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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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De Deus não se zomba: a erupção da Montanha Pelée

Pe. N.-P

Eis a narração do drama que sucedeu em 8 de maio de 1902 na Martinica: a erupção da Montanha Pelée1 destruíra num piscar d’olhos a cidade de Saint-Pierre, e matou 40.000 almas das 100.000 com que a ilha contava nessa data. Ao visitar as ruínas da cidade, imaginamos qual não fora a violência do cataclismo.

Os partidários do P.A.C.S. 2 e doutras abominações modernas (aborto etc.) lucrariam se meditassem neste acontecimento, pois que há muito tempo já dizia o profeta Oséias: “Quem semeia vento, colhe tempestade” (Os. 8, 7); mais perto de nós escrevia São Paulo aos Gálatas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba” (Ga. 6, 7).

Não acreditemos na obsolescência das palavras eternas, só porque Deus se cala. “Retarda-se a pena, porque Deus é bom – escreveu Joseph de Maistre em Os adiamentos da justiça divina – mas ela é certa, porque Deus é justo.”

Parece que essas verdades permitem a boa compreensão da terrível catástrofe de 8 de maio de 1902.

Depois de visitar, em Saint-Pierre o pequeno museu que reúne alguns objetos e fotografias da cidade após a destruição, perguntei a uma jovem antilhana morena que me servia de guia se os habitantes da Martinica não consideravam o cataclismo como um castigo. Sem hesitações respondeu-me ela que sim. Perguntei-lhe então qual seria a provável causa do castigo. Essa moça, de cerca de trinta anos, disse-me que a religião era desprezada e os ministros dela insultados, e acrescentou que durante o carnaval de 1902 parece que haviam matado um padre.

 

Sinais premonitórios

A Montanha Pelée é um maciço que ocupa o nordeste da Martinica, e cujo ponto culminante, Morne le Croix, antes da erupção tinha 1350m de altitude.

Havia dois séculos que as duas crateras deste local estavam inativas: o lago das Palmas, na vertente atlântica, e o fosso da Lagoa Seca, batizado em oposição ao lago sempre cheio, na vertente oposta desta mesma serrania. Em 5 de agosto de 1851 a cratera da Lagoa Seca dera sinais de vida: jatos de fumo e cinzas foram lançados a no máximo cem metros de altura.

Em 1902, a partir do mês de fevereiro, um cheiro forte de enxofre se sentiu, em primeiro lugar, ao redor da vila de Rivière Blanche. As serpentes e os pássaros abandonaram os flancos da montanha; os bois e as ovelhas arrebentavam as amarras quando os levavam a pastar nas encostas da Montanha Pelée; amiúde os cães latiam durante a noite.

Apareceram fumarolas pouco abaixo do cume; os objetos prateados cobriram-se duma tingidura azulada que se espalhava em raias.

Tais fenômenos duraram até sexta-feira, 25 de abril. Naquele dia, entre sete e oito horas da manhã, escutou-se um estrondo subterrâneo, logo seguido dum abalo. Duas horas depois, uma fina cinza azulada, cheirando a enxofre, começou a cair sobre a vila do Prêcheur. Ao meio-dia, de novo, a terra tremeu duas vezes.

Na segunda-feira, 28 de abril, ouviu a montanha rugir, enquanto colunas de vapor escapuliam dele. O débito do córrego Branco aumentou até chegar a triplicar o volume habitual.

Na véspera, em Saint-Pierre, acontecia o primeiro turno das acirradas eleições legislativas. As paixões estavam exacerbadas e a febre política ocupava os espíritos mais que o crescimento insólito dum rio vizinho ou a presença ameaçadora dumas nuvens de cinza que, demais a mais, ainda não haviam atingido Saint-Pierre. Os resultados do primeiro turno auguravam a vitória dos “republicanos”. Decerto os antigos moradores se lembravam desses fenômenos, já ocorridos há 51 anos: a montanha cuspira uma cinza inofensiva e voltou a dormir sem mais histórias.

