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Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P. (97)

A mãe do Redentor e de todos os homens

Esses dois títulos são evidentemente intimamente conexos, e o segundo deriva do primeiro. Será, pois, muito importante considerar um após o outro.

Artigo 2: A Mãe de todos os homens

Maria recebeu, segundo a Tradição, não somente o título de nova Eva, senão o de Mãe da Divina Graça, Mãe Amável, Mãe Admirável, como a chamam as ladainhas, e ainda Mãe de Misericórdia. Os Padres chamam-na muitas vezes de Mãe de todos os cristãos e mesmo de todos os homens. Em que sentido deve-se entender essa maternidade? Quando Maria tornou-se a nossa Mãe? Como sua maternidade se estende a todos os fiéis, mesmo que não estejam em estado de graça, e como a todos os homens, mesmo aqueles que não possuem a fé? Essas são as questões que convém examinar aqui.

 

Em que sentido Maria é nossa Mãe?

Ela não é, evidentemente, nossa mãe do ponto de vista natural, pois não nos deu a vida corporal. Sob esse aspecto, Eva é que merece ser chamada de mãe de todos os homens, pois todos descendemos dela mediante gerações sucessivas.

No entanto, Maria é nossa mãe espiritual e adotiva, no sentido em que, por sua união ao Cristo Redentor, comunicou-nos a vida sobrenatural da graça. A partir desse ponto de vista, ela é muito mais que nossa irmã, e pode ser chamada, por analogia com a vida natural, nossa Mãe, pois nos gerou para a vida da graça.

Se São Paulo pode dizer aos Coríntios, falando de sua paternidade espiritual: “Eu os gerei em Jesus Cristo por meio do Evangelho1, e a Filêmon: “Rogo-te por meu filho, Onésimo, que eu gerei nas prisões (convertendo-o a Cristo)2, com muito mais razão podemos falar da maternidade espiritual de Maria, maternidade que transmite uma vida que deve durar não sessenta ou oitenta anos, mas para sempre, eternamente.

Essa é uma maternidade adotiva, como a paternidade espiritual de Deus com respeito aos justos, mas essa adoção é muito mais íntima e fecunda que a adoção humana, pela qual um rico sem descendência declara considerar um pobre órfão como seu filho e herdeiro. Essa declaração é sempre de ordem jurídica e, ainda que seja o sinal da afeição daquele que adota, não produz o menor efeito na alma da criança adotada. Ao contrário, a paternidade adotiva de Deus com relação ao justo produz na alma do adotado a graça santificante, a participação da natureza divina ou da vida íntima de Deus e germe da vida eterna, germe pela qual o justo é agradável aos olhos de Deus como um filho chamado a vê-lo imediatamente e a amá-lo por toda a eternidade. Nesse sentido, diz-se no Prólogo de São João3 que aqueles que crêem no Filho de Deus feito homem são “nascidos não da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Isso nos mostra a fecundidade da paternidade espiritual; dessa fecundidade participa a maternidade espiritual e adotiva de Maria, porque, em união com o Cristo Redentor, ela nos tem comunicado verdadeira e realmente a vida da graça, germe da vida eterna. Ela pode, portanto, e deve ser chamada de Mater gratiae, Mater Misericordiae. É isso que querem dizer os Padres ao chamá-la de nova Eva, dizendo que tem voluntariamente cooperado para a nossa salvação, como Eva o fez para a nossa ruína.

Esse ensinamento é parte da pregação universal a partir do século II e se encontra em São Justino, Santo Irineu, Tertuliano, São Cirilo de Jerusalém, Santo Epifânio, São João Crisóstomo, São Proclo, São Jerônimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, onde eles falam da nova Eva nas passagens citadas no artigo precedente. Essa doutrina foi particularmente desenvolvida no século IV por Santo Efrém, que chama Maria de “a Mãe da vida e da salvação, a Mãe dos viventes e de todos os homens”, porque nos deu o Salvador e uniu-se a Ele no Calvário 4. Falam no mesmo sentido São Germano de Constantinopla 5, São Pedro Crisólogo 6, Eadmero 7, São Bernardo 8, Ricardo de São Lorenzo 9 e Santo Alberto Magno, que chamam Maria de: Mater misericordiae, Mater regenerationis, totius humani generis mater spiritualis 10, e igualmente São Boaventura 11.

A liturgia diz todos os dias: “Salve, Regina, Mater misericordiae...; Monstra te esse Matrem...; Salve, Mater misericordiae, Mater Dei et Mater veniae, Mater spei et Mater gratiae”.

 

Quando Maria tornou-se nossa Mãe?

Segundo os testemunhos que acabamos de citar, Maria tornou-se nossa Mãe ao consentir livremente em ser a Mãe do Salvador, o autor da graça, que nos regenerou espiritualmente. Nesse instante, ela concebeu-nos espiritualmente, de tal maneira que teria sido nossa mãe adotiva por esse fato, ainda que tivesse morrido antes de seu Filho.

Quando depois Jesus consumou a sua obra redentora pelo sacrifício da Cruz, Maria, ao unir-se a esse sacrifício pelo imenso ato de fé, confiança e amor a Deus e às almas, tornou-se, de um modo mais perfeito, nossa Mãe, por uma cooperação mais direta, mais íntima e mais profunda em nossa salvação.

Ademais, nesse momento foi proclamada nossa Mãe por Nosso Senhor, quando Ele lhe disse, ao falar de São João, que personificava a todos os que deveriam ser resgatados pelo seu sangue: “Mulher, eis aqui seu filho”, e a João: “Eis aqui a Sua Mãe” 12. É assim que a Tradição tem entendido essas palavras, porque nesse momento e diante de tantas testemunhas o Salvador de todos os homens não concedia somente uma graça particular a São João, mas considerava nele todos aqueles que deveriam ser regenerados pelo sacrifício da Cruz 13.

Essas palavras de Jesus em seus derradeiros instantes, como as palavras sacramentais, produziram o que significavam: na alma de Maria um grande aumento de caridade ou de amor maternal por nós; na alma de João um afeto filial profundo e cheio de respeito pela Mãe de Deus. Essa é a origem da grande devoção a Maria.

Finalmente, a Santíssima Virgem continua exercendo sua função de Mãe com relação a nós, velando sobre nós para que cresçamos na caridade e perseveremos nela, intercedendo por nós e distribuindo-nos todas as graças que recebemos.

 

Qual é a extensão de sua maternidade?

Maria é, em primeiro lugar, a Mãe dos fiéis, de todos os que crêem em Seu Filho e recebem por Ele a vida da graça. Mas é também a Mãe de todos os homens, uma vez que nos deu o Salvador de todos e uniu-se à oblação de seu Filho, que derramou seu sangue por todos. Isso é o que afirmam os Papas Leão XIII, Bento XV e Pio XI 14.

Ademais, não é somente Mãe dos homens em geral, como se pode dizer de Eva do ponto de vista natural, mas é Mãe de cada um em particular, porque intercede em favor de cada um e obtém as graças que cada um de nós recebe no transcurso das gerações humanas. Jesus diz de si mesmo que é o Bom Pastor “que chama as suas ovelhas, cada uma pelo seu nome, nominatim15; algo semelhante acontece com Maria, a Mãe espiritual de cada homem em particular.

No entanto, Maria não é da mesma maneira Mãe dos fiéis e dos infiéis, dos justos e dos pecadores. Deve-se fazer aqui a distinção admitida a respeito de Jesus Cristo em comparação aos diversos membros de Seu Corpo Místico 16. Em relação aos infiéis, ela é sua Mãe enquanto está destinada a gerá-los para a vida da graça, e enquanto lhes obtém graças atuais que os dispõem à fé e à justificação. Em relação aos fiéis que estão em estado de pecado mortal, ela é sua Mãe enquanto vela atualmente por eles obtendo-lhes graças necessárias para fazer atos de fé, de esperança e dispô-los à conversão; no que diz respeito aos que morrem na impenitência final, Maria não é mais sua Mãe, mas o foi. Em relação aos justos, é perfeitamente sua Mãe, uma vez que eles têm recebido, por sua cooperação voluntária e meritória, a graça santificante e a caridade; vela por eles com terna solicitude para que permaneçam em estado de graça e que cresçam na caridade. É finalmente a Mãe por excelência dos bem-aventurados que não podem perder a vida da graça.

Vê-se agora todo o sentido das palavras que a Igreja canta todas as noites na oração de Completas: “Salve, Rainha, Mãe de misericórdia; vida, doçura e esperança nossa, salve. A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas...”.

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São Luís Grignion de Montfort expôs admiravelmente as conseqüências dessa doutrina em seu belíssimo livro Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem 17: Deus quer se servir de Maria na santificação das almas. Isso se resume assim em O segredo de Maria 18: “Ela deu a vida ao Autor de toda graça, e por isso é chamada de Mãe da graça. Deus Pai, de quem procedem, como de sua fonte essencial, todo dom perfeito e toda graça, deu-lhe seu Filho, deu-lhe todas as graças; de modo que, como diz São Bernardo, a vontade de Deus lhe é dada n'Ele e com Ele.

“Deus a escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças, de maneira que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos... Uma vez que Maria formou Jesus Cristo, a Cabeça dos predestinados, a Ela também compete formar os membros dessa Cabeça, que são os verdadeiros cristãos... Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para alimentá-las e fazê-las crescer em Deus. Santo Agostinho chega mesmo a dizer que, neste mundo, os predestinados estão todos guardados no seio de Maria, e que não nascem senão quando essa boa Mãe os gera para a vida eterna... Foi a ela que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices (Ecl 24,13): Lançai raízes em meus eleitos... as raízes de uma profunda humildade, de uma ardente caridade e de todas as virtudes. 

“Maria é chamada por Santo Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus feito homem foi formado... e é assim nela somente que o homem pode ser formado em Deus... Todo aquele que é lançado nesse molde e se deixa modelar, recebe todos os traços de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, de uma maneira proporcionada à fraqueza humana, sem muitas penalidades e trabalhos; de uma maneira segura, sem temor de ilusões, pois o demônio nunca teve e jamais terá acesso a Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.

“Quanta diferença existe entre uma alma formada em Jesus Cristo pelas vias ordinárias dos que, como escultores, confiam na própria habilidade e apóiam-se em sua indústria, e outra alma bem manejável, bem desligada, bem fundida, e que, sem nenhum apoio em si mesma, lança-se em Maria e nela se deixa conduzir pela operação do Espírito Santo! Quantas faltas e defeitos, quantas trevas e ilusões, quanto de natural e de humano há na primeira alma, enquanto que a segunda é pura, divina e semelhante a Jesus Cristo!...

“Feliz, mil vezes feliz, é a alma, aqui na Terra, a quem o Espírito Santo revela o segredo de Maria, para conhecê-la, e à qual abre esse jardim fechado, para aí penetrar; essa fonte selada, para dela extrair e saborear a grandes sorvos as águas vivas da graça! Essa alma achará somente a Deus, sem criatura alguma, nessa amável criatura; Deus, que é ao mesmo tempo infinitamente santo e infinitamente condescendente e proporcionado à sua fraqueza... É Deus somente que vive nela [em Maria] e, longe de deter uma alma para si, lança-a, pelo contrário, em Deus e a une a Ele”.

Assim, a doutrina cristã sobre Maria torna-se, com o Santo de Montfort, o objeto de uma fé penetrante e deleitável, de uma contemplação que leva por si mesma a uma verdadeira e vigorosa caridade.

 

Maria, causa exemplar dos eleitos

Cristo é o nosso modelo e sua predestinação à filiação divina natural é a causa exemplar de nossa predestinação à filiação adotiva, pois “Deus nos predestinou para sermos feitos em conformidade à imagem de seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” 19. Assim também Maria, nossa Mãe, associada a seu Filho, é a causa exemplar da vida dos eleitos, e é nesse sentido que Santo Agostinho e depois dele São Luís de Montfort dizem que ela é o molde ou o modelo à imagem do qual Deus forma os eleitos. É necessário estar marcado com seu sinal e reproduzir seus traços para ter lugar entre os prediletos do Senhor; e por isso os teólogos ensinam comumente que uma verdadeira devoção a Maria é um dos sinais de predestinação. O bem-aventurado Hugo de São Caro chega a dizer que Maria é como o livro da vida 20, ou um reflexo desse livro eterno, porque Deus escreveu nela o nome dos eleitos, como quis formar nela e por ela a Cristo, seu primeiro eleito.

São Luís Grignion de Montfort 21 escreveu que Deus Filho diz à sua Mãe: “‘In Israel hereditare ― Possui tua herança em Israel’ (Eclo 24, 13), como se dissesse: Deus, meu Pai, deu-me por herança todas as nações da Terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os conduzirei, uns pela vara de ouro, outros pela vara de ferro; serei o pai e advogado de uns, o justo vingador para outros, e o juiz de todos; mas vós, minha querida Mãe, só tereis por herança e possessão os predestinados, figurados por Israel. Como sua boa mãe vós lhes dareis a vida, os nutrireis, educareis; e, como sua soberana, os conduzireis, governareis e defendereis”.

É nesse mesmo sentido que se deve entender o que diz o próprio autor, um pouco adiante 22, ao mostrar que Maria, assim como Jesus, escolhe sempre em conformidade ao beneplácito divino que inspira sempre a sua eleição: “O Altíssimo a fez tesoureira de todos os seus bens, dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer a quem ela quiser, para fazer entrar quem ela quiser no caminho estreito do Céu, para deixar passar, apesar de tudo, quem ela quiser pela porta estreita da vida eterna. E para dar o trono, o cetro, e a coroa de rei a quem ela quiser... A Maria somente Deus confiou as chaves dos celeiros (Ct 1, 3) do divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e mais secretas da perfeição, e de nesses caminhos fazer entrar os outros”.

Vemos nisso toda a extensão da maternidade espiritual, pela qual Maria modela os eleitos e os conduz ao término do seu destino.

  1. 1. 1 Cor 4, 15.
  2. 2. Fm 1, 10. São Paulo diz aos Gálatas (Gl 4, 19): “Filhinhos meus, por quem eu sinto de novo as dores de parto, até que Cristo se forme em vós”.
  3. 3. Jo 1, 13.
  4. 4. Opera S. Ephraem Syr., edic. Assemani, t. II, sírio-latim, pp. 324, 327; III, 607.
  5. 5. Sermo in Dorm. Deip., 2 e 5.
  6. 6. Serm. 140 et 142.
  7. 7. De Exc. V. M., c. II, 5.
  8. 8. Serm. de Aquaed., n. 4 ss.
  9. 9. De Laud. B. M. V., 1. VI, c. I, n. 12; 1. IV, c. 14, n. 1.
  10. 10. Mariale, q. 29, n. 3; q. 42, 43.
  11. 11. Serm. VI in Ass. B. M. V., e I Sent., d. 48, a. 2, q. 2, dub. 4.
  12. 12. Jo 19, 26-27.
  13. 13. Essa explicação, sugerida por orígenes no século III, Praef. in Joan., i, 6, está explicitamente enunciada por muitíssimos autores, especialmente após o século XII; cf. ruperto, in Joan., lect. 13; santo alberto magno, Mariale, q. 29., 3, Serm. de Sanctis, 53; a partir de então tornou-se comum e foi reconhecida pelos Papas como crença universal da Igreja. Cf. bento xiv, bula Gloriosae Dominae, de 22 de setembro de 1748; gregório xvi, bula Praestantissimum; leão xiii, enc. Octobri mense, de 22 de setembro de 1891; Adjutricem, de 5 de setembro 1895; Augustissimae Virginis, de 12 de setembro de 1897; Pio X, Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904; benedicto xv, Inter de sodalicia, de 22 de março de 1918; pio xi, explorata res, datada de 2 de Fevereiro de 1923.
  14. 14. leão xiii não só chama Maria de mãe dos cristãos, mas do gênero humano, enc. Octobri Mense, de 22 de setembro de 1891; epist. Amantissimae voluntatis, de 14 de abril de 1895; enc. Adjutricem populi, de 25 de setembro de 1895. bento xv chama-a de Mãe de todos os homens, carta apost. Inter sodalicia, de 22 de março de 1918; e igualmente pio xi, carta apost. Explorata res, de 2 de fevereiro de 1923; e na enc. Rerum Ecclesiae, de 22 de fevereiro de 1926.
  15. 15. Jo 10, 3.
  16. 16. Cf. santo tomás, IIIª, q. 8, a. 3.
  17. 17. Cap. 1, art. 1, 2º parágrafo.
  18. 18. 1ª parte B. (Por que Maria nos é necessária?)
  19. 19. Rm 8, 29.
  20. 20. Comm. in Eccles., XXIV.
  21. 21. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, cap. I, a. 1, pp. 36-37 – Ed. Vozes (Petrópolis), 40ª edição
  22. 22. Ibid. a. 2, pp.46-47.

Artigo 1: A Mãe do Salvador associada à sua obra redentora

A Igreja chama Maria não só de Mãe de Deus, mas também de Mãe do Salvador. Nas ladainhas lauretanas, por exemplo, após as invocações de Sancta Dei Genitrix e Mater Creatoris, lê-se Mater Salvatoris, ora pro nobis.

Não há aqui, como alguns poderiam pensar e o veremos melhor depois, uma dualidade1 que diminuiria a unidade da Mariologia como que dominada por dois princípios distintos: “Mãe de Deus” e “Mãe do Salvador, associada à sua obra redentora”. A unidade da Mariologia é mantida porque Maria é “Mãe de Deus Redentor ou Salvador”. Da mesma forma, os dois mistérios da Encarnação e da Redenção não constituem uma dualidade que diminuiria a unidade do tratado de Cristo ou Cristologia, porque se trata da “Encarnação Redentora”; o motivo da Encarnação está suficientemente indicado no Credo, onde se diz do Filho de Deus que desceu do Céu para a nossa salvação: “E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu do Céu” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

Vejamos como Maria tornou-se a Mãe do Salvador por seu consentimento e, em seguida, como, em virtude de ser Mãe do Salvador, foi associada à sua obra redentora.

