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Category: Dom José Pereira AlvesConteúdo sindicalizado

Conferência sobre a Ressurreição de Cristo

D. José Pereira Alves

Conferência realizada no Círculo Católico do Rio de Janeiro

 

Eminência

Exmo. e Revmos. Senhores

Minhas Senhoras,

Senhores.

 

O Exm°. Sr. Dr. Moreira da Fonseca acaba de ler a esta douta assembleia o seu magnífico trabalho em que nos deu a certeza da morte real de Jesus Cristo.

Cabe-me a honra de oferecer ao vosso elevado espírito, a consideração das provas da Ressurreição do Divino Salvador.

 

O SEPULCRO VAZIO

O túmulo, em que jazia o corpo de Jesus Cristo exânime, fora encontrado vazio. Eis um fato verificado pelos apóstolos, por Santa Maria Madalena, pelas santas mulheres e pelos discípulos. “Alguns dos nossos foram ao sepulcro, escreve S. Lucas, e acharam todas as coisas como as mulheres o tinham dito”

Esta mesma verificação foi feita pelos inimigos de Cristo. Não pode haver dúvida. Os guardas do túmulo não podiam deixar de comunicar os acontecimentos da noite aos seus chefes.

Os príncipes dos sacerdotes e anciãos que tinham espalhado pelo povo a notícia do furto do corpo, foram com toda a certeza e, com eles os habitantes de Jerusalém, examinar o sepulcro de onde desaparecera o corpo do Crucificado.

São milhares de testemunhas — as próprias testemunhas da morte — que podem ver e percorrer o túmulo do Cristo vazio.

O corpo de Jesus não está mais ali.

Que era feito, pois, do corpo de Jesus Cristo?

 

APARIÇÕES

Santa Maria Madalena volta ao Jardim de novo deserto, com o espírito agitado por mil pensamentos. O Divino Mestre morrera.

Havia só no meio de sua confusão mental um ponto evidente e desesperador. O túmulo estava vazio. Mais uma vez ela percorre com o olhar indagador o interior do sepulcro e certifica-se da sua desgraça. Não estava mais ali. Ela viu então dois anjos, dois enviados de Deus, vestidos de um manto branco, assentados um à cabeceira, outro no pé do túmulo no qual o Senhor repousara.

“Mulher, disseram os anjos, porque tu choras? ” — “Porque, respondeu ela, levaram o meu Senhor e eu não sei onde o puseram”

Subitamente, a um sinal ou ruído, Santa Maria Madalena se voltou e viu um homem de pé que lhe perguntou também: “Mulher, porque tu choras? A quem procuras? ” E ela pensando que falava ao jardineiro respondeu: “Se foste tu que o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o levarei comigo”

“Maria”, disse o homem. Aquela voz tinha o timbre divino do Mestre e Santa Maria Madalena, sacudida nas profundezas da alma por aquele mistério de doçura e amor, reconheceu Jesus e gritou, lançando-se aos seus pés: “Rabboni! Ó meu Senhor! ”

Foi a primeira visão de Cristo.

Ela disse aos apóstolos: “Vi o Senhor”

É assim que Santa Maria Madalena, depois de receber a mensagem divina se tornou apóstola da Ressurreição.

 

EMAÚS

Há na minha catedral um pequeno e velho quadro onde certamente pousou a mão de um grande artista. A noite desce. Os dois discípulos de Emaús, atraídos pelo encanto misterioso do desconhecido que lhes revelava durante o caminho os segredos das Escrituras sobre o Cristo, insistem com o viandante para descansar e parecem dizer: “Já anoitece, fica conosco”

O peregrino daquela tarde primaveril florida e bafejada pela brisa perfumada da Palestina, tem o ar complacente de uma terna condescendência. Há por toda a cena, inspirada no Evangelho, uma cor natural, uma harmonia, todo um perfume cristão de sentimento, amor e de paz silenciosa que a alma se sente enlevada pelo êxtase da fé e pela sublime poesia do Evangelho.

É verdadeiramente cheio de emoções o episódio de Emaús. Durante toda a viagem, os dois discípulos são subjugados pelas palavras ardentes do inesperado interlocutor, mas não o conhecem. Sentam-se à mesa para a refeição frugal da noite. “No fim da ceia, escreve conhecido autor, Jesus ressuscitado, livre das tristezas da Quinta-feira Santa, longe da presença importuna de Judas, numa intimidade mais estreita, no meio do silêncio mais profundo e mais puro dos campos renovou o mistério da Ceia. “Tomou o pão, benzeu-o, rompeu-o e ofereceu-o aos discípulos”. Seus olhos se abriram. Mas Jesus desapareceu. Ainda não era hora do Céu, comenta um ilustre escritor. Quando eles, em transportes de alegria, voltaram para anunciar aos apóstolos a maravilha de que foram testemunhas oculares, souberam, antes de abrirem a boca, que o Salvador aparecera a Pedro.

 

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS

Os apóstolos, ouvindo a narrativa emocionante de Emaús, discutiram com calor os últimos estranhos acontecimentos. As portas da casa estavam cuidadosamente fechadas por medo dos judeus.

Naquelas horas de ânsia e de inquietações, Jesus aparece de pé no meio deles, dizendo: “A paz seja convosco, sou eu, não tenhais medo! ”

Foi um momento de espanto para todos. Que seria? Perguntavam interiormente a si mesmos. Um fantasma? Um espírito? Teriam sido vítimas de uma alucinação? Estavam vendo e, de medo, não ousavam proferir uma palavra. Então o Senhor lhes falou: “Por que vos perturbais. Por que todos esses pensamentos que se elevam em vossos corações”

“Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo: apalpai, examinai, os espíritos não têm carne, nem ossos. Vós vedes que eu tenho”.

E mostrou-lhes as mãos e os pés. Era bem uma evidência sensível para as testemunhas atônitas daquele espetáculo. E para dar-lhes uma prova fulminante da realidade pediu de comer e comeu com eles. Era demais. Os corações dos apóstolos saltavam de transbordamento, de imensa e inefável alegria. Foi, na frase de notável pensador, o primeiro Aleluia da Igreja. Nele se condensava todo o gáudio católico da universal festa da Páscoa que ainda hoje agita as almas e os sinos dos nossos campanários.

E Jesus, que atravessou a vida e a morte dando-se à humanidade, pensando nas circunstâncias vindouras, convivas da régia mesa pascoal, comunica ao sacerdócio, representado na culminância pontifical dos apóstolos, o privilégio divino, o poder, reservado ao Altíssimo, a faculdade suprema de perdoar: “A paz seja convosco! Como meu Pai me enviou, eu vos envio”. E, soprando sobre eles, acrescentou:

— “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”

Só Deus poderia restituir à matéria a glória e a liberdade da vida. Só um Deus pode atribuir a si e delegar a outros o poder sublime de restituir ao pecador a glória e liberdade do espírito, a ascensão sobrenatural para o Infinito.

As belas e empolgantes cenas da Ressurreição não deviam terminar em Jerusalém com a aparição de Cristo a São Tomé. As aparições hierosolimitanas destinadas à demonstração absoluta da ressurreição deviam suceder no plano divino as aparições da Galileia, destinadas à configuração definitiva da Igreja e ao supremo legado das palavras e da benção do Salvador.

A poesia, o esplendor e a paz do país da Galileia onde se refugiava a caravana apostólica, banhada de alegrias e de esperanças ofereciam uma moldura rica, florida, luminosa a esse último quadro da vida messiânica de Jesus.

As margens do Lago de Genesaré, de águas tão puras, Simão Pedro, o velho pescador, com saudades do mar, disse: “Eu vou pescar”. Os outros disseram: “Vamos contigo” e a barca de Pedro, a barca simbólica, vogou sobre a água durante a noite profunda.

Nada fizeram. As primeiras horas da manhã, um desconhecido lhes grita da praia: “Meus rapazes, tendes alguma coisa? ” “Não”, respondem. E o desconhecido ajuntou: “Lançai a vossa rede à direita da barca e achareis”

Uma nova pesca milagrosa. As redes estavam pesadas. “É seguramente o Senhor”, disse João a Pedro.

Era realmente Jesus. Eles não se atreviam, entretanto, a pergunta-lo, sabendo que era o Senhor. Só depois que Jesus lhes distribuiu o pão e o peixe, puderam aproximar-se e gozar da divina intimidade do Ressuscitado.

Os primeiros raios começaram a dourar as montanhas e iluminar aquele paraíso de recanto galileu enquanto Jesus, na plenitude da vida imortal e cheio de celestial doçura tomava parte no repasto frugal dos apóstolos, à beira do lago tranquilo e azul.

Como tudo isto é admirável de simplicidade! Nenhum artifício nessas narrativas evangélicas.

A beleza se irradia límpida e tocada da graça divina dessas páginas de verdade, de vida, de amor e de paz — promessas do Natal hoje transfiguradas numa realidade histórica, testemunhada e sentida por milhões de almas erguidas para o céu pela virtude divina do Redentor que, ressurgindo dentre os mortos e abandonando a solidão do seu túmulo, freme, palpita, esplende na vida para não morrer mais.

Nas diferentes aparições da Galileia o Salvador a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, não só cria o poder supremo da Igreja instituindo, solene, o papado, mas faz profecias de glória; projeta as grandes linhas da sua obra divina através dos séculos e anuncia o Espírito, o Paráclito que lhes há de ensinar toda a verdade.

É impossível nos limites deste modestíssimo trabalho a particularização desse grandioso período da Ressurreição.

Finalmente sobre um pequeno monte vizinho do Lago de Genesaré Nosso Senhor aparece a mais de quinhentos galileus.

São testemunhas das quais muitas viviam no tempo de São Paulo, segundo a sua própria afirmação. O Salvador faz um discurso público aos onze apóstolos: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, ensinai a todos os povos, pregai a toda criatura. Batizai os homens em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que eu mandei. Aquele que crer, e for batizado será salvo. Aquele que não crer será condenado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Jesus Ressuscitado dirige a sua fala de Soberano à Igreja Docente e à Igreja Discente, aos apóstolos e aos quinhentos discípulos em assembleia solene sobre o cimo sagrado, — cátedra do Mestre e do Fundador — criando e determinando a vida e as funções constitucionais da sua Igreja visível.

A última aparição do Divino Ressuscitado que durante quarenta dias, em horas diferentes, em lugares diversos e descobertos, a intervalos bem notados se mostra vivo e pessoal a testemunhas de categoria, condição, idade, sexo, espírito, caráter e interesses vários numa atmosfera de dúvida, hesitações e patente incredulidade, a última aparição se realiza no Monte das Oliveiras — de tanta recordação pungente.

É daí que o Cristo quis traçar a via triunfal, da sua glória, a Ascensão para o eterno Pai.

Depois de pronunciar o seu adeus supremo, últimas palavras de sua missão terrena, o seu programa de verdade e de amor. Nosso Senhor estende sobre todos, as suas mãos abertas em chagas de luz — em última benção — e começa lentamente a subir para o céu.

Eles olhavam no espaço ainda a nuvem em que se recolhera o Redentor triunfante quando dois anjos os arrancaram do êxtase, dizendo: “Galileus, que fazeis aí de pé olhando para o céu? Esse Jesus que acaba de deixar-vos para subir ao céu, voltará de lá como o viste subir”

Minhas senhoras, meus senhores. Que pensar de tudo isto?

O túmulo de Jesus estava vazio na manhã de domingo. Milhares de amigos, inimigos, indiferentes, o testemunharam.

Que corpo era esse, pois, que apareceu em tantos lugares e circunstância a tão diferentes pessoas durante quarenta dias? Que corpo era esse, que não só se deixava ver e tocar, mas que agia, falava e afirmava uma personalidade com uma consciência perfeita e clara do seu ser, da sua ação e das suas funções próprias e um sentimento vivo e determinado do seu Eu? Era um corpo? Era um fantasma? Era um espírito? Era uma projeção alucinatória de Santa Maria Madalena, dos apóstolos e dos discípulos de Cristo? Ou foi realmente a aparição miraculosa do Cristo que deixara vazio o sepulcro na alvorada esplêndida do domingo?

A hipótese do furto do corpo pelos discípulos do Cristo já está abandonada. Nenhum racionalista que se preze ou tenha probidade intelectual, prestigia nos nossos dias essa hipótese. O mesmo se pode dizer do espírito de impostura e má fé atribuído aos apóstolos. Reville presta uma homenagem magnífica à sinceridade profunda desses homens que se deixaram matar pelo Cristo Ressuscitado.

Picard nota muito bem: não foram os discípulos, dizem, foram os judeus que roubaram o corpo de Jesus. Esta hipótese é ridícula da parte da incredulidade. Os judeus teriam assim fornecido armas contra si mesmos. Destruíram a única peça de convicção que podia aniquilar o testemunho dos apóstolos...

A suposição de Strauss de que o corpo de Jesus Cristo foi atirado ao lixo, opomos este fato de notoriedade pública no tempo de São Paulo; foi sepultado. De resto, naquela maneira de agir não era conforme nem à lei romana nem à lei judaica. Segundo a primeira, o cadáver devia ser entregue logo que fosse reclamado. Quanto à lei judaica, esta estabelecia expressamente que o cadáver do supliciado devia ser sepultado antes do pôr do sol.

As hipóteses racionalistas, inventadas para explicarem a Ressurreição de Cristo, de Strauss, Renan, Harnak e de tantos outros hipercríticos ou romancistas modernos e contemporâneos, são evidentemente um esforço desesperado do racionalismo para negar a existência do sobrenatural.

As explicações dadas por Strauss, Renan, Noak, Ewald Lang, Hosten, são diversas, mas têm um fundo comum — as aparições são visões subjetivas. Já estão fora de moda e sem interesse pelo vão esforço que representam para tornar ilusória o fato da Ressurreição.

Outros não recusaram a realidade das aparições, mas negaram a Ressurreição física de Jesus Cristo. As alucinações dos apóstolos teriam sido alucinações verdadeiras. Aparições objetivo-subjetivas. Jesus sobrevivia num estado espiritual e capaz de agir espiritualmente sobre o sentido humano e assim tornou sensível a sua presença e a sua ação aos apóstolos que visualizavam, isto é, traduziam por visões objetivas o que percebiam, e oralizavam, isto é, interpretavam como verdadeiros discursos o que compreendiam.

Ora, meus senhores, minhas senhoras, lendo todos esses devaneios mascarados de cor científica ou filosófica, nós nos lembramos instintivamente do verso de Virgílio — Quis Deus vult perdere, prius dementat — e nos entristecemos sobre essas ruínas do orgulho humano, humilhado na tentativa insana de apagar as estrelas do céu.

As narrativas evangélicas documentam a realidade corpórea da Ressurreição. Os discípulos tocaram um corpo real, ainda que glorioso, com suas mãos e ouviram com seus ouvidos.

No texto evangélico também não se acha fundamento para as visões pneumáticas objetivas de Leim e Schweizer para quem as cristomanias são visões interiores do estado glorioso de Cristo no céu, interpretadas pelos apóstolos no sentido de sua Ressurreição corpórea.

Essa ilusão de ótica, necessária para reanimar a fé nos apóstolos nem satisfaz a consciência moderna, inimiga do sobrenatural, nem explica o contato sensível do Cristo em suas aparições diversas durante quarenta dias, nem o túmulo vazio atribui à divindade a causa direta do erro.

A Ressurreição é o fato fundamental do Catolicismo.

Os vinte séculos da verdade católica se apoiam no túmulo glorioso de Jesus Cristo. É o milagre que, por excelência, prova a divindade de Cristo. Ressuscitar um morto é um prodígio. Ressuscitar a si mesmo é o prodígio dos prodígios. Na sua vida e na sua morte o Divino Mestre multiplicou os fatos extraordinários que documentaram divinamente as suas afirmações absolutas sobre a sua personalidade divina.

Na Ressurreição, a demonstração do Salvador atingiu o seu apogeu de luz e de glória. Os inimigos da fé compreenderam muito bem que aceitar a ressurreição é aceitar toda a revelação cristã com todas as suas consequências doutrinais.

São Paulo escreveu claramente: Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha pregação e inútil a vossa fé.

O racionalismo chegou ao cúmulo de negar a morte de Cristo. Cristo segundo alguns incrédulos, apenas desmaiara na Cruz. No repouso, ele voltou a si da frieza do túmulo e das resinas do embalsamento.

E esses espíritos orgulhosos não leram que Pilatos só deu autorização para a descida do corpo depois de se ter certificado de sua morte? E o divino supliciado poderia ter resistido após tão terríveis tormentos à lança do soldado romano que lhe abre o peito na largura de uma mão? E como esse Cristo desfigurado, arrastando-se, desgraçado, saindo penosamente de um sepulcro poderia ter fortalecido e transformado os seus medrosos discípulos?

A impiedade se torna ridícula na ânsia de repudiar o sobrenatural, custe o que custar.

A palavra do anjo continua a ser uma palavra de vitória:

“Procurais a Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ressuscitou; não está aqui”

O túmulo está vazio. Os soldados romanos subornados dizem que estavam dormindo quando roubaram o corpo do crucificado.

E como esses pescadores tímidos, rudes, pobres, sem meios, sem influencia, sem nenhum interesse para eles, afrontando as consequências do seu ato, teriam violentado, corrompido ou enganado a guarda romana? Todas as explicações atingem o máximo do absurdo.

O túmulo do Cristo, vazio, apesar de todas as precauções tomadas, só tem uma explicação aceitável. É a palavra do anjo: “Ressuscitou; não está aqui”

Santa Maria Madalena, suas companheiras e os apóstolos foram vítimas de uma alucinação, gritam os céticos de todos os tempos.

A psicologia dessas gloriosas testemunhas do Cristo redivivo é o que há de mais contrário ao fenômeno da alucinação.

Nenhuma delas se mostra crédula. Nenhuma pensa na Ressurreição. Santa Maria Madalena corre ao sepulcro e quando vê a pedra derribada, diz: “Roubaram o Senhor e não sei onde o puseram”. Ela se lamenta junto do túmulo abandonado. Diante dela está um homem de pé. “Por que choras mulher? A quem procuras? Se tu o tiraste, responde Madalena, dize-me onde o puseste”

Maria! Disse o homem.

E a grande arrependida, reconhecendo Jesus naquela voz cheia de doçura, exclama: “Rabooni! ” É assim que Madalena se torna a apóstola da Ressurreição. Ela diz aos discípulos: “Vi o Senhor”. Os apóstolos foram duma incredulidade a toda prova. E eles tomaram as santas mulheres por visionárias. E quando o Senhor lhes aparece, eles julgaram-no um fantasma. Um deles, São Tomé, leva a audácia de sua incredulidade a querer tocar as chagas do Mestre. Sugestão e alucinação se tornaram na linguagem dos ímpios, palavras cômodas para explicarem os fatos sobrenaturais.

