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Category: EspiritualidadeConteúdo sindicalizado

Não pecarás contra a castidade

Na volta às aulas deste ano de 1999, ficou patente o quanto estamos à mercê de um poder que nos escraviza. Já há muito que as aulas de ciências servem para corromper a inocência das crianças, desde as primeiras séries. Vestindo a máscara do assunto "científico", livros para crianças de 8 anos descrevem a reprodução humana sem o menor cuidado com as alminhas delicadas de crianças inocentes, mas que carregam a inclinação da concupiscência e as levam a ter curiosidades perigosas.

A cada ano aquele assunto voltará, sob diversos aspectos, mantendo a atenção da criança na fonte de pecados contra a pureza do corpo.

Mas o que vimos este ano ultrapassou todos os limites. Leia mais

Depois de ter estudado todos esses anos este assunto, depois de terem suas forças minadas, ouvindo os professores falarem (científicamente!) sempre sobre isso, as crianças de 12-13 anos que ingressaram na 7ª série tiveram que comprar livros de ciências sobre o corpo humano. Mais uma vez vão falar do assunto. Porém, desta vez, aquilo que era ciência passou a ser Moral. Dentro do livro, em páginas de coloração diferente, bem destacado, introduziu-se uma verdadeira aula sobre pecados diversos contra o 6º mandamento da lei de Deus: não pecar contra a Castidade. Com ilustrações e desenhos de alta qualidade, o autor ultrapassa todas as barreiras da ética profissional, invade o campo alheio para deixar de lado a ciência do corpo e querer falar sobre a ciência da alma! Que autoridade tem esse autor, ou o diretor da escola que adota este livro, ou um professor que ouse falar destas coisas para meninas de 12 anos, que autoridade, repito, têm eles para falar sobre relacionamento sexual e ensinar as crianças a pecar?

Mas eles são materialistas, não acreditam em nada que não seja palpável e mensurável, não acreditam mais na alma, criada à imagem e à semelhança de Deus, ou seja, espiritual, inteligente e livre. Como pode um cérebro, um mecanismo, um corpo animal, conhecer como nós conhecemos, e amar livremente (conscientemente) como nós amamos, isso eles não explicam e nem podem explicar. Mentem! Inventam mágicas inexplicáveis cientificamente segundo as quais o cérebro foi evoluindo, evoluindo e, aos poucos começou a pensar.....

Logo, nada mais somos do que animais evoluídos e por isso, devemos usar do sexo como animais!Claro! Não existe a alma racional para impor aos sentidos uma razão elevada, uma finalidade sobrenatural. A dúvida é que eles não explicam porque, sendo tão evoluídos, eles ensinam aos homens um comportamento sexual tão degradante e baixo, inexistente no mundo animal. Se os homens seguissem o exemplo da natureza dos animais, que respeitam totalmente as finalidades criadas por Deus, não pecariam tanto!

Mas voltemos à escola pervertedora de crianças.

Falta ainda analisar a atitude dos pais diante desta monstruosidade.

Não existe nada que me faça entender que um pai, ou uma mãe, deva assistir ao envenenamento de seus filhos sem nada fazer. Eu bem sei que as crianças não aprendem estas coisas somente nestes livros, que é preciso acompanhar passo a passo as descobertas que elas fazem, e ir conversando, instruindo de modo católico, dando-lhes a consciência do pecado e a simplicidade da confissão, quando caírem. Quantas vezes eu mesmo ensinei assim.

Mas existem limites.

Uma coisa é a escola ensinar antes da hora, um aspecto natural do nosso organismo que, em si, nada tem de errado. Por ser ensinado antes da hora pode provocar curiosidades e mesmo pecados. Neste caso, pode acontecer que a única saída seja conversas e explicações para defender os filhos.

Outra coisa inteiramente diferente é a escola ensinar a pecar, pura e simplesmente. Neste caso, só existe uma atitude possível. Puxar a espada! Qualquer outra atitude seria uma fraqueza pecaminosa da parte dos pais.

Creio que a diferença entre as duas atitudes postas em negrito é bastante clara. Essa diferença estabelece o tipo de ação, assim como a responsabilidade dos pais em reagir à altura da gravidade da contaminação.

Daí vem a orientação que dei aos pais de rasgarem estas páginas dos livros antes das crianças lerem, e de se organizarem para que seus filhos não assistam às aulas que os professores derem sobre isso. Mais uma vez: eles não têm autoridade para ensinar a Moral, para ensinar quando um ato humano é bom e quando ele é mau. A moralidade dos nossos atos vem de Deus, de sua Lei Santa, da natureza criada e dirigida por Ele só. Por isso, só a Igreja Católica, única religião Revelada por Deus, pode nos dizer o que é certo e o que é errado. E os pais têm obrigação de ensinar assim aos filhos.

Ainda existe, na alma católica, verdadeira oração? Sermão do primeiro Domingo da Paixão

Após ter feito o sermão do 1º Domingo da Paixão, deste ano de 2006, pareceu-me importante transmitir aos nossos leitores alguns dos dados apresentados naquela ocasião aos paroquianos da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, e da Capela São Miguel, no Rio. Estamos vivendo tempos estranhos e é preciso vigilância e atenção para não sermos levados de roldão pelo mundo.

Quando entramos na igreja no Primeiro Domingo da Paixão, e sentimos um certo choque com a austeridade penitencial do velamento das imagens, vem imediatamente à alma a questão: qual o objetivo da Santa Igreja ao cobrir as imagens, tirá-las de diante dos nossos olhos, justamente no momento em que ela levanta bem alto o estandarte da Santa Cruz?

Pois o que a Igreja busca com esta situação nova e tão desconfortável para nós é levar nossa oração a uma fé mais profunda, para que o tempo da Cruz não nos pareça apenas uma comemoração, um aniversário, mas esteja presente com sua carga de dor, de confusão e obscuridade.

O que vem a ser Rezar ?

Mas se é para medir e regular nossa oração, caberia a cada um de nós perguntarmos: e eu rezo? O tempo da Quaresma serviu para melhorar minha oração?

Para responder a esta pergunta é necessário saber o que seja rezar. Ora, tanto o Catecismo como os santos doutores nos falam sobre a boa oração. Diz lá, então, a doutrina perene:

- Rezar é elevar a alma a Deus.

Santo Agostinho nos dará uma compreensão melhor ao afirmar:

- Rezar é ter uma intenção afetiva do espírito para Deus.

Outros santos dirão:

- Rezar é ter uma conversa íntima com Deus.

Ora, estas definições ou explicações se completam maravilhosamente e nos ajudarão a medir o nosso grau de oração, a sabermos se, de fato, rezamos de verdade ou não.

Ainda se encontra quem reze?

Mas a experiência de qualquer sacerdote, nos dias de hoje, deixa-nos assustados, a ponto de podermos interrogar: - O que está acontecendo conosco? Onde estão as almas que rezam de verdade? E se muitos adultos ainda guardam o costume salutar de recolher-se, todos os dias, diante de Deus, já os adolescentes, os jovens, deixando a idade da infância, porque abandonam tão facilmente a prática da oração que nos dá o céu? Onde encontraremos oração que seja elevação da alma, intenção afetiva, ou conversa íntima com Deus?

Não! Não! O que vemos hoje nestas almas é uma oração pesada, um coração irritado, uma oração rápida e mecânica.

Mas se é pesada por causa da contrariedade que se sente em rezar, então não se eleva.


Se vem carregada com irritação, nunca será uma intenção afetiva.

Se é mecânica, não se pode pensar em conversa íntima com Deus.

Que quadro desolador o que encontramos nas almas. Passaram-se quatro semanas da Quaresma e nada! O mundo segue seu curso e as almas não se converteram!

Pergunto então, assustado e solene: O que falta à oração da grande maioria dos homens?

O que falta é o AMOR! Falta o Amor do espírito que busca o Espírito do Amor, o Deus que é Caritas, que é Caridade!

Todo amor é um apetite. Se nosso amor vai em busca das coisas sensíveis, será um amor baixo, sensível, humano, animal. Estaremos de corpo e alma entregues às coisas deste mundo, e este amor toma conta do nosso coração, elimina a Presença de Deus, e causa o pecado.

Mas se inclinarmos nosso corpo e nossa alma para o bem, para agradar a Deus em tudo, mesmo quando estamos fazendo algo de humano, estaremos intencionalizando nossos atos na direção de Deus, dando uma intenção nova, elevada, vivificante. Nestes atos de amor espiritual encontraremos a união com Deus, a Presença de Deus em tudo que fazemos, mesmo se não estivermos, naquela hora, pensando Nele.

Por que não se consegue mais rezar?

Devemos então nos perguntar, levando adiante esta pesquisa dos nossos corações:

Porque não se consegue mais rezar direito, segundo a elevação da alma, as intenções santas e a intimidade de Deus?

Porque somos constantemente SEDUZIDOS.

Os nossos três inimigos , o demônio, o mundo e a carne armaram uma guerra sutil e subterrânea que invade nosso coração, nosso corpo, nossas intenções, com todo tipo de sedução. Atraem nossa atenção para afastar-nos do gosto pelas coisas santas, pela vida de Deus.

Como somos seduzidos?

Pelos VÍCIOS. Somos seduzidos todos os dias por vícios antigos e por vícios modernos.

Os vícios antigos são aqueles conhecidos de todos: excesso de bebida, gula, sensualidade, preguiça e todo tipo de vícios capitais.


Os vícios modernos são: a televisão, os video-games, o uso de Messengers, orkut e Internet, telefone celular e todo tipo de modernidade que provoca atitudes compulsivas. Todas estas coisas desviam as almas de seus compromissos, tornando-as agressivas, estressadas, desobedientes, preguiçosas e "burrificadas".

Formaram uma vida em torno de nós que nos prende, ligados 24 horas por dia: trabalho, dinheiro, saúde, esportes, e os novos vícios, tirando todo o tempo que poderíamos ter para rezar, ler bons livros, pensarmos na nossa salvação eterna. Como rezar bem numa vida assim?

Então passamos quatro semanas da Quaresma onde se constata que, se alguns fizeram algum esforço de penitência e oração, a grande maioria nem se lembra de que os católicos são chamados com toda urgência a se converterem. Continuam no churrasquinho da sexta-feira, nas festas, em muitos pecados. Até quando vamos viver como se a vida da Igreja fosse uma OPÇÃO? Quando muito um dever secundário que realizamos com aquele espírito de revolta de que falamos acima. Como rezar se não combatemos a sedução?

É preciso rezar sempre

Eis o que ensina Nosso Senhor: "Oportet semper orare - É preciso rezar sempre". E os santos doutores concluirão: "Quem reza se salva, quem não reza fecha as portas do Paraíso".

Então, católico, levante as armas capazes de vencer o sedutor das almas, capaz de dobrar tua cerviz dura e revoltada. Falta-te o Espírito de Fé!
Não se trata exatamente da fé. A Fé pode ser considerada como o conjunto de verdades reveladas por Deus; é o que os teólogos chamam o Objeto da Fé. Dentro de nós, se produz pela graça divina os Atos de Fé, que são as marcas da nossa adesão ao Objeto da fé, a tudo que Deus nos revelou e a Igreja ensina.

Mas a arma poderosa para combater a sedução dos vícios anti-oração é o Espírito de Fé, que consiste em tomar a fé que está, como um dom divino, colocada em nossas almas, e aplicá-la a todos os momentos, situações, encontros, diversões que fazemos ao longo do dia e da vida. Pelo Espírito de fé fica estabelecida em nossas vidas a Presença de Deus. Esta presença de Deus é que nos aproxima Dele, tornando nosso coração mais próximo, mais íntimo, preparando-o para as conversas sublimes, para a afeição amorosa e para a elevação de nossas almas na verdadeira e pura oração.

