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A guerra dos Cristeros

“No dia 31 de Julho de 1926, alguns homens fizeram com que Nosso Senhor se ausentasse de seus templos, de seus altares, dos lugares dos católicos, mas outros homens fizeram com que voltasse; estes homens não viram que o governo tinha muitos soldados, muito armamento e muito dinheiro para fazer-lhes a guerra; isto eles não viram, o que viram foi defender seu Deus, sua Religião, sua Mãe, que é a Santa Igreja, isto é o que eles viram. A estes homens não importou deixar suas casas, seus pais, seus filhos, suas esposas e tudo o que possuíam; foram aos campos de batalha procurar Deus Nosso Senhor. Os rios, as montanhas, os montes, as colinas são as testemunhas de que aqueles homens falaram a Deus Nosso Senhor com o Santo Nome de Viva Cristo Rei, Viva a Santíssima Virgem de Guadalupe, Viva o México. Os mesmos lugares são o testemunho de que aqueles homens regaram o solo com seu sangue e, não contentes com isto, deram mesmo suas vidas para que Deus Nosso Senhor voltasse. E vendo Deus Nosso Senhor que aqueles homens realmente o procuravam, se dignou vir outra vez a seus templos, a seus altares, aos lugares dos católicos como estamos vendo agora, e recomendou aos jovens de hoje que, se no futuro aparecer novamente o problema, não se esqueçam do exemplo que nos deixaram nossos antepassados” (carta de Francisco Campos, Santiago Bayacora, Durango). 

Capítulo 1
A Premeditação — 31 de julho a 31 de dezembro de 1926
31 de Julho; Último Dia de Cultos.
 
“Desde o dia em que o Episcopado anunciou sua decisão de suspender o culto público, começou a aparecer gente para colocar em ordem suas consciências, apesar de ser tempo de cultivo na lavoura. Cada dia que passava, aumentava a aglomeração de gente nas povoações, de todos os ranchos vizinhos acudia gente, em todos os semblantes se via a inquietação, em todos os olhos se via a tristeza, e das bocas só saía a pergunta: A que se deve isto? Por que fecham as igrejas, o que está acontecendo? E só se respondia: Quem sabe? Eu não sei. Em uma paróquia havia três sacerdotes, mas foram insuficientes para confessar tanta gente, não tinham tempo nem descanso para tomar seus alimentos, passavam os dias desde muito cedo até altas horas de noite sentados nos confessionários, mas não lhes foi possível confessar aquela multidão. Os dias e as horas transcorriam e passavam e se dissipavam. E a gente cabisbaixa e pensativa, que não acatava e não aceitava, decidia (sic) que não estava de acordo com aquela lei dada a conhecer e executada tão de repente; havia caído como um raio em todos os corações e em todas as mentes... Mas não havia remédio, tinham de obedecer. Mas não era somente isto: a lei arbitrária ditada por Plutarco Elías Calles não terminava com fechar os templos, mas que Deus tinha de sair dali, apesar de Ele ter dito: ‘Estarei convosco até a consumação dos séculos’. Esta promessa tinha de ser quebrada, Ele tinha de ir para as matas, Ele tinha de abandonar sua casa, assim como Ele um dia expulsou os mercadores do templo dizendo-lhes: ‘Minha casa é casa de oração’, mas um dia teve de deixá-la e fugir como um criminoso porque Calles o havia ordenado. Fechou-se o templo, o sacrário ficou deserto, ficou vazio, Deus já não está aí, foi-se para ser hóspede de quem queria dar-lhe pousada mesmo temendo ser prejudicado pelo governo; já não se ouvia o badalar dos sinos que chamam o pecador para que vá fazer sua oração. Só nos restava um consolo: que a porta do templo estava aberta e os fiéis, de tarde, iam rezar o Rosário e chorar suas culpas. O povo estava de luto, acabara-se a alegria, já não havia bem-estar nem tranqüilidade, o coração se sentia oprimido, e para completar tudo isso o governo proibiu reunião na rua como acontece se uma pessoa fica de pé diante de outra, pois isto era um delito grave” 1.
 
