Skip to content

Anônimo (214)

Dos costumes divinos

[O opúsculo DOS COSTUMES DIVINOS é o LXII da EDIÇÃO ROMANA  das obras de Santo Tomas de Aquino (publicada em 1570 por ordem de São Pio V).

Hoje, não mais se atribui este texto ao Doutor Angélico, sendo desconhecido o seu autor. Contudo, quem quer que o tenha escrito, é interprete fiel de sua doutrina e, por sua elevação e ingenuidade, remetem-nos ao próprio santo Tomás.]

 

 

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). A Santa Escritura nunca nos ordena e nos aconselha algo de impossível. Por essa palavra, o Senhor Jesus não nos manda fazer as próprias obras e os costumes de Deus, os quais ninguém pode atingir de maneira perfeita.

Mas nos convida a nos calcarmos neles o mais possível procurando imitá-los. Nos o podemos, com o socorro da graça, e devemos. E como diz o bispo João, nada convém mais ao homem do que imitar seu criador e executar, segundo a medida de seu poder, a obra de Deus. (Leia mais)

Sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II

    

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos.

O trabalho que a Permanência realiza há 50 anos procura denunciar os erros e publicar a Verdade, para que nossos leitores compreendam que, decididamente, Vaticano II não foi um concílio católico. Ele deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.

    

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.

    

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

Os mártires de Espanha

“Santa Espanha, na extremidade da Europa concentração de Fé,

quadrado e massa dura, e da Virgem Mãe trincheira,

Última parada de Santiago, que só onde a terra acaba se refreia,

Pátria de Domingo e de João, de Francisco o Conquistador e de Teresa,

Arsenal de Salamanca, pilar de Zaragoza, raiz ardente de Manresa,

Inquebrantável Espanha, recusa perpétua do meio-termo…”1

 

 

Quem mais do que a Espanha, com efeito, deu à cristandade filhos corajosos e filhas ardorosas? Quem como Espanha resistiu a sete séculos de pressões do islã? Quem dobrou o espaço geográfico da civilização e da cristandade pela descoberta do Novo Mundo?

Em 1930, a Espanha contabilizava 20.000 monges, 60.000 religiosas, 31.000 padres para vinte e três milhões de habitantes. As escolas católicas escolarizavam 600.000 crianças. As instituições científicas católicas financiavam vastos setores da ciência espanhola, notadamente em história, matemática e astronomia. Era impossível falar de cultura na Catalunha sem citar as organizações intelectuais dos jesuítas, capuchinhos e beneditinos de Montserrat. Fiel à sua história, a Espanha entregou à cristandade muitos mártires e exemplos de heroísmo durante a guerra civil de 1936 e os eventos que a precederam. Eis os fatos.

 

1. O desencadeamento da Guerra Espanhola.

Após um atentado em Paris contra o Rei de Espanha Alfonso XIII, um alto dignatário maçom lhe propôs a posse tranquila de seu trono caso se afiliasse à seita. “Antes de ser rei, sou católico”, respondeu indignado o monarca. Dois anos mais tarde, em 30 de maio de 1919, acompanhado de seus homens de governo, consagrou a nação espanhola ao Sagrado Coração de Jesus, em ação de graças por ter sido preservada da Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Assim ele assinou o seu ato de condenação2.

Nas eleições municipais de 1931, elegeram-se 21.150 vereadores monarquistas contra 5.875 republicanos, mas 41 das 50 capitais de província votaram a favor dos republicanos. O rei, não querendo uma guerra civil, partiu em exílio como se a Espanha rural, largamente majoritária, não contasse. No dia 14 de abril, a república foi proclamada e reconhecida pelos governos maçônicos do mundo inteiro.

Desde o início do novo regime, o Comitê Revolucionário se tornou o governo provisório. Ele compreendia republicanos conservadores, liberais, socialistas, nacionalistas-regionalistas, e se beneficiava do apoio tácito dos partidos mais à esquerda. A hierarquia da Igreja aconselhava obediência às novas instituições, uma vez que o governo prometera uma “Igreja livre num Estado livre”, no entanto ela via com desconfiança a chegada ao poder de políticos que eram, em sua maioria, maçons e anticlericais.

O cardeal Segura, arcebispo de Toledo e primaz de Espanha, lançou um grito de alerta numa carta pastoral:

“Se nos mantivermos tranqüilos e negligentes, se permitirmos que a apatia e a timidez tome conta de nós, se deixarmos as portas abertas àqueles que procuram destruir nossa religião, ou se esperarmos que o triunfo de nossas convicções seja assegurado pela benevolência do inimigo, então não teremos mais direito de lamentar quando a amarga realidade nos fizer compreender claramente que a vitória esteve ao alcance de nossas mãos, mas que não soubemos combater como guerreiros intrépidos preparados para morrer gloriosamente3.”

Os acontecimentos lhe deram razão!

No dia 9 de dezembro de 1931, por atos oficiais do governo, teve início uma verdadeira perseguição religiosa. A nova constituição proclamou a separação entre a Igreja e o Estado, a autonomia regional para a Catalunha e o País Basco, a introdução do matrimônio civil. Muitas leis e decretos entraram em vigor por mera aplicação da Constituição; a Companhia de Jesus foi dissolvida e seus bens foram confiscados. As instituições religiosa não poderiam mais exercer nem o comércio, nem a indústria, nem a agricultura, nem o ensino. Igrejas, capelas, imóveis e mobiliário foram nacionalizados4. “O local ou os locais até o presente consagrados ao culto serão convertidos em armazéns coletivos, mercados públicos, bibliotecas populares, casas de banho ou de higiene pública etc. conforme as necessidades de cada cidade”,  enunciava a liga atéia no programa de um dos comitês provinciais.

De 1931 a 1933 multiplicam-se os atentados contra as pessoas (300 mortos e 2000 feridos em um ano), enquanto ocorriam greves, incêndios de igrejas e de conventos, e perseguição religiosa. O povo espanhol reagiu a essa apostasia das leis republicanas nas eleições de dezembro de 1933, que marcaram a derrota completa dos revolucionários e o triunfo dos católicos que Gil Robles havia reunido numa poderosa federação (CEDA).

Mas a política de moderação, de liberalismo e de reformas sociais do novo governo permitiu que as “esquerdas" fragmentadas se reagrupassem e se armassem: o governo perseguiu e aprisionou os anarquistas, mas deixou livre os comunistas e socialistas que, após um breve período de censura, reabriram seus centros de propaganda em maio de 1935 para começar a reconquistar o terreno e preparar o retorno ao poder. Lançando mão de métodos comunistas, Largo Caballero, o “Lenin espanhol” conseguiu, com efeito, reunir todas as forças da Revolução, que totalizavam mais de um milhão de homens em setembro de 1934. No final do ano, um cargueiro soviético desembarcou nas Astúrias trazendo 70 caixas com armas e munições. Em outubro de 1934, Madri, Oviedo, Barcelona se rebelaram ao mesmo tempo. No País Basco e na Catalunha o movimento assumiu feições separatistas. Durante dez dias, os rebeldes produziram violências inacreditáveis: incêndios, pilhagens, assassinatos (2.000 a 3.000 mortes ao todo).

Nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, os partidos da ordem obtiveram no total do país 200.000 votos a mais do que a Frente Popular (coligação de republicanos, socialistas, comunistas e sindicalistas). Essa última, devido ao recorte bizarro de circunscrições e às fraudes nos boletins de votos, verificadas em muitos lugares, conseguiu eleger alguns candidatos a mais. Desse modo, as Cortes puderam ser formadas com maioria da Frente Popular, cujo primeiro gesto foi a abrir as prisões. Condenados de direito comum eram liberados e armados enquanto a guarda civil e o exército eram desestruturados por meio da destituição dos chefes. No campo, trabalhava-se ativamente para manter e aumentar a miséria dos pequenos negócios de que a classe média vivia, a fim de estimular a miséria e o ódio que fornecem à propaganda revolucionária um terreno promissor.

Desencadeou-se uma campanha de perseguição religiosa que superou as anteriores em amplitude e crueldade. De fevereiro a julho de 1936, 411 igrejas foram destruídas ou profanadas e cerca de 3.000 atentados de natureza política e social foram cometidos.

Em 18 de julho de 1936, o levante do general Franco marcou o início da contrarrevolução e da guerra civil espanhola, que deixaria 600.000 mortos e cujas operações militares durariam 32 meses. Após a queda de Barcelona, as tropas franquistas vitoriosas expeliram as forças republicanas para a França e entraram em Madri em fevereiro de 1939.

 

1.1 A Espanha vermelha

O primeiro disparo da guerra civil ocorreu no dia 13 de julho de 1936, por volta das 4 da manhã, quando as forças marxistas de Madri assassinaram o deputado monarquista Calvo Sotelo. Dois dias antes ele havia pronunciado nas Cortes uma acusação tão esmagadora contra a Revolução e seus males que a deputada comunista Dolores Ibaruri não se conteve e gritou: “Esse homem falou pela última vez.” O assassinato de Calvo Sotelo, executado pelos revolucionários e decidido pela maçonaria, é um exemplo do que seguirá. O Pe. Turquet, que Léon de Poncins definiu como “provavelmente o maior conhecedor espanhol de questões maçônicas” revelara que uma condenação fora levada a Madri por Augusto Barcia, “grão-mestre do supremo conselho maçônico” e ministro dos assuntos estrangeiros da Frente Popular.

A revista secreta da maçonaria, Chaîne de l’Union, declarou que o objetivo perseguido na Espanha, após a supressão da monarquia que entravava o caminho dos maçons, “era de fazer desaparecer para sempre o pernicioso poder clerical romano” 5. A perseguição religiosa foi inspirada pela maçonaria que, por ódio à religião, preparava os caminhos para Moscou.

