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Category: Santo Tomás de AquinoConteúdo sindicalizado

Sermão Germinet Terra

Sermo Geminet terra:

que se cubra de verdura a terra!

 

Breve preâmbulo

Produza a terra erva verde, e que dê semente, e árvores frutíferas, que dêem fruto segundo sua espécie, cuja semente esteja nelas mesmas (para se reproduzirem) sobre a terra. E assim se fez.(Gn. 1, 11). Declara Isaías sobre o Cristo: Quem falará de sua geração? (Is. 53, 1) De certo modo depende a geração do Cristo da geração de Maria (falo da geração temporal do Cristo). Ora para se descer a detalhes da geração de Maria, não basta a inteligência humana. Invoquemos pois a graça do Espírito Santo, por que se santificou Maria, e imploremos ao Divino Espírito que me conceda dizer algo de valor.

 

Primeira Parte

[Maria, remédio enquanto erva verdejante]

É regra da divina providência diligenciar por cada ser, segundo sua conveniência. Por isso dispõe ao homem, porque é humano, remédio tirado da terra. Assim conforme lemos em Sirácida: O Altíssimo é quem produziu da terra o medicamento (Eclo. 38, 4). Oferecem-se dois remédios tirados da terra: a erva verdejante e as árvores frutíferas. A erva verdejante é a bem-aventurada Virgem, cuja festa celebra a Igreja por esses dias. Com efeito, ela se chama erva pela humildade, verdejante pela virgindade, e frutífera pela fecundidade. Considerando as propriedades da erva, podemos apanhar três características: a erva é mirrada em tamanho, suave ao tato, benfazeja em virtude.

Em primeiro lugar, digo que a erva é mirrada em tamanho. Se comparássemos a erva à árvore, veríamos que ela pouco cresce em altura, contrariamente à árvore, que se avulta para cima. Ora a altura significa orgulho. Assim aquilo do Salmo: Vi o ímpio arrogante, e elevando-se como o cedro frondoso (Sl. 37 [36], 35). O ímpio, i. é, o orgulhoso, pois que o orgulho é princípio de impiedade, se eleva pela riqueza do mundo, contra a qual escreve o Apóstolo: Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem confiem na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo (1 Tm. 6, 17). Eleva-se no conhecimento, porque o orgulho do conhecimento se exalta a si mesmo. Se sua soberba subir até ao céu, e sua cabeça tocar nas nuvens, por fim perecerá como o esterco (Jó 20, 6). Percebe que a prosperidade mundana e a alta idéia que tem de si, que o eleva como o cedro do Líbano, exaltam o ímpio. Donde o profeta Amós: Sua altura era como a altura dos cedros (Amós 2, 9).

A erva não cresce muito, mas permanece mirrada em tamanho, significando humildade. [Deus] faz germinar a erva (...) para serviço do homem (Sl 147 [148], 8). Por serviço entenda-se a humildade. Eleva-se a árvore muito acima da terra, permanecendo fixada a ela; a erva pouco se fixa a terra, sendo rapidamente arrancada dela. Assim o orgulhoso, conquanto se magnifique deveras e se exalte, tem o coração plantado em terra, donde não se pode arrancá-lo. O humilde nada possui na terra; assim, o coração se arranca facilmente dali. Em razão dessa pequenez o humilde se compara à erva.

Possuía a bem-aventurada Virgem inúmeras qualidades por que se deve louvá-la. Era ela cheia de graça, segundo o testemunho do anjo. Foi escolhida Mãe de Deus, e em se tornando Mãe de Deus, só glorificava de si a humildade ao dizer (Lc. 1, 48): Porque se curvou sobre sua humilde serva. Buscava o Senhor a mulher por que se salvaria o gênero humano, para que o contrário curasse o contrário. O orgulho perdeu o gênero humano, pois a origem de todo o pecado foi o orgulho. Não convinha que o humilde Filho, que com a humildade veio salvar o gênero humano, habitasse mãe orgulhosa. Assim, Deus é todo atenção para a humildade. A propósito da humildade da bem-aventurada Maria escreve Agostinho num sermão sobre a Assunção: Ó verdadeira humildade de Maria, que engendrara Deus para a humanidade, revelara a vida aos mortais, franqueara os céus, purificara o mundo, desvendara o Paraíso ao homem, libertara as almas dos homens!. A pequenez da erva significa a humildade de Maria.

Em segundo lugar, a erva não é dura, mas tenra. Tenra ou cediça ao tato, como um coração tenro que não se obstina. Há de se notar a existência de certa ternura de coração, [que é] virtuosa e natural, e de outra viciosa e supurativa. [Ora] localiza-se a vontade ou coração humano entre duas realidades: a que lhe é superior, e a que lhe é inferior. Caso ceda facilmente ao inferior – à concupiscência da carne ou à cobiça do mundo – trata-se de ternura antinatural, de que fala o livro dos Provérbios: Para guardar-te da mulher estrangeira, da desconhecida de palavras lisonjeiras (Pr 2, 16), e Jeremias: Sai do meio dela, povo meu, para que salve cada um a sua vida da ira do furor do Senhor (Je 51, 45). Não era essa a ternura da erva [Virgem Maria]. Do mesmo modo a vontade do homem tem a de Deus acima, devendo ceder à moção divina, pois o coração duro conhecerá a tristeza no último dia (Eclo. 3, 26). Acerca da ternura escreve Jó: Deus amolgou meu coração, e o Onipotente me turbou (Jó 23, 16). Compara-se a juventude à erva, no Salmo 90[89], 6: De manhã, i. é, na juventude, floresce e rebentade noite, abate-se e resseca. Durante a juventude, deixa-se o homem facilmente conduzir. A bem-aventurada Virgem teve essa fineza de obediência, porque logo obedeceu a palavra do anjo, e acreditou fosse conceber do Espírito Santo. Ela se submete sem vacilar: Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra! (Lc. 1, 38). Assim se dá com os santos, que só ensinam o que experimentaram. Como fosse a bem-aventurada Virgem a mais obediente das criaturas, ensina-nos a obediência. De tudo quanto se diz dela no Evangelho, lê-se que ensinara sobretudo o mandamento da obediência: Fazei tudo quanto ele vos disser (Jo 2, 5). Diz ela: Tudo quanto vos disser, e não: Tudo quanto vos ordenar, pois ela é a mesma prontidão de obediência, obedecendo à mera palavra do superior. Assim escreve São Paulo a Tito: Sejam sujeitos aos príncipes e às autoridades, que lhes obedeçam (Tito 3, 1). A obediência é virtude primordial. Deste modo se refere a ela Gregório, nas Morais (XXXV, 14): “A obediência é a única virtude que introduz n’alma as demais virtudes, para em seguida guardá-las ali”. Certas pessoas saem a murmurar e dizer que é melhor obedecer à vontade espontânea que à vontade alheia, mas isso é falso. Dentre todas as boas ações exteriores, nenhuma se compara ao oferecimento de sacrifício, e a obediência é mais agradável que holocaustos. Por isso diz Gregório: “É justo preferir obediência a sacrifícios, porque estes imolam carne estranha, enquanto aquele imola a vontade própria” (ibid). A bem-aventurada Virgem propusera ensinamentos em atos e palavras sobre a obediência. Pela desobediência de um só homem, todos somos pecadores; era conveniente que fôssemos salvos pela obediência, e como a obediência do filho se inicia pela mãe, deste modo a bem-aventurada Virgem foi obediente.

