santo Tomás de Aquino como Patrono de todas as universidades, academias, colégios e escolas católicos. Para o louvor de seus predecessores, o Papa Pio XI adicionou o toque final ao declarar que o Doutor Angélico merecia o esplêndido título de “Doutor Universal da Igreja” (29 de junho de 1923).

“Assim como foi dito aos antigos egípcios em tempos de fome: ‘Ide a José’ para receberem dele abundância de trigo e nutrirem seus corpos, assim também hoje nós dizemos a todos que desejam a verdade: ‘Ide a Tomás, e pedi a ele que vos dê de sua abundância o alimento da doutrina substancial com a qual podeis nutrir vossas almas para a vida eterna.’” (Da encíclica Studiorum Ducem do Papa Pio IX, 29 de Junho de 1923)

O dia da festa tradicional de Santo Tomás de Aquino é 7 de março.

 

***

 

Oremos:

Ó Deus, que ilustrais a Igreja com a admirável ciência do bem-aventurado Tomás, Vosso Confessor e Doutor, e a fecundais com a santidade de suas virtudes, concedei-nos a graça de compreender o que ele ensinou e de fielmente imitar o que ele fez. Por nosso Senhor Jesus Cristo12.

R/ Amém.

 

(St. Thomas Aquinas, Saint Benedict Press, LLC 2009)

  1. 1. [N. da T.] O Condado de Aquino pertencera à família de Santo Tomás até o ano de 1137.
  2. 2. Por isso, a devoção popular a Santo Tomás o coloca como padroeiro contra trovoadas e morte repentina. São bentas cruzes contra relâmpagos, trazendo de um lado a imagem do Santo e do outro, uma inscrição em latim que ele deixou escrita na parede de uma caverna em Anagni, onde ele mais de uma vez se refugiou durante as trovoadas. Esta é uma tradução da inscrição: “A Cruz para mim é a certeza da salvação. A Cruz é o que eu sempre adoro. A Cruz do Senhor está comigo. A Cruz é meu refúgio.”
  3. 3. [N. da T.] O imperador era Frederico II da Germânia, neto de Frederico I e primo de Santo Tomás, que governou o Sacro Império Romano-Germânico entre os anos de 1220 e 1250.
  4. 4. [N. da T.] Os Quatro Livros das Sentenças (Libri Quattuor Sententiarum), escrito do bispo e teólogo Pedro Lombardo, são uma compilação de textos bíblicos e sentenças de Padres da Igreja e outros pensadores que expõe de maneira detalhada toda a teologia cristã da época. Santo Tomás escreveu um comentário a essa obra – Scriptum super sententiis.
  5. 5. No século XVI, foi estabelecida uma confraria chamada “Milícia Angélica”, para obter através da intercessão de Santo Tomás de Aquino a virtude da castidade. Essa confraria foi enriquecida com muitas indulgências.
  6. 6. [N. da T] Corria o ano de 1244, e o papa era Inocêncio IV.
  7. 7. [N. da T.] O papa a essa época era Alexandre IV.
  8. 8. [N. do E.] A Editora Permanência promoveu a digitação integral da Suma Teológica, bem como traduziu e publicou os Sermões sobre o Pai Nosso e a Ave Maria, sobre o Credo e sobre os Dez Mandamentos. Com exceção deste último, estão todos no nosso site: www.permanencia.org.br
  9. 9. [N. do E.] Quantidade de uma vogal ou de uma silaba é a maior ou menor duração de sua pronúncia. Em latim, a pronúncia da vogal ou sílaba longa dura o dobro da pronúncia da vogal ou silaba breve.
  10. 10. [N. da T.] São João Cassiano (360-435) foi teólogo e monge, ordenado diácono por São João Crisóstomo, de quem se tornou amigo e defensor quando este foi perseguido pela imperatriz Eudóxia e levado a exílio. São Bento recomendou a leitura de suas Conferências a todos os monges.
  11. 11. [N. da T.] Esse Concílio, o Segundo Concílio de Lion, foi convocado em março de 1272 e reunido nessa cidade dois anos depois, em 1274, pelo Papa Gregório X.
  12. 12. [N. do E.] Oração retirada do Missal de Gaspar Lefebvre.

Introdução à festa do Nascimento do Senhor

O Verbo desde toda a eternidade gerado pelo Pai elevou à união pessoal com Ele o fruto bendito do seio virginal de Maria; quer dizer que a natureza humana e a natureza divina se ligaram em Jesus na unidade duma só pessoa que é a segunda da Santíssima Trindade e visto que quando se fala de filiação é a pessoa que se designa, deve dizer-se que Jesus é o Filho de Deus, porque a sua Pessoa é divina: É Verbo incarnado. Daqui se segue que Maria é com razão chamada Mãe de Deus, não porque ela tenha gerado o Verbo, mas porque gerou a humanidade que o Verbo uniu a Si no mistério da Incarnação. Compreendemos então que a Igreja cante na Missa o solene Intróito: “Tu és meu Filho, hoje Te gerei”.

Filho eterno do Pai, constantemente gerado por Ele na eternidade, Cristo continua a sê-lO no dia do seu nascimento sobre a Terra, revestido da nossa humanidade. É no meio da noite que Maria dá à luz o Filho divino e O coloca no presépio. Por isso celebra-se a Missa à meia noite, e a estação faz-se na Basílica de Santa Maria Maior, no altar onde se conservam as relíquias do presépio.

Este nascimento de Cristo em plena noite é simbólico: “Deus nascido de Deus, Luz nascido da Luz” (Credo), Cristo dissipa as trevas do pecado; “É a verdadeira luz” cujo esplendor ilumina os olhos da nossa alma, para que, enquanto conhecemos a Deus de uma maneira visível, por Ele sejamos arrebatados ao amor das coisas invisíveis. Veio arrancar-nos à impiedade e aos prazeres do mundo e ensinar-nos a merecer, pela dignidade da vida neste mundo, a feliz esperança que nos foi prometida. Será em plena luz que se realizará a vinda da glória de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Natal, é a aparição na noite do mundo da Luz divina, cujo fulgor, em nós, e em volta de nós, se estende até ao fim dos tempos.

 

Do Evangelho: Por que, pergunta São Gregório, esse recenseamento, no momento do nascimento do Senhor, senão para nos dar a entender que é a aparição na carne d’Aquele que, um dia, deve recensear na eternidade os seus eleitos? (Matinas). O aparecimento do Homem Deus durante a noite é a figura da sua vinda no fim do mundo. Di-lo o próprio Jesus: No meio da noite far-se-á ouvir um clamor. Eis que vem o Esposo, ide ao seu encontro e as almas que tiverem esperado por Ele entrarão para as bodas eternas, enquanto que às outras dirá: Não vos conheço (parábola das dez virgens).

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Dois capítulos de "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'"

[Nota da Permanência: apresentamos a seguir dois capítulos do livro "Vendéia 1793 - Uma família de 'bandidos'". Trata-se de uma história real. A Sra. Marie de Sainte Hermine narra o que viu e viveu ao lado dos seus parentes durante a Guerra da Vendeia e o Terror Revolucionário. Um livro imperdível à venda na nossa livraria ]

 

Capítulo XXV

A prisão de Geneviève

Depois da batalha que entregou Fougères ao exército católico, a cavalaria vendeana, da qual o Marquês de Sérant e Jacques Bureau faziam parte, perseguiu vigorosamente os republicanos. Duas horas depois, ao regressarem ao povoado, cruzaram com o sr. Henri que saía pela estrada de Rennes para examinar as posições onde seria aconselhável estabelecer as tropas, caso o inimigo fizesse um retorno ofensivo. O Generalíssimo, de quem meu cunhado era então ajudante de ordens, lhe pediu que o acompanhasse com alguns cavaleiros para servir-lhe de escolta. Jacques Bureau, é claro, seguiu seu mestre.

A viagem do sr. de La Rochejaquelein continuou por várias horas, e Arthur só pôde retornar a Fougères tarde da noite.

Enquanto ele galopava pelo campo com o sr. Henri, Geneviève era tomada por uma mortal inquietude. Fazia muito tempo que a batalha havia terminado e o seu marido não havia retornado, ele que sempre voltava imediatamente para ela, depois de cada ação, para livrá-la de suas angústias!

Ansiosa, ela questionava todos os cavaleiros que encontrava; ninguém podia lhe dizer o que havia acontecido com o sr. de Sérant.

Sem poder aguentar mais, procurou Pierre Bureau. Meu cunhado lhe tinha dado a responsabilidade especial de zelar pela segurança de sua esposa; assim, o rapaz, fora dos dias de batalha, estava sempre a seu serviço. “Venha comigo”, disse-lhe ela, “o sr. de Sérant ainda não voltou e nem o seu irmão. Estou em uma inquietude mortal. Foi na direção de Avranches que eles perseguiram o inimigo: devo ir ao seu encontro”.

Pierre logo atrelou Fauvette e Mignon, e alguns minutos depois, Geneviève e seu pajem estavam deixando a cidade.

Vocês sabem que laços recíprocos de apego respeitoso e afeto maternal uniam o filho dos Bureau e a jovem Marquesa de Sérant. Há vários dias que ela procurava uma ocasião favorável para lembrar a esse jovem da horrível vingança que ele havia exercido contra Urbain, e tentar inclinar seu coração ao arrependimento.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela lhe disse suavemente:

– Você sabia, meu amigo, que eu estava com muito medo por você durante a batalha de Laval?

– Verdade? minha senhora; e por quê?

– Porque, meu pobre jovem, você cometeu, há duas semanas, um grande pecado ao atentar uma atroz vingança ao seu inimigo... você pediu perdão ao bom Deus?

– Oh! sim, senhora marquesa. Veja, no primeiro momento, eu estava loucamente perdido. Eu dizia assim: “Foi bem-feito, mesmo assim... Você vingou o pai e Joséphine!”. E aí, depois, me remoeu a consciência. Então eu falava assim: “Mas se o bom Deus te pegasse, te levaria sei lá pra onde!”. E então os rapazes lá de casa quase deram as costas para mim! “Você não agiu como um bom cristão”, me disseram. “Isto é verdade”, eu disse a eles. Mas senhora, eu perdi a cabeça; eu via tudo vermelho, tudo vermelho... mas eu sinto muito por isso, agora! Então, quando vi que íamos pegar os Azuis de novo, disse: “Isso não; temos que nos limpar”. Daí que fui procurar o vigário de Liré, a senhora sabe muito bem, o padre Rochard, que veio para junto da gente, e eu falei tudo para ele... no momento, não sobrou nada. Não desejo isso para ninguém. Sem isso, veja bem, não estaria no pensamento de Deus de nos perdoar.

– Você fez bem, meu rapaz – respondeu Geneviève sorrindo com a ingenuidade da confissão. – Agora vou ficar tranquila em relação a você. Se você morrer, sua alma, pelo menos, será salva.

– Claro, minha senhora. Nos dias de hoje, é quase melhor ir para o bom Deus do que ficar por aqui, com tantas pessoas más que existem.

No entanto, nossos dois cavaleiros haviam avançado até o ponto em que a perseguição ao inimigo havia cessado e todas as suas buscas foram infrutíferas. Cada vez mais perturbada, minha irmã decidiu voltar para a cidade, na esperança de que seu marido tivesse voltado durante sua ausência.

Após alguns momentos ela cavalgou em direção a Fougères. De repente, enquanto ela seguia um caminho entre dois arbustos, balas assobiaram em seus ouvidos e clamores ecoaram à direita e à esquerda. Alguns segundos depois, uma dúzia de hussardos republicanos avançou, de sabre em punho, sobre a jovem e seu criado.

Pierre se defendeu com raiva e, sob seus furiosos golpes, quatro cavaleiros inimigos comeram terra; mas finalmente, sucumbindo ao número, o heroico rapaz, coberto de feridas, caiu por terra, morrendo. Os republicanos então se lançaram sobre Geneviève que, certamente, teria sofrido o mesmo destino, se não fosse a intervenção do oficial que comandava o destacamento e que obrigou seus soldados a recolocar o sabre na bainha. Então ele se aproximou da minha irmã, ajudando-a a desmontar: “Quem é você, cidadã?”, ele perguntou asperamente.