 

1.2. Infiltração anarquista e marxista na Espanha

Ao longo do segundo terço do século XIX, as idéias comunistas e anarquistas penetraram a Espanha. Por volta de 1870, a Internacional6 contava já com mais de 80.000 afiliados. No final do século, Barcelona havia se tornado uma das capitais mundiais do anarquismo. Nos tempos da monarquia, os revolucionários amavam repetir que não haveria paz nem justiça para os povos até que o último monarca fosse enforcado nas tripas do último monge em praça pública.

Os anarquistas atuavam apenas no domínio dos sindicatos trabalhistas. Eles detestavam a política e não intervinham nas eleições. Apesar dos atentados terroristas que promoviam, eram considerados então como incapazes de causar uma perturbação social das massas. Mas, ao se apoderarem de organizações trabalhistas e ao consolidar sua influência por meio da violência terrorista, botaram as mãos na alavanca que lhes permitiu chegar ao poder. Em 1931, a Espanha abrigava cerca de um milhão de anarquistas ligados à CNT (Confederação Nacional do Trabalho). Esta organização sindical era dominada pela FAI (Federação Anarquista Ibérica) que abrangia cerca de 10.000 membros militantes, verdadeiros profissionais da desordem, que tomaram a iniciativa de incendiar igrejas e conventos, praticar assassinatos, estupros, somados a crueldades totalmente inéditas.

As primeiras infiltrações comunistas na Espanha começaram com o estabelecimento de uma seção ibérica do partido comunista em 1920. A contar dessa data, os comunistas absorveram todas as demais correntes revolucionárias em razão da maior capacidade de organização metódica. Em 1932, infiltraram maciçamente a UGT (União Geral dos Trabalhadores, socialistas nas mãos da maçonaria) e conseguiram fundar a CGTU (Confederação Geral do Trabalho Unitário). A partir dessa data, apesar da superioridade numérica dos anarquistas, são os comunistas que utilizam meios brutalmente autocráticos, que levaram à conquista do território espanhol.

A revolução comunista foi dirigida, organizada e financiada pelo Kominterm7 com somas exorbitantes. A Rússia remeteu para a Espanha setenta e nove agitadores profissionais bem como 70 caixas de armas e munições, enquanto a Comissão Nacional de unificação marxista organizava a formação de milícias revolucionárias em todas as cidades espanholas.

Em 16 de maio de 1936, o representante da URSS se reuniu com os delegados espanhóis da 3a. Internacional na Casa del Pueblo, em Valência. Eles decidiram “incumbir um dos setores de Madri de eliminar as personalidades políticas e militares que poderiam vir a desempenhar um papel importante na contrarrevolução.” Para esse fim, estabeleceram “listas negras” nas quais os bispos e os padres figuravam em primeiro lugar. “Durante esse tempo, desde Madri até as aldeias mais remotas, as milícias revolucionárias recebiam instruções militares e eram copiosamente armadas, ao ponto de contar com 150.000 soldados de assalto e 100.000 soldados de resistência8 no início da guerra.”

“O núcleo dessa brigada (as Brigadas Internacionais que vieram em ajuda dos republicanos contavam com 60.000 homens) se constituía de quinhentos ou seiscentos enviados da Rússia", escreveu Krivitsky9. "Em todos países estrangeiros, Reino Unido inclusive, o recrutamento para as brigadas era organizado pelos partidos comunistas locais e suas filiais. Entre eles havia informantes para caçar espiões, eliminar homens cuja opinião política não fosse estritamente ortodoxa, vigiar as leituras e conversas. Com efeito, todos os comissários políticos das Brigadas internacionais e, mais tarde, da maior parte do exército republicano, eram comunistas a toda prova. 10

Sem dúvida, muitos dos atos condenáveis foram responsabilidade de grupos que agiam por conta própria no meio da impunidade geral. No entanto, muitos outros atos foram fruto do planejamento das organizações comunistas, socialistas e anarquistas, que possuíam sua polícia, seus tribunais e suas prisões, e puseram em prática os métodos mais avançados, inspirados pelos agentes de segurança soviéticos11. Notadamente, desde o motim, em toda a zona governamental, multiplicam-se as “Tchekas”. Em Madri, era possível enumerar mais de 200, logo suplantadas pelo SIM (Servicio de Información Militar), cujos procedimentos se assemelham aos do GPU12 e do NKVD13. A tortura era aí organizada conforme os princípios médico-científicos. As sevícias seguiam uma gradação ardilosa: privação do sono, confinamento em prisões tão diminutas que a vítima não podia ficar de pé nem sentada, leito inclinado de forma que o prisioneiro caia imediatamente ao dormir14.

A Rússia se imiscuiu nas forças governamentais, penetrou no seu comando e, mesmo conservando o governo da Frente Popular, trabalhou para a instauração do regime comunista por meio da derrubada da ordem estabelecida. "A obra destruidora se realizou aos gritos de ‘Viva a Rússia’, à sombra da bandeira da internacional comunista15.”

 

1.3 As razões religiosas da oposição

Evocamos acima as razões dessa oposição entre o comunismo e a Igreja Católica. Esse conflito pertence a esse quadro. “A guerra espanhola se reduz ao choque entre o espiritualismo, cujo campeão mais firme era a religião, e o materialismo, cujo defensor mais enérgico era o comunismo ateu.” 16

Os dirigentes revolucionários não se escondem. Em Moscou se realizou o congresso dos ateus, do qual participam 1.600 delegados pertencentes a 46 nações. Seu fim era recolher informações sobre os progressos realizados entre as nações no que se refere à destruição da crença em Deus. Jesús Hernández, ministro do governo espanhol de Largo Caballero, enviou a esse congresso o seguinte telegrama: “Vossa luta contra a religião é também a nossa luta. É nosso dever fazer da Espanha uma terra de ateus militantes. A luta será difícil, pois neste país as massas reacionárias são numerosas e se recusam absolutamente a aceitar a cultura soviética. Nós transformaremos todas as escolas da Espanha em escolas comunistas.”

Largo Caballero, líder comunista, bradava: “Não deixaremos pedra sobre pedra nesta Espanha. Temos de refazê-la nossa.” Este é bem o slogan satânico da revolução: destruir tudo, voltar à estaca zero para reconstruir o mundo ex nihilo. Ainda mais claro é este discurso da deputada Margarita Nelken: “Nós queremos uma revolução, mas a revolução russa não pode nos servir de modelo, pois temos necessidade de chamas gigantescas que possam ser vistas por todo o planeta, e vagas de sangue que tornem o oceano vermelho.” Mesmo o quotidiano de Barcelona “Solidaridad Obrera” escrevia em 26 de julho de 1936: “Não há muitas igrejas e conventos ainda de pé; mas, com muito custo, apenas duzentos padres e monges foram postos fora de circulação. A hidra religiosa não está morta. Convém levar isso em conta e não perder de vista essa realidade em face dos nossos próximos objetivos.” 17

Não eram apenas bravatas. A destruição dos lugares de culto ou ao menos do seu mobiliário foi sistemática e contínua. No curto intervalo de um mês, todas as igrejas tornaram-se inúteis ao culto, enquanto os padres eram mortos sem processo, no mais das vezes à queima-roupa: as igrejas eram incendiadas por serem casa de Deus, e os padres eram sacrificados por serem ministros de Deus.

“Contamos os mártires aos milhares. […]

"O ódio a Jesus Cristo e a Virgem Maria chegou ao cúmulo, e nas centenas de crucifixos apunhalados, nas imagens da Virgem bestialmente profanadas, nos pasquins de Bilbao em que se blasfemava sacrilegamente da Mãe de Deus, na infame literatura das trincheiras vermelhas em que se ridicularizam os divinos mistérios, na reiterada profanação das imagens sagradas, podemos adivinhar o ódio do inferno, encarnado em nossos infelizes comunistas18.”

 

2. A Espanha católica

2.1. O alcance da destruição

É impossível, em toda a Espanha, separar a história da fé católica da história da criação artística. Durante séculos, essas duas histórias se confundiram. Ao desejo de acabar com esses monumentos por conta do seu caráter religioso juntou-se o desejo de sumir com eles por causa de seu aspecto histórico, visto que representavam épocas radiantes e constituíam tipos de civilização que, como tais, o marxismo quer destruir. É impossível fazer o inventário dos monumentos destruídos e das maravilhas artísticas desaparecidas. E não se contentaram em atacar os lugares de culto público. Os oratórios e os objetos religiosos privados, imagens, pinturas, livros, foram sistematicamente destruídos. Jamais talvez na história das perseguições religiosas um caso semelhante tenha acontecido: em poucos meses, uma região católica havia séculos viu desaparecer de seu solo todo símbolo religioso, sem contar a supressão e a dissolução das publicações católicas, das bibliotecas paroquiais, dos centros de cultura instalados nos estabelecimentos católicos, bem como o incêndio e a dispersão de bibliotecas conventuais. Todos os monastérios e todos os conventos foram incendiados, destruídos, fechados ou entregues para outros usos19.

Pio XI descreveu a trágica situação da Espanha sob a dependência do governo republicano na sua encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937:

"Até em países, onde — como sucede na Nossa amadíssima Espanha — não conseguiu ainda a peste e o flagelo comunista produzir todas as calamidades dos seus erros, desencadeou contudo, infelizmente, uma violência furibunda e irrompeu em funestíssimos atentados. Não é esta ou aquela igreja destruída, este ou aquele convento arruinado; mas, onde quer que lhes foi possível, todos os templos, todos os claustros religiosos, e ainda quaisquer vestígios da religião cristã, posto que fossem monumentos insignes de arte e de ciência, tudo foi destruído até os fundamentos! E não se limitou o furor comunista a trucidar bispos e muitos milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, alvejando dum modo particular aqueles e aquelas que se ocupavam dos operários e dos pobres; mas fez um número muito maior de vítimas em leigos de todas as classes, que ainda agora vão sendo imolados em carnificinas coletivas, unicamente por professarem a fé cristã, ou ao menos por serem contrários ao ateísmo comunista. E esta horripilante mortandade é perpetrada com tal ódio e tais requintes de crueldade e selvajaria, que não se julgariam possíveis em nosso século.”