“Neste dia haveria missa solene às 12 horas da noite, e, desde que terminou o exercício vespertino, a nave do templo era materialmente insuficiente para a imensa multidão de fiéis. As visitas de joelhos, desde a porta até o altar, sucediam-se. Ninguém queria ver chegado aquele momento tão doloroso, mas Deus permitiu que assim fosse. Às 11:30h, os sinos com um alegre repicar, ou então com lúgubre canto, chamam para a missa. A Adoração Noturna, as associações piedosas e os agrupamentos católico-sociais, com seus contingentes e respectivas bandeiras, fizeram ato de presença com todos os fiéis. Às 12 em ponto foi feita a Exposição do Santíssimo, e, na seqüência, começou a Santa Missa. Depois do Evangelho, nosso querido Pe. González ocupou o púlpito... Logo que ele apareceu na tribuna, começou o pranto de todo o povo reunido aos pés de Jesus Hóstia. As palavras do padre, também cheias de dor, eram interrompidas... A missa continuou, e nela houve comunhão geral, e, terminado o Santo Sacrifício, nos foi dada a bênção com o Ostensório... Finalmente, o padre, sem os paramentos, ajoelhou-se ao pé do altar, com os olhos fixos na imagem do senhor das Misericórdias, despediu-se d’Ele e saiu misturado com os fiéis; Cristo e seu Ministro tinham ido embora.” 2  
 
"Mas naquele dia já não havia alegria, já não havia tranqüilidade, sentia-se algo estranho, todos os ânimos exaltados, exclamações de dor. Valha-nos Deus! Que nos irá acontecer? Certamente é o fim do mundo, diziam outros, e também outros diziam que são nossos pecados, que é isto e nada mais, e por todas as ruas se viam como multidões quando se pressente que vai chover. Muita surpresa causava ver pessoas que viviam afastadas dos sacramentos procurar o confessor para receber o perdão de seus pecados, outros, que viviam amasiados, pedindo que fossem unidos pelo matrimônio como Deus manda, e grande quantidade de batismos. Por fim foi rezado o rosário com grande fervor, com um eloqüente sermão, e depois o Santo Sacrifício da missa, pois era meia-noite, nem a igreja se fechou porque tantos fiéis acudiam aos sacramentos... não houve quem dormisse nessa inesquecível noite, comentando o futuro... Terminada a missa foi dada como despedida a bênção com o Santíssimo Sacramento, ficando tudo escuro. Meu Deus! Como descrever esta tremenda hora? Meus nervos se crispam, minha mão treme ao descrever o que se via e o que se ouvia. Acabava de se retirar o pai, e seus filhos... ficamos órfãos... Ficou aquele santo lugar como um mar de lágrimas; no meio das trevas saía a gente... repercutindo nas abóbadas todos os ais de dor que saíam de todas as bocas... ao sair em meio de tanta confusão tinham medo, porque gente em todos os lados gritava ‘o diabo, o diabo’...” 3  
      
 
24 de Julho de 1926: O Episcopado mal havia decretado a suspensão 
do culto público em todo o México. Esta medida, inaudita na história da
Igreja Universal, serviu para dar impulso à reação de 31 de Julho.  De 24
a 31 de Julho, dia e noite, filas enormes formavam-se nas portas das igrejas,
como na foto acima, tirada em frente da Catedral do México. Centenas de 
milhares de confissões, milhares de batismos e casamentos foram aqui 
administrados. Nestes dias de confusão, suplicavam os fiéis pela benção
de Jesus Sacramentado.
 
 
A Mobilização
 
Desde o começo, os bispos haviam declarado que a Igreja não podia consentir em ver a religião servindo de bandeira a um grupo político, e “ainda menos aprovar o levantamento armado, já que isto seria prejudicial para o povo e para o país”. “A Igreja opõe-se absolutamente ao uso da força armada para solucionar os problemas mexicanos” 4.
 