Les Colonies, a principal folha socialista de Saint-Pierre, publicava em suas colunas de 30 de abril, na pluma do Sr. Hurard, seu diretor anticlerical:

Para nós, ilhéus da Martinica, abril foi duplamente trágico. Nós vimos duas erupções: uma nos espíritos e outra na Montanha Pelée; uma eleitoral e outra física; uma nos discursos, na propaganda, no rum, no dinheiro e nos boletins eleitorais, e outro da coluna de cinzas... Que a montanha se contente em fumaçar e lançar cinza, porém, com mil demônios!, que ela não se ponha a tremer! Os corações trepidariam e dançariam também, mas seria por causa do tremor... Para nós essa cinza é um poema: ele já está escrito em nossa imaginação e, se nós o escrevêssemos, o intitularíamos “A Cinza do Vulcão”. E que labaredas não poríamos entre as cinzas!

A Montanha Pelée, ao notar que os bons costumes foram embora daqui, quis simplesmente nos pregar uma peça. Querido abril, já que vais repousar, dorme bem! E tu, maio, sê bem-vindo!

O mês de maio acordou em meio a um espetáculo desolador. A paisagem estava recoberta de cinzas, nenhum pássaro havia nas árvores, reinava silêncio absoluto... De tempos em tempos, um estalido seco anunciava a queda dum galho, vencido pelo peso das cinzas. Enormes colunas escuras escapavam da montanha.

Na manhãzinha de 2 de maio os rugidos se multiplicaram e, por volta de 16h, uma coluna de vapor bem preta, intumescida e sulcada de raios, apareceu no pico da montanha. As cinzas continuavam a cair e, pela primeira vez, Saint-Pierre ficava recoberta.

Na madrugada de 2 para 3 de maio os habitantes da localidade de Morne Rouge acordaram no meio da noite por conta da mistura duma espécie de canhonaço subterrâneo, um tremor de terra e um estrondo altíssimo, tudo acompanhado dum como que ronco contínuo, semelhante ao rugido do leão. Todos saíram das casas. A montanha estava coroada dos raios que partiam da cratera. O pânico tomou conta dos habitantes, que se precipitaram para a igreja; os confessionários foram tomados de assalto. A mole de gente ficou lá, esperando a morte, até de manhã.

Debaixo duma chuva de cinzas, que espalhava um forte odor de enxofre, conta Mons. Parel, quis eu visitar Sainte-Philomène, o Prêcheur e Morne Rouge, que são as localidades mais próximas do vulcão. Esses três povoados estavam cheios de camponeses que fugiam das montanhas em direção ao litoral; as igrejas, abertas desde a véspera, não se esvaziavam; os curas não paravam de batizar, confessar e alimentar a coragem do povo descontrolado.

Em 3 de maio o governador Luís Mouttet deixou Fort-de-France a fim de examinar a situação pessoalmente. Quando chegou a noite, ele já estava tranqüilo, em razão das informações recebidas: o vulcão não se manifestava há meio século, não convém se alarmar além do necessário!

A “Sociedade de Ginástica” de Saint-Pierre, que havia organizado para o domingo uma grande excursão à montanha, refrescava a memória dos sócios nestes termos, numa nota publicada na imprensa:

Quem nunca foi aproveitar o panorama magnífico que se oferece aos olhos do espectador admirado, a 1300 m de altitude; quem deseja ver a bocarra por onde está escapando – nestes últimos dias – um fumo espesso que está metendo medo nas pessoas das vilas do entorno, tem de aproveitar esta ocasião especial. Se fizer bom tempo, os excursionistas vão passar um dia muito agradável, do qual lembrarão por muito tempo...

A curiosidade e o entusiasmo dos voluntários esfriaram após a erupção que aconteceu durante a noite. Adiou-se a excursão sine die. O domingo, dia 4 de maio, foi relativamente calmo.

Às nove horas celebrou-se a missa; no sermão o Pe. Maury, exortando os paroquianos à penitência, exclamou:

O fogo e a lava estão lá, meus irmãos, o fogo e a lava estão lá... Deus os sustenta sobre as vossas cabeças, pronto para derramá-los sobre vós, se não vos converterdes nem fizerdes penitência!

Na segunda-feira, 5 de maio, por volta de meio-dia e meia, um rio de lama negra e incandescente, com uns doze metros de altura, saiu da cratera e, como uma avalancha, num piscar d’olhos deslizou pela montanha e cobriu a Destilaria de rum Guérin, as quintas dos proprietários e os pavilhões de empregados. Somente a chaminé da usina, qual mastro de navio fantasma, ainda permaneceu visível por algumas horas em meio ao mar de lama que engolira cento e cinqüenta pessoas.