De 1934 a 1939, 20.000 igrejas ou conventos foram pilhados e destruídos em nome da liberdade de consciência. São 13 os bispos assassinados, padres 4.052, religiosos 2.338 e religiosas 270; ou seja, 6.773 consagrados aos quais se deve acrescentar 248 seminaristas e cerca de 80.000 leigos católicos de todas as idades e condições20. Entre esses milhares de padres, religiosos, bispos, monges e outros eclesiásticos, não se sabe de nenhum exemplo de apostasia.

 

2.2. O exemplo dos mártires

- A resistência do Alcazar

No final de 1936, o mundo inteiro seguiu com estupor a resistência do Alcazar de Toledo. Essa fortaleza de guerra foi tomada nos primeiros meses do alzamiento21 por milhares de combatentes insurgidos e um outro milhar de pessoas, que se compunha de velhos, mulheres e crianças. A primeira reação do governo republicano, quando soube que os insurgentes haviam se apoderado do lugar, foi chamar ao telefone o coronel José Moscardó Ituarte, chefe nacionalista da guarnição. O coronel Moscardó, com efeito, havia se abrigado no Alcazar de Toledo no meio de uma tal confusão geral que não pode trazer consigo a mulher e os filhos. Doña Maria se refugiara na casa do Tenente-coronel Tuero, mas foi descoberta em 22 de julho de 1936 pelos republicanos. Doña Maria conseguiu fugir com o pequeno Carmelo, mas seu filho Luís de 17 anos seguia prisioneiro.

No dia seguinte, o chefe dos milicianos de Toledo chamou ao telefone o coronel Moscardó para lhe anunciar que seu filho estava nas suas mãos.

“— Damos dez minutos para você se render — disse — senão, ele será fuzilado.

— O senhor não é nem um soldado nem um cavaleiro. Se fosse, saberia que a honra de um militar não cede diante da ameaça.

— O senhor me responde assim porque não crê na minha ameaça. Fale com seu filho… Aqui Moscardó!

— Alô… papai?

— Como você está, meu filho?

— Nada de particular, papai. Dizem que vão me fuzilar se o senhor não se render. Que devo fazer?

— Você sabe como penso. Se é certo que vão fuzilá-lo, recomende a sua alma a Deus, erga um pensamento a Espanha e outro a Cristo Rei.

— É fácil, papai. Farei as duas coisas… Um beijo forte, papai.

— Adeus, meu filho. Um beijo bem forte.”

O Alcazar resistirá por setenta dias a um ataque formidável, que fez chover sobre a célebre fortaleza 3.300 obuses de 155mm, 3.000 obuses de 105mm, e 3.500 de 75mm. Num único dia, 450 bombas de 50kg foram lançadas de avião. 1.900 homens sitiados passaram dias terríveis sob um trovão de fogo. 82 morreram. Dois bebês nasceram nas ruínas! No dia 28 de setembro de 1936, após a liberação do forte destroçado, a promoção do coronel Moscardó e uma missa de ação de graças, o novo general Moscardó foi embora no meio das aclamações, estava triste e recurvado. Ele se recordava do martírio de Luís, e deu a entender também que lhe custava enormemente entregar a fortaleza à Espanha num tal estado…22

 

— Ceferino Jiménez Malla

Ceferino Jiménez Malla foi fuzilado pelos republicanos espanhóis na noite de 2 de agosto de 1936, com 75 anos de idade, no cemitério de Barbastro, em Aragão, com muitas outras vítimas. Ele foi preso pelos milicianos comunistas no início da guerra civil, acusado de ter escondido um padre e de ter resistido à prisão pelos milicianos. Após três semanas de prisão, Ceferino foi tirado de cela; os milicianos ordenaram que largasse o terço que carregava consigo a fim de rezar. Ele usava o rosário ostensivamente e rezava na frente de todos. Recusou-se com vigor a entregar o terço e foi fuzilado por esse motivo. Diante do pelotão comunista, ele estreitou o terço contra o peito e gritou: “Viva el Cristo Rey!”. Ceferino Jiménez Malla morreu mártir e confessor da fé23.

 

— Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz

Sabino Ayastuy, Joaquín Ochoa e Florencio Arnaiz tinham, respectivamente, 24, 26 e 27 anos quando roubaram as suas vidas. Sabino e Florencio tinham pronunciado seus votos definitivos na Sociedade de Maria, em 1934, e Joaquín em 1935, manifestando por escrito nessa ocasião a sua adesão à Nossa Senhora e a firme vontade de servi-la até o fim. Durante a sua prisão, Sabino teve o gesto tocante de dizer “adeus" ao zelador, mesmo sabendo ter sido denunciado por ele, manifestando assim seu desejo de perdoar. Sobre os seus corpos torturados foram encontrados crucifixos, medalhas e mesmo um certificado de batismo, prova do seu desejo de professar a fé até o fim, apesar dos riscos incorridos24.

 

— Os irmãos do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri e os padres Agostinianos de Escorial.

Um irmão sobrevivente do orfanato do Sagrado Coração de Jesus, em Madri, testemunhou: “Os milicianos se obstinaram em nos fazer renegar a fé. Separaram os mais moços para seguirem mais à vontade seu plano sinistro. Cada uma de nossas recusas era seguida de torturas.” O irmão Santiago Angel, F.S.C, prisioneiro também, viu passarem as futuras vítimas que os milicianos conduziam para a execução. “Eles se afastavam, escreveu ele25, pacificados, calmos, fortes. Na sua atitude adivinhava-se a têmpera das suas almas, que se lançavam para a morte sublime que lhes era infringida por serem religiosos.”

Quando o cortejo chegou ao local de execução, o Pe. Avelino Rodriguez, provincial dos Agostinianos, pediu aos milicianos que lhe deixassem se despedir de seus confrades e lhes absolver. Isso foi-lhe concedido. Ele abraçou um a um os seus companheiros de suplício que, de joelhos, receberam a absolvição, em seguida, clamou26: “Sabemos que nos matam por sermos católicos, padres ou religiosos. Nós vos perdoamos de todo coração. Viva Cristo Rei! Viva a Espanha!”

 

— Antonio Molle Lazo27

Antonio Molle Lazo trabalhava na estação de Xérès (antigo nome de Jerez de la Frontera), cidade com uns cem mil habitantes. Sua caridade inesgotável e a distinção de suas maneiras lhe granjearam a simpatia de seus colegas. Os socialistas, contudo, conseguiram do governo a dispensa de todos os que não partilhassem das suas idéias.

Sem se desconcertar, Antonio procurou trabalho em outra parte. Estudou a organização e os métodos dos seus adversários, exprimindo sua dor ao ver os inimigos de Deus demonstrando mais entusiasmo na busca de seu ideal de ódio do que certos católicos na defesa da Religião: “Os socialistas, tão numerosos, e nós, católicos, tão poucos! Que vergonha!” dizia ele. No entanto, redobrando a coragem, instava seus colegas a se confessarem e a comungarem aos domingos.

A todos os que se escusavam alegando, seja a distância, seja as vexações dos adversários, ele respondia: “Não é longe até Xérès… se nos jogarem pedras, que mal pode nos fazer? É preciso sofrer algo por Jesus Cristo, talvez nosso exemplo conduzirá outros até a santa mesa […] e nós teremos esse ganho!” Quando foi pego pelos vermelhos, eles quiseram obrigá-lo a gritar: “Viva o comunismo!”

— Viva Cristo Rei, foi a sua resposta.

Cortaram-lhe uma orelha.

— Blasfeme o nome de Deus.

— Não. Viva Cristo Rei!

Cortaram-lhe a outra orelha.

— Blasfema!

— Jamais!

Cortaram-lhe o nariz.

— Viva Cristo Rei!

Sem conseguir alcançar o seu fim, e não podendo suportar o seu olhar límpido, furaram-lhe os olhos. Cortaram várias vezes a sua língua, mas ele gritava:

“Viva Cristo Rei! Podem me matar, mas Cristo triunfará!”

Estendendo os braços em forma de cruz, ele mesmo deu a ordem de sua execução, gritando: “Viva Cristo Rei”.

 

Conclusão

Há uma corrente de satanismo na história, paralela ao catolicismo e em perpétua luta contra ele.

Esse ódio misterioso é de uma essência diferente e superior a todos os demais ódios que encontramos ao longo da história, que, por ferozes e culpáveis que sejam, movem-se sempre por razões estritamente humanas, tais como a inveja, o orgulho, o rancor, a vingança. Não tem esse caráter permanente, não se relacionam sempre com um mesmo objeto que, por sua vez, jamais lhe deu causa, segundo a palavra mesma de Cristo: “Odiaram-me sem motivo”.

Pelo fato de os demais ódios se relacionarem a algo determinado e preciso, a causas tangíveis cujo peso corresponde ao do efeito, eles não têm esse caráter assustador de um surto de histeria que faz pensar imediatamente, queiram ou não, na possessão demoníaca. Cristo a definiu com estas palavras: “Essa é a vossa hora, e o poder das trevas.” O ódio ao catolicismo tem em si um elemento que ultrapassa a razão e está fora do ponderável, corresponde a uma crise misteriosa cujo campo não é o corpo, mas o espírito28.