Bossuet, no seu famoso discurso sobre a história universal disse: “Ao terceiro dia, Jesus Cristo ressuscita; aparece aos seus que o haviam abandonado e se obstinavam a não crer na sua Ressurreição. Os discípulos o veem em particular, e todos o veem em conjunto; aparece uma vez a mais de quinhentos homens reunidos. Um apóstolo, assegura que a maior parte dentre eles vivia no tempo em que ele escrevia. A Ressurreição é um inabalável fato histórico. A sua certeza está acima de toda a dúvida. A sua certeza está acima de toda a dúvida. O Cristo ressurgiu. E, ressurgindo, ressuscitou o mundo.

Levantou todas as lousas que pesavam sobre o gênero humano, baniu todas as escravidões — a escravidão dos sentidos, do coração, da inteligência. Sobre a família humana raiou um novo sol. Todos os infelizes, todos os desgraçados puderam soltar um suspiro de alívio. Como um verdadeiro triunfador, o Cristo Ressuscitado invadiu a consciência da humanidade e criou uma mentalidade e uma civilização desconhecida.

Jesus transformou o homem com seu verbo, com sua graça, com seu amor. Ele semeou na alma racional essas verdades fecundas que produziram na sociedade uma total revolução nas ciências, nas artes, nas leis, na política, nos costumes e na vida dos povos, essas verdades que fizeram surgir do caos social antigo um novo mundo moral, iluminado pelas fulgurações e relâmpagos da Ressurreição.

São essas torrentes de luz que dobram os joelhos dos sábios e arramam dos seus lábios palavras como estas do grande matemático Cauchy: “Eu sou católico, e, se me perguntassem a razão disso, veriam que as minhas convicções são resultado não de preconceitos de família, mas de um exame aprofundado. Veriam como se gravaram para sempre no meu espírito verdades mais incontestáveis aos meus olhos do que o quadrado da hipotenusa”

A pedra do sepulcro do Divino Vencedor é o granito da Igreja. Há vinte séculos contra ela se despedaçam crânios. Mas é um granito de amor. Há vinte séculos ela recebe as lágrimas de todos os infortunados, as flores de todos os agradecimentos, as homenagens da inteligência e do coração.

Há vinte séculos sobre essa lousa augusta se repetem, num crescendo de amor, os beijos da gratidão genuflexa que bendiz, aclamam, canta por todos os júbilos de Páscoa, a alvorada cristã do Deus Ressuscitado.

A Ressurreição de Jesus Cristo tranquiliza o nosso espírito. Não estamos iludidos sobre o nosso futuro. O Cristo ressuscitado garante todas as certezas da Fé e todos os ensinamentos da Igreja. Ficamos na posse consciente de verdades eternas. Os ventos vários das filosofias humanas não poderão abalar a nossa confiança que repousa indefectível no rochedo iluminado do Domingo Pascal. A ressurreição física de Jesus é a prova decisiva.

Doravante estamos voltados para o céu donde esperamos Nosso Senhor Jesus Cristo que transformará o corpo de nossa humildade, segundo o modelo de seu corpo glorioso.

O Cristo, primogênito da vida e vencedor da morte, envolve na benção de sua ressurreição gloriosa a carne sofredora da humanidade. Nós cremos na imortalidade da alma e na perpetuidade radiosa da carne ágil, sutil, impassível, esplendente, como uma flor do espírito, no Reino da glória, forma suprema da beleza sensível, transfiguração pelo sopro criador do Artista Divino.

Na igualdade dos seres que a morte nivela é sempre a mesma devastação do corpo que se decompõe e vai alimentar a erva humilde depois devorada, talvez, por um animal estúpido.

Seja o cérebro de um sábio, — laboratório do pensamento seja a mais abjeta das criaturas, é sempre a mesma a humilhação da morte. Diante do sepulcro aberto não vemos mais que podridão, poeira e pó. Se perguntarmos ao materialista se o homem ficará reduzido à miséria do túmulo, ele responderá: “Ficará. A matéria será restituída à circulação da natureza”

E o pensamento? Os surtos de seu espírito? Os seus desejos? As vozes supremas de sua alma? Todos os seus movimentos transformados em sensações e ideias? Tudo ficará perdido para sempre, dizem os materialistas.

Coisa terrível é a morte do homem que só crê na matéria! Espanta, aterroriza!

Se perguntarmos a um ultra espiritualista se a matéria ficará reduzida à miséria do túmulo, ele responderá. “Ficará, porque vai ser restituída a circulação da natureza, somente a alma não sofrerá essas misérias”

É menos terrível essa concepção da morte.

Só a alma com os seus pensamentos, os seus surtos e os seus desejos não se poluiria no túmulo.

Mas o cérebro onde se elaboram as ideias, o coração onde se aninham os sentimentos, o corpo onde demoram as vibrações, tudo desaparecerá para sempre no conceito do espiritualista ingrato.

Nós católicos, porém, não podemos admitir essa poeira eterna do cérebro, do coração, do nosso corpo.

Deus não quis condenar o homem-fanal da criação à podridão eterna, à devastação completa do corpo que foi feito à sua imagem e semelhança.

Credo resurrectionem. Nós acreditamos na ressurreição da carne. Estamos convencidods de que esta há de florir.

Quando Deus, completou o plano da criação, do limo, formou o homem e lhe deu o sopro de vida, o espiráculo de vida não foi para reduzi-lo a nada, nem para inutilizar o encanto de sua obra, que formou os enlevos da criação.

Não foi inutilmente que colocou essa semelhança de sua imagem no meio de sua obra gigantesca.

Não foi inutilmente que criou para os seus olhos os encantos da vegetação e as maravilhas da luz e os esplendores dos quadros que a sua mão de artista formou onipotentemente.

Não foi inutilmente que criou par os ouvidos do homem a deslumbradora orquestração da natureza, a música das águas, o canto dos pássaros, a harmonia das esferas.

A carne é herdeira das liberalidades divinas.

Quando a alma quer rezar, os lábios murmuram, o coração palpita, as mãos se juntam e se erguem para o alto numa atitude magnifica. E não é possível que essa carne fique reduzida à podridão para sempre. Também ofereceu seu sangue, se sacrifica, se martiriza por Deus.

A Igreja saúda a carne irmã da carne de Jesus Cristo.

A nossa religião respeita o espírito e a carne criada, cuja ressurreição proclama.

Sendo divina a nossa religião, é eminentemente humana. Não se preocupa só com a alma, mas também com o corpo. Sem corpo não teríamos ressurreição completa. É um dogma da nossa Igreja a ressurreição da carne. O sepulcro não é só podridão. O nosso esquife é berço da imortalidade.

A própria natureza nos prenuncia a ressurreição da carne.

Ao pôr do sol, todas as tardes, segue-se a noite longa e silenciosa. À alvorada, o sol surge. É a ressurreição da manhã. O lavrador atira o grão humilde que vai apodrecer para nascer, reflorir e frutificar. A larva se transforma em crisálida e esta em borboleta que alça o voo em demanda do infinito, no anseio da liberdade.

Se Deus concede a vida ao vegetal que nasce da semente apodrecida, a vida que palpita na verdura dos campos, no coma verde das árvores, se dá essa vida que cintila na asa das borboletas, por que razão não a concederá à nossa carne, também?

A carne apodrecida é transfigurada e se preparará para ser a angélica farfala, de que nos fala Dante, em procura do sol divino.

A razão disso nos persuade, porque seria terrível essa separação eterna da alma e do corpo.

Deus criou do limo a carne e depois deu-lhe alma e disse-lhe: “Alma, tu és rainha, aqui está um trono; alma, tu és chama, aqui está um coração, onde tens sangue, paixão, amor, sentimento; alma, tu és vibração, aqui estão os nervos; alma, tu és luz, aqui está uma lâmpada; alma, tu és raio, aqui estão os olhos, através dos quais poderás esplender”. E a alma se precipitou para esse corpo para substituir a natureza.

A alma e o corpo constituem uma só substância. A natureza exige a ressurreição da carne.

O corpo não é lira, que a alma agite durante algumas horas, durante algum tempo, durante uma existência, apenas.

O corpo reza, chora, ri, geme, suspira, é feliz e é desgraçado com a alma. Separados na morte, voltam a unir-se na outra vida.

A alma celebra com o corpo e epitalâmio da terra e da eternidade. Vivem numa perfeita vida conjugal.

A razão e a fé nos mostram que assim tem sido compreendido sempre desde os tempos de Zend Avesta em que Ormuz se refere, sem nada que dúvida faça à ressurreição da carne. Platão, Sêneca, a crença mosaica, tudo nos convence do mesmo modo. São Paulo, nas suas Epístolas, afirma que o corpo será semeado na corrupção e ressuscitará incorruptível, ressuscitará na glória.

Senhores, há dois mil anos, Cristo reina. A cruz flutua em todos os continentes. A bandeira de Cristo Rei congregou todos os povos derrubando barreiras dos costumes. O mundo vivia de orgulho, e Cristo ensinou a humildade.

Foram por Ele transfigurados todos os costumes e todas as gentes se dobraram aos seus ensinamentos. Invadiu a trama e o tecido de todas as instituições e apareceu como o maior legislador da humanidade. Abateu as barreiras de todas as regiões até então existentes. Fez ruírem os deuses antigos de seus pedestais, extinguiu a casta sacerdotal antiga.

Ensinou o Pai Nosso, oração universal, recitado por todo o mundo, que vale como demonstração sublime da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu sou o Bem, disse Nosso Senhor, e toda a humanidade enamorada segue-lhe os ensinamentos maravilhosos que afrontam a fúria dos tempos.

Envelhecem as repúblicas, passam as instituições, muda-se a face dos acontecimentos. Só o Cristo vive, só o Cristo atravessa as idades. Só o Cristo resiste a todas as mutações que se operam no mundo.

Se assim não fosse, Cristo seria um mentecapto ou um impostor, seria um velhaco ou um bandido, cuja pregação seria sem valor.

Mas a sublimidade do Evangelho bem atesta no vigor de suas indestrutíveis verdades que só um Deus seria capaz de nos dar tão grandioso monumento de sabedoria.

Não falta quem não tenha dito ter sido Cristo um visionário, um louco, um filósofo, um revolucionário.

Mas Cristo é realmente Deus, nosso Deus, força e fundamentos da verdade. No seu trono de glória, no mistério do tabernáculo, no último recesso do sacrário, ele exora misericórdia para toda a humanidade.

Em tão augusto silêncio, ele está trabalhando a obra imortal da Igreja, por toda a eternidade, porque Ele disse: “Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Aparecendo à Santa Margarida através do véu branco que cobre o sacrário, disse: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e deles é tão pouco amado”

Glória, pois ao Cristo que ressurgiu dos mortos e preparou para a humanidade a glória da RESSURREIÇÃO.

 

Eminência.

V. Eminência com esta bondade que não cansa, se dignou vir a esta casa para prestigiar a ação dos bravos da União Católica; abençoar esta numerosa e brilhantíssima assembleia em que a fé, a ciência, a cultura, a graça cristã e o espírito católico desta Metrópole fulguraram; honrar e animar o modesto pregador do Divino Ressuscitado, enfim, emoldurar no esplendor da púrpura esta bela noite do Ano Santo, noite da Ressurreição.

Beijamos agradecidos esta Púrpura que já se doura dos raios romanos com a investidura de V. Eminência na alta Missão de Legado Pontifical ao Congresso Eucarístico Nacional.

Outra missão incumbe também a Vossa Eminência.

Dir-se-ia, senhores, que o nosso Cardeal leva enrolado na púrpura sagrada o bele e generoso Coração do Sul para uni-lo ao ardente Coração do Norte, fundindo-os num só Coração — O Divino Coração Eucarístico que no Ostensório da Bahia histórica vai abençoar a união dos brasileiros.

Boa viagem, Sr. Cardeal, para a descoberta cristã da República.

Cabral chamou Monte Pascal o primeiro cume descoberto, — o cume dos Aimorés, — entre os arrebóis de Páscoa. O Brasil nascia para a civilização, sob o sinal glorioso do Divino Ressuscitado da Galileia. Sua vocação histórica era sagrada pelas auroras da Ressurreição.

Quem sabe, Eminência, se à sombra do Monte Pascal, os sinos das velhas igrejas da colônia em repiques de aleluia nacional não irão saudar o ressurgimento cristão do ESTADO BRASILEIRO?!

 

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

A beleza de Maria

D. José Pereira Alves

Conferência pronunciada no Seminário de Olinda

 

Dir-me-eis, senhores, a razão por que estou aqui? Como definir-me neste momento? Sonho ou realidade, toda essa visão de luz, de festa, de riso, e de paz?

Eu de nada quero saber; porque um fato de uma verdade crua é que eu estou aqui e é este fato que me acabrunha implacavelmente. Chamá-lo-ia um pesadelo e um duende, se outro que não a Boa Mãe, fosse o objeto deste festival do espírito. Amarrado por cadeias formadas de fibras de corações a esta tribuna, eu recebo a ordem indeclinável de ser o que não sou: “conferencista”! Seja! É preciso uma metamorfose? Não há dúvida. É preciso sê-lo ainda disfarçado? Pois não! Por que não a máscara e o disfarce?

Aceitemos, pois, o fato consumado! Na presente conferência não me haveis de achar, porque haveis de achar os outros, salvo em alguns dos recantos, escondido na obscuridade pessoal. Creio que nem mesmo me posso comparar à laboriosa e pequenina abelha que da matéria prima colhida entre as flores fabrica um delicioso e refinado mel.

Eu sou antes semelhante à garrula criança que, durante o formoso mês de maio, recolhe no avental azul lindas rosas dos canteiros floridos. E depois as entrelaça, dispõe e forma um belo ramalhete para oferecer à Virgem da ermida.

A minha conferência, pois, é um buquê, onde eu só tenho folhas, porque as flores são dos outros; e, por cima, a sua disposição, que é o meu trabalho quase todo, acusa bem a imperícia do seu autor. A eloquência do púlpito tem feito a sobejo o panegirico da fisionomia espiritual de Maria e mergulhado nesses abismos a luz, voltando à tona cega de tanta glória e esplendor. Eu, meus senhores, escolhi para tema desta minha conferência mariana a Beleza exterior e física de Maria Santíssima.

Não se trata de um estudo crítico e profundo da matéria: é apenas uma apologia simples desta formosura sem rival.

Não é também uma exposição à altura do objeto, porque nem tempo houve, nem “a tanto me pode ajudar engenho e arte”.

A Beleza externa de maria será considerada:

1° No conceito Bíblico.

2° No conceito Tradicional.

3° No conceito Litúrgico.

4° No conceito Teológico.

5° No conceito Artístico.

 

Conceito Bíblico

Tiremos agora as nossas sandálias, porque santa é a terra em que vamos entrar. Escutemos no silêncio da alma, porque penetramos no sancta sanctorum onde Jeová faz trovejar a sua divina voz. Como as grandes catedrais da nossa Santa Religião, vasta, grandiosa, resplandecente é, e o é, soberanamente, essa Catedral da Religião que se chama a Bíblia.

Nas nossas melhores e mais importantes igrejas há um simbolismo admirável que se espalha pelas magníficas pinturas, baixos relevos, pelas linhas duma estatuária rica e artísticas decorações. O mesmo se dá na Basílica da Fé — a Bíblia. Um simbolismo surpreendente vive e palpita naquelas páginas do Céu com um esplendor raro de imagens, de alegorias, de fatos, de painéis lindíssimos e de uma significação profunda.

O Divino Redentor, que foi realmente o negócio dos séculos, se acha prefigurado e vaticinado em toda a Escritura antiga. Lê-se no Talmud que todos os profetas não vaticinaram senão sobre os dias messiânicos. Em virtude das afinidades estreitíssimas entre a personalidade de Cristo e a personalidade de Maria, resultante do mistério da Encarnação, eu creio que não será uma frase atrevida afirmar que, à semelhança do seu Filho, Maria foi também o negócio dos séculos prefigurado e vaticinado nas Sagradas Escrituras. Negotium saeculorum. Novum Testamentum in vetere latet et vetus in novo patet.

O Novo Testamento se oculta no Velho e o Velho se revela no Novo, diz o grande Santo Agostinho. Eu classifico ao menos para o meu fim, em dois grupos distintos a escritura figurativa de Maria o grupo personativo e o grupo emblemático. O grupo personativo compreende um grande número de figuras da predestinada pelo Altíssimo no segredo dos seus conselhos. Destaquemos a esmo: Ester, Judite, Sara, Raquel, Noemi, Abigail, Betsabé, Rebeca, Eva, Esposa do Cântico dos Cânticos.

Analisemos esses tipos bíblicos da Virgem sem falar de outros muitos que apareçem nos Livros Sagrados. Que diz a Bíblia, meus senhores, não digo da fisionomia moral, mas do caráter estético, sensível destas personagens, espelhos presentes da Virgem futura? Que diz?[1]

De Ester, lê-se no seu livro que era muito formosa e de incrível beleza, incredibili pulchritudine. Judite é de elegantíssima presença. Sara em extremo bela — pulchra nimis. Raquel é delineada como uma virgem bela e de formoso semblante; não é Noemi que diz: não me chameis Noemi, isto é, formosa? Prudentíssima e formosíssima era Abigail de Nabul, refere o 1° Livro dos Reis; a formosura excepcional de Betsabé e de Rebeca é superlativamente reconhecida nos Reis e no Gênesis; e Eva a mãe dos viventes, a primeira mulher, não podia deixar de surgir das mãos do Criador com todas as graças da natureza. O poema sagrado nos seus idílios com tanta prodigalidade de pinturas, com tanta poesia de expressão descreve a Esposa! Abri de olhos fechados o Cântico dos Cânticos e em cada página de ouro cintila o mesmo fulgor descritivo do formoso objeto do esposo encantado. [2]Senhores, porque essa insistência do Espírito Santo em acentuar a beleza dessas figuras de Maria? Porque tendo elas caracteres tão diferentes, missões diversas, tem este ponto de contato, de afinidade: a Beleza? Essas considerações dos autores nos iniciam nos desígnios da Providência. O Eterno retratara de antemão a beleza daquela de quem cantou o poeta Florentino: “Ó Virgem, Mãe e Filha de teu Filho; Mais do que ente criado humilde e alta; foste ao divino intento alvo prefixo”.[3]

Eram os esboços da obra-prima. Sim, porque[4]:

 

Obra-prima do artista onipotente

Tu és, Maria, a joia mais fulgente

De toda a criação.

 

Não tem mais brilho o sol, candor a lua,

Nem há beleza que se iguale à tua

Na graça e perfeição”.

 

O argumento de Santo Antonio é o seguinte: todas as mulheres que são figuras de Maria na Lei Antiga foram célebres pela sua beleza; ora, a verdade é superior à figura e a realidade à sombra; logo a formosura de Maria é incomparavelmente mais deslumbrante do que a de suas figuras bíblicas. Essas figuras são sinais de Maria. Qual é a noção filosófica de sinal?