No momento da avalancha o mar, como que assustado, se retirou da enseada de Saint-Pierre. Logo em seguida, as vagas retornaram, já agora como montanhas, e invadiram a cidade, espalhando a consternação. Os habitantes começaram a fugir para os lugares altos, mas vinte minutos depois tudo retornara à ordem.

A comoção atingiu aqui o auge. Algumas famílias partiram em direção à ilha de Santa Lúcia, muitos outros em direção a outras comunidades onde parentes e amigos podiam recebê-los provisoriamente...

As autoridades se esforçaram em declarar às pessoas que não havia motivos de preocupação!

Atendendo a um pedido do prefeito o governador Mouttet e o coronel Gerbault, ambos acompanhados das esposas, foram à ilha e permaneceram em Saint-Pierre, o que lhes custaria a vida.

A “Comissão Científica” que o governador nomeou declarara na véspera do desastre para toda a cidade de Saint-Pierre, ao cair da noite e ao som dos tambores “... que a posição relativa das crateras e dos vales, ambos desembocando no mar, permite afirmar que a segurança de Saint-Pierre não corre riscos.”

As autoridades afixaram essa consulta solene em Fort-de-France três horas após o desastre! O criador zomba da ciência dos homens. O futuro só a Deus pertence.

Na tarde desse dia de 7 de maio o capitão dum barco italiano ancorado na enseada teve melhor inspiração: apressou-se ele em buscar seus papéis, que estavam com o contratante que o mandara retornar ao dia seguinte: “Pois sim! Eu vou é embora”, respondeu ele, e apontando a Montanha Pelée acrescentou: “Na Itália, quando a gente vê o Vesúvio fumaçar desse jeito, todo mundo trata de fugir rapidinho!”... No dia seguinte os quatrocentos barcos que estavam ancorados na enseada, exceto um, foram incendiados e engolidos.

A folha Les Colonies, no seu número de 7 de maio, quarta-feira – o derradeiro, que havia de encerrar a sua carreira – escrevia: “... A emigração de Saint-Pierre fica a cada momento mais intensa... Os vapores da Cia. Girard estão sempre lotados. A média de passageiros da linha Fort-de-France, que era de 80 por dia, elevou-se para 300 nestes últimos três dias. Confessamos que não entendemos a razão do pânico. Onde poderíamos ficar melhor do que em Saint-Pierre?”

Apesar dos discursos confiantes, escreveu uma testemunha, muitos tinham medo, e foi com terror que viram a noite chegar. Para aumentar a apreensão, a cidade inteira se viu mergulhada nas trevas, pois a luz elétrica, por causa dos fenômenos magnéticos que procediam do vulcão, não estava funcionando.

Estamos a algumas horas da catástrofe. Depois de tantos sinais premonitórios (tremores de terra, chuva de cinzas e de lapíli, cheiro de enxofre, água quente nos rios, ressecamento súbito do lago das Palmas, destruição da usina Guérin...), é espantoso que os habitantes de Saint-Pierre não fizessem uma idéia mais justa do perigo a lhes ameaçar. A montanha não parou de dar avisos convincentes.

Por que não evacuaram a cidade?

É difícil responder em nome de todos, declarou uma testemunha, pois evidentemente cada um reagia segundo o seu temperamento.

Sem dúvida, muitos achavam que teriam tempo de fugir das lavas, caso o vulcão se enfurecesse de todo. Pensavam outros que o derrame do imenso rio de lama acalmara o vulcão e a crise já havia passado.

Algumas pessoas, com medo dum maremoto, procuravam fugir para os “lugares altos”. A causa desse temor foi a erupção da ilha de Cracatoa: o vulcão do distrito de Sonde havia quicado como uma bomba gigantesca e provocado um extenso maremoto.

Abandonar a casa era decerto expô-la à pilhagem e arriscar-se à ruína.

Para um bom número de pessoas, as crianças, as pessoas dependentes, os doentes e os enfermos certamente foram um obstáculo à fuga.