Em terceiro lugar, a erva possui virtude benfazeja para a saúde: serve para cuidar das doenças; se ela não tivesse virtude medicinal, escrever-se-ia em vão no livro da Sabedoria: Nem erva nem ungüento recobravam-lhe a saúde (Sb. 16, 12). O gênero humano estava doente: Tende piedade de mim, Senhor, porque sou enfermo: sara-me (Sl. 6, 3). A doença é conseqüência do pecado; quisera Deus aplicar remédio medicinal, agindo como bom médico. Quando os bons médicos querem demonstrar sua ciência médica, aplicam-se em primeiro às doenças gravosas, tornando-se deste modo célebres. O gênero humano definhava, nascendo em corrupção no ventre da mulher. É o que afirmava Salomão: Constatei que a mulher era mais amarga que a morte (Sb. 7, 26). Querendo manifestar a bondade do remédio, o Senhor aplicou-o antes do mais na mulher, para que o remédio se estendesse aos demais, como está escrito: O remédio de todos esses males é uma nuvem que venha depressa (Eclo. 43, 24). Na oração Salomão diz: O Senhor disse que habitaria numa névoa (1 Re 8, 12). Dentro da nuvem, i. é, da bem-aventurada Virgem, encontra-se a salvação e a cura do gênero humano. Assim se afirma em Sirácida: Em mim há toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude (Eclo. 24, 25). Como se encontrasse o remédio de todos na nuvem, a saber, a bem-aventurada Virgem, escreve o Apóstolo: Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia (Hb. 4, 16). Ele diz: [O remédio] é uma nuvem que venha depressa, pois a virtude [desse remédio] rapidamente se manifesta. Já que é rápida para quem recebeu a graça durante a infância, quanto mais para a Virgem, que a recebe desde o seio maternal, donde foi purificada do pecado original [...]. Deus está no meio dela; não será comovida (Sl. 46 [45], 6), nem pelo pecado mortal, nem pelo venial. Também diz Agostinho: “Não hei de falar coisa alguma, quando se trata de pecado na mãe de Deus”. Igualmente o texto de Jerônimo no saltério traz: “Deus a socorreu desde o despontar da manhã” (Sl. 46 [45], 6). Assim sendo celebramos seu nascimento acima daquele dos outros santos, exceto os do Cristo e de São João Batista. A bem-aventurada Virgem fora erva pela humildade.

De igual modo, foi ela erva verdejante pela virgindade. Em Jerônimo se diz: Toda a erva da região ressecará; mas a bem-aventurada Virgem era erva verdejante pela virgindade. Assim em Lucas: O anjo Gabriel foi enviado a Maria, [que era] virgem (Lc. 1, 27).

Vede como neste verdejar observamos a humildade, a beleza e a utilidade ou necessidade. [Traduzida] nesta verdura, vemos [simbolizadas] a frescura, a beleza, a utilidade ou necessidade.

Em primeiro lugar, digo que nisso constatamos a humildade como causa, pois a humildade é causa do verdejar. Assim em Sirácida: A verdura que cresce sobre as águas (Eclo. 40, 16). Deveis saber que a erva se resseca por causa do sol ou do fogo. Do mesmo modo a concupiscência da carne resseca a verdura da virgindade. Segundo Jó: É fogo que consome até o extermínio (Jó 31, 12). Que alimenta a verdura da virgindade? Sem dúvidas o amor celeste, pois a virgindade tem algo de celeste. Deste modo escreve Jerônimo: “Viver na carne como se fora dela não é comportamento terrestre ou humano, mas celeste.” E o Apóstolo, ao encorajar a virgindade, apostrofa: Cada um tem de Deus seu próprio dom; uns dum modo, e outros doutro (1 Co. 7, 7). A virgindade é dom da graça de Deus, com o concurso do livre arbítrio. Assim o adolescente diz: Não poderia ser casto se Deus me não concedesse (Sb. 8, 21). Não continha a Virgem a água da graça? Claro, porque lhe declarara o anjo: Não temais, Maria, pois encontrastes graça diante de Deus (Lc. 1, 30). Ela foi cumulada de graça, como também afirmou o anjo: Ave, cheia de graça; porque ela continha em plenitude as águas da graça, não se contentara em preservar a virgindade do modo habitual, a saber, pela continência conjugal, mas se propusera firmemente à preservação da virgindade perpétua para além do uso comum. Desta feita respondeu ela: “Como poderá ser, se não conheço varão?” (Lc. 1, 34), i. é: “Não me proponho a conhecer nenhum”.

Em segundo lugar, vemos neste verdejar beleza deleitável. Diz-se em Sirácida: A graça e a beleza deleitam a tua vista; mas a verdura dos campos leva vantagem a ambas essas coisas (Eclo. 40, 22). A pureza da carne e a virgindade regozijam o olhar de Deus e dos santos. Por quê? A bem falar, quem regozija é a ordem ou beleza da ordem. Fala Agostinho: “Se algum percebe janelas mal postas numa casa, não se regozija”. No homem a ordem natural é a carne submissa à alma; onde a ordem é respeitada existe beleza, mas onde a perturbam deforma-se o homem. Daí vem que os pecados da carne, embora uns e outros difiram em gravidade, desonrem o homem, por vergonhosos e desordenadores: o que no homem é inferior se torna superior, e vice-versa. Na bem-aventurada Virgem nada era desordenado, nem ato, nem desejo, estando isenta das inclinações pecaminosas. Por isso se diz nos Cânticos: Toda és formosa, minha amiga, e em ti não há mácula (Ct. 4, 7). Por causa disso escreve-se a seu respeito: O rei desejará tua beleza (Sl. 45, 12).

Igualmente concluímos que o verdejar é útil. Enquanto a erva permaneça verde, espera-se que produza frutos. Mas à ressecção, já não se espera mais frutos. Vaticina Isaías: Secou-se a erva, não vingaram as sementes, pereceu toda a verdura(Is. 15, 6). Ao contrário, verde a erva, espera-se dela fruto. Assim Jeremias: Será sempre verde sua folha e em tempo de seca não terá mingua (Je. 17, 8). Quando alguém floresce em virgindade, produzirá fruto de caridade. Mas quando ressequido na concupiscência, então suas obras são estéreis para a vida eterna. Aquele semeia na carne, da carne colherá corrupção (Ga. 6, 8). Só tem serventia a erva seca se jogada no fogo. Em paralelo, quem arde no fogo da concupiscência não tem serventia, senão jogado no fogo do inferno. Contudo a bem-aventurada Virgem sublimou-se em virgindade, melhor, ela é a rainha das virgens. Como possuísse em grau excelente a verdura da virgindade, produziu fruto admirável. As demais, porque virgens, produziram fruto espiritual, sobre o qual diz o Apóstolo: O fruto do Espírito é caridade, contentamento, paz (Gl. 6, 8). Como abundava nesta verdura, a bem-aventurada Virgem produziu fruto em seu seio. Disseram acerca dela: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! (Lc. 1, 42). A propósito diz Isaías: Uma virgem concebera e dará luz a um filho (Is. 7, 16). Seu coração arderá de admirável ardor, e por isso faz maravilhas em sua carne. As demais virgens produziram fruto espiritual, mas esta produziu fruto no ventre. Foi ela então erva verdejante. Disse [Deus]: Produza a terra erva verde, e que dê semente! (Gn. 1, 11).

Que tipo de semente? Semente santa, semente virtuosa, semente necessária.

Em primeiro lugar, produziu a bem-aventurada Virgem semente santa. Segundo Isaías (6, 13): Estabelecer-se-á nela uma semente santa. Por que santa? Porque será a semente do que é santo. Em primeiro lugar, será a santidade de Deus, que é o mesmo Santo dos Santos. Diz-se: Sereis santos como eu sou santo (Lv. 11, 45). Essa é a casta santa que brota da semente, por isso semente santa. A semente é a palavra de Deus (Lc. 8, 11), e o Cristo é o Verbo de Deus. A propriedade da semente é produzir algo semelhante a si; assim, a semente do Verbo de Deus produz algo semelhante a si, fabricando deuses. Por isso afirma João: Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12). Louva-se Abraão por sua santidade; o Cristo é semente de Deus segundo o Espírito, e descendente de Abraão segundo a carne, a quem se dirigiram as promessas, assim como à sua descendência (Gl. 3, 6). Na tua descendência serão benditas todas as nações da terra (Gn. 22, 18). A semente, pois, é santa. Pela semente do Verbo de Deus nos tornamos filhos de Deus, tanto quanto pela semente de Abraão somos filhos de Abraão. Bendita a semente que nos traz a benção!