É aquilo cujo conhecimento prévio leva ao conhecimento da coisa significada. Porque não será a sua fiel representação em virtude de sua relação sobrenatural? Essa reflexão confirma o argumento do douto santo. A propósito escreve um autor: “Plínio, o velho, conta em sua História Natural que o famoso pintor Zêuxis devendo fazer um quadro que os habitantes d’Agrigento queriam consagrar a Juno, estudou as virgens desta cidade para reproduzir em sua obra todas as belezas que poderia descobrir nelas. Pois bem, de uma maneira muito mais admirável, Deus Criador de todo o universo, Deus, o mais sublime dos pintores, escolheu entre as criaturas tudo o que elas encerravam de grandeza e de beleza e como numa pintura sublime, o realizou por Sua sabedoria infinita na Virgem Maria”. Do outro grupo — o grupo dos emblemas — ressalta pelas razões aduzidas a beleza exterior da Virgem. Na Sagrada Escritura nossa boa Mãe do Céu possui uma preciosíssima flora e mesmo uma esplêndida fauna. No reino das coisas sem vida, de toda a fulguração dos céus, de todos os encantos da terra em uma palavra de tudo o que há de belo e de brilhante formou o Altíssimo a auréola dos símbolos de sua eleita — objetos de suas eternas e amorosas intuições. É a mesma semelhança ou proporção do representante e do representado, do sinal e da coisa significada, da ideia típica e do objeto que se impõe claramente. Uma outra reflexão, meus senhores. O emblema envolve em sua natureza um caráter formal de atribuição: é um atributo real; ora, a lei da atribuição exige uma adequada proporção possível entre o sujeito e o atributo, para que ela seja relativamente perfeita. Por que razão, pois, tão belos títulos, belos nas coisas que exprimem, hão de descrever apenas a fisionomia luminosa da alma de Maria? Porque não fotografarão também a surpreendente beleza de seu olhar, dos seus lábios, de sua peregrina face?

Não há razão plausível para essa exclusividade moral. Belas coisas exprimem os emblemas marianos. Sim!

Não é ela a gemedora pomba escondida entre os rochedos? Não é ela a águia real alcandorada sobre os montes?

Que beleza! Que flora figurativa!

“Eu me elevei como o cedro do Líbano: estendi os meus ramos como as palmeiras de Cades; ergui-me como o plátano plantado à beira das águas, eu espalhei um perfume como a canela e como o bálsamo mais precioso”[5]. Floresce como a rosa e perfuma como o lírio, segundo a interessante estrofe encontrada em um antigo pergaminho:

 

Ut rosa flores

Flagras ut lilium,

Ora pro nobis

Ad tuum Filium.

 

Irradia como o sol, formosa como a lua, radiante como a aurora.

Que multidão, que riqueza, que brilho de comparações! E sobretudo é a rutilante estrela:

 

Symbole déespérance á l’heure ou tout est sombre,

Astre celeste ou Dieu mit toute sa splendeur,

Vienne le crépuscule intense qui fait peur,

Vienne l’heure angoissante ou le salut se couche;

“Ave Stella”, dira, dans un soupir, ma bouche[6]

 

Da análise dos dois grupos figurativos da Virgem emerge, brilhante de formosura inigualável, o perfil hiperangélico de Maria. E não se apele para o silêncio dos Evangelhos, porque esse mesmo silêncio é o maior panegírico de sua beleza exterior. Tenha a palavra S. Antonino: “Tendo Maria em plenitude tudo que de bondade e de beleza houve nos outros, calando-se o Evangelho acerca de um privilégio particular como a beleza e outros, louvou-a mais supondo tacitamente do que manifestando.

Do mesmo modo que os Arcanjos por serem louvados pelos dons superiores, por isso não estão privados dos dons inferiores que neles estão mais perfeitamente do que nas ordens menos nobres. E eu digo que o Evangelho não emudece muito, ao contrário, ele proclama a beleza peregrina de Maria. Não é aquele Mater Jesu a raiz e a preconização virtual das prerrogativas ainda naturais da augusta Mãe de Deus? E por que não tomar em toda a sua extensão a graça de que Maria possui a plenitude? ”[7]

 

Conceito Tradicional

Os estudos feitos sobre as antiguidades pagãs não têm apenas contribuído para o progresso científico, mas também têm derramado luz no problema religioso.

Os sábios que têm aclarado com a lâmpada de suas pacientes investigações esses labirintos do mito, descobriram relações e harmonia entre o mundo lendário e o mundo cristão, apesar de sua natural antinomia. Os inimigos da Igreja julgavam encontrar nessas semelhanças de doutrina um argumento formidável para provar que o Cristianismo é um grande plágio das religiões, relíquias conservadas no museu do passado, como se a seiva pujante de nossa fé pudesse ter saído dessas múmias estratificadas no sarcófago dos tempos!

Toda essa afinidade se explica naturalmente pela difusão primitiva da Revelação entre os povos.

Não é a religião verdadeira que é o plágio, muito ao contrário, ela é o arquétipo divino que o paganismo copiou, deformando-o na abominável saturnal dos seus vícios e paixões. E é por isso que nós encontramos na Mitologia antiga sombra dos mistérios inefáveis do Cristianismo. A Mariologia lucrou com essa pesquisas crítico-religiosas nos cultos pagãos[8].

A Virgem parece desenhar-se no perfil de Íris, de Ceres e outras divindades do círculo místico. Pois bem, aí, nas tradições idólatras, podereis descobrir confirmações do que vos tenho afirmado na explanação do presente trabalho sobre a formosura externa de Maria. Como tenho em muita conta o vosso precioso tempo, eu apenas citarei um testemunho pagão. Mas não irei desentranhá-lo do politeísmo helênico nem dos carvalhos do druidismo gaulês nem do masdeísmo persa que Zoroastro reformou ou do Budismo índico.

Não! Aqui mesmo nas nossas virgens florestas continentais, sob a verde umbela da pujante vegetação da América do Sul, no Paraguai, os habitantes do grande lago Zaragas, os Macênicos contavam aos missionários que “outrora uma mulher belíssima, ficando sempre virgem, teve do mesmo modo, uma encantadora criança que, depois de homem, operando milagres insignes, um dia no meio de muitos discípulos subiu aos ares convertendo-se no sol”. Consultemos, porém, a tradição cristã, não a que está nos monumentos antigos, mas a que está no senso católico, nos escritos dos Santos Padres e escritores eclesiásticos. Nessa rica messe há apenas o trabalho de escolher. Poderei reclamar a vossa paciente e benévola atenção? Escutai. O pensamento tradicional revela-se em toda parte, absorvendo a insignificante minoria contrária. Ide por aí afora em nossa terra, pelos nossos mais atrasados lugarejos, interrogai o filho do povo, e vereis que o mais bronco dos nossos patrícios não poderá admitir que a Virgem da Conceição não exceda em formosura a mais prendada das filhas dos homens. O mesmo, a fortiori, se daria num meio culto. Se eu pedisse agora nesta luzida assembleia uma votação nominal, Maria Imaculada alcançaria decerto uma esplêndida vitória. É tempo de referir alguns eloquentes testemunhos da dinastia espiritual dos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos. Santo André de Jerusalém afirma que “Maria em seu corpo é a mais pura joia da virgindade, um céu esplêndido, uma viva imagem da beleza suprema, uma estátua viva que Deus mesmo esculpiu”. Ela é o espelho da beleza por excelência, diz Santo Alberto Magno. São João Damasceno escreve que “Maria é ao mesmo tempo a obra-prima da natureza e da graça”. Para que multiplicar sem necessidade as citações? Non sunt multiplicanda, é o aforismo da filosofia[9]. Nós não temos a felicidade de possuir de nossa extremosa Mãe Celeste um autêntico retrato. Seria um bálsamo para nosso espírito embeber o nosso olhar naqueles olhares de doçura que tanto consolaram os apóstolos.

Não o temos; nem a imagem comumente atribuída a São Lucas, diz um ilustre jesuíta, nem as descrições minuciosas que os historiadores gregos de data mais recente nos deixaram, são de natureza a assegurar um juízo do que o exterior de Maria poderia ter sido. Jamar, apoiado nesses historiadores, nos dá o seguinte retrato de Maria:

“Ela era duma estatura mediana; seu rosto era oval, dum puro colorido; e notável pela delicadeza e graciosa regularidade das linhas; a fronte larga, sobrancelhas bem arqueadas e dum moreno ligeiramente escuro; olhos vivos; cuja pupila era matizada dum delicado azul.

O nariz e a boca eram perfeitamente proporcionados; lábios purpurinos, queixo de uma forma irrepreensível; cabelos louros; as suas mãos desembaraçadas e delicadas”[10].

Revesti, meus senhores, este belo perfil, de nobreza, de candura, de modéstia, de gravidade, de maneiras simpáticas e distintas, e tereis Maria, segundo as descrições antigas, na esplendente e encantadora expressão de sua beleza sempre jovem. Sempre jovem, sim. Dionísio Areopagita quase que a tomou por uma Divindade se não soubera pela Revelação que só há um Deus. E quando a visitou, a Virgem estava muito além da idade juvenil. Eu li que, quando Deus resolveu criar a rosa, convocou para este fim uma câmara de deputados do universo. Uns queriam-na sem espinhos, outros sem eles não lhe achariam graça; e foi tal a balbúrdia e desencontro de opiniões, que Deus, por um golpe de estado, dissolveu a câmara e criou a rosa por um decreto especial. Este apólogo traz à lembrança aquela piedosa alegoria de Gerson sobre a criação da formosíssima Rosa Mística do Céu, alegoria que será a chave destas considerações sobre a Beleza de Maria no conceito tradicional. Quando o Altíssimo se determinou a formar Maria diante do seu sólio aurifulgente apresentou-se uma formosa dama acompanhada de suas servas. E ela assim falou: “Ó Deus que eu adoro e canto, permiti que ofereça os meus humildes préstimos para a formação daquela que é a ansiedade dos povos; nada farei para embelezar a sua alma candíssima porque isto não está em meu poder, mas eu juro e comigo juram as minhas dedicadas servas que havemos de torná-la a rainha inigualável da formosura.

Eu derramarei no seu rosto o encanto duma simplicidade, duma majestade ternura tal como jamais se verá; hei de compor tão bem o seu olhar, as suas palavras, os seus gestos, que ela será um modelo perfeito e admirável; ao vê-la todos hão de exclamar: esta mulher merece em verdade ser a imperatriz do mundo, a rainha triunfante dos céus. Era a natureza que assim falava, cortejada pelas influências e causas naturais. Falava ainda a poderosa princesa, quando se adiantou uma outra dama que tinha o ar e o porte duma verdadeira rainha.

Deslumbrante séquito a rodeava. Era a Graça. Ela desejava rematar esplendidamente a obra-prima do Criador. Por ela falou a sua irmã — a Sabedoria — implorando ao Onipotente o favor da concessão. E foi assim que dos prodígios da natureza e da graça brotou a rosa branca e virginal que Deus criou para o enlevo do céu e êxtase da terra”.

A alegoria do religioso chanceler coroa magnificamente a prova testemunhal do conceito de tradição da beleza mariana. Diz Santo Agostinho, que as palavras são vasos de ouro que contém o licor do pensamento. O licor do pensamento tradicional é finíssimo, mas eu lamento profundamente que as minhas desluzidas palavras não tenham sido essas taças de ouro para a libação de tão precioso néctar.

 

Conceito Litúrgico

Não é infrutífero o labor de quem escava as entranhas ricas duma mina. Não é! Não é improfícuo o mourejar de sol a sol do nosso lavrador a abrir nos seios da terra virgem sulcos para o plantio. O seu suor não é como a gota de suor de Buda guardada num templo da Coréia, suor que esteriliza, diz a lenda, a vegetação circunjacente.

Não, o suor do trabalho fecundo é germe, é arbusto, é árvore, é fruto, é flor e, mais tarde, pão e vida. Eu também me fiz de mineiro e fui buscar lá nas antigas liturgias o ouro precioso de uma confirmação em favor do meu asserto; fiz-me de solerte lavrador e abri o sulco nesse terreno opulento do ritual cristão, não para plantar mas para descobrir entre os esplendidos tesouros joias de preço real para prestar homenagem à fascinante beleza externa de Maria. E podia dizer como Arquimedes: “Eu achei”. Na verdade, achei. Ouvi, senhores. Não há aqui lugar nem há tempo para uma dissertação profunda sobre tão importante estudo. Limitar-me-ei a uma singela exposição. As pinturas das catacumbas e as imagens são o que se chama a Liturgia muda.

Mas deixá-la-ei para algumas considerações que dizem respeito à arqueologia e à iconografia mariana. Agora apenas uma ligeira síntese dessas pérolas espalhadas na liturgia marial de todos os tempos porque o culto de Maria tem as suas origens na idade apostólica, para não dizer que é eterno como Deus. [11]A liturgia grega canta assim: “justos alegrai-vos; regozijai-vos, ó céus; exultai, ó montes; o Cristo nasceu; a Virgem está sentada semelhante a um querubim... E mais: Ó vós que sois o brilhante palácio do Senhor, como vindes num miserável estábulo dar ao mundo o Rei, o Senhor encarnado por nós, ó Virgem toda santa esposa do grande Deus? ” “Salve, Virgem Mãe de Deus, exclama a Liturgia Abissínia, Vós sois o turíbulo de ouro que trazeis o carvão de fogo, o verbo encarnado...”

O rito Moçárabe é deste modo que celebra a Virgem Santíssima. “É a lâmpada que o Espírito acendeu e em que fez aparecer a verdadeira Luz”. Ouvi algumas estrofes escolhidas desta encantadora sequência:

 

Salve, Mater Salvatoris,

Vas electum, vas honoris,

Vas caeleste gratiae.

 

E na décima e undécima estrofes:

 

Tu caelestis paradisus,

Libanusque non incisus,

Vaporans dulcedinem.

 

Tu candoris et decoris...

Tu dulcoris et odoris,

Habes plenitudinem.

 

Que encanto! Tu tens toda a beleza, a plenitude — habes plenitudinem.

A décima sexta nos pode dar um excelente coronal:

 

Sol, luna lucidior,

Et luna sideribus,

Sic Maria dignior

Creaturis ormnibus.[12]

 

E quantas vezes tendes repetido no Breviário ou no Ofício parvo aquela antiguíssima antífona:

 

Ave Regina coelurum,

Ave Domina angelorum.

 

Virgem gloriosa que a todos venceis em beleza — Super omnes speciosa. A Deus, ó Soberana da Beleza, reza a Cristo por nós:

 

Vale, o valde decora,

Et pro nobis Christum exora.

 

A hinologia, o antifonário, prosas e ladainhas, Missas e Ofícios, nos forneceriam as expressões mais poéticas da Beleza de Maria, num religioso lirismo de encantar.

Como podeis ver, é impossível a Liturgia mariana em todas as suas surpreendentes manifestações. Mas, para exemplo, tomai o Breviário ou o Missal.

Abri-os: 15 de agosto. Muito bem! É a festa de hoje — A Assunção de Maria.

Ofício vesperal. Cantaste-lo há pouco. Última antífona: tu es bela e formosa, ó filha de Jerusalém. Antífona ad magnificat: “Ó Virgem Prudentíssima para onde tu te elevas como uma aurora rutilante? ”

“Filha de Sião, toda formosa e meiga, tu és bela como a lua e brilhante como o sol”. Que quereis mais? Lede as lições do primeiro noturno: “Eu sou negra, mas sou formosa, ó filhas de Jerusalém, como os tabernáculos de Cedar... Tu és bela — os teus olhos são como os da pomba”.

E assim a Liturgia vai aplicando à figura angélica da Virgem todo o fulgor dos tropos bíblicos e das eloquentíssimas palavras dos Padres da Igreja, cujo testemunho em favor da Beleza exterior da Imperatriz Celeste é tão claro e peremptório. Aqui poderiam objetar dizendo que o senso litúrgico se refere à maravilha de sua alma sobrenatural e não à formosura corporal.

Bem que em muitas das citações vê-se claramente compreendida esta beleza e máxime na festividade da Assunção, em que se celebra a miraculosa subida de Maria ao Céu, corpo e alma, como se pode ainda responder dizendo que a Liturgia canta uma plenitude de Beleza, que não é estranha ao sentido bíblico, à tradição e ao bom senso que sobre tal ponto não hesita. E, para concluir essas modestíssimas reflexões sobre a Liturgia mariana, recordemos a bela e encantadora Ave-Maria em que está o completo panegírico de nossa celestial e carinhosa Mãe: cheia de graça.

No mês de maio entre todas as flores realça a Rosa — símbolo místico — Beleza sobre-humana que maio em flores saúda, como canta harmoniosamente a musa italiana na peregrina música do verso:

 

Te del Signore piccoletta ancella

Sorrisa de um gentil nimbo d’amore,

Saluta com l’angelica favelia

Il dolce maggio in fiore:

 

Saluta l’aria deliziosa e plena

Di profumi, di canti, d’armonia,

E la balza fiorita e la serena

Convalle: Ave Maria.

 

E il bosco fondo mormorante a’ venti,

E la collina aprica e solatia

Sprigionano d’omaggio umili accenti

A Te, dolce Maria.[13]

 

Conceito Teológico

Dizem, meus senhores, que o Nemrod apresentou, um dia, três urnas fechadas aos três filhos. Os escravos seguravam-nas.

Ao seu primogênito disse o rei: “Escolhe meu filho, a urna que te parece conter maior tesouro”. O príncipe escolheu uma que era de ouro, na qual havia a palavra — Império. Abriu-a e estava cheia de sangue. Nemrod dirigiu-se ao segundo filho e disse: “Toma também uma delas e abre-a”. O mancebo obedeceu e na sua urna de âmbar tinham gravado — Glória.

Nela estavam guardadas as cinzas dos grandes da terra. “Filho meu, falou o monarca ao terceiro, toma a urna de barro e abre tu também”. Ele abriu-a; estava vazia, mas no fundo se via escrita esta palavra: Deus.

Qual das urnas vale mais? perguntou o rei. Os ambiciosos disseram que era a de ouro; os poetas e conquistadores que era a de âmbar; os sábios responderam que era a de barro, vazia porque uma só letra do nome de Deus valia mais que o globo da terra.

Pois bem, meus senhores, por mais humilde que seja o barro humano, por mais frágil que seja a estátua de argila em cuja fronte o Eterno acendeu os lumes da razão, esse barro que vive, que sente e pensa, torna-se maior que a sua própria natureza, quando em seus misteriosos abismos, a Fé gravou indelével o nome sacrossanto da Divindade. O seu coração é o santuário de Deus, de conformidade com a palavra do Apóstolo: toda a edificação construída em Cristo cresce como um templo consagrado ao Senhor — sanctum in Domino.