Seria demasia pensar que o espetáculo assustador desse monstro furioso provocava uma espécie de fascinação? Não é impossível.

Enfim as eleições que sempre inflamavam a ilha fizeram naquele ano a temperatura social subir a graus jamais vistos; o segundo turno do escrutínio deveria acontecer no domingo seguinte, a 11 de maio. Para que houvesse eleitores, o povo teria de permanecer na cidade, por isso convinha tranqüilizá-lo; o relatório da comissão científica decerto contribuiu para isso!

 

A catástrofe

Em 8 de maio de 1902, após uma noite de tormenta e rugidos surdos, Saint-Pierre acordou tarde nesse que era o dia da Ascensão. Bulcões negros e compactos obscureciam o céu.

O vapor “Rubi”, que zarpou às 6.30h em direção a Fort-de-France, foi tomado de assalto por inúmeros viajantes. Ele foi literalmente invadido por ondas humanas que se dependuravam em todas as partes do navio. Vários habitantes, assustados com a noite que acabavam de passar, resolveram partir.

Os carrilhões soaram em todos os campanários, conclamando os fiéis para os primeiros ofícios da Ascensão.

De repente se escutou um estrondo terrível. Era 7.50h, a hora fatal que ficou inscrita no relógio encontrado no hospital dos Padres de São João de Deus. Um barulho, comparável ao de centenas de apitos que silvassem ao mesmo tempo, preencheu o ar, e uma nuvem vaporífera, intumescida, espessa, negra e sulcada de raios resvalou do vulcão entreaberto, e num piscar d’olhos precipitou-se por sobre a cidade – cobrindo-a, sufocando-a e abrasando-a – e deslizou até ao mar, onde se dilatou e inchou em forma de montanha de cinzas e fogo.

Depois de passar pela cidade, a nuvem parou bruscamente ao se deparar com um vento violento em sentido contrário. Foi só então que se pôde vislumbrar o véu negro e impenetrável duma fumaça opaca que cobria a infeliz cidade e donde a intervalos jorrava milhares de labaredas.

Na hora fatal o telefonista de Fort-de-France, Sr. Lodéon, estava já havia algumas horas conversando com seu colega de Saint-Pierre, quando de repente este se calou ao começar a pronunciar uma palavra; naquele instante, enquanto todas as campainhas do escritório se puseram a soar, o Sr. Lodéon sentiu de súbito um violento choque elétrico e ouviu um estertor de agonia e o barulho dum enorme colapso. A comunicação estava interrompida – e por uma boa razão!

Estava terminada a obra de destruição. Setenta segundos bastaram para apagar Saint-Pierre do mapa.

Daí então uma chuva de cinzas finas amortalhou o drama. A cidade era toda um braseiro, com muros derruídos e calcinados, e um pasmoso acúmulo de cascalhos e árvores carbonizadas. Nenhum dos 40.000 habitantes que viveram o drama escapou, mas foram queimados, asfixiados, destroçados e eletrocutados num instante.

As fotos da cidade destruída nos remetem imediatamente às de Hiroshima após a bomba atômica. Dá-nos a impressão que um gigantesco sopro devastara Saint-Pierre: a estátua de Nossa Senhora do Bom Porto, protetora dos marinheiros, foi encontrada a vários metros de sua base. Pesava ela a ninharia de 5 toneladas e costumava ficar a 5 km da cratera!

Sob efeito do calor, um dos sinos da catedral se deformou deveras. Exposto no museu do vulcão, talvez seja o objeto que provoque a maior impressão, ajudando-nos a imaginar a força do cataclismo; este sino, que pesa uma tonelada, parece que o esmagou um “punho de ferro”!

Só um dos 400 barcos que estavam na enseada no momento do cataclismo – o Roddam – escapara do desastre. Temos o relato dum dos passageiros da embarcação:

Quando a coluna de fogo e lava se abateu sobre a cidade, elevou-se um grande clamor de gritos de desespero e angústia. Este clamor lúgubre e pungente foi tão imenso que chegou a ultrapassar em volume o estrépito da inundação e o rugido do vulcão.