É preciso, portanto, intencionalizar todos os nossos atos, transformá-los em armas de combate contra os vícios que nos devoram. É preciso forçar o desejo do nosso coração e todos os sentimentos dele para que não impeçam o momento da oração, da meditação, da leitura espiritual que abre nossas mentes para as coisas divinas.

É preciso acreditar que, perdendo tempo com Deus, o trabalho renderá muito mais  e compensará ao cêntuplo o tempo perdido. Ao contrário, quando não rezamos, acabamos presas fáceis para os vícios modernos e perdemos mais tempo do que seria o da oração.

Meditação sobre a morte

Se ainda agora, depois de pensar nestas coisas, neste diagnóstico terrível que mostra o céu fechado, ainda assim não conseguir se desvencilhar da malha viciosa, então, vamos pensar na morte. Por que não? Afinal de contas, estamos no tempo da Paixão, de luto pela morte de Nosso Salvador. Imaginemos, então, que estamos perto da morte, ou que um ente querido, um filho, um esposo, a mulher, tenha acabado de falecer. Parece duro, pensar nestas coisas? Pior é continuar vivendo sem rezar! O terrível peso que a alma sente pela perda joga por terra todos aqueles vícios horríveis que prendiam a alma. Então, de repente, ela percebe o quanto era fraca, envenenada, ridícula, por não conseguir se dominar e produzir algo de sólido e elevado. A morte nos atrai para o essencial, e é exatamente isso que a Igreja deseja quando vela as imagens no Tempo da Paixão. O Essencial é Cristo, sua Paixão, sua morte na Cruz para nos salvar. O essencial é vivermos unidos todo tempo a Jesus, e dizer com o Apóstolo: "Já não sou  eu que vivo, é Cristo que vive em mim".

Cabe a cada um de nós mostrarmos aos nossos adolescentes, aos nossos filhos, que é bom rezar. É bom querer rezar. E, mais do que tudo, é muito bom amarmos a oração porque por ela aprendemos a amar a Deus em sua própria intimidade.

A psicologia do amor

No mundo em que vivemos é moeda corrente as pessoas só quererem fazer o que lhes agrada. Que seja por prazer do corpo, ou pelo prazer de ter dinheiro, ou pelo prazer de se sentir influente, livre e independente, somos formados, à nossa revelia, a detestar as coisas árduas, maçantes, rotineiras, obrigatórias. Que elas tenham um quê de dificuldade ninguém discute. Que a nossa tendência seja a de diminuir a dureza das suas realizações, é compreensível. O que não pode ser é a revolta tomar conta do nosso coração sempre que temos alguma coisa obrigatória a fazer. No fim das contas, tudo o que é de nosso dever é feito com pressa, de qualquer maneira, sem a atenção necessária ou pelo dinheiro que vamos receber. A revolta a que me refiro não é necessariamente uma revolta barulhenta e explosiva. Pode ser apenas o sentimento surdo e escondido de um ódio acumulado.

"Onde encontraremos pão para tanta gente?"

As portas se abriram e a luz de Jesus Cristo ressuscitado penetrou no templo novo e belo, na nossa igreja de Nossa Senhora da Conceição. As trevas em que estava mergulhada a igreja foram recebendo os primeiros raios de luz dessa Páscoa. O leve silêncio da noite que reinava sobre os bancos, sobre as colunas foi ouvindo um canto, vindo, vindo lá de baixo, dos graves, subindo até alcançar a plenitude da contemplação: Lumen Christi – Deo gratias. 

Todos os anos nós assistimos a esta mesma cerimônia e todo ano ela é nova e respinga de frescor e primavera. Hoje ela é ainda mais nova pois é a primeira na nova igreja.

Todas as cerimônias foram marcadas por esta circunstância que poderíamos chamar de “inauguração” ou talvez “invenção”, termo usado na liturgia para a festa da descoberta da Santa Cruz, por Santa Helena. Invenção de Cristo! Nós o achamos, nós o “descobrimos” pois “ele estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”. Por isso tocamos os órgãos e cantamos os cânticos e nos alegramos e dizemos: Allelúia. 

As coisas estavam tão cheias da presença de Nosso Senhor, as cerimônias ganharam um esplendor que não conhecíamos na nossa saudosa capelinha provisória, montada no salão da casa paroquial até novembro passado. Os meninos vieram e dedicaram-se, nestes quatro dias, a arrumar, limpar, dar brilho, ensaiar. Souberam entregar-se a um esporte que já não atrai mais os seus companheiros de escola. A Santa Liturgia.

Queríamos fazer tudo ficar bonito e brilhante; eles se entusiasmaram com a idéia de ir buscar um tronco de eucalipto para fincar na frente da igreja, e nele fixar um holofote que seria aceso no momento do Glória da missa, iluminando os vitrais do altar, no meio da noite... O beata nox, havia cantado o celebrante no Exultet. E esses meninos a tornaram mais bela, mais abençoada, pelos gestos, pelo cuidado na preparação, tão necessários para que um padre solitário possa celebrar os dias santos com um mínimo de solenidade.

Já na Sexta-feira Santa, no momento em que o canto da Paixão, segundo São João é interrompido pela morte de Nosso Senhor, eles quiseram fazer a prostração juntamente com o padre. Nunca pensamos nisso porque nem havia espaço, lá em baixo. Mas o nosso presbitério, hoje, é vasto o suficiente para que tudo se faça com a dignidade exigida. Agora vocês imaginem, estes adolescentes com o rosto em terra em gesto de adoração! Coisas que não se vê muito por aí!

Os fiéis, por sua vez, corresponderam também, pela presença eficaz, principalmente na Sexta-feira, quando havia mais de 200 pessoas. Muitas confissões, todos procurando seguir no seu missal os principais acontecimentos que a Liturgia nos faz reviver nesses dias santos.

Na sexta-feira, o sacrário é deixado vazio, depois da comunhão. Nosso Senhor está morto, nós o adoramos pregado na Santa Cruz, mas não o temos conosco. É o luto e a dor pela morte de Cristo. No sábado, o dia todo passado sem ofícios litúrgicos, significando o silêncio do sepulcro, por detrás da pesada pedra que o fechava. E à noite, o Círio, a Luz, o Exultet, como descrevemos acima.

Pois foi exatamente dentro deste contexto espiritual, com as almas vivendo intensamente estes momentos, esta ausência dEle, que ouviu-se (quase) como que um grito de surpresa e interrogação. No meio da missa da Vigília Pascal. “Onde encontraremos pão para saciar tanta gente?”

No momento em que o sacerdote terminava a sua comunhão, deu-se conta que a âmbula, com as hóstias para a comunhão dos fiéis ficara na credência, ou seja, na mesinha onde ficam os objetos usados na missa. Não haviam sido consagradas! Não havia hóstias para distribuir a comunhão. Passados os primeiros momentos de perplexidade, ele virou-se para os fiéis e explicou a situação, convidando a todos a que voltassem à missa no Domingo de Páscoa para comungar.

E assim se fez.

Mas esse convite não foi suficiente para diminuir o constrangimento que isso causou nos nossos acólitos, nesses rapazes dedicados, que tanto trabalharam para oferecer a mais bela de todas as nossas Semanas Santas. Para eles foi um choque. Sentiram-se responsáveis pela falta e esmagados pela confusão, sendo preciso que muitos viessem consolá-los depois da missa.

Foi assim que Nosso Senhor nos deu uma boa lição nesta primeira Páscoa na nossa nova igreja. Ele nos mostrou que todo o lindo aparato litúrgico que conseguimos desenvolver, de nada valia, se nossas atenções não estivessem voltadas para o essencial: a sua presença simples e suave, real e terrível, milagrosa e eficaz, na Sagrada Hóstia, pela Transubstanciação do pão e do vinho no seu Corpo e no seu Sangue.

No dia em que Jesus se escondeu de nós e não veio nos visitar em sua Páscoa, compreendemos melhor o quanto ele nos faz falta e quanto devemos dar a Ele para poder dEle receber a Vida, a sua Vida Divina que do seu trono sagrado ele nos transmite, pela fé e pela caridade de Deus.

Aprendemos que devemos nos preparar sempre e sempre para comungar todos os dias e que não podemos deixar com que a rotina diminua o nosso amor e o temor pela Presença real de Jesus na Sagrada Hóstia.

E esta pequena história eu quis contar para todos, dedicando-a a todas as almas espalhadas pelo nosso Brasil e pelo mundo, que não têm onde comungar numa missa verdadeiramente católica; que são obrigados muitas vezes a suportar o vazio espiritual de tantos padres imbuídos do espírito de Vaticano II e que já não sabem mais o que é uma missa verdadeira.

No Domingo de Páscoa, enfim, nosso doce e bom Jesus apareceu novamente sobre nosso altar de pedra. E para marcar este reencontro, pela primeira vez tocamos o nosso sino “grande” na Consagração, como sinal desta comunhão pascal, desta comunhão eterna,  que dedicamos aos nossos irmãos que não puderam comungar nesta Páscoa. Hoje, graças à essa “ausência” do Sábado Santo e a esta “invenção”, esta verdadeira Ressurreição do Domingo de Páscoa,  nós sabemos o que significa não ter onde assistir a Missa Católica. E é por isso gostaria de terminar convidando a todos a preparar suas almas para a Festa de Corpus Christi, a festa do Corpo de Deus, que festejaremos na Quinta-feira 30 de maio, às 10:00 da manhã.

E é assim que podemos hoje desejar a todos Feliz Páscoa. Como  no Natal, não é a Páscoa do comércio, dos ovos de chocolate, mas Jesus Cristo Ressuscitado, este Jesus que aprendemos a amar na nossa Semana Santa e que se dá a nós todos os dias na Sagrada Comunhão.

A luz do Natal

Dom Lourenço Fleichman OSB

A Missa do Galo, a missa da meia-noite, a Missa da escuridão. Noite escura. Quantos significados tem para a alma esta expressão, esta realidade.

No princípio a terra estava vazia e informe e as trevas cobriam a face do abismo (Gn, 1)

As trevas da noite que são as trevas da alma, que também nasce na escuridão do pecado.

As trevas da noite que são também as trevas da Fé, pois o mistério é uma grande escuridão, vivida por tantos santos no grande sofrimento da ausência do Amado. La noche obscura, escreveu S. João da Cruz. Noite de grandes purificações espirituais que nos leva mais adiante no caminho da santidade e do amor de Deus.

E Deus disse: faça-se a luz!(Gn, 1)

No meio da noite as trevas desapareceram, fez-se luz, o ser amado pelo Criador emerge da noite para banhar-se no Sol divino.

Vejam o que diz a poetisa francesa, tão profunda que seus escritos são verdadeiras meditações:

·  «O Espírito do Mal, Lúcifer, chama-se Luz. E a Árvore do Bem e do Mal chama-se Ciência, que significa também Luz. Como se houvesse na Luz um perigo mortal para o Anjo e para o Homem. Na ordem material, alguns raios sutis decompõem o corpo, destroem a vida.

·  Em estado puro a Luz mata.

·  Só existe vida, ela só é possível, onde a Luz se atenua e se turva.

·  Só Deus, que é Luz, suporta a sua Luz. Quando Deus criou a Vida, criou a sombra. A sombra é a misericórdia da Luz que se acalma para poupar a criatura. E o mistério é o véu que Deus joga sobre Deus para aliviar o Homem. Pois "aquele que vê a Deus - Luz - deve morrer".

·  No primeiro jardim crescem e se opõem as duas árvores: a Árvore da Vida e a Árvore da Ciência.

·  A Árvore da Vida: Luz de Deus, misturada de sombra, dada como alimento ao homem segundo a capacidade do homem, como o sangue da mãe torna-se leite para a criança. E esta Luz cheia de sombra misericordiosa, este Deus reduzido ao Homem, chama-se Graça.