Sobre os escombros dos ídolos antigos erguem-se os altares do Deus vivo, sobrenaturalmente iluminados. Pois bem, meus senhores, Maria é o tabernáculo por excelência do Altíssimo, tabernáculo debaixo de cujo pavilhão Deus habitaria não espiritualmente, mas ainda corporalmente.

Digo mais: o Corpo de Deus humanado, templo augusto, tiraria a sua matéria da preciosa matéria do corpo de Maria, santuário divino.

Senhores, os templos materiais dedicados à glória de Deus, ostentam e devem ostentar na sua fisionomia arquitetural uma beleza, uma feição estética admirável, eles que são destinados à suprema Beleza-Deus.

Que dizer da formosura da decoração externa do mais digno, do mais grandioso dos templos divinos?

O Artista excelso não se deixou vencer pelos artistas humanos e de Maria fez a sua obra-prima de sua divina Arte. As afirmações teológico-racionais ou melhor, a razão teológica robustece desse modo os dados fornecidos pela Bíblia, pela Tradição e pela Liturgia.

Eu quisera dispor de mais tempo e traria à tela desta modesta discussão muitos outros argumentos. Limitar-me-ei a apresentar mais um que não poderei desenvolver completamente.

Há uma lei fisiológica que determina a reprodução dos tipos: a lei chamada hereditariedade. A hereditariedade e a verificação da “lei pela qual, diz Mercier, o ser vivo possui um princípio de finalidade imanente, em virtude do qual tende naturalmente à formação, à conservação, à reprodução dum tipo determinado”. Em virtude desta lei herda-se não somente o caráter da espécie, mas ainda se transmite os caracteres individuais.

Baseados nessa lei, procuram certos filósofos destruir o livre arbítrio sustentando que o vício e a virtude são heranças.

Nada mais falso em psicologia, porque o vício e a virtude — não são produtos materiais. Em virtude do fenômeno hereditário dá-se algumas vezes retrocesso nos tipos dos avós, o que se chama atavismo.

A fortiori, o tipo imediato imprime os seus caracteres físicos. Daí a lei ordinária que os pais são semelhantes aos filhos e vice-versa. E ainda mais o sexo masculino, é o ensino dos autores e uma coisa vulgar, reproduz ordinariamente as feições maternais: filii matrizant.

Ora, meus senhores, Jesus Cristo é o mais belo dos homens — speciosus prae filiis hominum; é o filho de Maria. Logo Maria de quem Jesus, como Filho, reproduz as lindíssimas feições, foi ornada das galas de uma formosura sem rival.

A lei supramencionada admite exceções; aqui, porém, não se verificam, porque em Maria, segundo ensina um autor, a semelhança entre o Filho e a Mãe deve ser mais acabada em virtude da ação do Espírito Santo, que não podia ser perturbada pela causalidade de influências subalternas.

A razão teológica une, pois, a sua nota vibrante ao hino universal em honra da beleza daquela de quem cantou Leão XIII na inspirada poesia — Prece à Virgem:

 

Maria Dulce melos dicere mater ave:

Dicere Dulce melos, ó pia Mater ave,

Tu mihi delicia, spes bona, castus amor,

Rebus in adversis tu mihi praesidium.

 

Senhores, perdoai a tirania de minhas palavras e vinde contemplar comigo a Beleza de Maria no conceito artístico.

Sob este ponto de vista um novo horizonte de considerações descortina-se à visão de nossa alma embebida neste esplendor sobre-humano que nimba a figura doce, meiga, imaculada da Rainha do Céu.

 

Conceito Artístico

A arte, meus senhores, é a encarnação do ideal. Filho das visões do espírito, o ideal projeta sobre a obra de arte um raio de sublime concepção. Com razão disse Castelein: “A obra de arte deve ser original, harmoniosa, evocadora do ideal”.[14] O Belo criado, que a arte auxiliada pela ideia luminosa, genial e pelas formas concretas e sensíveis da imaginação, procura traduzir e encarna, é um reflexo do ideal Supremo.

É o que disse Kant: “O belo é um reflexo do infinito sobre o finito: é Deus entrevisto”

O Eterno fez as coisas como expressões do seu ser, de sua bondade, de sua beleza essencial, de suas perfeições; elas são o espelho da Divindade. Ora os seres exprimem as perfeições divinas segundo o grau de sua perfeição material; são espelhos mais ou menos luminosos e perfeitos.

Pois bem, meus senhores, os artistas cristãos conceberam um ideal grandioso e sublime da beleza de Maria, considerando-a como a obra prima das mãos do artista divino, feitura plástica, perfeitíssima do poder do Criador. E como o ideal se materializa na forma sensível, eles procuravam imprimir nos tipos de arte mariana — uma perfeição estética inigualável.

Não foi somente pelas prerrogativas espirituais, que a Fé lhes mostrou em Maria, que eles a esculpiram, a cantaram sobrenaturalmente bela. “A voz da tradição e da sua razão lhes revelaram também a Virgem em todo o fulgor de sua formosura sensível. Nas criptas das catacumbas a arte primitiva cristã deixou as suas pinturas de Maria; e séculos afora a Virgem tem recebido as homenagens dos eleitos do gênio artístico. Como não admitir essas magníficas Madonas de Rafael, de Vinci, em sua “Santa Família”, de Fra Angélico; a “Assunção” do Ticiano e a de Murilo? O gênio arrematado pela fascinação do ideal, sentiu-se muitas vezes apoucado diante do sublime.

Eu cito um laureado orador:[15]

“Como traduzir estas maravilhas?

Ah! A obra é difícil, porque, como muito bem disse Dante, “a forma não se harmoniza sempre com as instruções da arte; porque a matéria é surda para responder”.

“Angélico de Fiesole derramou mais de uma vez lágrimas; Leonardo de Vinci quebrou os pincéis; Miguelangelo criticou as suas obras; grandes artistas se sentiram invadidos pela tristeza todas as vezes que tentaram representar a divina realeza do Cristo e as graças celestes de sua Mãe; e sobre as obras primas que nós admiramos hoje eles ousavam apenas lançar os seus olhares desanimados”

Que vos direi, senhores, da iconografia Mariana? Seria uma lista infindável a enumeração desses primores da estatuária e escultura dos mestres cristãos.

Os dicionários iconográficos nos fornecem um compte rendu minucioso das belezas de mármore e de gesso, que sorriem na própria insensibilidade da matéria, que, mudas, são duma eloquência que admira, dum encanto que seduz e hipnotiza o olhar.[16]

Vede, meus senhores, esta esplendida imagem da Virgem da Assunção, dádiva preciosa da generosidade do nosso venerando Prelado[17]. Vêde-a nesse belo monumento enfeitado de garridas flores. Não há um que de celeste e de divino na expressão de seu olhar, na peregrina formosura de suas faces cor de rosa? O artista arregaçou-lhe delicadamente o manto azul-celeste sobre a túnica de ouro. É só assim, meus senhores, que a arte pode conceber a Maria.

A numismática também quis render o seu respeito à Virgem inefável. Na exposição marial realizada no Palácio de Latrão a 26 de novembro de 1904, havia uma soberba coleção de 12 mil medalhas, sinetes e moedas de Maria, enviadas pelo Padre Corbiére de Saint Louis des Français.[18]

Quantas harmonias o anjo da arte divina tem atirado aos pés de Maria? Porventura a alma musical não tem sofrido os tormentos da inspiração para saudar a Beleza da Mãe de Deus?

Senhores, eu sou constrangido a resumir para não fatigar a vossa benevolente atenção. Mas, como esquecer os surtos do gênio da poesia, celebrando as graças da Rainha dos Anjos?

As liras de todos os povos com a tristeza dos seus trenos o com a vivacidade dos seus júbilos celebraram os encantos da Senhora.

Permita-me o autor[19] algumas de suas lindas estrofes, feitas à beira do túmulo: — In hora mortis:

 

Maria, dulce Signora,

eletta como il sole,

per cui il cielo s’infiora

di rose e di viole;

 

Maria, Vergine pura,

aurora sempiterna

alta piú che criatura

sui ciecli ove s’eterna

 

La Somma Sapienza;

vedi quant’é l’errore

che incombe e la demenza

che ci ottenebra il cuore!

 

Assim a poesia toma parte no harmonioso e universal congresso das artes em louvor da Virgem a quem a humanidade implora um olhar que, como diz o poeta espanhol, é:

 

Bello fulgor que al sacro Eden nos guia

Dulce Maria!

 

Para citar poesia nossa, da terra brasileira, ouvi como no Caramuru, S. Rita Durão descreve a formosura de Maria:

 

“Todos suspendem em pasmo respeitoso

O amável formosíssimo semblante;

E mais nele se ostenta poderoso

O soberano autor do céu brilhante:

Quanto a angélica luz de rutilante,

Quanto dos serafins o ardente incêndio,

De tudo aquele rosto era um compendio”

 

Meus senhores, na solenidade inaugural da exposição mariana em Roma, o Cardeal Ferrata, num discurso admirável sobre o tema “Maria foi a sublime inspiradora da arte cristã”, enunciou entre outros estes belos pensamentos: “Maria é o gênio mais fecundo, o ideal mais puro da arte cristã, desta arte que tem por objeto a harmonia da fé e da razão, do natural e do divino das maravilhas deste mundo e dos esplendores revelados”. Maria é bela como o sorriso de Deus, nela se encontram o sublime, o verdadeiro, o belo e o bem.

Falando de Rafael, disse estas palavras: “Ele pode ser chamado o pintor por excelência da Rainha do Céu. Das belas tradições da Escola de Umbria, do estudo dos mestres precedentes, mas sobretudo do seu coração, de seu gênio, de sua natureza tão delicada, o jovem artista tirou a inspiração que deu à fisionomia de Maria esta forma tão pura e bela, esta pose majestosa e atraente, esta expressão suave e venerável de Virgem e de Mãe, que nos arrebata e nos enche de amor como uma visão do paraíso”[20]

A Virgem, meus senhores, que tem recebido em todos os séculos tão brilhante consagração de sua real beleza parece dizer aos marechais da arte, na frase de Monsabré, estas palavras que o grande dominicano põe nos lábios virginais de Maria:

“Amantes da verdadeira beleza que procurais o divino na Criação, contemplai-me, pedi-me inspiração e conselhos: Eu sou o Senhor das Artes”[21]

O ideal artístico de Maria abraça o conjunto de todas as suas belezas espirituais e naturais, que o Artista exprime nas formas mais resplandecentes da matéria, porque não pode conceber que uma alma tão peregrina e celeste fosse a inquilina eterna duma moradia vulgar.

Permiti, senhores, que eu termine esta última parte de minha humilde conferencia com chave de ouro: é a homenagem de um príncipe da arte, da inteligência eleita de um grande poeta à Beleza de Maria.

É o primoroso soneto de Luís de Camões, orgulho imortal das duas pátrias que falam a Língua Portuguesa:

 

Para se enamorar do que criou

Te fez Deus, sacra Phenix, Virgem Pura.

Vede que tal seria essa feitura

 

Que para si o seu Feitor guardou.

 

No seu alto conceito te formou

Primeiro que a primeira criatura,

Para que única fosse a compostura,

Que de tão longo tempo se estudou.

 

Não sei se diga eu tudo quanto baste

Para exprimir as raras qualidades

Que quis criar em ti quem tu criaste.

 

És filha, Mãe e Esposa: e se alcançaste

Uma só, três tão altas dignidades,

Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.

 

Deo Gratias” é o grito que a vossa delicadeza acaba de sufocar.

Deo Gratias” também digo eu porque hei de levado até o Calvário a minha Cruz. Mas ainda, senhores, uma dose de paciência e eu desaparecerei daqui.

Não quero terminar sem levar os meus parabéns a essa mocidade levítica que tão filialmente festeja a subida gloriosa de sua Mãe ao país das eternas alegrias — O Céu.

Filhos de Maria, este vosso esforço vos honra em demasia e é uma segurança ao mesmo tempo que uma credencial junto ao trono da Mãe de Deus.

Nos prélios do vosso futuro apostolado, no campo aberto da batalha universal, haveis de recordar-vos, saudosos, destes momentos felizes, verdadeiros paraísos volantes na terra; haveis de recordar-vos, jovens (e com lágrimas nos olhos), e esta recordação por si só seria um bálsamo, porque, no vosso peito há de brotar a flor da esperança naquela que não se deixa vencer em amor, nem deixa homenagem sem recompensas!

Meus parabéns!

Eu li, senhores, que um saltimbanco assistia a uma grande festa em honra de Maria. Essa história que li numa revista francesa — Lectures pour tous, a encontrei mais[22] desenvolvida numa conferencia mariana do nosso ilustre e católico patrício o Sr. Conde de Afonso Celso. Diz ele que a imagem era da Virgem da Glória, das que tem o menino Jesus no braço.

Todos, ávidos de homenagear a Virgem, traziam, cada um a sua oferta. Este levava o lírio branco; esse o seu perfumoso incenso; aquele atirava flores; mais além na salva tiniam as moedas de ouro e de prata.

Só o nosso acrobata não se movia. Coitado! Era tão pobre o palhaço da feira! Mas ele se afligia muito.

 

Que poderei dar?

De súbito na sua alma de pobre e de simples, mas devoto de Maria, relampejou uma ideia. E ele disse com seus botões: “Eu sei fazer cabriolas, eu tenho os meus jogos. Quem sabe se ela não aceitará isto oferecendo-o de coração? É tão boa! ” E, rompendo o povo, aproximou-se do altar, estendeu um tapete no chão e começou a fazer toda a sorte de ginástica e de cambalhotas de sua arte diante do nicho.

Foi um escândalo. O povo gritava, quase o agarravam como um louco.

E ele, o bom saltimbanco, teimava. “Deixem-me, senhores. A intenção é que vale. Ao menos o menino há de gostar. As crianças gostam disso”

Consentiram, cheios de emoção. O pelotiqueiro, diz Afonso Celso, fez o que de mais fino contava o seu repertório.

E então, rezam as crônicas, houve um milagre. O Menino Jesus que estava nos braços da Virgem, sorriu, quase aplaudiu o acrobata.

O pelotiqueiro entusiasmado, oh! Se o tivésseis visto imaginai, senhores, fez prodígios de ginástica, empregando todas as forças possíveis.

Extenuado, esgotado, nadando em suor, ele rolou por terra. Coisa nunca vista!

O Menino sorria e a Mãe Celeste, sorrindo, desceu do altar, devagarinho, cheia de doçura, com nívea mão enxugou, com a ponta do manto cor do céu, a fronte suarenta do acrobata.

Senhores, eu sou como o saltimbanco da Virgem da Glória.

Não tinha vela, não tinha ouro, nem incenso, nem flores. Pobre como palhaço de feira, eu toquei a minha indigência.

Que oferenda lançar aos pés de minha Mãe?

Vi os meus irmãos com as mãos cheias de mimos e eu não os tinha.

Como o pelotiqueiro da lenda vim para aqui, ao pé do deslumbrante monumento, fazer o que sabia.

Não vos importuneis com as minhas peloticas sem arte e sem estilo, porque a intenção é que vale.

Se não mereço que a Virgem enxugue o meu suor, com a fimbria azul do marchetado véu, ao menos tenho a confiança de ir juntamente com os meus indulgentes ouvintes contemplar no Céu a Beleza deslumbrante de sua peregrina face.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

 


[1] Cf. Terrien Jourdain.

[2] Cf. Terrieu Jourdain. Escrip.

[3] Divina Comédia.

[4] Apud. Rev. S. Cruz.

[5] Cântico dos Cânticos.

[6] Apud. Noél.

[7] Cf. Terrien – Nicolas.

[8] Apud, Nicolas.

[9] Vid. Terrien, Jourdain.

[10] Apud. Jordain.

[11] Vid. Nicolas.

[12] Adam de S. Vitor.

[13] Leonardo Mascello, Foglie al vento.

[14] Psichologie.

[15] Monsabré

[16] Vid. Dicc. Iconographique, Migne.

[17] D. Luiz de Britto, Arcebispo de Olinda.

[18] Rome, revue.

[19] Ver. P. Mascello

[20] Apud. Revue Rome.

[21] Discurs et Panegiriques.

[22] Apud. Rev. S. Cruz

O reinado social de Cristo no Brasil pela Eucaristia

D. José Pereira Alves

Conferência realizada em Buenos Aires

 

O nosso Brasil é uma pátria eucarística. Deus lhe concedeu essa predestinação histórica. A sua vocação cristã não foi apenas assinalada pela cruz erguida na terra virgem. Nas mãos de Frei Henrique de Coimbra, sob a verde umbela da mata rumorosa e selvagem, na primeira Missa da descoberta, a hóstia divina pairou como uma bandeira viva de Cristo proclamando a posse sagrada do território. Nosso Senhor armava na região desconhecida o seu pavilhão eucarístico. Alçava o pendão de sua realeza. O Brasil recebia o seu batismo na pia do altar. Desde aquele instante supremo seria o país do Coração Eucarístico, o Tabor do S. S. Sacramento.

A sua configuração geográfica seria quase a forma de um coração.

Cruzes e corações se encontrariam incrustados nos exemplares de sua flora e nas estrelas do céu. Deus o escolhera para ser o soldado do seu tabernáculo e arauto do Rei de Amor.

O culto da Eucaristia se irradiou por toda a nacionalidade com a aurora profética da primeira Missa.

O Cristo prometia a si mesmo operar uma nova transfiguração.

O Brasil se transfiguraria pela adoração e pelo amor da Hóstia Santa numa apoteose perene ao Cristo, Rei das nações que Ele recebeu em herança. Estão aí presentes em toda a sua visibilidade histórica os documentos desta fé eucarística que produziu, em nossa terra e sociedade, o milagre de uma unidade espiritual que serve de base indestrutível à unidade geográfica, racial e social de todo o nosso imenso país.

São os monumentos, as igrejas eretas desde o período colonial para a glória da Eucaristia. Há capitais, como Recife, em que as matrizes primeiras foram dedicadas ao S. S. Sacramento. Nas menores paróquias eram reservadas capelas especiais e mais ricas, as capelas do Santíssimo. O ouro, a prata, pedras preciosas enriquecem e constelam cálices, ostensórios, sacrários, altares, candelabros, lampadários-trabalhos riquíssimos de ourivesaria de talha, estatuária-primores de uma velha arte, saturada de inspiração religiosa e de piedade eucarística.

As belas artes se encontraram em piedoso rendez-vous para perpetuarem, através do tempo, a imortalidade da devoção nacional ao Deus velado no silêncio augusto da vida eucarística.

Em palanquins dourados ia o Viático, escoltado e seguido de multidão devota, aos moribundos ou sob umbelas vermelhas, o sacerdote a pé ou a cavalo, conduzia o Pai Nosso, como o povo ainda chama com ternura, ao Senhor, pelas fazendas, sítios agrestes, lugares rurais.