“Antes de responder, senhor”, respondeu Geneviève em tom suplicante, “rogo-lhe que me permita socorrer este jovem que acabou de dar sua vida para me defender”. Ela apontou para Pierre Bureau, que, estendido no meio da estrada, com o peito perfurado pelos golpes do sabre, estava a ponto de expirar. “Que seja!”, disse friamente o oficial.

Minha irmã apressou-se em tirar proveito da permissão e, correndo em direção ao ferido, levantou-o delicadamente nos braços, com a ajuda de um hussardo republicano e deitou-o na grama ao pé de um carvalho, a poucos passos de distância do lugar onde ele havia caído. O jovem vendeano parecia ter perdido a consciência.

– Você pode me ouvir, meu querido? – disse-lhe ela; sou eu, sua senhora, que estou perto de você para cuidar e curar você, se isso agradar a Deus.

Pierre abriu os olhos e olhou para Geneviève com uma expressão de amargo pesar:

– Oh! Perdoe-me, senhora marquesa – disse ele com esforço; desculpe por ter defendido a senhora tão mal e por deixá-la nas mãos desses miseráveis! O que vai pensar o Pai, lá em cima, quando descobrir que não consegui salvar minha boa senhora? Ele não ficará contente comigo!

– Deixa disso, meu pequeno Pierre, e pense apenas no bom Deus.

Mas a mesma preocupação ainda o obcecava. Geneviève então, entrando nos pensamentos ingênuos do jovem, disse sorrindo, para acalmá-lo:

– Se seu pai te repreende, diga-lhe de minha parte que você se comportou muito bem, que você me defendeu corajosamente e que ele pode se orgulhar de você. Está mais tranquilo agora?

– Oh! sim, senhora marquesa – disse o jovem ferido, que, com tal garantia, acalmou-se repentinamente.

– Você se arrepende de seus pecados, não é?

– Oh! lá, sim.

– Porque você ama a Deus de todo o coração?

– Com certeza, minha senhora.

– Você perdoa seus inimigos?

– Ah sim, para agradar ao bom Jesus.

– Vá então para o céu, meu filho; invejo o teu destino, porque todos os teus males vão acabar. Reze por nós lá em cima, para que Deus tenha misericórdia de nós também.

Pierre estava visivelmente abatido; a morte era iminente.

– Oh! senhora...  marquesa – sussurrou novamente; eu teria mesmo muito prazer em vê-la bem longe daqui... vou pedir isso ao bom Deus!

O jovem vendeano acabara de expirar. Geneviève fechou seus olhos; então, depois de ter dito uma curta e fervorosa oração junto ao cadáver, ela se levantou e aproximou-se do comandante republicano, que parecia muito comovido: “Eu vos agradeço, senhor”, disse-lhe ela.

O oficial azul olhou para ela com uma expressão de pena muito nítida. Era um velho capitão, de quarenta e cinco a cinquenta anos, cujo heroico bigode não conseguia esconder por muito tempo sua boa índole. Geneviève entendeu que não havia caído nas mãos de um inimigo cruel e essa constatação a tranquilizou um pouco.

A um sinal de seu líder, os hussardos afastaram-se e permaneceram distantes, fora da escuta; por isso foi em tom bastante ameno e, por assim dizer, paternal, que se deu o interrogatório.

– Qual é o seu nome, senhora? – O oficial perguntou suavemente.

A jovem não tinha nada a esconder; seu crime era evidente.

– Geneviève de Sérant – respondeu num tom digno e simples. O comandante estremeceu.

– Pobre jovem!... – Ele suspirou. – Perdoe-me, senhorita... ou senhora, visto esse nome familiar... – retomou depois de um momento. – Eu sou pai, você vê; tenho uma filha que deve ter a sua idade. Ela fica lá no Sul e teme muito pela vida do seu velho papai... eu queria te salvar, acredite; mas infelizmente! meus hussardos são patifes perfeitos que me denunciariam e eu entregaria a minha cabeça se deixasse você escapar. Aqui está tudo o que posso fazer: você montará em seu cavalo e nos seguirá até Rennes. Lá, vou entregá-lo ao Representante da Convenção, delegado para assuntos departamentais. Ele não é um homem tão ruim... ele já fez favores... a algumas pessoas... espero que ele poupe sua vida. Vou defender seu caso calorosamente, mas não há nada mais que eu possa fazer.

Geneviève agradeceu tristemente.

– Não quero que o senhor se exponha por mim, e rezarei a Deus para que recompense sua boa vontade.

Por ordem do capitão, os hussardos montaram a cavalo e se prepararam para partir. Geneviève subiu em Fauvette, cuja sela estava firmemente presa, à direita e à esquerda, à sela de dois cavaleiros. Mignon, o cavalo do pobre Pierre, foi mantido na coleira por um dos homens da escolta.

 

 

Capítulo XXVI

Pobre Geneviève

Eram cerca de cinco da tarde quando a tropa retomou a marcha. Por volta das oito horas ela chegou à aldeia de Sainte-Luce, situada a meio caminho entre Rennes e Fougères. O capitão Bernard – esse era o nome do oficial Azul – percebendo que sua prisioneira estava tomada pelo cansaço e pela dor, quis dar a ela um pouco de descanso. “Vamos passar a noite nesta aldeia”, disse ele, “e amanhã de manhã terminaremos nossa jornada”.

Os hussardos apearam e seu líder bateu à porta da casa mais próxima. Era a casa de uma corajosa camponesa chamada Jeanne Robin, que desde sua viuvez morava lá com o pequeno Jean-Marie, seu único filho, com mais ou menos dez anos. À primeira palavra que o senhor Bernard lhe disse, mostrou-se bastante disposta a dar comida e abrigo à vendeana, cuja tristeza e cansaço lhe estimularam sobremaneira a piedade.

Antes de deixar a prisioneira aos cuidados de sua anfitriã caridosa, o capitão lembrou-lhe que ela teria que partir cedo no dia seguinte porque ele deveria chegar a Rennes antes do meio-dia e acrescentou: “Sou obrigado a confiscar seus cavalos. Eles são boas presas. Mas não quero levá-los comigo; pois são animais magníficos e o representante certamente os atribuiria a si mesmo, embora eles sejam propriedade de meu regimento. Portanto, vou deixá-los nesta aldeia, e vou levá-los de volta depois de amanhã à noite, de passagem”.

Como essa declaração pareceu afetar Geneviève, ele continuou: “Claro que a senhora não vai viajar a pé; vai montar de garupa atrás de mim. Meu dever me obriga”, acrescentou retirando-se, “a colocar uma sentinela em cada uma das portas desta casa, na rua da aldeia e para o lado dos campos. Lamento, senhora, o rigor das instruções, mas não posso evitar”.

Esse capitão Bernard, que certamente não era um homem mau, sem dúvida tinha uma forte dose de ingenuidade. Sua prisioneira percebeu isso rapidamente e como ela não podia esperar que ele a entregasse pura e simplesmente em liberdade, dada a pusilanimidade de caráter do oficial azul, ela decidiu, ao menos, aproveitar-se da simplicidade do bom homem para tentar alertar Arthur do perigo que a ameaçava.

Assim que o sr. Bernard desapareceu, a viúva Robin, posta por Geneviève a par da situação, expressou-lhe, em palavras simples e comoventes, a simpatia que seu triste destino lhe inspirava. A excelente mulher apressou-se em preparar-lhe o jantar e a pôr à disposição o único quarto de seu pobre alojamento.

– Meu filho e eu dormiremos no sótão – disse ela; e como Geneviève se opunha, ela continuou:

– Estamos felizes por poder vos servir. Nós também somos monarquistas nesta aldeia; mas o que podemos fazer, quando há tantos iníquos ao nosso redor?

– Bem, minha boa amiga – exclamou Geneviève, muito feliz por ver sua anfitriã com tão boas disposições – talvez você possa me prestar um imenso serviço... seria para levar o quanto antes a Fougères, algumas palavras que escreverei a lápis, se não tiver tinta para me dar. É para meu marido que está no acampamento dos vendeanos (se ele ainda estiver neste mundo!). Você conhece alguém que aceitaria levar minha carta?

Jeanne Robin refletiu por alguns momentos e disse:

– Eu posso ajudá-la. Agora é impossível sairmos daqui; as sentinelas nos impediriam; mas amanhã de manhã, assim que vocês forem embora, meu pequeno Jean-Marie levará seu recado – e ela apontou para seu filho, um garotinho afável e esperto que estava sentado na lareira e olhando para a estranha com seus grandes olhos meio escondidos por uma floresta de cabelos loiros.

– Você tem certeza? – disse Geneviève; uma criança dessa idade ir tão longe!

– Acho que a senhora faria bem em aceitar mesmo assim – respondeu Jeanne Robin. – Meu Jean-Marie não é robusto; mas senhora! ele é um rapazinho que vale por dois – acrescentou ela com doce orgulho. – Se a senhora visse como ele conduz seu burro até o mercado de Saint-Aubin-du-Cormier! E depois, as crianças... não se presta atenção neles; passam para todo lado... não é, meu Jean-Marie? – continuou, se dirigindo ao lourinho que estava ouvindo com todos os seus ouvidos – não é verdade, meu menino, que você irá, no burro, a Fougères, levando uma carta da senhora para o marido?

– Sim, mamãe – respondeu a criança com voz clara e confiante.

– Você vai dizer assim....

– Diga-nos, por favor, senhora, o nome do seu marido.

– Marquês de Sérant – disse Geneviève. – Aliás, vou colocar o nome sobre o endereço, e a criança, se não souber ler, pode mostrar ao primeiro soldado da Vendéia que encontrar.

– Como quiser, senhora – respondeu a boa mulher; mas Jean-Marie não esquecerá o nome. É só ouvir alguma coisa e isso fica para sempre na sua cabeça. Vamos, Jean-Marie, diga à senhora o que você vai fazer amanhã de manhã, quando os soldados tiverem partido.

A criança se levantou; seus olhos azuis brilhavam de coragem e orgulho.

– Vou vigiar os soldados amanhã – disse ele com sua voz perolada – e assim que eles forem embora, vou pegar Coco e correr direto sem parar para Fougères. Lá perguntarei pelo Marquês de Sérant e entregarei a ele a carta que a senhora vai escrever.

– Perfeitamente! meu pequeno amigo – exclamou Geneviève, acariciando os cabelos louros de Jean-Marie; vejo que posso ter total confiança em você. Se não encontrar o Marquês de Sérant, pergunte pelo general, sr. de La Rochejaquelein, e entregue-lhe a minha carta... você se lembrará?

– Oh! Sim senhora.

– Veja! – continuou dirigindo-se à mãe – certamente foi o bom Deus que me enviou a vocês.

Reanimada pela esperança de se comunicar com o marido, minha irmã concordou em comer um pouco; depois começou a preparar seu bilhete e como a viúva Robin não tinha nem tinta nem papel para lhe oferecer, ela rasgou uma folha de sua caderneta e escreveu a lápis.

Reencontrei essa carta entre os papéis que minha irmã me deu no mesmo dia de sua morte. Quase não está legível agora; mas eu a transcrevi há muito tempo.

Sainte-Luce (esse é o nome desta pequena aldeia),

5 de novembro, I793: 10 horas da noite

"Meu amado Arthur,

É a sua pobre Geneviève quem lhe escreve, de um pequeno quarto de camponês, numa aldeia remota, mais ou menos a meio caminho entre Rennes e Fougères. Como fui parar aqui? Parece-me que estou sonhando... vou explicar-lhe tão brevemente quanto possível; pois, no momento em que você receber essas linhas, seu tempo será precioso.

Ah! meu amigo, estou falando com você... e nem sei se você ainda está neste mundo e se este pequeno bilhete vai alcançá-lo! Minhas lágrimas cobrem meus olhos e mal consigo distinguir os caracteres que traço.