·  E a Árvore da Ciência?..."Colha o fruto, roubem a luz, sereis como Deus..." (Gn,3)

·  E morrereis». (Marie-Nöel)

Que visão, que inspiração teve esta mulher em 1933! E quando pensamos que a civilização moderna nos séculos de Revolução, era "iluminada", buscando a luz da Ciência. E a contemporânea busca a luz da matéria para criar um mundo ótico e virtual onde tudo é luz....e morrereis!

Ó Deus, onde está a Árvore da Vida, que escondestes de nossos primeiros pais, no Paraíso perdido? Qual o caminho que a espada de fogo do Arcanjo fecha até que venha o Desejado das Colinas Eternas

«No Princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus.
Nada do que foi feito foi feito sem Ele.
O que foi feito, Nele era Vida, e a Vida era a Luz dos homens; e a Luz brilha nas Trevas. Et Verbum caro factum est

Esta é a Luz de Deus na misericórdia da sombra, é a união das duas naturezas na mesma Pessoa adorável do Filho. E o lugar onde Ele quis temperar sua Luz inacessível foi numa gruta de Belém, da Cidade do Pão, para que Aquele que é Luz que cega e fogo abrasador descesse até nós na sombra de sua misericórdia, no alimento sagrado, onde não somente ele esconde sua Luz como também nos transforma Nela.

Mas não podemos deixar de considerar que, se a Árvore da Ciência, o toque no relâmpago divino trouxe a morte para Adão e Eva, Deus quis trazer sua sombra até nós através daquela que não tocou na Árvore, que não buscou a Luz proibida, mas escondeu-se na sombra de Deus, na sua humildade, na sua Caridade. Contentou-se com as trevas de sua fraca condição para nos trazer a Salvação. A Virgem Imaculada, Mãe de Deus, Mãe da Luz, água cristalina e pura de onde brota a Árvore da Vida, o Deus humanado.

Nesta Noite de Natal, é assim que a Igreja canta, que a Igreja reza:

«Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite com a claridade da verdadeira Luz, concedei-nos que depois de conhecermos na Terra os mistérios dessa Luz, gozemos também no Céu de suas alegrias».

Os mistérios dessa Luz! Que venha novamente a poetisa completar seu pensamento:«Dei muitas vezes graças a Deus pela Luz! Mas com quanta humildade darei graças pelo Mistério! E com quanta doçura estarei ao abrigo de Deus na sombra de Deus.»

Para todos vocês, da Capela N.Sra da Conceição, da Capela São Miguel e a todos os nossos leitores espalhados pelo Brasil, um santo e feliz Natal. Que ele seja vivido na intensidade das verdades que a Santa Igreja Católica não cessa de nos desvendar, em seus sacramentos, no Batismo de adultos que tivemos em novembro, na Santa Crisma recebida neste mês de dezembro. Na Missa Santa que santifica, Missa de sempre, da Tradição; na Verdade Católica sem medos e sem concessões. E que esses humildes meios que Deus nos deu para nos santificarmos, hoje: um terço, uma Capela, um catecismo semanal, sejam vistos por todos vocês como a maior graça que Deus poderia lhes dar. É a sementinha de mostarda que só crescerá se for exposta à Luz e se for refrescada na sombra.

E que o ano bom traga a doce presença de Jesus nas cruzes de todo o dia.

Feliz Natal

Dom Lourenço Fleichman OSB

O que deve ser o voto de Feliz Natal de um padre, de uma Capela como a nossa a todos os nossos fiéis, a todos os nossos amigos e leitores? É de praxe e de bom tom trocar votos de felicidades nesta data do nascimento do Menino Jesus. E fazemos bem. Pois no fundo de nossas almas paira ainda a teologal esperança que avança sem tréguas em meio ao mar revolto deste mundo. Servirão os votos que damos e recebemos, pois de alguma forma as pessoas precisam da paz natural para viver em sociedade.

Mas é esse lado natural o que me incomoda. E onde está a realidade sobrenatural do Natal? Onde encontraremos, perdidos e abandonados nos cantos das ruas, os santos de outrora, que talvez corressem agitados, preparando tudo, organizando os mínimos detalhes de uma festa sem fim: Et Verbum caro factum est! Pois o Verbo se encarnou e habitou entre nós. O Verbo de Deus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, recebe uma natureza como a nossa para nascer na manjedoura em Belém. E onde estão as almas admiradas e contemplativas para fugir do shopping, largar as bolsas de compras, os presentes dos filhos, o novo celular, e correr desembestado por um estacionamento entupido..... Ah! Ele nasceu, eu vi a estrela, eu vi o Menino. Hosanna in excelsis! Eu vi, eu compreendi o que acontece. Por que não nos dizem isso? Onde estão os padres, onde estão os bispos, onde está o sangue católico, que já não corre nas veias dos homens, para nos dizer, para nos lembrar que o louco não sou eu que corri feito doido largando tudo no chão; os loucos são eles, que estão lá dentro, fazendo compras e mais compras; os doidos são eles, que, mesmo quando criticam o esvaziamento do Natal católico, não param para meditar no Mistério dos mistérios, na candura e inocência, na paz... na paz... Para que foi mesmo que ele nasceu? Para nos trazer a paz...

Não foi isso o que eu vi, não foi isso o que Ele quis me dizer quando me fez mergulhar naquele mundo de silêncio, no meio da multidão que corria agitada atrás das compras, das promoções, da última moda. Não foi isso o que o Príncipe da Paz me disse, quando abri seu Livro Santo e li: "Não vim trazer a paz, mas sim a espada!" Não, ele não veio nos trazer a paz, nesse sentido natural que os homens querem. É isso! Era isso o que me incomodava. Às favas com essa falsa paz de que nos fala o profeta, esse romantismo abusado que usa o Inocente, nosso Deus, para fingir que deseja a paz a todos. Não, não é isso o que eles desejam! O que eles querem é o paraíso na terra, é prolongar a vida até não poder mais, é liberar-se de toda obediência à Verdade Eterna. Pergunte a um deles se querem seguir os ensinamentos da Verdade? Qual Verdade? Eles não querem aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Eles querem, exigem, e batem pé: nós queremos a verdade de Pôncio Pilatos! Trata-se da verdade relativa, do liberalismo, de você seguir o que você pensa, autônomo, achando-se adulto, responsável... sem Deus, sem Cristo, sem a Igreja! Depois vêm me cantar musiquinhas bonitinhas na televisão para fazer chorar de emoção numa confraternização universal. Chega disso!

Por favor, não venham me dizer que é preciso esquecer certos acontecimentos, e deixar de lado as convicções, pois é noite de Natal. Acho que esse argumento pode ser válido para muitas ocasiões e para muitos natais. Mas se a causa de tantos desastres e tragédias está justamente no esquecimento de Jesus, no abandono da Criança de Belém, como não pensar nisso tudo? Se hoje a Argentina vive um Natal terrível e amanhã qualquer país o poderá viver também; se hoje aviões são lançados sobre prédios porque os loucos assassinos querem matar todos aqueles que não pensam como eles. Se tudo isso acontece porque o Rei Pacífico não tem direito de reinar sobre as nações, então essa paz e essa felicidade que eles desejam é de uma hipocrisia total!

E no entanto... E no entanto há lugar para a Paz, desde que não seja a paz dos jornais. Há lugar para cantar, numa noite de Natal, um cântico novo ao nosso Deus, ao Menino-Deus, desde que nossos olhos sejam olhos de filhos, puros e espirituais. Desde que nossas almas sedentas saibam dobrar os joelhos e rezar no silêncio da noite: Venite adoremus! vinde, adoremos a Criança, Jesus nosso Deus e Salvador, que nasceu hoje para morrer amanhã, para nos dar seu Sangue, para nos dar sua vida. Há lugar para desejar, ao menos para desejar, que o Rei da Paz seja o chefe das nações, o chefe de nossa Pátria; que ela se dobre diante do seu cetro e se deixe governar por seu Evangelho e por sua Igreja.

Então, sim, nesta hora em que nas igrejas soam os sinos, a missa do Galo, a Santa Eucaristia: meu Senhor e meu Deus. Que nossos corações tenham um ímpeto de amor e queiram com todas as forças espalhar pelo mundo as luzes do nosso Bom Deus. Então, sim, mergulhados na oração, saudemos nossos amigos e irmãos, troquemos nossos votos e orações, pois Ele nasceu, ele nos foi dado. "Hodie, filius datus est nobis — hoje, um Filho nos foi dado".

É por isso que desejamos a todos um Feliz Natal e um ano-bom repleto de todas as graças de Deus.

O amor-próprio e o amor de Deus

Eu gostaria de ter alguma profundidade e conhecimento para lhes falar sobre essa busca, sobre essa sede que nos devora, que nos faz procurar uma casa, um repouso, um lugar de delícias...onde moras, Senhor? Vinde e vede... Até a raposa tem sua toca, mas o Filho do Homem não tem onde repousar sua cabeça. Divina Cabeça, cansada e ferida, coroada de espinhos, fez-se o repouso dos homens.
 
Mas não é bem assim que acontece. Vamos em busca do repouso e achamos que o encontramos nas delícias do mundo e nas descobertas da razão. Nas consolações dos homens, no prazer que sentimos de estarmos na companhia dos nossos irmãos. Até a Escritura, falando profeticamente da Encarnação, nos diz que a Sabedoria Encarnada encontra suas delícias em estar com os filhos dos homens.
 
Na verdade, quando Nosso Senhor sente estas delícias, é porque sabe que seu Sangue não será derramado totalmente em vão, que alguns dos seus filhos o receberão e se tornarão Filhos de Deus. Mas, e nós? Vislumbramos o caminho, sabemos que Ele é a nossa Salvação, mas nos inclinamos com tanta precipitação sobre nós mesmos. O amor-próprio é a nossa perdição. Centralizamos nossas vidas em torno de nós mesmos, e passamos a tomar como critério dos nossos atos o que nos agrada ou o que pode nos gerar algum lucro. Dois amores construíram duas cidades: o amor de si, levado até o desprezo de Deus, a cidade terrena; o amor a Deus, levado até o desprezo de si, a cidade celeste.
 
Ficamos no átrio. Somos de fora, estrangeiros. Estamos ali, comendo sobra de comida porque não queremos a adoção de filhos, mediante a qual clamamos: Abba, Pai. Somos eternamente filhos revoltosos que abandonamos a casa paterna e buscamos as alegrias do mundo. E temos vergonha de dizer a todos: sou filho, esta casa de ouro me pertence, sou herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo. Não, não posso ficar mendigando sobras de comida, se o banquete foi preparado para mim. Voltarei à casa de meu Pai, e lhe direi: Pai, pequei contra os céus e contra Ti.
 
Eu sei que acontece de nós nos inclinarmos assim ao perdão de Deus. De nós considerarmos com alguma Esperança, o rude combate que nos aguarda, todos os dias, ao levantarmos. Mas depois vem a realidade: a pior de todas, que é o convívio com as pessoas que nos empurram para o mal, para o pecado. A cidade está lá fora, como um dragão vomitando fogo e enxofre. E nós temos por obrigação ir até dentro da fétida boca do dragão, trabalhar, tomar uma condução. Bom dia, bom dia, viram o Fantástico, viram o Faustão? Venham, todos, o circo começou! E tem o palhaço e tem o leão, e os malabaristas que te deixarão sem respiração... É nosso mundo, é nossa vida. Um circo, onde nós somos os malabaristas a inventar contorções, onde nós somos os palhaços a divertir a platéia, em busca do aplauso sedutor. Mas quando saímos dele, quando nos voltamos para dentro de nós mesmos, ressoa um eco ensurdecedor. E nós queremos fugir, mas para onde quer que nos voltemos, ele está lá, a repetir, a gargalhar, a nos dizer: não se preocupem, amanhã tem mais.
 