 

Maria tornou-se a Mãe do Redentor pelo seu consentimento

No dia da Anunciação, a Santíssima Virgem deu o seu consentimento à Encarnação redentora quando o arcanjo Gabriel lhe disse2: “eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus”, que quer dizer salvador.

Maria não ignorava as profecias messiânicas, principalmente as de Isaías, que anunciavam claramente os sofrimentos redentores do Salvador prometido. Ao dizer seu fiat, no dia da Anunciação, ela generosamente aceitou de antemão todos os sofrimentos que a obra da redenção acarretaria para seu Filho e para si mesma.

Ela conheceu esses sofrimentos mais explicitamente alguns dias depois, quando o santo Simeão disse-lhe: “Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra. Porque os meus olhos viram a tua salvação, a qual preparastes ante a face de todos os povos3. Ela compreendeu mais profundamente ainda a parte que devia tomar nos sofrimentos redentores, quando o santo ancião acrescentou, referindo-se a ela: “Eis que este (menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição e uma espada de dor transpassará a tua alma4. Lê-se um pouco adiante5 que “Maria guardava todas essas coisas em seu coração”; o plano divino esclarecia-se cada vez mais para sua fé contemplativa, que se tornava mais penetrante e aguda pela iluminação e pelas luzes do dom da inteligência.

Maria tornou-se, portanto, voluntariamente a Mãe do Redentor como tal; e compreendia mais e mais que o Filho de Deus se tinha feito homem para nossa salvação, como diria posteriormente o Credo. Desde então, uniu-se a Jesus como só uma Mãe, e uma Mãe tão santa como ela, poderia fazer, numa perfeita conformidade de vontade e de amor a Deus e às almas. Essa é a forma especial que toma nela o supremo mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo6. Nada mais simples, mais profundo, nem maior.

A Tradição compreendeu isso muito bem, uma vez que não cessou de dizer: como Eva esteve unida ao primeiro homem na obra da perdição, Maria devia estar unida ao Redentor na obra da reparação.

Mãe do Salvador, ela percebeu, de forma cada vez mais completa, como Ele devia cumprir Sua obra redentora. Bastava-lhe apenas recordar as profecias messiânicas bem conhecidas de todos. Isaías7 anunciou as humilhações e os sofrimentos do Messias, que as suportaria para expiar as nossas faltas, que seria a própria inocência, e que conquistaria, por sua morte generosamente oferecida, grandes multidões 8.

Davi, no Salmo 21: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, descreveu a súplica suprema do Justo por excelência, o seu grito de angústia na mais profunda prostração, e ao mesmo tempo a sua confiança em Yahweh, seu apelo supremo, seu apostolado e seus efeitos em Israel e entre as nações9. Maria conhecia evidentemente esse salmo e o meditava em seu coração.

O profeta Daniel descreveu também o reino do Filho do Homem e o poder que lhe será conferido: “E ele lhe deu o poder, a honra e o reino; e todos os povos, tribos e línguas o serviram; o seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado; e o seu reino não será jamais destruído10.

Toda a Tradição tem visto nesse Filho do Homem, como no homem das dores de Isaías, o Messias prometido como Redentor.

Maria, que não ignorava essas promessas, tornou-se, por seu consentimento no dia da Anunciação, a Mãe do Redentor como tal. Deste consentimento: “fiat mihi secundum verbum tuum”, depende tudo o que se segue na vida da Santíssima Virgem, como toda a vida de Jesus depende do consentimento que Ele deu “ao entrar neste mundo”, quando afirmou: “não quiseste hóstia, nem oblação, mas me formaste um corpo; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade11.

Também os Padres disseram que a nossa salvação dependia do consentimento de Maria, que concebeu seu Filho em espírito antes de concebê-Lo corporalmente 12.

Pode-se objetar que um decreto divino, como aquele da Encarnação, não pode depender do livre consentimento de uma criatura, que poderia recusá-lo.

A teologia responde: segundo o Dogma da Providência, Deus quis eficazmente e previu infalivelmente todo o bem que acontecerá de fato no decorrer dos tempos. Quis, pois, eficazmente e previu infalivelmente o consentimento de Maria, condição prévia da realização do mistério da Encarnação. Desde toda a eternidade, Deus, que opera tudo “com força e suavidade”, decidiu outorgar a Maria uma graça eficaz que lhe fará dar esse consentimento livre, salutar e meritório. Da mesma forma que faz florescer as árvores, Deus faz florescer também nossa livre vontade fazendo-a produzir seus atos bons; longe de violentá-la nisso, Ele a atualiza e produz nela, e com ela, o modo livre de nossos atos, que é ainda ser. Esse é o segredo do Deus Onipotente. Da mesma maneira que, por obra do Espírito Santo, a Virgem Maria concebeu o Salvador sem perder a virgindade, assim também, pela moção da graça eficaz, disse infalivelmente o seu fiat sem que sua liberdade fosse em nada lesada ou diminuída; ao contrário, por esse contato virginal da moção divina e da liberdade de Maria, esta floresceu muitíssimo espontaneamente nesse livre consentimento dado em nome da humanidade.

Esse fiat era totalmente de Deus, como causa primeira, e totalmente de Maria, como causa segunda. Da mesma maneira, uma flor ou um fruto são totalmente de Deus, como autor da natureza, e totalmente da árvore que os carrega, como causa segunda.

Nesse consentimento de Maria, vemos um perfeito exemplo do que diz Santo Tomás13: “Ora, a vontade divina, sendo eficacíssima, não somente produz as coisas que quer que se façam, mas, também do modo pelo qual assim as quer. Ora, Deus quer que algumas se façam necessariamente, outras, contingentemente”. “Como nada resiste à vontade divina, resulta que, não somente se farão as coisas que Deus quer que se façam, mas se farão contingente ou necessariamente, conforme ele o quiser” 14.

Maria, por seu fiat no dia da Anunciação, tornou-se, portanto, voluntariamente a Mãe do Redentor como tal.

Toda a Tradição o reconhece ao chamá-la de a Nova Eva. Ela só o pode ser efetivamente porque, por seu consentimento, tornou-se Mãe do Salvador para a obra redentora; do mesmo modo que Eva, ao consentir na tentação, induziu o primeiro homem ao pecado que o fez perder para si e para nós a justiça original.

Os protestantes têm objetado: os antepassados da Santíssima Virgem podem, desse modo, ser chamados pai ou mãe do Redentor, e dizer-se deles que estiveram “associados à sua obra redentora”. É fácil responder que somente Maria foi iluminada para consentir em se tornar a Mãe do Salvador e estar associada à sua obra de salvação, porque seus antepassados sequer sabiam que o Messias nasceria de sua própria família. 

Santa Ana não podia prever que a sua filha tornar-se-ia um dia a mãe do Salvador prometido.

 

Como a Mãe de Redentor esteve associada à Sua obra?

Conforme isso que os Padres da Igreja nos transmitiram sobre Maria, a Nova Eva, que muitos dentre eles vêem anunciado nas palavras divinas do Gênesis15: “A posteridade da mulher esmagará a cabeça da serpente”, é uma doutrina comum e certa na Igreja, e mesmo próxima da , a que afirma que a Santíssima Virgem, Mãe do Redentor, foi associada a Ele na obra da redenção como causa segunda e subordinada, da mesma maneira que Eva esteve associada a Adão na obra da perdição 16.

De fato, já no século II, essa doutrina de Maria, a nova Eva, está universalmente admitida, e os Padres que a expõem não o fazem como se fosse uma especulação pessoal, mas como doutrina tradicional da Igreja que se apóia nas palavras de São Paulo, onde o Cristo é chamado de novo Adão e é contraposto ao primeiro, como a causa da salvação opõe-se à da queda 17. Os Padres aproximam dessas palavras de São Paulo o relato da queda, a promessa da redenção, da vitória sobre o demônio18 e o relato da Anunciação19, onde se fala do consentimento de Maria para a realização do mistério da Encarnação redentora. Pode-se, portanto, e mesmo deve-se ver nessa doutrina de Maria ― a nova Eva associada à obra redentora de seu Filho ― uma tradição divino-apostólica 20.

Os Padres que a expõem mais explicitamente são: São Justino21, Santo Irineu22, Tertuliano23, São Cipriano24, Orígenes 25, São Cirilo de Jerusalém26, Santo Efrém 27, Santo Epifânio28, São João Crisóstomo29, São Proclo30, São Jerônimo31, Santo Ambrósio32, Santo Agostinho33, Basílio de Selêucia34, São Germano de Constantinopla35, São João Damasceno36, Santo Anselmo 37 e São Bernardo 38. Posteriormente, todos os doutores da Idade Média e os teólogos modernos falam no mesmo sentido 39.

Em que sentido, segundo a tradição, Maria, a nova Eva, esteve associada, aqui na Terra, à obra redentora de seu Filho?

Não só esteve associada por tê-lo fisicamente concebido, dado à luz e o alimentado, mas moralmente por seus atos livres, salutares e meritórios.

Assim como Eva cooperou moralmente com a queda, cedendo à tentação do demônio, por um ato de desobediência e induzindo Adão ao pecado, Maria, a nova Eva, pelo contrário, segundo o plano divino, cooperou moralmente em nossa redenção, acreditando nas palavras do arcanjo Gabriel, consentindo livremente no mistério da Encarnação redentora e em todos os sofrimentos que esse mistério acaretaria para seu Filho e para si mesma.

Maria certamente não é a causa principal e efetiva da redenção; não podia nos resgatar de condigno, por justiça, porque faltava a ela um ato teândrico de valor intrinsecamente infinito, que só podia pertencer a uma pessoa divina encarnada. Mas Maria é realmente causa secundária, subordinada a Cristo e dispositiva de nossa redenção. Ela é mesmo dita “subordinada a Cristo,” não só no sentido de que lhe é inferior, mas também porque contribui com a nossa salvação por uma graça proveniente dos méritos de Cristo, e então age n'Ele, com Ele e por Ele, in ipso, cum ipso et per ipsum. Não se deve nunca perder de vista que Cristo é o mediador universal supremo e que Maria foi resgatada pelos méritos do Salvador, por uma redenção não libertadora, mas preservadora, uma vez que foi preservada do pecado original e também de toda falta pelos méritos futuros do Salvador de todos os homens. Ela também não contribui para a nossa redenção mais que por Ele, no sentido em que é causa secundária, subordinada, e não perfectiva, mas dispositiva, pois nos dispõe a receber a influência de seu Filho que, por ser o autor de nossa salvação, deve completar em nós a redenção.

Maria está, então, associada à obra de seu Filho, não como o foram os Apóstolos, mas em sua qualidade de Mãe do Redentor como tal, depois de ter dado seu consentimento ao mistério da Encarnação redentora e a todas as conseqüências que esse mistério comportaria; esteve, portanto, associada a Ele da maneira mais íntima, como só uma Mãe santa pode estar, com todo o seu coração e toda a sua alma sobrenaturalizada pela plenitude da graça. Isso é o que afirma em termos muito exatos Santo Alberto Magno, numa fórmula que já citamos: “Beata Virgo Maria non est assumpta in ministerium a Domino, sed in consortium et in adjutorium, secundum illud: Faciamus ei adjutorium simile sibi”40.

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Vê-se, portanto, que a unidade da Mariologia não é diminuída como se estivesse dominada por dois princípios (Mãe de Deus e Corredentora) e não por um somente. O princípio que a domina é o seguinte: Maria é a Mãe do Deus Redentor, e por esse mesmo título está associada à sua obra. Da mesma forma, os dois mistérios da Encarnação e da Redenção não constituem uma dualidade que diminuiria a unidade da Cristologia, porque os dois unem-se na Encarnação redentora; essa união está expressa no próprio Credo nestes termos: “Filius Dei qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis, et incarnatus est” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano).

Ademais, como em Jesus Cristo a Filiação divina natural ou a graça da união hipostática é superior à plenitude de graça habitual e à nossa redenção, assim também em Maria a Maternidade Divina é superior à plenitude de graça que se derrama sobre nós, como demonstramos no primeiro capítulo deste livro. A unidade da ciência teológica contribui para essa certeza; essa ciência não pode ser dominada por primeiros princípios coordenados, mas por princípios subordinados. E o mesmo acontece com cada um de seus tratados, uma vez que todos eles em conjunto estão subordinados a uma verdade suprema.

  1. 1. O professor bittremieux, De supremo principio Mariologiae in ephe. theol. lovan., 1931, embora não negue que a Mariologia possa num certo sentido ser reduzida a um único princípio, insiste principalmente nessa dualidade. Cf. merkelbach, Mariologia, pp. 91 ss.
  2. 2. Lc 1, 31.
  3. 3. Lc 2, 29-30.
  4. 4. Lc 2, 34-35.
  5. 5. Lc 2, 51.
  6. 6. Dt 6, 5; Lc 10, 27.
  7. 7. Is 53, 3-12.
  8. 8. “Ele era desprezado, e o útimo dos homens; um homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e o seu rosto estava encoberto; era desprezado, e por isso nenhum caso fizeram dele. Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas (e pecados), e ele mesmo carregou com nossas dores; e nós o reputamos como um leproso, e como um homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi ferido por causa das nossas iniqüidades, foi despedaçado por causa dos nossos crimes; o castigo que nos devia trazer a paz caiu sobre ele, e nós fomos sarados com as suas pisaduras. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou por seu caminho; e o Senhor carregou sobre ele a iniqüidade de todos nós. Foi oferecido (em sacrifício), porque ele mesmo quis, e não abriu a sua boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e uma ovelha diante do que a tosquia, guardou silêncio e não abriu sequer a sua boca. Ele foi tirado pela angústia e pelo juízo. Quem contará a sua geração? Porque ele foi cortado da terra dos viventes; eu o feri por causa da maldade do meu povo. E (o Senhor) lhe dará os ímpios (convertidos) em recompensa da sua sepultura, e o rico em recompensa da sua morte; porque ele não cometeu iniqüidade, nem nunca se achou dolo na sua boca. E o Senhor quis consumi-lo com sofrimentos, mas quando tiver oferecido a sua vida pelo pecado, verá uma descendência perdurável, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Verá o fruto do que a sua alma trabalhou, e ficará satisfeito. Esse mesmo justo meu servo (diz o Senhor) justificará muitos com a sua ciência, e tomará sobre si as suas iniqüidades. Por isso eu lhe darei por sorte uma grande multidão (de nações), e ele distribuirá os despojos dos fortes, porqu entregou a sua vida à morte, e foi posto no sofrimento dos malfeitores, e tomou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos pecadores”.
  9. 9. Sl 21, 17 e ss. “Transpassaram as minhas mãos e os meus pés, posso contar todos os meus ossos. Eles olham e, ao ver-me, se alegram; repartem entre si os meus vestidos, e lançam sortes sobre a minha túnica. Mas tu, Senhor, não estejas longe de mim; meu amparo apressa-te a ajudar-me. Livra da espada a minha alma, e das garras dos cães a minha vida. Salva-me da boca do leão e das hastes dos búfalos a mim, mísero. Anunciarei o teu nome aos meus irmãos; no meio da assembléia te louvarei. Vós que temeis o Senhor, louvai-o; vós todos, que sois a descendência de Jacó, glorificai-o; tema-o, toda a posteridade de Israel. Porque ele não desprezou nem desdenhou a miséria do mísero. Nem apartou a sua face dele, mas ouviu-o, quando lhe clamava. De ti procede o meu louvor na grande assembléia; cumprirei os meus votos em presença dos que o temem. Os pobres comerão e serão saciados; louvarão o Senhor os que o buscam: Vivam para sempre os vossos corações! Lembrar-se-ão e converter-se-ão ao Senhor todos os limites da Terra; e prostrar-se-ão diante dele todas as famílias das nações, porque o reino pertence ao Senhor, e ele impera sobre as nações. Só a ele adorarão todos os que dormem na sepultura, ante ele se inclinarão todos os que descem ao pó. E a minha alma viverá para ele, a minha descendência o servirá, falará do Senhor à geração vindoura, e anunciarão a sua justiça ao povo que há de nascer: Tudo isso fez o Senhor”.
  10. 10. Dn 7, 14.
  11. 11. Hb 10, 6-7.
  12. 12. Cf. S. Agostinho, De Virg., c. 3, nº 31; S. Gregório Magno, Homil. 38 in Evang.; S. Leão Magno, Serm. 20 in Nat. Domin., c. I; S. Bernardo, Homil. IV super Missus est; S. Lorenzo Justiniano, Serm. de Ann.
  13. 13. Iª, q. 19, a. 8.
  14. 14. Ibid.
  15. 15. Gn 3, 15.
  16. 16. Muitos Padres e muitos teólogos depois deles observaram também que se apenas Eva tivesse pecado, e não Adão, não teria havido pecado original, e que do mesmo modo se somente Maria, sem Cristo, tivesse dado o consentimento daquilo que estamos falando, não teria havido redenção.
  17. 17. 1Cor 15, 45ss; Rm 5, 12ss, 1Cor 15, 20-23.
  18. 18. Gn 3, 15.
  19. 19. Lc 1, 26-28.
  20. 20. merkelbach, Mariologia, pp. 74-89.
  21. 21. Dial. cum Tryphone (cerca de 160 d.C.), c. 100.
  22. 22. Adver. haereses (antes do final do século II), 1. III, c. 19, 21-23; 1. IV, c. 33; 1. V, c. 19.
  23. 23. Lib. de carne Christi, c. 17 (aproximadamente 210-212 d.C.).
  24. 24. Lib. II ad Quir.
  25. 25. Homil. 8 in Luc.
  26. 26. Cat., XII, 5, 15.
  27. 27. Edic. Assemani, t. II, siríaco-latim, pp. 318-329, ed. Lamy, t. I, p. 593; t. II, p. 524.
  28. 28. Panarion, haer. LXXXIII, 18.
  29. 29. Hom. in Pasch., nº 2; in Ps. xliv.
  30. 30. Orat., in Laud. S.M.
  31. 31. Epist. 22 ad Eustoch., n. 21.
  32. 32. Epist. 63 ad Eccl. Vercel, n. 33.
  33. 33. De agone christiano, 22.
  34. 34. Orat. 3, no. 4.
  35. 35. Hom. II in Dorm.
  36. 36. Hom. I in Dorm.
  37. 37. Orat. 51 et 52 (al. 50 e 51).
  38. 38. Serm. in Dom. infra Oct. Ass.; in Nat B. V. de Aquaeductu; 12 Praer.
  39. 39. hugo S. de caro, Postillae in Luc., I, 26-28; ricardo de s. lourenço, De Laud. B. M. V., 1. I, c. I; s. alberto magno, Mariale, q. 29, parágrafo 3; S. Boaventura, De donis Sp. Sti, coll. 6, n. 16, Sermo III de Ass. B. M. V.; S. Tomás, Opusc. VI Exp. Salutat. Angel.
  40. 40. Mariale, q. 42.