Víramos uma mole de gente se precipitar na praia, mas os desgraçados não conseguiam correr por muito tempo dentro do fogo que os envolvia – eles caíam como moscas; e quem conseguia chegar até a beira do mar, onde as pessoas acreditavam estar em segurança, foi num átimo engolido e arrastado por um imenso lamaceiro. Além disso, a inundação começou a ferver e as pobres vítimas eram ao mesmo tempo afogadas e assadas.

Dez toneladas de cinza incandescente cobriram a embarcação, apesar da distância que a separava da costa. Ela chegou a Santa Lúcia num estado lamentável; a bordo só se via mortos e moribundos: não houve um sequer que não tivesse sofrido queimaduras.

Mas por que seria um castigo o drama de 8 de maio de 1902?

Nestes últimos tempos o filme Titanic suscitou inúmeros artigos, porém nenhum deles jamais mencionou as inscrições blasfemas riscadas no casco durante a construção; jamais mencionou que a destruição do navio antes do término da primeira viagem poderia ser a resposta divina aos ataques dos homens.

Do mesmo modo, não se encontrará mencionada em nenhuma obra recente ou folhetos informativos uma explicação semelhante para a erupção de 1902, contudo ela persiste na mente dos anciões, e até os nem tão anciões já ouviram falar dela – como prova a guia antilhana da visita ao museu do vulcão...

 

A espada de fogo

Durante o ano precedente à catástrofe que acabamos de relatar aconteceram no Convento de Livramento presságios sinistros, sinais assustadores, pressentimentos e intuições dolorosas.

Nove meses antes da erupção duas irmãs que residiam em Saint-Pierre viram – no mesmo dia, embora estivessem separadas – uma espada de fogo pairar acima da cidade, como se impedida por mão invisível. Amedrontadas ambas se perguntavam, cada uma para si só, qual o significado daquilo... Como estivessem consternadas, elas guardaram o segredo até a hora da recreação. Então uma delas disse às irmãs reunidas: “Oh! Eu vi uma coisa extraordinária e assustadora!” A outra religiosa, testemunha do prodígio, lhe ripostou: “Duvido, cara irmã, que tenhas visto algo de mais extraordinário e assustador do que eu.” Instadas pelas intrigadas religiosas a se explicarem, ambas revelaram a visão claríssima duma espada de fogo pairando acima da cidade de Saint-Pierre.

Na mesma época se passou um fato extraordinário em Morne Rouge, numa outra casa da comunidade. Por vários dias seguidos “uma de minhas irmãs e eu – conta a Irmã Margarida Maria – encontramos os baldaquinos de nossas camas cobertos de grandes manchas vermelhas semelhantes a sangue. Trocaram-se as cortinas três vezes e três vezes se reproduziu o mesmo fenômeno: o baldaquino duma das camas estava particularmente manchado. A comunidade ficou estupefata. ‘Qual o sentido desse fato estranho?’, perguntavam-se as religiosas umas às outras... talvez seja prenúncio de martírio. “Pessoalmente, se considerarmos o crescimento progressivo da perseguição religiosa, vejo nisso um presságio de massacre...”

Ainda no convento de Livramento, em Morne Rouge, durante os três meses que precederam o cataclismo, escutavam-se de noite pelos corredores soluços, suspiros e orações; nos dias gordos do carnaval esses fenômenos se reproduziram até durante o dia: em vários pontos do convento se percebiam sons de soluços. Na Terça-Feira Gorda, no momento em que a comunidade fazia as orações de reparação na igreja, a Reverenda Madre Superior, que em razão duma doença ficara numa das salas da comunidade, escutou um choro à porta. O gemido foi tão forte que ela mandou a religiosa que lhe cuidava verificar se havia alguém no corredor... mas não encontrou ninguém.

Ainda há relatos de outros fatos misteriosos: uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que exibia um semblante alegre, sem mais assumiu uma expressão melancólica; num convento de religiosas ouvia-se o estridor de pratos quebrando-se; um lampião começou do nada a saltitar.

Um castigo... para punir qual crime?

Quando perguntei isso, a jovem guia do acanhado museu de que já falei não me respondeu:

- “para os brancos por causa da escravidão...”. Aliás, este ano festejamos os 150 anos da abolição da escravidão;

- nem “para punir os costumes licenciosos”. As uniões ilegítimas, é verdade, eram de longe as mais numerosas e a rua das “mulheres-damas”, muito freqüentada. A última instrução do Mons. de Cormont foi um comovido apelo aos diocesanos, a fim de lhes exortar à regularização das uniões ilegítimas e ao respeito da lei do casamento.