As festas do S. S. Sacramento sempre foram no Brasil custeadas por inúmeras confrarias e irmandades e pelo povo, festas excepcionais pelo esplendor do culto, pela afluência extraordinária, pelas procissões esplêndidas e triunfais, sempre coroadas por soleníssimo Te Deum.

E tão tradicionais o foram que municipalidades, como a Edilidade de S. Salvador da Baia, conservaram como uma honra celebrar com pompa, às expensas públicas, as solenidades do Corpo de Deus, mesmo depois da separação da Igreja do Estado. Tanto é verdade que a Nação só a contragosto se via oficialmente longe do altar!

Todas essas manifestações eloquentes do culto externo eram e ainda são expressões altissonantes do sentimento profundo dos brasileiros em relação à Sagrada Eucaristia.

Com a devoção à Virgem Santíssima da Conceição freme no sangue, na alma da raça, o amor crescente ao S. S. Sacramento, herança dos mártires.

Para citarmos apenas uma lembrança dos tempos da colônia, evoquemos tão somente o sangue do horrível morticínio de 3 de outubro de 1645 em Urussú, Estado do Rio Grande do Norte, em que os heróis da fé no Senhor Sacramentado eram trucidados e morriam gritando: “Louvado seja o S. S. Sacramento! ” Crônicas antigas nos falam da música celeste dos aromas do incenso e da conservação maravilhosa dos corpos dos cristãos, vítimas imoladas pelo furor herético e pagão, sementes eucarísticas de uma grande cristandade, consagrada ao Divino Coração Eucarístico.

Regada por um sangue tão generoso, cultivada com toda a solicitude pela ação missionária de Portugal bandeirante e católico, a árvore nacional não podia deixar de crescer, frondejar e produzir os mais abundantes frutos de vida eucarística, transformando o Brasil, como é hoje, um imenso altar do Coração Eucarístico.

A todas aquelas aparatosas manifestações do culto eucarístico de que tivemos ocasião de evocar, correspondiam já desde a época colonial o espírito de adoração eucarística, a oração do tabernáculo, a ascensão de almas, vítimas de amor. Já em 1750, um filho do nordeste brasileiro, o alagoano Felix da Costa, varão de grandes virtudes, fundava o Santuário Eucarístico de Macaúbas, hoje na Arquidiocese de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, recolhimento de religiosas clausuradas, consagradas à adoração do S. S. Sacramento, nesse laus perene brasileiro que é uma glória secular da nossa vida católica. É aí que o Cristo Redentor e Salvador, adorado e amado por almas virgens, simples e abrasadas de amor, recebia o beijo silencioso e a súplica incessante da alma cristianíssima da Pátria.

Desse cimo espiritual desceria a Benção eucarística da renovação social da nossa terra como uma aurora das apoteoses nacionais ao S. S. Sacramento.

Com o despertar religioso provocado pelo grito libertador da seráfica e heroica figura de D. Frei Vital Maria de Oliveira, com o rejuvenescimento das ordens religiosas e dos seminários e renascimento da vida paroquial, a organização da catequese infantil e a fundação de associações católicas, imunes da contaminação maçônica, a vida eucarística nacional começou a tomar um desenvolvimento prodigioso que se tornou universal e profundo em todo o país, graças especialmente à instituição providencial do Apostolado da Oração, que popularizou e intensificou com a Missa da primeiras sextas-feiras, a adoração solene e as comunhões reparadoras, à Devoção ao Sagrado Coração de Jesus e deu a todas as suas festas um cunho altamente eucarístico. O povo brasileiro, em décadas sucessivas, ficou saturado de amor pelo Coração Divino que nos deu o presente supremo da Eucaristia.

Pois bem, essa saturação eucarística, ao impulso vigoroso da hierarquia, guiada por esse bispo providencial — o Bispo da Eucaristia —, como o chama o povo, que é o nosso querido Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, essa saturação de amor transbordou na vida pública e social do Brasil, como uma torrente restauradora da consciência, mesmo política, da nossa pátria cristã. Os grandes Congressos Eucarísticos, como o de São Paulo em 1915, o inesquecível Congresso Nacional do Centenário, em 1922, e o recente e extraordinário Congresso Eucarístico Nacional de S. Salvador da Bahia, promovido com enorme brilho pelo Exmo., Primaz do Brasil e presidido pelo Eminentíssimo Legado Pontifício, o Sr. Cardeal Dom Sebastião Leme, tem sido no Brasil verdadeiros “pentecostes” de graças e retumbantes e profundos plebiscitos de amor ao Deus escondido, à Hóstia Divina dos nossos altares.

As semanas eucarísticas se sucedem em todas as dioceses com uma intensa repercussão espiritual. Hoje, pode dizer-se que não há solenidade, semana católica ou congresso que não culmine numa afirmação de fé na Eucaristia.

Esse movimento ascensional para o sacrário arrastou e arrasta multidões nos retiros, nas missões populares, é a alma das organizações paroquiais e se constitui sangue de toda a circulação religiosa brasileira.

As Horas Santas são hoje ansiosamente frequentadas pelo povo nas mais modestas paróquias do interior e, em muitos lugares, inúmeras velas, símbolos de favores alcançados estrelam as noites eucarísticas.

As classes superiores foram também dominadas pelo Cristo do tabernáculo. Nas capitais e cidades importantes, sobretudo na metrópole do Rio de Janeiro, num crescente edificante, centenas de intelectuais, homens de cultura geral e especializada, professores eminentes e estudantes das Escolas Superiores se aproximam da mesa da Santa Comunhão: é a Páscoa da inteligência.

As classes armadas, em verdadeira parada de fé, depõem cada ano suas espadas aos pés do altar do Cordeiro e em linhas de paz e de amor bebem a força, a coragem e o sacrifício no cálice eucarístico da redenção.

Essas páscoas benditas se renovam em vários setores da vida social, da vida brasileira. É um movimento consolador.

S. Eminência, o Sr. Cardeal D. Sebastião Leme pondo uma cúpula monumental sobre estas colunas erguidas pelo espírito nacional criou a corte suprema do Rei do amor: A Adoração Perpétua Nacional, no templo de Santana. E já hoje na Bahia e em São Paulo se instalam outras cortes perpétuas, em que é adorado e servido o Divino Senhor dos corações.

Diante desse panorama eucarístico não há senão exclamar: Cristo reina na sociedade brasileira pela Eucaristia.

A Eucaristia é a chave do nosso progresso na hierarquia, pela multiplicação rápida de nossas dioceses e pelo esplendor e fecundidade de nosso cardinalato, cuja púrpura é o cérebro de nossa irradiação espiritual, e nossa ação católica é o segredo de nossa expansão de vida interior e sobrenatural, não só em nossas comunidades religiosas, seminários e colégios, mas na floração exuberante de nossos grupos católicos na rede, hoje, tão alargada de nossas associações e obras de interesse espiritual, na coordenação de todos os valores da Santa Igreja no Brasil. É ela ainda que anima, encoraja e informa o esforço de tantos católicos que pelejam pelo Reino de Cristo com as armas da luz e da inteligência, da palavra e da pena, da ação cultural e do rádio.

Na sua tese recente sobre LES RENOUVEAU RELIGIEUX D’APRÉS LE ROMAN FRANÇAIS, Mme. Elisabete M. Frazer oferece uma contribuição importante ao estudo desse fenômeno contemporâneo que é o ressurgimento católico da mentalidade cultural.

Já hoje a Religião não é apenas considerada como uma organização social admirável, uma força de disciplina humana. Ela surge no romance, na literatura, com um aspecto do mistério e do sobrenatural.

A guerra fez a humanidade pensar no além diante das ruínas acumuladas nessa horrível tragédia da História.

Esse renascimento mundial do pensamento religioso não podia deixar de ter extensa repercussão na sociedade brasileira. Encontrou felizmente o movimento católico desencadeado pela Igreja nas massas e nas elites sob a forma providencial da ação eucarística no indivíduo, na família, nos grupos organizados e nas multidões pelas grandiosas manifestações de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo no S. S. Sacramento.

Os homens católicos de pensamento, a mocidade católica que estuda e os expoentes de várias classes sociais são hoje sentinelas do Sacrário e apóstolos da Realeza Eucarística de Jesus.

Foi assim que se preparou esse magnífico estado d’alma que nos permitiu a vitória apolítica, consagrando a Constituição de 16 de julho, arejada de espírito cristão, que pôs a sua confiança em Deus, nos deu o Ensino Religioso, o Matrimônio indissolúvel, a assistência às Forças Armadas, o serviço militar eclesiástico sob a forma hospitalar, e criou no Direito Internacional o princípio novo da colaboração da Igreja e do Estado, apesar da separação; em suma, consagrou as aspirações cristãs da Liga Eleitoral Católica, constituída pelo Episcopado Nacional com um caráter supra e extra partidário, visando apenas o Reinado Social do Rei do Amor, na pátria brasileira.

Cristo reina e reinará no Brasil.

Cumpre-nos, a nós, soldados de Cristo, defender por todas as formas da Ação Católica, conservar o patrimônio eucarístico da pátria pela educação eucarística da nossa infância no lar, no templo, na escola, pela formação eucarística de nossa mocidade, pela penetração eucarística cada vez mais profunda da mentalidade nacional.

No obelisco de São Pedro se leem estas esplêndidas palavras de Sisto V: Cristus vincit, regnat, imperat, ab omni malo plebem suam defendat.

Já não será nos granitos do Corcovado, mas no Coração vivo da Pátria Eucaristica que escreveremos aquelas palavras: Cristo vence, reina e impera, defende de todo o mal o seu Brasil.

Desta gloriosa e hospitaleira Argentina, Grande Dama-Nobre de Cristo, transformada nestes dias magníficos na Metrópole Eucarística da Cristandade, no Ostensório do mundo, voltaremos incendidos da Divina Caridade, com a bênção maternal da Virgem de Lujan, Padroeira do Congresso, e apaixonados pela salvação de nossa pátria, iremos realizar no Brasil os votos paternais do grande pontífice Pio XI, expressos no último telegrama ao Presidente Justo: conseguir que o Evangelho de Cristo seja a inspiração na vida de todos os povos de maneira que todos possam gozar dos benefícios da paz e da Civilização cristã.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

A Eucaristia na história da Igreja

Conferência de D. José Pereira Alves pronunciada no

 Congresso Eucarístico do Centenário, no Rio de Janeiro

 

 

Taine conta que um dia procurou o Superior de uma ordem religiosa de Paris, e lhe perguntou: “Por quê? Não faz ainda um século que a Revolução Francesa destruiu todas as ordens religiosas. Por quê? Não faz ainda um século e a França tem mais de 160.000 religiosas e religiosos. Qual o segredo dessa vitória? Qual o princípio de ação e utilidade que explica essa maravilha? ”

O Superior respondeu-lhe: “Acompanhai-me”. Taine seguiu-o. Ele conduziu o escritor à capela e disse-lhe: “Está ali naquele sacrário, naquela hóstia, o segredo do nosso triunfo”.

O grande escritor continuou a fazer as suas pesquisas e, depois de algum tempo escreveu estas palavras: “A fé na Eucaristia é, incontestavelmente, o par de asas que ergue a humanidade do seu lodo e a atira às regiões do devotamento e do amor. Se há alguma salvação para a sociedade, sem dúvida essa salvação está lá”.

Sim, minhas senhoras e meus senhores, a salvação está lá, na hóstia, na hóstia cuja função histórica e divina foi manter a Igreja Católica na sua unidade, na sua santidade, na sua catolicidade, no seu caráter apostólico.

O Tabernáculo é a barquinha de Jesus. Se o furacão acorda nas entranhas do oceano, a humanidade poderá gritar confiante: Domine! Senhor! Salvai-nos, senão perecemos!

Mas agora, diz eminente sacerdote, não são simplesmente os ventos mansos de Tiberíades; são também os ventos selvagens do ódio, do capricho e do interesse que ameaçam o mundo. Jesus, desperta! Acorda, Jesus! Ergue-te, Jesus! Abre a porta deste sacrário e apresenta-te ao mundo de pé e terrível! Faze o teu largo gesto e aplaca as ondas, serena as tempestades.

Senhores, o Congresso Nacional do Brasil é esse clamor agoniado de tantas almas e de tantos espíritos. O Congresso Nacional é o brado do nosso Brasil gigante, ajoelhado junto à hóstia de misericórdias para pedir perdão pelo pecado da nossa grande Pátria.

Minhas senhoras e meus senhores, já em 1864, venerável Padre dizia: “É preciso soltarmos a Jesus, não a Jesus em espírito, não a Jesus glorificado no céu, mas a Jesus no Tabernáculo; é preciso obriga-lo a sair do seu retiro e tornar à frente das nações cristãs que Ele pode dirigir e governar”.

Nós, católicos brasileiros, neste Congresso, queremos obrigar a Jesus a sair do Tabernáculo, e pôr-se à frente do Brasil para fazê-lo marchar, para fazê-lo marchar para a vitória, marchar para o céu, para Deus, do qual, como Nação, está tão deslembrado e esquecido.

Minhas senhoras, meus senhores: essas palavras são proféticas para o nosso Congresso Nacional Eucarístico. A cidade do Rio de Janeiro, como uma profetiza sublime, se debruça nesta noite memorável sobre seus montes seculares e atira aos ventos do Brasil a palavra incomparável que ouviu nesta Assembleia: “Cristo ou Morte! ”

Minhas senhoras, meus senhores: Olinda, Olinda senhoril, reclinada à sombra das palmeiras, a Veneza Americana, boiante sobre as águas remansadas do Capiberibe galante, Olinda e Recife respondem a esta palavra incomparável: “Cristo ou Morte! ” Como ela ecoa bem no nosso coração pernambucano! Sim! Cristo ou Morte!

Senhores, somos de uma terra de bravos que batalharam, não só pela Pátria, mas pela Fé! Somos de uma terra eucarística. As principais matrizes da nossa cidade são dedicadas às glórias de Jesus Eucarístico; somos de uma cidade que vibrou numa incomparável semana eucarística, na qual o povo e os sacerdotes choraram. Pois bem: Pernambuco eucarístico não pode deixar de aceitar estas palavras incomparáveis: Cristo ou Morte!

E eis-me, senhores, embaixador humilde da Arquidiocese de Olinda e Recife, inclinado diante da figura venerável deste filho querido dos nossos flancos, o primeiro cardeal da América do Sul. Inclino-me diante deste velho para beijar-lhe, reverente, a púrpura, em nome do Leão do Norte.

Fazendo-o, curvo-me, também reverente, diante da coroa magnífica dos príncipes brasileiros que vieram abrilhantar e abençoar o Primeiro Congresso Nacional do Brasil.

Trago o meu abraço fraterno a esse clero venerando, respeitável e respeitado, sob a orientação do nosso inesquecível Dom Sebastião, cujo zelo apostólico improvisou a beleza surpreendente desta festa magnífica.

Senhores, eu vos trago a saudação irmã da Arquidiocese de Olinda e Recife. A todos vós, congressistas, senhoras e senhores, a saudação do povo pernambucano. Aceitai-a. É a saudação de um povo irmão! Trago-vos o ósculo fraterno daquelas praias alvas e quentes, o ósculo fraterno dessa amizade indissolúvel que há de cimentar para sempre a integridade nacional, pela qual os pernambucanos derramaram o seu sangue — seu sangue não somente — o sangue de suas próprias esposas.

Senhores, diante desta Assembleia tão venerável, deveria apoucar-me; diante desta Assembleia em que refulgem a mentalidade católica do Brasil e a graça apostólica da mulher brasileira, eu deveria apoucar-me. Mas, bem ao contrário, sinto-me cheio de coragem, porque me sinto cheio de confiança em vós, no coração da vossa cidade. Quero dizer: o vosso coração se me afigura uma taça palpitante, estuante de amor e de carinho.

Permiti-me, pois, que eu, humilde pétala arrancada pelas lufadas do Norte, possa boiar tranquilamente sobre a bondade carinhosa de vossos corações.

 

A EUCARISTIA NA HISTÓRIA DA IGREJA

 

São quatro as leis essenciais que determinam e distinguem a Igreja — as leis de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam, creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Os grandes e profundos espíritos tendem à unidade, não é novo. Só é verdadeiramente sábio aquele cuja inteligência conseguiu construir poderosas sínteses, reduzir fatos ou fenômenos a leis ou princípios supremos.

Só é verdadeiramente grande poeta aquele que pode em versos esplêndidos encerrar uma ideia máxima e fecunda, ideia mater e diretora de todos os surtos e ímpetos do gênio.

Grande cabo de guerra, general da vitória, só aquele que teve o talento de saber unir e organizar batalhões inteiros em ordem de peleja com olhos postos na ideia comum — a Pátria — flutuante nos trapos gloriosos da bandeira.

É assim que se tem escrito e divulgado. Pois bem! Jesus Cristo, meus senhores, não foi simplesmente um grande espírito, um pensador arguto, um incomparável artista, o marechal da vanguarda divina. Jesus Cristo é Deus. É sábio e infinito, e sublime bardo da epopeia cristã e glorioso Leão de Israel; Jesus Cristo marcou a fronte da sua obra divina, poema do seu amor e troféu imorredouro, com o selo eterno da unidade.

A Igreja de Cristo é una. Por esta lei de unidade que esplende na sua fronte nobremente erguida, só ela produziu e produz a unidade dos espíritos. Que semearam os sistemas e as filosofias? A anarquia mental. Que tem feito a política e a violência? Cavar um abismo no seio das almas. Jesus Cristo fundou uma sociedade espiritual que impôs aos espíritos mais diferentes uma só fé e uma só lei, com uma força de convicção irresistível. Senhores, aí está a marca do divino. Esta unidade resulta da sua doutrina imutável. Espalhou por todas as inteligências ideias graníticas, eternas, mas cheias de vitalidade e de energias prodigiosas, ideias fundamentais e comuns, únicas capazes de criar uma perseverança intelectual até o sacrifício e a morte.

Os séculos invejosos dessa glória, disse Lacordaire, vieram bater à porta do Vaticano, bateram com o coturno ou com a bota; saiu a doutrina sob a figura frágil e gasta de algum septuagenário e disse: “Que me quereis? — Mudança. Mas eu não mudo. — Mas tudo mudou no mundo. A astronomia mudou, a química mudou, a filosofia mudou, o império mudou. Porque sois sempre a mesma? — Porque eu venho de Deus e Deus é sempre o mesmo. — Mas pensai: somos os senhores, temos em armas um milhão de homens, puxaremos da espada, a espada que esfacela os tronos, também pode decepar a cabeça de um velho e rasgar as folhas de um livro. — Podeis fazê-lo, o sangue é o aroma em que sempre encontrei a minha juventude. — Pois bem, eis aqui a metade da minha púrpura, fazei um sacrifício à paz e dividamos. — Guarda a tua púrpura, César, amanhã será a tua mortalha e nós cantaremos sobre ti o Aleluia e o De Profundis que nunca mudam! ”

Senhores, a Igreja não pode mudar, deixaria de ser una, de ser verdadeira, porque a verdade é fundamental e essencialmente una e imutável na realização de sua finalidade histórica, a Igreja manteve integrais os seus gloriosos caracteres de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade, sem os quais não seria no mundo reconhecida como a verdadeira Esposa do Cristo.