Segunda Parte: Maria, mãe de todos os homens - sua mediação universal e nossa vida interior

Depois de termos considerado a Santíssima Virgem em seu maior título de glória, o de Mãe de Deus, na plenitude de graça que lhe foi concedida e em todos os seus privilégios para que fosse a digna Mãe de Deus, é necessário considerá-la em suas relações conosco.

A partir desse ponto de vista, a Tradição atribui a Maria os títulos de Mãe do Redentor, Mãe de todos os homens e Mediadora, com respeito a todos aqueles que estão em viagem para a eternidade, e de Rainha universal com relação sobretudo aos bem-aventurados.

A teologia1 tem demonstrado que esses títulos correspondem aos do Cristo Redentor. Este cumpriu, com efeito, Sua obra redentora como Cabeça da humanidade irredenta, como primeiro Mediador que tem o poder de sacrificar e santificar por Seu sacerdócio, de ensinar por Seu magistério, e como Rei universal, com poder de fazer leis para todos os homens, de julgar os vivos e os mortos e de governar todas as criaturas, incluindo também os anjos.

Maria, como Mãe do Redentor, está associada a Ele nesse tríplice aspecto. Está associada a Cristo, Cabeça da Igreja, como Mãe espiritual de todos os homens; a Cristo, primeiro Mediador, como Mediadora secundária e subordinada; a Cristo Rei, como Rainha do universo. Essa é a tríplice missão da Mãe de Deus com relação a nós, e que consideraremos a partir de agora.

Trataremos primeiro de seus títulos de Mãe do Redentor como tal, e de Mãe de todos os homens; em seguida, de sua mediação universal, primeiro aqui na Terra e depois no Céu; e finalmente de sua realeza universal. Todos esses títulos, mas sobretudo o de Mãe de Deus, formam a base do culto de hiperdulia de que falaremos em último lugar.

Nessas questões, como nas precedentes, não buscaremos as opiniões originais, particulares e interessantes deste ou daquele autor, mas a doutrina comum da Igreja, transmitida pelos Padres e explicada pelos teólogos. Somente sobre esse fundamento certo é que se pode edificar; não se começa uma catedral por suas torres ou por suas agulhas, mas por suas fundações.

Lida superficialmente, essa exposição pareceria, à primeira vista, banal ou muito elementar, mas convém recordar que as verdades filosóficas mais elementares, como os princípios de causalidade e de finalidade, e também as verdades religiosas mais básicas, como as contidas no Pai Nosso, revelam-se, quando examinadas e postas em prática, as mais profundas e vitais. Aqui, como em todas as coisas, devemos ir do certo e mais conhecido ao menos conhecido, do fácil ao difícil; caso contrário, se quisermos abordar logo as coisas difíceis sob uma forma dramática e atraente por suas antinomias, terminaremos talvez, como tem acontecido muitas vezes aos protestantes, por negar as mais fáceis e certas. A história da teologia, como a da filosofia, ensina-nos que assim sucedeu muitas vezes. Deve-se notar também que, se nos assuntos humanos, em que o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, estão amalgamados, a simplicidade permanece superficial e exposta ao erro, nas coisas divinas, ao contrário, onde não há nada além da verdade e do bem, a simplicidade se une perfeitamente à profundidade e à grande elevação, e mais ainda, somente ela pode conduzir a essa elevação 2.

 
  1. 1. Cf. merkelbach, Mariologia, p. 295.
  2. 2. Sobre as relações entre a Virgem Maria e nossa vida interior, ver o livro do Pe. m. v. bernadot, o. p., Notre-Dame dans ma vie, que expõe com grande simplicidade e unção tudo o que se relaciona com a piedade mariana; o autor sempre teve um cuidado especial de proporcionar regras simples e eficazes de conduta. Cf. também nas mesmas edições da Vie Spirituelle: L'année mariale, do pe. morineau; Le Dieu de Marie dans le saint Rosaire, do Pe. Boulenger, O. P., L'union mystique à Marie, de Maria de Santa teresa e La doctrine mariale du Pe. Chaminade, do pe. E. neubert, marianista.

Artigo 3: A plenitude final de graças no céu

Para se ter uma idéia completa dessa plenitude em seu desenvolvimento final, deve-se considerar o que é a beatitude eterna em Maria: a visão beatífica, o amor de Deus e a felicidade que dali resultam; em seguida, a sua elevação acima de todos os coros dos anjos, a sua participação na realeza de Cristo e as conseqüências que dali derivam.

 

A beatitude essencial de Maria

A beatitude essencial da Mãe de Deus supera por sua intensidade e extensão aquela concedida a todos os outros bem-aventurados. É uma doutrina certa. A razão é que a beatitude celeste, ou a glória essencial, é proporcionada ao grau de graça e de caridade que precede a entrada no Céu. Ora, a plenitude inicial de graça em Maria superava certamente a graça final dos maiores santos e dos anjos mais elevados, e é mesmo muito provável, senão certo, já o vimos, que ela também superava a graça final de todos os santos e anjos reunidos. Essa plenitude inicial foi-lhe outorgada para que fosse a digna Mãe de Deus, e a Maternidade Divina é, por seu fim, não o repetirei suficientemente, de ordem hipostática. Segue-se então que a beatitude essencial de Maria ultrapassa a de todos os santos tomados em conjunto.

Em outras palavras, assim como a visão da águia supera a de todos os homens colocados no mesmo lugar que ela, como o valor intelectual de um Santo Tomás o coloca acima de todos os seus comentadores reunidos, ou a autoridade de um rei sobre a de todos os seus ministros juntos, a visão beatífica em Maria penetra mais profundamente a essência de Deus contemplado face a face que a visão de todos os outros bem-aventurados, excetuando-se a santa alma de Jesus.

Ainda que as inteligências angélicas sejam naturalmente mais poderosas que a inteligência humana de Maria, e mesmo a de Jesus Cristo, a inteligência humana da Santíssima Virgem penetra mais profundamente a essência divina intuitivamente conhecida, pois está elevada e fortalecida por uma luz de glória intensíssima. De nada serve ter uma faculdade intelectual naturalmente mais poderosa para alcançar e penetrar melhor o objeto, sendo esse essencialmente sobrenatural; da mesma forma que uma humilde cristã iletrada, como Santa Genoveva ou Santa Joana d’Arc, pode ter uma fé infusa e uma caridade muito maiores que a de um teólogo dotado de uma inteligência natural superior e que seja muito instruído.

Daí, segue que Maria, no Céu, penetrando mais a essência de Deus, Sua sabedoria, Seu amor e Seu poder, vê melhor a irradiação dessa essência divina, do ponto de vista da extensão, na ordem das realidades possíveis e na ordem das realidades existentes.

Ademais, como os bem-aventurados vêem em Deus tanto mais coisas quanto mais extensa é a sua missão se, por exemplo, Santo Tomás compreende melhor que todos os seus comentadores e intérpretes o que concerne à influência e ao futuro de sua doutrina na Igreja Maria, em sua qualidade de Mãe de Deus, de Mediadora universal, de Corredentora, de Rainha dos anjos, de todos os santos e de todo o universo, compreende em Deus, in Verbo, muitíssimo mais coisas que os outros bem-aventurados.

Maria só não é superior, na glória, a Nosso Senhor, que, por sua inteligência humana, iluminada por uma luz de glória mais elevada, penetra a essência divina com uma profundidade maior ainda, e conhece assim alguns mistérios que Maria não alcança, porque só pertencem a Ele, como Salvador, Soberano Pontífice e Rei universal. Maria vem imediatamente depois d’Ele. Por isso a liturgia afirma, na festa de 15 de agosto, que ela foi elevada sobre todos os coros dos anjos: “Elevata est super choros angelorum, ad caelestia regna”; que ela está à direita de seu Filho: “Adstitit regina a dextris suis Apresentou-se a rainha à sua destra” 1. Maria constitui, na própria hierarquia dos bem-aventurados, uma ordem à parte, mais elevada que a dos serafins, diz Santo Alberto Magno 2, e mais que a dos querubins, porque a Rainha está muito mais acima dos primeiros servidores, que estes com relação aos que lhes seguem.

Ela participa mais que qualquer outra pessoa, como Mãe de Deus, da glória do seu Filho. E como no Céu a divindade de Jesus é absolutamente evidente, é também sumamente claro que Maria pertence, como Mãe do Verbo feito carne, à ordem hipostática, que ela tem uma afinidade especial com as Pessoas Divinas, e que participa também, mais que qualquer outro, do reinado universal de seu Filho sobre todas as criaturas.

É o que expressam maravilhosamente as orações litúrgicas: Ave Regina coelorum... Regina Coeli... Salve Regina... e nas ladainhas: Regina angelorum... Regina omnium sanctorum... Mater misericordiae, e assim por diante. Isso é o que afirma também o Papa Pio IX na bula Ineffabilis Deus, numa passagem já citada 3.

Essa doutrina é encontrada de maneira explícita em São Germano de Constantinopla4, São Modesto5, São João Damasceno 6, Santo Anselmo7, São Bernardo8, Santo Alberto Magno9, São Boaventura, Santo Tomás10 e em todos os doutores da Igreja.

 

A beatitude acidental de Maria

Para a sua beatitude acidental contribuem, finalmente, um conhecimento mais íntimo da humanidade gloriosa de Cristo, o exercício de sua mediação universal, de sua maternal misericórdia e o culto de hiperdulia que recebe como Mãe de Deus. Também se lhe atribui, de maneira eminente, a tríplice coroa dos mártires, dos confessores da fé e das virgens, pois sofreu mais que todos os mártires durante a Paixão de seu Filho, instruiu aos próprios Apóstolos de maneira íntima e privada, e conservou em toda sua perfeição a virgindade do espírito e do corpo. 

Nela, a glória do corpo, que é irradiação da glória da alma, lhe é atribuída em grau, como clareza, agilidade, sutileza e impassibilidade.

Por todos esses títulos, Maria está elevada acima de todos os santos e de todos os anjos, e se torna cada vez mais claro que a razão e a raiz de todos esses privilégios é sua eminente dignidade de Mãe de Deus.

  1. 1. Sl 44, 10.
  2. 2. Mariale, q. 151.
  3. 3. “[Deus] cumulou-a tão maravilhosamente com os tesouros de sua divindade, mais que a todos os espíritos angélicos, mais que a todos os santos, com a abundância de todos os dons celestiais, e... apareceu com tal plenitude de inocência e de santidade que não se pode conceber maior, excetuando a de Deus, e que nenhum entendimento que não seja o do próprio Deus pode medir tamanha grandeza”.
  4. 4. Homil. II in Dorm.
  5. 5. Enc. in Dorm.
  6. 6. Homil. I, II, III, in Dorm.; de fide orthod., IV, 14.
  7. 7. Orat. 1.
  8. 8. São Bernardo chama freqüentemente Maria de Regina et Domina.
  9. 9. Mariale, q. 151.
  10. 10. In III Sent., dist. 22, q. 3, a. 3, qc. 3, ad 3.

Artigo 2: A Assunção da Santíssima Virgem

O que se entende por Assunção da Virgem Maria? Em toda a Igreja Católica se quer indicar, com essa expressão, que a Santíssima Virgem, depois de sua morte e ressurreição gloriosa, foi elevada em corpo e alma ao Céu, para sempre, e colocada muito acima dos santos e anjos. Diz-se Assunção e não Ascensão, como ao falar de Nosso Senhor, porque Jesus, por seu divino poder, pode elevar-se por si mesmo ao Céu, enquanto que Maria ressuscitada foi elevada pelo poder divino até o grau de glória ao qual estava predestinada.

Esse fato da Assunção foi perceptível aos sentidos? E se houve testemunhas, os Apóstolos em particular, ou São João pelo menos, puderam comprovar com seus olhos esse acontecimento?

Há certamente nesse fato algo sensível, e é a elevação do corpo de Maria ao Céu. Mas o termo dessa elevação, ou seja, a entrada no Céu e a exaltação de Maria sobre todos os santos e anjos, foi invisível e inacessível aos sentidos.

Sem dúvida, se as testemunhas encontraram o túmulo vazio da Mãe de Deus e atestaram depois sua ressurreição e elevação ao Céu, puderam presumir que entrou no Céu, e que Nosso Senhor a associou à glória de sua Ascensão.

Mas um pressuposto não é uma certeza. Absolutamente falando, o corpo glorioso de Maria poderia ser transportado a outro lugar invisível, como, por exemplo, ao local em que esteve temporariamente o Corpo de Jesus ressuscitado entre as aparições que ocorreram após sua Ressurreição.

Se um pressuposto não é uma certeza, como a entrada no Céu da Santíssima Virgem foi conhecida de uma maneira certa?

Para isso, é necessário que esse fato tenha sido revelado pelo próprio Deus. A Ascensão foi explicitamente revelada ― diz Santo Tomás1 ― por meio dos anjos que disseram: “Homens da Galiléia, por que estais (aí parados) olhando para o Céu? Esse Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao Céu, virá do mesmo modo que o viste ir para o Céu2.

Ademais, como a razão da nossa fé é a autoridade de Deus revelador, a Assunção não é definível como dogma de fé se não for revelada por Deus ao menos implicitamente.

Mas não é suficiente que tenha havido uma revelação privada, feita a uma pessoa em particular, como a revelação feita a Joana d'Arc, a Bernadete de Lourdes ou aos pastorzinhos de La Salette. Essas revelações privadas podem tornar-se públicas em certo sentido, por seus resultados e conseqüências, mas não fazem parte do depósito da Revelação comum, infalivelmente proposta pela Igreja a todos os fiéis; elas formam somente uma piedosa crença, distinta da fé católica.

Não basta uma revelação particular, como a feita a Santa Margarida Maria sobre o culto que devia tributar-se ao Sagrado Coração, pois uma revelação desse gênero permanece particular e privada, e só chama a atenção para as conseqüências práticas derivadas de uma verdade de já certa; nesse caso, sobre esta verdade já conhecida: que o Sagrado Coração de Jesus merece a adoração ou culto de latria.

Para que a Assunção de Maria seja certa e possa ser proposta à Igreja universal, é necessária uma revelação pública feita aos Apóstolos, ou ao menos a um deles ― por exemplo, a São João ― uma vez que depois da morte do último dos Apóstolos o depósito da Revelação comum foi encerrado. Finalmente, a ressurreição antecipada de Maria e sua entrada no Céu, em corpo e alma, é um fato contingente que depende do livre arbítrio de Deus; não pode, portanto, deduzir-se com certeza de outras verdades de fé que não tenham conexão necessária com esta.

É necessário, pois, para que a Assunção de Maria seja certa e possa ser proposta universalmente à fé dos fiéis, que tenha sido revelada aos Apóstolos, ao menos a um deles, seja de forma explícita, implícita ou confusa, e que mais tarde se tornará explícita. Vejamos o que os documentos da Tradição nos dizem sobre esse ponto e, em seguida, as razões teológicas que têm sido comumente aduzidas, ao menos desde o século VII.

 

Esse privilégio aparece revelado ao menos implicitamente pelos documentos da Tradição

Sem dúvida, não é possível provar diretamente pela Escritura, nem pelos documentos primitivos da Tradição, que esse privilégio tenha sido revelado explicitamente a algum dos Apóstolos, uma vez que nenhum texto da Escritura contém essa afirmação explícita, e nos faltam, com relação a esse ponto, os documentos primitivos da Tradição.

Mas prova-se indiretamente, pelos documentos posteriores da Tradição, que houve uma revelação ao menos implícita, porque existem certamente, a partir do século VII, fatos certos que não se explicariam sem ela.

Desde o século VII, em quase toda a Igreja, no Oriente e no Ocidente, celebra-se a festa da Assunção. Em Roma, o Papa Sérgio (687-707) ordenou uma procissão solene para esse dia3. Muitos teólogos e liturgistas afirmam que essa festa existiu antes mesmo de São Gregório Magno († 604) e citam, em apoio a sua opinião, a coleta da Missa da Assunção contida no sacramentário chamado gregoriano, apesar de ser provavelmente posterior, onde se encontram estas palavras: “Nec tamen mortis nexibus deprimi potuit4.

Segundo o testemunho de São Gregório de Tours, parece que a festa da Assunção era celebrada na Gália no século VI5. Celebrava-se certamente no século VII, como o provam o Missale gothicum e o Missale gallicanum vetus, que remontam ao final desse século e que contêm belas orações para a Missa da Assunção6.

No Oriente, o historiador Nicéforo Calixto7 diz-nos que o imperador Maurício (582-602), contemporâneo e amigo de São Gregório Magno, ordenou que essa festa fosse celebrada solenemente em 15 de agosto.