Não, ela mencionou sem pestanejar os pecados contra a religião.

Na obra de Louis Garoud, Três anos na Martinica, lê-se o seguinte:

...Nem as saturnais romanas nem as bacanais gregas jamais ofereceram um espetáculo semelhante; nunca na festa dos loucos, na Idade Média, exibiram-se tais mostras de exultante depravação. A imaginação não pode conceber semelhantes loucuras humanas nem delírio tão contagiante...

Saint-Pierre, classificada como a 101ª cidade da França no quesito de luxo e conforto, alimentava todos os vícios que os deleites podem engendrar. A fé não era tão-somente ignorada mas desprezada e insultada em público por um grupelho instigado pela “loja” de Saint-Pierre, poderosa e militante que era.

Algumas testemunhas afirmam que o Mons. de Cormont teve de encurtar a procissão de Corpus Christi do ano anterior [à catástrofe] devido às pedras e aos insultos lançados sobre o cortejo!

Mons. de Cormont teve de deixar a Martinica alguns meses antes da catástrofe para que se acalmassem os ânimos. Com efeito, suscitou-se uma vivíssima polêmica, pois ele queria promover um de seus novos párocos, ao passo que um mais antigo ambicionava o cargo... e cada qual com seus partidários!

Quando Mons. de Cormont estava partindo, certas pessoas - incitadas pela franco-maçonaria – chegaram a lhe jogar pedras. O prelado se voltou para eles e disse: “Vós nos lançais pedras, o vulcão lhas devolverá”. Isso aconteceu em 10 de abril!

No livro Peregrinação fúnebre às ruínas de Saint-Pierre U. Moerens escrevera a pág. 60:

Uma imprensa violentíssima e ímpia se esforçou em descristianizar esta terra desgraçada. Com uma visão estreita e um espírito intolerante, os responsáveis pela missão de dirigir a opinião pública eram infatigáveis – por qualquer ou sem nenhum motivo – em disseminar a blasfêmia e em lançar o desprezo sobre tudo o que havia de mais respeitável e sagrado.

A obra dos sectários deu frutos. Mas ao que parece foi a profanação ignóbil da Sexta-Feira Santa, em 28 de março de 1902, que provocara a cólera de Deus.

A partir do testemunho dum martinicano, ela foi noticiada com o título de “O Cristo no Vulcão”, em 5 de setembro de 1902, num dos maiores jornais parisienses:

Foi em 28 de março deste ano, Sexta-Feira Santa. Nossa alegre cidade colonial acordou neste lusco-fusco tão calmo e cheio de frescura das manhãs dos trópicos. Atrás das varandas entreabertas a gente percebe as donas de casa que se apressam em pôr tudo em ordem para irem à igreja. O sol sobe suavemente no horizonte. Chega a hora do almoço, e as pessoas vão quebrar o jejum, mas ao estilo créole3: bacalhau com arroz.  Entrementes um grupo barulhento vai em direção a um dos principais hoteis da cidade, onde preparavam um festim. São eles os representantes do livre-pensamento que, a fim de provar sua independência de espírito, vão promover uma comezaina com as comidas mais gordurosas e suculentas, em contraste com a abstinência universal. Eles abriram e esvaziaram rapidamente inúmeras garrafas, e quando já estavam bastante avinhados, a banda diabólica começou a andar pelas ruas da pequena capital, vociferando palavras sujas e ridicularizando a imagem do Cristo que estavam carregando.

Ei-los já fora da cidade, a caminho da montanha. Diante deles a elevação se erguia majestosa, com seu pico irregular se destacando contra o fundo azul do céu; por catorze vezes, em meio a blasfêmias infames, a tropa se detivera para parodiar a Via Crucis e achincalhar as cenas da Paixão, que naquele momento a Igreja pesarosa cantava. E eles continuam a subir, mais e mais excitados, inventando a cada trecho da caminhada mais blasfêmias horríveis. Finalmente chegam ao cume... Contornam o lago de águas tranqüilas e vão até a boca escancarada do vulcão e ali, numa sarabanda infernal, entre berros e momices, atiraram no fundo do abismo a imagem Daquele que, havia dezenove séculos, morrera na cruz para resgatar as almas dos condenados. No dia da Ascensão, entre estertores de morte e gritos de espanto, o vulcão respondia aos escarnecedores do Cristo e remetia a cruz aos céus.