O que falta, na nossa história, o que falta na nossa vida? Como José Maria de Lições de Abismo, ouvindo o personagem sinistro repetir para ele, numa espécie de sonho, toda sua vida, mas falsificada. E ele, desesperado, sem conseguir fazer seu interlocutor compreender que aquilo tudo soava falso, vê, pela boca do vulcão onde se encontravam, a estrela brilhando no céu. E descobre o enigma do mistério, a chave da sua vida. "Já sei o que falta na sua história. É o am..." E quando o sinistro ser o tenta impedir de gritar, ele consegue se desvencilhar e grita por Aldebarã: Amor! Amor! Amor!
 
"Cai então a estrela do céu, e um fogo enorme, uma clara vermelhidão, iluminou a gruta. Ah! agora eu via nos rostos, nos braços, nas pernas, que voavam no ar como folhas dançando nas chamas, o que me faltava naquele sepulcro. Via a dor, a dor viva, a dor viva do amor. O vulcão entrara em atividade." (Lições de Abismo, cap. 12)
 
Dois amores construíram duas cidades.
 
Se não for para construir a cidade de Deus, a cidade do amor, sua Igreja Santa e Imaculada, sua Missa, que é a maior dádiva que Ele podia nos dar, então não vale a pena, não nos aproveita de nada. Nem o grande saber metafísico, nem a genialidade técnica, nem os astros do céu, nem a salvação dos planetas ou das tartarugas, muito menos alguns momentos de prazer fugitivo.
 
De joelhos, de joelhos, prostrados diante da Majestade divina. Venite, adoremus.
Contemplemos, a presença de Jesus em nossas vidas. Ela não é fictícia. Pelo Batismo nós nos tornamos templo da Santíssima Trindade. Não façamos de nossas vidas um terremoto constante que derruba o templo e destrói o Deus que vive em nós.
 
Silêncio, silêncio, que a criancinha dorme. Não façamos de nossas vidas ruídos e agitações, pois podemos despertar o Menino, e ele fugirá chorando, porque preferimos a companhia dos homens à companhia inefável do Filho de Deus. 

A psicologia da apostasia

Foi incansável na tentativa de levar às almas a verdade, tanto natural quanto sobrenatural, o Pe. Leonel Franca, que ilustra o pensamento brasileiro com livros dignos de um mestre. Entre seus escritos, encontra-se um pequeno livro, A Psicologia da Fé, onde o grande jesuíta analisa os detalhes do ato de fé, aquilo que leva o homem a agir pela Fé, o que  falta na atitude daqueles que não têm Fé.

Sermão do Terceiro Domingo da Quaresma

 

Em louvor da Santíssima Virgem Maria.
 
1.            Naquele tempo, levantando a voz uma mulher do meio da multidão, disse-lhe: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado etc1.
 
O esposo fala à esposa nos Cânticos2: Ressoe a tua voz aos meus ouvidos, porque a tua voz é doce. A voz doce é o louvor que se tributa à gloriosa Virgem, que nos soa dulcíssima aos ouvidos do Esposo, isto é, de Jesus Cristo, Filho da mesma Virgem. Levantemos, portanto, todos e cada um a voz em louvor da Santíssima Virgem e digamos ao seu Filho: Bem-aventurado o centre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado.
 
2.            Bem-aventurado quer dizer bem aumentado3. Bem-aventurado é aquele que possui tudo o que quer e não quer nada de mal4 Bem-aventurado é aquele a quem sucede tudo segundo os seus desejos5. Bem-aventurado, portanto, o ventre da gloriosa Virgem, que mereceu trazer por nove meses todo o bem, o sumo bem6, a felicidade dos anjos, a reconciliação dos pecadores. Por isso, diz S. Agostinho7: Fomos reconciliados só pelo Filho segundo a carne, mas não fomos reconciliados só com o Filho, enquanto Deus. De fato, a Trindade reconciliou-nos consigo enquanto a mesma Trindade provocou a Encarnação só do Verbo. Bem-aventurado, portanto, o ventre da gloriosa Virgem, da qual escreve S. Agostinho no livro De Natura et Gratia8: Quando se trata de pecados, excetuo a Santíssima Virgem, da qual, por honra do Senhor, não quero absolutamente se faça questão alguma. De fato, sabemos que lhe foi conferida mais graça para vencer o pecado, em todos os aspectos, de maneira que merecei conceber e dar à luz aquele que seguramente não teve pecado algum. Excetuada, portanto, esta Virgem, se todos os santos e santas pudessem reunir-se e lhes fosse perguntado se tinham pecado, que responderiam senão o que diz São João9: Se dissermos que não temos pecado, a nós mesmos nos enganamos, e não está em nós a verdade? – Porém, aquela Virgem gloriosa foi prevenida e cheia de graça singular, para que tivesse como fruto do seu ventre aquele mesmo que de início o universo teve como Senhor10.
 
3.            Bem-aventurado, portanto, o ventre. Dele, em louvor de sua Mãe, diz o Filho nos Cânticos11: O teu ventre é como um monte de trigo, cercado de lírios. O ventre da Virgem gloriosa foi como um monte de trigo: monte, porque nele foram reunidas todas as prerrogativas dos méritos e prêmios; de trigo, porque nele, como em celeiro, por diligência do verdadeiro José, foi posto trigo, para não perecer de fome todo o Egito12. O trigo, assim chamado por se enceleirar quando está puríssimo, ou porque se mói e esmaga o seu grão13, que é alvo no interior e avermelhado no exterior, significa Jesus Cristo14, escondido, durante nove meses, no celeiro do santíssimo ventre da Virgem gloriosa, na mó da cruz esmagado po nossa causa, cândido pela inocência da vida, avermelhado pelo derramamento de sangue. Este bem-aventurado ventre foi cercado de lírios. Lírio, vocábulo parecido ao de leite15, simboliza, por causa do seu candor, a Virgindade da Santíssima Virgem. O seu útero foi cercado de lírios, isto é, cingido pelo vale da humildade16. Estes lírios são a dupla virgindade, interior e exterior. Donde o dizer de S. Agostinho17: O Deus unigênito, ao ser concebido, recebeu verdadeira carne da Virgem, e, ao nascer, guardou na Mãe a integridade da virgindade. Bem-aventurado, portanto, o ventre que te trouxe.
 
É na verdade bem-aventurado quem te trouxe a ti, Deus e Filho de Deus, Senhor dos anjos, criador do céu e da terra, redentor do mundo. A Filha trouxe o Pai, a Virgem pobrezinha trouxe o Filho. Ó Querubins, ó Serafins, ó Anjos e Arcanjos, adorai reverentemente de rosto baixo e cabeça inclinada o templo do Filho de Deus, o sacrário do Espírito Santo, o bem-aventurado ventre cercado de lírios, dizendo: Bem-aventurado o ventre que te trouxe. Ó terrenais filhos de Adão, a quem esta graça, esta especial prerrogativa foi concedida, compenetrados da fé, compungidos no espírito, prostrados em terra, adorai o trono ebúrneo do verdadeiro Salomão, excelso e elevado18, o trono do nosso Isaías19, dizendo: Bem-aventurado o ventre que te trouxe.
 
4.            Segue: E os seios a que foste amamentado. Deles escreve Salomão nas Parábolas20: Seja para ti como uma corça caríssima e como um veado cheio de graça: os seus seios te inebriem em todo o tempo; no seu amor busca sempre as tuas delícias. Nota que a corça, como se diz em ciências naturais21, dá à luz em caminho trilhado, sabendo que o lobo evita o caminho trilhado por causa dos homens. a corça caríssima é Maria Santíssima, que em caminho trilhado, isto é, numa estalagem, deu à luz um veado cheio de graça, porque nos deu gratuitamente e em tempo agradável um filhinho. Por isso, lemos em S. Lucas22: Deu à luz o seu filho e envolveu-o em panos, para que recebêssemos a estola da imortalidade23, e reclinou-o num presépio, porque não havia lugar pra ele na estalagem. Comentário da Glossa24: Não encontra lugar na estalagem, para que tenhamos várias mansões no céu. Os seis desta corça, caríssima ao mundo inteiro, hão-de inebriar-te, ó cristão, em todo o tempo, a fim de que, esquecido de tudo o que é temporal, como inebriado, te lances para o que antes de ti existiu25. Mas é muito de admirar que tivesse dito: inebriar-te-ão, quando nos seios não há vinho que inebrie, mas leite agradabilíssimo. Ouve o porquê: O Esposo seu Filho, louvando-a nos Cânticos26, diz: Quão formosa e encantadora és, ó caríssima, entre as delícias! A tua estatura é semelhante a uma palmeira e os teus seios a dois cachos de uvas. Quão formosa és de entendimento, quão encantadora és de corpo, minha mãe, esposa minha, corça caríssima, entre delícias, isto é, entre os prêmios da vida eterna.
 
5.            A tua estatura é semelhante a uma palmeira. Nota que a palmeira em baixo é áspera por causa de sua casca, na parte superior é bela à vista e pelo fruto27, e, como diz Isidoro28, dá fruto quando centenária. Assim a Virgem Maria neste mundo foi áspera na casca da pobreza, mas no céu é bela e gloriosa, porque rainha dos anjos. E mereceu alcançar o fruto centésimo, que se dá às virgens, ela a Virgem das virgens, acima de todas as virgens. Com razão se diz portanto: A tua estatura é semelhante a uma palmeira e os teus seis a dois cachos de uvas.
 
O conjunto de frutos reunidos fazem o cacho, por exemplo, de uvas, que nasce, na videira. Desta, na história de José, no Gênesis29, diz o copeiro do rei: Eu via diante de mim uma cepa, na qual havia três varas a crescerem pouco a pouco em gomos e, depois das flores, as uvas amadurecem. Nesta sentença, há sete coisas: a cepa, três varas, gomos, flores e uvas. Vejamos de que modo estas sete coisas convêm egregiamente a Maria Nossa Senhora. A cepa, assim chamada por ter força de ganhar raízes mais depressa, ou por se entrelaçar30, é Maria Santíssima, que, entre os outros, ganhou raízes mais depressa e subiu mais alto no amor de Deus, e de modo inseparável se entrelaçou à verdadeira cepa, ao seu Filho, que disse: Eu sou a verdadeira cepa31. De si mesma disse no Eclesiástico32: Como a cepa, lancei flores de agradável cheiro. O parto da Santíssima Virgem não tem exemplo no sexo das mulheres, mas tem semelhança na natureza das coisas. Perguntas como a Virgem gerou o Salvador. Encontrarás incorrupta a flor da cepa depois de fornecer o cheiro; também crê inviolado o pudor da Virgem por ter dado à luz o Salvador. Que é a flor da virgindade senão a suavidade do cheiro33?
 
As três varas desta cepa foram a saudação angélica, a vinda do Espírito Santo e a concepção inenarrável do Filho de Deus34. Destas três varas propaga-se, isto é, multiplica-se, pela fé, todos os dias, em todo o mundo, prole sempre renovada de fiéis. Os gomos na cepa são a humildade e a virgindade de Maria Santíssima. As flores são a fecundidade sem corrupção, o parto sem dor. Os três cachos de uvas na cepa são a pobreza, a paciência e a abstinência na Virgem Santíssima; estas são as uvas maduras de que provém o vinho maduro e odorífero, que inebria e, inebriando, torna sóbrios os corações dos fiéis. Com razão se diz, portanto: Os seus seios te inebriem em todo o tempo; e no seu amor busca sempre as tuas delícias, a fim de com o seu amor consigas desprezar o falso deleite do mundo e conculcar a concupiscência da carne.
 