Haviam, pois, adotado suas medidas para evitar qualquer ocasião de conflito e acalmar os ânimos; por isso haviam decidido não fechar as igrejas, mas somente suspender o culto, pois fechar as igrejas poderia ser considerado “uma provocação para que o povo se rebelasse” 5. O fogoso Manriques y Zárate, que não vacilava em desafiar a cólera do presidente Calles chamando-lhe mentiroso, sempre havia proibido a seus fiéis recorrer à violência. Mons. Herrera y Piña, arcebispo de Monterrey, em sua instrução pastoral de 10 de março, recordava uma vez mais que “nunca será lícito recorrer à rebelião ou à violência para recobrar os direitos atualmente negados aos católicos. Quando não se pode impedir o mal com os escassos meios legais que ficam, devemo-nos limitar a uma atitude passiva, sem jamais esquecer o respeito devido às autoridades como representantes de Deus, pois, se elas abusam do poder, não nos compete pedir-lhes contas”.  
 
Todos os bispos empregaram mais ou menos os mesmos termos nas vésperas da suspensão dos cultos: “Volto a recomendar encarecidamente aos católicos que se abstenham de toda e qualquer manifestação que possa trazer desordens consigo. A oração, o sofrimento e a penitência nos salvarão” 6.  
 
O arcebispo de Puebla fez publicar na imprensa seu chamamento à serenidade, determinando “que não se insultem os militares... limitando-se a insistir sobre o Memorial” 7.
 
“Nós vos recomendamos com vigor que vos abstenhais de toda e qualquer violência e que confieis em... Deus” 8.
 
Mas o governo, depois da publicação da pastoral coletiva, havia ordenado às autoridades municipais que jamais devolvessem as igrejas a comitês vinculados ao clero, que fechassem e selassem todos os edifícios anexos aos templos e finalmente que fizessem um inventário deles antes de entregá-los aos comitês e de abri-los ao público. Os bispos reagiram, fazendo saber que não era permitido aos católicos fazer parte destes comitês nomeados pelas autoridades, e alguns até chegaram a declarar que as igrejas controladas por tais comitês estavam interditadas e que os católicos não podiam voltar a entrar nelas. Os católicos também não deviam ajudar a redigir as listas de sacerdotes, de igrejas, ou fazer inventários9.
 
Isto era procurar dificuldades muito sérias e tornar inevitável a violência. As autoridades de Sinaloa e Coiahuila compreenderam-no tão bem, que consultaram o clero quanto à conveniência da formação das famosas "juntas vecinales" (assembléia de vizinhos), o que permitiu que os inventários fossem feitos tranqüilamente e que as igrejas voltassem a se abrir sem incidentes10.
 
Mas estes estados foram exceção. E o que até então tinha ficado ausente, o povo, “o índio” de que nos falam os governantes, ainda que o povo esteja longe de ser composto somente de índios, reagiu. E reagiu violentamente. A população local, apegada às suas igrejas, viu no inventário uma profanação e reagiu com extrema violência, apesar de todas as precauções adotadas, sem que fosse possível livrá-la da manobra dos instigadores. Nota-se o fato de que nos informes policiais consultados nos estados de Jalisco, Querétaro e Zacatecas não se encontra esta explicação.   
 
O governo, assim como a Igreja, havia considerado e rechaçado a possibilidade de uma reação popular. Silvino Barba González conta que o presidente Calles, para resolver uma crise de política local, lhe propôs o posto de governador de Jalisco e que ele o recusou. Ante o assombro do presidente, disse-lhe: “Já arrisquei a vida várias vezes e continuarei a arriscá-la quando houver bons motivos para fazê-lo, mas não quando considere que todas as circunstâncias estão contra mim, como vejo claramente neste caso... Senhor presidente, o senhor não quer acreditar que os católicos fanáticos de meu estado vão levantar-se em armas, porque assim me deu a entender quando falamos sobre o assunto. O senhor general Joaquín Amaro, secretário de Guerra e Marinha, com quem tenho sincera amizade como o senhor sabe, também não quer crer, e o senhor general Jesús Ferrera, chefe das operações militares de Jalisco, também é da mesma opinião. Isto quer dizer que ao se realizar a sublevação, que eu considero absolutamente certa, o governo a meu cargo não contará com o apoio nem com a ajuda das forças armadas da Federação... Eis aqui uma carta (que prova estas coisas). Insistiu em seguida o senhor presidente, dizendo-me que continuava a acreditar que não poderia haver sublevação armada...” Barba González tentou convencê-lo de que “os dirigentes do clero, aproveitando certo desgosto que eles mesmos lograram despertar no povo por motivo das últimas regulamentações...”, iam tentar derrubar o governo11. Isto ocorria em 1926.
 