Ela é também semente virtuosa. No Evangelho comparam-na ao grão de mostarda, o menor dentre os grãos, que produz árvore de longos ramos, onde se refugiam os pássaros do céu. O Cristo é uma semente pequenina: na cruz, apequenou-se, mas crescera até preencher o céu e a terra. Subiu aos céus para abarcar todas as coisas.

Igualmente é semente necessária. Assim concluiu Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos conservasse alguma semente, teríamos sido como Sodoma (Is. 1, 9). O bem-aventurado Pedro diz: Não existe, sob os céus, outro nome dado aos homens por que possamos ser salvos (At. 4, 12). A semente é admirável, e admirável sua germinação. A terra é a natureza humana privada da umidade da graça. Assevera Jeremias: Observei a terra; eis que estava vazia, e não havia coisa alguma (Je. 4, 23) Como pudera produzir erva? Dalguma forma, certamente. A terra estava árida da concupiscência do pecado. Eis aquilo do Sirácida: Ao meio-dia queima a terra (Eclo. 43, 3). Com efeito estava a terra mais abaixo, pois acima Deus criara o céu, e embaixo a terra. Como ela germinou? Está escrito em Gênese: Disse Deus: produza a terra erva verde (Gn. 1, 11). Uma palavra, i. é, a geração do Verbo, e se produz o fruto. De igual modo em Provérbios: A Sabedoria construiu sua casa (Pr 9, 1), a saber, na bem-aventurada Virgem, fazendo-lhe produzir erva. [Lemos] nos Salmos: Nela nasceu um homem etc. (Sl 87 [86], 5). Tal homem preencheu a terra, porque estava vazia. Visitaste a terra e a regaste, cumulaste-a de riquezas (Sl. 65 [64], 10). Igualmente, por que estava ressecada, ele a regou com o Espírito Santo. Lemos nos Salmos: Ressumam os pastos do deserto, e as colinas cingem-se de alegria (Sl. 65 [64], 13). Também, porque era pequenina, infiltrou-se na terra para dar-lhe semente celeste. Prega Isaías: Assim será a minha palavra, que sair da minha boca: não tornará para mim vazia, mas fará tudo o que eu quero, e produzirá os efeitos para os quais eu enviei (Is. 55, 11). Se alguém se esvaziou pelo pecado, volva-se a esta erva, e será cumulado de bens. Lemos nos Salmos: Seremos cumulados dos bens da tua casa (Sl. 65 [64], 5). Se há alguém que ressecou, recorra a esta palavra, e será regado. Lemos nos Salmos: Nele confiou meu coração, e fui ajudado (Sl. 28 [27], 7). Se há alguém mergulhado em profundezas, recorra a esta palavra, e será conduzido à luz celeste. Salmo 43 [42], 3: Envia tua luz e tua verdade; elas me guiarão, me levarão à montanha santa, e me introduzirão nas tuas moradas.

Que se digne o Senhor em nos conceder etc.!

 

Segunda Parte

[A cruz, remédio semelhante à árvore frutífera]

 

Produza a terra erva verde, etc. (Gn. 1, 11).

O Altíssimo nos retirou da terra dois remédios: a erva verdejante e a árvore frutífera. Falamos da erva, a bem-aventurada Virgem. Resta falar da árvore frutífera, a árvore da venerável cruz do Senhor, cuja celebração agora se inicia. Ambosremédios se ligam de modo conveniente, pois a erva verdejante nos traz a salvação, mas a árvore frutífera no-la garante e eleva, já que o Filho de Deus se fez obediente etc., e mais a frente: Por isso também Deus o exaltou (Fl. 2, 7). Deste modo lê-se no Evangelho que estavam de pé junto da cruz de Jesus sua mãe [...] (Jo. 19, 25).

Vejamos em que se constitui essa árvore. A propósito da árvore Moisés parece descrever três características: a espécie, a aparência e o fruto. Se tu te interrogares sobre a espécie, ele responde: de madeira; se sobre a aparência, ele responde: frutífera; se sobre o fruto, ele responde: carregado.

Primeiramente, se te interrogares sobre a espécie da árvore, digo que é de madeira. A madeira convém como remédio por três razões: convém em relação a nossa ferida, à nossa reparação, e àquele quem repara.

Em primeiro lugar, digo que a árvore da cruz nos convém como remédio porque convém à ferida. Uma árvore feriu o gênero humano, pois o primeiro homem comeu da árvore proibida. Assim encontrou a sabedoria divina remédio numa árvore. A desobediência feriu o gênero humano, porque o primeiro homem subtraiu o fruto da árvore proibida. O homem novo restituiu à árvore comum o fruto de salvação. Salmo 69 [68], 5: Restitui aquilo que não roubei. Ele se deu a si na árvore para compensar o dano e trazer o remédio. O madeiro, do qual se faz bom uso, é bendito (Sb. 14, 7).

Prestai atenção: comparemos o madeiro [da cruz] à árvore. A propósito da árvore proibida, diz-nos três coisas a Escritura: A mulher viu que a árvore era boa para comer e agradável aos olhos... tirou do fruto dela e comeu (Gn. 3, 6-7). Antes de tudo a árvore é boa para comer: por isso é apta à alimentação. Ao contrário a árvore da cruz nos ensina a mortificação da carne. Daí se afirmar: Aquele que os vossos príncipes suprimirão. Aquela árvore é morta: Se viverdes segundo a carne, morrereis (Rm 8, 13). Ao contrário a árvore da cruz vivifica a carne, matando-a: Porque também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados, ele, justo pelos injustos, para nos oferecer a Deus, sendo efetivamente morto segundo a carne, mas vivificado pelo Espírito (1 Pe. 3, 18); e ainda: Se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Rm. 8, 13).

Em segundo lugar, encontrava-se beleza terrestre na árvore proibida: Ela viu a árvore, que era agradável ao olhar (Gn. 3, 6). [Disse] Isaías: Toda sua glória é como a flor dos campos (Is. 40, 6). A flor carrega a beleza e a glória do mundo, mas é maldita porque por ela os homens são levados à danação. Lamenta Jó: Eu vi o insensato com profundas raízes, e logo amaldiçoei a sua prosperidade (Jó 5, 3). Ao contrário a árvore da cruz é ignominiosa. Assim se descrevera acerca deste momento: É maldito de Deus o que pende do madeiro (Dt. 21, 23). Reparai a afirmação de que a árvore era agradável aos olhares de Adão e Eva, e disso se gloriavam. Primeiro, fala-lhes a serpente sobre a ciência: sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal (Gn. 3, 5). Desta feita se denominava árvore da ciência do bem e do mal. Existem bens que os homens aplicam corretamente, como as virtudes; mas ter experiências de certas coisas não é experimentar virtudes. Há quem abunde em bens do mundo, e os utiliza mal. Esta árvore possuía beleza de olhar, mas a árvore da cruz possuía a vergonha da loucura. Assim aquilo do Apóstolo: Proclamamos um Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios (! Co. 1, 23). Oséias: Transformarei a beleza dessa árvore em ignomínia (Os. 4, 7). Mas a ignomínia da cruz se transmudou em glória. Assim encontramos em Ezequiel: Eu, o Senhor, humilhei a árvore alta e exaltei a árvore humilde (Ez. 17, 24). Vede com o madeiro da cruz está exaltado. Cosroes, rei da Pérsia, tomara de Jerusalém como despojo a árvore [da cruz], que foi devolvida à Cidade Santa por Heráclius; e é em memória desse acontecimento glorioso que até hoje apregoam a festa da exaltação da Santa Cruz. À cruz sempre se exaltou, porque o Senhor confirma o justo (Sl. 37 [36], 17). Num panegírico sobre a Santa Cruz escreve Agostinho: “Cessou a cruz como pena, mas permanece [como glória]: de suplício de condenados, gravou-se na fronte dos imperadores.” (Enarrationes in Psalmos, 36, Sermo 2, 4). Assegura São João Crisóstomo: “Em todo canto resplende a cruz sobre a coroa dos reis, as armas dos soldados, os altares consagrados; coroadas as cabeças, os reis tomam a cruz.” Exaltaram pois a árvore da cruz, a qual o Senhor há de exaltar muito mais. Vê-se em Mateus: Escurecer-se-á o sol, e a lua não dará sua luz, e então parecerá o sinal do Filho do Homem no céu (Mt. 24, 29-30), i. é, a árvore da cruz. Crisóstomo sustenta que “após o obscurecimento do sol e da lua, o Filho do Homem só haveria de aparecer em presença duma cruz mais resplendente que os raios do sol”.