Imagine que, nesta tarde, devorada pela angústia de não ter te visto voltar depois do combate, resolvi ir ao seu encontro com Pierre Bureau. Surpreendida, no caminho, pelos hussardos republicanos, sou sua prisioneira agora, depois de ter visto o heroico jovem que me acompanhava, morrer sob seus golpes enquanto me defendia. Diga a Jacques que ele cumpriu valentemente seu dever e que morreu em meus braços como um bom cristão. Agora os republicanos vão me levar a Rennes, para me entregar ao representante em missão naquela cidade. Eu serei levada para a casa dele. Parece que às vezes ele nos poupa. Se ele não estiver bem-disposto, a morte me espera. Mas tenha coragem, meu amigo e confie na bondade de Deus. Ele lhe dará, não duvide, os meios para me salvar. Sei que assim que receber minha carta, você correrá para libertar sua esposa com toda sua audácia tantas vezes manifestada. Queira Deus ajudá-lo a conseguir e nos reunir novamente neste mundo!

Um detalhe importante: levaram minha querida Fauvette; deixaram-na aqui com Mignon e os republicanos devem retomá-los em três dias, ao passar de novo pela aldeia. Como você pode precisar das pernas dela para me tirar das garras desses inimigos cruéis, tente, portanto, libertar este pobre animal também. Minha boa anfitriã, que me cobre de atenções maternais, estará esperando por você amanhã, o dia todo, na estrada e lhe mostrará onde os republicanos puseram nossos cavalos.

Adeus, meu querido, meu amado marido; eu sei que dor imensa você sentirá quando souber que sua pobre esposa está nas mãos de tais bandidos. Julgo sua aflição por aquilo que eu mesmo sinto. No entanto, não torne as coisas piores. Até agora não fui maltratada e o líder da tropa que me leva é um bom homem que parece lamentar muito ter-me levado. Vendo meu cansaço e minha tristeza, ele me concedeu esta noite para descansar um pouco. Este sr. Bernard me parece possuir uma dose pouco comum de simplicidade. Foi graças a esta qualidade, preciosa para nós, nessas circunstâncias, que pude saber por sua própria boca o lugar para onde deveria ser levada, a hora da nossa chegada a Rennes (onze horas da manhã, acredito), e os outros detalhes que lhe dou.

Recompensa, por favor, meu mensageiro (um menino de dez anos). Ele pegará a estrada para encontrá-lo, mas só amanhã, depois que partirmos para Rennes; porque temos duas sentinelas à nossa porta, e a criança seria presa e minha carta tomada, se tentasse sair nessa noite. Adeus, à Deus.

Sua Geneviève, desolada, que espera por você.

 

No entanto, Jeanne Robin exortava minha irmã a repousar, o que lhe era tão necessário.

– Vamos minha senhora! – dizia alegremente – deves dormir, e imediatamente. Acho que, na próxima noite, seu marido terá feito sua parte e que os dois galoparão, virando as costas para a cidade de Rennes. Amanhã – acrescentou ela – vou esperar o dia todo na minha porta, para ver o seu senhor chegar. Já sei que levaram seus animais para a casa do François, o pedreiro, a dois passos daqui. Esse homem é um dos nossos amigos. Ele nos devolverá quando quisermos. E depois rezarei terços o dia todo, para que a Santíssima Virgem a tire dessa situação.

Geneviève agradeceu efusivamente à excelente mulher e lhe disse:

– Eu gostaria muito de recompensar sua generosidade e a de Jean-Marie; mas os republicanos tiraram minha bolsa e minha maleta... não tenho mais nada.

– Dinheiro para isso! – exclamou a boa mulher; não diga mais nada sobre isso, minha senhora, senão ficarei inteiramente zangada. Vamos! boa noite e durma bem; o quarto é seu: eu ficarei lá em cima com o meu filho. Até amanhã!

O dia tinha sido tão cansativo que Geneviève, apesar das preocupações, logo adormeceu profundamente. Esse descanso lhe fez um grande bem, e agora ela estava fortalecida pela esperança da libertação. Ela conhecia a habilidade e o destemor de seu marido e de Jacques Bureau, e tinha certeza de que fariam prodígios para salvá-la.

Na manhã seguinte, depois de comer um pouco, ela se despediu da viúva Robin; depois, percebendo pela janela o capitão que viera buscá-la, se inclinou para o pequeno Jean-Marie, beijou-o na testa e disse-lhe: “Não se esqueça, meu pequeno, que minha vida e a felicidade do sr. de Sérant estão nas suas mãos”. Jean-Marie ergueu seu olhar límpido e profundo para ela. “Confie em mim, senhora”, disse ele gravemente.

Dois minutos depois, Geneviève montou atrás do capitão e o pelotão de hussardos tomou, a trote, o caminho para Rennes.

Eram cerca de onze horas quando as tropas chegaram aos portões da cidade. O capitão Bernard conduziu imediatamente sua prisioneira ao gabinete do Representante, na rua da Moeda. Pretendia pleitear, sem se comprometer muito, a causa da senhora de Sérant, a quem havia recomendado que não dissesse seu verdadeiro nome, nem seu título; por isso, quando soube que o membro da Convenção Nacional não estava em casa e que só voltaria bem tarde da noite, ficou muito desapontado. Não sabendo o que fazer com Geneviève, decidiu confiá-la ao porteiro do edifício, depois de ter tomado todas as precauções para tornar inútil qualquer tentativa de fuga. O medo do capitão Bernard servia de instrumento para vis empreendimentos, apesar de detestar os excessos da Revolução. Pessoas com esse caráter não eram raros naquela época. Existem menos hoje em dia?

Brutus Souriceau – esse era o nome do zelador a quem o oficial Azul entregara sua prisioneira – era um homem de cinquenta anos, talhado como Hércules e de aparência assustadora. Republicano feroz, abominava os aristocratas e frequentava assiduamente os jacobinos mais exaltados. O Representante da Convenção o encarregava sempre da custódia dos prisioneiros que mantinha temporariamente em seu domicílio e nunca se ouviu dizer que o formidável carcereiro tivesse deixado que ocorresse uma fuga.

Esse republicano austero tinha, porém, uma fraqueza: ele amava o suco da videira e quando se entregava a abundantes libações, o que não era absolutamente raro, desmaiava miseravelmente no local mesmo do combate, perto das garrafas, e, derrotado, dormia profundamente como uma pedra.

Depois da “diva” garrafa, o seu mais terno carinho ia para a sua esposa, a digna senhora Olympe, que, já viúva de um primeiro marido, não tinha ficado com o coração insensível aos suspiros do Hércules bretão e tinha-lhe dado sua mão, alguns meses antes, no frescor de suas cinquenta e duas primaveras. Mas a lua-de-mel tinha passado rapidamente e a amada esposa já sentia muitas vezes a força do braço conjugal. Além disso, nas horas em que a embriaguez reduzia seu senhor e mestre à sua mercê, o que normalmente acontecia sempre no último dia da semana, Olympe se vingava e conscienciosamente devolvia a seu querido Brutus os golpes e as feridas recebidas durante a semana. Na manhã seguinte, o bom homem acordava, com os olhos escurecidos e o nariz machucado. Mas, como não se lembrava de absolutamente nada do que lhe acontecera no dia anterior, Olympe, com ar ingênuo, descartava facilmente todas as suspeitas, e o bêbado naturalmente atribuía suas desventuras aos espinhos e às pedras do caminho.

A senhora Souriceau, que havia recebido uma certa educação na juventude, era, aliás, uma honesta mulher, cujo entusiasmo republicano não estava, nem de perto, em sintonia com o de seu marido; e era essa falta de harmonia que causava, na maioria das vezes, problemas ao casal.

No último dia da semana (no decadi), Olympe trabalhava como carcereira, no lugar do seu homem, ocupado então em correr pelos cabarés da cidade, e aproveitava seu poder efêmero para facilitar a vida dos presos daquele dia, sem chegar, porém, a dar-lhes a chave da prisão.

Para completar o retrato da mãe Souriceau, digamos que, tagarela aos excessos, ela contava histórias sem fim, protestando a cada instante, o quanto amava o silêncio: uma mania inocente compensada por suas boas qualidades. Infelizmente, o dia em que Geneviève chegou a Rennes não era o último dia da semana e seu feroz guardião desfrutava de todas as suas faculdades. A pedido do capitão Bernard, apressou-se em conduzir sua prisioneira a um quarto no terceiro andar, onde a trancou com uma fechadura dupla.

– Na gaiola, o lindo pássaro! – exclamou com um tom irônico, sacudindo seu molho de chaves ruidosamente – é caça para a guilhotina que o senhor nos trouxe, capitão! Não há perigo dela fugir – acrescentou –, a menos que ela tenha asas ou queira bater a cabeça no chão.

Antes de se retirar, o capitão Bernard, seguindo as indicações do carcereiro, colocou um soldado em sentinela na entrada do corredor, outro no meio da escada e um terceiro no pátio interno da casa. Depois, com a consciência tranquila, foi embora muito satisfeito consigo mesmo, amaldiçoando os excessos dos perseguidores e sentindo pena do destino de suas vítimas. O pobre homem realmente acreditava ter realizado um ato heroico e, meu Deus, talvez não estivesse totalmente errado, dado seu caráter medroso e excessivamente pacífico.

Sozinha no quarto que servia de prisão, Geneviève logo sentiu cair toda a sua energia e o horror de sua situação apareceu claramente aos seus olhos. Ela estava à mercê de um tirano cruel, que mandava suas vítimas para o cadafalso ou para a liberdade, dependendo do humor do momento. Ele deveria voltar para casa naquela mesma noite e, se estivesse mal-disposto, a entregaria ao carrasco no dia seguinte. Sem dúvida, ela esperava uma intervenção do marido para a noite seguinte: mas quanto agora parecia-lhe frágil essa esperança que a sustentara até então! Arthur havia recebido sua carta? Ele estaria em Rennes esta noite? E, sobretudo, como ele poderia alcançá-la e arrancá-la da fúria de seus inimigos? O sucesso agora parecia impossível para ela. Esta casa estava tão bem protegida! O Marquês de Sérant nem chegaria perto da sua masmorra e se perderia desnecessariamente tentando salvá-la. Oh! como ela se culpava por tê-lo chamado para ajudá-la! Não teria sido melhor ter se submetido ao seu destino com resignação, sem fazê-lo perecer com ela? E o que seria de seu pobre Louis, sem seu pai e sua mãe para protegê-lo?

Um profundo desânimo tomou conta da jovem. Deus, então, a havia abandonado! Qual era a utilidade, agora, de amá-Lo, orar e servi-Lo, se Ele nada fazia para libertar seus servos? Por que a deixou cair nas mãos daqueles miseráveis... ela que havia deixado tudo para garantir a salvação eterna de seu marido? Estaria ela presa, às vésperas de ser levada à morte, se esta Providência de que tanto falamos realmente cuidasse de nós? Ela se sentia invadida por tentações de blasfêmia e pensamentos de revolta contra a justiça de Deus. Por um momento, no limite de sua força e coragem, abriu a janela e seu olhar mergulhou nas pedras da calçada que dava para a sua cela. Atraída para o abismo, sentia um desejo horrível de acabar com seus tormentos, livrando-se da vida. Mas, de repente, a fé adormecida durante esta tempestade despertou em sua alma, e a pobre cativa, repelindo a tentação com horror, se ajoelhou, implorando a Nosso Senhor que a perdoasse por sua falta de confiança e submissão.

A oração restituiu-lhe a calma e a paz. Ela se rendeu inteiramente à vontade de Deus para a vida e para a morte, implorando-lhe armá-la contra todas as fraquezas do corpo e da alma.

Na angústia profunda em que se debatera há pouco, ela rejeitou os alimentos que lhe foram trazidos; mas quando triunfou sobre o terrível ataque do inferno e a ajuda divina tranquilizou sua alma, ela disse a si mesma que deveria conservar suas forças na expectativa do cansaço que logo teria que suportar, se Deus permitisse que seu marido conseguisse chegar a ela. Sem dúvida, era impossível prever que meios seriam utilizados para sua libertação; mas precisaria, em todo caso, de toda a sua energia para auxiliar a ação dos seus defensores. Feitas essas reflexões, decidiu comer, e quando recuperou as forças corporais, pôs-se a rezar com fervor.

Há imperfeições na Mãe de Deus?

Foi ninguém menos que um Doutor Católico, um Padre da Igreja, que identificou alguns fatos que atribuiu à Santíssima Virgem como imperfeições, durante o encontro do Menino Jesus no Templo e, também, nas Bodas de Caná. Trata-se de São João Crisóstomo.