Se o presidente não podia acreditar na resistência do povo, se não via nas filas dos manifestantes nada mais do que beatas e anciãos, se pensava que os católicos careciam de virilidade, a realidade entretanto era outra: entre o governo e o povo o ritmo era diferente, e a carnificina ia começar; o assunto escapava aos bispos e passava às mãos dos católicos, que, “pondo-se unicamente no terreno da fé, parece que serão ainda mais intransigentes do que os chefes do Episcopado. Uma efervescência inquietante brotava em todos os lados, e o nervosismo público aumentava” 12.
 
Os responsáveis pela ordem local, conscientes da ameaça, como Silvino Barba González, e como os militares, reprimiram “com ferocidade selvagem os motins e distúrbios que surgiam aqui e ali”, o que “fazia recordar os regimes mais tirânicos da história mexicana” 13. Assim, dois dias antes da suspensão dos cultos, o ancião José García Farfán foi fuzilado em Puebla, pelo general Juan Guadalupe Amaya, por haver cometido o crime de ter no armário um cartaz com os dizeres “Viva Cristo Rei!”, fórmula já sediciosa, futuro grito de guerra daqueles a quem o governo, por zombaria, iria chama cristeros.  
 
As novidades do mês de agosto produziram a mobilização e a exasperação da população. As cidades onde houve resistência — isto acontecia principalmente no campo — foram postas em estado de sítio, enquanto as igrejas eram defendidas por centenas de manifestantes. O governo não quis ver nisso outra coisa além de uma reação de “índios embrutecidos pelo clero” e submissos pelo fanatismo — a frase repete-se em todas as notícias. O elemento determinante foi o apego à Igreja e a vontade de defendê-la, para defender uma religião profundamente entranhada; a Igreja era algo mais do que um edifício de pedras amontoadas, e a sensibilidade popular havia sido afetada na sua própria vida, uma vez que o profano e o sagrado se misturam inextricavelmente. Enquanto o governo sai de seus livros, de seu parlamento, de suas leis para agir contra a vida da fé, sua intervenção aparece como um sacrilégio e provoca uma verdadeira rebelião que prepara os levantamentos futuros.    
 
O trauma experimentado na noite de 31 de julho, com seu pesadelo, é a origem direta da insurreição. Mais de um, prostrado nas trevas na passagem do Santíssimo Sacramento, adotava individualmente a decisão. Foi na manhã seguinte, quando Aurelio Acevedo deu liberdade a seu “cavalo com o objetivo de encontrar carnes para que pudesse resistir ao duro trabalho a que estaria sujeito terminando as chuvas” 14. Este “duro trabalho” é a guerra, que Aurelio Acevedo preparava sem mais tardança, visitando todos os seus companheiros, do sindicato camponês de Valparaíso. 
 
Desde o começo da crise o povo estava em efervescência. Quando em março de 1926 o general Ortiz se apresentou para deter os sacerdotes de Valparaíso (Zacatecas), ‘o povo católico se alarmou... enviaram avisos para todas as redondezas, de modo que ao amanhecer já se tinha notícia até Mezquitic. Amanheceu com a povoação repleta de gente, mais que nas grandes solenidades, e nos limites da povoação havia gente armada, pois haviam combinado que, se Ortiz o levasse, eles se lançariam sobre ele. Deus não o permitiu” 15.
 