E na verdade, senhores, a santidade é o seu manto de sol. “Vi um grande sinal no céu. Uma mulher vestida de sol”. As virtudes irradiam do seu misterioso ser e, quando a franja iluminada de sua régia veste roçou pela fronte do mundo, o gênero humano sentiu uma virtude estranha, uma força ignorada e extraordinária que começou a renovar a face da terra. Et renovabis faciem terrae.

Uma floração de anjos e de crucificados cobriu os desertos da sociedade, inebriando-os com o aroma de sua inocência e o suave odor dos seus sacrifícios. Pentecostes inaugurava no mundo os milagres da graça. A grande benção do Espírito de Deus pairou sobre o oceano misterioso das almas — Spiritus Dei ferebatur super aquas. A vida sobrenatural jorrava dos penedos sagrados do Gólgota ao contato da Cruz — o cajado do novo Moisés. Nos séculos mais negros da história eclesiástica, em que Deus parecia demonstrar que a fé não depende nem da ciência nem da probidade dos homens, nesses séculos atrozes, a santidade da Igreja surgiu, como uma estrela esplendidamente luminosa, de todos os eclipses morais que encheram de sombras as cúpulas sagradas.

E o fenômeno católico nesta Igreja una e santa, através da História se acentuou tanto e por tal forma que o nome de Católica lhe ficou como o seu designativo especial e incomunicável desde os primeiros séculos. A Igreja contém em si, na sua constituição íntima, na sua essência; uma irreprimível força expansível. Esta força é como uma projeção da verdade cristã que Jesus Cristo trouxe para toda a humanidade. A expansão da Igreja é católica, isto é: universal por destino, por lei, pela vontade imperativa do Divino Mestre — Praedicate Evangelium omni creaturae. Compreende-se bem como a doutrina do Evangelho é naturalmente cosmopolita e democrática. A sua realeza intelectual é a realeza do povo: é grande demais para ficar encerrada no salão dos magnatas ou argentários.

E essa Igreja, depositária dessa energia miraculosa, galgou as montanhas, vadeou os rios, atravessou os mares, conquistou o universo, consolidou a sua soberania nas coisas e nos espíritos. A sua bandeira recebe o beijo de todos os ventos, e o seu chefe, assentado há vinte séculos sobre um solitário rochedo, açoitado de vez em quando pelo tufão, dá leis a todos os povos, dentro de fronteiras de nações soberanas, estabelece a sua hierarquia, a sua legislação, a sua política e os seus tribunais, e ninguém, senhores, ninguém ousa deter-lhe o braço desarmado de Soberano e Pastor.

Hoje, depois de tantos séculos de lágrimas e vitórias, contemplando essa visão branca que fala a mesma verdade de vinte séculos, que semeia na terra as mesmas sementes de graça e de forças, de abnegações e sacrifícios — as mesmas de outrora — contemplando este ancião da Nova Lei que conserva sobre a fronte enrugada o triregno imortal — a tríplice coroa da universalidade cristã, vós, senhores, vós todos, tomados do respeito que as coisas verdadeiras e divinas inspiram, vós podereis dizer: A Igreja una, santa, católica é a Igreja apostólica; descende desta dinastia popular de pescadores que, revolucionando o mundo, foram os apóstolos e os fundadores da Civilização Cristã, os pregadores de um dogma e uma moral integrados no Magistério infalível da Igreja Católica. Et unam sanctam catholicam et apostolicam Ecclesiam. A finalidade histórica da Igreja una, santa, católica, apostólica era conservar essa mesma unidade, essa mesma santidade, essa mesma apostolicidade, impressa na sua fronte por Jesus Cristo para salvação do homem. E eu vos pergunto: Por que a Igreja, na sua evolução histórica, não aberrou das suas leis essenciais, não deixou de ser una, santa, católica, apostólica? Por causa da promessa de Cristo? Não somente, meus senhores. Cristo quis que sua Igreja tivesse, não só a promessa infalível, mas também, sob o pavilhão sagrado, sob uma nuvem santa, a realidade permanente ou palpitante do seu Coração eucarístico na hóstia sacrossanta do altar.

É por causa desta hóstia, mistério central da Igreja, que essa Igreja se mantém, una, santa, católica, apostólica, através de todas as vicissitudes históricas.

Meus senhores, quem faz a História não é só o homem, quem faz a História é também a Providência. Não creio na fatalidade histórica; creio, como Bossuet, na Providência amorosa de Deus, que conduz os povos. Não deixam de ser beleza e verdade as palavras de Balzac: “No drama da História, Deus é o poeta; os homens os atores; as peças que se jogam na terra são compostas no céu”. Sim, meus senhores, é Deus quem rege a história dos indivíduos e a história das nações. Cristo perpetuou-se na história da sua Igreja pelo mistério da Eucaristia.

Meus senhores, o homem sentiu logo na sua origem a necessidade de um Deus e em sua alma o tormento do infinito. Escutara durante a noite aquela harmonia de que nos fala Platão, a harmonia silenciosa das estrelas; escutara as vozes misteriosas dos seus mares; escutara o rumor sagrado das suas florestas. Escutou mais. Entrou em si mesmo e escutou vozes estranhas em seu ser, vozes que reclamavam formas excelsas de verdade, formas perfeitas e indefiníveis de amor e beleza. E o homem se tornou sacerdote — rezou, suplicou, começou a confessar a Divindade. Mas Deus espírito estava tão longe dele, verme luzente que se arrastava na terra.

O homem precisava de um Deus que tivesse as palpitações da matéria, um Deus sensível. O homem queria sentir em si, não somente os surtos do infinito, do espiritual, mas também sentir uma febre de vida sensível, elevada, uma febre também sentida por um Deus. Que fez Deus? Que fez o Senhor?

Deus respondeu a essa estranha angústia humana com um coração de carne, com o mistério augusto da Encarnação. Fez mais: perpetuou no mundo este Coração de carne, perpetuou o dom régio no mistério real da hóstia pura. Foi além: ficou nos altares como um monge, monge suplicante pelos pecados da humanidade; ficou para ser o Arcanjo zelador da sua esposa dileta, da sua Igreja, depositária augusta da Hóstia.

E vede-a, essa Igreja, vede-a descer as escarpas do Gólgota, envolta, como disse o nosso Nabuco, envolta no sudário do grande Redentor. E que trazia a Peregrina debaixo desse sudário? Que trazia ela? Trazia, senhores, a hóstia eucarística, trazia a hóstia para conquistar o mundo.

Para abalar os impérios romanos não trazia armas; trazia a hóstia. E seus primeiros apóstolos com a hóstia eucarística, com a hóstia santa, anunciaram ao mundo uma boa nova. Os deuses tremeram sobre os seus pedestais; os oráculos se contradisseram; o mundo pagão ruiu. E sobre os escombros do Capitólio da Roma Imperial antiga, drapejou a flâmula do Deus eucarístico, a Cruz do Cristo Redentor. E assim é que a hóstia conduziu a Igreja nas suas primeiras investidas contra o mundo pagão.

O paganismo reagiu diante da hóstia do altar. Os cristãos escondiam-se à sombra das catacumbas e lá comiam a fração do pão, a fração do pão divino da hóstia no idílio espiritual das ágapes. Aqueles que não puderam fugir à sanha dos seus inúmeros inimigos foram presos, torturados. No silêncio da noite, sombras penetravam nas catacumbas, nas prisões e, num beijo, num abraço irmão, davam aos pobres prisioneiros de Cristo a hóstia.

Tendo saído das perseguições, a Igreja encontrou os bárbaros que, como uma avalanche, se precipitaram do Norte. A Igreja não suprimiu logo os excessos dos bárbaros. Transformou-os pouco a pouco. E aqueles altivos senhores feudais se ajoelhavam, reverentes, diante da hóstia branca, e se reconciliavam aos pés do altar.

Meus senhores, as Cruzadas e as grandes descobertas se fizeram em nome do Santíssimo Sacramento, em nome da hóstia católica. Colombo trouxe no peito a hóstia divina para surpreender a jovem América. E quando a viu surgir — a América, como uma ninfa, da espuma dos nossos belos mares, sentiu na alma católica as vibrações do Coração Eucarístico, ansiando por alcançar novos mundos. Os missionários católicos, por toda a parte onde levantavam a Cruz do Salvador, desfraldavam a bandeira da Eucaristia e saudavam a terra que iam evangelizar com o sangue do Cordeiro Imaculado.

Assim, meus senhores, nossa terra brasileira, a terra do Brasil, é por destino a terra da Eucaristia. Devemo-nos lembrar de que sob as umbelas verdes de nossas florestas, entre as matinas de nossas belas alvoradas, devemo-nos lembrar de que Frei Henrique ergueu a Hóstia divina sobre a terra virgem descoberta por Cabral, consagrando-a de maneira definitiva, ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Meus senhores, uma terra assim dedicada desde a sua origem à glória da hóstia, conservadora da unidade, da santidade, da catolicidade, da apostolicidade da Igreja, uma terra assim só pode pertencer ao Coração Eucarístico do nosso Divino Salvador.

Pio XI, no Congresso Eucarístico Internacional da Paz, em discurso magnífico, disse: “Daqui a poucos momentos verei desdobrar o vosso cortejo pelas ruas históricas da vossa cidade eterna e no meio do vosso cortejo avançará o Cristo, o Rei imortal dos séculos. Violentastes o Coração de Deus; obrigastes Deus a sair do seu Tabernáculo. Ele avança e vai reinar por toda parte, reinar em vossos corações e, por meio dos vossos corações, vai reinar pelo mundo inteiro. Seus olhos eucarísticos tornarão a ver essas ruas, tão cheias de lembranças; seus olhos eucarísticos tornarão a ver esses lugares banhados do sangue de tantos mártires, e Ele, o Cristo, verá na glória da hóstia, a santificação da vossa cidade”.

Continuando o seu discurso, disse Pio XI: “Agora e no futuro, onde quer que seja, numa grande cidade ou numa simples aldeia, onde se celebrar um congresso eucarístico, o Cristo entrará na vida humana, na vida pública, na larga corrente dos acontecimentos humanos”.

Meus senhores, estas palavras de Pio XI são proféticas para nós. Ele disse: “E em qualquer parte onde se celebrar um congresso eucarístico, numa grande cidade ou numa simples aldeia, o Cristo entrará na sua vida pública”.

Eu tenho certeza de que o Cristo eucarístico vai entrar, por este Congresso, na vida pública do nosso estremecido, do nosso querido Brasil.

Sim, meus senhores, aquelas palavras de Pio XI são, verdadeiramente, uma conclusão histórica. A Hóstia é o elemento renovador das sociedades humanas. O Padre Gratry escreveu muito bem: “Fala-se por toda parte no rejuvenescimento da vida cristã; fala-se por toda parte numa grande unidade”. Historiadores profundos como Ranke, dizem que veremos uma exposição nova que reunirá todos os fiéis, que reduzirá os próprios incrédulos. Agora adivinho. Na minha ciência, no meu espírito, na minha fé, essa exposição é o catolicismo bem compreendido. Não é só isso. O que há de reunir todos os fiéis, seduzir os próprios incrédulos não é o catolicismo compreendido, é o catolicismo servido e vivido na hóstia de todos os nossos altares. É a Hóstia, portanto, que vai salvar a humanidade, que vai salvar o nosso querido Brasil.

Bendito o coração patriota que realizou a ideia de um Congresso Nacional! Benditos vós todos que trabalhastes, que trabalhastes com tanto ardor e veemência para o êxito desse Congresso! Fazeis obra essencialmente patriótica. Precisamos de uma reação do sobrenatural, quando a invasão do naturalismo ameaça as nossas ciências, nossas artes, nossa literatura, nossa consciência nacional. Precisamos, como nação, de uma reação do sobrenatural cuja plenitude podemos encontrar na Hóstia — o mistério central do catolicismo. Pois bem. O que ditou este Congresso foi o amor da Pátria. Não somente este instinto sagrado, se assim me posso expressar, que nos faz amar as nossas searas, os nossos regatos, os nossos campanários, e os túmulos dos nossos avós; não somente este amor consciente que nos faz morrer pela bandeira, mas o amor da Pátria que se sublima na fé e se sublima no amor a Jesus sacramentado; é essa piedade altíssima que trouxe ao Brasil a felicidade dessa comemoração nacional de um Congresso Eucarístico.

O Brasil inteiro está sentindo, tenho certeza, uma comoção enorme.

Senhores, nesta noite gloriosa para esta cidade, nesta noite há alguma coisa que irrompe do peito azul da vossa linda Guanabara; há alguma coisa que se está desentranhando das vossas montanhas protetoras, do silêncio augusto das vossas florestas e do rumor das vossas cascatas; há alguma coisa que impressiona de vaporoso e indeciso como o fantasma desta vigília noturna; há alguma coisa que me parece a alma do Brasil católico, do Brasil inteiro a despertar. Penso que esta alma há de despertar neste santuário que é a vossa cidade, santuário em que se exerce a soberania do meu Brasil. Pois bem; esta sonâmbula há de acordar ao eco das vossas trombetas.

Sim, entoai as vossas trombetas eucarísticas e, ao seu eco sagrado, a sonâmbula despertará. Está sorrindo a esta orgia de luz, a esse encantamento feiticeiro do vosso Rio maravilhoso. Mas tem de despertar para a glória cristã.

Desperta, alma do Brasil.

Olha! A cidade do Rio de Janeiro é a tua sacerdotisa magna. Ela vai colocar nos cimos alcantilados dos seus rochedos a imagem do Cristo.

Ela vai fazer mais: vai erguer acima dos seus píncaros sagrados e levantar sobre as águas da sua baía, sobre suas montanhas, sobre o Brasil, a hóstia branca e repetir novamente a palavra incomparável: Cristo ou Morte!

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Dom Vital

Oração fúnebre por Dom José Pereira Alves,

Bispo de Natal, na cidade de Recife,

aos 17 de agosto de 1924.

 

 

Exmos. Revmos. Senhores Prelados,

Digníssimas altas autoridades,

Meus senhores,

 

Em festas tão solenes, comemorativas da Consagração da antiga diocese de Olinda ao Sagrado Coração de Jesus, neste jubileu de ouro, não podia ser esquecida a memória de Dom Vital, o pastor desvelado que, do fundo do cárcere, entrega o rebanho ao Coração Santíssimo do Divino Redentor.

Os Bispos, o Governo, os sacerdotes, o povo, todos nós, agradecidos, devemos esta homenagem ao nosso grande e excelso morto.

Humilde bispo de Mimosa, parte do rebanho de Dom Vital, explico bem a minha presença diante deste auditório conspícuo, nos funerais litúrgicos do imortal Prelado Olindense.

Mas sinto-me constrangido ante esse negro mausoléu. O meu coração desejava encontrar aqui não um catafalco. Era um altar que eu queria, um altar branco de luz e de flores para receber os ossos de Dom Vital.

Meus senhores, eu não antecipo os juízos da Igreja. Deo Optimo Maximo, porém, permita que o povo brasileiro possa um dia beijar, como se beijam os ossos dos santos, as relíquias sagradas daquele que foi na terra pernambucana a sentinela impávida, o guardião da Fé Católica. Com esse pio voto eu começo, consciente de minha fraqueza, certo da generosa indulgência que sempre me tendes dispensado.

 

Meus senhores:

A Igreja Católica tem um caráter acentuadamente, absolutamente dogmático: é uma suma luminosa de sentenças, de afirmações definidas. A Igreja é um dogma. O Cristo enviando os Apóstolos à conquista social, ordenou-lhes: Ide, ensinai a todos os povos — O dogma é a substância da Igreja, a sua essência, a sua razão existencial.

É o que magnificamente escreve Sertillanges: “Um Deus, um Cristo, uma fé, um batismo, diz S. Paulo. Assim os padres da Igreja chamam a conversão à fé, a volta à unidade de Cristo, à unidade de Deus. Não se pode dizer mais energicamente que a fé é para nós um primeiro princípio; que a doutrina de fé ou dogma é o laço ideal que liga, para dar-lhes um sentido, os elementos desta carta do Cristo que a alma religiosa, segundo S. Paulo, compõe.

Intimar o dogma, convidando os homens à fé, é, pois para nossa Igreja a função primordial, aquela que antes de qualquer outra resulta de sua natureza e da consciência viva que dela toma — Existir para ela, sem reclamar dos que consentem em incorporar-se em seu grupo a fé, seria existir não existindo, isto é, recusando reconhecer-se por aquilo que é, e tirar as suas consequências”.

Compreende-se então, meus senhores, toda a nobre beleza da Igreja, armada em cavaleira da verdade, em dama guerreira do Cristo brandindo entre os povos a cruz como a espada vitoriosa da batalha cristã. A intolerância é a prerrogativa da verdade. Há vinte séculos que a Igreja com desassombro repete a palavra de Jesus Cristo: eu sou a verdade; há vinte séculos afirma pela palavra, pelo amor, pelo sangue a sua missão de ensinar a verdade ao mundo. A Igreja sempre esteve disposta a perder tudo as suas igrejas, os seus altares, os seus vasos sagrados, os seus túmulos, a vida dos seus fiéis e dos seus pastores, de preferência ao sacrifício da verdade evangélica, de preferência a trair o mandato supremo do seu Divino fundador.

Quando Ela desceu do Calvário, envolta, para usar da frase de Joaquim Nabuco, envolta no sudário do Grande Redentor, com o evangelho sobre o peito e a cruz na mão de peregrina, para percorrer e iluminar o mundo, [a] Roma imperial, Roma dominadora, Roma senhora do mundo, quis embargar os passos da estrangeira. Bradou-lhes pelos seus césares divinos, bradou-lhe pelos seus sacerdotes ambiciosos, pelos seus cônsules audazes, por suas legiões aguerridas, pelo povo rei e escravo, voluptuoso e sanguinário: detém-te.

E a grande peregrina, levantando o facho da verdade através da temerosa noite secular das perseguições, passou por sobre as grelhas ardentes, pelas grades dos cárceres infames, pelos tenazes e pelos cavaletes, pelas feras, pelo fogo, pelo sangue, com o sacrifício de tudo menos da verdade e da sua missão. Os hereges primeiros e os bárbaros, os potentados os infiéis e os ímpios têm arrebentado armas de todo o gênero — as armas da hipocrisia, da calunia, da venalidade, da violência e do sofisma — de encontro ao granito do dogma católico. Ela não cede uma linha só, não receia de uma só afirmação, não sacrifica um só artigo doutrinal, não tolera uma só concessão no terreno intangível do credo secular.