Em sentido contrário, deve-se dizer que a Santíssima Virgem nunca cometeu a menor imperfeição. As razões explicando isso são inúmeras.

Primeiro, porque a Mãe de Deus não tinha a “fonte do pecado” – também chamada de concupiscência – que é uma das causas principais das imperfeições. Essa ausência está ligada à sua imunidade ao pecado original.

Além disso, a virgem das virgens possuía a virtude perfeita em razão da graça que lhe havia sido dada. Ela também estava destinada a ser um modelo de santidade, porque Nossa Senhora é a primeira dos redimidos: é conveniente que seja ela, que tem o primado na ordem da santidade, deveria incorporá-la em sua perfeição consumada

Finalmente, sua perfeita prudência sempre determinou sua atividade na maneira que estava mais conformada à vontade de Deus.

É por isso que Santo Tomás de Aquino não hesita em dizer que São João Crisóstomo foi longe demais em seu escrito. E, embora São Pio V tenha ordenado que fossem republicadas as obras do grande doutor, pediu que as passagens incriminadas não fossem incluídas.

 

A Mãe de Deus possuía impecabilidade

Mas a maior razão explicando a ausência de pecado e imperfeições em Maria é que ela era impecável.

O Concílio de Trento, na Sessão VI, Cânone 23, afirma: “Se alguém disser que... em sua vida, [um homem] pode evitar todos os pecados, até mesmo os veniais, exceto por um privilégio especial de Deus, como a Igreja sustenta em relação à Santíssima Virgem: seja anátema”

De sua parte, Santo Tomás reconhece a confirmação na graça em razão da adequação à Mãe de Deus. Impecabilidade consiste em não poder pecar em razão de uma capacidade interior. Ela se distingue da confirmação na graça, que é manter o estado de graça até a morte, em outras palavras, não cometer pecado mortal: essa graça se explica pela ajuda externa de Deus. Mas a impecabilidade requer uma causa interna no sujeito, que evita o pecado.

Isso é, claramente, o caso do Verbo Encarnado, Jesus Cristo: é uma impossibilidade a pessoa divina cometer um pecado. No caso do homem-Deus, a visão beatífica e a virtude perfeita são acrescidas à personalidade divina.

A impecabilidade também existe, em grau menor, nos que já foram salvos: inundados pela luz da glória, eles não podem mais pecar. Seria impossível possuir a visão beatífica e pecar.

Em grau menor, a impecabilidade advém da grande dificuldade de pecar que resulta do dom de uma graça especial. Ela inclina tanto uma pessoa ao bem que se torna quase impossível romper com ele. Deus deu uma assistência especial a Sua Mãe, que removeu de todas as causas do pecado.

Essa doutrina permite uma compreensão mais profunda dessas palavras magníficas do Papa Pio IX em Ineffabilis Deus: “fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.

Introdução ao sexto domingo da Epifania

“Revelarei coisas que ficaram ocultas desde a criação do mundo”

 

Paramentos verdes

 

Deus, diz S. Paulo, falou-nos pelo seu Filho, a quem constitui herdeiro de tudo, e o qual, sendo o esplendor da glória do Pai e a figura da sua substância e conservando tudo por meio da sua palavra, quis operar a purificação dos pecados, e está agora sentado à direita de Deus. A nenhum dos anjos disse Deus: “Tu és meu Filho, hoje mesmo te gerei”. E quando O enviou ao mundo, disse: “Que os anjos todos O adorem”. O Apóstolo, comenta S. Atanásio, declara Jesus superior aos anjos para evidenciar a diferença que existe entre a natureza de Filho e a de criaturas. A Missa de hoje revela igualmente a divindade de Cristo, tão claramente expressa no Ofício de Matinas, como acabamos de ver. É Deus, porque revela as coisas ocultas em Deus e que o mundo ignora. A sua palavra é divina, porque tem o condão de apaziguar a tempestade das paixões e é capaz de produzir na alma de quem a receber maravilhas de fé, de esperança e de caridade. A Igreja é também divina. Pega em raiz divina, na palavra do Senhor, e está admiravelmente figurada nas três medidas de farinha que a força expansiva do fermento leveda, e no grão de mostarda, a mais pequenas das sementes, que em breve se torna árvore frondosa onde as aves do céu gostam de nidificar.

Meditemos com frequência o Evangelho para que nos penetre e transforme, e para que se torne, na nossa alma e na nossa vida, árvore frondosa a vergar de frutos de santidade. Desta maneira trabalharemos eficazmente no alargamento do Reino de Deus.

Do Evangelho: Pelo homem que semeia, se entende geralmente, diz S. Jerônimo, o Salvador que semeia nas almas a palavra de Deus, a semente prodigiosa do Evangelho. Neste mundo que se desagrega, falta esta semente e parece que o semeador divino já recolheu. Na imensa lavra só andam sombras a envolver de névoa as ervas daninhas do campo solitário. É preciso chamar, chamar pelo dono do campo, que venha e mande semeadores, semeadores de vida nova, semeadores do Evangelho e de mais nada.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao quinto domingo depois da Epifania

“Enquanto dormiam, veio o inimigo e semeou a cizânia”

 

Paramentos verdes

A nossa vocação à Fé é uma graça. Fomos chamados por misericórdia a fazer parte do Corpo Místico do Senhor, e é necessário agora, em virtude deste procedimento do Senhor para conosco e da nossa própria natureza renovada de membros de Cristo, é necessário, digo, que usemos da misericórdia com todos. Esta caridade perfeita é difícil, sem dúvida. Supõe a perseverança e o esforço continuado e faz-nos muitas vezes deixar sangue no caminho, porque o Reino de Deus na terra está em via de consumação. Ainda não é perfeito. E entre o trigo louro da seara que ondeia em vagas inebriantes de bondade, lá aparece o joio, que nos morde com fereza indomada de pragana estéril. Mas não nos compete arrancá-lo. Não. Transformá-lo em trigo, sim. E podemo-lo fazer se o regarmos com o sangue da nossa dor e da nossa caridade. Às vezes há joio, que o é, por falta de quem lhe dê sangue.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 

Mártires na U.R.S.S e na Europa Oriental

A Rússia e os países do Leste Europe foram os principais teatros do confronto entre o Cristianismo e o comunismo. Mas, a ideia que fazemos desses episódios é, em geral, muito vaga. É certo que os horrores dos gulags acabaram por se tornar conhecidos no Ocidente, mas o marxismo lançou mão de muitas outras armas para arrancar a crença dos corações, como veremos em seguida. Tentaremos também descobrir a história da Igreja Católica na União Soviética, largamente ocultada pela Igreja Russa cismática. Finalmente, nós nos voltaremos para alguns personagens que ilustram magnificamente a alma católica desses povos (Cardeal Mindszenty etc).

 

1. As armas do comunismo contra a religião

1.1 - Leis e medidas administrativas

Após a revolução de 1917, aprovou-se um conjunto de leis e decretos. A partir de 1918, eles vão seguir um itinerário marcado pelo retrocesso e pela restrição, alegando a “liberdade de consciência”, a “liberdade de profissão religiosa” (1929) e, em seguida, a “liberdade de culto religioso” (1936). Toda essa legislação oficial, no entanto, era freqüentemente “esquecida" pelas autoridades, que invocavam toda sorte de crimes para condenar aqueles que ainda ousavam crer em Deus e praticar a religião. A essas leis fundamentais somam-se as numerosas medidas administrativas referidas em instruções secretas, além de ordens dadas em viva-voz pelos representantes do governo, sem que houvesse oficialmente qualquer linha escrita. Essa confusão jurídica permitia a cada um julgar segundo o seu alvitre, em detrimento dos cristãos.

Com a nova coleção de leis que se seguiu à revolução de 1918, o governo se dedicou inicialmente a destruir a família a fim de melhor destruir a ordem social existente, e substitui-la por uma versão plenamente comunista. Uma vez que as famílias preparam os cidadãos de amanhã, era importante suprimir a influência dos pais “reacionários” sobre os filhos, de modo a torná-los verdadeiros militantes do Partido. Nesse preciso momento, dispensava-se a coerência na política familiar. Seguindo as necessidades econômicas ou demográficas, as leis poderiam ser adaptadas, mas sempre em vistas de um mesmo fim: a conquista da sociedade pelo governo soviético, e o triunfo da causa do Partido. A estrutura familiar era visada em três pontos:

— O próprio laço do matrimônio: a partir de 1918 o casamento religioso foi abolido, apenas o registro civil era legal. Do mesmo modo, o concubinato ou a poligamia foram legalizados, e o divórcio, autorizado e simplificado.

— A “liberação” da mulher: “O sucesso de uma revolução depende do nível de participação das mulheres” dizia Lenin. Como a mulher é a base da família, todos os meios serão empregados para tirá-la de casa e impedi-la de cumprir a missão de mãe. Era preciso “liberar a mulher da escravidão do marido e dos afazeres domésticos”, considerados por Lenin como uma “escravidão, um jugo embrutecedor, humilhante, eterno, exclusivo”. O aborto foi legalizado em 1920, e a contracepção encorajada. “As mulheres devem ser retiradas da reprodução para servirem à produção”, afirmava Alexandra Kollontaï1. Percebe-se a estima que tinham pelas mulheres! Para que a mãe pudesse ser emancipada e fosse trabalhar como os homens, abriam creches e jardins de infância. Os trabalhos domésticos ainda a esperavam em casa, ao retornar do trabalho.

— Os filhos: “A criança pertence à sociedade, não aos pais” (Nikolai Bukharin). Por conseguinte, a criança devia sair da sua família para ser educada pela sociedade. A escola tornou-se obrigatória, dos 7 aos 18 anos. Claro que a escola era monopólio do Estado e, portanto, ateia e violentamente antirreligiosa. A criança era assim instrumentalizada ao serviço do Partido.

Quando julgaram que todos os laços que uniam a família haviam sido suficientemente destruídos (laços entre os esposos e entre pais e filhos), o governo mudou a política. É verdade que, a partir de 1936, a economia e a demografia conheceram uma situação catastrófica na esteira dessa política. Lançou-se uma campanha em favor da família numerosa; proibiram novamente o aborto antes de tornarem a legalizá-lo em 1955. Concederam-se ajudas e recompensas às mães de famílias numerosas. A maternidade se tornou um dever, “uma função social” da mulher". Balançando ao sabor das leis e das propagandas, a família se transformou numa ferramenta nas mãos do Partido para moldar a nova sociedade soviética ateia.

No que se refere ao culto, as igrejas e os locais de culto tiveram de ser registrados nas instâncias governamentais, mas muitas vezes foram para a clandestinidade. Todos os padres precisavam de uma “permissão de ministério”, que lhes era retirada no primeiro passo em falso. Todo padre que exercesse o sacerdócio clandestinamente, sem essa autorização, sujeitava-se a uma condenação penal. Era-lhe interdito o exercício do ministério em domicílio e, se fosse autorizado a visitar as famílias, não poderia falar com elas sobre religião! Os confiscos das propriedades e a supressão das obras da Igreja Católica se multiplicaram, com o objetivo de abafar o apostolado.

O balanço apresentado na seguinte tabela é eloquente2:

 

 

1939

1953

Paróquias

6.930

1.200

Igrejas, capelas

10.321

1.500

Seminários

18

Todos fechados

Casas religiosas

1.019

Todas fechadas

Escolas

20.316

Todos requisitados ou nacionalizados

Hospitais, orfanatos

1.520

Todos requisitados

Livrarias, editoras

70

Todos requisitados ou nacionalizados

Publicações

110

Todas suprimidas

Associações católicas

3.000

Todas suprimidas

Construções e terrenos

 

Todos confiscados

 

 

 

 

 

No que se refere à juventude, a legislação era ainda mais restritiva. Desde 1921, o ensino religioso foi dificultado aos menores de 18 anos. A partir de 1929, proibiu-se levar crianças aos ofícios religiosos e de reuni-las para recreações ou para qualquer outra atividade. Em 1932, proscreveu-se o ensino de religião às crianças, salvo pelos próprios pais, o que impedia os padres ou qualquer outra pessoa de dar aulas de catecismo. Reputava-se uma perversão o ensino religioso dispensado às crianças.