De igual forma a árvore é agradável. Assim no Gênese: Era ela agradável aos olhos (Gn. 3, 6). A deleitação da cruz não é verdadeira deleitação, pois que é mais amarga que agradável. Por isso diz Salomão: Por isso declarei o riso como um devaneio; e disse ao gozo: por que te enganas assim vãmente? (Ecle. 2, 2). Ao contrário a árvore da cruz tem a beleza da amargura, que no livro de Reis se fala assim: Armar-se-á de ferro e de pau de lança (2 Re. 23, 7). Escreve o apóstolo Pedro: Tendo o Cristo padecido na carne, armai-vos deste mesmo pensamento (1 Pe. 4, 1). Transforma-se em doçura este transporte de amargura, sendo significado em Êxodo quando se diz que os filhos de Israel encontraram águas amargas: ordenou o Senhor a Moisés estendesse o cajado sobre elas, para se adoçarem. Os justos padecem tribulações, mas o madeiro da cruz os torna doces. Sob o signo da cruz, o fiel exalta-se na tribulação: Que eu jamais me glorie senão na cruz de Nosso Senhor (Gl. 6, 14); diz Tiago: Meus irmãos, tende por um motivo de maior alegria para vós as várias tribulações que caem sobre vós (Ti 1, 2) Por quê? Devido ao gosto pela cruz. Afirma o Apóstolo: Considerai, pois, aquele que sofreu tal contradição dos pecadores contra si, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos (Hb. 12, 3), porque foi tomado como salteador. Quem deve considerar um mal ser alvo de contradição? Convém à ferida o madeiro da cruz.

Igualmente ele convém à reparação. Vede nas Escrituras: onde estava o perigo? Sabe-se que um remédio foi dado. Por uma árvore, adveio o primeiro mal ao homem, na expulsão do Paraíso. Qual fora o remédio? A árvore da vida. Mas como não pudesse o homem alcançar a árvore da vida, não haveria de ter o remédio. Disse então o Senhor: “Tende cuidado de não tomarem do fruto da árvore da vida!”. O Cristo nos trouxe o fruto dessa árvore. É árvore da vida para quem dela comer (Pr.3, 18). Outro perigo foi o dilúvio. O remédio veio da madeira da arca. Se estás no dilúvio, nas águas do século, acorre em direção à árvore da cruz. Lê-se num salmo: Se ando em meio à sombra da morte etc.tua vara, teu cajado, i. é, a cruz, etc. (Sl 23 [22], 4). Sou conduzido à boa direção pela madeira da cruz; igualmente, a madeira foi o remédio para o povo de Israel, ao ser perseguido pelo opressores egípcios, uma vez que Moisés os feriu com seu cajado e com ele dividiu o mar. Se sofres assaltos dos inimigos espirituais, acorre em direção ao madeiro da cruz. Está escrito no livro de Reis que os filhos de Israel combatiam contra os filisteus, e levaram a Arca do Senhor até o campo de batalha; os filisteus temeram, e diziam: Deus chegou ao acampamento!” (1 Re. 4, 7), devido à arca transportada ao campo. A arca era feita de madeira imputrescível. Vê-se num salmo: Os habitantes dos confins [da terra] temem pelos seus prodígios (Sl. 65 [64], 9). Os vencidos temem o estandarte adversário; assim os demônios vencidos pelo Cristo temem o estandarte, o madeiro da cruz. Daí canta a Igreja: “Eis o madeiro da cruz; fugi, inimigos!” Convém a cruz à ferida e à reparação.

Em terceiro lugar, ela convém ao reparador; nela o Cristo é exaltado. Por isso se escreve: É preciso que o filho do Homem seja elevado (Jo 12, 34). Como foi ele exaltado? Decerto como combatente. A ele convém o que se prediz em Números: Eu o verei, mas não agora; eu o contemplarei, mas não de perto; nascerá uma estrela de Jacó; e levantar-se-á uma vara de Israel (Nm. 24, 17). Escreve o Apóstolo: Despojando os principados e as potestades (infernais), levou-os (cativos) gloriosamente, triunfando em público deles em si mesmo (pela cruz) (Col. 2, 15). O madeiro da cruz é um como carro de triunfo exaltado em Cristo. Compara-se ele ao baldaquino de Salomão (Ct. 3, 9), ou ao cetro que dirige o povo: O cetro do teu reino é um cetro de eqüidade (Sl. 45 [44], 7). O Cristo foi exaltado como combatente. De mesmo modo foi exaltado como a um mestre [que ensinasse] desde a cátedra. Acerca dessa exaltação escreveram: E eu, quando for levantado da terra, atrairei tudo para mim (Jo 12, 32). Hoje contemplamos a esperança que nos trouxe o remédio.

Vejamos a aparência da árvore. A árvore aparece carregada de frutos; diz-se de tal árvore que é frutífera. E quais seus frutos? Fala-se neles nos Cânticos: temos à nossa porta frutos excelentes, novos e velhos que guardei para ti, meu bem-amado (Ct. 7, 14). Os frutos velhos são figuras que remontam à árvore. A propósito dos frutos, aquilo de Oséias: vi os vossos pais como os primeiros frutos da figueira (Os. 9, 10). Quais são os frutos novos?  Durante a benção de Josué, no Deuteronômio, faz-se menção de três frutos, a saber, frutos do céu, frutos do sol e da lua, e frutos das colinas eternas. Quais são os frutos do céu? Os membros do Cristo. Os membros do Cristo ornaram a cruz como os frutos a uma árvore, e não apenas os membros corporais do Cristo, mas também os de seu corpo místico, dos quais se proclamam: Estou pregado à cruz do Cristo (Gl. 2, 19). Dos frutos se diz nos Cânticos: Entre meu amado no seu jardim, prove-lhe os frutos deliciosos. (Ct. 5, 1). Os frutos do sol e da lua são os exemplos das virtudes que manifestou o Cristo na cruz. Tu tens na cruz a demonstração da caridade do Cristo, pois que ele nos amou e entregou-se por nós: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. (Jo 15, 13). De igual modo deu-nos exemplo de humildade, porque humilhou-se a si mesmo (Fi. 2, 8). Deu exemplo de obediência, porque ele se fez obediente (ibid.) ao Pai. Ensinou a paciência, Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje (1 Pe. 2, 23). São estes os frutos daquele vale, sobre o qual se canta: Eu desci ao jardim das nogueiras para ver os novos frutos dos vales (Ct. 6, 11). Quais são os frutos das colinas eternas? Afirmo serem os ensinamentos, impregnados de sabedoria, dos doutores. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas (Sl. 76 [75], 5). Encontrarás doutores que ensinam a fé; o Cristo ensina a fé na cruz, ao dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? (Mt. 27, 46). Ele demonstra que sua humanidade padeceu a paixão, mas não em razão da impotência de [sua] divindade. Ainda encontrarás doutores que ensinam a paciência; o Cristo ensina a paciência na cruz, ao dizer: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem (Lc. 23, 34). Encontrarás alguns que ensinam o comportamento humano; o Cristo fê-lo na cruz, ao demonstrar a sua mãe o que devia a ela e ao discípulo, ao falar: “Mulher, eis aí teu filho!”. Depois, disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe!” (Jo 19, 27). Tais são os frutos das colinas eternas, de que falam os Cânticos: Teus rebentos são como um bosque de romãs com frutos deliciosos (Ct. 4, 13). Ele é então uma árvore frutífera.