Malynski descreve assim a guerra que se desenrolou sobre o solo espanhol, uma luta que ultrapassa largamente as fronteiras desse país. “É uma etapa nova e talvez decisiva da luta entabulada entre a Revolução e a Ordem”, “uma luta internacional em um campo de batalha nacional; o comunismo produziu na península uma batalha formidável da qual dependeu a sorte da Europa”, pode-se escrever de modo muito apropriado. O povo espanhol foi “enfeitiçado por uma doutrina de demônios”, pois “é impossível pretender que entre o clero católico e a alma popular tenha havido divergências ou a menor oposição. A alma popular, consciência imanente da tradição e continuação histórica do passado, certamente não tem nada em comum com a agitação plebéia nem com os sindicatos de terroristas.” Esse ódio à religião e às tradições patrióticas veio da Rússia e enganou o povo espanhol. Para prová-lo, no momento de morrer, condenados pela lei, os comunistas espanhóis em sua maioria se reconciliaram com o Deus de seus pais. Menos de 20% morreram na impenitência final nas regiões do norte e menos de 10% nas regiões do sul29.

Mas essa destruição sistemática de tudo o que constituía o patrimônio religioso e cultural da Espanha fez florescer toda uma falange de mártires.

 

Ah! Muitos se figuram que seus pés marcharão ao céu por um caminho fácil e complacente.

Mas, de repente, eis a questão apresentada, eis a intimação e o martírio!

O céu e o inferno foi posto nas nossas mãos, e temos quarenta segundos para escolher.

Quarenta segundos? É demasiado! Espanha irmã, Espanha santa: tu já escolheste.

Onze bispos, dezesseis mil sacerdotes assassinados e nenhuma apostasia sequer.

[…] A terra concebeu nas suas profundas entranhas, e a Retomada já começou.

[…] E tudo, quando foi derramado, os anjos respeitosamente recolheram e transportaram para o interior do Véu! 30

 

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, tradução: Permanência)

  1. 1. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne.
  2. 2. Esse fato foi relatado num artigo de La Croix dos anos 1930, citado em Ir. A. Joaquin, Nos Martyres d’Espagne, F.S.C., Ed. Saint-Rémy, 2008, p. 25.
  3. 3. Cardeal Segura, carta pastoral de 31 de maio de 1931; citado por Lucien Thomas, L’Action Française devant l ‘Église, p. 29; Cf. Gustavo Corção, Le siècle de l’enfer, Ed. Sainte Madeleine, 1995, p. 292.
  4. 4. Arnaud Imaz, La guerre d’Espagne revisitée, Economica, 1993, p. 11.
  5. 5. Le Nouvelliste de Lyon, 23-X-1936, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 28.
  6. 6. Associação internacional que agrupava trabalhadores para ações de transformação da sociedade. A 1a. Internacional, fundada em Londres em 1864, desapareceu após 1876 por causa da oposição entre marxistas e anarquistas. A 2a. foi fundada em Paris em 1889 e se manteve fiel à social-democracia, e desapareceu em 1923. A 3a. Internacional comunista, ou Kominterm, fundada em Moscou em 1919  reúne ao redor da Rússia Soviética, e depois, da URSS, a maior parte dos partidos comunistas. Ela foi suprimida em 1943 por Stalin.  
  7. 7. (1919-1943). Ele representa durante a primeira parte do século XX, em escala internacional, o movimento comunista alinhado com a URSS. Era dirigido pelo Partido comunista da União Soviética.
  8. 8. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  9. 9. O general W.G. Krivitsky era, na época, chefe do departamento de informação soviético na Europa Ocidental.
  10. 10. Trecho de Lecture et Tradition no. 271.
  11. 11. Cf. Ministerio de Justicia, La dominación roja en España, Causa general, Madr, 1943. Citado em La guerre d’Espagne revisitée, Arnaud Imatz, Economica, 1993, p. 47.
  12. 12. Segundo nome da polícia de Estado da União Soviética entre 1922 e 1934. Constituída a partir da Tcheka.
  13. 13. Terceiro nome da polícia de Estado da União Soviética, entre 1934 e 1946. Sucedeu ao GPU.
  14. 14. Cf. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964; o autor relata muitas atrocidades cometidas pelos vermelhos, das quais foi testemunha ocular. Cf. Lecture et Tradition no. 271 que publicou trechos do livro.
  15. 15. Carta Coletiva dos bispos espanhóis aos bispos de todo o mundo a propósito da guerra em Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  16. 16. La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  17. 17. Marcelo Gaya y Delrue, Les mémoires d’un officier franquiste, combattre pour Madrid, ed. La Pensée moderne, Paris, 1964, citado em Lecture et Tradition no. 271, p. 17.
  18. 18. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  19. 19. Conforme La Persécution religieuse en Espagne, tradução de Francis Miomandre, Plon, 1937.
  20. 20. Conforme o livro do Pe. Calasanz BAU, S. P., Rapport présenté à la Sacré Congrégation des rites en vue de la béatification et canonisation des Serviteurs de Dieu massacrés en Espagne, Roma, 1953, p. 641, 507 e 654, citado por Ir. A. Joaquin, op. cit., p. 35.
  21. 21. O “levante" espanhol do qual Franco tomou a direção em 1936.
  22. 22. Sobre a história da resistência do Alcazar, ler o relato de Brasillach, Les cades de l’Alcazar, 1936, Plon.
  23. 23. Pelayo, La Vanguardia, 23 de março de 197, p. 47. Citado em Lecture et Tradition no. 269-270.
  24. 24. José Maria Salaverri, Morts pour le Christ, S.M., D.F.R., 2007.
  25. 25. Los Hermanos de las Escuelas Cristianas en el Movimiento Nacional, Ed. Buflo, Marqués de Mondéjar, 32, Madrid.
  26. 26. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  27. 27. Ir. A. Joaquin, op. cit.
  28. 28. Malynski, La guerre occulte, citado por Léon de Poncins, Contre révolution, abril de 1939 (Lecture et Tradition no. 271).
  29. 29. Carta coletiva dos bispos espanhóis aos do mundo inteiro a propósito da guerra na Espanha, publicado em Lecture et Tradition no. 269-270, p. 36.
  30. 30. Paul Claudel, extrato do prefácio de La persécution religieuse en Espagne. Tradução literal.

Introdução ao vigésimo primeiro domingo de Pentecostes

 “O seu senhor irritado o entregou aos executores” (Evangelho.)

 

Paramentos verdes

 

Continua a ler-se no Ofício Divino a história dos Macabeus que se bateram pela pátria e pelas suas tradições de povo eleito. A vida cristã é também um combate contínuo que se vai desenrolando através do tempo e em que estão igualmente em jogo a glória de Deus e a salvação do povo. E nesta luta, que todo o cristão deve travar, fica bem o ardor desinteressado do cavaleiro leal e sem mancha que se bate até cair exangue, gritando, num último arranco, o nome do seu Rei e Senhor. Lembremo-nos que nós como eles combatemos pela fé de nossos pais, pelo patrimônio sagrado de filhos de Deus, que devemos colocar acima de todos os títulos e grandezas da Terra. Todo este imenso tesouro espiritual, que guardamos em vasos de barro, é ameaçado constantemente pelas forças do mal em rebelião perpétua contra Deus. A luta não se trava com os homens, diz S. Paulo, mas com os espíritos das trevas, cuja ação é grandemente poderosa e deletéria. E o Apóstolo convida-nos a que nos armemos com as armas de Deus: com a Fé, com a verdade, com a justiça, com o Evangelho da paz e da caridade. O Intróito é um hino de confiança na vitória: “Todas as coisas dependem da Vossa vontade, Senhor, e nada há que lhe possa resistir”. O Gradual e a Comunhão exprimem os mesmos sentimentos de esperança invencível. Sentimos realmente dentro de nós uma força nova, ao erguermos a nossa voz débil a um Deus onipotente, que se compraz em ajudar os que O invocam. A Igreja, que sabe os rudes combates que temos de sustentar, coloca-nos assim nos lábios orações magníficas para nos infundir coragem e dobrar sobre nós a misericórdia divina. Não obstante, porém, o auxílio do Céu, a nossa fraqueza e inconstância não nos permitem aguentar por muito tempo o peso da peleja sem deixar terreno ao inimigo. É nestes momentos culminantes que devemos recorrer mais que nunca à misericórdia de Deus. E o Evangelho diz-nos que ela é infinita e que nunca nos poderá faltar, se nunca a negamos àqueles que no-la pedem também.

Da Epístola: O Apóstolo fala-nos da luta terrível que temos de travar com os espíritos invisíveis, e manda-nos armar com as armas de Deus.

Do Evangelho: Tornamo-nos duros e implacáveis por causa duma injúria que recebemos, e negarmos a reconciliação a quem nos ofendeu com uma simples palavra menos delicada, não será condenarmo-nos a nós mesmos?

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

A guerra dos cristeros

M.J.C.F.

Há pouco mais de oitenta anos, o povo católico mexicano, perseguido por causa da fé, pegava em armas para a defesa de Cristo Rei. Assinava com o seu sangue o texto Quas Primas (1925) de Pio XI sobre a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Praticamente ausente dos livros de história e dos arquivos do Vaticano, essa segunda Vendéia militar é, no entanto, muito rica em ensinamentos e exemplos, como se verá a seguir.

 

1. ”Pobre méxico, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"1

 

1.1 As primícias do conflito

Evangelizado no século XVI pelos espanhóis, o México conquistou a independência em 1821. O século XIX foi marcado por uma permanente instabilidade: guerras civis, ditaduras, golpes de Estado, revoluções. Após a ditadura de Dom Porfírio Diaz, que redundou em um tempo de paz entre 1876 e 1910, chegaram ao poder os protestantes, os maçons e os marxistas vindos do norte do país. “Aos seus olhos, o protestantismo explicava o sucesso norte-americano, de molde que eles retomaram o libelo anglo-saxão contra o passado hispânico e colonial do México: o velho México era degenerado por causa dos índios e dos padres, e a salvação dependia dos homens da fronteira do norte, que trariam a civilização” 2, explica Jean Meyer. “O conflito com a Igreja era inevitável, na medida em que a nação, como a Igreja Romana, não admitia nada acima dela.” Os dirigentes envidaram esforços para esmagar toda oposição ao Estado centralizador. Em 1917 foi instituída uma Constituição revolucionária que proclamou a ditadura suprema do Estado. Todos os corpos intermediários tornaram-se ilegais, especialmente os sindicatos católicos. Os dirigentes podiam dizer como o general J.B. Vargas aos católicos: “Aceitaria de bom grado a vossa seita católica se fosse nacional, se nomeassem um papa mexicano.”