A mobilização começou realmente a partir da semana da Paixão de 1926, quando na maioria das dioceses se fez penitência para pedir misericórdia. De março a dezembro, incansavelmente o povo recorreu a “penitência e mais penitência, orações públicas, cantos de penitência.... Mas a angústia crescia, porque o governo permanecia insensível a tudo o que os católicos faziam e pediam, e com isto aumentava a fúria satânica... não se podiam suportar tais ordens, isto era uma canalhice do governo; já sentíamos os católicos odiá-lo mais do que ao próprio Satanás.... o açoite estava sobre nós” 16
 
Já se começava a falar da guerra que havia começado aqui e ali, e fazia-se penitência, “entrando de joelhos no templo, rezando o rosário para ver se Deus lhes concedia que não houvesse revolução para não derramar tanto sangue” 17.  
 
Durante estes meses, enquanto a esperança de vencer pacificamente ia diminuindo, um espírito novo tomava corpo, e as decisões, às vezes inconscientes, eram esclarecidas. É a época das assembléias permanentes, o tempo em que todo o povo monta guarda noite e dia, homens, mulheres, crianças e anciãos em suas igrejas, enquanto as peregrinações, as procissões, os atos públicos de penitência reúnem grandes multidões e constituem uma espécie de insurreição não-violenta, pois escarnecem as leis do governo.  
 
Em Cocula (Jalisco), desde 1º de agosto a igreja estava guardada noite e dia por 100 mulheres no interior e 150 homens no átrio e no campanário. Os cinco bairros de Cocula se revezavam em turnos, e a cada alarme era dado um sinal. Então todos acudiam imediatamente, como conta Porfiria Morales. No dia 5 de agosto tocou o sino quando ela estava na cozinha; sua criada María exclamou: “Ave, Maria Puríssima!” Tirou o avental, tomou seu manto e um pedaço de pau, e, quando ela lhe perguntou aonde ia, respondeu-lhe: “Que pergunta da minha senhora! Não ouve o sino que chama os católicos da Unión Popular? Em primeiro lugar as coisas de Deus!” E saiu deixando as panelas no fogo18
 
Já em agosto “foram organizadas peregrinações de uma povoação para outra, fazendo-se assim ato de fé publicamente”; assim todos os dias, milhares de peregrinos percorriam o campo, de Etzatlán a Ahualulco, de Ahualulco a San Pedro, de San Pedro a Etzatlán19. O mesmo fenômeno se repetiu em muitas outras partes: “Os atos de penitência foram incontáveis... peregrinações todos os dias, de manhã e de tarde, todos rezando o rosário ou a Via Crucis coroados de espinhos e com os pés descalços... não se deixou de ver alguma desordem por se haverem atacado diretamente algumas das mulheres que acompanhavam os soldados...” De San Martín Hidalgo, nove mil pessoas vão descalças até Cocula, levando os estandartes das confrarias e dos sindicatos católicos; de Cocuta onze mil pessoas marcham até San Martin e dali até Atemajac de Brizuela. “Muita gente foi ao encontro levando cestas de flores; davam a cada peregrino um ramalhete de flores, e seguiam na retaguarda rezando o rosário e cantando o hino guadalupano, Viva Cristo Rei” 20. De Atemajac marcharam até Cocula em companhia dos habitantes das aldeias encontradas no caminho, para celebrar a festa de Cristo Rei e jurar morrer por ele; juramento feito diante da bandeira mexicana. “Grossas lágrimas corriam no rosto de todos os assistentes.” 
 
No dia 12 de dezembro, a festa da Virgem de Guadalupe deu ocasião a novas peregrinações, que eram outras tantas assembléias públicas da Unión Popular, em que eram cantados os mistérios do rosário e se falava em tomar as armas21.
 