Existem árvores que estão continuamente carregadas de flores e de frutos – é o caso a árvore da cruz, carregadas de flores. Vede que a árvore da cruz carrega um fruto triplo, a saber, fruto de purgação, de santificação e de glorificação.

Em primeiro lugar, digo que a árvore da cruz produziu fruto de purgação, pois pela cruz somos todos libertados do pecado. Assim aquilo do bem-aventurado Pedro: Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro (1 Pe. 2, 24). Acerca do fruto escreve Isaias: Este é o fruto do perdão do seu pecado (Is. 27, 9). Em segundo lugar, produz o madeiro da cruz fruto de santificação, de que se afirma: Frutificais na santidade (Rm. 6, 19). Em que consiste a santificação? No apego do homem à cruz. O pecado distanciou de Deus o homem, que se reconciliou pela cruz. Deste modo em Romanos 5, 10: Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, e: Reconcilia-te com Deus e faze as pazes com ele: deste modo terás melhores frutos (Jó 22, 21), a saber, os frutos do Espírito: a caridade, a paz, o contentamento. A fim de nos purificar[o Cristo] padeceu fora das portas (Hb. 13, 12); em toda santificação, os ministros da Igreja utilizam o sinal da cruz. Em terceiro lugar, o fruto da cruz é a glorificação, de que nos diz João: O que ceifa recebe o salário e ajunta fruto para a vida eterna (Jo 4, 36); no livro da Sabedoria: É esplêndido o fruto de bons trabalhos, e a raiz da sabedoria é sempre fértil (Sb. 3, 15). Como já se falou, o fruto se adquire pela cruz. Pelo pecado o homem foi excluído do Paraíso; por isso, padeceu o Cristo a paixão para que, através da cruz, fosse aberto o caminho entre a terra e o Céu. Assim a cruz do Cristo é aquela escada de Jacó: E viu em seus sonhos uma escada posta sobre a terra, cujo cimo tocava o céu, e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada (Gn. 28, 12). Os santos ascendem aos céus pela virtude da cruz. Assim aquilo do Apóstolo: Temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do sangue de Jesus etc.. (Hb. 10, 19).

Imploremos ao Senhor etc..

 

Tradução: Permanência

(a partir da tradução francesa de Dominique-Raphael Kling, 2005)

Sermão Lux Orta est

Lux orta est:

Nasce a luz.

 

Prólogo

[Os bens verdadeiros: graça e glória eternas]

 

Nasce a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl. 97 [96], 11). Toda dádiva excelente, todo dom perfeito vem do alto e descende do Pai das luzes. Estas últimas palavras são extratos do cap. 1 de São Tiago (1 ,17). Os bens temporais são boas dádivas; os bens naturais, sejam alma e corpo, são dádivas melhores; os bens da graça e glória eternas são dádivas excelentes.

Toda a dádiva excelente, qual seja, a graça, provém do Pai das luzes. Da graça se diz dádiva excelente por sua ação meritória; donde aquilo de João 15, 5: Sem mim, nada podeis fazer. Igualmente da graça se diz dádiva perfeita por alcançar as benesses da glória. E tais dádivas, quem no-las distribui é o Pai das luzes. Salmo 84 [83], 12: O Senhor dá a graça, no presente, e a glória, no futuro. Porque a graça de Deus é de tamanha eficácia para a boa ação no presente, em vistas à glória eterna no futuro, imploremos antes ao Senhor de nos conceder a graça etc..

 

Primeira Parte

[Por que chamam de “luz” a Virgem?]

 

Nasce a luz para o justo. Breve é a expressão, e de sentidos mui diversos; encontramo-la no Salmo 97 [96], 11. Lemos que o nascimento da Virgem se havia anunciado no Antigo Testamento, em numerosas figuras; dentre as várias figuras, representam-na três de modo singular, a saber, a aurora, a aparição da estrela e o broto da raiz. A aurora significa o nascimento [da Virgem], sob o aspecto da santificação. Na aparição da estrela ela está prefigurada sob o aspecto da integridade da virgindade. No broto da raiz, sob o aspecto de sua elevação e grande contemplação.

A propósito da aurora, em que se prefigura o nascimento da Virgem sob o aspecto da santificação, lê-se em Gênese 32, 27, no que o anjo fala a Jacó: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. O combate de Jacó significa a assembléia dos patriarcas que outrora lutavam contra o anjo usando dois braços, i. é, lágrimas e orações. Assim em Oséias 12, 4: Prevaleceu sobre o anjo, e ficou vencedor; chorou e suplicou-lhe. Após reconhecer o nascimento da bem-aventurada e gloriosa Virgem na aurora, declarou o anjo: Larga-me, como se dissesse: “Não me supliques mais, antes recorra à bem-aventurada Virgem.” A aurora é o termo da noite precedente e início do dia vindouro. De igual modo, no nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, termina a noite da culpa, e começa o dia da graça. Declara Sedúlio: “Ela pôs cobro aos vícios e deu medida aos costumes.”

Em segundo lugar, o nascimento da Virgem gloriosa está prefigurado na aparição da estrela, representando a integridade da virgindade. Assim pontifica Balaão em Números 24, 17: Nascerá uma estrela de Jacó; e levantar-se-á uma vara de Israel. Ora, compara-se seu nascimento à integridade da virgindade duma estrela; assim como o astro emite seus raios sem corrupção, nem diminuição ou perda de luz, assim a bem-aventurada Virgem engendrou seu Filho sem desprendimento violento na carne, e sem a perda da virgindade. Afirma São Bernardo: “É de justiça que se compare a bem-aventurada Virgem a um astro, pois assim como o astro emite seu resplendor sem se corromper a si mesmo, e sem diminuir a claridade, assim o Filho [da Virgem] não suprime em nada a virgindade de sua mãe.”

Em terceiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem se prefigurou no broto da raiz, representando a contemplação. Isaías 11, 1: Sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz. O broto retesa-se em direção ao céu, significando a contemplação da bem-aventurada Virgem, que tinha o coração elevado ao alto, acima as coisas terrestres. Daí São Bernardo: Ó Virgem sublime! Em que sois sublime? Vós elevais tua alma àquele que se assenta no trono, ao Senhor da glória.”

Deste modo, nesta tríplice figura, anunciaram-nos o nascimento da bem-aventurada Virgem Maria. Houve uma como aurora em seu nascimento; e uma como estrela que nasceu na formação do Filho de Deus; e um como broto que germinava em seu comportamento honesto. Num só versículo resume David a tríplice figura: Nasce a luz para o justo etc.. A luz encerra a noite, e faz romper o dia, emite seu resplendor sem incorrer em corrupção e, abandonando as coisas inferiores, tende em direção ao alto. No Evangelho chamam a assembléia dos apóstolos de “luz”. Assim Mateus 5, 14: Vós sois a luz do mundo. São os anjos  também chamados “luz”, Gênese 1, 3: E Deus disse: “Que a luz seja”. E a luz foi. A Glosa afirma que tal se declara dos espíritos bem-aventurados ou anjos. Como a Virgem ultrapassasse a assembléia dos apóstolos e dos anjos, em razão de sua excelência, ela é denominada convenientemente “luz”.

Por outra razão, pode ela também ser denominada “luz”. Vemos Deus dizer em João 8, 12: Eu sou a luz do mundo, e a bem-aventurada Virgem germinar essa luz. Ora, é impossível se engendrar a luz, em geração unívoca, por algo que não seja luz. Eis porque convém à Virgem o apelido de “luz”.

Vestem-lhe bem estas palavras: Nasceu a luz para o justo etc.. É necessário sublinhar dois fatos em particular: em primeiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem, quando se lê: Nasceu a luz; em segundo lugar, o fruto do nascimento, neste passo: Nasce a luz para os justos, e a alegria para os retos de coração! Nasceu a luz para o justo, i. é, para seu pai, Joaquim, porque era sua filha, e para o justo, i. é, o Cristo; nasceu a luz, i. é, a bem-aventurada Virgem havia de se tornar um tipo singularíssimo de mãe. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, ela será advogada do arrependido. Assim se canta: “Ó Virgem, advogada nossa!”. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, para os praticantes da justiça, os [homens] ativos; e a alegria para os retos de coração, i. é, para os [homens] contemplativos. Denomina-se “ativos” os praticantes da justiça, e “contemplativos” os espirituais, que necessitam de luz que os oriente ao bom comportamento e à contemplação de Deus.