Finalmente, proibiu-se a posse de “literatura clandestina” e sobretudo a colaboração na sua edição, ou seja, todos os quatro Evangelhos, os livros espirituais, as revistas católicas ou todo registro de conotação religiosa.

 

1.2. A doutrinação

A segunda arma poderosíssima de que o Estado dispunha para neutralizar e para eliminar toda influência religiosa era a doutrinação, sob todas as formas e em todos os domínios. A despeito de todas as formas de propaganda pela mídia, pela imprensa, pelos slogans publicitários, o Estado criou um ambiente que fez do comunismo o único horizonte visível e possível. Desde a infância, o cidadão era envolvido pelo sistema soviético.

 

  • A Escola

A partir dos sete anos, a escola é obrigatória, mas muitas vezes é a partir do ingresso numa creche aos três anos, e mais tarde numa universidade, que as crianças são moldadas segundo a concepção materialista e ateia dos comunistas. Em todas as classes se lecionava um curso especial, o “Diamat”, ou seja, materialismo-dialético. Trata-se objetivamente de um curso de doutrinação comunista. Ainda assim, todas as matérias do programa devem igualmente difundir tais princípios — foi sobretudo na disciplina de história que a realidade era transformada sem escrúpulos para denegrir a Igreja e todo seu passado. Como qualquer outra fonte de informação estava proibida, esses meios eram terrivelmente eficazes.

A todo momento na vida da escola ou nas demais atividades, exigem que a criança ou o adulto faça um juramento de ateísmo ou de militância comunista.

A título de exemplo, [apresentamos] esta circular do ano de 1980/1981:

 

Conteúdo do trabalho:

  1. Identificar os filhos dos crentes: organizar o controle das famílias religiosas;
  2. Fiscalizar as atividades religiosas no setor;
  3. Esgotar as possibilidades de educação ateia durante o curso de biologia, química, geografia, astronomia, matemáticas, ciências sociais, literatura e nos demais ramos;
  4. Atrair os professores para a propaganda do ateísmo;
  5. Criar um conselho de educação ateia;
  6. Estabelecer um ciclo de conferências e de discussões sobre assuntos relacionados ao ateísmo;
  7. Organizar círculos de trabalho denominados “o jovem ateu”;
  8. Organizar manhãs e tardes de discussão sobre ateísmo;
  9. Discutir sistematicamente os filmes… Criar jornais murais sobre a temática ateia;
  10. Criar um stand permanente - “Ciência e Religião” - na biblioteca da escola.

 

  • Associações de juventude

Muito embora a associação não fosse obrigatória, os jovens eram muitas vezes associados à força, e a não participação era considerada um ato antissocial, com possíveis consequências para toda a família. Ademais, essas organizações tinham o monopólio de todas as recreações. Quem não fizesse parte delas estava excluído de todos programas, de todo lazer;  de fato estava excluído da sociedade. Essas organizações eram, com efeito, um “noviciado” para a entrada no Partido. Os pequeninos podiam fazer parte das “Octobriens”; em seguida, de 9 a 14 anos, dos “Jovens Pioneiros” e, de 14 a 28 anos, da “Juventude Comunista”, comumente chamados de “Komsomols”. Finalmente, tornavam-se membros do Partido.

 

- Os lazeres

Muitas das atividades envolvendo crianças e adultos – para além das noites em família ou entre amigos, que eram muito estimadas - são um monopólio mais direto ou menos direto do Partido. Acima de tudo, o Estado entende que não há lazeres inúteis ou “gratuitos”, pois um lazer deve ser cultural, palavra que subentende propaganda comunista. Criaram-se, assim, vários tipos de clubes e centros de cultura, museus e bibliotecas, espetáculos… Todos mostram as maravilhas da sociedade soviética ou o horror da religião. Um bom cidadão deve freqüentar, ao menos de tempos em tempos, um clube e assistir a conferências, se não o reputavam por “individualista” — o que é perigoso numa sociedade socialista — transformando-se então em objeto de vigilância. Ninguém estava ao abrigo dessa propaganda ao serviço da doutrina comunista. Onde quer que se esteja, a voz do partido sempre se faz ouvir.

 

1.3. A repressão

Aos comunistas não faltavam meios de pressão, ou de repressão, aptos a dobrar as vontades mais obstinadas, prontos para se usarem naqueles que resistirem à doutrinação.

Num primeiro momento, tentam a intimidação. Os meios não faltam: a delação entre vizinhos ou colegas é um dever, a fim de identificar os cristãos e os controlar. Na escola, os professores também possuem o dever de assinalar todo comportamento “antissocial”, e muitas vezes passam “pseudo-questionários sociológicos” que são, na verdade, questões para saber se as crianças têm pais que creem em Deus, que vão à Igreja e, sobretudo, que ensinam tudo isso aos seus filhos! Eles questionam em seguida, mais precisamente, os pais e as crianças, na escola ou na KGB, para tentar lhes dissuadir, mostrando-lhes os males que isso acarretará aos seus filhos. Para quem resistir a essa primeira intimidação, ameaça-se com sanções. Em seguida, aplicam-se as primeiras sanções, como a demissão, multas (que muitas vezes ultrapassam a metade do salário). Os que professam a crença em Deus praticamente são privados do acesso à universidade. As crianças podem ser tiradas dos seus pais se for julgado que eles exercem sobre elas uma má influência em razão da sua conduta antissocial.

Quando as ameaças e as primeiras sanções não surtem efeitos, começam as prisões e condenações3.

- Campos de trabalho: os regimes podem ser mais rigorosos ou menos rigorosos, mas, em todo caso, os campos de trabalho são sempre muito duros moral e fisicamente. As visitas são restritas ou interditas. As cartas, quando autorizadas, são todas censuradas. Os presos devem alcançar metas de trabalho diário que são muitas vezes desumanas. As autoridades lhes roubam o alimento ou lhes fornecem comida estragada. Do salário depositado desconta-se uma parcela tão grande, que não lhes sobra quase nada, sem contar todas as penalidades suplementares que podem ser infligidas sob pretexto de má-conduta, metas não alcançadas etc.

- Prisões: o regime nas prisões é ainda mais severo que nos campos de trabalho. A saúde deteriora-se rapidamente por falta de alimentação e de exercícios físicos.

- A pena de morte direta (por execução) ou indireta (em conseqüência dos maus tratos) atingiram duramente as fileiras católicas. O balanço humano é pesado e difícil de estimar. No tocante aos padres católicos no território russo (em 1939) e nos países satélites (Polônia, Países Bálticos, Sub-Carpatos…), fez-se a seguinte estimativa, referente ao período de 1917 a 19454:

Assassinados ou executados

352

Mortos em prisão ou desaparecidos

2.600

Deportados ou condenados

1.700

Escaparam

930

Escondidos, dispersos

1.250

 

 

 

Em 1978, não sobravam mais que 1.575 padres, dos 9.624 que existiam em 1917. Os bispos foram o alvo principal: na Rússia, um foi assassinado, seis foram presos, 12 deportados, mortos no exílio ou expulsos, cinco condenados a trabalhos forçados, dez expulsos da sua diocese5.

Entre 1917 e 1950, Roma estima que mais de 10.000 padres e que 50 bispos foram executados ou aprisionados6. As condenações diretas ou indiretas de fiéis chegam a centenas de milhares.

- Mudança de endereço: muitas vezes se impunha a realocação no interior em complemento à pena dos que voltavam dos campos de trabalhos forçados ou da prisão. O exilado era obrigado a viver em determinado lugar, onde em geral o encarregavam de um trabalho. Regularmente, devia comparecer no comissariado para demonstrar que estava ali. As cartas, as visitas e as correspondências não sofriam limites e, oficialmente, não estavam sob censura, a não ser decidissem por um controle mais estrito...

- Hospitais psiquiátricos: De longe, era a pior das penas. Para não serem obrigados a julgar ou a justificar a detenção, as pessoas “incômodas" eram internadas como loucas; via-se a fé religiosa como um sinal de anormalidade psicológica. A internação poderia se estender por anos, ou mesmo por toda a vida. O uso de medicamentos fortíssimos e de maus tratos causavam estragos psíquicos e intelectuais por vezes irreversíveis. Aqueles que deixavam esses hospitais carregavam frequentemente até o fim da vida sequelas, quando não perdiam para sempre a sanidade.

 

2. Pequena história da perseguição7

 

2.1. Primeiros confrontos

Como explicar a presença de católicos na Rússia? A maior parte das comunidades de rito latino originaram-se das sucessivas partilhas da Polônia, que resultaram na incorporação de milhões de católicos latinos na Rússia tsarista8. A esses últimos somaram-se os greco-católicos, isto é, os uniatas que guardavam orgulhosamente as características russas do rito oriental. Eram menos numerosos, mas na maioria das vezes mais ativos.

A conversão ao catolicismo representava riscos maiores que o cisma grego: o ortodoxo incorria na pena do artigo 58.10 (“agitação antissoviética”); que dizer do católico que poderia ser ainda condenado pelos artigos 58.1a (“traição), 58.3 (“relação com um Estado estrangeiro”), 58.6 (“busca de informações em benefício de um país estrangeiro”)?

Os soviéticos estenderam progressivamente o campo geográfico da perseguição, à medida da sua expansão territorial. De 1917 a 1939, os bolcheviques almejaram suprimir a Igreja Católica do território sob seu controle, a saber, da Rússia e de porções da Ucrânia e da Bielorrússia (mas não na região oeste, que estava sob jurisdição polonesa). Paralelamente, esforçaram-se por desacreditar a Igreja Católica em todo o mundo por meio da propaganda. Durante a segunda guerra mundial, ampliaram o campo de ação (oeste da Ucrânia e da Bielorrússia e países bálticos), sempre atuando sobre a opinião pública, notadamente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, que queriam persuadir de que o Kremlin não tinha nenhuma animosidade contra a religião, uma vez garantida a segurança soviética. Após a guerra, a perseguição estendeu-se aos países satélites da URSS, onde a Igreja Católica tinha grande influência (principalmente na Polônia).

Os marxistas dividiam-se quanto aos meios a serem adotados para alcançar o fim de extirpar a religião católica: a ala “direita” queria proceder de modo mais “indulgente”, através da reeducação; os trotskistas preferiam o ataque violento.

Em abril de 1919, Dom de Ropp (arcebispo) foi detido. Os comunistas irritavam-se principalmente por dois motivos: Roma clamara pela segurança da família imperial antes da execução dos Romanov, e o Papa Bento XV exprimira seu juízo sobre as perseguições contra a Igreja cismática russa. O início da guerra russo-polonesa dos anos 1919-1920 tornou a situação ainda mais trágica. Desde 1918, Dom O’Rourke, vigário geral da diocese de Minsk, escrevia a Monsenhor Ratti (futuro Pio XI), Visitador Apostólico para a Rússia: “Aqui, a população católica foi sistematicamente esmagada pelos bandos de soldados russos bolcheviques: famílias inteiras, não importando o sexo ou a idade, foram assassinadas9.”

Em 1920, os mosteiros foram fechados (o tsar iniciara esse movimento). Os católicos apoiaram a ação militar polonesa destinada a restaurar as fronteiras históricas da Polônia com a Rússia, na esperança de obter o fim das perseguições. Com as mudanças de fronteira, resultantes do tratado de Riga, o número total de católicos sob domínio bolchevique subiu para 1.160.000, ou seja, 331 paróquias com 400 padres.

Em 1921, não se obteve nenhuma concessão no terreno religioso durante as negociações da NPE10. Muitas igrejas foram fechadas entre 1921-1922. Em 26 de dezembro de 1921, um decreto proibiu a educação religiosa de crianças com menos de 14 anos, o que representou um obstáculo considerável ao apostolado. Os cursos de ateísmo passaram a ser lecionados desde o jardim de infância. Os bolcheviques tiraram proveito da fome de 1922 para atacar a religião, alegando que os males se deviam à concentração de bens nas mãos da Igreja. Roma tentou se opor ao confisco de objetos sacros, em seguida propôs pagar pela restituição dos bens confiscados, mas foi em vão.