6.            Refugia-te nela, ó pecador, porque ela é cidade de refúgio. Com efeito, assim como outrora, o Senhor, como se diz no livro dos Números35, separou cidades de refúgio, para nelas se refugiar quem tivesse perpetrado o homicídio involuntário, também agora a misericórdia ao nome de Maria até para os homicídios voluntários. Torre fortíssima é o nome da Senhora. Refugie-se nela o pecador e salvar-se-á. Nome doce, nome que conforta o pecador, nome de bem-aventurada esperança36. Senhora, o teu nome está no desejo da minha alma. E o nome da Virgem, diz S. Lucas37, era Maria. O teu nome é óleo derramado38. o nome de Maria é júbilo no coração, mel na boca, melodia no ouvido39. Egregiamente, portanto, em louvor da mesma Virgem, se diz: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado.
 
Nota que mamar, em latim, sugere, vem de sumendo agere, porque, enquanto Cristo tomava leite, trabalhava na nossa salvação. A nossa salvação foi o seu sofrimento: susteve o sofrimento corporal, por ter sido alimentado com leite duma Virgem. Por isso, ele mesmo diz nos Cânticos40: Bebi o meu vinho com o meu leite. Por que razão não disseste, Senhor Jesus: Bebi vinagre com o meu leite? Foste aleitado em seios virginais e deram-te a beber fel e vinagre. A doçura do leite transformou-se em amargor de fel, a fim de que o seu amargor nos proporcionasse eterna doçura. Mamou nos seios quem no monte Calvário quis ser lanceado no seio, para que seus filhos pequeninos mamassem sangue em vez de leite. Destes escreve Job41: Os filhinhos da águia chupam sangue.
 
7.            Segue: Mas ele disse: Antes42 etc. Comentário da Glossa: Maria não só deve ser louvada por ter trazido no ventre o Verbo de Deus, mas também é bem-aventurada porque realmente guardou os preceitos de Deus43.
 
Rogamos-te, portanto, Senhora nossa, esperança nossa, que Tu, Estrela do mar, irradies luz para nós, feridos pela tempestade deste mar, nos encaminhes para o porto, protejas a nossa morte com a tutela da tua presença, a fim de merecermos sair seguros do cárcere e alegres cheguemos ao gozo infindo. Ajude-nos aquele que trouxeste no teu bem-aventurado ventre, aleitaste nos teus seios sacratíssimos. A ele é devida honra e glória pelos séculos eternos44. Assim seja.
 
 
 
Fonte: SANTO ANTÔNIO DE LISBOA. Obras Completas. Sermões Dominicais e Festivos (Vol. I)
Introdução, tradução e notas por Henrique Pinto Rema.
Lello e Irmão Editores, Porto, 1987; págs 207-215.

 

  1. 1. Lc 11, 27.
  2. 2. Cant 2, 14.
  3. 3. ISID., Etym. XX, 22, PL 82, 370.
  4. 4. P. LOMB., Sent. IV, dist. 49, 1, p. 1029.
  5. 5. Cf. INOC., sermo 10, PL 217. 356 e Sermo 31, PL 217, 595.
  6. 6. Haverá aqui mais reminiscência dos escritos de SÃO FRANCISCO, nos Louvores de Deus Altíssimo, onde se lê: “Tu es bonum, omne bonum, summum bonum”. Cf. 3º Domingo da Quaresma, p. 193.
  7. 7. P. LOMB., Sent. III, dist. 1, 3, p. 553, colhido de SÃO FULGÊNCIO DE RUSPAS, De fide ad Petrum, 2, 23, PL 40, 760, que não de St. Agostinho, como se lê em St. Antônio.
  8. 8. Cf. AGOST., De natura et gratia, 36, 42, PL 44, 267; P. LOMB., Sent. III, dist. 3, 2, p. 559.
  9. 9. 1Jo 1, 8 (Vg. muda).
  10. 10. O último período é do discípulo de St. Agostinho, SÃO FULGÊNCIO DE RUSPAS, De fide ad Petrum, 2, 17, PL 40, 758, utilizado pelo Mestre das Sentenças P. LOMB., no lugar citado. Este sermão e esta passagem têm sido muito explorados pelos investigadores antonianistas e mariólogos, na tentativa de encontrarem aqui a gênese da doutrina da Imaculada Conceição de Maroa. Entre outros, escreveram especialmente sobre o assunto PINTO REMA, St. Antônio e a Imaculada Conceição, em Boletim Mensal, Braga, Dezembro 1954; LORENZO DI FONZO, La Mariologia di s. Antonio, em S. Antonio Dottore della Chiesa, Vaticano 1947, PP. 103 s; C. BALIC, S. Antonio “Dottore Evangelico” e gli altri dottori della Scolastica Francescana, em S Antº Dottore della Chiesa, pp. 26 s; BENIAMINO COSTA, La Mariologia di s. Antonio di Padova, Padova 1950, PP. 97-123; BALDUINO DE AMASTERDÃO, “Libro IV Sententiarm” Petro Lombardi in “Sermonibus” S. Antonii, in Collectanea Franciscana, 26 (1956) 113-150. No Congresso de Pádua de Outubro de 1981, o grande mariólogo RENÉ LAURANTIN disse: “Quase metade das monografias sobre Maria em St. Antônio de Pádua respeita ao problema da Imaculada Conceição. Ora, não se encontra nele, nem esta expressão, nem o ponto chave do dogma: que Maria foi preservada de todo o pecado, desde o primeiro instante da sua existência”. “St. Antônio não ignorava o problema, posto pela festa da Conceição. Não o resolveu, pode-se afirmar com DI FONZO. Não inovou nesta matéria inextrincável. Como homem tradicional e prudente, debate-se em posição aberta. Se a inclinação do coração vai em direção do futuro, enganar-nos-íamos eliminando a sua ambigüidade. Cf. La Vierge Marie chez St. Antoine, in Actas 1981, PP. 493 e 494.
  11. 11. Cant 7, 2.
  12. 12. Cf. Glo. Ord., Gen 41, 56.
  13. 13. ISID., Etym. XVII, 3, 4, PL 82, 399.
  14. 14. Cf. AMB., De institutione virginis, c. 14-15, n. 91-94, PL 16, 341-342.
  15. 15. Cf.Cf. ISID., Etym. XVII, 9, 18, PL 82-626.
  16. 16. St. Antônio traz “valle humilitatis” em vez de “valla humilitatis”, a recordar Lc 3, 5: Omnis valis implebitur. Cf. GREG., in Evang. hom. 20, 3, PL 76, 1161.
  17. 17. A sentença não é de St. Agostinho, sim de seu discípulo SÃO FULGÊNCIO DE RUSPAS, o. c., 2, 17, PL 40, 758. St. Antônio também aqui continua a ter nas mãos P. LOMB., Sent. III, dist. 5, 1, p. 567.
  18. 18. Cf. 3Reis 10, 18-20; Cant 3, 9-10.
  19. 19. Cf. Is 6, 1.
  20. 20. Prov 5, 19 (Vg. muda, omite).
  21. 21. Cf. ARIST., De hist. an., IX, 5, 611ª-15-17.
  22. 22. Lc 2, 7 (Vg... non erat eis...).
  23. 23. Glo. Ord., ibidem.
  24. 24. Glo. Int., ibidem
  25. 25. Cf. Fil 3, 13.
  26. 26. Cant 7, 6-7 (Vg. ajunta).
  27. 27. GREG., Moralium XIX, 27, 49, PL 76, 129. RICARDO DE SÃO VÍTOR (Explicatio in Cantica, 37, PL 196, 509) traz duas linhas, aliás já encontradas em São Gregório Magno, como verificou JEAN CHÂTILLON, St. Antoine et lês Victorins, in Actas 1981, p. 191, n. 71. Cf. ainda a Glo. Ord., Cant 7, 7.
  28. 28. ISID., Etym. VII, PL 82. 609, fala da palmeira, sem referir o seu fruto centenário. Deste, sim, fala A. NECKAM, poeta e naturalista, De laudibus divinae sapientiae, dist. VIII, 37-38. p. 482. Cf. PLÍNIO, Nat. hist., XIII, 8.
  29. 29. 40, 9-10.
  30. 30. ISID., Etym. XVII, 5, 2, PL 82, 602.
  31. 31. Jo 15, 1.
  32. 32. Ecli 24, 23.
  33. 33. Abade GUERRICO, In Nativitate beatae Mariae, sermo 1, 3, PL 185, 201.
  34. 34. Cf. BERN., Sermo in Domenica infra octavam Assumptionis B. V. Mariae, 7, PL 183, 533.
  35. 35. Cf. Num 35, 11-14.
  36. 36. Cf. Is 26, 8.
  37. 37. Lc 1, 27.
  38. 38. Cant 1, 2.
  39. 39. Cf. BERN., In Cantica sermo 15, 6, PL 183, 847. O que St. Antônio escreve aqui acerca do nome de Maria, São Bernardo afirma o mesmo acerca do nome de Jesus.
  40. 40. Cant 5, 1.
  41. 41. Job 39, 30 (Vg. Pulli eius lambent...).
  42. 42. Lc 11, 28.
  43. 43. Glo. Ord., ibidem.
  44. 44. As orações, mesmo as marianas, como esta, desembocam sempre em Cristo. “Isto manifesta o cristocentrismo de Antônio e o laço que estabelece entre Cristo e Maria”. A expressão “presença de Maria” já se encontra em SÃO GERMANO DE CONSTANTINOPLA: Ser. 1, In Dormit. 3, PG 98, 344 D, 345A e C; SÃO JOÃO DAMASCENO: Sermo 3 in Dormitione, 19, PG 97, 752 BC; SÃO PEDRO DAMIÃO (duvidoso): Liber salutatoriur, ed. J. Leclercq, em Ephemerides Litirgicae 72 (1958) 303. Cf. R. LAURENTIN, Couri trate sur La Vierge Marie, p. 153, n. 7, e La Vierge Marie chez st. Antoine de Padoue, em Actas 1981, pp. 514-515.

Sermão do Segundo Domingo da Quaresma

 

Exórdio. Sermão aos pregadores.
 
1.            Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os a um monte muito alto etc.1
 
Falou o Senhor a Moisés, dizendo no Êxodo2: Sobe para mim ao monte e permanece aí; e eu te darei duas tábuas: a lei e os mandamentos, que eu escrevi, para os ensinares aos filhos de Israel. Moisés interpreta-se aquático3, e significa o pregador que rega os espíritos dos fiéis com a água da doutrina que salta para a vida eterna4. A este diz o Senhor: Sobe para mim ao monte. O monte, por causa da sua altitude, significa a excelência da vida santa5, em que o pregador, deixado o vale dos bens temporais, deve subir pela escada do amor divino, e aí encontrará o Senhor, pois que o Senhor se encontra na excelência da vida santa. Daí a afirmação no Gênesis6: No monte o Senhor providenciará, isto é, na excelência da vida santa fará ver e entender quanto deve a Deus e ao próximo.
 
Dar-te-ei, diz, duas tábuas. As duas tábuas designam a ciência de cada um dos Testamentos, a única capaz de saber e de fazer sábios; só esta ciência ensina a amar a Deus, a desprezar o mundo, a sujeitar a carne. O pregador deve ensinar estas coisas aos filhos de Israel, dos quais depende toda a lei e os profetas7. Mas onde se encontra esta tão preciosa ciência? De verdade, no monte: Sobe para mim ao monte e deixa-te estar ali, porque aí há a mudança da dextra do Excelso8, a transfiguração do Senhor, a contemplação do verdadeiro gozo. Por isso, do mesmo monte se diz no Evangelho de hoje: Tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, etc.
 