Revela-se assim porque a bem-aventurada Virgem é denominada “luz” e por quais figuras fora anunciada.

Tratará o sermão deste trecho: Nasceu a luz para o justo; a conferência [da noite] tratará do resto.

Até agora se tratou das razões por que a bem-aventurada Virgem foi chamada “luz”; acrescente-se pois algumas mais. Observamos que a luz corporal é fonte de alegrias, que guia os viajantes e os que se mantém na via; dissipa as trevas; difunde as semelhanças; é a mãe das cores e a mas bela das criaturas; dá agrado e consolação aos olhos. Encontram-se tais qualidades na bem-aventurada Virgem, e por isso se diz que é bom contemplá-la.

Em primeiro lugar, afirmo que a luz é fonte de alegrias, pois aquele que se acha no mar é mui desejoso da luz, e nela se compraz. Assim ela convém à Virgem, figurada em Ester 8, 16: E aos Judeus parecia-lhes ter-lhes nascido uma nova luz, a alegria, a honra e o júbilo. Assim se declarou aos judeus, i. é, aos que têm fé, e aos cristãos que confessam o Cristo, Deus e homem, que existe uma nova luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, chamada de nova luz, pois que parece que não houve alguma antes dela, nem haverá outra depois dela. Denominam-na de “luz” porque lhe são estranhas as trevas do pecado e da ignorância. Parecia ela alçar os olhos da alma, como agora fazia com os do corpo: felicidade para o íntimo, honra para o próximo, triunfo para Deus! Acerca da alegria de seu nascimento, diz-se nos Provérbios de Salomão 13, 9: A luz dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem alegra; porém a candeia dos ímpios apagar-se-á.

Em segundo lugar, essa luz é vereda e guia dos viajantes. De igual modo a bem-aventurada Virgem é aquela que indica a direção nesta estrada da vida. Está em João 12, 35: Andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas, i. é, as obras das trevas, ou os anjos das trevas, i. é, os demônios, ou ainda as trevas, i. é, o suplício dos infernos. Assim fala Provérbios 4, 18: A vereda dos justos, como luz que resplandece, vai adiante, e cresce até ao dia pleno. A vereda dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem, que é vereda estreita e direita, e é pura da pureza da virgindade – aperta-se pelo rigor de sua fidelidade religiosa, e alonga-se pela direitura de seu caminho. A vereda dos justos é a bem-aventurada Virgem, como luz que luz para si mesma e para outrem, como progresso do bem em direção ao melhor, crescendo até ao dia pleno, até ao gozo da eternidade.

Em terceiro lugar, a luz dispersa as trevas. De igual modo o poder da gloriosa Vigem extirpa os vícios. Isaías 9, 2: Este povo, que andava nas trevas, viu uma grande luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, que fora grande luzeiro pois que, como o Filho ilumina o mundo inteiro, a Virgem [ilumina] todo o gênero humano. Desta luz declara o Gênese 1, 3: “Que a luz seja!”. E Deus separou a luz das trevas, e a luz foi. “Que a luz seja!”, quando da criação da alma da bem-aventurada Virgem e a luz foi, quando de [sua] santificação. Gênese 1, 4: E Deus separou a luz das trevas, por que, no seguimento, [a Virgem] não pecou. Desta luz se diz em Gênese 32, 27: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. À aurora fogem as trevas e aparece a luz. Do mesmo modo a bem-aventurada Virgem espanta as trevas do pecado e desvenda-nos a luz da graça. Chamam-na de “aurora”, que quer dizer “hora do orvalho” [hora rorans], pois que, ao seu nascimento, tornaram-se os céus doces como mel. É denominada “aurora”, que quer dizer “brisa suave”, pois naquele momento silvavam os passarinhos, demonstrando um como gozo de alegria e felicidade. Igualmente viram os Padres no nascimento da Virgem a alegria do céu. Chamam-na também de “aurora”, i. é, “sopro d’ouro” [aurea aura], em razão de sua preciosidade. Assim aquilo de São Bernardo: “Retirai o sol que ilumina o mundo inteiro: onde o dia? Retirai Maria, a estrela do mar grande e extenso, i. é., do mundo: que sobrará senão obscuridade e trevas espessíssimas? Que se conclui daí? Se ela está presente, dissipam-se as trevas; se ela está presente, aurora o dia.”

Em quarto lugar, a luz difunde e comunica seu resplendor. A bem-aventurada Virgem difunde e partilha para todos os raios de sua graça. Assim, em Sirácida 24, 19-20: Vinde até mim, vós que me desejais, e abastecei-vos de meus víveres, pois meu hálito é mais doce que o mel etc.. Vinde, i. é, “Passai das vaidades do mundo para mim, que sou cheia de graças”; ou então: “Vinde até mim, abandonai as delícias, que amo a castidade.” De meus víveres,. i. é, das dádivas da graça, abastecei-vos. Não recebereis pouco, senão muito, pois meu hálito é mais doce que o mel, porque a bem-aventurada Virgem é vigilante e misericordiosa com todos. Assim prega Bernardo: “A todos abre a bem-aventurada Virgem os braços da misericórdia, e todos recebem algo de sua plenitude: o doente a cura, o aflito a consolação, o pecador o perdão, o justo a graça; mais ainda, o Filho de Deus recebeu dela a substância da carne, de sorte que não há quem fuja a seu calor.”

Em quinto lugar, a luz é a mãe generosa das cores. Deste modo é a bem-aventurada Virgem a mãe das virtudes. Como as cores embelezam o corpo, assim as virtudes embelezam a alma, porque a bem-aventurada Virgem é a mãe das virtudes. Consta em Sirácida 24, 24: Eu sou a mãe do amor formoso [dilectio], i. é, do amor que leva a Deus. “Dileção” quer dizer “ação de ligar duas coisas”. A Virgem liga-nos a Deus: [Eu sou a mãe do amor formoso] e do temor, por que fugimos ao pecado. Diz [Salomão], em Provérbios 14, 16: O sábio teme e desvia-se do mal. Demais, o Sirácida, em 1, 27: O temor do Senhor baniu o pecado. [Eu sou a mãe...] do conhecimento, i. é, da fé santa, e da santa esperança, i. é, da esperança da beatitude futura. Deste modo escreve Bernardo: “Se em nós há traço de virtude, se existe algo de salvação e graça, sabemos que tudo isso transborda daquela que abunda em delícias. Aqui [em Maria] encontra-se o jardim sobre o qual se dispersa a divina viração que vem do sul, e seus perfumes transbordam em dádivas da graça.”

Em sexto lugar, a luz é das criaturas a mais esplêndida. Assim a bem-aventurada Virgem. No livro [da Sabedoria] 7, 29 se lê: Ela é mais formosa do que o sol, i. é, que o justo que fulge na Igreja Militante; [ela é mais formosa] do que todas as constelações de estrelas, i. é, que os santos da Igreja Triunfante. Comparada com a luz, i. é, com a criatura angélica, ela vence em dignidade e formosura.

Em sétimo e último lugar, a luz é o agrado e a consolação dos olhos. De igual modo a bem-aventurada Virgem é a consolação dos homens. Assim se encontra no [livro da] Sabedoria 7, 10: Eu amei [a Sabedoria] mais do que a saúde, que põe em fuga a doença, e que a formosura de corpo, por que se retira a feiúra, e resolvi-me tê-la por luz de uma boa vida. Os demônios e os perversos detestam a luz, que praz aos bons. Prega Santo Agostinho que “no palato enfermo, o pão é amargo, enquanto é doce no palato saudável; aos olhos doentes, a luz é insuportável, enquanto é amável aos olhos puros”. A luz é amável à inteligência curada pela fé, e desejosa da alma curada pela caridade. Não é de admirar que a bem-aventurada Virgem seja amável, pois se diz dela no livro de Ester 5, 1: Ela era bem feita e de inacreditável formosura, parecendo aos olhos de todos amável e graciosa. De também aquilo dos Provérbios 11, 16: A mulher gentil obterá glória, i. é, a glória eterna, à qual nos conduz Aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive etc..