Muitos artigos antirreligiosos foram proclamados na Constituição, mas o presidente Obregon não ousou aplicar essas leis em todo o território, limitando-se às regiões menos católicas:

  • O artigo 3º impunha a secularização do ensino;
  • O artigo 5º proibia as ordens monásticas;
  • O artigo 24 proibia o exercício do culto fora das igrejas;
  • O artigo 27 restringia o direito das organizações religiosas à propriedade;
  • O artigo 130 atentava contra os direitos cívicos dos membros do clero: os padres perderam o direito de usar o hábito religioso, perderam o direito ao voto, e foram proibidos de comentar quaisquer assuntos públicos nos órgãos da imprensa.

 

1.2. O governo callista

Em 1924 Plutarco Elías Calles chegou ao poder. O general Roberto Cruz dizia a seu respeito: “No governo não havia, já não digo alguém que lhe recusasse obediência ou o enfrentasse, mas simplesmente alguém que resistisse a qualquer uma das suas decisões. Ele era absoluto e resolvia tudo de modo definitivo. Se ditador for aquele que não concebe nada para além da sua vontade, então Calles foi a personificação da ditadura.” 3 “Para alcançar seus objetivos, que eram “ordem e progresso”, estava disposto a tudo e decidido a ser ‘mestre absoluto’. Ele obteve para isso o apoio americano, mostrando-se capaz de pagar o serviço da dívida exterior: os banqueiros americanos, as companhias petrolíferas e os proprietários de bens de capital no México tornaram-se favoráveis a ele.

Para ele, a Igreja era a única causa de todos os males do México e, por isso, devia ser destruída: “Calles é o porta-voz de espanhóis e ibero-americanos que julgam o catolicismo incompatível com o Estado; ele, espírita, frequentador de curandeiros (…) votava à Igreja um ódio mortal." 4

A Constituição foi então aplicada à letra em todo o território. O governo procedeu a um inventário dos bens da Igreja, mandou fechar escolas católicas, expulsou as congregações e proibiu os sindicatos católicos. Ordenou o confisco ou a profanação de numerosas igrejas, que se tornaram estrebarias ou salões de festas, quando não foram destruídas5.

Calles fundou uma igreja nacional mexicana separada de Roma, importou missionários protestantes dos Estados Unidos e financiou a abertura de 200 colégios protestantes. Outras leis anti-católicas foram votadas. Em 1926, a seguinte proclamação foi pregada nas portas de todas as igrejas:

Art. 1o: Todo indivíduo responsável por uma igreja será condenado a uma multa de 50 pesos e a um ano de prisão se os sinos repicarem.

Art. 2o: A todo indivíduo que ensinar seus filhos a rezar será aplicada a mesma pena.

Art. 3o: O mesmo em toda casa onde se encontrar santos.

Art. 4o: O mesmo para toda pessoa que usar insígnias [religiosas]. 

… e assim por diante até o 30o artigo6.

O nome de Deus foi banido do vocabulário: quem tivesse a infelicidade de dizer “adiós” (adeus) ou “si Dios quiere” (se Deus quiser) era punido com multa de 10 pesos (uma fortuna para os camponeses). O povo mexicano, no entanto, mantinha-se fiel à sua fé.

 

1.3. O terror

Calles decidiu então impor as leis antirreligiosas pelo terror. No dia 26 de julho, dois policiais a paisana abateram friamente um comerciante por ter ele afixado na sua lojinha um cartaz com os dizeres: “Viva el Christo Rey!”. Um soldado foi fuzilado de imediato por ter sido surpreendido com uma medalha de Nossa Senhora de Guadalupe.

Os fuzilamentos, as mutilações serviam de exemplo. Após terem sido torturados por toda a noite por soldados, três rapazes foram fuzilados contra o muro da catedral de Colima, à vista de todos. Os prisioneiros eram pendurados em galhos de árvores, nos postes de telégrafo ou ao longo das estradas de ferro. As vítimas assassinadas e as cenas de tortura eram fotografadas ou filmadas para que muitos as vissem.

“Os sacrilégios eram acompanhados de um horror consciente e partilhado entre executantes e espectadores. A temática era comum: igrejas profanadas por oficiais que nelas entravam a cavalo e alimentavam suas montarias com hóstias, transformavam os altares em mesas, os prédios em estrebarias. As estátuas eram fuziladas quando não arrancavam as Virgens para dançarem com elas. Usavam os ornamentos como fantasia e comiam-se as hóstias consagradas e bebia-se café com leite no cálice.” 7

Finalmente, puseram os padres sob o controle do poder civil: eles foram “registrados”. “Os ministros do culto (…) foram postos sob controle judiciário e perderam todos os direitos. Qualquer governador tinha autorização de fixar por decreto o número [de padres] no seu terreno de caça; e de impor o chicote, o exílio ou o presídio aos recalcitrantes.” 8 Certos governadores quiseram obrigar os sacerdotes a se casarem para poderem continuar a oficiar. Foram limitados ao número de um padre para cada 30.000 habitantes no estado de Tabasco, e 140 para um milhão de batizados no estado do México, enquanto lhes esperavam o cárcere, a tortura e a execução.

 

2.  A resistência

2.1. Dos leigos

A resistência dos católicos não se fez esperar. Penitências, peregrinações e orações públicas foram a resposta dos fiéis a todas essas atrocidades. Organizaram-se Imensas procissões, viu-se 15.000 batizados desfilarem, com os pés nus e coroas de espinhos. Essas manifestações eram reprimidas à metralha9.

A ACJM (Associação Católica da Juventude Mexicana) divulgou a seguinte agenda:

Contra o artigo 18o, que versava sobre os delitos em matéria de culto religioso punidos com multa de 500 pesos ou, na ausência, 15 dias de prisão, e sobre o uso de vestes e insígnias religiosas fora do lugar de culto, nós decidimos que o uso de nossa insígnia será obrigatório para todos os membros da ACJM a partir de 31 de julho10.

As associações católicas fizeram petições. Obtiveram 2 milhões de assinaturas num país que possuía 15 milhões de habitantes. O presidente da Câmara dos Deputados, contudo, declarará não ter recebido nada e o governo fechou outras escolas católicas e conventos.

Os fiéis tentaram então o boicote econômico. Eles se privaram de tudo o que era propriedade do Estado: transportes, alimentação, tabaco, espetáculos. Num país de grande maioria católica, esse boicote representa um grande golpe nos negócios do Estado, que acusaram uma queda de 75%. O banco nacional verá 7 milhões de pesos serem sacados em poucas semanas11. Várias salas de espetáculo tiveram de fechar as portas. Mas o sucesso não durará porque os ricos, que também sofriam as conseqüências econômicas, não querem participar. “Católicos ou não, os ricos tinham horror ao boicote.” 12

 

2.2 Dos bispos

Quanto ao episcopado mexicano, ele procura um acordo com o governo. Enquanto pediam paciência aos fiéis, apresenta propostas para a revisão das leis.

“O governo mexicano, em razão de sua hostilidade agressiva, representava um grave problema à Igreja, que tinha por fim transformá-lo, a longo prazo, num regime benevolente. (…) A política que o Vaticano conduz em escala mundial [visa a] garantir à Igreja católica as melhores possibilidades de expansão. (…) Nessa perspectiva, Roma fez tudo para evitar a crise de 1926-1929, multiplicou as demonstrações de boa vontade e, finalmente, impôs a paz de 1929.”

Mas o governo não cedeu às demandas dos bispos. O Papa Pio XI interveio por um telegrama dirigido ao comitê episcopal mexicano: “A Santa Sé condena a lei bem como todo ato que possa significar ou ser interpretado pelo povo fiel como aceitação ou reconhecimento da lei mencionada” 13 (a do registro dos padres, cf. 1.3). Calles considerou isso uma rebelião e ainda agravou as medidas de repressão.

Os bispos decidiram então suspender o culto público a partir de 31 de julho. Já não haveria missas nem sacramentos nas igrejas em todo o território. Por que uma decisão dessas? Os bispos esperavam viver nas catacumbas? Como o culto público havia se tornado impossível, essa decisão seria muito corajosa se permitisse que os padres continuassem a celebrar os sacramentos junto ao povo mexicano, que já escondia espontaneamente os padres. Mas a hierarquia ordenou aos sacerdotes  reagruparem-se nas cidades e rezarem missas em capelas privadas. Ela buscava contemporizar para poder continuar as negociações com o governo.

Todos os católicos passaram seus últimos dias de liberdade aos pés do altar:

“A gente começava a vir aliviar a consciência, conquanto fosse tempo de trabalhar nos campos; a cada dia que passava aumentava na cidade a pressa de todos os camponeses que desciam de lugarejos vizinhos; em todos os peitos se percebia a angústia, os rostos estavam pálidos e os olhos cheios de tristeza. Na paróquia de Tlanltenango havia três padres, mas não bastaram para confessar tanta gente, não tinham tempo nem lazer sequer para poder comer e passavam o dia todo, do amanhecer até tarde da noite, sentados nos confessionários, mas não conseguiam confessar todo mundo.” 14

 

3. A resistência armada

No dia 31 de julho, as igrejas foram fechadas, como previsto. O povo mexicano, que suportara tudo, iniciou uma cruzada porque se viu privado de sacramentos. Após ter esgotado todos os meios pacíficos de negociação, pegou em armas para a defesa de Cristo Rei ao lado de alguns poucos padres (apenas duzentos de um total 3.500 ficaram com seus fiéis) e um bispo15 (de trinta e oito).