Apesar da missão católica organizada por Roma contra a fome na Rússia, o Kremlin não se desarmou. No fim de novembro de 1922, Dom Jan Cieplak foi informado de que o clero católico de Petrogrado seria julgado por atividade contrarrevolucionária. Em dezembro de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas e lacradas, salvo uma única que era mantida por um padre francês (a França precisava ser tratada mais diplomaticamente). Em março de 1923, iniciou-se um processo contra os católicos latinos que não aceitavam a lei de separação entre a Igreja e o Estado, começando o confisco violento dos bens da Igreja. Dom Cieplak foi julgado juntamente com uma dezena de padres latinos, como o Pe. Fedorov11 e M. Balachev, redator da revista Slovo Istini (A Palavra da Verdade). O processo terminou com a condenação à morte de Dom Cieplack (pena comutada para dez anos de prisão em regime severo, após pressões romanas) e de seu vigário geral, Mons. Boudkevitch, executado na noite de Páscoa (1o. de abril de 1923) na prisão de Sokolniki. A sua morte edificou as testemunhas: “No lugar da sua execução, ele fez o sinal da cruz, abençoou o verdugo e seus assistentes, em seguida voltou a cabeça para o muro e pôs-se a rezar em voz baixa. O tiro do algoz interrompeu a oração do padre.” 12 Ele foi a primeira vítima da Igreja Católica latina na nova Rússia bolchevique. Muitas sentenças de morte e encarceramentos de sacerdotes (3 a 10 anos) seriam pronunciados. Os bens foram confiscados. Após a expulsão de Dom Cieplak, não havia mais nenhum bispo católico na Rússia, apesar da URSS contar com mais de um milhão de fiéis. Os 200 padres remanescentes eram, na sua maioria, de origem polonesa. Diante dessa situação difícil, Roma tentou estabelecer uma hierarquia secreta13. A reação contra a nova hierarquia foi rápida: Mons. Skalski, administrador apostólico, figura influente entre os poloneses na Ucrânia soviética, foi condenado a dez anos de prisão.

No início do século XX, foi constituída uma comunidade de católicos oriunda da ortodoxia, guardando integralmente a especificidade russa do rito oriental, em particular um grupo de religiosas da Ordem Terceira dominicana dirigida por Anna Ivanovna Abrikossova. Em setembro de 1922, o Pe. Abrikossov, incumbido do grupo, foi expulso com mais de 200 cientistas e filósofos. De 12 a 16 de outubro de 1923, prenderam a comunidade de religiosas dominicanas e muitos padres. Uma delas havia oferecido a vida pela salvação do povo russo. Em 19 de maio de 1924, a maior parte dos padres foi condenada a dez anos de reclusão nas diversas prisões dispersas, as irmãs a cinco anos, que em seguida também seriam relegadas a outras prisões afastadas das suas famílias14. No tempo da morte de Lenin (janeiro de 1924), restava mais de um milhão de católicos e 127 padres, dos quais 116 dispersos e 11 em prisão15.

 

2.2. As repressões de 1931

Em fevereiro de 1931, ocorreram na URSS muitas prisões de católicos de rito latino ou oriental, abrangendo clero e leigos. Entre as vítimas, destacaram-se muitos convertidos como Victoria Lvovna Bourvasser, uma judia convertida.

Muito inteligente e conhecedora de idiomas, mas mimada pelos pais, ela caíra no ateísmo militante. É daí que o Bom Deus a retirou para transformá-la numa católica humilde, fervorosa, que comungava diariamente com lágrimas, desejando sofrer para reparar seus erros e testemunhar seu amor por Nosso Senhor. O Bom Deus lhe dera a graça de morrer pela fé. (…) Abandonaram-na doente, sofrendo de modo atroz, na cela, e quando quiseram conduzi-la à enfermaria, era já tarde demais: ela morreu nos corredores16.

Um outro exemplo:

Na prisão de Boutyrki, uma pequena judia convertida, Anna Roubachova, que praticamente não dorme, espanta todas suas companheiras de cela por seu espírito de oração (ela reza noite e dia), e pela sua coragem. Uma outra judia, Melle Sapojnikova é igualmente um modelo de força, enquanto antes, quando era livre, era bem preguiçosa: a graça é proporcionada às necessidades. As moças sequestradas eram submetidas a penas de três a dez anos em campos de concentração. Muitas lá morriam. O motivo da condenação era o seguinte: “A maioria das associadas do grupo organizaram uma ordem monástica ilegal de São Domingos. Elas reuniam-se em diferentes apartamentos, entretinham conversas antissoviéticas sobre questões políticas e econômicas, praticavam com as pessoas de seu convívio uma agitação contrarrevolucionária. 17

Os católicos latinos também viraram alvos. Prenderam-nos em abril por espionagem e ação contrarrevolucionária. A principal ação do grupo latino era a difusão da oração “Rússia padecente”, da devoção à Santa Teresinha do Menino Jesus e de determinadas orações pela salvação da Rússia. Esse apostolado lhe acarretou a deportação por três anos. Uns cinquenta fiéis foram exilados: eram simples trabalhadores ou organizadores de procissões, muitas vezes velhos. “O fim de todos eles será a morte miserável no exílio ou nas novas prisões. 18” As condições do interrogatório desafiam as forças morais: “Irmã Jacinta (Anna Zolkina), uma jovem freira de 25 anos, torturada por questões infames, sucumbiu a um terrível ataque de nervos.” Liberada em 1941, foi condenada no mesmo ano a cinco anos no gulag.

As irmãs dominicanas continuaram o seu apostolado nos campos. Formavam grupos para difundir o ensinamento católico. No verão de 1935, no campo de Bamlag, elas redigiram uma carta que manifesta a sua intrepidez: “Pelo espírito, nós somos fortes. Nem os campo de concentração, nem os órgãos da NKVD poderão desviar do caminho verdadeiro os filhos fiéis da única Igreja Católica. Mesmo aqui nós nos esforçaremos para ganhar recrutas valorosos para a Igreja Católica.”

 

2.3. Os prisioneiros católicos de Solovki

No campo de prisioneiros situado nas ilhas Solovki (Mar Branco) viviam 20.000 homens em condições assustadoras: clima polar, fome, prisioneiros fuzilados em grupos…19

Muitos padres (uns vinte ao mesmo tempo) viviam aí detidos. As missas começavam a meia-noite e se sucediam até as 7 horas da manhã. Um armário baixo servia de capela, nele só se conseguia celebrar de joelhos. Os guardas jamais se deram conta de nada. Por causa do novo calendário com a semana de cinco dias, foi-lhes exigido trabalhar aos domingos: “Fuzilem-nos agora mesmo, mas não violaremos o mandamento de Deus.” Quiseram obrigá-los a tirar o hábito eclesiástico: “No trabalho nos vestiremos como os demais, mas na cela usaremos a sotaina.” Para socorrer os doentes, os padres pediam para ser levados com eles e os confessam nos corredores, falando com os doentes às vistas de todos. A paciência dos prisioneiros é testada até aos últimos limites: o bispo católico Bolesas Sloskans escreveu do arquipélago, onde viveu de 1928 a 1930, aos seus pais: “Eu vos peço do mais profundo da minha alma: não permitais que a vingança ou a exasperação tome conta do vosso coração. Se o permitirmos, não seremos mais católicos verdadeiros, e sim fanáticos. 20

Em 1932, instaurou-se contra esses sacerdotes um processo “por formação de grupo antissoviético,  por se dedicarem à agitação antissoviética, cumprindo ritos religiosos e celebrações litúrgicas”. Esses duros tratamentos muitas vezes culminavam com a morte. O campo de prisioneiros teve necessidade de abrigar novos prisioneiros para serem trocados com a Polônia e, sobretudo, para dar continuidade aos trabalhos iniciados: a escavação do canal Báltico/Mar Branco e a linha ferroviária Leningrado/Murmansk, o canal Moscou, Volga, Don.

A perseguição aos católicos se estendeu a toda a Rússia Européia: Leningrado, Kiev, Odessa, Rostov do Don… Os católicos alemães do Volga, que estavam sob a direção do Pe. Kappès, tornaram-se o novo alvo a ser abatido. Os sacerdotes mantiveram-se firmes nos seus postos para responder às necessidades dos fiéis. Os testemunhos são eloquentes: “Os padres conservaram-se heroicamente ao lado do seu rebanho. Relatamos fatos mostrando que, apesar da repressão do poder, do terror e das execuções, apesar da perseguição contra a fé, os padres não fugiram, mas permaneceram no posto. Os padres receberam a morte das mãos dos bolcheviques com a oração nos lábios, submeteram-se a torturas e fuzilamentos.” A colheita foi abundante: “Muitos católicos alemães foram condenados à morte, recebendo a sentença com firmeza e com uma fé inflexível. 21

Dom Bathélzmy Remov, convertido secretamente ao catolicismo em 1932, e nomeado secretamente por Pio XI como bispo auxiliar de Mons. Neveu, foi condenado à morte em 1935 por causa da sua conversão. Os membros do grupo católico que surgira ao seu redor foram condenados em abril do mesmo ano e executados sem um novo processo em 1937.

 

2.4.O grande terror de 1937

O assassinato do secretário do Partido Comunista, provavelmente por instigação de Stalin, foi o início de um período de terror que lhe permitiu, entre 1935 a 1938, eliminar todos os seus adversários em etapas sucessivas. 50.000 suspeitos foram deportados para os Montes Urais e para a Sibéria. Essa nova etapa foi desencadeada por um ato pessoal de Stalin, sob a forma de uma resolução da seção do Politburo (2 de julho de 1937). A ordem transmitida a todos os níveis da direção do partido foi de tornar a prender todos os ex-detentos, os koulaks22, os ministros de culto e os prisioneiros políticos, “a fim de fuzilar imediatamente os elementos mais incômodos sob forma de medida administrativa das troikas contra eles.” Determinou-se um prazo de quinze dias para que se preparasse a lista das pessoas a serem fuziladas ou exiladas. Foi uma hecatombe: 300.000 vítimas foram lançadas nas fossas comuns de Severnoye Butovo (20.762 das quais apenas no período de 8 de agosto a 19 de outubro de 1938) 23. “A máquina de extermínio não saciava sua sede de sangue (…) em diversas regiões, os secretários do Partido, aos quais havia sido atribuído uma meta de execuções, pediam por telegrama autorização de Stalin para aumentar o número estabelecido. 24” Isso foi concedido: para a região de Omsk, o número de execuções subiu de 3.000 para 8.000. A maior parte dos padres presos ou exilados foram executados na ocasião. Muitos poderiam salvar as vidas renunciando ao sacerdócio, como lhe propunham os juízes. No entanto, a fidelidade dos padres encorajava os fiéis à perseverança: um grupo de paroquianos escreveu ao seu padre detido no arquipélago Solovki: “Nós também recordamos do senhor na Santa Comunhão e rezamos fervorosamente pelo senhor… No momento, estamos todos dispersos, como no trecho das Escrituras: ‘Fere o pastor e serão dispersas as ovelhas’… Nós perseveraremos até o final em nome de Deus, e com o Coração de Jesus, e imploramos vossas orações e vossa santa benção. 25

O incitamento à renúncia do sacerdócio tomava formas dissimuladas: “Os antigos servidores do culto (sem distinção de religião) que rompessem com a religião e com as organizações religiosas, renunciando por isso mesmo ao seu estado, com a condição de que o fizessem em público no lugar de seu serviço ou pelo jornal do lugar onde exerciam o culto, eram inscritos na Bolsa de Trabalho e registrado na qualidade de desempregados26.”

O acusador tinha o cuidado de privar os católicos da glória do martírio, negando-lhes a condenação por religião, pretextando em vez disso [a participação em] uma organização terrorista ligada a país estrangeiro. As vítimas provêm de todos os meios sociais, sobretudo do clero de origem alemã, polonesa e das terciárias regulares dominicanas, mas também de russos de origem que haviam abraçado o catolicismo de rito oriental. Os leigos representavam o maior número. Os prisioneiros eram enviados aos charcos de Pinega, ao Ural do Norte ou do Sul, às estepes do Cazaquistão, às terras insalubres da embocadura do Ob (Obdorsk, atualmente Salekhard), ou ao deserto, infernal no verão, gelado no inverno, da Ásia Central, aos campos de prisioneiros dispersos no Arquipélago do Gulag: dezenas de milhares, reputados como elementos socialmente incômodos, foram assim mortos no esquecimento.