Os choques com o governo se multiplicavam, e deles nasceu a guerra; ao lado das provocações puras e simples, todos os atos das autoridades eram sentidos como agressões: desde o fechamento das igrejas torpemente ordenado pelo governo até a execução dos inventários, e os próprios inventários, a detenção de sacerdotes ou de dirigentes seculares eram outras causas diretas dos levantamentos defensivos de 1926. O desprezo com que o governo considerava as negociações pacíficas, como a petição ao Congresso, acabou por convencer os católicos: “Centenas de pessoas já assinamos papéis que foram enviados a Calles e seus sequazes, mas tudo foi inútil; foram feitas mais cartas, que também assinamos, e foram enviadas a Calles, mas nossos protestos foram jogados na cesta de papéis inúteis, e os sequazes de Calles se consideraram muito grandes e mais nos apertaram, matando pessoas e confiscando os bens particulares de católicos” 22.  
 
“Eu, ignorante mas com brio, ao saber dos novos atos deste governo, exaltei-me [...]; assim eram meus sentimentos, fui à procura de gente armada e disposta à guerra em defesa da liberdade, de Deus e dos próximos.” 23 
 
Nas assembléias se delineava claramente o problema: “Opinavam que seria necessário, por meio das armas, fazer uma revolução para ver se assim poderiam combater o governo, e Victoriano Ramírez (futuro grande chefe da guerra nos Altos de Jalisco) disse: ‘Não há mais remédio, nada mais do que atirar balaços’.” 24 
 
Por toda a parte reinava esta opinião, o mesmo em Coalcomán (Michoacán), em Santa María del Valle (Jalisco), em Cocula (Jalisco) ou em Santiago Bayacora (Durango), cujos habitantes reunidos em assembléia se perguntavam: “O que vamos fazer?” e respondiam como uma só pessoa: “Uma revolução!” 25. Mas “como tinha de ser assim se ninguém entendia de armas e muito menos sabia organizar tal movimento?... Todos tinham medo, nunca ninguém havia visto algo igual ao que se estava pensando, e sentiam-se inúteis para determiná-lo” 26.

  1. 1. Manuscrito de X, em Tlaltenango.
  2. 2. Cecilio Valtierra, "Memorias de mi atuación en el movimiento cristero em Jalpa de Cánovas, Guanajuato, em David, tomo II, pgs.312 e 317.
  3. 3. Josefina Arellano, "Narración histórica de la revolución cristera en el pueblo de San Julián, Jalisco, pgs.14, 15 e 16 (manuscrito em três cadernos). 
  4. 4. Pascual Díaz ao New York Times, 5 e 30 de agosto de 1926.
  5. 5. Pascual Díaz a Roma, em Carreño, obra cit. pg.123.
  6. 6. Exortação pastoral de Francisco Banegas, bispo de Querétaro, 29 de julho
    de 1926, volante.
  7. 7. El Universal, 31 de julho de 1926.
  8. 8. Querétaro, 31 de julho de 1926.
  9. 9. Emeterio Valverde y Téllez, bispo de León, 29 de julho de 1926, documento original. Volante em AAA.
  10. 10. Arquivos Coahuila, leg.36, exp.6, 1926.
  11. 11. S.Barba González, "Los cristeros", México 1967, pgs.35 e seg.
  12. 12. Lagarde, pg.90.
  13. 13. Idem pg.88.
  14. 14. Meyer/Acevedo.
  15. 15. Diário do padre Arroyo, 1 de março de 1926.
  16. 16. Josefina Arellano, obra cit.
  17. 17. J.J.F. Hernández, "Tierra de cristeros. Historia de Vitoriano Ramirez y de la revolución cristera en Los Altos de Jalisco", manuscrito de trezentos e setenta e nove páginas. 
  18. 18. David, t.IV, pg.188.
  19. 19. Meyer/Pedro Martinez, 1968.
  20. 20. "Datos históricos de los trabajos de la Union Popular en la ciudad de Cocula y datos de la defensa armada", quarenta e seis páginas manuscritas.
  21. 21. Idem.
  22. 22. Meyer/Ezequiel Mendoza Barragán, 1967, pp. 68-69.
  23. 23. Idem.
  24. 24. J.J.F. Hernández, "Tierra de cristeros...".
  25. 25. Andrés Lira/Francisco Campos, 1969.
  26. 26. Josefina Arellano, obra cit.
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