Com efeito, no ano de 1902 o dia 8 de maio, quinta-feira, caia no dia da Ascensão... Acaso?

É claro, os livre-pensadores não tinham nenhum interesse na história: consideraram-na uma invenção dos católicos, uma fábula que hoje em dia já ninguém conta.

Verdade ou fábula?

Mélanie, a criança que viu Nossa Senhora em La Salette, autenticou esse triste acontecimento, ante a interrogação do Pe. Combe.

- Tu já sabias que iria acontecer a catástrofe?

- Sim, [respondeu Mélanie].

- Foi a aparição de 1846 que te alertou?

- Não [responde ela].

Convinha lhe tirar essa informação [insiste o Pe. Combe], mas ela se limitava a responder ou sim ou não.

- Tu viste bem a erupção, fala.

- Ah, padre! Eu estava lá.

Na sexta-feira, dia 16 de maio de 1902, anota o Pe. Combe:

Percebi no fogareiro, entre os papéis a queimar, uma carta de participação do falecimento da Sra. X, em cujo verso Mélanie escrevera a previsão dos vindouros castigos da Martinica:

“Nós não roubamos mas compramos e arrancamos das mãos de Deus. Ele não vai se contentar em advertir as criaturas racionais, às quais outrora dera tantas provas de amor; mesmo quando sua justiça exige de sua glória a vingança da misericórdia ultrajada, o bom e divino mestre trata de advertir com certa discrição sobre sua justiça. Ele há de enviar tremores de terra incomuns. É o que fará nas Antilhas Francesas. Durante uns seis dias haverá pequenos abalos entremeados dalguns grandes. Infelizmente os homens têm ouvidos e não escutam. Enfim, no dia 8 de maio, o fogo devorador cairá sobre uma das principais cidades da Martinica, Saint-Pierre, e a devorará e cobrirá de cinzas e de todos os tipos de destroços. Para além da destruição da cidade, outras três localidades também terão vítimas, afora os prejuízos materiais. O fogo não se recolherá à sua caverna: doze dias após o cataclismo, Fort-de-France e outras cidades também hão de chorar.”

- Escreveste esta meditação no dia 8, antes da erupção [pergunta-lhe o Pe. Combes]? Até aqui, só a cidade de Saint-Pierre foi destruída; já se fala de 30.000 vítimas.

- Pois são 40.000 [responde Mélanie].

- Já que previste a destruição de Saint-Pierre, podes me dizer o nome dessas localidades que vão compartilhar o mesmo destino [indagou o Pe. Combes]?

- Curbet ou Curbá, é algo assim [respondeu Mélanie].

Por ocasião duma nova catástrofe, que vitimou cerca de mil pessoas, os jornais (Le Pèlerin, de 14 de setembro de 1902) divulgaram – depois duma pesquisa feita no local – que a catástrofe do mês de maio já se estimava em 40.000 mortos.

Na quinta-feira, dia 22 de maio, anotou o Pe. Combe:

Eu desejava uma predição cuja anterioridade se provasse materialmente, e eis que meu desejo se cumpre: um telegrama chegou hoje de manhã: “Os cabogramas oficiais sobre a erupção de 19 e 20 de maio são mui sucintos, não obstante sabe-se que a vila de Carbet, situada na costa a poucos quilômetros de Saint-Pierre, foi em parte destruída.”

Fui até ela perguntar: - Que crimes terríveis, além da impureza, puderam atrair sobre a população – considerada catolicíssima – um semelhante flagelo?

Ela me contou que “na Sexta-Feira Santa passada, uma imagem de Cristo de cerca de um metro foi arrastada com uma corda pelas ruas de Saint-Pierre, e logo depois pela montanha vertente acima, até que a chutaram dentro duma fenda”.

- Esse sacrilégio foi obra duma multidão de homens e mulheres, para que atraísse a maldição de Deus sobre toda a região [raciocina o Pe. Combe].