Esta intolerância constitui a sua grandeza, a glória de sua vida, a pujança de sua força no meio das vicissitudes filosóficas e religiosas.

São de notável apologista de nosso século as seguintes magistrais conclusões: “Censurar a Igreja pela sua intolerância doutrinal é censurá-la por ter e crer-se a verdade necessária, é fazer o seu elogio. O próprio da verdade é excluir o que lhe é contrário”.

Toda a ciência é intolerante; desde que um teorema lhe é demonstrado, o matemático tem por absurdas as proposições contrárias. Por isso mesmo que está certa de possuir a verdade religiosa integral, a Igreja deve condenar todo o erro. Assim Bossuet proclamava “que a religião católica é a mais severa e a menos tolerante de todas as religiões em matéria de erros dogmáticos”. E Júlio Simon confessava que “a legitimidade da intolerância eclesiástica está acima de toda a discussão”.

“Reconhecemos que em matéria de dogma as outras sociedades religiosas não são intolerantes. J. J. Rosseau pode dizer o mesmo do Protestantismo: a religião protestante é tolerante por princípio, é tolerante essencialmente, é tanto quanto é possível ser, pois que o único dogma que ela não tolera é o da intolerância. Uma tal confissão é para uma doutrina religiosa a mais esmagadora das refutações.

Mas se a Igreja Católica é justamente intolerante para as doutrinas más e para os vícios, como devem necessariamente ser a verdade e o bem, ela é cheia de indulgência e de misericórdia para os transviados e para os pecadores que reconhecem sua falta e imploram o seu perdão — estabelecida para salvar os homens, nada poupa para arrancar as almas à eterna perdição. Sempre fiel ao mandato que recebeu de Jesus Cristo, ela se limita, para converter o mundo, a pregar o Evangelho, isto é, sempre procedeu por via de persuasão. Como seu Divino Mestre, sofreu em todos os tempos a perseguição e derramou o Sangue pela salvação dos homens. Se por vezes julgou de boa conveniência castigar os seus próprios filhos rebeldes, exerceu um direito que jamais se cuidava em contestar-lhe; ela o fez com mão maternal para convertê-los, para destruir os escândalos e impedir a corrupção de estender-se mais”.

“Tolerância! Tolerância! O século não comporta mais tiranias: nem as tiranias da força que escravizam o corpo, nem as tiranias da força que escravizam o espírito. Todas as religiões fazem o bem, conduzem a alma às ascensões morais, consolam o homem. Toda a religião é boa” — Estranha linguagem! Que Deus é esse cuja essência não seria mais que a colcha de retalhos de diferentes formas religiosas?

Senhores, a minha religião, a vossa religião, a religião do Brasil, meus senhores, a Religião Católica, não suporta essa linguagem, não admite essa equiparação. Ela sabe que a linguagem do Liberalismo é a morte do credo religioso. A Religião que aceita semelhante fórmula suicida-se. A verdade não pode ser múltipla: é uma. O Catolicismo se isola, se separa, se diferencia, se opõe e se afirma na intolerância sublime de suas atitudes gloriosas — a Religião verdadeira, a Religião única, a Religião obrigatória para a humanidade, com exclusão de qualquer outra.

Assim escreve Huby: “A Igreja se apresenta a nossos contemporâneos guardiã incorruptível, e por consequência, intransigente das verdades que tem a consciência de deter, mantendo firme uma hierarquia que não existe senão para o bem dos fiéis que rege heroica e compreensiva, a Igreja Católica.

Como o seu Mestre, e por Ele, tem morada para todos aqueles que não querem deliberadamente pecar contra a luz. Aos grupos fundados sobre a comunidade de raça, a identidade de condições sociais, a adesão revogável das inteligências que se emprestam sem se darem, ela opõe uma comunidade de crenças e ritos que faz com centenas de milhões de homens que, às vezes, tudo separa, um grande povo fraterno”.

Meus senhores, a Igreja Católica, como todo o organismo vivo, defende a sua existência com a plenitude de suas forças interiores e exteriores; afirma e acentua a sua inconfundível individualidade; repele toda a confusão, opondo-se tenazmente aos elementos corruptores do seu dogma e da sua moral, da sua verdade e da sua vida. É o seu direito e é o segredo do seu indiscutível prestígio no mundo. A consciência de sua missão é absoluta. Não pode transigir fora dos limites dos seus princípios dogmáticos e morais. A Igreja está certa de sua finalidade. O Cristo não esqueceu nada. Deu-lhe tudo e traçou-lhe a luminosa rota a seguir. Cousin, algumas semanas antes de morrer, dizia: “Nós outros filósofos, navegamos ao acaso, sujeitos aos desvios, expostos ao naufrágio. Vós católicos, tendes a bússola, a carta do país, as estrelas, o piloto e o porto”.

O Catolicismo é por excelência a religião da ordem, da disciplina, a religião da autoridade.

Lembrada da sentença de Santo Agostinho — amai os homens e destruí os seus erros — a Igreja mantem firme a sua autoridade doutrinal, impõe os seus princípios e a sua lei, e gloria-se da sua intolerância da verdade contra o erro, a intolerância do bem contra o mal.

Meus senhores, Dom Vital foi na terra pernambucana, no Brasil, na América, o expoente glorioso dessa intolerância, o cavaleiro indomável da verdade, o Apóstolo do direito, o Arcanjo do sobrenatural defendendo com o gládio de chamas as portas do santuário contra os inimigos do seu Cristo e de sua Religião.

A justiça da História consagrou a memória desse homem extraordinário do Brasil, verdadeiro gigante moral diante de quem se achatam, no proscênio histórico, os pigmeus da questão religiosa.

E a sua figura heroica se agiganta ainda mais quando, alguns raros caracteres acidentalmente eclipsados na sombra política daquela época, resgataram a sua criminosa cooperação com a nobreza das grandes almas trabalhadas, pelo remorso e tocadas de salutar arrependimento.

O centurião, ouvindo o estalar dos rochedos, assistindo aos espasmos da natureza, sentindo os tremores do universo na morte de Jesus Cristo desceu, aterrado, o Calvário murmurando: Ele era realmente o Filho de Deus. Assim, meus senhores, esses grandes homens de nossa pátria desceram o Gólgota em que uma desgraçada política governamental crucificara o Atanásio brasileiro, desceram envergonhados de si mesmos proclamando a grandeza moral, a justiça e a imortal beleza da augusta vítima.

Meus senhores, hoje todo o mundo reconhece o vulto épico do herói; todos exaltam a sua coragem apostólica; o desassombro verdadeiramente episcopal com que enfrentou as audácias do poder temporal e desmascarou as maquinações das trevas.

Aos olhos do historiador imparcial, Dom Vital esplende com um brilho pessoal próprio que se irradia de sua poderosa personalidade. Foi um cordeio. Poderia repetir com Nosso Senhor Jesus Cristo: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.

“De espírito calmo, eminentemente lógico, escreve um dos seus companheiros, firme nos princípios, rigoroso nas consequências, sincero indagador da verdade, o jovem Antonio Gonçalves com o trabalho tenaz, o versar os mestres, com mão diurna e noturna, alentou as disposições da natureza. Diz Montaigne que as nossas almas desferem aos vinte anos o que hão de ser depois e, desde então, prometem as posses que hão de ter. foi o que se deu com Antonio Gonçalves — Era o mais lindo desabrochar de rosas a prometeram aromas. Perdido na multidão, não sobrara o jovem Oliveira em virtude aos demais.

O que, porém, atraia a atenção de todos, superiores e iguais, é que sempre achavam-no cingido ao regulamento e nunca ultrapassara os limites do dever. E se por acaso incorria na menor falta, a reparação era pronta.

Mas os seminaristas de S. Sulpício, nós, sobretudo os brasileiros, não devíamos gozar por muito tempo da amável companhia do jovem pernambucano”.

Todos o conheceram risonho, amável, doce, delicado.

A doçura que emoldurava aquela alma varonil e forte, era filha de sua humildade profunda — a virtude dos grandes santos e dos grandes homens.

Foi seu grande espírito de caridade evangélica que ditou ao grande prelado as palavras magníficas da sua posse no sólio da Catedral de Olinda.

“À medida que formos trabalhando por estabelecer entre Deus e vós a mais perfeita união, não cessaremos de envidar ao mesmo tempo, todos os esforços a fim de fazer reinar entre os membros de nossa imensa família a mais bela harmonia de pensamentos e de sentimentos — Quando há dois dias chegamos a este abençoado torrão, onde tanto nos ufanamos de ter recebido o berço, e vimos um povo inumerável levantar-se como um só homem, como um só coração, digamo-lo assim, para sair ao encontro do humilde Pastor que o céu lhe envia, sentimo-nos abalado até à medula dos ossos, enternecido até as lágrimas. E hoje, enquanto lenta e vagarosamente subíamos as ladeiras desta antiga cidade de gloriosas recordações históricas, fervorosos votos e súplicas instantes subiam ao mesmo tempo de nosso coração ao trono daquele que nos mandou apascentar as vossas almas: “Ó Senhor, Deus de toda a consolação, lhe dizíamos nós com o ardor da nossa alma, fazei com que todos estes que me destes por filhos — quos dedisti mihi, se conservem sempre unidos como agora: Sint consummati in unum. Uni Senhor, as ovelhas ao pastor, os filhos ao pai, de tal forma que constituam um só corpo, animado do mesmo espírito Unum corpus et unus spiritus”.

Não são essas as palavras de um prelado imprudente, atrevido ou estouvado, como se teve a ousadia de escrever em livros escolares.

Todas as suas luminosas pastorais, tão ricas de sabedoria, tão opulentas em doutrina, tão elevadas e tão apostólicas, estão ungidas da mais suave caridade; todas elas trescalam o odor do mais admirável amor cristão e da mais terna piedade pelas almas do querido rebanho.

Oh! Como é emocionante o apelo do Pastor regressando do cárcere, restituído ao rebanho, o apelo do Pastor perseguido e ultrajado, à ovelha ingrata. Não se pode ler sem comoção essa benção amorosa e incomparável com que esse belo homem de Deus remata o seu comovente e admirável discurso da Igreja de São Pedro: “Também te abençoamos a ti, ó pobre ovelha tresmalhada, a ti que, desapiedada, tantas lágrimas, tantos gemidos tantas fadigas tem custado a teu Pastor. Não nos fora possível esquecer-te em nossas bênçãos nem tão pouco em nossas orações; antes, nelas tens a maior parte; por quem senão por ti, ovelha desgarrada, nos manda Jesus Cristo deixar as outras noventa e nove?

Tu votas desamor a teu Pastor quando ele só amor te merece; o tens por inimigo sendo ele o teu melhor amigo e o amaldiçoas, ao passo que ele te abençoa. Maledicimur et benedicimus.

Ah, volta arredia! Volta ao redil do Senhor! Volta contrita e seremos para ti médico que te cure, pai que te acarinhe, juiz que te absolva, doutor que te esclareça, sentinela que te guarde, pastor que te defenda.

Eia! Vem, infortunada! Vem, e te provaremos que se detestamos o erro, se o impugnamos com todo o rigor, temos, todavia, entranhas de misericórdia, coração de pai para o infeliz mortal que por fraqueza o comete. Diligite homines et interficite errores”.

Eis aí todo o home, senhores — Mas pela defesa da verdade, pela Igreja, por Jesus Cristo, Dom Vital não era mais um cordeiro, era um leão — Não um leão caricato, um leão de bravatas, de arremetidas e recuos. Não, meus senhores — Era um leão nobre, leal, generoso, marchando por uma estrada deslumbrante de ensinamentos sábios, profundamente meditados, de sentenças retas e perfeitas, de argumentos invulneráveis, irretorquíveis mas sempre dignos de seu alto espírito, de sua dignidade episcopal, de sua santa causa.

E as atitudes brilhantes de sua inteligência, foram esplendidamente realçadas pelos gestos impressionantes de sua ação gloriosa. Fale por mim da linha cristãmente aristocrática dessa heroica figura histórica, uma testemunha ocular e meu querido e antigo mestre: “Tomei-me de verdadeira paixão por aquela mocidade combatente que se impunha à admiração dos homens de sã consciência; por aquela invejável serenidade que se não alterava agrilhoada de máximos sofrimentos; por aquela indômita coragem de confessor da Fé a vibrar o seu non possumus, em frente da triunfante iniquidade das potestades terrenas.

Vi-o desrespeitado em sua autoridade, escarnecido em seus mandatos, insultado de mil formas nos comícios e jornais maçônicos, caluniado em seus atos, ridicularizado em torpes jornais caricatos...

Vi-o depois processado, preso, transportado à corte, julgado por um tribunal sectário e condenado a quatro anos de prisão com trabalhos na Ilha das Cobras.

E tudo isto porque quis separar o joio do trigo; porque quis separar o católico sincero do hereje encapotado.

Em todas as frases da tormentosa luta, vi-o sempre o mesmo, sereno, doce, risonho, imperturbável e nobre sem recuar nem ceder, sem se queixar nem temer; sempre a fazer flutuar bem alto o sagrado vexilo da Fé”.

Meus senhores, nada faltou ao esplendor desse caráter cristão, justo orgulho de nossa terra, honra da religião e da Pátria que dá lustre e glória não só à América Católica, mas, digamo-lo com ufania, à toda Cristandade. Foi digno dos primeiros mártires da Igreja pela sua fé, pelo amor ao Cristo e ao Evangelho, pelo heroísmo sem par, pelo sacrifício absoluto de tudo e da própria vida.

Nada faltou a esse assombroso prelado, a grandeza dos pensamentos, a inigualável bondade, a beleza sobrenatural dos lances mais patéticos da vida pastoral — para sagrá-lo o maior bispo do Brasil, o Antístite perfeito, o pastor glorioso e atribulado, que na Terra da Santa Cruz, pelas virtudes e assinalados méritos, pelo martírio, transformou o seu cárcere em santuário de amor nacional.

Dir-se-ia um doa antigos Padres da Igreja ou um daqueles veneráveis bispos da antiguidade cristã resistindo a Cesar com santa liberdade apostólica, e só inclinando a mitra refulgente diante do Vigário Supremo de Jesus Cristo.

Dom Vital, cuja vida no dizer de um dos seus autorizados biógrafos, foi um ato de coragem episcopal, Dom Vital encarnou em sua personalidade extraordinária a intolerância doutrinal, a intolerância necessária, infrangível da verdade.

“Um bispo cerrando o Evangelho sobre o peito e empunhando a Cruz, é invencível: morre, porém não se rende; e só deixa de pelejar os bons combates do Senhor quando exausto, coberto de gloriosas feridas cai sem alento e sem vida no campo das batalhas da fé, envolvido no misterioso estandarte sempre vitorioso, onde se lê em letra de refulgente brilho: Si Deus pro nobis quis contra nos?” Que afirmação! Que destemor! Foi um bravo da fé, um defensor acérrimo do pensamento católico. Ergueu a muralha granítica que salvou o Catolicismo no Brasil, detendo com seu sacrifício pessoal a onda da corrupção religiosa.

Criou assim uma alma nova, integralmente católica na pátria brasileira, preparando o advento de uma era feliz de fervor religioso. Foi o grande mártir e o redentor da fé no Brasil.

Meus senhores, porque hei de continuar? Guardemos silêncio diante desses heróis.

Ali na urna funerária estão escritas as memoráveis palavras do morto: Jesus autem tacebat.

Os ossos de Dom Vital repousam silenciosos. Mas se nós, bispos, se nós sacerdotes e católicos mentíssemos à fé jurada sobre o altar, se nós recuássemos do indeclinável dever da fé, se fugíssemos à honra do sacrifício da prisão, da morte por Jesus Cristo, esses ossos sagrados fremiram no protesto do seu silêncio augusto para amaldiçoarem a nossa covardia.

Isso jamais acontecerá, porque tu, Vital, incomparável Apóstolo, hás de ser sempre, pela tua inspiração e pelo teu exemplo, o custódio de nossa fé, a firmeza inquebrantável de nosso báculo, a força de nosso sacerdócio, o sereno guiador do nosso querido povo.

Dom Vital, se algum dia mãos sacrílegas tentarem apagar no céu da consciência nacional o cruzeiro glorioso, tu, arcanjo do Brasil, aparece de novo e brandindo a tua espada de luz, castiga os malfeitores da Pátria e, castigando-os na verdade e no amor, entrega-os ao Coração de Jesus Cristo para o supremo perdão.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Os papas na história do Brasil

Conferência de D. José Pereira Alves

A atuação criadora dos Papas na formação histórica da nossa catolicidade está documentada nos atos pontificais que demonstram a solicitude augusta dos Supremos Vigários de Cristo pela região brasílica, como se dizia nos primeiros tempos da nacionalidade. Eu não estou aqui para fazer uma história eclesiástica do Brasil. Venho corroborar uma afirmação: Os Sumos Pontífices são os grandes criadores e protetores da nossa Pátria Católica.

Basta-me mergulhar aqui e ali em nossa história para sentir o roçagar da sotaina branca do Papa. É a ação, é a vigilância do Pastor Universal a exercer-se soberana e benfazeja por toda parte.

No reinado de Dom João III, o Papa Júlio III pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, de 28 de fevereiro de 1550, criou o Bispado do Brasil, com sede na Igreja de São Salvador da Região chamada Bahia de Todos os Santos, desligando a Terra de Santa Cruz da jurisdição do Bispo de Funchal. A nossa Diocese, sufragânea do Arcebispo de Lisboa, tinha cinquenta léguas pelo litoral e vinte pelo interior, mas ao Bispo foi outorgada jurisdição por todo o território brasileiro e ilhas adjacentes. Só cento e vinte e um anos depois, oito meses e quinze dias, foi a Bahia elevada à Arquidiocese, pelo Papa Inocêncio XI com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, de 16 de novembro de 1676. Foi o nosso primeiro Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, vigário geral na Índia quando nomeado Bispo do Brasil que mais tarde, naufragando na sua volta a Portugal, foi devorado com todos os seus companheiros pelos índios Caetés. Dizem que a terra onde foi supliciado o nosso primeiro Bispo nunca mais produziu coisa alguma.

O Santo Padre, na Bula criadora do Episcopado no Brasil, depois de referir-se à ação colonizadora de Portugal, às igrejas paroquiais e outros lugares sagrados já existentes à pregação apostólica dos missionários católicos, e à nobreza da cidade de São Salvador, plantada como uma cidadela titular dos fiéis de Cristo, de campos férteis e clima benigno, notável pelo progresso da gente e do comércio, atendendo à humilde súplica de seu caríssimo filho em Cristo, João Rei de Portugal e dos Algarves, desejoso de propagar a fé católica como os seus maiores, constitui a Região do Brasil na Hierarquia Católica, conferindo a São Salvador o ius civitatis e de Igreja Episcopal autônoma. Júlio III é considerado o criador da Igreja Brasileira, no sentido ortodoxo da expressão.