2.            Neste Evangelho observam-se cinco coisas muito notáveis: a subida de Jesus ao monte com os três Apóstolos, a sua transfiguração, o aparecimento a Moisés e a Elias, a nuvem resplandecente que os envolveu, e o testemunho da voz do Pai: Este é o meu Filho caríssimo. Vejamos o que significam, no sentido moral, estas cinco coisas, conforme Deus for servido nos inspirar, para sua honra e utilidade de nossas almas.
 
 
I – A subida de Jesus Cristo ao monte com três Apóstolos
 
3.            Digamos, portanto: Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João. Estes três Apóstolos e especiais companheiros de Jesus Cristo significam as três virtudes da alma sem as quais ninguém pode subir ao monte da luz, isto é, à excelência da vida santa. Pedro interpreta-se o que reconhece, Tiago o que suplanta, João a graça do Senhor9. Tomou, portanto, Jesus consigo a Pedro etc. Toma também tu, que crês em Jesus e de Jesus esperas a salvação, a Pedro, isto é, o reconhecimento do teu pecado, que consiste em três coisas: na soberba do coração, na lascívia da carne, na avareza do mundo. Toma também contigo Tiago, isto é, a suplantação destes vícios, a fim de esmagares debaixo da planta da razão a soberba do teu espírito, e mortificares a lascívia da tua carne, reprimindo a vaidade do mundo enganador. Toma ainda contigo João, isto é, a graça do Senhor, que está à porta e bate10, para que te ilumine, faça reconhecer o mal que fizeste e te conserve no bem que começaste.
 
Estes são aqueles três homens, dos quais disse Samuel a Saul no primeiro livro dos Reis11: Ao chegares ao carvalho de Tabor, encontrar-te-ão aí três varões, que vão adorar a Deus em Betel, levando um três cabritos e outro três tortas de pão e outro um barril de vinho. O carvalho e o monte Tabor significam a excelência da vida santa, que bem se diz carvalho e monte Tabor: carvalho, porque é constante e inflexível pela perseverança final; monte, porque alta e sublime pela contemplação de Deus; Tabor, que se interpreta luz que vem12, pelo brilho do bom exemplo. Na excelência da vida santa requerem-se estes três predicados: constante em relação a si, contemplativo em relação a Deus, brilhante em relação ao próximo. Ao chegares, portanto, isto é, quando te dispuseres a vir ou subir ao carvalho ou monte Tabor, encontrar-te-ão aí três varões, que vão adorar a Deus em Betel. Estes três varões são Pedro, o que reconhece, Tiago, o que suplanta, e João, a graça do Senhor. Pedro leva três cabritos, Tiago três tortas de pão, João um barril de vinho.
 
Pedro, isto é, o que se reconhece pecador, leva três cabritos. No cabrito simboliza-se o fedor do pecado; nos três cabritos os três gêneros de pecados em que mais pecamos, a saber, na soberba do coração, na petulância da carne, na avareza do mundo. Quem, portanto, quiser subir ao monte da luz, deve levar estes três cabritos; isto é, reconhecer-se pecador nestas três coisas.
 
Tiago, isto é, o que suplanta os vícios da carne, leva três tortas de pão. O pão significa a suavidade do entendimento, que consiste na humildade do coração, na castidade do corpo, no amor da pobreza; ninguém poderá possuir esta suavidade se antes não suplantar os vícios. Portanto, leva três tortas de pão, isto é, a tríplice suavidade do entendimento, quem reprime a soberba do coração, refreia a petulância da carne e rejeita a avareza do mundo.
 
João, isto é, o que conserva fielmente e de ânimo perseverante tudo isto, com a graça proveniente e subseqüente do Senhor, verdadeiramente leva um barril de vinho. O vinho no barril é a graça do Espírito Santo na boa vontade.
 
Tomou, portanto, Jesus consigo Pedro, Tiago e João. Toma também tu estes três varões e sobe ao monte Tabor.
 
4.            Mas, crede-me, a subida é difícil, porque o monte é alto. Queres, portanto, subir mais facilmente? Toma aquela escada de que se lê e canta na história do presente domingo: Viu Jacob em sonhos uma escada direita, posta sobre a terra, cujo cimo tocava o céu e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada13. Observa cada uma das palavras e aparecerá a concordância do Evangelho. Viu: eis o reconhecimento do pecado, de que diz S. Bernardo: Deus não me dê a ver outra visão que não seja o conhecimento dos meus pecados. Jacob tem a mesma interpretação de Tiago: eis a suplantação da carne. Dele disse Esaú: Eis que me suplantou outra vez14. Em sonhos: eis a graça do Senhor, que traz consigo o sono da quietude e da paz. O sono assim é descrito pelo Filósofo15: O sono é o repouso das virtudes animais com intensificação das naturais. Quando alguém dorme no sono da graça, nele as paixões carnais repousam das suas más obras e intensificam-se as faculdades espirituais; daí o dizer-se no Gênesis16: Depois de se ter posto o sol, veio um sono profundo a Abraão, e um horror grande o acometeu. Por sol entende-se aqui o prazer carnal17, que, ao sucumbir, um sono profundo, isto é, o êxtase da contemplação, vem sobre nós; e um horror grande nos invade a respeito dos pecados passados e das penas do inferno. Queres ouvir a intensificação das faculdades espirituais juntamente com o perdão das paixões carnais? Eu, diz a Esposa, durmo, isto é, repouso do amor dos bens temporais, e o coração vigia18 na contemplação das celestes. Com razão, portanto, se diz: Viu Jacob em sonhos uma escada, pela qual podes subir ao monte Tabor.
 
5.            Nota que esta escada tem dois banzos e seus degraus, pelos quais se pode subir. Esta escada significa Jesus Cristo19; os dois banzos são a natureza divina e humana; os seis degraus são a sua humildade e pobreza, a sabedoria e misericórdia, a paciência e obediência. Foi humilde ao tomar a nossa natureza, quando olhou para a humildade da sua serva20. Pobre no seu nascimento, em que a Virgem pobrezinha, quando deu à luz o próprio Filho de Deus, não teve onde o reclinar, tendo de o envolver em panos e pôr em manjedoura de animais21. Foi sábio na sua pregação, porque começou a obrar e ensinar22. Foi misericordioso ao receber afavelmente os pecadores: Não vim, diz, chamar os justos mas os pecadores23 à penitência. Foi paciente no meio dos flagelos, bofetadas e escarros: por isso, ele mesmo diz em Isaías24: Ofereci a minha face como uma pedra duríssima. Se se bate numa pedra, não se vinga nem murmura contra quem a quebra. Assim Cristo, quando o amaldiçoaram, não amaldiçoava; sofrendo, não ameaçava25. Foi ainda obediente até à morte e morte de cruz26. Esta escada apoiava-se sobre a terra, quando Cristo se entregava à pregação e operava milagres; tocava o céu, quando pernoitava, como refere S. Lucas27, na oração do Senhor.
 
Eis que a escada é direita; porque, pois, não subis? Porque rastejais de mãos e pés sobre a terra? Subi, porque Jacob viu anjos a subir e a descer pela escada. Subi, portanto, ó anjos, ó prelados da Igreja, ó fiéis de Jesus Cristo; subi, digo, a contemplar quão suave é o Senhor28; descei a socorrer, a aconselhar, porque disto precisa o próximo. Porque tentais subir por caminho diferente do da escada? Por onde quer que quiserdes subir, depara-se-vos um precipício. Ó estultos e tardos de coração, não digo para crer29, porque credes, e os demônios também crêem30, mas duros e de pedra para agir! Pensais poder subir por outro caminho ao monte Tabor, ao repouso da luz, à glória da felicidade celeste, sem ser pela escda da humildade, da pobreza, da Paixão do Senhor? Na verdade, não. A palavra do Senhor é clara: Quem quiser vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me31. E em Jeremias32: Tu me chamarás pai, e não cessarás de andar após de mim. Como refere S. Agostinho33, o médico bebe primeiro a poção amarga, para que o doente não tenha medo de a beber. Por meio duma poção amarga, diz S. Gregório34, se chega ao gozo de saúde. Para salvar a vida, tens de parecer o ferro e o fogo35. Subi, portanto, não temais, porque o Senhor está apoiado à escada, preparado para receber os que sobem. Tomou, portanto, Jesus consigo Pedro, Tiago e João e subiu a um alto monte.
 
 
II – A transfiguração de Jesus Cristo.
 
6.            Segue o segundo: E transfigurou-se diante deles36. Imprimi-te, como cera mole, nesta figura, a fim de que possas receber a figura de Jesus Cristo, que foi assim: E o seu rosto ficou refulgente como o sol e as suas vestiduras tornaram-se brancas como a neve37. Nesta sentença verificam-se quatro coisas: o rosto e o sol, as vestiduras e a neve. Vejamos o eu significam no sentido moral o rosto e o sol, as vestiduras e a neve.
 
Nota que na parte anterior da cabeça, chamada rosto do homem, há três sentidos ordenados por via e disposição sapientíssima: a vista, o olfato e o gosto. O olfato, na verdade, está colocado, semelhante a uma balança, entre a vista e o gosto38. Igualmente no rosto da nossa alma há três sentidos espirituais, dispostos em reta ordem pela sabedoria do sumo artífice: a vista da fé, o olfato da discrição, o gosto da contemplação.
 
7.            Acerca da vista lê-se no Êxodo39 que Moisés e Aarão, Nadab e Abiu e setenta anciãos de Israel viram o Senhor de Israel; e debaixo de seus pés estava como que uma obra de pedra de safira, que se parecia com o céu quando está sereno. Nesta sentença descrevem-se todos aqueles que vêem e o que devem ver, isto é, crer, com a visão da fé. Moisés e Aarão, etc. Moisés interpreta-se aquático e significa todos os religiosos, que devem ser mergulhados nas águas das lágrimas. De fato, foram tirados do rio do Egito, com o fim de semearem, em lágrimas, nesta solidão horrível, e depois, em júbilo, ceifarem na terra da promissão. E o sumo pontífice Aarão, que se interpreta montanhês40, significa todos os prelados maiores da Igreja, constituídos no monte da dignidade. Nadab, que se interpreta espontâneo41, todos os súditos, que devem obedecer espontaneamente, não à força. Abiu, que se interpreta pai deles42, significa todos aqueles que, segundo o rito da Igreja, se uniram pelo matrimônio para serem pais de filhos. Os setenta anciãos de Israel significam todos os batizados que no batismo receberam o espírito da graça septiforme43.
 
Todos estes vêem, isto é, crêem, e devem ver, isto é, crer no Deus de Israel. E debaixo de seus pés estava como que uma obra de pedra de safira, etc. Quando diz Senhor de Israel: eis a divindade; ao dizer debaixo de seus pés: eis a humanidade de Jesus Cristo, que devemos crer como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Destes pés diz Moisés no Deuteronômio44: Os que se aproximam de seus pés receberão da sua doutrina. Por isso, diz-se em S. Lucas45 que Maria estava sentada aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Portanto, debaixo dos pés do Senhor, isto é, depois da Encarnação de Jesus Cristo apareceu a obra do Senhor, como que de pedra de safira, que se parecia com o céu quando está sereno. A pedra de safira e o céu sereno são da mesma cor.
 
E nota que a safira tem quatro propriedades: ostenta em si uma estrela, dá cabo do antraz, é semelhante ao céu sereno, estanca o sangue. A pedra de safira significa a santa Igreja, começada depois da Encarnação de Cristo e que há-de durar até ao fim dos séculos. Esta divide-se em quatro ordens, a saber, apóstolos, mártires, confessores e virgens, que acertadamente entendemos nas quatro propriedades da pedra de safira.
 