- Somente duns poucos [explica Mélanie], mas os demais habitantes não os detiveram, e um grupo de crianças os seguia. Aquela vertente da montanha desmoronou no dia da Ascensão. Como Deus pode infligir tal castigo? está pensando o Sr. Isso lá é justiça? Nos tempos de fé verdadeira, também aconteciam profanações. A diferença era que as profanações eram apontadas, o poder civil condenava com rigor essas pessoas; já outras eram punidas de modo miraculoso. No caso da Martinica, a profanação foi pública, e a permitiram; até as crianças iam atrás do cortejo; entre a Sexta-Feira Santa e a Quinta-Feira da Ascensão, alguém teve notícias de que se fizeram orações de reparação ou de que o clero houvesse organizado procissões e penitências públicas para desarmar a cólera de Deus? [Ver: A Aparição da Virgem Santíssima, de M.-H Bourgeois – fita cassete nº 4b.]

Depois da destruição de Saint-Pierre, ainda tiveram de esperar dois dias antes que se pudesse pôr os pés sobre a cinza ardente que recobria o solo da cidade destruída. (Esse fato torna inconcebível a sobrevivência dum prisioneiro numa cela, como afiançavam ser o caso de Louis-Auguste Cyparis, que o circo Barnum durante anos exibiu como atração: “O homem que escapou de Saint-Pierre”.)

Um detalhe do testemunho das primeiras pessoas que se aventuraram a pisar na ilha parece confirmar que o cataclismo era um castigo da impiedade:

No meio do caos da ruína, já não reconheciam a geografia da cidade, que lhes era contudo bem familiar. Em todo lugar se amontoavam cadáveres carbonizados e putrefatos, exalando um odor pestilento que viciava o ar... Na catedral um confessionário ainda estava de pé – intacto. Não longe dali, num pano de muro, um cartaz mal fora chamuscado pelo fogo, ao passo que os demais em redor estavam completamente carbonizados: “Cristo no pelourinho! A Virgem no estábulo!”, dizia a inscrição assustadora, pois o espetáculo que se oferecia aos olhos afigurava-se a resposta a essa blasfêmia.

Uma coluna de 300m de altura permaneceu erguida sobre o pico do vulcão durante vários anos, mas com o tempo se esboroou e desapareceu. À noite ela ficava “incandescente”, o que não deixava de ser impressionante. Não seria o dedo de Deus assinalando a justiça divina: “Quem semeia vento, colhe tempestade’?

Nos dias 16 e 20 de maio novas erupções fizeram novas vítimas: alguns curiosos e sobretudo saqueadores que como urubus vinham despojar os cadáveres de seus bens. Após o dia 20 de maio encontraram-se algumas pessoas mortas, deitadas sobre um saco cheio de pratarias que se dispuseram a carregar; havia um outro sobre um cadáver, de quem parecia estava arrancando uma jóia!...

A erupção do dia 20, fortíssima, teve um efeito sanitário: ela sepultou os cadáveres, evitando assim o desenvolvimento de epidemias.

A última erupção devastadora foi a de 30 de agosto de 1902, que destruiu a vila de Morne Rouge, fazendo 2000 vítimas. A igreja foi totalmente destruída mas, em meio às ruínas, os sobreviventes encontraram meio enegrecida a estátua de Nossa Senhora do Livramento miraculosamente conservada. Ela permaneceu de pé e intacta sobre o pedestal, que não ficou abalado.

Desde então, os martinicanos fazem, no dia 30 de agosto, uma procissão solene em honra de sua padroeira.

Durante a tempestade, contemple a estrela, invoque Maria.

 

  1. 1. Litteris: Montanha Pelada ou Descascada [N. do T.]
  2. 2. O Pacto Civil de Solidariedade (Pacte civil de solidarité ou tão-somente P.A.C.S.) é um contrato de união civil entre dois adultos (de mesmo sexo ou sexos opostos) que regula a vida em comum de ambos, conferindo a cada membro direitos e responsabilidades, embora com força obrigante menor que a do casamento. [N. do T.]
  3. 3. A expressão créole se refere às culturas ou línguas mistas, nascidas do contato entre os europeus (neste caso, franceses), os africanos e a população local. {N. do T.]
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