O mais antigo testemunho da crença tradicional no Oriente parece ser o de São Modesto, Patriarca de Jerusalém († 634), em seu Encomium in dormitionem Deiparae8. Segundo ele, os Apóstolos, vindos de longe, reuniram-se por inspiração divina junto à Santíssima Virgem e assistiram à Assunção. Em seguida, temos várias homilias: In dormitionem Deiparae9 de Santo André de Creta († 720), monge em Jerusalém e arcebispo de Creta, In sanctam Dei Genitricis dormitionem10 de São Germano († 733), Patriarca de Constantinopla e, finalmente, In dormitionem beatae Mariae Virginis11 de São João Damasceno († 760).

Os testemunhos posteriores ao século VIII são abundantes: citam-se comumente os de Notker de São Gall, de Fulbert de Chartres, de São Pedro Damião, de Santo Anselmo, de Hildeberto, de Abelardo, de São Bernardo, São Boaventura e Santo Tomás, reproduzidos mais tarde por muitos autores desde o século XIII 12.

Entre os séculos VII e IX desenvolveu-se a liturgia, a teologia e a pregação sobre a Assunção. O Papa Leão IV instituiu a oitava dessa festa em 847.

Os autores da época e os posteriores consideram o fato comemorado por essa festa universal não apenas como objeto de uma piedosa crença, próprio de um determinado país, mas como parte integrante da tradição geral, que remonta aos tempos mais antigos da Igreja.

Além disso, não são apenas os autores dos séculos VII ao IX que falam assim, é também a própria Igreja: ao celebrar universalmente essa festa em todo o Oriente e Ocidente, geralmente em 15 de agosto, a Igreja ensina que considera o privilégio da Assunção uma verdade certa ensinada pelo Magistério ordinário, quer dizer, por todos os bispos em união com o Pastor Supremo. A oração universal da Igreja manifesta efetivamente a sua fé: lex orandi, lex credendi. Não é ainda uma verdade solenemente definida, mas seria, como se diz comumente, ao menos temerário ou errôneo negá-la13.

Essa crença geral é ao mesmo tempo a dos pastores que representam a Igreja docente e a dos fiéis que constituem a Igreja discente; a segunda é infalível em dependência da primeira, e manifesta-se a si própria pelo sentimento cristão dos fiéis e pela repugnância que experimentariam se vissem negado ou posto em dúvida o privilégio da Assunção.

Foi o que aconteceu quando alguns autores propuseram mudar a festa do dia 15 de agosto para outra data. Bento XIV respondeu: “Ecclesiam hanc amplexam esse sententiam14.

A Igreja, de fato, não se contenta apenas em tolerar essa doutrina, mas a propõe positivamente e a inculca por sua liturgia e pregação tanto no Oriente quanto no Ocidente. O consentimento universal de toda a Igreja, ao celebrar essa festa solene, mostra-nos que é um ensinamento de seu Magistério ordinário.

Mas para que isso tenha fundamento, requer-se que essa verdade seja ao menos implicitamente revelada. Caso contrário, como vimos acima, não teríamos certeza do fato da entrada de Maria no Céu em corpo e alma.

É provável igualmente que tenha havido uma revelação explícita feita aos Apóstolos ou a um dentre eles, pois é muito difícil explicar de outra maneira a tradição universal que existe manifestamente no Oriente e no Ocidente, pelo menos desde o século VII, e que se expressa nessa festividade 15.

Se, de fato, não tivesse havido na origem da Igreja nada mais que uma revelação implícita ou confusa, como é que os diferentes bispos e teólogos das diversas partes da Igreja teriam entrado em acordo, tanto no Oriente como no Ocidente, para reconhecer que esse privilégio estava implicitamente revelado? Esse acordo teria de ser preparado por trabalhos e concílios de que ninguém ouviu falar. Tampouco existem vestígios de revelações privadas que pudessem ter provocado investigações no depósito da Revelação e em toda a Igreja.

Até o século VI, guardava-se silêncio sobre esse privilégio de Maria, temendo-se que, como conseqüência da recordação das deusas do paganismo, fosse mal compreendido. No período precedente, o que ficou estabelecido foi o principal título de Maria, “Mãe de Deus”, definido no Concílio de Éfeso e fundamento de todos os seus privilégios.

Tudo leva a pensar, portanto, que o privilégio da Assunção foi revelado explicitamente aos Apóstolos ou ao menos a um deles e transmitido posteriormente pela Tradição oral da liturgia, porque de outra forma não se explicaria a festa universal da Assunção, que prova claramente que desde o século VII essa verdade foi ensinada pelo Magistério ordinário da Igreja 16.

 

Pelas razões teológicas tradicionalmente alegadas, esse privilégio aparece implicitamente revelado

Essas razões teológicas, assim como os textos bíblicos nos quais se baseiam, podem ser consideradas de duas maneiras: abstratamente, e sob esse ponto de vista muitas não são mais que razões de conveniência, isto é, não demonstrativas; ou concretamente, compreendendo fatos concretos, cuja complexidade e riqueza estão conservadas pela Tradição; deve-se notar também que uma razão de conveniência pode ser tomada de forma puramente teórica ou, ao contrário, como sendo ela própria ao menos implicitamente revelada e como tendo motivado de fato a escolha divina.

Sublinharemos aqui, sobretudo, duas razões teológicas que, tomadas como expressão da Tradição, demonstram que o privilégio da Assunção está implicitamente revelado17

A eminente dignidade de Mãe de Deus é a razão fundamental de todos os privilégios de Maria, mas não é a razão próxima do privilégio da Assunção; nesse caso, não é mais que um argumento de conveniência não demonstrativo18.

Não sucede o mesmo com as duas razões seguintes: 

1º ― Maria recebeu a plenitude de graça e foi excepcionalmente bendita por Deus entre todas as mulheres19. Ora, essa excepcional bênção exclui a maldição divina contida nestas palavras: Darás a luz com dor e “voltarás ao pó20. Maria, portanto, pela bênção excepcional que recebeu, foi preservada da corrupção do sepulcro; seu corpo não voltou ao pó, mas ressuscitou por uma ressurreição antecipada.

As premissas maior e menor desse argumento são reveladas e, portanto, segundo a maioria dos teólogos, a conclusão seria definível, pois o argumento não é mais que a relação das duas premissas de fé que são a causa da conclusão.

Ademais, o raciocínio aqui não é precisamente ilativo, mas apenas explicativo, porque a maldição divina oposta à bênção de Deus contém, segundo Gênesis: “voltarás ao 21, como o todo contém as partes, quer dizer, atualmente, e não apenas como a causa contém o efeito, quer dizer, virtualmente; uma vez que a causa pode existir sem seu efeito, antes de produzi-lo, enquanto que o todo não pode existir sem suas partes. A maldição divina expressa no Gênesis compreende como sua parte: “Voltarás ao pó”. Maria, bendita entre todas as mulheres, devia ser isenta dessa maldição, não devia conhecer a corrupção do sepulcro; quer dizer que a hora da ressurreição devia ser antecipada para ela, e à ressurreição gloriosa seguiu-se a Assunção ou elevação ao Céu do corpo glorioso, que não foi feito para a Terra onde tudo passa, se deteriora e se corrompe.

Vê-se, pois, que o privilégio da Assunção está implicitamente revelado na plenitude de graça unida à excepcional bênção recebida por Maria.

2º ― Uma segunda razão teológica não menos convincente leva-nos à mesma conclusão. Foi proposta por numerosos Padres do Concílio Vaticano 22 que pediram a definição solene do dogma da Assunção 23, e também indicada pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus 24.

Ela pode ser assim formulada: A completa vitória de Cristo sobre o demônio compreende o triunfo sobre o pecado e sobre a morte. Ora, Maria, Mãe de Deus, estava intimissimamente associada, no Calvário, à completa vitória de Cristo sobre o demônio. Logo, Maria estava associada à completa vitória sobre a morte, pela ressurreição antecipada e pela Assunção.

Aqui também a premissa maior e a menor do argumento são reveladas, e o próprio argumento é mais explicativo que ilativo: a vitória completa de Cristo sobre o demônio é um todo que compreende, como suas partes, a vitória sobre o pecado e a morte.

Como indica o Postulatum dos Padres do Concílio Vaticano, a premissa maior é revelada em muitas passagens das Epístolas de São Paulo 25. Cristo é o “Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo26. Ele disse: “Eu venci o mundo27. Pouco antes da Paixão, disse ainda: “Agora é o juízo desse mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim28. O sacrifício da Cruz por amor, a aceitação das humilhações passadas e da morte dolorosíssima constituem a vitória sobre o demônio e o pecado, e como a morte é conseqüência do pecado, aquele que foi o vencedor do demônio e do pecado na Cruz, teve de ser também vencedor da morte por sua ressurreição gloriosa.

A premissa menor também é revelada: Maria, Mãe de Deus, foi associada no Calvário o mais intimamente possível à completa vitória de Cristo sobre o demônio. Isso é misteriosamente anunciado no Gênesis 29: “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te esmagará a cabeça”. Esse texto não é suficiente por si só, mas Maria, no momento da Anunciação, disse: “Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum” ao consentir ser a Mãe do Redentor, pois não podia ser sua digna Mãe sem uma perfeita conformidade de vontade àquela de seu Filho, que devia oferecer-se por nós. Ademais, o velho Simeão anunciou-lhe todos esses sofrimentos: “Uma espada de dor transpassará a tua alma30. E, finalmente, diz São João: “Junto à cruz de Jesus estavam sua Mãe e a irmã de sua mãe...”. 31 Ela participou de seus sofrimentos, na medida de seu amor por Ele, tão perfeitamente, que é chamada Corredentora 32.

Existe uma relação muito íntima e profunda entre a compaixão e a maternidade, pois a compaixão mais profunda é a de um coração de mãe, e Maria não seria a digna Mãe do Redentor sem uma perfeita conformidade de vontade à sua oblação redentora.

Se, pois, Maria estava associada intimissimamente à completa vitória de Cristo sobre o demônio, também estava associada às partes desse triunfo, quer dizer, à sua vitória sobre o pecado e sobre a morte, conseqüência do pecado.

Pode-se objetar: bastaria que ela fosse associada pela ressurreição final, como os demais eleitos.

A isso se deve responder que Maria estava associada mais que ninguém à completa vitória de Cristo sobre o demônio, e que essa vitória não é completa sem a isenção da corrupção do sepulcro, que exige a ressurreição antecipada e a elevação ao Céu. Não era suficiente a ressurreição final porque Maria, bem como seu Filho, foi isenta da corrupção cadavérica, e por isso se diz sobre a Virgem na oração da festa da Assunção: “Mortem subiit temporalem, nec tamen mortis nexibus deprimi potuit, quae Filium tuum Dominum nostrum de se genuit incarnatum”. Ela não pôde ser retida pelos laços da morte, o que não pode se dizer de nenhum outro santo, mesmo aqueles cujos corpos estão milagrosamente preservados da corrupção, pois estão sempre retidos pelos laços da morte.

Essas duas grandes razões teológicas, tomadas uma da plenitude da graça unida à bênção divina extraordinária, e a outra da associação de Maria à completa vitória de Cristo, demonstram que a Assunção está implicitamente revelada e definível como dogma de fé.

As outras razões teológicas invocadas confirmam as precedentes, ao menos como razões de conveniência. O amor especial de Jesus por sua Santa Mãe o levou a querer esse privilégio para ela. A excelsa virgindade de Maria parecia exigir que seu corpo, isento de todo pecado, não ficasse retido pelos laços da morte, conseqüência do pecado. Também o exige a Imaculada Conceição, pois a morte é uma conseqüência do pecado original, do qual ela foi preservada. Deve-se acrescentar que não se conserva qualquer relíquia da Santíssima Virgem, o que é um sinal provável de sua elevação ao Céu em corpo e alma.

Estando, pois, a Assunção implicitamente revelada, é definível como dogma de fé.

A oportunidade dessa definição, como diz Dom Paulo Renaudin 33 é clara e manifesta. Do ponto de vista doutrinal, a Assunção de Maria, juntamente com a Ascensão do Senhor, é o coroamento da fé na obra da Redenção objetivamente consumada, e uma nova prova da esperança cristã. Quanto aos fiéis, uma definição solene permitiria-lhes aderir não só à infalibilidade do Magistério ordinário da Igreja que instituiu essa festa universal, mas de aderir imediatamente a essa verdade, propter auctoritatem Dei revelantis ― pela autoridade de Deus que revela ― contra todos os erros relativos à vida futura e aos originados pelo materialismo, racionalismo ou protestantismo liberal, que minimizam em tudo a nossa fé, em vez de reconhecer que os dons sobrenaturais de Deus superam todas as nossas concepções. Essa definição, em suma, feita solenemente, seria para os hereges e cismáticos mais um auxílio que um obstáculo, uma vez que permitiria melhor conhecer o poder e a bondade de Maria, que nos ajuda no caminho da salvação; e os desviados não podem conhecer esse poder e essa bondade de outra forma que pela definição da Igreja, pois a fé vem da pregação ouvida, fides ex auditu. O justo, finalmente, deve viver cada vez mais de sua fé; a definição solene e infalível de um ponto da doutrina é um alimento espiritual dado à sua alma na forma mais perfeita, que o aproxima de Deus, fazendo crescer sua esperança, sua caridade e, por conseguinte, todas as outras virtudes.

Não se pode então duvidar da oportunidade dessa definição34.

  1. 1. IIIª, q. 55, a. 3, ad 2.
  2. 2. At 1, 11.
  3. 3. Liber Pontificalis, P. L., CXXVIII, c. 898; edic. Duchesne, t. I, p. 376.
  4. 4. P. L., LXXVIII, col. 133.
  5. 5.Dominus susceptum corpus (Virginis) sanctum in nube deferri jussit in paradisum ubi, nunc, resumpta anima, cum electis ejus exultans, aeternitatis bonis nullo occasuris fine perfruitur”. De gloria martyr., Miracul., 1. I, c. IV; P. L., LXXI, col. 708.
  6. 6. P L., LXXII, col. 245-246.
  7. 7. H. E., 1. XVII, c. XXVII, P. G., CXLVII, col. 292.
  8. 8. P. G., LXXXVI, col. 3288 e ss.
  9. 9. P.G., XCVII, col. 1053 e ss., 1081 e ss.
  10. 10. P. G., XCVIII, col. 345 e ss.
  11. 11. P.G., XCVI, col. 716.
  12. 12. Cf. Merkelbach, Mariologia, p. 277 e ss.
  13. 13. Assim falam Santo Antonino, Suárez, Lugo, Barônio, Frassen, Melchior Cano, Dom. Soto, Billuart, Tanner, Gotti, Renaudin, Noyon, Hugon. Cf. Merkelbach, Mariologia, 1939, p. 286 e ss. - Se os teólogos não concordam completamente sobre a nota de temeridade ou de erro com a qual devem qualificar os que negam a Assunção, é porque alguns pensam especialmente nas razões teológicas desse mistério, que podem ser consideradas abstratamente como simples razões conveniência, ou concretamente como expressão da doutrina tradicional, e sob esse ponto de vista não são fortes. - Além disso, se algum autor apresentou dúvidas, é preciso considerar que, desde o século VII, a maioria dos autores eclesiásticos viu na festa da Assunção a expressão do ensinamento do Magistério ordinário da Igreja.
  14. 14. De Canonizat. Sanctorum, 1. I, c. 42, N ° 151.
  15. 15. Esse é o pensamento de Dom P. Renaudin em sua obra La Doctrine de l'Assomption, sa définibilité, Paris, 1913, pp. 119 e ss, 131; de J. Bellamy, Dict. Théol., art. Assomption., col. 2139 e ss.; do Pe. Terrien em seu livro, La Mère de Dieu, t. II, pp., 343 e ss. e de muitos outros autores.

    Outros se contentam em afirmar a revelação implícita, mas não negam por isso a probabilidade de uma revelação explícita transmitida oralmente e pela liturgia.

  16. 16. Ver sobre esse ponto, Dom P. Renaudin, La Doctrine de l'Assomption, sa définibilité, 1913, pp. 69-133, e no Dict. Théol. cath., art. Assomption., e no Dict. Apol., art. Marie, col. 275-285.
  17. 17. Cf. Merkelbach, op. cit., pp. 279 ss., e G. Frietoff, De doctrina Assumptionis corporalis B. Mariae Virginis rationibus theologicis illustrata, in angelicum, 1938, pp. 13 ss.
  18. 18. Cf. frietoff, loc. cit.
  19. 19. Lc 3, 19.
  20. 20. Gn 3, 16-19.
  21. 21. Gn 3, 16-19.
  22. 22. Concílio Vaticano I (N. do T.).
  23. 23. Cf. a obra de dom p. renaudin, La doctrine de l'Assomption, sa définibilité, Paris, 1913, pp. 222-308: Os Postulata dos Padres do Concílio Vaticano em favor da definição dogmática da Assunção: “Quum juxta Apostolicam doctrinam, Rom., V, 8; I Cor., XV, 24, 26, 54, 57; Hebr., II, 14-15, aliisque in locis traditam, triplici victoria de peccato et de peccatis fructibus, concupiscentia et morte, veluti ex partibus integrantibus, constituatur ille triumphus, quem de Satana, antiquo serpente, Christus retulit; quumque Gen., III, 15, Deipara exhibeatur singulariter associata Filio suo in hoc triumpho: accedente unanimi sanctorum Patrum suffragio non dubitamus quin in praefato oraculo eadem beata Virgo triplici Victoria praesignificetur illustris, adeoque non secus ac de peccato per immaculatam Conceptionem et de concupiscentia per virginalem Maternitatem, sic etiam de inimica morte singularem triumphum relatura, per acceleratam similitudinem Filii sui resurrectionis, ibidem praenunciata fuerit”. — item Conc. Vatic. documentorum collectio, Paderborn, 1872.
  24. 24. “A Santíssima Virgem, unida a Ele (Cristo) com apertadíssimo e indissolúvel vínculo, hostilizando com Ele e por Ele eternamente a venenosa serpente, e triunfando completamente dela, triturou sua cabeça com o pé imaculado”. Diz-se na Bula Ineffabilis Deus, a respeito de Maria, “bendita és tu entre as mulheres”, “jamais sujeita à maldição, pois concebida imaculada”, e, portanto, vitoriosa também sobre a morte.
  25. 25. Rm 5, 8-17; 1 Cor, 15, 24-26, e 1 Cor 15, 54-57; Hb, 2, 14-15; Rm, 5, 12-17 e Rm 6, 23
  26. 26. Jo 1, 29.
  27. 27. Jo 16, 33.
  28. 28. Jo 12, 31-32.
  29. 29. Gn 3, 15.
  30. 30. Lc 2, 35
  31. 31. Jo 19, 25.
  32. 32. Cf. Denzinger, nº 3034: Pio X disse na encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de 1904, citando Eadmer, um discípulo de Santo Anselmo: “Por causa desta comunhão de dores e vontade entre Maria e Cristo, ela ‘mereceu tornar-se da maneira mais digna a reparadora do mundo perdido’... Como supera todos em santidade e união com Cristo e foi associada por Cristo à obra da salvação humana, de congruo, como dizem, nos merece o que Cristo mereceu de condigno”.