 

Segunda Parte

[Maria é a jóia das almas retas]

 

Nasceu a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl 97 [96], 11). Dissemos hoje como a bem-aventurada Virgem, em seu nascimento, é luz esplendorosa. Resta falar de como ela é uma jóia para os homens retos, pois se escreve no Salmo: ...alegria para os retos de coração.

Na Santa Escritura, não se promete a jóia aos que fazem prova de retidão, senão aos retos de coração, i. é, aos perfeitamente retos. Poremos de manifesto o significado de Jó 1, 1, de quem se diz: Este homem era sincero e reto, e temia a Deus, e fugia do mal, i. é, do pecado. Em Provérbios 14, 16 doutrina Salomão: O sábio teme e desvia-se do mal. Ao homem com tal retidão se promete a alegria.

Convém notar que existem dois homens: o homem interior e o homem exterior. De acordo com isso, é preciso que o homem perfeitamente reto possua a retidão do homem interior e [a do homem exterior]. O homem interior tem-na dentro d’alma. Ora, possui a alma duas partes, a saber, o intelecto e a vontade. É pois necessário que exista retidão no homem interior; em primeiro lugar, para aquilo que é ato da inteligência [intellectus], porque a retidão consiste no conhecimento da verdade; em segundo lugar, é necessário que exista também junto ao ato da vontade a retidão [affectus], que é a deleitação no verdadeiro bem, pois o conhecimento da caridade retifica a inteligência, e o amor do verdadeiro bem a vontade.

Em primeiro lugar, afirmo que o conhecimento da maior dentre as verdades retifica a inteligência. Assim aquilo do Salmo 72 [71], 1: Quão bom é Deus – i. é, boníssimo – para com os retos, o Senhor para com os puros de coração! Ele é bom, i. é, espalha suas benesses sobre os retos de coração, sobre os possuidores do altíssimo conhecimento da verdade pela fé. A fé é luz particular em vistas ao conhecimento do Senhor e do que lhe respeita. Salmo 125 [124], 4: Senhor, faze bem aos bons – no que respeita à potência afetiva – e aos retos de coração – no que é próprio à inteligência. Está claro agora que, para que o homem seja perfeitamente reto, exige-se a retidão da luz interior, de sua alma, para o que é próprio ao intelecto.

Em segundo lugar, exige-se a retidão do homem interior para o que é próprio ao afeto. Acerca deste gênero de retidão, diz Bernardo que “a retidão da criatura racional é o conformar-se com a vontade divina”. Ora, consiste essa conformidade na caridade, que transforma o amador no ser amado, não segundo a substância, mas na conformidade da vontade.

Igualmente é preciso que tudo seja reto no homem exterior; por isso, se requerem três condições: em primeiro lugar, que seja reto em sua vista e seu olhar; em segundo lugar, que seja reto em sua língua; em terceiro lugar, que seja reto em seu caminhar.

Em primeiro lugar, afirmo que é necessário que o homem exterior seja reto em sua vista e seu olhar. Salomão em Provérbios 4, 25 diz: Os teus olhos olhem direito, e a tua vista preceda os teus passos. Escreve: Os teus olhos olhem direito, não apenas interior, senão que exteriormente, o que é permitido ver; vaticina Gregório: “Não é permitido contemplar o que é interdito desejar.” Também diz: olhem direitos, a saber, os exemplos dos santos e as boas obras dos próximos. E a tua vista etc..: o homem deve abater o olhar em direção aos seres inferiores e humildes. Mas a verdade é que os olhos se alçam, por causa do orgulho e da arrogância do coração; está consignado em Provérbios 6, 16-17: Seis são as coisas que o Senhor abomina, e a sua alma detesta uma sétima: olhos altivos, língua mentirosa. Quando o pavão, que se glorifica da cauda, observa seus pés, imediatamente recolhe a cauda. Do mesmo modo se alguns homens de bem são arrastados pelo orgulho, o que não praz a Deus, contemplem os pés para seu escarmento. Diz-se: teus olhos, no plural, e não no singular; e completa: olhem direito, e não à esquerda.

Em segundo lugar, o homem exterior deve ser reto em sua língua, para o que é próprio ao afeto. De fato, escreve o Apóstolo: Esforça-te por te apresentares a Deus [como um homem] digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, que distribui retamente a palavra da verdade (2 Tm. 2, 15). Dirige-se aqui sobretudo a um prelado e, em seguida, num timbre diferente, a todos. Diz: Esforça-te, pela dor de contrição; por te apresentares a Deus digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, i. é, que não seja suscetível à vergonha, mas ao louvor e a recompensa. Este é aquele que diz palavras úteis. São os perversos os suscetíveis à vergonha. Dispensando com diligência a linguagem da verdade. Há pessoas que não dispersam diligentemente a linguagem da verdade, a saber, aqueles que predicam em nome da glória, ou da excelência dos bons, ou ainda da vaidade própria. Ao contrário dispensam corretamente a linguagem da verdade os que o fazem em vistas à glória de Deus e à edificação do próximo.

Ouvi falar dum mestre que ensinara teologia por vinte e cinco anos, vinte dos quais exercera, como confessou quando de sua morte, mais em nome da vanglória que por reconhecimento de Deus e edificação do próximo. Mal uso faremos duma bela espada, feita para cortar, caso a tomemos para atiçar o fogo, pois não será utilizada em consideração à finalidade para que foi concebida. De mesmo modo, a palavra da verdade foi concebida para a glória de Deus e edificação do próximo. Serve-se mal quem dela se serve de outra maneira ou para outra finalidade. Daí aquilo do Sirácida 28, 25: Faze uma balança para pesares tuas palavras, i. é, pesa tuas palavras para saber se são ou não para a glória de Deus, se são ou não mofinas a teu próximo; e um freio bem ajustado para tua boca. Um freio está bem ajustado quando ambos os lados estão igualmente firmes; caso um lado esteja frouxo, enquanto o outro firme, então não está bem ajustado. Por vezes, ocorre a uma pessoa em prosperidade conservar corretamente o freio de sua boca, mas durante a tribulação, blasfemar e murmurar. Deles se fala na epístola de Tiago 1, 26: Se alguém, pois, julga que é religioso, não refrando a sua língua, para guardá-la das palavras más e blásfemas, sua religião é vã.

Em terceiro lugar, o homem exterior deve ser reto em sua inteligência. Ensina o Apóstolo, em Hebreus 12, 13: Dirigi os vossos passos pelo caminho direito, para que o que manqueja não se desvie, devido à infidelidade da inteligência, antes, porém, seja sanado, a saber, pela graça de Deus. A afetividade pode fazer alguém manquejar das duas pernas. Assim em 1 Reis 18, 21: Até quando claudicareis vós para os dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o. Manquejam dum pé só os que possuem a fé na inteligência, mas tem aversão ao bem em sua afetividade.  Manquejam de dois pés os que cometem infidelidade na inteligência e detestam o bem em sua afetividade, ou os que exultam no tempo de prosperidade, mas murmuram no tempo da tribulação. Por isso afirma o Apóstolo: (Hebreus 12, 13): Dirigi os vossos passos pelo caminho direito etc.., i. é, onde há a paciente humilde, a verdadeira fé, o amor verdadeiro. Se deparamos com um homem reto tanto interior quanto exteriormente, temos nele promessa de alegria.

Mas tu perguntarás por que quem descreveu os retos de coração não fê-lo, do mesmo modo, com os retos de corpo, andar ou olhar? Quando existe a retidão do homem interior, existe a do homem exterior. Mateus 6, 22 diz: Se teu olho for são, i. é, sem marca de duplicidade, todo o teu corpo será luz, o conjunto inteiro de tuas obras será bom e reto. De fato, porque depende o homem exterior do homem interior, limitou-se ele a descrever o homem reto de coração.