A terra brasílica, santificada pela benção de Jesus Cristo na Missa da Descoberta, percorrida pelas bandeiras missionárias das Ordens Religiosas; o Brasil cujos ventos já repetiam o nome de Jesus e o nome da Imaculada, já se podia sentar pela munificência paternal do Pontífice Romano, nas assembleias ecumênicas da Cristandade e ter o seu voto nos grandes conselhos da Igreja Universal.

Roma olhava com ternuras de mãe para a Igreja nascente da América portuguesa. Não queria, como se insinua na Bula histórica, que o progresso material das novas terras fosse desamparado pelas forças da Fé e do Espírito.

Super specula militantis Ecclesiae, meritis licet imparibus, divina dispositione locati da universas orbis provintias et loca, praesertim Omnipotentis Dei misericordia per Catholicos Reges et Principes ab infidelibus et barbaris nationibus recuperata, et acquisita aciem nostrae meditationis possi reflectimus et ut lucis ipsis dignioribus titulis decoratis plantetur radicibus Chistiana Religio et eorum incolae ac habitatores venerabilium praesulum doctrina et autctoritate suffulti proficiant semper in Fide et quod in temporalibus sunt adepti, non careant in spitualibus incremento, opem et operam libenter impendimus efficaces.

Na Bula em que o Papa Inocêncio XI eleva a Diocese baiana à metropolitana do Brasil e assim, definitivamente, estatui a autonomia eclesiástica de nossa pátria, vê-se o interesse, sente-se a solicitude pastoral com que a Santa Sé acompanha a nova catolicidade. Fala da cidade de São Salvador na Bahia de Todos os Santos com os mesmos elogios da Bula Juliana que criou o Bispado Nacional. Põe em relevo os suores e trabalhos dos reis católicos lusitanos em sujeitarem e desbravarem a terra e o selvagem. As guerras restauradoras contra os hereges holandeses e as missões abnegadas de vários religiosos e outros varões contra as trevas satânicas, a idolatria, o gentilismo e heresias outras, os templos suntuosos, mosteiros e asilos erguidos pela régia munificência, são lembrados no documento pontifical pela consideração do Pontífice — more vigilis Pastoris — como ele próprio afirma.

Várias de nossas capitais foram cidades por direito pontifício, como por exemplo Bahia, Olinda e São Paulo.

Elevou a Bispado a prelazia do Rio de Janeiro, criada por Gregório XIII em Bula de 19 de julho de 1576, o mesmo Papa Inocêncio XI, a 16 de novembro de 1676. O Pontífice chama a nossa grande metrópole de hoje civitas Sancti Sebastiani Brasiliensis Dioecesis in ea parte quae Rivus Ianuarii applelatur, sede de uma só Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião. É cidade insigne, diz o Papa, pelo clima salubérrimo, pela população crescente, comércio, pelos mosteiros vários e pelos habitantes seus, nobres e letrados.

Com a Bula Ad Sacram Beati Petri Sedem da mesma data, é instituída a Diocese de Olinda. A Prelazia de Pernambuco devia a sua criação à Bula de Paulo V, de 15 de julho de 1614.

Na Bula de criação do Bispado de Pernambuco, como aliás nas outras, o Romano Pontífice sempre se revela movido pelo desejo de confirmar os débeis na Fé, de instruir os indigentes de doutrina, de chamar os íncolas do Bom Pastor que deu por eles a vida, de plantar novos seminários eclesiásticos. E para realizar estes grandes pensamentos de catolização brasileira, julgava conveniente a constituição de novos prelados. É sob essas apostólicas inspirações do Vaticano que se forma a hierarquia eclesiástica do Brasil, composta desta Trindade constelada: Bahia, São Sebastião do Rio de Janeiro e Olinda, glória avoenga da Igreja no Brasil.

O Bispado do Maranhão foi instituído pelo Papa Inocêncio XI, com a Bula de 30 de agosto de 1667, Super Universas Orbis Ecclesias, que por ser mais fácil ir a Lisboa do que à Bahia de Todos os Santos, segundo reza a Bula, sujeitou a nova diocese à metrópole portuguesa. São Luís tinha dois mil habitantes, fama de gente nobre, de muitas letras, homens de armas. Na criação da nova diocese o Papa acentua o mesmo desígnio apostólico: plantar novas sedes episcopais no campo da Igreja Militante, para que por estas novas plantações aumente a devoção popular, floresça o divino culto, sejam conferidos os Sacramentos da Igreja e se promova a salvação das almas. São expressões textuais do ato pontifício de Inocêncio XI. Durante o governo de Dom Frei José Delgarte, da Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, quinto prelado maranhense, foi desmembrada do território do Maranhão a nova diocese do Grão Pará pela Bula Copiosus in Misericordia, de Clemente XII, em 4 de março de 1719, no reinado de Dom João V de Portugal, compreendendo a Guiana Francesa. Na Bula paraense, o Santo Padre se afigura no vértice da montanha a estender o seu olhar de Pastor aos confins do mundo, para prover as necessidades espirituais do imenso campo do Senhor. A solicitude do grande pai das almas se sente excitada pela visão das messes que hão de florir, da sua vastidão e dos ásperos e perigosos caminhos que os apóstolos hão de trilhar para promoverem a colheita, a criar igrejas episcopais que ele chama “novas fontes” e “novos pastores”. Desses novos mananciais se hão de abeberar os povos sedentos. É a linguagem do Pontífice.

A 6 de dezembro de 1745 o douto Bento XIV desmembra da Diocese do Rio de Janeiro as igrejas de São Paulo e Mariana e as prelazias de Goiás e Cuiabá, pela Bula Candor Lucis Aeternae. Tem-se vontade de traduzir e citar toda a Bula beneditina para tornar evidente o empenho e o espiritual açodamento com que o Santo Padre, movido dos mesmos sentimentos dos seus augustos predecessores, atende às súplicas do Rei, às preces e apelos de tantas regiões desamparadas, cujas vozes só depois de um ano podem chegar aos ouvidos do próprio Antístite. À Santa Sé, desde aqueles primeiros tempos, não escapa o problema da evangelização brasileira que só pode ter solução satisfatória pela divisão eclesiástica do imenso território.

Haec, ut percepimus, primum manus nostras levavimus ad eundem Unigenitum Dei Filium cuius vices, licet immeriti gerimus in terris, gratias enixe agentes de tam ferventi praefati Ioannis Regis, charissimi Filii Nostri, Filli vere in Christo charissimi, spiritu sibi coelis effuso: inde ad Pastoralem solicitudinem mostram respicientes, votis eiusdem Ioannis Regis catholica pietate dignis Nobis superius expositis, propensius ac celeriter annuimus.

A Bula divide a Diocese do Rio de janeiro em cinco partes para louvor e glória de Deus Onipotente, honra de Sua gloriosa Mãe Maria e de toda a corte celeste e exaltação da própria Fé Católica.

As prelazias de Goiás e Cuiabá foram elevadas à categoria de Bispado a 15 de julho de 1826 por Leão XII, com a Bula Solicita Catholic Gregis Cura, que vem animada dos mesmos intuitos apostólicos pela cristandade brasileira. O mesmo pontífice atendendo às preces de Monsenhor Francisco Correa Vidigal, ministro plenipotenciário do Primeiro Imperador do Brasil junto à Santa Sé, hilari animo sujeita à metrópole da Bahia as Dioceses do Pará e do Maranhão, até então sufragâneas do Patriarcado de Lisboa, pela Bula Romanorum Pontificum Vigilantia, de 5 de junho de 1827.

A Comissão da Assembleia Legislativa, encarregada de examinar essa Bula, mostra-se no seu parecer satisfeita, vendo de certo modo restituída a muito antiga autoridade dos metropolitanos... e diz que os bispos isolados, não reconhecendo outro superior que o Bispo de Roma, sendo tão difícil o recurso, e para muitos, impossível, podiam ser considerados quais monarcas absolutos.

Vê-se que a Comissão ignorava as Bulas de criação daquelas dioceses e que, portanto, sempre para elas existiu o direito metropolitano.

Monsenhor Vidigal comunicava ao Ministro dos Estrangeiros e corte das últimas amarras eclesiásticas a Portugal nestes termos: “Ilmo. e Exmo. Sr. tenho a honra de participar a Vossa Excelência que em conformidade das imperiais ordens, solicitei aqui a separação dos Bispados do Pará e do Maranhão, da sujeição do Patriarcado de Lisboa, como Metrópole, e que ficassem incorporadas na metrópole da Bahia, o que felizmente obtive, e nesta ocasião remeto a competente Bula, a qual vai no próprio original, juntamente com um transunto para ser enviado ao respectivo metropolitano, a fim de que este assim fique inteirado e comunique aos seus novos sufragâneos devendo ficar o original no arquivo do Império. A sua despesa foi de duzentos e noventa e oito escudos e vinte e cinco baiocos, moeda romana, cuja conta remeto também, inclusa. Deus guarde a Vossa Excelência. Roma, 15 de junho de 1827. Ilmo. e Exmo. Sr. Marquês de Queluz, Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor Vidigal”.

O Bispado do Rio Grande do Sul foi criado pela Bula Ad Oves Dominicas Pascendas, de 7 de maio de 1848, pelo saudoso amigo do Brasil, o Papa Pio IX, que se dignou de sagrar o segundo Bispo de Porto Alegre, Dom Sebastião Dias Laranjeiras. É o único Bispo brasileiro sagrado pelo Papa, honra insigne que se dignou a dar ao Brasil o único Pontífice que pisou terras brasileiras — o grande e imortal Pio IX. A cerimônia se realizou na Capela Sistina a 7 de outubro de 1860. Sentou-se o novo apóstolo do Brasil no solo pontifício, deu na presença do Pontífice a benção Papal e na mesa cedeu-lhe o Papa o lugar de honra. Ao despedir-se lhe disse: tome por modelo de suas ações ao Arcebispo da Bahia.

Ainda foi Pio IX que criou o Bispado Diamantino pela Bula Gravissimum Sollicitudinis de 6 de junho de 1854 e a diocese do Ceará pela Bula Pro Animarum Salute de 8 de julho de 1854, tendo como cidade episcopal Fortaleza, que nos mais antigos documentos eclesiásticos aparece no termo latino Arx ou In arce Seará.

Em 1741, escreve o meu pranteado antecessor Dom Agostinho Banassi, a Bula de Bento XIV dirigindo-se a vários bispos, incluía os do Brasil, onde declara os empenhos da Igreja na conversão dos índios e manifesta-se admirado de não haverem cessado todas as vexações, pelo que comina penas eclesiásticas neste sentido e afirma ter escrito a Dom João V para castigar a quem praticasse esses excessos. Era a grande voz romana mais uma vez a vibrar protetora do indígena perseguido.

Pouco tempo depois da descoberta da América, diz Vasconcelos, os naturais dessas regiões eram tidos por vários como não sendo homens. Havia quem os classificasse um pouco acima dos macacos. Doutrina que, espalhando-se pela nova Espanha, foi reprovada pela Bula Veritas Ipsa de Paulo III de 2 de junho de 1537. Assim concluía: “Em vista do que (ele, Santo Padre) determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais e não só capazes da Fé de Cristo, senão propensos a ela segundo chegava ao seu conhecimento; e, sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam nem deviam ser privados e tão pouco do domínio de seus bens, sendo-lhes livre lográ-los e folgar com eles, como melhor lhes parecesse, dado mesmo que ainda não estivessem convertidos. Pelo que os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar à Fé de Cristo com a pregação da palavra divina e com o exemplo da boa vida, sendo írrito, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica”.

Em solene declaração pontifical — doutrina da religião, justiça, liberdade e caridade — recordada apostolicamente para o Brasil, foi defendida e praticada pelo missionário contra a cobiça dos aventureiros sem ideal, sem humanidade, sem cristianismo. Os Papas foram, pois, os grandes e desinteressados amigos de nossa Pátria. No começo da nacionalidade o Papado protege o caráter humano e a propriedade do índio; nos fins do segundo império, se ergue Leão XIII para advogar em nome de Cristo, pai de todos os homens, a liberdade da raça escrava.

“Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a mínima vacilação, a mais leve preocupação de torcer o ensinamento moral para adaptá-lo às circunstâncias políticas. Vi tão somente a consciência moral brilhando como um farol, como uma luz indiferente aos naufrágios dos que não se guiarem por ela”. Assim comentava o grande Nabuco a sua célebre entrevista com o iluminado Pontífice que, depois da Abolição, destina a Rosa de Ouro à Imperial Redentora dos escravos como testemunha eloquente de sua augusta benevolência pela Princesa e pelo Brasil livre.

Na colônia, no império e na república, o Brasil mereceu sempre uma atenção especial da Santa Sé: O reconhecimento dos privilégios apostólicos do Padroado no Brasil colonial, no Brasil monárquico e imperial, a concessão de favores excepcionais e graças em toda a nossa existência política e religiosa até os dias presentes, as seculares relações diplomáticas entre o Vaticano e a nossa pátria e a permuta constante de afetos filiais e cortesias internacionais mostram à evidência que o Papa é uma personagem viva da História Nacional. Que bela e numerosa é hoje a hierarquia eclesiástica no Brasil! A Santa Sé constelou a nossa pátria do Cruzeiro de cruzes peitorais. São dezesseis as províncias eclesiásticas. As dioceses, prelazias e prefeituras se contam por dezenas. A princípio houve, até dos católicos, quem se tomasse de espanto e receio pela multiplicação de tantas mitras. Não ficariam os bispos como uma espécie de Guarda Nacional? Hoje se vê que o bem, resultante desta milagrosa multiplicação do pão pastoral, é incalculável. Esqueciam-se eles de que, no feliz pensamento de São Francisco de Sales, uma só alma, remida pelo Sangue tem direito a um bispo. E no Brasil imenso, vagam dispersos, sem luz, sem amor, sem Cristo, milhares!

Roma, para distinguir a Terra da Santa Cruz, vestiu da amplíssima púrpura romana um dos seus grandes filhos — este velho servidor da pátria, orgulho do meu estado e honra da Igreja brasileira, o Eminentíssimo Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro. A púrpura cardinalícia flameja para toda a América do Sul nas mãos do Brasil católico.

De primeira classe é a nossa Nunciatura Apostólica, cuja representação diplomática por varões claríssimos e de grande devoção pela pátria brasileira, chamam-se eles Barona, exaltado calorosamente pelo Barão do Rio Branco, Aversa, Gasparri, nosso grande amigo, Aloisi Masella, já bem da simpatia brasileira em pouco tempo, bem aqui representado pela bela figura de padre e diplomata de Monsenhor Egídio Lari, tão dedicados ambos aos interesses católicos do nosso amado Brasil. Tem sido eles portadores queridos da amizade paterna, delegados nobres do coração do Papa. E como não há amizade sem lágrima, o Papa também tem chorado por nossa causa, e nenhum chorou mais do que Pio IX, chorou quando viu nos cárceres do Brasil dois bispos brasileiros — o douto e apostólico Dom Macedo Costa e o insigne confessor e mártir Dom Vital, de santa memória, arcanjo da Igreja do Brasil.

Chorava pela religião a majestade daquele augusto Pontífice que recebia entre carinhos os meninos do Colégio Pio Latino, destinando ao seminário uma verba especial, para que nas quintas-feiras jamais faltassem doces para os filhos da América. Sublimidade e doçura de Pai!

Quando o Brasil entendeu que devia ser uma República e os seus primeiros estadistas, num momento de ilusão, que a República deveria ser, para infelicidade nossa, agnóstica, os Papas não perderam o amor pelo Brasil. Leão XIII pensou logo no seu batismo e, numa recepção vaticana diante do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé, dizia, acarinhando uma criança brasileira: “Havemos de fazer o Brasil uma República bem católica”. E puxava pelo r...

Os Sumos Pontífices são os criadores e protetores da nossa catolicidade, eles que abençoaram os nossos primeiros missionários, educadores da nacionalidade, enviaram os nossos pastores, suscitaram os nossos seminários, restituíram os nossos claustros gloriosos, martelaram os inimigos descobertos ou ocultos da verdadeira religião, criaram as nossas catedrais e basílicas e mandaram coroar solenemente as imagens da devoção nacional como p. ex. a Milagrosa Conceição Aparecida, Rainha do Brasil. Eles que tem honrado os nossos governos e as datas grandes da pátria com mensagens, condecorações raríssimas e representações esplendidas, como a embaixada brilhantíssima do Centenário; eles que em cada discurso a qualquer peregrinação nacional deixam palpitar um grande amor pelo Brasil.

Muito melhor do que eu, os brasileiros que vão a Roma o sentem. E o nosso grande patrício que ali está, o Exmo. Arcebispo Dom Sebastião Leme neste longo encontro de uma hora, bem melhor poderá dar testemunho da ternura do Pontífice pela nossa terra, nossa gente, nossos destinos históricos. E também, nessa ocasião solene, o Papa sentiu, por um dos mais belos, dos mais ricos, dos maiores e melhores corações da nossa raça, quanto o Brasil quer bem ao Vigário de Jesus Cristo na terra.

Pois bem, senhores. Esta nobre e tradicional Paróquia da Glória se reuniu hoje no seu belo e majestoso santuário, para cantar a glória sacerdotal desse continuador da amizade pontifical ao Brasil, desse grande missionário que por abnegados e cultos visitadores apostólicos percorreu o litoral e o sertão brasileiro, dessa águia apocalíptica que, olhando fixamente o sol do futuro nacional, resolve a fundação do seminário brasileiro, auxiliando o próprio pontífice esse centro cultural da intelectualidade católica e sacerdotal da Pátria com um avultado donativo.

Amor com amor se paga. É verdade que o amor como disse Lacordaire, desce mais do que sobe. É maior o amor do Pai do que o do filho. Mas o Brasil quer que o mundo todo saiba que no seu peito há uma flor que não murcha: a gratidão. As homenagens de toda a pátria católica são homenagens filiais ao grande benfeitor da consciência nacional.

A Paróquia da Glória, pelos expoentes maiores da sua espiritualidade católica, de sua cultura católica, de sua graça cristã e de sua família religiosa e do seu povo fiel ao Cristo, ajoelha-se diante do Grande Sacerdote, puro e sublime na sua velhice de outro, branco na sua batina pontifical e na imaculada alvura de seu longo apostolado e pede-lhe a benção de Pai e Hierarca Supremo, a benção do amigo da nossa grande Pátria providencialmente católica, a benção suave e carinhosa do maior de todos os Padres, mas também do Padre que um dia no Vaticano, num gesto indescritível, beijou a bandeira trêmula do Brasil.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

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