    BENTO xv, Carta Apost. Inter Sodalicia, de 22 de março de 1918, disse também: “Ita (B. V. M.) Filium immolavit, ut dici merito queat, ipsam cum Christo humanum genus redemisse”.

    Pio XI, Carta Apost. Explorata res, de 2 de fevereiro de 1923: “Virgo perdolens redemptionis opus cum Jesu Christo participavit”. - O Santo Ofício, em 26 de junho de 1913 e em 22 de janeiro de 1914, aprovou a invocação de “Maria, corredentora do gênero humano” Cf. Denzinger, nº n.º 3034, in nota.

  33. 33. Op. cit., pp. 204-217.
  34. 34. 1º de novembro de 1950, Sua Santidade o Papa Pio XII definiu a Assunção da Santíssima Virgem como dogma de fé.

Artigo 1: Qual foi a plenitude de graças no momento da morte da Santíssima Virgem

Maria permaneceu no mundo, depois da morte de Jesus Cristo, para consolar a Igreja, diz Bossuet1. Ela o fez com suas orações e com seus méritos, que não deixaram de aumentar; sustentou os Apóstolos em seus trabalhos e em seus sofrimentos e exerceu um profundo apostolado oculto, que fecundava o apostolado dos discípulos de Cristo.

Já vimos anteriormente, ao falar das conseqüências do privilégio da Imaculada Conceição, que em Maria, assim como em Nosso Senhor, a morte não foi uma seqüela do pecado original, do qual foram preservados, mas a conseqüência da natureza humana, pois o homem, por sua natureza, é mortal, como os animais; só era imortal na origem, por um privilégio preternatural concedido no estado de inocência; com a perda do privilégio como conseqüência do pecado original e da falta do primeiro homem, a natureza permaneceu tal qual era: sujeita à dor e à morte.

Cristo, vindo a este mundo como Redentor, foi concebido in carne passibili, em carne passível e mortal2. O mesmo deve-se dizer da Santíssima Virgem. A morte foi então neles uma conseqüência não do pecado original, do qual foram preservados, mas da natureza humana abandonada às leis naturais, depois de ter perdido o privilégio da imortalidade.

Mas Jesus aceitou e ofereceu sua dolorosa paixão e morte para nossa salvação, e Maria, sobretudo no Calvário, ofereceu seu Filho por nós, oferecendo-se a si mesma com Ele. Fez por nós, assim como o Cristo, no martírio do seu coração, o sacrifício de vida mais generoso possível depois daquele de Nosso Senhor.

Quando, mais tarde, chegou a hora de sua morte, o sacrifício de sua vida já estava feito, e renovou-se tomando a forma perfeita disso que a Tradição chamou de ‘a morte de amor’, que não é somente a morte em estado de graça ou por amor, mas é conseqüência da intensidade de um amor tranqüilo mas intenso, pelo qual a alma preparada e aperfeiçoada para o Céu abandona seu corpo e vai unir-se a Deus na visão imediata e eterna da pátria celestial, como um grande rio se lança no oceano.

Sobre os últimos momentos da Virgem Maria, deve-se repetir o que escreveu São João Damasceno: “que morreu de uma morte sumamente serena”3. Isso o explica admiravelmente São Francisco de Sales em seu Tratado do amor de Deus4: Como a Santíssima Virgem, Mãe de Deus, morreu de amor por seu Filho. “É impossível imaginar que ela tenha morrido de outra categoria de morte que a de amor: a mais nobre de todas as mortes deve-se, por conseqüência, à mais nobre de todas as vidas... Se dos primeiros cristãos se diz que não tinham mais que um só coração e uma só alma (At 4, 32) por seu perfeito e mútuo amor; se São Paulo já não vivia mais ele mesmo, mas Jesus Cristo vivia nele (Gl 2, 29) pela união íntima de seu coração com o de seu Mestre... quanto mais certo é que a Santíssima Virgem e seu Filho não tinham senão uma só alma, um só coração e uma mesma vida... de modo que seu Filho vivia nela! A Mãe mais amorosa e mais amada que já existiu... de amor incomparavelmente mais eminente que o de todas as ordens de anjos e de homens, na medida em que os nomes de Mãe única e de Filho único são também os nomes acima de todos os outros nomes em matéria de amor...

“Se essa Mãe viveu da vida de seu Filho, também morreu da sua morte, pois, tal vida, tal e qual é a morte... Tendo reunido em seu espírito com viva e contínua memória todos os amabilíssimos mistérios da vida e da morte de seu Filho, e recebendo sempre diretamente as mais abrasadas inspirações que Ele, o sol da justiça, lançou sobre os mortais no auge da sua caridade... finalmente, o fogo sagrado desse divino amor consumiu-a totalmente, como um holocausto de suavidade; de maneira que morreu, e sua alma completamente arrebatada e extasiada foi transportada para os braços amorosos de seu Filho...

“Morreu por causa de um amor extremamente doce e tranquilo”. “O amor divino crescia a cada momento no coração virginal de nossa gloriosa Senhora, mas com um desenvolvimento doce, agradável e contínuo, sem agitações, sobressaltos ou violências... como cresce um rio caudaloso que, não encontrando obstáculos na planície, desliza suavemente, sem o menor esforço... 

“Como o ferro, se está livre de todo impedimento, será atraído forte mas docemente pelo ímã, de modo que a atração será cada vez mais ativa e mais forte na medida em que um esteja mais próximo do outro e que o movimento esteja mais próximo de seu fim, assim também a Mãe Santíssima, não tendo nada em si que impedisse a operação do divino amor de seu Filho, unia-se a Ele num vínculo incomparável, por meio de êxtases doces, agradáveis e sem esforço... A morte da Virgem foi, portanto, mais doce do que se pode imaginar; seu Filho a atraía amorosamente, ‘com o suave aroma de seus perfumes’... O amor havia dado ao pé da Cruz a essa divina Esposa as supremas dores da morte; era, portanto, muito razoável que no final de sua vida a morte concedesse-lhe as soberanas delícias do amor”.

*

*   *

Bossuet expressa-se da mesma maneira em seu primeiro sermão para a festa da Assunção, no primeiro ponto: “Se amar Jesus e ser amado por Ele são as duas coisas que atraem as bênçãos divinas sobre as almas, que abismo de graças não inundaria, por assim dizer, o coração de Maria! Quem poderá descrever a impetuosidade desse amor mútuo, no qual concorria tudo o que a natureza tem de terno e amável e tudo o que a graça tem de eficaz? Jesus nunca se cansou de ser amado por sua Mãe e essa Santa Mãe nunca acreditou ter amor suficiente para esse unigênito muito amado; ela não pedia outra graça a seu Filho além da fortuna de amá-lo, e isso mesmo atraía sobre ela novas graças.

“Medi, se puderdes, a santa impaciência que abrasava seu peito para se juntar a seu Filho... Se o grande apóstolo São Paulo quis romper incontinente os laços do corpo para ir buscar seu Mestre à direita do Pai, qual não deve ter sido a emoção do sangue maternal! O jovem Tobias, pela ausência de um ano, encheu o coração de sua mãe de dores indizíveis. Que diferença entre Jesus e Tobias! Que padecimento e solidão não sentiu a Virgem ao ver-se separada por tanto tempo do Filho a quem amava unicamente! Por quê? dizia ela, quando via um fiel partir deste mundo, por exemplo, Santo Estêvão e ainda outros por que, Filho meu, me reservais para o futuro? Por que me deixais aqui por última?... Depois de me terdes levado ao pé de vossa cruz para vê-lo morrer, por que me negais por tanto tempo vê-lo reinar? Deixai, deixai somente agir o meu amor; já teria desatado minha alma deste corpo mortal para transportar-me a vós, em quem unicamente vivo.

“Esse amor tão ardente, tão forte, tão inflamado, não enviava ao Céu um só desejo que não arrastasse consigo a alma de Maria.

“Então a Virgem divina entregou sua santa alma, sem dores nem violências, nas mãos de seu Filho. Assim como a menor sacudidela faz desprender da árvore o fruto já maduro... assim foi tomada essa alma santa e bendita para ser transportada instantaneamente ao Céu; assim morreu a Santíssima Virgem, por um impulso arrebatado do amor divino”.

Vemos nessa morte santíssima a plenitude final de graça no mais alto grau que pode ser na Terra; ela corresponde admiravelmente à plenitude inicial, que não deixou de crescer desde o instante da Imaculada Conceição, e dispõe Maria à plenitude consumada do Céu, que é sempre proporcionada, nos eleitos, ao grau de seus méritos no momento mesmo da morte.

  1. 1. II sermão para a festa da Assunção.
  2. 2. Isso supõe que o primeiro homem pecou e é, ao mesmo tempo, uma das mais poderosas razões para demonstrar que no plano atual da Providência, o Verbo não teria se encarnado se o homem não tivesse pecado, pois o decreto atual e eficaz da Encarnação influi precisamente sobre a Encarnação tal como foi realizada hic et nunc, isto é, in carne passibili, numa carne passível e mortal, o que, mesmo por confissão dos próprios escotistas, pressupõe o pecado de Adão.
  3. 3. Homiliae duae de dormitione Virginis Mariae. Ver também, Santa Brígida, Revelaciones, 1. VI, c. 62.
  4. 4. Tratado do amor de Deus, l. VII, caps. XIII e XIV

A plenitude final de graças em Maria

Para considerar essa plenitude final em todos os seus diversos aspectos, é preciso dizer primeiro qual foi essa plenitude no momento da morte da Santíssima Virgem, recordar o que nos ensina o magistério ordinário da Igreja sobre a Assunção e finalmente falar da plenitude final de graça tal qual aparece completamente desenvolvida no Céu.

Artigo 6: Os dons intelectuais e as principais virtudes de Maria

Para compreender melhor o que foi a plenitude de graça na Santíssima Virgem, sobretudo no final de sua vida, será conveniente considerar qual foi a perfeição de sua inteligência, especialmente qual foi sua fé iluminada pelos dons de sabedoria, inteligência e ciência; qual foi também a elevação de suas principais virtudes, que, estando conexas com a caridade, encontravam-se em Maria como esta, a caridade, num grau proporcionado ao da graça santificante. Para completar essa síntese, falaremos brevemente também das graças gratuitas de ordem intelectual por ela recebidas, especialmente a de profecia e de discernimento dos espíritos.

 

A fé iluminada pelos dons em Maria 

Se pensarmos na perfeição natural da alma da Santíssima Virgem, a mais perfeita de todas após a alma do Salvador, teremos de admitir que sua inteligência natural já estivesse dotada de uma grande penetração e de uma grande retidão, e que essas qualidades naturais não deixaram de se desenvolver no curso de sua vida.

Sua fé infusa era, com maior razão, profundíssima da parte do objeto pela revelação que lhe foi feita imediatamente, no dia da Anunciação, dos mistérios da Encarnação e da Redenção, e por sua santa familiaridade de todos os dias com o Verbo feito carne. Subjetivamente, sua fé era firmíssima, certíssima e prontíssima em sua adesão, porque essas qualidades da fé infusa são tanto maiores quanto mais elevada é a fé. Maria recebeu a fé infusa no maior grau que já existiu, e o mesmo deve ser dito de sua esperança, porque Jesus, que teve a visão beatífica desde o primeiro instante de sua concepção, não tinha a fé nem a esperança, mas a plena luz e posse dos bens eternos que nos foram prometidos.

Não poderíamos ter uma idéia da sublimidade da fé da Virgem Maria. Na Anunciação, a partir do instante em que lhe foi proposta suficientemente a verdade divina sobre o mistério da Encarnação redentora, ela acreditou. Por isso lhe disse Santa Isabel, um pouco depois: “Bem-aventurada tu, que creste, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas”1. No Natal, observou seu Filho nascer num estábulo, e acreditou que Ele é o criador do universo; percebeu toda a fragilidade do seu corpo de recém-nascido, e acreditou em sua onipotência; quando Ele começou a balbuciar as primeiras palavras, acreditou que Ele era a própria sabedoria; quando teve de fugir com Ele da cólera do rei Herodes, acreditou, não obstante, que era o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, como diria posteriormente São João. No dia da Circuncisão e da Apresentação no Templo, sua fé se tornou cada vez mais esclarecida sobre o mistério da Redenção. Maria viveu na Terra num contraste perpétuo, distinguindo claramente as trevas aqui de baixo, que provêm do erro e do mal, e a escuridão das alturas, uma escuridão que está acima da luz divina acessível na Terra, e que permite pressentir o que há de mais elevado nos mistérios divinos que os bem-aventurados contemplam abertamente no Céu.

Durante a Paixão, quando os Apóstolos se afastaram, exceto São João, ela permaneceu junto à Cruz, de pé, sem desfalecer; não cessou nem por um instante de crer que seu Filho era verdadeiramente o Filho de Deus, Deus mesmo, e que era, como disse o Precursor, “o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”; que aparentemente derrotado, era o vencedor do demônio e do pecado e que dentro de três dias seria vitorioso sobre a morte por sua ressurreição, como havia anunciado. Esse ato de fé da Virgem Maria no Calvário foi, naquela hora negra, o maior e mais profundo que já existiu, pois o objeto desse ato era o mais difícil: que Jesus alcançaria a maior vitória através da mais completa imolação.

Essa fé estava admiravelmente iluminada pelos dons que possuía em nível proporcionado ao de sua caridade. O dom da inteligência fazia-lhe penetrar e compreender os mistérios revelados, seu significado interior, sua conveniência, sua harmonia, suas conseqüências; fazia-lhe ver melhor sua credibilidade, em particular nos mistérios em que ela participou mais que qualquer outra pessoa, como o mistério da concepção virginal de Cristo e o da Encarnação do Filho de Deus e, conseqüentemente, nos mistérios da Santíssima Trindade e da economia da Redenção.

O dom da sabedoria, sob a inspiração do Espírito Santo, permitia-lhe julgar as coisas divinas por essa concordância ou conaturalidade que está fundada na caridade2. Ela conhecia assim experimentalmente quão bem esses mistérios correspondem às nossas aspirações mais elevadas e suscitam sempre novas para completá-las. Desejava os mistérios na proporção da sua caridade, que não cessava de aumentar, de sua humildade e de sua pureza. Em Maria se realizaram eminentemente as palavras: “É aos humildes que Deus dá sua graça”, “bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus”; já o vislumbram desde aqui na Terra.

Pelo dom da ciência, o Espírito Santo permitia-lhe julgar as coisas criadas, seja como símbolos das coisas divinas, no sentido de que os Céus cantam a glória de Deus, seja para compreender sua nulidade e fragilidade, e apreciar melhor, por contraste, a vida eterna.

 

Privilégios particulares de sua inteligência

À fé e aos dons do Espírito Santo, que se encontram em diversos graus em todos os justos como funções do organismo espiritual, agregavam-se em Maria, como em muitos outros santos, as graças gratuitas (gratis datae) ou carismas, outorgados sobretudo para o benefício do próximo. Estes são antes sinais exteriores para confirmar a revelação e a santidade do que formas da vida sobrenatural, e por isso distinguem-se da graça santificante, das virtudes infusas e dos dons, que são de ordem mais elevada3.

A esse respeito, os teólogos admitem geralmente este princípio: mais que todos os outros santos, Maria recebeu todos os privilégios que as grandes conveniências exigiam para ela e que não tinham nenhuma incompatibilidade com seu estado. Em outros termos, ela não podia ficar, com respeito ao título de Mãe de Deus, em condição de inferioridade em relação aos outros santos, aos quais superava muitíssimo pela medida em que tinha a graça habitual, as virtudes infusas e os sete dons.

É preciso bem compreender esse princípio, mas não de uma maneira muito material. Se, por exemplo, alguns santos viveram longos meses sem alimento, ou se caminharam sobre as águas para ir ao socorro de alguém, não se segue que a Santíssima Virgem o tenha feito também; é suficiente que esses dons estejam contidos nas graças de ordem superior4.

Mas em virtude do princípio enunciado, devem ser atribuídos a ela muitíssimos carismas, seja de uma maneira certa ou ao menos com grande probabilidade.

Em primeiro lugar, deve-se admitir que ela tenha tido por privilégio, em maior grau que os outros santos, o conhecimento profundo da Escritura, sobretudo no que se refere ao Messias, à Encarnação redentora, à Santíssima Trindade, à vida da graça, às virtudes e à vida eterna.