A safira ostenta em si uma estrela, e nisto significa os apóstolos, que primeiro mostraram a estrela matutina da fé aos que jaziam nas trevas e na sombra da morte46. a safira, com o seu contato, dá cabo do antraz, que é doença mortal47; nisto significa os mártires, que destruíram com o seu martírio o antraz da idolatria. A safira, semelhante à cor celeste, significa os confessores, que, reputando todas as coisas temporais como esterco, se suspenderam na corda do amor divino para contemplar a celeste beatitude, dizendo com o Apóstolo48: Somos cidadãos dos céus. Igualmente a safira estanca o sangue, e nisto significa as virgens, que por amor do celeste Esposo estancaram em si por completo o sangue da concupiscência carnal. Esta é a admirável obra da pedra de safira, que apareceu debaixo dos pés do Senhor. Eis claramente o que a tua alma deve ver e o que deve crer com a visão da fé.
 
8.            Do olfato da discrição escreve-se no Cântico49 do amor: O teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para Damasco. Nesta sentença há quatro palavras muito dignas de nota; o nariz, a torre, o Líbano e Damasco. No nariz designa-se a discrição, na torre a humildade, no Líbano, que se interpreta alvura50, a castidade, em Damasco, que se interpreta o que bebe sangue51, a malícia do diabo52. Portanto, o nariz da alma é a virtude da discrição, através da qual, como se fora nariz, deve discernir o bom do mal cheiro, o vício da virtude, e pressentir ainda as coisas postas ao longe, isto é, as futuras tentações do diabo53. Por isso, diz Job54: Cheira de longe a batalha, a exortação dos capitães e a gritaria do exército. De fato, a alma fiel pressente pelo nariz, isto é, pela virtude da discrição, a batalha da carne e a exortação dos capitães, isto é, as sugestões da razão vã, que são compreendidas por meio dos capitães, para não cair no fosso do mal, sob pretexto de santidade; e a gritaria do exército, isto é, as tentações do demônio, que gritam como bestas, porque gritar é próprio de bestas.
 
Este nariz da esposa deve ser como a torre do Líbano, pois, na humildade de coração e castidade de corpo consiste sobretudo a virtude da discrição. E bem se diz humildade a torre da castidade, porque assim como a torre defende o castelo, assim a humildade do coração defende a castidade do corpo das setas da fornicação. Se tal for o nariz da esposa, bem poderá olhar para Damasco, isto é, para o diabo, desejoso de beber o sangue das nossas almas, descobrindo a malícia da sua sutileza.
 
9.            Acerca do gozo da contemplação diz o Profeta55: Experimentai e vede quão suave é o Senhor. Experimentai, isto é, esmagai com a garganta do vosso espírito e, esmagando, repensai na felicidade daquela Jerusalém celeste, na glorificação das almas santas, na glória inefável da dignidade angélica, na doçura perene da Trindade e Unidade; repensai também quanta será a glória de estar entre os coros dos anjos, louvar a Deus juntamente com eles com voz indefessa, contemplar face a face o rosto de Deus, ver o maná divino na urna de ouro da humanidade! Se saboreardes bem estas coisas, verdadeiramente, sim, vereis quão suave é o Senhor. Feliz aquela alma cujo rosto se adorna e se decora com tais sentimentos.
 
E nota que o olfato, qual balança, está colocado entre a vista da fé e o gosto da contemplação. Na fé, com efeito, a discrição é necessária, para que não pretendamos aproximar-nos e ver a sarça ardente56, desatar a correia do calçado57, isto é, desvendar o segredo a Encarnação do Senhor58. Crê apenas, e basta. Não está em teu poder desatar a correia do calçado. O que quer sondar a majestade, diz Salomão59, será oprimido pela sua glória. Portanto, acreditemos firmemente e confessemos com simplicidade.
 
Na contemplação também é necessária a discrição, para que não saibamos mais da sabedoria, de sabor celeste, do que importa saber60. Donde Salomão nas Parábolas61: Filho, achaste mel, isto é, a doçura da contemplação62, come o que te basta, para que não suceda que depois de farto o vomites. Vomita o mel quem, não contenta com a graça que lhe foi dada gratuitamente, deseja indagar com a razão humana a doçura da contemplação, não atendendo àquilo que se diz no Gênesis63 que ao nascer Benjamim morreu Raquel. Por Benjamim designa-se a graça da contemplação, por Raquel a razão humana. Ao nascer, portanto, Benjamim, morre Raquel, porque, quando o entendimento, elevado acima de si mesmo na contemplação, divisa alguma coisa acerca da luz da divindade, toda a razão humana sucumbe. A morte de Raquel é a falta de razão. Por isso, disse alguém64: Ninguém chega pela razão humana aonde S. Paulo foi arrebatado
 
Seja, portanto, o olfato da discrição como balança entre a vista da fé e o gosto da contemplação, para que o rosto da nossa alma resplandeça como o sol.
 
10.         E nota que no sol há três propriedades: claridade, alvura e calor; e vê quão bem elas convêm aos três sobreditos sentidos da alma. A claridade do sol convém à vista da fé, que divisa e crê as coisas invisíveis pela claridade da sua luz. Alvura, isto é, a mundícia ou pureza, convém ao olfato da discrição; e com acerto, porque assim como fechamos e viramos o nariz dum objeto mal cheiroso, assim nos devemos afastar da imundícia do pecado com a virtude da discrição. Também o calor do sol convém ao gosto da contemplação, na qual verdadeiramente há o calor da caridade. Escreve S. Bernardo65: É, de fato, impossível ver o sumo bem e não o amar, pois que o próprio Deus é caridade.
 
Atendei, portanto, caríssimos, e vede quão útil, quão salutar é tomar três companheiros e subir ao monte da luz, porque aí há verdadeira transfiguração da figura deste mundo, que passa66, na figura de Deus, que permanece por séculos de séculos. Dela se diz: O seu rosto resplandeceu como o sol. Resplandeça também o rosto da nossa alma como o sol, a fim de que transforme em obras o que vemos pela fé; e o bem que discernimos no interior, o executamos fora, na pureza da obra, com a virtude da discrição; e o que saboreamos na contemplação de Deus, se torne vida no amor do próximo; e desta maneira o nosso rosto resplandecerá como o sol.
 
11.         Segue: E as suas vestiduras tornaram-se alvas como a neve67, quais um tintureiro não seria capaz neste mundo de o fazer68. As vestiduras da nossa alma são os membros do nosso corpo69, que devem ser cândidos. Daí Salomão70: As tuas vestiduras sejam cândidas em todo o tempo. Mas de qual candura? Como a neve. Por boca de Isaías71 promete o Senhor aos pecadores convertidos: Se os vossos pecados forem como o escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve. Nota aqui duas palavras: Escarlate e neve. Escarlate é um pano que possui a cor do fogo e do sangue72. A neve é fria e alva. O fogo designa o ardor do pecado; o sangue, a imundícia do mesmo; a frigidez da neve, a graça do Espírito Santo; a alvura, a pureza do entendimento73. Diz, portanto, o Senhor: Se os vossos pecados forem como o escarlate etc. Como se dissesse: Se vos converterdes a mim, eu infundir-vos-ei a graça do Espírito Santo, que não só extinguirá o ardor do pecado, como também lavará a sua imundícia. Por isso, ele mesmo diz por Ezequiel74: Derramarei sobre vós água limpa, e sereis limpos de todas as vossas iniqüidades. As vestiduras, portanto, isto é, os membros do nosso corpo, sejam alvas como a neve, para que frigidez da neve, isto é, a compunção do espírito, extinga o ardor do pecado, e a alvura duma vida santa lave a imundícia do pecado.
 
Por outras palavras, as vestiduras da nossa alma são as virtudes75. Vestida com elas, apareça gloriosa na presença do Senhor. Destes vestidos se diz na história do presente domingo que Rebeca vestiu Jacob de vestidos muito bons, que tinha consigo76. Rebeca, isto é, a sabedoria de Deus Pai, vestiu Jacob, isto é, o justo, com os vestidos, isto é, com as virtudes boas, porque feitas com a mão e o artifício da sua sabedoria, as quais ele tem consigo guardadas no tesouro da sua glória. Tem-nas verdadeiramente, porque é o Senhor, dono de tudo; tem-nas verdadeiramente, porque as distribui a quem quer, quando quer e como quer. Estas vestiduras são cândidas, de fato, dado que fazem cândido o homem, não digo como a neve, mas branqueiam-no acima da neve. O tintureiro, isto é, o pregador, na calandra da sua pregação, não pode fazer assim tais vestiduras neste mundo.
 
 
III – A aparição a Moisés e a Elias.
 
12.         Segue o terceiro: E Moisés e Elias apareceram a falar com ele77. Moisés e Elias aparecem ao justo assim transfigurado,assim iluminado, assim vestido. Por Moisés, que era o mais manso de todos os homens que habitavam sobre a terra78, cuja vista, como se diz no Deuteronômio79, não diminuiu, nem os dentes se lhe abalaram, entende-se a mansidão da paciência e da misericórdia. Manso quer dizer acostumado à mão80. Ele, na verdade, como filho, como animal manso, acostumou-se à mão da divina graça, cuja vista, isto é, a razão, não diminui com a fuligem do ódio nem se ofusca com a nuvem do rancor; os seus dentes não se abalam contra alguém pela murmuração. Nem mordem pela detração.
 
Por Elias, que, segundo se lê no terceiro livro dos Reis81, matou os profetas de Baal na torrente de Cisão, entende-se o zelo da justiça. Baal interpreta-se superior ou devorador82; Cisão, a dureza deles83. Portanto, o que ferve verdadeiramente com o zelo da justiça, mata com a espada da pregação, da ameaça e da excomunhão os profetas e os escravos da soberba, – a qual se dirige sempre a coisas superiores – da gula e da luxúria, que tudo devoram, a fim de que, mortos ao vício, vivam para Deus84. E pratica isto na torrente de Cisão, isto é, na abundância do seu coração duro. Por isso, entesouram ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus85.
 
Dela diz Deus a Ezequiel86: Aqueles a quem te envio são filhos de cerviz dura e de coração indomável. De fato, toda a casa de Israel é de cara desavergonhada e de dura cerviz. Possui cara desavergonhada quem, ao ser corrigido, não só despreza a correção, mas não se envergonha do pecado. a este impropera Jeremias87: O descaramento duma mulher meretriz apoderou-se de ti; não quiseste ter vergonha. Moisés, portanto, e Elias, isto é, a mansidão da misericórdia e o zelo da justiça, devem aparecer justos com o justo, já transfigurado no monte da vida santa, a fim de que, à semelhança do Samaritano, derramem vinho e azeite nos cobertos de chagas. O acre do vinho exacerba a brandura do azeite, e abrandura do azeite suaviza o acre do vinho88.
 
Daí o dizer-se em S. Mateus, do anjo que apareceu na ressurreição de Cristo, que o seu aspecto era como o raio e as suas vestiduras como a neve89. o raio designa a severidade do juízo; o candor da neve, a brandura da mansidão90. O anjo, isto é, o prelado, deve ter o aspecto do raio, para que as mulheres, isto é, os espíritos efeminados, temam o seu olhar ao considerarem a sua vida santa. Desta maneira procedeu Ester, de quem se diz no livro91 da mesma: Tendo o rei Assuero levantado o rosto e manifestado em seus olhos cintilantes o furor do peito, a rainha desmaiou, e, trocando-se a sua cor em palidez, deixou cair a cabeça vacilante sobre a criada. Mas o prelado, tal como procedeu Assuero, deve apresentar o báculo de ouro da benignidade92 e revestir-se das vestiduras de neve, para, com piedosa benignidade de mãe, consolar os que corrigiu com austeridade de pai93. Donde o dito: Tem azorragues de pai e peitos de mãe.
 