 

3.1. As primeiras insurreições

“Ignoro quais foram exatamente os motivos que levaram os católicos de Villa Hidalgo a se levantarem, mas na origem de tudo houve a vinda de tropas federais e o ódio com que cometeram um grande sacrilégio: os oficiais penetraram a igreja, abriram o tabernáculo, jogaram no chão as espécies consagradas antes de calcarem-nas aos pés; em seguida, lançaram milho sobre o altar para dar de comer aos cavalos.” 16

Por toda parte em que a fé foi atacada, os católicos passaram à ofensiva. “Em Santiago Bayacora, no estado de Durango, três funcionários federais vieram fazer o inventário da igreja. Foram recebidos com pedradas e tiveram de fugir. Duzentos homens armados com velhos fuzis deixaram imediatamente a cidade para evitar o cerco e partiram para cima do inimigo. O primeiro confronto se deu no meio da campo, por volta de meio-dia. Foi uma matança terrível do lado dos federais, que abandonaram o local deixando grande quantidade de cadáveres, armas e munições. Duas horas mais tarde, uma nova coluna federal foi desfeita do mesmo modo." 17

Em Pénjamo, Luis Navajo Origel, prefeito da cidade e católico fervoroso, assumiu a frente do motim. Com seus homens, refugiou-se nas montanhas e dali comandou uma guerrilha. Em Durango e no sul do estado de Guanajuato, produziu-se o mesmo cenário. Em Jalisco, sob o comando de René Capistran Garza, presidente da ACJM, as tropas pouco a pouco se fortaleceram e a região se tornou o centro nevrálgico da rebelião.

Tendo iniciado no oeste mexicano, o levante estendeu-se rapidamente até o golfo atlântico.

 

3.2 Os combatentes

Toda a gente ingressou na cruzada com poucas armas e munições, e nenhuma ajuda estrangeira. Mas nem coragem nem generosidade faltaram a esse povo profundamente católico. A maior parte deles rumou para o combate esperando o martírio. Até as crianças beijavam suas mães dizendo: “Mamacita, não vais querer que eu perca o céu agora que está tão barato, não é?”

José Sanchez tinha 14 anos. Cercado em fevereiro de 1928 pelos federais, cede seu cavalo ao chefe do grupo, que estava ferido, e cobre a sua retirada. A munição acaba e ele é capturado: “Saibam que eu não me rendi”, declarou, “não tenho mais cartuchos, é isso.” Ele é massacrado. No bolso, tinha esse bilhete: “Minha querida mamãe. Fui preso e vão me matar. Estou feliz. A única coisa que me inquieta é que você vai chorar. Não chore, nós nos reencontraremos. José, morto por Cristo Rei.” 18

A alegria nunca está ausente, apesar dos sofrimentos e da abnegação. Alguns são cheios de audácia e de humor, mesmo nas horas mais trágicas.

Tomasino é membro do comitê diretor da ACJM, e prefeito da Congregação de Maria. Depois de preso, prometeram-lhe a liberdade se falasse:

“Os senhores cometeriam um erro, claro, pois uma vez livre continuaria a luta por Cristo Rei. O combate pela liberdade do culto [verdadeiro] não é para nós opcional.

“— Não sabes o que é a morte, moleque!

“— É verdade, nunca me aconteceu de morrer. E o sr., meu general?” 

Em agosto de 1927 foi enforcado, tinha 17 anos de idade19.

Os chamados Cristeros — um termo de desprezo cunhado pelos revolucionários pois eles combatem ao grito de “Viva el Cristo Rey” — não tinham nenhuma nenhuma noção de combate ou de clandestinidade.

Na Cidade do México, em 6 de setembro de 1926, Joaquim de Silva, 28 anos, irrompeu na casa do seu confessor, os olhos brilhavam. Nos seus bolsos estava a sua “bagagem”: uma pistola, cinquenta cartuchos, nove cartas e seu precioso terço.

“Faço questão de não ser um católico medíocre. Parto para unir-me ao exército de Cristo Rei! Peço a bênção do senhor.

“— Vais abandonar a sua mãe e suas irmãs sem sustento?

“— O Senhor cuidará delas. Ademais, elas mesmas me pediram para ir.”

O Pe. Cardoso, apesar da grande inquietação, se deixou vencer e Joaquim da Silva tomou o trem naquela mesma noite em companhia de dois camaradas. No trem, os três aprendizes de Cristeros entabulam conversa com um general aposentado, que carregava uma impressionante bateria de medalhas e escapulários. Joaquim da Silva convidou o general a examinar o plano de guerra. O soldado aceitou juntar-se a eles no bom combate; o encontro é marcado para o dia seguinte. Mas os Cristeros são entregues pelo general e fuzilados sem julgamento. Joaquim despede-se do seu delator nesses termos: “O senhor me entregou à morte. Em troca, eu ofereço minha intercessão em teu favor diante do Pai Onipotente.” 20

As mães não foram excluídas do sacrifício de todo o povo católico. A mãe de Luis Navajo Origel dizia simplesmente: “Eu ofereci a vida de meus quatro filhos a Cristo. Mas o Senhor não quis tantos, só tomou dois”. E aos comissários do governo que vieram confiscar nas suas fazendas suas reservas de trigo: “Meus bons senhores, se permiti que entregassem meu filho à morte por Nosso Senhor Jesus Cristo, como poderia recusar hoje o trigo dos meus campos? Aqui está a chave para entrar nas reservas, confisquem tranquilamente.”

De abril a dezembro, os Cristeros, que não tinham organização nenhuma, eram vencidos assim que se aproximavam das grandes cidades. Confrontavam um exercito federal com cerca de 80.000 homens equipados pelos Estados Unidos com metralhadoras, trator de artilharia e aviões de combate. Os confrontos são verdadeiros massacres, a ponto de o general Jesús Ferreira, comandante em chefe das tropas federais do estado de Jalisco, declarar: “Não partimos para uma campanha, mas para uma caça” 21. Os federais julgam então que a revolta acabara.

 

3.3 A organização da Cristiada

Mas os Cristeros se reagrupam e se organizam. Em 1927, põem-se às ordens de um general em chefe: o general Gorostieta, militar aposentado. Grande estrategista, alcança-lhes muitas vitórias.

No dia 21 de junho de 1927, a brigada feminina de Santa Joana D’Arc (a B.B.) foi criada. Organizada como uma rede secretíssima, mobilizou até 25.000 mulheres cristeras como espiãs, enfermeiras ou para a logística.

“Trata-se em suma de uma organização que, durante dois anos, pôs milhares de mulheres em ação, dia e noite, fazendo a ligação entre a cidade e os campos de batalha." 22

“Algumas delas, possuindo conhecimentos científicos bem superiores aos dos camponeses, cumpriam a função de artífices e de professoras, ensinando os Cristeros a fabricar explosivos, dinamitar os trens, manipular armas de artilharia e detonadores. As B.B. levaram muito a sério sua missão de guerra… Valendo-se de todos os meios, organizavam bailes nas cidades para ganhar a confiança dos militares, despistar as suspeitas e obter informações. […] O cuidado dos feridos escondidos nos povoados ou na cidades incumbia à B.B. bem como a direção dos rudimentares hospitais dos campos de Altos, Colima, Sul de Jalisco e do hospital clandestino de Guadalajara. […] Elas trabalhavam na propaganda e na imprensa clandestina, […] garantiam sobretudo o correio político e militar dos Cristeros e contribuíam na sua rede de informação.” 23

Valendo-se de seu bom conhecimento do terreno, armamentos, munições e dos cavalos subtraídos ao inimigo (em novembro, 40% estavam armados com excelentes Mauser “federais”), os Cristeros ganharam terreno.

Em Puerto Obristo, 600 federais caíram mortos. No dia 1o. de janeiro de 1927, 1.200 homens se insurgiram e controlaram o estado de Durango. “Nosso movimento é firmemente apoiado por toda a população, e os esforços do tirano para impedir o seu crescimento estão votados ao fracasso. Sem contar com nenhuma ajuda estrangeira, em um ano reunimos 40.000 homens armados”, declarou o general Gorostieta a um amigo mexicano24.

No apogeu do seu efetivo, os Cristeros serão 50.000.

O seu general em exercício, Gorostieta, testemunhou a moralidade das suas tropas: “O efetivo é composto de homens de ordem, de uma moralidade absolutamente sem precedentes nas tropas mexicanas. Daí o fracasso do governo, a despeito do apoio estrangeiro, de seu ouro e de suas práticas criminosas.” 25

Os federais buscaram então reunir a população nas cidades. “O Estado-Maior decidiu organizar concentrações, prelúdio necessário às razzias das colunas federais. O princípio era simples: deram o prazo de algumas semanas para que a população civil evacuasse um dado perímetro e viesse a se refugiar numa série de localidades previstas. Passado esse prazo, toda pessoa que se encontrasse numa zona vermelha era executada sem julgamento. As colunas confiscavam a colheita e o gado, incendiavam os pastos e florestas, abatiam à metralha o gado que não pudessem levar no trem.” 26  Não obtiveram, porém, grandes resultados. Em 1929, os Cristeros controlavam três quartos do México habitado. A vitória estava ao alcance das mãos.

 

4. O fim da rebelião

No dia 22 de junho de 1929, a imprensa publicou os “arreglos” ou “acordos”. As negociações secretas entre o governo mexicano e os bispos chegaram na véspera a uma resolução que previa o fim imediato e incondicional dos combates e o reinício do culto público no dia seguinte.  

Não se tratou da modificação ou supressão das leis anti-católicas. Foi mantido até mesmo o registro dos padres. Retornou-se à situação de 1926, sem consideração pelo povo mexicano que, há três anos, dava sua vida pelo retorno de Cristo aos altares… e que estava próximo do sucesso.