Embora não correspondesse a Maria exercer o ministério oficial da Igreja, ela deve ter esclarecido São João e São Lucas em muitíssimas coisas relativas à infância e à vida oculta de Jesus5.

Quanto aos objetos de ordem natural, ela deve ter tido o conhecimento claro e profundo das coisas que eram de alguma utilidade; não lhe era necessário saber que o sal comum é cloreto de sódio ou que a água é constituída de hidrogênio e oxigênio para conhecer bem suas propriedades naturais, e nem mesmo seu simbolismo superior. A Virgem tinha das coisas naturais o conhecimento que serve para penetrar melhor nas verdades morais e religiosas, esse que manifesta a existência de Deus, sua Providência universal que se estende ao mais ínfimo detalhe; esse conhecimento que manifesta também a espiritualidade e a imortalidade da alma, nosso livre arbítrio, nossa responsabilidade, os princípios e conclusões da lei moral e as relações da natureza e da graça. Compreendia admiravelmente a finalidade da natureza, a ordem da criação, a subordinação de toda causa criada à causa suprema; não confundia essa subordinação com o que não seria mais que coordenação da ação da criatura com aquela do Criador. Sabia que todo o bem procede de Deus, até a livre determinação de nossos atos salutares e meritórios, e que ninguém seria melhor que o outro se não fosse mais amado por Deus, o que constitui o fundamento da humildade e da ação de graças.

O conhecimento de Maria neste mundo tinha seus limites, sobretudo no início; assim, não compreendeu de início todo o alcance das palavras de Jesus menino referentes aos assuntos de seu Pai6. Mas, como se tem dito muitas vezes, eram limitações em vez de lacunas; não era ignorância, pois não se tratava da privação de um conhecimento que teria convindo que possuísse naquele momento. A Mãe de Deus soube, nos diferentes momentos de sua vida, o que convinha que soubesse.

Com maior razão, jamais esteve sujeita a erro; evitava toda precipitação no julgamento ou o suspendia enquanto não possuísse as luzes suficientes; e se ainda não estava segura, contentava-se em admitir a coisa como verossímil ou provável, sem afirmar, nem mesmo interiormente, que fosse verdadeira. Por exemplo, é dito em São Lucas7 que quando Jesus, à idade de doze anos, permaneceu em Jerusalém, Maria julgou ou supôs que ele estava na caravana junto com os parentes ou amigos. Era uma suposição verossímil, verdadeiramente provável, e nisso não se enganava.

Vimos antes8 que Maria teve muito provavelmente, segundo a apreciação de muitos teólogos, ao menos de maneira transitória, desde o seio de sua mãe, a ciência infusa para ter o uso do livre arbítrio e o mérito que fazia frutificar a plenitude inicial de graça. Se muito provavelmente lhe foi assim outorgada essa ciência infusa, fica difícil dizer que em seguida tenha ficado privada dela, pois teria se tornado menos perfeita, em vez de progredir incessantemente na linha do mérito. A mesma razão de conveniência, vimos também, levou muitos teólogos, como São Francisco de Sales e Santo Afonso, a afirmar que Maria possuía o uso dessa ciência infusa mesmo durante o sono, para continuar merecendo. Mas Jesus aceitou e ofereceu sua

Entre as graças gratuitas, não se pode negar a Maria o dom da profecia, que, aliás, torna-se manifesto no Magnificat, particularmente por estas palavras: “eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”9. A realização dessa profecia é tão evidente e constante depois de séculos, quão concreto e definitivo é o anúncio. E não foi evidentemente a única profecia na vida da Santíssima Virgem, pois esse dom é muito freqüente em vários santos, como se pode ver na vida do Cura d'Ars e de São João Bosco10.

Como muitos santos, finalmente, Maria deve ter possuído o dom do discernimento dos espíritos, para reconhecer o verdadeiro espírito de Deus, distingui-lo de toda ilusão diabólica ou da exaltação natural, para poder penetrar assim os segredos dos corações, sobretudo quando lhe pediam conselhos, para responder sempre de maneira justa, oportuna e imediatamente aplicável, como faziam tantas vezes o Cura d'Ars e muitos outros servos de Deus.

Vários teólogos reconhecem ainda em Maria o dom de línguas, para usá-lo quando teve de viajar para países estrangeiros, como o Egito e Éfeso 11. Com maior razão, depois da Assunção, Maria teve a plenitude desse dom, uma vez que nas aparições de Lourdes, La Salette e em outros lugares, ela falava o dialeto da região onde aparecia; dialeto que, ademais, era o único idioma conhecido das crianças a quem dirigia a sua mensagem celestial.

Também se tem perguntado se Maria teve, em sua vida terrena, por alguns instantes, a visão imediata da essência divina, da qual gozam no Céu os bem-aventurados.

Os teólogos ensinam comumente, contra G. Vega e Francisco Guerra, que certamente ela não a teve de forma permanente, no que difere de Nosso Senhor, pois se a tivesse possuído, não teria tido fé.

Teve esse privilégio até o final de sua vida e de maneira transitória? É difícil responder com certeza. Tinha de ter uma visão intelectual da Santíssima Trindade superior àquela que recebeu Santa Teresa e outros santos que chegaram até a união chamada transformante (VII Morada de Santa Teresa); mas essa visão intelectual, por mais elevada que seja, é sempre da ordem da fé, inferior à visão imediata da essência divina, e é comunicada por idéias infusas.

Sabe-se que, segundo Santo Agostinho e Santo Tomás12, é provável que São Paulo tenha tido por um momento a visão beatífica, pelo que diz na segunda Carta aos Coríntios, “foi arrebatado (não sei se foi no corpo, se fora do corpo ― só com a alma ― Deus o sabe) até ao terceiro céu. (...) e arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis que não é lícito (ou possível) a um homem proferi-las (explicando-as)”13.

Santo Agostinho e Santo Tomás observam que o terceiro céu, segundo os hebreus, não é o céu do ar nem dos astros, mas o Céu espiritual onde Deus habita e é visto pelos anjos ― o paraíso, como diz o próprio São Paulo no texto citado. Esses dois grandes doutores consideram como provável que São Paulo tenha tido por um momento a visão beatífica, porque foi chamado a ser o Doutor dos Gentios e da graça, e que não se pode plenamente conhecer o preço da graça, o germe da glória, sem ter gozado por um momento desta. Existe uma séria probabilidade de que tenha sido assim, considerando a autoridade dos dois maiores teólogos da Igreja, que por sua vez também receberam inumeráveis graças místicas e que podiam julgar muitíssimo melhor que nós a questão que estamos tratando.

Essa opinião de Santo Agostinho e de Santo Tomás não é, todavia, aceita por Estio nem por Cornélio a Lápide. Exegetas modernos, como o Pe. B. Allo O. P., em seu comentário sobre a Segunda Epístola aos Coríntios, contentam-se em dizer que “São Paulo foi arrebatado aos cumes da contemplação divina e deve ter entoado os cânticos indizíveis dos bem-aventurados ao redor do trono de Deus”.

E de volta à Santíssima Virgem, deve-se notar com o Pe. Hugon14 que, se é provável que São Paulo tenha recebido esse privilégio por um momento, é muito difícil negá-lo à Mãe de Deus, pois sua divina maternidade, sua plenitude da graça e a carência absoluta de faltas dispunham-na mais que ninguém para a eterna bem-aventurança. Se não se pode afirmar com certeza que tivesse durante alguns instantes a visão beatífica aqui na Terra, é ao menos muito provável que tenha tido15.

Esse simples olhar é suficiente para formarmos uma idéia do que foram durante sua vida terrena os dons intelectuais da Santíssima Virgem.

 

As principais virtudes de Maria

Falamos um pouco antes de sua fé; convém indicar brevemente o que foram nela a esperança, a caridade, as quatro virtudes cardeais e em seguida sua humildade e bondade.

A Esperança, pela qual aspirava possuir a Deus que ainda não via, era uma perfeita confiança que se apoiava não nela mesma, mas na misericórdia divina e na onipotência auxiliadora. Esse fundamento lhe dava uma certeza muito segura, “certeza de tendência”, diz Santo Tomás16, que nos faz pensar naquela que o navegador possui, depois de ter tomado o rumo certo, de dirigir-se efetivamente para o termo da sua viagem, e que vai aumentando na medida em que se aproxima do final do itinerário. Em Maria, essa certeza aumentava também pelas inspirações do dom da piedade, pelo qual, ao despertar em nós um amor inteiramente filial para com Ele, “o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus”17 e que podemos contar com seu auxílio.

Essa certeza da esperança era tanto maior em Maria quanto ela estava confirmada na graça, preservada de toda falta e, por conseguinte, de todo desvio, fosse para o lado da presunção ou para o da depressão e da falta de confiança em Deus.

Exercitou essa esperança perfeita ainda em sua infância, quando suspirava ardentemente pela vinda do Messias, quando a desejava para a salvação das nações, quando esperava que o segredo da concepção virginal do Salvador fosse revelado a José, seu esposo; quando fugiu para o Egito; e mais tarde no Calvário, quando tudo parecia perdido e ela esperava a perfeita e próxima vitória de Cristo sobre a morte, como Ele mesmo havia anunciado. Sua confiança, enfim, animou e assegurou a confiança dos Apóstolos em meio às lutas incessantes pela difusão do Evangelho e pela conversão do mundo pagão.

Sua caridade, seu amor a Deus por Ele mesmo e às almas por Deus, superava desde o princípio a caridade final de todos os santos reunidos, uma vez que existia no mesmo grau que a plenitude de graça, e Maria estava sempre mais intimamente unida ao Pai, como sua filha predileta, ao Filho, como sua Virgem Mãe, estreitamente associada à sua missão, e ao Espírito Santo, por um matrimônio espiritual que superava largamente aquele que tiveram os maiores místicos. Ela era, num grau que não podemos vislumbrar, o templo vivo da Santíssima Trindade. Deus a amava mais que a todas as outras criaturas juntas, e Maria correspondia perfeitamente a esse amor, após ter-se consagrado plenamente a Ele desde o primeiro instante de sua concepção e vivendo sempre na mais completa conformidade de vontade com Seu beneplácito.

Nenhuma paixão desordenada, nenhuma vã preocupação, nem mesmo a mínima distração freava esse impulso de seu amor por Deus; seu zelo pela regeneração das almas era proporcionado a esse impulso; ela se oferecia incessantemente e oferecia seu Filho para nossa salvação.

Exerceu essa caridade em grau tão eminente e de maneira contínua. Porém, mais especialmente quando se consagrou totalmente a Deus, ao ser apresentada no templo e fazer o voto de virgindade, encomendando-se à Providência para poder observá-lo perfeitamente; posteriormente, na Anunciação, quando deu seu consentimento com uma perfeita conformidade à vontade de Deus e por amor a todas as almas as quais havia de salvar; também quando concebeu seu Filho e lhe deu a vida; ao apresentá-lo no templo e encontrá-lo mais tarde no meio dos doutores, e ao oferecê-lo finalmente no Calvário, participando em todos os seus padecimentos para a glória de Deus, em espírito de reparação e para a salvação de todos. No momento mesmo em que escutava os gritos: “Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”, uniu-se à oração do Salvador pelos seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”18.

A Igreja aplica-lhe também estas palavras do Eclesiástico19: “Eu sou a Mãe do amor formoso e do temor de Deus, da ciência e da santa esperança”20.

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*   *

As virtudes morais infusas estão em todos os justos num grau proporcionado àquele de sua caridade: a prudência na razão para assegurar a retidão do juízo prático segundo a lei divina, a justiça na vontade para dar a cada um o que lhe é devido, a fortaleza e a temperança na sensibilidade para discipliná-la e fazer que resida nela a retidão da justa razão iluminada pela fé. A essas quatro virtudes cardeais acrescentam-se as outras virtudes morais infusas.

Quanto às virtudes adquiridas, que são de ordem natural, facilitam o exercício das precedentes, às quais são subordinadas, como a agilidade dos dedos do artista facilita o exercício da arte, que reside na inteligência.

A prudência em Maria dirigia todos os seus atos ao fim último sobrenatural, sem nenhum desvio; todas as suas ações eram deliberadas e meritórias. Por isso a Igreja a chama Virgo prudentissima. Maria exerceu particularmente essa virtude iluminada pelo dom do conselho, na Anunciação, quando “perturbada com as palavras do anjo, discorria pensativa que saudação seria esta”21 e quando perguntou depois: “Como se fará isso, pois eu não conheço varão”; e depois de ter sido iluminada, quando disse: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”.

Exerceu a justiça evitando toda falta contrária a essa virtude, observando todas as prescrições da lei, até a da purificação, ainda que não tivesse nenhuma necessidade de ser purificada, e ordenando toda a sua vida para o melhor bem da humanidade a ser regenerada e de seu povo.

Ela praticou no mais alto grau a justiça para com Deus, isto é, a virtude da religião, unida ao dom da piedade, consagrando-se totalmente ao serviço de Deus desde o primeiro instante, ao fazer o voto de virgindade, ao oferecer seu Filho durante a apresentação no templo, e ainda mais ao oferecer a sua morte na cruz. Ofereceu também com Ele o ato mais perfeito da virtude da religião: o sacrifício perfeito, o holocausto de valor infinito. Praticou também a obediência perfeita a todos os mandamentos, acompanhada da mais generosa prontidão em seguir todos os conselhos e inspirações do Espírito Santo.

Essa justiça foi sempre unida à misericórdia; perdoou, com seu Filho, todas as injúrias que lhe foram feitas, e mostrou grande comiseração pelos pecadores e pelos aflitos. A Igreja também a chama Mãe de Misericórdia, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, título que ostentam milhares de santuários nos diferentes países do mundo; por ela se realiza esta palavra do salmista: “Misericordia Dei plena est Terra”. A Terra está cheia da misericórdia de Deus.

A fortaleza ou a firmeza da alma que não se deixa abater pelos maiores perigos, nem pelos mais duros trabalhos e penosas aflições, brilhou em Maria em grau não menos eminente, sobretudo durante a Paixão do Salvador, quando permaneceu ao pé da Cruz, sem desfalecer, segundo o testemunho de São João22. Sabe-se que Caetano escreveu um opúsculo intitulado De spasmo Virginis contra a opinião que afirmava que Maria havia desfalecido no caminho do Calvário. Medina, Toledo, Suárez e a maioria dos teólogos rejeitaram igualmente essa opinião.

A Santíssima Virgem foi sustentada pelas inspirações do dom da fortaleza até o ponto em que mereceu, pelo martírio do coração, ser chamada de Rainha dos Mártires, pelo fato de ter participado interiormente das dores de seu Filho mais profunda e generosamente que todos os mártires em todos os seus tormentos exteriores. A Igreja recorda-nos isso na festa da Compaixão da Santíssima Virgem e na festa das Sete Dores de Nossa Senhora, principalmente no Stabat Mater, onde se diz:

16. Fac, ut portem Christi mortem,

passionis fac consortem,

et plagas recolere.

Traga em mim do Cristo a morte,

da Paixão seja consorte, 

suas chagas celebrando.

17. Fac me plagis vulnerari, 

fac me Cruce inebriari,

et cruore Filii.

Por elas seja eu rasgado,

pela cruz inebriado,

pelo sangue de teu Filho!

Foi ao mais alto grau da fortaleza, da paciência e da magnanimidade ou grandeza de alma, na mais extrema aflição.

A temperança em seus diferentes aspectos, especialmente a virgindade perfeita, aparece em sua angélica pureza, que assegurava totalmente o predomínio da alma sobre o corpo, das faculdades superiores sobre a sensibilidade, de maneira que Maria espiritualizava-se cada dia mais; a imagem de Deus refletia-se nela como num puríssimo espelho sem traço algum de imperfeição.

A humildade nunca teve de reprimir em Maria o menor primeiro movimento de orgulho ou de vaidade, mas elevou-a ao ato próprio e peculiar dessa virtude: reconhecer praticamente que ela, por si só, não era nada e nada podia fazer sem a graça, na ordem da salvação; inclinava-se também diante da infinita majestade de Deus e diante do menor traço que aparecia d’Ele em todo ser criado. Mais que qualquer outra criatura, colocou sua grandeza em Deus e nela se realizou eminentemente esta palavra do Missal: Deus humilium celsitudo.

No dia da Anunciação, disse: “Sou a escrava do Senhor” e no Magnificat deu graças ao Altíssimo por ter-se dignado olhar sua ínfima condição. No dia da Purificação, submeteu-se a uma lei que não se aplicava a ela. Ao longo de sua vida, sua humildade manifestou-se em todo o exterior: sua perfeita modéstia, sua pobreza voluntária, os trabalhos corporais mais singelos realizados por ela depois de ter recebido as maiores graças que qualquer outra criatura jamais receberá.

Sua bondade ou mansidão correspondia à sua humildade, segundo estas palavras da liturgia: Virgo singularis, inter omnes mitis; mesmo diante daqueles que crucificaram seu Filho, não proferiu a menor palavra de indignação, mas com Ele perdoou-os, rezando por eles; é a mansidão levada ao máximo grau, unida juntamente à virtude da fortaleza.

Todas as virtudes, mesmo aquelas que aparentemente são opostas, uniram-se em Maria na mais perfeita harmonia e nos fazem pensar na simplicidade eminente de Deus, onde se fundem, simultaneamente, as perfeições absolutas mais distintas, como a infinita justiça e a infinita misericórdia.

Tais são os dons intelectuais de Maria e suas principais virtudes, que fizeram dela o modelo da vida contemplativa, unida à maior devoção para com o Verbo Encarnado e ao apostolado escondido e silencioso mais profundo e universal que já existiu, pois ninguém esteve associado como ela à imensa obra da Redenção, como veremos mais tarde ao falar de sua mediação universal23.