O prelado deve ser como o pelicano, o qual, segundo se conta, mata os seus filhos, mas depois extrai o sangue do próprio corpo e o derrama sobre os filhos mortos e desta forma os faz reviver94. Assim o prelado deve chamar os seus filhos, isto é, os seus súditos, os quais corrige com o flagelo da disciplina e mata com a espada da áspera reprimenda. Deve chamá-los, repito, à penitência, que é vida da alma, com o seu sangue, ou seja, com espírito compungido e com derramamento de lágrimas, sangue da alma, no dizer de S. Agostinho95.
 
 
IV – O testemunho da voz do Pai: Este é o meu Filho muito amado.
 
13.         E se estas três coisas, a subida ao monte, a transfiguração e o aparecimento a Elias e Moisés, precederam em ti, conseguirás a quarta, de que se acrescenta: eis que uma nuvem resplandecente os envolveu96. Lê-se coisa semelhante no fim do Êxodo97, onde se diz: Depois de acabadas todas estas coisas, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho e a glória do Senhor o encheu.
 
Nota que no tabernáculo do testemunho havia quatro objetos: o candelabro com sete lâmpadas, a mesa da proposição, a arca do testamento e o altar de ouro98. O tabernáculo do testemunho é o justo. É tabernáculo, porque a sua vida é um combate sobre a terra99. os soldados em armas costumam desde a sua tenda100 combater os inimigos e por estes ser combatidos. Também o justo, colocado na linha de batalha, enquanto combate é combatido; daí o dizer-se: O inimigo qye bem combate torna-te bom combatente101. O justo é o tabernáculo do testemunho. Tem bom testemunho, não só dos de fora102, nem sempre verdadeiro, mas também de si mesmo. A sua glória é o testemunho da própria consciência103, não de língua alheia.
 
Neste tabernáculo do testemunho há o candelabro de ouro batido, com sete lâmpadas; é o áureo coração compungido do justo, batido por múltiplos suspiros, como se foram martelos. As sete lâmpadas deste candelabro são os três cabritos, as três tortas de pão e o barril de vinho, que os sobretidos três companheiros do justo levam. Há ainda no tabernáculo do justo a mesa da proposição, pela qual se entende a excelência da vida santa. Sobre ela devem pôr-se os pães da proposição, isto é, o alimento da palavra divina, que a todos se deve propor. Donde o Apóstolo: Sou devedor de Gregos e Bárbaros104. Há também ali a arca do testamento, em que se guardava o maná e a vara. Na arca, isto é, no espírito dp justo, deve existir o maná da mansidão, para que seja Moisés, e a vara da correção, para que seja Elias. Há também aí um altar de ouro, pela qual se entende o firme propósito da perseverança final. Neste altar, todos os dias se oferece o incenso da compunção devota e os perfumes da oração odorífera.
 
14.         Com razão, portanto, se diz: Depois de acabadas todas estas coisas, uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho. Tal tabernáculo, em que são acabadas todas as coisas atinentes à perfeição, uma nuvem o cobre e a glória do Senhor o enche. Desta se escreve no Evangelho de hoje: E uma nuvem resplandecente os envolveu. A graça do Senhor, de fato, envolve o justo transfigurado no monte da luz, isto é, da vida santa, protegendo-o do ardor da prosperidade mundana, da chuva da concupiscência carnal, da tempestade da perseguição do demônio; e desta forma merecerá ouvir o cicio de tênue aura105, a doçura de Deus Pai: Este é o meu Filho caríssimo; ouvi-o106. Verdadeiramente é digno de se chamar Filho de Deus quem tomou consigo os três sobreditos companheiros, subiu ao monte, a si mesmo se transfigurou de figura do mundo em figura de Deus, teve por companheiros Moisés e Elias e mereceu ser envolvido por nuvem resplandecente.
 
Rogamos-te, portanto, Senhor Jesus, que nos faças subir deste vale de miséria ao monte duma vida santa, a fim de que impressos na figura da tua Paixão, fundados na mansidão da misericórdia e no zelo da justiça, mereçamos no dia do juízo ser envolvidos por nuvem transparente e ouvir a voz de gozo, alegria e exultação: Vinde, benditos de meu Pai, que vos abençoou no monte Tabor, recebei o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo107. A este reino Ele mesmo se digne conduzir-nos. A Ele pertence a honra e glória, louvor e império, majestade e eternidade pelos séculos dos séculos. Diga todo espírito: Assim seja.
 
 
 
Fonte: SANTO ANTÔNIO DE LISBOA. Obras Completas. Sermões Dominicais e Festivos (Vol. I)
Introdução, tradução e notas por Henrique Pinto Rema.
Lello e Irmão Editores, Porto, 1987; págs 117-138.

 

  1. 1. Cf. Mt 17, 1.
  2. 2. Cf. Ex 24, 12.
  3. 3. Cf Ex 2, 10.
  4. 4. Jo 4, 14.
  5. 5. Cf. Glo. Ord., Ex 24, 15.
  6. 6. Gen 22, 14.
  7. 7. Cf. Mt 22, 40.
  8. 8. Sl 76, 11.
  9. 9. Glo. Int., Atos 1, 13.
  10. 10. Cf. Ap 3, 20.
  11. 11. 1Reis 10, 3 (Vg. muda).
  12. 12. Glo. Ord. e Int., Sl 88, 13.
  13. 13. Gen 28, 12-13 (Vg. Viditque in somnis...).
  14. 14. Gen 27, 36 (Vg. muda, ajunta).
  15. 15. ARIST., De somno et vigilia, 3, e também em Ethicorum, c. 1.
  16. 16. Gen 15, 12 (Vg. ajunta, muda).
  17. 17. Cf. GREG., Moralium IX, 45, 84, PL 85, 904.
  18. 18. Cant 5, 2.
  19. 19. Glo. Ord. e Int., Gen 28, 12.
  20. 20. Lc 1, 18.
  21. 21. Cf. Lc 2, 7.
  22. 22. Atos 1, 1 (Vg. coepit Iesus...).
  23. 23. Mt 9, 13 (Vg. Non enim...).
  24. 24. Is 50, 7.
  25. 25. 1Pd 2, 23.
  26. 26. Fil 2, 8.
  27. 27. Cf. Lc 6, 12.
  28. 28. Cf. Sl 33, 9.
  29. 29. Cf. Lc 24, 25.
  30. 30. Cf. Tg 2, 19.
  31. 31. Mt 16, 24 (Vg. Si quis...).
  32. 32. Jer 3, 19.
  33. 33. AGOST., Enarratio in Os. 92, 3, PL 37, 1259.
  34. 34. Cf. GREG., Moralium XXXI, 33, 70, PL 76, 612.
  35. 35. OVÍDIO, Remedia amoris, 229; cf. H. WALTHER, Lateiniche Sprichwörter, n. 32348.
  36. 36. Mt 17, 2.
  37. 37. Mt 17, 2.
  38. 38. Cf. ARIST., De part. an., 11, 10, 657a, 8-11.
  39. 39. Ex 24, 9-10 (Vg. muda, ajunta).
  40. 40. Glo. Int., Ex 4, 28.
  41. 41. JERON., De nom. hebr., PL 23, 833.
  42. 42. Glo. Ord., Mt 1, 12.
  43. 43. Cf. Glo. Int., Ex 24, 8.
  44. 44. Deut 33, 3.
  45. 45. Cf. Lc 10, 39.
  46. 46. Lc 1, 79.
  47. 47. Cf.ESCRIBÔNIO LARGO, Compositiones medicae, 25;chamam escaras às crostas dos olhos e antrazes aos carbúnculos.
  48. 48. Fil 3, 20 (Vg. Nostra autem...); cf. Glo. Ord. e Int., Is 54, 11.
  49. 49. Cant 7, 4.
  50. 50. Glo. Ord., Cant 4, 8.
  51. 51. Glo. Int., Cant 7, 4.
  52. 52. Glo. Ord., ibidem.
  53. 53. Cf. Glo. Ord. e Int., ibidem.
  54. 54. Job 39, 25.
  55. 55. Sl 33, 9.
  56. 56. Cf. Ex 3, 3.
  57. 57. Cf. Lc 3, 16.
  58. 58. Glo. Ord., ibidem.
  59. 59. Prov 25, 27 (Vg. Qui scrutator est...).
  60. 60. Cf. Rom 12, 3.
  61. 61. Prov 25, 16 (Vg. Mel invenisti; comede quod sufficit tibo...).
  62. 62. Cf. Glo. Int., ibidem.
  63. 63. Cf. Gen 35, 17-19.
  64. 64. Cf. RICARDO DE SÃO VITOR, Beniamim minor, 73-74, PL 196, 52-53.
  65. 65. Não é de São Bernardo, nem de Guido Cartusiano, como chegou a afirmar-se e vem nos Editores, mas é de GUILHERME DE ST. THIERRY, Epistola ad fratres de Monte Dei, II, 3, 18. Cf. Actas 1981, p. 178, n. 30.
  66. 66. Cf. 1Cor 7, 31.
  67. 67. Mt 17, 2.
  68. 68. Mt 9, 2 (Vg... super terra candida facere).
  69. 69. Cf. Glo. Int., Ecle 9, 8; Glo. Ord., Job 9, 31.
  70. 70. Ecle 9, 8.
  71. 71. Is 1, 18.
  72. 72. Cf. ISID., Etym. XIX, 22, 10, PL 82. 685.
  73. 73. Cf. JERÓN., Commentarium in Job, 9, 37, PL 26, 678-783.
  74. 74. Ez 36, 25.
  75. 75. Cf. Glo. Int., Sl 44, 10.
  76. 76. Cf. Gen 27, 15.
  77. 77. Mt 17, 3.
  78. 78. Cf. Num 12, 3.
  79. 79. Deut 34, 7 (Vg. non caligavit oculus...).
  80. 80. Cf. ISID., Etym. X, 169, PL 82, 385.
  81. 81. Cf. 3Reis 18, 30.
  82. 82. Glo. Int., Jz 6, 25.
  83. 83. Glo. Ord., Sl 82, 10.
  84. 84. Cf. Gal 2, 19.
  85. 85. Cf. Rom 2, 5.
  86. 86. Ez 2, 4; 3, 7 (Vg. Filli dura facie... et duro corde).
  87. 87. Jer 3, 3 (Vg. ajunta).
  88. 88. Cf. GREG., Moralium XX, 6, 14, PL 76, 143; Lc 10, 34.
  89. 89. Cf. Mt 28, 3.
  90. 90. Cf. Glo. Ord., ibidem.
  91. 91. Ester 15, 10 (Vg. muda).
  92. 92. Cf. Ester 15, 15.
  93. 93. Cf. GREG., Regula pastoralis, II, 6, PL 77, 38.
  94. 94. Cf. Glo. Ord., Sl 101, 7; ISID., Etym. XII, 7, 26, PL 82, 162. Ambas as citações são colhidas de ST. AGOSTINHO, In Ps 101, sermo , 8, PL 37, 1 1299.
  95. 95. Cf. AGOST., Epistola 262, 11, PL 33, 1081; cf. Sermo 351, 4-7, PL 39, 1542.
  96. 96. Mt 17, 5.
  97. 97. Ex 40, 31-32 (Vg. Postquam omnia perfecta sunt operuit nubes...).
  98. 98. Ex 25, 31-37.
  99. 99. Job 7, 1 (Vg. militia est vita hominis...).
  100. 100. Em português não há seqüência de pensamento, como em latim, por tabernaculum ter de e traduzir no segundo lugar por tenda.
  101. 101. OVÍDIO, Pont. 11, 3, 53.
  102. 102. Cf. 1Tim 3, 7.
  103. 103. Cf. 2Cor 1, 12.
  104. 104. Rom 1, 14.
  105. 105. Cf. 3Reis 19, 12.
  106. 106. Mt 17, 5 (Vg. muda, ajunta).
  107. 107. Cf. Mt 25, 34.
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