Jesus Degollado, general em exercício dos Cristeros, julgou que era preciso se submeter. Ele se dirigiu às suas tropas, com a voz embargada pela dor: “Sua Santidade, o papa, por intermédio do excelentíssimo núncio apostólico, decidiu, por razões que ignoramos mas que, como católicos, aceitamos, que o culto recomece sem que a lei seja alterada… Esse acordo arrancou o que há de mais nobre e santo em nosso estandarte, no momento em que a Igreja se declarou resignada com o que obteve… Em conseqüência, a Guarda nacional assume a responsabilidade do conflito… Enquanto homens, possuímos uma satisfação que ninguém nos poderá tirar: a Guarda Nacional não desaparece vencida por seus inimigos, mas abandonada por aqueles mesmos que seriam os primeiros a receber os frutos de nossos sacrifícios e abnegação! Ave Cristo! Aqueles que, por vós, seguem para a humilhação, para o exílio e, talvez, para uma morte não gloriosa, com o mais acendido amor vos saúdam e, mais uma vez, vos aclamam rei de nossa pátria.” 27

Os 6.000 Cristeros que se submeteram são logo massacrados, 5% da população do México foge para os Estados Unidos, para o deserto ou para a cidade grande. A maioria dos combatentes, no entanto, retomou suas ocupações civis sem se esconder. Foram estrangulados em casa, esfaqueados nos campos, fuzilados na saída da Missa, diante do povoado reunido. Até 1941 houve quem morresse nos campos mexicanos pelo singular crime de Cristiada. De 1926 a 1929, os católicos não haviam perdido mais do que 5.000 homens.

 

CONCLUSÃO

À revolução dos federais, com seu cortejo de violências, pilhagens ou destruição (o seu grito de guerra era “Viva el demonio”) contrapôs-se o fervor e a moralidade irretocável dos combatentes de Cristo Rei. A ordem do dia de um dos seus generais era a seguinte: “Não buscamos nem honrarias, nem ouro, nem imóveis, trabalhamos pelo reinado de Cristo e é por Ele que lutaremos até a vitória ou até a morte. Pouco importa se sucumbirmos, é preciso que o sangue dos católicos lave o México de suas enormes máculas. Portemo-nos como dignos soldados de Cristo.” 28

Luis Navajo Origel, declarou: “Matarei por Cristo os que matam Cristo, e talvez venha morrer por Ele, que tanto preciso disso; eu oferecerei o sangue da Redenção.” Ele caiu morto à frente da sua tropa em 10 de agosto de 1928, tinha 30 anos.

Manuel Bonilla, estudante, escreveu no seu diário de guerra: “Eu bem sei que, para as grandes coisas, Deus se serve dos pequeninos e que o remédio não vem de onde se espera… Confio na bondade de Deus: todos esses sacrifícios não serão em vão.” 29

Abandonado por todos, o povo católico mexicano aceitou a terrível provação das perseguições com espírito de reparação. Seu único apoio: a fé em Cristo Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.

(Témoins du Christ, à travers les persécutions du XXe siècle, Éditions du MJCF. Tradução: Permanência)

  1. 1. Dito mexicano.
  2. 2. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 298-299.
  3. 3. J. Meyer, op. cit., p. 141.
  4. 4. J. Meyer, op. cit., p. 167.
  5. 5. Conforme H. Keraly, op. cit, p. 31 a 36.
  6. 6. Testemunho de Dom Francisco Campos, Santiago Bayacora, Estado de Durango, citado por Keraly, op. cit., p. 33-34.
  7. 7. J. Meyer, La cristiade, l’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit, p. 162.
  8. 8. H. Keraly, op. cit., p. 46.
  9. 9. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  10. 10. A. Rius Facius, Mejico Cristero, Ed. Patria, Mexico, 1966, citado por H. Keraly, p. 62.
  11. 11. H. Keraly, op. cit., p. 37.
  12. 12. J. Meyer, La cristiade, L’Église, État et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por H. Keraly, op. cit., p. 62.
  13. 13. H. Keraly, op. cit., p. 39.
  14. 14. J. Meyer, Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, p. 54-55.
  15. 15. José de Jesus Manriquez y Zarate foi aprisionado e em seguida exilado por 17 anos.
  16. 16. Depoimento de Clemente Pedroza a Jean Meyer, H. Keraly, op. cit., p. 73.
  17. 17. H. Keraly, op. cit., p. 78.
  18. 18. Cf. Rius Facius, op. cit., Ed. Patria, Mexico, 1966, em H. Keraly, op. cit., p. 71.
  19. 19. H. Keraly, op. cit., p. 70.
  20. 20. Cf. Rius Facius, op. cit., em Keraly, p. 66.
  21. 21. J. Meyer, La révolution mexicaine, 1910-1940, Taillandier, 2010, p. 170.
  22. 22. J. Meyer, La christiade, L’Église et le peuple dans la révolution mexicaine, Payot, Paris, 1975, citado por Keraly, p. 105.
  23. 23. J. Meyer, op. cit, citado por Keraly, p. 119.
  24. 24. Miguel Augustin Pro, carta de 30 de maio de 1929, Ed. Tradicion, Mexico, 1976, p. 461-462, citada por H. Keraly, op cit., p. 151.
  25. 25. Miguel Augustin Pro, p. 461-462, citado por H. Keraly, p. 151.
  26. 26. J. Meyer. Apocalypse et révolution au Mexique. La guerre des Cristeros (1926-1929), Archives Gallimard-Julliard no. 56, 1974, citado por H. Keraly, op. cit., p. 155.
  27. 27. Rius Facius, op. cit., p. 391-392, citado em H. Keraly, op. cit., p. 193.
  28. 28. Ordem do dia do general Ochoa, morto carbonizado no dia 13 de novembro de 1927, devido à explosão de uma bomba incendiária, conforme Joachim Blanco Gil, El clamor de la sangre, Ed. Jus, Mexico 1967.
  29. 29. Conforme Joachim Blanco Gil, op. cit.

Introdução ao vigésimo domingo de Pentecostes

“Vai, diz Nosso Senhor, teu filho vive” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

As lições que estes dias se leem no Ofício são tiradas quase todas dos Livros dos Macabeus. Depois do cativeiro de Babilônia, o povo de Deus tinha voltado a Jerusalém e reconstruído o Templo. Os primeiros anos foram de paz. A Mão de Deus, porém, não tardou a pesar de novo sobre este povo de cerviz dura, em consequência de novas e lamentáveis infidelidades. Antíoco Epifanio, com efeito, apoderou-se de Jerusalém, saqueou a cidade e o Templo, e decretou a abolição do Judaísmo em toda a extensão do império. Ergueram-se altares aos ídolos e o número dos apóstatas cresceu tanto, que pareceu que ia desaparecer da face do globo a fé dos profetas e de Israel. Deus, porém, esperava o momento oportuno para mostrar mais uma vez a esse povo ingrato que, embora a mãe esqueça às vezes o próprio filho, Ele nunca o esqueceria. Com efeito, o sacerdote Matias reuniu um pequeno exército chefiado por seu filho Judas Macabeu, que iria desviar o rumo dos dias gloriosos. Esse punhado de homens decididos, rápidos como o abutre e implacáveis como o Espírito de Deus, derrotaram em breve o exército de Antíoco e restauraram nas terras de Israel o culto de Jeová.

Todas as partes da Missa exprimem sentimentos semelhantes. O Gradual, por exemplo: “todos os olhos se levantaram para Vós, Senhor, cheios de esperança”, traduz perfeitamente o sentido daquela oração tão bela: “O nosso olhar voltou-se para Vós, Senhor, não nos deixeis perecer”. O Ofertório, um dos versículos mais sentidos referentes ao cativeiro, revela-nos bem o estado de espírito dos Macabeus perante o Templo profanado. Finalmente, o Intróito, depois de nos dizer que o povo de Deus foi castigado por causa dos seus crimes, pede ao Senhor que mostre a sua misericórdia e glorifique o seu nome. Façamos nossos estes pensamentos. Reconheçamos que os males que sofremos são provenientes da nossa infidelidade à vontade divina, e roguemos também ao Senhor que se compadeça de nós, que nos perdoe e una, para que O sirvamos em paz e glorifiquemos o Seu nome.

Da Epístola: Erguei-vos do túmulo em que dormis, diz S. Paulo, e Cristo vos iluminará. Resgatados da morte por Jesus Cristo não nos demos mais às obras das trevas, mas vivamos como filhos da luz. Aproveitemos o tempo que nos é dado para fazer a vontade de Deus e Lhe dar graças pela vida divina a que se dignou chamar-nos.

Do Evangelho: Jesus salvou da morte o filho do régulo, para dar ao régulo e a toda a família dele o que é mais que a vida material, a fé. Este milagre deve aumentar em nós a fé em Jesus Cristo, que nos salvou da febre do pecado e da morte eterna, consequência dele.

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao décimo nono domingo de Pentecostes

Como entraste aqui, não tendo a veste nupcial? ” (Evangelho)

 

Paramentos verdes

 

É por estes dias (no quinto domingo de setembro) que a Igreja lê no Ofício Divino a história de Ester. Julgamos, pois, que vem a propósito -- conforme a nossa intenção de rever com a Igreja as figuras do Antigo Testamento e de estudar, à luz do Breviário e do Missal, a liturgia destes domingos depois de Pentecostes -- falar hoje de Ester.