O que acabamos de dizer sobre as principais virtudes de Maria, seus dons intelectuais e sua harmonia completa nos mostram mais concretamente o que foi nela o progresso espiritual e como a plenitude de graça aumentou consideravelmente nela no momento da Encarnação e nos principais mistérios que se seguiram: no nascimento do Salvador, na apresentação de Jesus no templo, em seguida, na fuga para o Egito, na vida oculta em Nazaré e mais ainda no Calvário, em Pentecostes e quando assistia e comungava na Missa celebrada por São João.

Convém tratar, a seguir, da plenitude final de graça no momento de sua morte e no instante de sua entrada no Céu. Poderemos seguir assim as fases sucessivas da vida espiritual de Maria desde a Imaculada Conceição até o momento de sua glorificação, da mesma forma que um rio proveniente de uma fonte muito alta e que, depois de fertilizar tudo por onde passa, precipita-se no oceano.

  1. 1. Lc 1, 45.
  2. 2. Cf. SANTO TOMÁS, IIª IIae, q. 45, a. 2.
  3. 3. Cf. SANTO TOMÁS, Iª IIae, q. III, a. 5.
  4. 4. Cf. e. dublanchy. Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2367-2368; ver também ibidem, col. 2409-2413 ss.: A ciência de Maria durante sua vida terrena; as fontes desse conhecimento, sua extensão e perfeição.
  5. 5. Observa Caetano in IIIam P., q. 27, a. 5: “Posset tamen dici quod non publica doctrina, sed familiari instructione, quam constat mulieribus non esse prohibitam, B. Virgo aliqua particularia facta explicavit Apostolis”, e isso com mais motivo e razão que Maria Madalena, chamada Apostolorum apostola, por ter levado aos Apóstolos a notícia da Ressurreição do Senhor.
  6. 6. Lc, 2, 48.
  7. 7. Lc 2, 44.
  8. 8. Capítulo II, artigo 5, ao final.
  9. 9. Lc 1, 48.
  10. 10. Pela mesma razão, muitos teólogos reconhecem que Maria, principalmente depois da Ascensão, como muitos outros servos e servas de Deus, teve a graça das curas milagrosas, para aliviar as dores, enxugar as lágrimas, socorrer os infelizes que a ela acudiam ou que encontrava pelo caminho. Maria foi, já neste mundo, o consolo dos aflitos, de uma forma que manifestava sua excelsa santidade. Isso é o que dizem Santo Alberto Magno, Santo Antonino, Suárez e a maior parte das obras atuais de Mariologia.
  11. 11. Tal é o parecer de santo alberto magno, santo antonino (IV p., cap. XIX), gerson (Sermo I de Espirito Sancto), suárez (in IIIam, disp. 20, sect. 2), de cornelio a lápide (in Act. Apost., II, 4) e de muitos outros teólogos modernos.
  12. 12. IIª IIae, q. 175, a. 3.
  13. 13. 2Cor 12, 2; 4.
  14. 14. Marie, pleine de grâce, 5ª edição, 1926, p. 106 e ss.
  15. 15. Cf. E. Dublanchy, Dict. Théol. cath., art. Marie, col. 2410: “Uma última e especial fonte de ciência para Maria, durante sua vida terrena, foi uma participação transitória da visão beatífica, que lhe foi comunicada algumas vezes, como o admitem para Moisés e para São Paulo muitos teólogos seguindo SANTO Agostinho, Epist., CXLVII, n. 31. ss., P. L., col. 610 ss e Santo Tomás, Sum. Theol., IIª IIae, q. 175, a. 3., De veritate, interpretando nesse sentido muitos textos bíblicos.

    “Conferido provavelmente a Moisés e a São Paulo, esse privilégio deve ter sido outorgado também à Mãe de Deus, segundo o princípio que autoriza atribuir-lhe os privilégios concedidos aos demais santos e que é muito conveniente por sua dupla dignidade de Mãe de Deus e de corredentora ou medianeira universal. Cf. Gerson, Super Magnificat, tr. III, Opera, Amberes, 1706, t. IV, col. 268; S. Antonino, Sum. Theol., part. IV, tít. XV, c. XVII, 1; Dionisio Cartuxo, De praeconio et dignitate Mariae, 1. II, art. 8; De dignitate et laudibus B. M. Virginis, 1. II, a. 12; Suárez, in IIIam S. Thomae, t. II, disp. XIX, sec. IV, 29, item Novato, Sedlmayr, Lépicier. Quanto à freqüência, duração e abrangência dessa participação (da visão beatífica), só se podem formar conjecturas”.

  16. 16. IIª IIae, q. 18, a. 4: “A esperança tende com certeza para o seu fim, como participando da certeza da fé, que tem a sua sede na potência cognoscitiva”. Ad 2: “A esperança não se apóia principalmente na graça já adquirida, mas na divina omnipotência e misericórdia, que levam a alcançar a graça mesmo o que não a tem, para assim, chegar à vida eterna”.
  17. 17. Rom 8, 16.
  18. 18. Lc 23, 34.
  19. 19. Eclo 24, 24.
  20. 20. Esse versículo não se encontra no texto hebraico, mas sim em muitíssimos manuscritos gregos e na Vulgata.
  21. 21. Lc 1, 29.
  22. 22. Jo 19, 25.
  23. 23. A doutrina comum sobre as virtudes de Maria foi exposta teologicamente por Justino Miechow, O. P., em sua obra latina, traduzida para o francês com o título Conférence sur les litantes -. Ver também, sobre esse ponto, o belo livro do p. r. bernard, O. P., O Mistério de Maria, Edições Desclée, de Brouwer, Buenos Aires, 1946, p 147 e ss. O que fez por nós a Santíssima Virgem Maria durante os anos da vida oculta de Nosso Senhor: “Jesus realizava então a parte mais afetuosa e elevada de sua obra, a santificação desses dois seres (Maria e José) a quem tinha tão próximos e que serão tão excelsos em Seu reino”.

    O Pe. Rambaud, O. P. tratou também recentemente das diferentes virtudes da Santíssima Virgem em seu livro Douce Vierge Marie, Lion, 1939. Ver os capítulos: Virgem prudentíssima, Virgem clemente, Virgem fiel, Sede da Sabedoria.

    Cf. também na coleção Les Cahiers de la Vierge (éditions de la Vie Spirituelle) as páginas profundas e delicadamente escritas pelo padre Ch. Journet na revista Notre-Dame des Sept-Douleurs e pelo cônego Daniel Lallement em Mater Misericordiae. Cf. ibidem, Le Mois de Marie, do Pe. A. D. Sertillanges.

Artigo 5: Principais mistérios por meio dos quais aumentou a plenitude de graça em Maria depois da Encarnação

Esses mistérios foram principalmente aqueles que o Rosário nos convida a meditar, depois do nascimento de Jesus.

 

O nascimento do Salvador

Maria cresceu na humildade, pobreza e mais ainda no amor de Deus ao dar a vida a seu Filho num estábulo. Por berço, não havia mais que uma manjedoura. Mas no mesmo instante, por divino contraste, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade1. Se essas palavras foram doces ao coração dos pastores e ao de São José, muito mais o foram ao coração de Maria. Esse é o começo do Glória que a Igreja não deixará de cantar na Missa até o fim do mundo, e que é o prelúdio do culto do Céu.

Diz-se de Maria: “guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração2. Quanta alegria deve ter sentido no nascimento de seu Filho, e, não obstante, guardou silêncio e só compartilhou essa alegria com Santa Isabel. As grandes maravilhas que Deus faz nas almas superam toda expressão. O que poderia dizer Maria que igualasse o que sentia em seu coração?

 

A apresentação de Jesus no Templo

No dia da Anunciação, a Santíssima Virgem pronunciou o seu Fiat na paz, numa santa alegria, e também na dor, ao pressentir os tormentos do Salvador anunciados pelo profeta Isaías. O mistério da Redenção fica muito claro no momento da apresentação de Jesus no Templo, quando o santo e longevo Simeão, inspirado pelo Espírito Santo, viu no menino Jesus “a luz para iluminar as nações e a glória de Israel, teu povo3. Maria ficou muda de admiração e de reconhecimento; em seguida, o santo ancião acrescentou: “Eis que este (menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição”. Vindo Jesus, de fato, para a salvação de todos, será uma ocasião de queda, uma pedra de tropeço4 para um grande número de israelitas que, não querendo reconhecer n’Ele o Messias, cairão na infidelidade e na ruína eterna, como o testemunha São Paulo 5. O próprio Jesus dirá: “Bem-aventurado aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo6.

Bossuet observa a esse respeito: “Opera todo o excelso e o simples juntamente. Não se pode chegar à sua altura; se alguém desdenha sua simplicidade ou bem quer alcançá-la pelos próprios meios, não consegue, turba-se e precipita-se em seu orgulho. Mas os humildes de coração penetram nos abismos de Deus sem perturbar-se e, afastados do mundo e de seus pensamentos, encontram a vida na profundidade das obras de Deus”7.

 “Simeão é inspirado para falar claramente a Maria” e, de fato, o mistério de Jesus e da predestinação dos eleitos aparece cada vez mais nítido para ela.

O santo ancião lhe disse ainda: “Uma espada de dor transpassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos”. Maria tomará parte nas contradições que experimentará o Salvador; os sofrimentos de Jesus serão os seus sofrimentos; ela terá o coração transpassado pela mais viva dor; se o Filho de Deus não tivesse vindo, não teríamos conhecido a profunda malícia do orgulho que se revolta contra a mais excelsa verdade. Os pensamentos ocultos de hipocrisia e de falso zelo serão revelados quando os fariseus pedirem a crucificação d’Aquele que é a santidade por essência.

A plenitude de graça em Nosso Senhor teve dois efeitos aparentemente contraditórios: a mais perfeita paz e a inclinação a oferecer-se em sacrifício dolorosíssimo como vítima redentora, para cumprir da melhor forma possível sua missão de Salvador. A plenitude de graça em Maria teve igualmente dois efeitos também aparentemente contraditórios: por um lado, a alegria mais pura nos dias da Anunciação e da Natividade e, por outro, o desejo de unir-se o mais generosamente possível aos padecimentos de Seu Filho para nossa salvação.

Assim, na apresentação no Templo, Maria já oferece o Seu Filho por nós; a alegria e o sofrimento unem-se muito intimamente no coração da Mãe de Deus, que é já a Mãe de todos os que acreditarão nas palavras de seu Filho.

 

A Fuga para o Egito

São Mateus8 narra que, após a adoração dos Reis Magos, um anjo do Senhor apareceu a São José em sonho e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”. De fato, Herodes ordenou o massacre dos meninos menores de dois anos que houvesse em Belém e em seus arredores.

O menino Jesus é o terror desse rei, que teme onde não há nada a temer, e não teme os castigos de Deus aos quais deveria temer. Maria e José já participam das perseguições que se levantam contra Nosso Senhor. “Até agora viviam tranqüilos e ganhavam calmamente a vida com o trabalho das suas mãos; mas assim que Jesus lhes foi entregue, não houve momento de descanso para eles... É necessário tomar parte em sua Cruz”9. Com isso, cresceram muito no amor de Deus. Os Santos Inocentes participaram também da cruz de Cristo, pois sua morte nos indica que estavam predestinados desde toda a eternidade à glória do martírio. Depois de Herodes morrer, um anjo do Senhor anunciou em sonho a José que havia chegado a hora de ir para Nazaré, na Galiléia10

 

A vida oculta em Nazaré

Maria recebeu incessantemente um aumento de graça e de caridade ao carregar o menino em seus braços, ao alimentá-lo, ao receber suas carícias, ao escutar suas primeiras palavras, ao sustentá-lo em seus primeiros passos.

O menino crescia e se fortificava cheio de sabedoria: e a graça de Deus era com nele11. Quando completou doze anos, acompanhou Maria e José a Jerusalém para celebrar a Páscoa e, no momento do retorno, permaneceu na cidade sem que seus pais percebessem. Somente no final de três dias o encontraram no templo no meio dos doutores. E ele lhes disse: “Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? E eles não entenderam o que Jesus lhes disse12

Maria aceita, na escuridão da fé, o que não podia ainda entender; o mistério da Redenção se revelará progressivamente a ela em toda a sua profundidade e extensão. Sentiu uma grande alegria ao encontrar Jesus, mas essa alegria permitia entrever desde já muitíssimos sofrimentos.

A propósito da vida oculta de Nazaré, que se prolongou até o ministério público de Jesus, Bossuet13 fez estas observações: “Aqueles que se sentem incomodados por Jesus Cristo e envergonham-se de que Ele tenha passado a vida em tão insólita obscuridade incomodam-se também pela Santíssima Virgem, e quiseram atribuir-lhe contínuos milagres. Mas ouçamos o santo Evangelho: ‘Maria guardava todas essas coisas em seu coração’ (Lc 2, 51)... Não é um encargo muito digno esse de conservar em seu coração tudo o que havia notado e visto de seu Filho querido? E se os mistérios da sua infância foram-lhe um doce colóquio, como ela não se alegraria em ocupar-se e meditar sobre todo o resto da vida de seu Filho? Maria meditava em Jesus... permanecia em perpétua contemplação, fundindo-se, desfazendo-se, por assim dizer, em amor e em desejo... Que diremos, pois, de todos aqueles que inventam tão belas lendas para a Santíssima Virgem? O que lhes diremos se a humilde e perfeita contemplação não lhes é suficiente? Mas se o foi para Maria e para o próprio Jesus durante trinta anos, não foi mais que suficiente para que a Virgem continuasse nesse santo exercício após esse período? O silêncio das Escrituras sobre essa divina Mãe é mais sublime e eloqüente que todos os discursos. Ó homem demasiado ativo e inquieto por tua própria atividade! Aprenda a contentar-te em ouvir Jesus em teu próprio interior, recordando-te d’Ele e meditando em Suas palavras... Orgulho humano, de que te queixas com tuas inquietudes, de não seres nada no mundo? Qual personagem foi Jesus nele? O que Maria representava? Eles eram a maravilha do mundo, o espetáculo de Deus e dos anjos. O que eles faziam? De que se ocupavam? Que fama tinham na Terra? E tu queres ter um nome e uma intervenção gloriosa? Não conheces Maria nem Jesus... E dizes: ‘Não tenho nada para fazer’; quando, em parte, a obra da salvação dos homens está em tuas mãos. Não há inimigos a reconciliar? diferenças a apaziguar? brigas a terminar, donde poderia dizer o Salvador: ‘Tereis salvado o vosso irmão’? (Mt 18, 15). Não existem miseráveis aos quais é preciso impedir que se entreguem à murmuração, à blasfêmia, ao desespero? E quando tudo isso estiver concluído, não te restará o negócio da tua salvação, a verdadeira obra de Deus para cada um de nós?”

Quando se medita na vida oculta de Nazaré, no silêncio e no progresso espiritual de Maria, e depois, ao contrário, naquilo que o mundo moderno chama com freqüência de progresso, chega-se a esta conclusão: nunca se falou tanto de progresso quanto depois que se esqueceu do mais importante de todos, o progresso espiritual. O que então aconteceu? Isso que tantas vezes observou Le Play: que o progresso inferior buscado por si mesmo está acompanhado ― ao facilitar o prazer, a ociosidade e o descanso ― de um imenso retrocesso moral ao materialismo, ao ateísmo e à barbárie, como o mostram claramente as últimas guerras mundiais.

Em Maria, ao contrário, encontramos a realização cada vez mais perfeita da palavra evangélica: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu espírito, e ao próximo como a ti mesmo14.

Quanto mais ela avança, mais ama a Deus com todas as suas forças, ao ver, durante a vida pública de Jesus, a oposição se levantar contra Ele, até a consumação do mistério da Redenção.

 

A causa das dores de Maria no Calvário e a intensidade de seu amor a Deus, ao seu Filho e às almas.

Qual foi a causa profunda das dores de Maria no Calvário? Toda alma cristã, acostumada a fazer sua Via Sacra, responderá: a causa profunda desses sofrimentos, como das dores de Jesus, foi o pecado. Bem-aventurados os corações simples para os quais essa fórmula expressa uma verdade de vida, e que experimentam uma verdadeira dor de suas faltas, verdadeira pena que somente a graça pode produzir em nós.

Compreendemos pouco as dores de Maria, porque sofremos apenas quando nosso corpo é posto à prova e pelas feridas causadas ao nosso amor próprio, à nossa vaidade, ao nosso orgulho; sofremos também e naturalmente pela ingratidão dos homens, pelas injustiças que afligem nossa família e nossa pátria. Mas sofremos pouquíssimo pelo pecado, pelas nossas próprias faltas, enquanto são ofensas a Deus.

Teoricamente concebemos que o pecado é o maior dos males, pois fere a própria alma e todas as suas faculdades, como uma loucura, uma cegueira, uma infâmia e ingratidão, que nos priva das melhores energias e é também a causa de todas as desordens que deploramos nas famílias e na sociedade; é a causa evidente da luta às vezes tão violenta entre as classes sociais e entre os povos. Mas, apesar de vê-lo, não experimentamos grande dor pelas faltas pessoais com as quais cooperamos mais ou menos com a desordem geral. Nossa leviandade e nossa inconstância impedem-nos de tomar vivamente consciência do enorme mal que é o pecado; não compreendemos a profundidade de sua malícia, e precisamente porque ela é tão grave, passa despercebida aos espíritos superficiais. O pecado, que causa tantos estragos nas almas e na sociedade, assemelha-se àquelas doenças que atacam os órgãos vitais e que às vezes carregamos sem suspeitar, como o câncer; não sofremos ainda o mínimo, enquanto gritamos ao Céu por uma simples picadura sem gravidade.

Para sentir vivamente o bom sofrimento, que é a abominação do pecado, deveríamos ter um profundíssimo amor a Deus, a quem o pecado ofende, e um grande apreço pelas almas, as quais o pecado desvia de seu verdadeiro fim.