No final dos anos 1930, retornam os assassinatos de padres e leigos. A invasão da Rússia pelas tropas alemães acarretará a ordem de extermínio nos campos de prisioneiros. As mesmas armas de antes são utilizadas: exílio, trabalhos forçados, detenções em regime severo… As religiosas que já haviam sido condenadas tornam a sê-lo. As mais longevas são três religiosas que viveram nas cadeias comunistas por mais de trinta anos27. A grande maioria dos 20 ou 30 mil católicos da região de Vladivostok pereceram durante a coletivização dos anos 1930.

 

2.5. A extensão territorial de 1941

No início de 1941, os territórios anexados contavam, por um lado, com mais de seis milhões de católicos romanos (com 12 dioceses, 1.740 igrejas e 2.300 padres), e por outro, com 3,5 ou 4 milhões de greco-católicos (sendo 2.000 sacerdotes). Em todas as dioceses dos países anexados em 1939-1940, o clero foi detido, os bens eclesiásticos confiscados, as escolas, mosteiros e seminários proibidos, a religião suprimida da educação, e toda publicação religiosa interdita. A guerra obrigará a alguns recuos temporários da parte da URSS, para obter em troca algumas concessões do Ocidente.

 

2.6. O pós-guerra e a guerra fria28

Com a anexação dos Países Bálticos, da Galícia, da Bessarábia e da Transcarpátia, mais de 12 milhões de fiéis ficaram sob as botas soviéticas. A Igreja era vista como um obstáculo maior à sovietização dos povos recém conquistados. Em 1945-1946, os uniatas foram obrigados a se fundirem [com a Igreja Ortodoxa Russa].

Na Lituânia, após a retirada dos alemães, os cinco bispos se tornaram as primeiras vítimas29. Em 1945, de um total de 1470 padres, apenas 741 estavam livres, os demais foram deportados para a Sibéria. 400.000 lituanos, 200.000 letões30 e a mesma quantidade de estonianos foram enviados para a Sibéria, boa parte dos quais era de católicos. Stalin fundou assim uma Cristandade na Sibéria! As prisões voltaram a ocorrer de forma maciça em 1948-1949.

A propaganda recrudesceu após a guerra: a Igreja era acusada de ter se aliado à Alemanha nazista, de ser inimiga dos eslavos, de apoiar o imperialismo, de ser um centro de política reacionária, um bastião do obscurantismo, vil inimiga do comunismo e de estar "à serviço de Wall Street”. No leste europeu, o modelo de perseguição de antes de 1940 foi retomado, sendo adaptado às circunstâncias. Grandes figuras erguiam alto o estandarte católico: os cardeais Wyszinski, August Hlond e Adam Stefan Sapieha,

Na Polônia, o Cardeal Wyszinski aceitou iniciar negociações sobre a nacionalização dos bens para reduzir as pressões. Em junho de 1950, no entanto, acusaram-no de ter violado o acordo de abril de 1950, e os padres foram presos. Em 1953, o governo pretendeu impor a aprovação estatal a todas as decisões eclesiásticas. A tensão só aumentava.

Na Hungria, em 1950, o primaz Dom Joszeph Gröz negociou a submissão durante o encarceramento do Cardeal Mindszenty. Foi tudo em vão, pois as prisões continuaram; ele foi detido em 1951 e condenado a treze anos de prisão. A perseguição se generalizou, com prisões e confiscos. O Pe. Beran, figura anti-nazista de Praga, cabeça da Igreja Católica na Tchecoslováquia, será preso em 1948.

Na Iugoslávia, em 1945, uma onda de perseguições atingiu os padres e bispos. Dom Stepinac foi condenado a dezesseis anos de prisão. O clero em peso foi condenado à prisão ou à morte.

Com o início da ‘desestalinização’, concederam-se alguns alívios: por exemplo, as liberações de 1954-1955. Mais tarde, em 1958, o governo comunista lançou uma campanha violenta contra a religião para erradicá-la de uma vez por todas, e assim foi até 1964. Todas as comunidades tiveram de ser fichadas, os bispos foram banidos, impedidos de cumprir suas obrigações. As prisões acentuaram-se em 1961. Impuseram-se quotas para fixar o número de seminaristas. Por que esse retorno ao passado? Porque a ‘desestalinização’ favoreceu o anti-comunismo que buscavam erradicar.

Concluiremos esta parte com alguns exemplos mais recentes tomados da Lituânia.

 

2.7. Os católicos lituanos

A Lituânia era um dos países mais católicos da URSS. Enquanto a população era submetida às mesmas perseguições que ocorriam por toda a parte na União Soviética, os católicos se organizaram de maneira clandestina e foram muito ativos. O seu número, a sua unidade e, sobretudo, a sua determinação, permitiu-lhes exercer pressão sobre o governo. O clero e os fiéis não hesitaram em fazer um apostolado ativo e a intervir perante as autoridades, sem temor de represálias. Exerceram uma atividade a um tempo pública e clandestina. Todas as congregações religiosas foram obrigadas à total clandestinidade, assim como os jovens que se preparavam ao sacerdócio. Mas, muitas vezes, os padres viam-se obrigados a exercer um ministério clandestino para completar o seu restrito ministério público. Assim, secretamente, preparavam as crianças para a primeira Comunhão e para o sacramento da Confirmação, visitavam os doentes nos hospitais, pois os padres não tinham o direito de ir até lá… Quando a resistência clandestina é bem organizada, é difícil de ser percebida. Eles chegaram ao ponto de lançar clandestinamente um jornal católico, a “LKB Kronika” (Crônica da Igreja Católica na Lituânia).

Nijolé Sadunaité, uma lituana, foi condenada em 1975 a três anos de trabalhos forçados num campo da Mordóvia, e a três anos de exílio na Sibéria. Ela já estava então há um ano sob a mira da KGB por ter encontrado um advogado para defender o Pe. Antanas Seskevicius, acusado de ter ensinado catecismo a crianças. Um dia, no entanto, denunciada pela vizinha, foi surpreendida pela milícia tcheco-soviética enquanto fazia cópias de um número da “LKB Kronika”, e foi presa. Enquanto sua casa era revistada, Nijolé rezava o terço com uma amiga que lhe visitara. Sua serenidade deixou a polícia pouco a vontade. Seu processo lhe ofereceu uma tribuna para denunciar o sistema de opressão soviética no tocante à religião: ela assinalou, entre outras coisas, a interdição de os moribundos nos hospitais serem assistidos por um padre, mesmo quando pediam, recordou a campanha de difamação lançada contra a Igreja, o Papa, os bispos, os padres e os fiéis. Aos que debochavam da religião, dizia que não se debocha do que não se conhece.

Eis alguns trechos do seu “diário”:

“A tranquilidade da minha consciência importa mais que a liberdade, mais que a própria vida.

“Continuem a promulgar tantas leis quanto quiserem; mas, guardai-as para os senhores mesmos. É preciso distinguir entre o que foi escrito pelo homem, e o que foi pedido por Deus. O tributo a César só pode ser a sobra do tributo devido a Deus.

“A KGB dispõe de todos os meios para quebrar […] suas vítimas […] mas não sabem que a pessoa mais débil, depois de se apoiar em Cristo, torna-se indomável.

“Sofrer por Cristo é o sinal certo de uma predileção especial.”

O Pe. Antanas Seskevicius, condenado muitas vezes por ter ensinado o catecismo às crianças, exortava nos sermões que os fiéis respondessem com caridade e oração às injustiças e ao ódio. Já Nijolé Sadunaité disse: “Eu compreendi que os sofrimentos da prisão, aceitos em favor deles [os soviéticos], terminaria por tocar os seus corações e consciências. Ah, se houvesse mais gente pronta para subir o Gólgota e a morrer por eles!”

 

3. As forças da Resistência católica

 

3.1. A unidade da Igreja

A Igreja ortodoxa é uma igreja nacional, portanto ligada ao governo. Ainda que, oficialmente, a separação entre a Igreja e o Estado tenha sido decretada em 1918, o Estado controlava os ortodoxos afastando os líderes incômodos e trocando-os por gente maleável, submissa ao poder.

Isso não era possível com a Igreja Católica, pois os católicos, ao contrário, submetiam-se ao Papa e a Roma. Como a autoridade estava fora do país, ela não podia ser manipulada pelo governo. O Estado não tinha nenhuma ingerência sobre ela. Fora a repressão, nada poderia lesar os católicos. Mesmo se eles fossem afastados da sua autoridade, o Estado não poderia influenciá-los desde dentro, por causa da fidelidade à hierarquia católica. O Estado deveria, então, contentar-se com uma vigilância externa, em que muito lhe escapava.

 

3.2. O papel da família católica

A família é a célula de base da sociedade, é por ela que se pode transmitir a Fé. Os padres por si sós tinham um campo de ação restrito por serem monitorados. Assim, as famílias católicas constituíram-se em “pequenas igrejas domésticas”, pequenas ilhotas de cristandade no meio de um oceano de ateísmo.

O Estado era capaz de controlar as atividades visíveis dos católicos, mas não conseguia controlar cada família, apesar da veemência com que se dispunha ao combate: “Os fatos mostram que a família é o principal reduto para a preservação do espírito religioso. Não podemos admitir que gente cega e estúpida eduque seus filhos à sua própria imagem e os deformem.” (Illitchev)

Enfim, sentimos muito orgulho de causar tão grande embaraço a quem dispõe de tantos recursos. Mas a força bruta nada pode quando Deus vela por seus filhos. Como tão bem reconhecem os nossos inimigos, é pela família que a Fé se transmite. Os filhos, vendo os pais rezarem e defenderem a  Fé, seguem o  exemplo. E são os pais os mais capacitados para ensinar o catecismo aos  filhos. A família é o meio de transmissão por excelência. Os comunistas que querem se imiscuir na família para construir a sociedade soviética sabem o que fazem. E para esse fim — como cheios de ódio reconhecem  — a família cristã é um obstáculo.

Um dos personagens mais importantes da família é a “babuska”, a avó, que vive na família e toma conta dos filhos enquanto os pais estão fora. Ela exerce, portanto, uma influência muito grande sobre os filhos, que lhe pedem para contar as histórias da Bíblia, a vida de Nosso Senhor, e também cantar os cânticos tradicionais. Muitas vezes, os filhos recordarão o que lhes ensinava a “babuska” muito depois dela já ter partido.

 

3.3 A oração e o apostolado pelo exemplo

Num país onde a “propaganda religiosa” foi proibida, pareceria que todo projeto de apostolado seria impensável. Dado que os católicos deviam viver na semi-clandestinidade, não havia movimentos ou organizações apostólicas. Poderíamos, portanto, pensar que a missão da Igreja estava como que hibernando, aguardando por dias melhores. Não deveria contentar-se em  assegurar a sobrevivência dos católicos existentes? Mas uma Igreja não missionária ainda seria católica, ou seja, destinada a se difundir universalmente? Por essa razão, e a despeito das perseguições e das ameaças que sempre pesavam sobre os seus membros, os católicos continuavam a trabalhar pela difusão da Igreja,resultando por vezes num renascimento espiritual do país. Apesar de toda a propaganda, são cada vez mais numerosos os que buscam um sentido para sua vida num mundo onde todas as referências foram suprimidas, e que se voltam para Deus a fim de completar o seu vazio. Surgem até mesmo vocações: ordenam-se padres nos campos de prisioneiros. Qual é a explicação desse desenvolvimento em condições tão desfavoráveis?