Assuero, Rei dos persas, tinha-se casado com uma donzela judia chamada Ester, sobrinha de Mardoqueu. Nomeara por outro lado intendente do palácio o amalecita Aman, muito conhecido pelo ódio que alimentava contra os judeus. Invejoso da preponderância que os judeus, por intermédio de Mardoqueu e de Ester, exerciam no ânimo do monarca, o amalecita convenceu o Rei de que os judeus conspiravam contra a paz do reino, e fez levantar em todo o país as forcas para as execuções. Ester, então, violando o decreto preventivo do tirano, de que ninguém se aproximasse dele naqueles dias, entrou à sua presença e lamentou que ela e o seu povo fossem entregues assim ao extermínio. Conhecendo Assuero por este meio que Ester era judia e sobrinha de Mardoqueu, perguntou irritado: “e quem ousa fazer isso? ” Ester respondeu: “O nosso inimigo, o cruel Aman” Então o rei, enfurecido contra o ministro, mandou revogar o decreto promulgado contra os judeus, e suspender Aman na mesma forca que ele preparara para Mardoqueu. Assim salvou Ester o seu povo. Isto mostra como Deus vigiava por aqueles que esperavam nele. E as coisas ainda não mudaram. “Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor, e se ele chamar por Mim, ouvi-lo-ei”. “Quando a tribulação me oprimia, Vós, Senhor, dáveis-me coragem, e contra a cólera dos meus inimigos levantáveis a Vossa mão direita”.

Aman, que Assuero condenou tão severamente, é como aquele homem do Evangelho que entrou no banquete sem a veste nupcial, e que o rei condenou às trevas exteriores. Deus tratará assim também todos os que, pertencendo ao Corpo da Igreja pela fé do Batismo, entrarem na sala do banquete sem a veste das virtudes cristãs. Falta-lhe na alma a graça vivificante. São estranhos na assembleia dos vivos. E é aqui visado particularmente o grande preceito da Caridade: “Rejeitando a mentira, digam todos a verdade a respeito do seu próximo”. São membros uns dos outros. Que o sol não se ponha sobre a vossa cólera. Os que não cumprirem este preceito serão lançados pelo juiz soberano nas trevas do inferno, onde haverá pranto e ranger de dentes. Assuero encolerizado mandou prender Aman. “O rei, diz o Evangelho, encolerizou-se e enviou os seus exércitos para exterminar os assassinos e lhes queimar a cidade”. Mais dum milhão de judeus morreram no cerco de Jerusalém. A cidade foi destruída e o templo incendiado.

Aman foi substituído por Mardoqueu. Os convidados às núpcias foram substituídos pelos que se encontravam nas estradas e nas encruzilhadas dos caminhos. Os judeus foram substituídos pelos pagãos. Foi para estes últimos que os Apóstolos cheios do Espírito Santo se voltaram no dia de Pentecostes. E no Juízo Final, que estes domingos simbolizam, serão promulgadas as sentenças definitivas. Os justos tomarão parte no banquete das núpcias eternas, e os pecadores serão lançados nas trevas exteriores.

Da Epístola: Diz S. Paulo que é necessário pôr o velho homem de parte e revestirmo-nos de Cristo. Entre os antigos, “revestir, pegar num vestido” significava muitas vezes tomar um estado de que a veste era o símbolo exterior. “Revestir-se de Cristo” quer, pois, dizer, na linguagem do Apóstolo, renunciar às paixões e às obras da carne que trazemos conosco, como filhos de Adão, e viver doravante a vida plena de Cristo.

Do Evangelho: Deus, diz S. Gregório, celebrou as núpcias de Seu Filho quando O uniu no seio da Virgem à natureza humana, e quando O uniu, por meio da Incarnação, à Santa Igreja. E por duas vezes enviou os servos a convidar para as núpcias os seus amigos. Primeiramente, mandou os profetas que anunciaram a Incarnação do Filho de Deus que estava para chegar, e os Apóstolos que O apresentaram como fato consumado. Depois, à última hora, a Igreja, tendo de momento recebido todos os que vinham, fará a discriminação dos bons e dos maus.

 

 Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao décimo oitavo domingo de Pentecostes

 “Meu filho, teus pecados te são perdoados” (Evangelho).

 

Paramentos verdes

 

Este domingo, que vem a seguir ao Sábado das Quatro Têmporas, era a princípio vacante. A liturgia da Vigília prolongava-se com efeito até de manhã, de maneira que não ficava tempo para os ofícios dominicais. As lições que se leem no Ofício são do Livro de Judite. Todos conhecem a história desta mulher famosa que salvou a Judéia, cortando a cabeça de Holofernes, general dos exércitos assírios. Holofernes, enviado por Nabucodonozor para conquistar a Palestina, tinha cercado Betúlia. Vencidos pela fome e pela sede, os sitiados tinham deliberado render-se, quando Judite apareceu a encorajá-los. Façamos penitência, dizia, e imploremos o perdão de Deus, porque estes flagelos com que nos castiga são para nos corrigir e não para nos perder. Depois, quando veio a tarde, vestiu-se com as suas melhores galas e fez-se introduzir no acampamento dos inimigos, sob pretexto de lhes entregar a cidade. E levada à presença de Holofernes, o general, seduzido pela sua beleza, recebeu-a com grande contentamento e ordenou que, em sua honra, se preparasse um banquete.

A Igreja, ao recordar as sete dores da Virgem Santíssima, aplica-lhe o canto que se ouviu em Israel, quando Judite livrou o povo eleito. Maria é com efeito a nova Judite que decepa a cabeça do general assírio, do dragão infernal. Nestes dias lê a Santa Igreja no Ofício divino estas páginas gloriosas da epopeia israelita, que são a figura do que mais tarde havia de acontecer numa ordem espiritual e mais elevada. A libertação do povo judeu da sujeição assíria, levada a efeito por Judite, representa a libertação da humanidade operada por Jesus. É muito oportuna esta Missa nesta época das Têmporas, que são tempo de perdão, por sê-lo de penitência em que Deus se deixa aplacar e vencer dos pobres mortais. Desse perdão e dessa paz consoladora, que se frui da Casa do Senhor, são legítimos despenseiros os sacerdotes a quem Jesus concedeu o poder sublime de dizerem: “Os teus pecados te são perdoados” Os novos ungidos do Senhor serão encarregados também de pregar a palavra de Deus, de celebrar o Santo Sacrifício e de preparar por este modo a humanidade para se apresentar confiadamente diante do Supremo Juiz. É por este motivo, precisamente, que a Igreja insistirá durante estes domingos no pensamento da vinda do Senhor.

A Epístola de hoje é também para meditar. Que contas tão estreitas não terá de prestar o cristão de tantas graças que recebe! E como dissipamos herança tão rica, como desprezamos tantas graças, os sacramentos, a pregação da palavra de Deus! Que contas serão as nossas[i]?

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

 


[i] - Para compreender a Missa deste domingo é preciso notar que antigamente não tinha Missa própria. O Ofício do Sábado das Quatro Têmporas, prolongado pelas cerimônias das ordenações, chegava até de manhã.

Por que Cristo quis nascer de uma mulher?

Os Padres da Igreja se fizeram essa pergunta por muito tempo: por que Deus escolheu encarnar-se, nascer de uma mulher? Cristo, o novo Adão, poderia, de fato, ter sido criado como um adulto, como o primeiro homem. Essa pergunta nos dá ocasião para meditar e contemplar o plano que Deus escolheu ao querer a Virgem Maria como sua mãe.

As razões são fáceis de descobrir. As profecias sobre o Messias anunciaram que Ele nasceria de uma mulher, bem como o protoevangelho (Gn 3,15), que anuncia a inimizade entre o Messias e Sua Mãe com a serpente, isto é, o demônio. Essas profecias deviam ser cumpridas.

O fato de que o poder divino seria melhor demonstrado se o Salvador nascesse de uma mulher é outra razão: Deus triunfa através de uma criatura, o que manifesta Seu soberano poder, capaz de usar instrumentos frágeis para as maiores obras.

Uma terceira razão é que, entre as criaturas, apenas uma mulher poderia se tornar a Mãe de Deus. A natureza humana permite ao Filho de Deus encontrar uma mulher, uma pessoa que Lhe dará aquela natureza que será oferecida em holocausto para a glória de Deus e a salvação da humanidade.

Os Padres e teólogos descobriram outras razões maravilhosas.

Uma razão muito importante é atestar a verdade da Encarnação. Muitos hereges, como os docetistas, alegaram que Jesus Cristo não era homem, que Ele apenas “atravessou” pela Virgem Maria. A afirmação da maternidade divina refuta essas fantasias.

Além disso, a natureza humana é corporal e espiritual e envolve o fato de que o corpo procede da maternidade: contrariamente às alegações dos hereges mencionados acima, possuir uma natureza verdadeiramente humana não diminui a dignidade do Verbo.

De modo semelhante, a vida familiar é parte da nossa natureza: toda criança nasce numa família. Não há imperfeições nessa situação. É apropriado, portanto, que o Verbo Encarnado assuma uma vida familiar.

Essa vida familiar gerou a oportunidade do Verbo Encarnado servir de modelo de piedade filial.

Santo Agostinho deu outra boa razão: a humanidade é honrada em um representante masculino, um homem que é Deus, e em um representante feminino, uma mulher revestida da dignidade de Mãe de Deus.

Outra boa razão diz respeito ao casamento místico da humanidade com o Verbo: o Fiat de Maria foi dado em nome de toda a humanidade.

Quanto à salvação da humanidade, o fato de que o Verbo Encarnado Se tornou homem, descendente de Adão de acordo com a carne, nascido de mulher, colocou-O em posição de mediador: Ele é aceito pelas duas partes que Ele conecta, Céu e terra, Deus e os homens.

Finalmente, para que a expiação do Messias possa ser aceita por Deus como advindo dos pecadores que O ofenderam, era necessário que Ele pudesse estar com os pecadores: é isso que Isaías e São Paulo dizem. Não que Ele seja um pecador, mas em razão de sua natureza humana e de sua origem em Adão.

É claro que todas essas razões não nos fornecem a resposta à questão indagada. Mas elas a explicam e ilustram, e permitem-nos adentrar os segredos de Deus sobre Seu Filho encarnado e Sua mãe.

AdaptiveThemes