Os santos sofrem por causa do pecado na medida de seu amor a Deus e ao próximo. Santa Catarina de Sena reconhecia as almas que estavam em pecado mortal pelo odor insuportável que sentia em sua presença. Mas para compreender até onde pode chegar o tormento causado pelo pecado, é preciso perguntar esse segredo ao coração imaculado e doloroso de Maria.

A medida de sua dor foi a medida de seu amor a Deus ofendido, a seu Filho crucificado e às almas a serem salvas. 

Ora, esse amor de Maria superava a caridade mais ardente dos maiores santos, de São Pedro, de São Paulo, de São João. Nela, a plenitude inicial de caridade superava já a graça final de todos os santos reunidos, e desde então não cessou de aumentar; jamais a menor falta venial retardou o impulso de seu amor, e cada um de seus atos meritórios, mais fervoroso que o anterior, multiplicou a intensidade do seu amor segundo uma progressão que não poderíamos imaginar.

Se tal era a intensidade do amor de Deus na alma de Maria, quanto deve ter sofrido pelo pecado, o mais grave de todos os males, do qual nossa leviandade e inconstância impedem-nos de afligir-nos. Ela distinguia incomparavelmente melhor que nós o que causa a perda eterna de muitíssimas almas: a concupiscência da carne, a dos olhos e o orgulho da vida. Sofria na mesma medida de seu amor por Deus e por nós. Essa é a grande luz que se encontra nesse contraste.

A causa das suas dores foi o conjunto de todos os pecados reunidos, de todas as revoluções, de todas as cóleras sacrílegas, que chegaram num instante de paroxismo, até o pecado de deicídio, ao ódio encarniçado contra Nosso Senhor, que é a luz divina libertadora e o Autor da salvação.

A dor de Maria é tão profunda como seu intenso amor natural e sobrenatural por seu Filho, a quem ama com um coração de Virgem ― o mais puro e o mais terno ― como a seu unigênito milagrosamente concebido e como a seu Deus.

Para se formar uma idéia clara dos sofrimentos de Maria, seria preciso ter recebido, como os estigmatizados, a impressão das chagas do Salvador; seria preciso ter participado de todos os seus sofrimentos físicos e morais por meio das graças lacerantes que lhes fazem percorrer a Via Crucis revivendo as horas mais dolorosas da Paixão. Voltaremos a insistir nesse ponto mais tarde quando falarmos de Maria mediadora e corredentora, e da reparação que ofereceu com seu Filho, por Ele e n’Ele.

Notemos aqui somente que esses três grandes atos de amor meritórios para nós o eram também para Maria, e aumentaram consideravelmente sua caridade e todas as outras virtudes, como a fé, a confiança, a religião, a humildade, a fortaleza e a mansidão, pois praticou, então, essas virtudes no grau mais difícil e mais heróico, tornando-se assim a Rainha dos Mártires.

A graça e a caridade do Coração de Jesus fluíam no Calvário sobre o coração de sua Mãe Santíssima; era Ele quem a fortificava e ela, por sua vez, amparava espiritualmente São João. Jesus oferece o martírio de sua Mãe juntamente com o seu e Maria oferece-se com seu Filho, que lhe é mais amado que sua própria vida. Se o menor dos atos meritórios de Maria durante a vida oculta de Nazaré aumentava a grandeza de sua caridade, qual não deve ter sido o efeito de seus atos de amor ao pé da cruz?

 

Pentecostes

A ressurreição gloriosa do Salvador e suas diversas aparições marcaram certamente novos progressos na alma de sua santa Mãe, que viu realizadas muitas profecias do próprio Jesus e sua vitória sobre a morte, sinal do triunfo que alcançou na Sexta-Feira Santa sobre o demônio e o pecado.

O mistério da Ascensão elevou cada vez mais os pensamentos de Maria para o Céu. Na tarde daquele dia, recolhida com os Apóstolos no Cenáculo15, percebeu, como eles, que a Terra estava singularmente vazia depois da partida de Nosso Senhor, e entreviu todas as dificuldades da evangelização do mundo pagão que haviam de converter em meio às perseguições preditas. Diante dessa perspectiva, a presença da Santíssima Virgem deve ter sido um grande conforto para os Apóstolos. Em união com Nosso Senhor, mereceu-lhes com um mérito de conveniência as graças que receberiam naquele mesmo Cenáculo onde Jesus havia instituído a Eucaristia, onde os havia ordenado sacerdotes e onde havia aparecido após sua Ressurreição.

O dia de Pentecostes ― ao descer o Espírito Santo sobre ela e sobre os Apóstolos em forma de línguas de fogo ― veio iluminá-los definitivamente sobre os mistérios da salvação e fortalecê-los para a imensa e tão árdua obra que deveriam realizar16. Se os Apóstolos nesse dia são confirmados na graça, se São Pedro manifesta por meio da pregação que recebeu a plenitude da contemplação do mistério do Filho de Deus, do Salvador e do autor da vida ressuscitado, se os Apóstolos, longe de continuar temerosos, estão agora “alegres de poder sofrer por Cristo”, qual não deve ter sido o novo aumento de graça e de caridade recebido por Maria nesse dia, ela que deveria ser aqui na Terra como o coração da Igreja nascente?

Ninguém mais que ela participará no profundo amor de Jesus a seu Pai e às almas; ela deve também, com suas orações, sua contemplação e sua generosidade incessante, sustentar, de certo modo, a alma dos Doze, segui-los como uma Mãe em seus trabalhos e em todas as dificuldades de seu apostolado, que terminará pelo martírio. Eles são seus filhos. Ela será chamada pela Igreja Regina Apostolorum, e começou, desde aqui na Terra, a velar por eles com suas orações e a fecundar o seu apostolado pela oblação contínua de si mesma, unida ao sacrifício de seu Filho perpetuado no altar.

 

Maria, modelo de devoção eucarística

Convém particularmente insistir sobre o que deve ter sido para a Mãe de Deus o sacrifício da Missa e a Sagrada Comunhão que recebia das mãos de São João.

Por que no Calvário foi ela confiada por Nosso Senhor a São João de preferência às santas mulheres que estavam ao pé da Cruz? Porque São João era sacerdote e tinha um tesouro que poderia comunicar à Maria; um tesouro inestimável: o tesouro da Eucaristia.

Por que, entre todos os Apóstolos, São João foi escolhido antes que São Pedro? Porque São João foi o único dos Apóstolos que ficou ao pé da Cruz, para onde foi atraído por uma graça fortíssima e dulcíssima, e porque ele é, diz Santo Agostinho, o modelo da vida contemplativa, da vida íntima e oculta, que foi sempre a vida de Maria e continuará sendo até sua morte. A vida de Maria não terá o mesmo caráter da vida de São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, e não intervirá em nada no governo dos fiéis. Sua missão será a de contemplar e amar Nosso Senhor, presente na Eucaristia, e de obter por suas incessantes súplicas a difusão da fé e a salvação das almas. Ela será assim verdadeiramente, na Terra, como o coração da Igreja nascente, pois ninguém participará como ela da intimidade e do poder do amor de Cristo17.

Sigamo-la nessa vida oculta, sobretudo na hora em que São João celebrava diante dela o sacrifício da Missa. Não tendo Maria o caráter sacerdotal, não poderia exercer suas funções, mas recebeu, como diz M. Olier, “a plenitude do espírito do sacerdócio”, que é o espírito do Cristo Redentor, e também penetrava muito mais profundamente que São João no mistério dos nossos altares. Seu título de Mãe de Deus superava, ademais, o sacerdócio dos ministros do Salvador; ela nos deu o sacerdote e a vítima do sacrifício da Cruz e se ofereceu com ele.

A santa Missa era, para Maria, num grau impensável para nós, o memorial e a continuação do sacrifício da Cruz. No Calvário, a Virgem teve o coração transpassado pela espada da dor; a intensidade e a delicadeza do seu amor por seu Filho fizeram-lhe sofrer um verdadeiro martírio. O sofrimento foi tão profundo que a memória dele não poderia perder o mínimo de sua veemência, e era recordado por uma luz infusa.

Quando São João celebrava a Missa, Maria encontrava novamente sobre o altar a mesma vítima que na Cruz. É o mesmo Jesus que está ali realmente presente; não é somente uma imagem, é a realidade substancial do corpo do Salvador, com sua alma e sua divindade. É verdade que não havia imolação sangrenta, mas sim uma imolação sacramental, realizada pela consagração separada do corpo e do precioso sangue; o sangue de Cristo é sacramentalmente derramado sobre o altar. E essa figura da morte de Cristo era das mais expressivas para Maria, e que ela não podia esquecer, pois levava sempre no mais profundo da sua alma a imagem de seu tão querido Filho maltratado, coberto de feridas, ainda ressoando em seus ouvidos as injúrias e as blasfêmias contra Ele proferidas.

Essa Missa celebrada por São João, a qual Maria assiste, é a reprodução mais impressionante do sacrifício da cruz perpetuado substancialmente sobre o altar.

 

Maria via também no sacrifício da Missa o ponto de união entre o culto da Terra e o do Céu

Com efeito, é a mesma vítima que é oferecida na Missa e que, no Céu, apresenta por nós suas chagas gloriosas ao Pai celeste. O Corpo de Cristo permanece no Céu, não desce do Céu propriamente falando, mas, sem ser multiplicado, torna-se realmente presente sobre o altar pela transubstanciação da natureza do pão n’Ele.

É também no Céu e na Terra o mesmo Sumo Sacerdote, “vivendo sempre para interceder por nós18; o padre é, com efeito, apenas o ministro que fala em nome do Salvador. Ao dizer: Este é o meu corpo, é Jesus quem fala por ele.

É Jesus, em sua natureza divina, quem dá a essas palavras o poder transubstancial; é Jesus, em sua natureza humana, por um ato de Sua santa alma, quem transmite essa influência divina, e quem continua oferecendo-se assim por nós, como Sumo Sacerdote. Se o ministro distrair-se em algum detalhe do culto, o Sumo Sacerdote não se distrai, e Jesus, em sua natureza humana, ao continuar oferecendo-se assim sacramentalmente por nós, supre tudo o que não absorvemos e derrama todo o resplendor espiritual de cada Missa sobre todos os fiéis presentes ou ausentes e sobre as almas do Purgatório.

Ele age atualmente por seus ministros, mas é Ele quem continua oferecendo-se por essas palavras sacramentais; a alma do sacrifício de nossos altares é a oblação interior, que está sempre viva no coração de Cristo, e por ela continua aplicando-nos os méritos e a satisfação do Calvário no momento oportuno. Os santos, ao assistir a Missa, têm muitas vezes visto, no momento da consagração, que era Jesus quem oferecia o Santo Sacrifício no lugar do celebrante. Maria compreendeu mais que todos os santos e melhor que ninguém que a alma do sacrifício da Missa é a oblação sempre viva no coração de Seu Filho. Anteviu que, quando a última Missa tiver terminado, no fim do mundo, essa oblação interior perdurará eternamente no coração do Salvador, não mais como súplica, mas como adoração e ação de graças; será o culto da eternidade expressado já na Missa pelo Sanctus, em honra do Deus três vezes santo.

Como Maria unia-se a essa oblação de Jesus, Sumo Sacerdote? Unia-se, e o diremos mais adiante, como mediadora universal e corredentora. Ela continuava unindo-se como na cruz, em espírito de adoração reparadora, de súplica e de ação de graças. Modelo de almas vítimas, continuava oferecendo as dores tão lacerantes produzidas em sua alma pela negação que faziam da divindade de Jesus, em cuja refutação São João escreveu o quarto Evangelho. Dava graças pela instituição da sagrada Eucaristia e por todos os benefícios dela decorrentes. Suplicava para obter a conversão dos pecadores, pelo aperfeiçoamento das almas boas, para apoiar os Apóstolos em seus trabalhos e sofrimentos até o martírio. Em tudo isso Maria é nosso modelo, para que aprendamos a ser “adoradores em espírito e em verdade”.

O que dizer finalmente da comunhão da Santíssima Virgem? A condição principal de uma comunhão fervorosa é ter fome da Eucaristia; da mesma maneira, o pão comum não renova verdadeiramente nossas forças se não o comemos com apetite. Os santos tinham fome da Eucaristia; certa vez, a santa comunhão foi negada a Santa Catarina de Sena; mas seu desejo era tão forte que uma partícula da grande Hóstia se desprendeu, e sem o sacerdote saber, aquela partícula chegou milagrosamente à santa. A fome da Eucaristia era incomparavelmente maior, muito mais intensa, em Maria que nas almas mais santas. Pensemos na força de atração que arrasta Jesus à alma de sua Santa Mãe.

Toda alma é atraída por Deus, pois Ele é o soberano Bem para o qual fomos feitos. Mas as conseqüências do pecado original, o pecado atual e mil imperfeições mais diminuem a admirável conformidade entre Deus e a alma, debilitando em nós o desejo da união divina. A alma de Maria não sofreu as feridas do pecado original, nem do pecado atual; nenhuma infidelidade, nenhuma imperfeição diminuiu o fervor de sua caridade superior a de todos os santos juntos. Esquecendo-se de si mesma, Maria lançava-se para Deus com um impulso irresistível, que aumentava a cada dia juntamente com os seus méritos. Era o Espírito Santo, agindo livremente nela, que a conduzia inevitavelmente a entregar-se livremente a Deus e a recebê-lo; esse amor, como a sede ardente, era acompanhado de uma grande dor que cessaria somente quando morresse de amor e com a eterna união. Esse era o desejo de Eucaristia em Maria Santíssima.

Jesus, por sua vez, tinha grande desejo de santificar definitivamente Maria; pensava somente em comunicar os tesouros de graças que irrompiam do Seu coração. Se pudesse sofrer na glória, sofreria ao encontrar tantos obstáculos em nós que impedem essa divina comunicação. Em Maria, porém, não havia obstáculo algum. Essa comunicação era como a fusão mais intimamente possível aqui na Terra de duas almas espirituais, como um reflexo da comunhão da santa alma de Cristo com o Verbo, ao qual está pessoalmente unida, ou ainda, era como a imagem da comunhão das três Pessoas divinas na mesma verdade infinita e na mesma bondade sem limites.

Maria, no momento da comunhão, convertia-se no tabernáculo vivo e puríssimo de Nosso Senhor, tabernáculo dotado de conhecimento e de amor, mil vezes mais precioso que o cibório de ouro; era verdadeiramente a torre de marfim, a arca da aliança, a casa de ouro.

Quais eram os efeitos da comunhão em Maria? Superavam em muito o que nos disse Santa Teresa sobre a união transformadora na VII morada do Castelo Interior. Tem-se comparado essa união que, de certa maneira, transforma a alma em Deus pelo conhecimento e pelo amor, à união do ferro com o fogo, ou a do ar com a luz que o atravessa. Em Maria, os raios de luz e de calor sobrenaturais saídos da alma de Jesus iluminavam cada vez mais sua inteligência e inflamavam sua vontade. A humilde Virgem não podia relacionar de nenhuma maneira consigo mesma esses bens espirituais, essa sabedoria e essa bondade, mas tributava homenagem Àquele que é o princípio e fim de toda a sua vida: Qui manducat me et ipse vivet propter me: “O que me comer a mim, esse mesmo viverá também por mim (e da minha própria vida)19; quem come minha carne, vive por mim e para mim, como eu vivo por meu Pai e para Ele.

Cada comunhão de Maria era mais fervorosa que a anterior e, ao produzir nela um grande aumento de caridade, preparava-a para uma comunhão mais frutífera ainda. Se a pedra cai tanto mais rapidamente quanto mais se aproxima da terra que a atrai, a alma de Maria se comportava mais generosamente com Deus na medida em que se aproximava d’Ele e por Ele era mais atraída. Era como um espelho puríssimo que refletia de volta para Jesus a luz e o calor que recebia d’Ele e condensava ademais esse calor e essa luz para derramá-los sobre nossas almas.

Ela foi o mais perfeito modelo de devoção eucarística. Por isso, pode ensinar-nos sem meias palavras ― se nos dirigirmos a ela ― o que é o espírito de adoração reparadora ou de sacrifício na aceitação generosa das penas e trabalhos que se apresentam; qual deve ser o nosso desejo da Eucaristia, o fervor de nossas súplicas pelas grandes intenções da Igreja, e também a nossa ação de graças por tantos benefícios.

  1. 1. Lc 2, 14.
  2. 2. Lc 2, 19
  3. 3. Lc 2, 32.
  4. 4. Is 8, 14.
  5. 5. Rom 9, 32; 1Cor, 13.
  6. 6. Mt 11, 6.
  7. 7. Elévations, XVIII semana, XII elev.
  8. 8. Mt 2, 13.
  9. 9. BOSSUET, Elévations, XIX semana, III elev.
  10. 10. Mt 2, 20-23.
  11. 11. Lc 2, 40.
  12. 12. Lc 2, 49-50.
  13. 13. Elévations, XX semana, IX e X elev.
  14. 14. Lc 10, 27.
  15. 15. At 1, 14.
  16. 16. At 2.
  17. 17. Santo Tomás, IIIª, q. 8, a. 1, ad 3, diz sobre o Corpo Místico de Cristo: “A cabeça tem uma superioridade manifesta sobre todos os outros membros, enquanto que o coração tem uma influência oculta. Por isso, o Espírito Santo tem sido comparado com o coração, que vivifica invisivelmente a Igreja e a une, enquanto que Cristo tem sido comparado com a cabeça, de acordo com sua natureza visível”. De outro ponto de vista, diz-se que o Espírito Santo é como a alma da Igreja, porque a alma invisível está totalmente no todo, e totalmente em cada uma das partes, conquanto exerça suas funções superiores na cabeça. A influência de Maria foi justamente comparada com a do coração, porque é oculta e de ordem afetiva, como a influência de uma mãe.
  18. 18. Hb 7, 25.
  19. 19. Jo 6, 58.
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