Em primeiro lugar, a oração; não apenas a assistência aos ofícios religiosos, quando havia um lugar de culto próximo, mas também o rosário recitado em família. A oração em família é um exemplo para as crianças, que não hesitavam até mesmo em rezar discretamente na escola. Um dia uma professora arrancou o terço das mãos de uma aluna e, arrebentando-o, jogou na lata de lixo. A menina respondeu com altivez: “Tenho dez dedos na mão para substituir as contas do terço, e continuarei a rezar o terço entre as aulas, no meu quarto ou mesmo em viagem…” Crianças pequeninas começavam a rezar e não tinham medo de fazê-lo porque viam os seus pais rezando, e achavam tudo natural. A oração é a arma do combate espiritual, sobretudo no cárcere, onde as condições eram desumanas, e o desespero assaltava as almas. Quantas vezes os católicos, rezando abertamente nas celas, obtiveram a conversão de outros prisioneiros, quando não dos próprios guardas, tocados por esses crentes supostamente perigosos para a segurança do Estado, que os perdoavam e rezavam por eles!

Os “Amigos da Eucaristia” foi uma forma inteiramente clandestina de apostolado de oração, desenvolvido em 1969. Os membros se reuniam em discretas comunidades de oração, mas era sobretudo pelo vínculo interior da oração eucarística e mariana que os membros se “reencontravam” em comunhão. O seu compromisso consistia em meia-hora de adoração eucarística.

A segunda forma de apostolado que jamais poderá ser tirada de um católico é o exemplo. Os católicos eram admirados até mesmo pelos seus inimigos, por causa da vida exemplar que levavam. No seio de uma sociedade completamente decadente, minada pelo alcoolismo, violência, insegurança e toda forma de vício, só os católicos levavam uma vida virtuosa. A cada dia precisavam professar a sua fé em palavras mas sobretudo em atos, para não viverem uma vida hipócrita, ocultando a fé: eles se recusavam a participar das organizações para a juventude, e a ir às conferências, ao passo que iam aos ofícios religiosos… A experiência mostra que a união de católicos intrépidos obrigou muitas vezes as autoridades locais a moderar a sua repressão. Por suas réplicas de bom senso e sua atitude irrepreensível, mas sempre respeitosa com as autoridades, embora manifestassem reprovação, levavam muitas vezes os seus interlocutores a refletirem. Eis o exemplo de um pai de família discutindo com um professor que lhe explicava o mal que a religião fazia às crianças ao lhes impedir o acesso aos estudos superiores: “Não é verdade, a religião não é nociva, respondeu o pai. Agora que a religião é calcada aos pés, as crianças não mais respeitam os professores, fumam, xingam, embriagam-se e vivem uma vida licenciosa. Aí estão os frutos do ateísmo!” 

*

Esta síntese sobre a história dos católicos em face do flagelo comunista confirma a triste realidade das palavras do Papa Pio XI acerca da peste negra:

 

“Lá onde o comunismo pôde se afirmar e dominar (…) ele se esforçou por todos os meios para destruir (e o proclama abertamente) a civilização e a religião cristãs até os seus fundamentos, para apagar toda lembrança dela do coração dos homens, especialmente da juventude. Os bispos e os padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de modo desumano; os simples leigos, porque defenderam a religião, tornaram-se suspeitos, foram maltratados, perseguidos e arrastados à prisão e levados aos tribunais.”

“A graça de Deus foi abundante na alma desses discípulos de Cristo, acuados pelos inimigos de Deus. A refinada técnica de que o comunismo se valeu nesse terrível confronto o transformou num dos maiores perigos do século XX: “Dentro da zona de influência bolchevique-comunista, o uso refinadíssimo dos meios técnicos e legais de que o poder arbitrário do governo dispunha, quando desejava destruir a Igreja, deu azo a que as perseguições que ela ali sofreu fossem as piores que já se conheceram. 31

Em complemento à análise desses erros, a atitude constante dos poderes comunistas é a confirmação do antagonismo irredutível entre o catolicismo e o comunismo! Sim, “o comunismo é materialista e anticristão: ainda que os chefes comunistas às vezes declarem por palavras que não atacam a religião, eles se mostram, de fato, seja pela doutrina, seja pelos atos, hostis a Deus, à verdadeira religião, e à Igreja de Cristo32”. A Igreja de Cristo não pode capitular jamais: ela “não pensa em abandonar sem luta o terreno ao inimigo declarado, o comunismo ateu. Esse combate se travará até o fim, mas com as armas do Cristo! 33”, nos preveniu Pio XII.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF, Gentilly, 2017, pp. 52-76.)

  1. 1. Militante feminista soviética (1872-1952).
  2. 2. Peter Babris, Silent churches, Persecutions of religions in the soviet dominated areas, Research publisher, Illinois, 1978, p. 164.
  3. 3. Sobre esse tema, o leitor poderá consultar os escritos de Soljenítsin (Arquipélago Gulag e outros) ou o Livro Negro do Comunismo.
  4. 4. Peter Babris, op. ct., p. 162-163.
  5. 5. Ibidem., p. 164.
  6. 6. Documentos pontificais de Sua Santidade Pio XII, 1950, Éditions de l’oeuvre Saint-Augustin, p. 622-23. Em 1950, as estimativas eram as seguintes:

    • Na URSS, todos os bispos (8) e todos os padres (300) foram assassinados, deportados ou exilados.
    • Na Sibéria, não havia mais bispos nem padres que pudessem exercer livremente o seu ministério em todo o território. Ademais, encontram-se centenas de milhares de católicos bálticos, poloneses, alemães, ucranianos etc, deportados ou prisioneiros.
    • Na Ucrânia, todos os bispos (8) foram deportados e três deles já haviam morrido na prisão. Estima-se que mais de 35.000 padres foram executados ou enviados para a Sibéria.
    • Na Lituânia, seis bispos foram presos ou exilados, 400 a 500 padres foram caçados. De uma população de 1.750.000 católicos, metade foi enviada para a Sibéria por motivações religiosas.
    • Na Letônia, os dois bispos foram exilados e, de 120 padres, 33 foram deportados. Ainda restam entre 300 e 400 mil católicos.
    • Na Estônia, o único bispo foi preso e 50 padres foram executados ou deportados. Há cerca de 10.000 católicos.
    • Na Polônia, de um total de 24 milhões de habitantes, 75% eram católicos. Mais de 1.000 padres foram executados ou encarcerados.
    • Na Alemanha havia na zona oriental três bispos e dois ou três administradores apostólicos, cerca de 400 padres e mais de dois milhões de católicos.
    • Na Tchecoslováquia, de 14.726.000 habitantes, 70% eram católicos. Todos os bispos (12) eram monitorados e, de um total de 7.000 padres, mais de 1.500 estavam presos.
    • Na Hungria havia seis milhões de católicos numa população de nove milhões. Desde a entrada das forças soviéticas, um bispo foi assassinado; o cardeal Mindzsenty foi preso, e mais de 500 padres foram mortos ou exilados.
    • Na Bulgária não havia mais que 6.000 católicos. A maior parte dos padres — uns 30 — ainda estão livres, mas não podem mais exercer o seu apostolado.
    • A Romênia conta com mais de 3 milhões de católicos numa população de 18 milhões. Doze bispos estão presos, um único ainda estava em liberdade. Todos os padres, em número de 1.500, foram executados ou estavam encarcerados.
    • A Iugoslávia era uma país com uma população de 16 milhões de habitantes e 5 milhões de católicos; dois bispos foram assassinados, três haviam sido encarcerados ou exilados. Mais de 250 padres foram assassinados e 400 estavam presos ou exilados.

    Na Albania havia mais de 100.000 católicos numa população de 10 milhões de habitantes. Dois bispos haviam sido fuzilados e os demais estavam encarcerados. Praticamente não existiam mais padres, enquanto outrora eram mais de cem.

  7. 7. J. Dunn Ashgate, The Catholic Church and Russia, Dennis Texas University, 2004, p. 73.
  8. 8. Pedro, o Grande, permitira a seu conselheiro militar, o Gal. Patrick Gordon (1635-1699) católico fervoroso, construir para si e sua família a primeira igreja católica de Moscou, dedicada a São Pedro e São Paulo. Depois dele, em 1789, Catarina II autorizou a comunidade francesa de Moscou a construir sua própria Igreja (São Luís dos Franceses). Um apelo foi feito pela Nova Rússia aos camponeses vindos da Alsácia para que fincassem raízes nas bordas do Volga e do Mar Negro.
  9. 9. Citado em R. Morozzo Della Rocca, Le nazioni non muoiono, op. cit., p. 116.
  10. 10. Nova Política Econômica: política econômica instituída pela Rússia bolchevique de 1921 a 1925, introduzindo uma relativa liberalização econômica.
  11. 11. Ele foi condenado no dia 21 de março de 1922 “não apenas pelo que fez, mas também por aquilo que poderia fazer” (!), Silent Churches, p. 166.
  12. 12. A. Judin, Le sorti del cattolicesimo russo, cit, p. 91.
  13. 13. Dom Miguel D’Herbigny, a pedido de Pio XI.
  14. 14. Antoine Wenger, Catholiques en Russie d’après les archives du KGB, 1920-1960; Desclée de Brouwer, 1998.
  15. 15. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 82.
  16. 16. Antoine Wenger, op. cit., p. 39.
  17. 17. Ibidem, p. 43.
  18. 18. Carta do Pe. Neveu, 14 de setembro de 1931, citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 57.
  19. 19. Descrito por Soljenitsin, O Arquipélago Gulag, t. 2, c. 2. “As ilhas Solovki são o reino dos desgraçados. Acima dos ásperos muros da catedral, sobre o revestimento fresco, fora desenhada a silhueta gigantesca de uma cidade contemporânea, com chaminés que fumegam, guindastes e aviões que sobrevoam, dominada por uma grande estrela vermelha de cinco pontas. Na cidade, foi pintado meticulosamente com tinta vermelha o slogan: ‘Viva o trabalho livre e alegre’” (testemunho de Olga Jafa, deportada, citada em J. Brodskij, Solovki, Le isole del martirio. Da monastero a primo lager sovietico, Milan 1998, p. 22). Em 1920, o mosteiro que havia ali foi transformado num campo de concentração para os prisioneiros da guerra civil. Em 1923, tornou-se um “campo de destinação especial”. De 1920 a 1939, acolheu mais de um milhão de prisioneiros. Os bolcheviques desejam transformar um dos santuários do “obscurantismo" num lugar de reeducação: “Durante cinco séculos, os Solovki obscureceram o espírito do povo. Hoje, ergue-se aqui um campo de concentração onde são reeducados os cidadãos que cometeram crimes… O eco dos sinos das ilhas Solovki foi extinto. Uma nova vida despertou”, citado em Brodskij, op. cit. p. 132.
  20. 20. I. Osipova, Se il mondo vi odia… Martiri per la fede nel regime sovietico, Milano, 1997, p. 100.
  21. 21. Antoine Wenger, op. cit., p. 102.
  22. 22. Modo pejorativo de se referir na Rússia aos fazendeiros, possuidores de terras, rebanho e ferramentas, que assalariavam camponeses para o trabalho.
  23. 23. Cf. o historiador Milchakov em Vetrchernaïa Moskva, 26 de fevereiro de 1991.
  24. 24. Antoine Wenger, op. cit., p. 156-157.
  25. 25. I. Osipova, op. cit., p. 137.
  26. 26. Cf. Texto secreto do Comitê Central (30 de agosto de 1930), citado por Antoine Wenger, op. cit., p. 163.
  27. 27. Irmã Filomena Eismont (1924-1955), Irmã Antonina (Kouznetsova) (1924-1956), Irmão Margarida (Raïssa Ivanovna Krylevskaïa) (1924-1955).
  28. 28. Dennis J. Dunn Ashgate, op. cit., p. 136-156.
  29. 29. Um deles foi preso e morreu em outubro de 1946 em condições não esclarecidas (Dom Borisevicius); três foram presos e condenados a trabalhos forçados na Sibéria, no final de 1946; o outro morreu no cárcere, perto de Moscou (Dom Reinys, novembro de 1953).
  30. 30. No final de 1945, a Letônia não tinha mais que dois padres e três igrejas (eram 1.671 antes da chegada dos soviéticos).
  31. 31. Pio XII, Carta ao episcopado alemão, 15 de fevereiro de 1954.
  32. 32. Pio XII, Decreto do Santo Ofício sobre o comunismo, 1o. de julho de 1949.
  33. 33. Pio XII, Discurso aos participantes do II Congresso Mundial para o apostolado dos leigos. 5 de outubro de 1957.