Está claro quais são os retos de coração. Sabeis o que fazem os que possuem um coração reto? Ao Senhor reembolsam três coisas: primeiro, reformam a vida; segundo, amam ao Senhor; terceiro, bendizem ao Senhor e lhe rendem graças pelas benesses que Deus lhes concedera.

Em primeiro lugar, afirmo que eles reformam a vida. Assim em Provérbios, o ímpio, o que não tem piedade diante do Senhor nem compaixão diante do próximo, afrouxa a brida, i. é, não modera seu olhar, i. é, seu coração; o reto corrige suas veredas com previdência.  Este é o reto de coração, reto em justiça perante o próximo, reto em contemplação perante Deus. Por sua vez, o ímpio não modera seu olhar, de tal sorte que não acolhe os mandamentos de Deus e, se os acolhe, não os pratica.

Em segundo lugar, os retos de coração apegam-se a Deus por amor. Assim no Cântico 1, 3: os retos amam-te. Salmo 17, 5: Os inocentes e os justos se acercam de mim, a saber, pelo fervor e pelo habitus da caridade.

Em terceiro lugar, os retos de coração rendem a Deus graças pelas benesses recebidas, como no último capítulo de Esdras (Neemias 8, 5): Quando Esdras terminou o livro da lei, todos os justos puseram-se de pé. Quando Esdras terminou, i. é, quando Esdras lera e explicara o inteiro teor [da lei] (fala-se de “lei” porque esta nos obriga). Bendisse ao Senhor, o Altíssimo, o Senhor Todo-Poderoso dos Exércitos, e o povo respondeu: “Ámen!”. Em seguida: Reuniram-se todos em Jerusalém para celebrar seu contentamento etc..

 

Tradução: Permanência

(a partir da tradução francesa)

Art. 2 – Se os recém-nascidos seriam, no estado de inocência, confirmados na justiça.

O segundo discute-se assim. – Parece que os recém-nascidos seriam, no estado de inocência, confirmados na justiça.

1. Pois, diz Gregório, comentando aquilo da Escritura – Descansaria no meu sono, etc: Se nenhuma podridão do pecado tivesse corrompido o primeiro casal, de nenhum modo dele nasceriam filhos da Geena; mas nasceriam só os eleitos que, agora, se salvam por meio do Redentor. Logo, todos nasceriam confirmados na justiça.

2. Demais. -  Anselmo diz: Se os primeiros pais vivessem  de modo tal que, tentados, não pecassem, seriam confirmados, com toda a sua geração, de modo tal que não mais pudessem pecar. Logo, os recém-nascidos seriam confirmados na justiça.

3. Demais. – O bem é mais poderoso que o mal. Ora, do pecado do primeiro homem resultou a necessidade de pecar nos que dele nascessem. Logo, se o primeiro homem persistisse na justiça, daí resultaria, para os pósteros, a necessidade de observar a justiça.

4. Demais. – O anjo que aderiu a Deus, não tendo seguido os que pecaram, foi imediatamente confirmado na justiça e não mais podia pecar. Logo e semelhantemente, também o homem, se tivesse resistido à tentação teria sido confirmado. Mas geraria os outros conforme o estado que tivesse. Por onde, os seus filhos nasceriam confirmados na justiça.

Mas em contrário, diz Agostinho: Tão feliz seria toda a sociedade humana, se nem eles, i. é., os primeiros pais, tivessem cometido o mal, que transmitiram aos pósteros, nem nenhuma da estirpe deles, a iniqüidade, que mereceu a danação. Por onde se da a entender que, embora os primeiros homens não tivessem pecado, alguns da estirpe dos mesmos poderiam cometer a iniqüidade.

SOLUÇÃO. – Não era possível os recém-nascidos, no estado de inocência, serem confirmados na justiça. Pois é manifesto que não teriam, ao nascer, maior perfeição que os pais, no estado da geração. Ora, estes, enquanto gerassem não seriam confirmados na justiça, porque assim confirmada só é a criatura racional tornada feliz pela visão clara de Deus. E a Deus assim visto não podia essa criatura deixar de aderir, porque Ele é a essência mesma da bondade, da qual ninguém pode ser separado, desde que nada é desejado nem amado senão sob o aspecto do bem. Mas digo isto, relativamente à lei comum; porque, por um privilégio especial podia acontecer de outro modo, como se crê a respeito da Virgem Mãe de Deus. Por onde, logo que Adão alcançasse a dita beatitude e visse a Deus por essência, tornar-se-ia espiritual de mente e de corpo, e cessaria a vida animal, só na qual recorreria à geração. Por onde, como é manifesto, os recém-nascidos não seriam como tais, confirmados na justiça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Se Adão não tivesse pecado não geraria filhos da Geena, no sentido em que estes contraíssem, dele, o pecado, causa da Geena. Mas podiam os filhos tornar-se filhos dela, pelo livre arbítrio, pecando. Ou, se pelo pecado não se tornassem filhos da Geena, não o seria por terem sido confirmados na justiça; mas pela divina providência, causa de se conservarem imunes do pecado.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Anselmo não avança tal, e afirmando, mas opinando; o que é claro pelo próprio modo de exprimir-se, quando diz: Parece que, se vivessem, etc.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A razão aduzida não é eficaz, embora pareça que Anselmo fosse convencido por ela, como resulta das suas palavras. Pois, os pósteros não incorreriam, pelo pecado do primeiro pai, numa necessidade de pecar tal que não pudessem voltar à justiça, o que só se dá com os danados. Por onde, também não transmitiria ele aos pósteros uma necessidade de não pecar tal que absolutamente não pudessem fazê-lo, o que só se dá com os bem-aventurados.

RESPOSTA À QUARTA. – Não há símile entre o anjo e o homem. Pois este tem o livre arbítrio mutável, tanto antes como depois da eleição; não porém aquele, como já se disse antes, quando se tratou dos anjos.

Art. 1 – Se os homens nasceriam com a justiça.

O primeiro discute-se assim. – Parece que os homens não nasceriam com a justiça.

1. Pois, como diz Hugo Vitorino, o primeiro homem, antes do pecado, geraria, certo, filhos sem pecado, mas não herdeiros da justiça paterna.

2. Demais. – A justiça vem da graça, como diz a Escritura. Ora, a graça não se transmite, porque então seria natural; mas é infundida por Deus. Logo, os filhos não nasceriam justificados.

3. Demais. – A justiça está na alma. Ora, esta não é transmitida. Logo, nem o seria aquela, pelos pais aos filhos.

Mas, em contrário, diz Anselmo: aqueles que o homem gerasse seriam, se não pecasse, justos logo que tivessem a alma racional.

SOLUÇÃO. – É natural ao homem gerar o seu especificamente semelhante. Por onde, é necessário se assemelhem os filhos aos pais, por quaisquer acidentes resultantes da natureza específica; a menos que haja erro na operação da natureza, o que, no estado de inocência, não podia dar-se. Porém, pelos acidentes individuais, não é necessário que os filhos se assemelhem aos pais. ora, a justiça original, na qual o primeiro homem foi criado, era um acidente da natureza específica, causado, não por uns como princípios da espécie, mas sendo um como dom divinamente outorgado a toda a natureza. E isto resulta claro de pertencerem os opostos ao mesmo gênero. Ora, sendo o pecado original oposto à sobredita justiça, um pecado da natureza é transmitido pelo pai aos pósteros. E por isso também aos filhos se assemelhariam aos pais, quanto à justiça original.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – As palavras de Hugo devem entender-se não do hábito da justiça, mas da execução do ato.

RESPOSTA À SEGUNDA. - Certos dizem que os filhos não nasceriam com justiça gratuita, princípio do mérito, mas com a original. Ora, a justiça original, em cuja retidão foi feito o homem, consiste radicalmente na sujeição sobrenatural a Deus e resulta da graça santificante, segundo já se disse antes. Por onde, é forçoso dizer-se que, se os filhos nascessem com justiça original também nasceriam com a graça, assim como já dissemos que o primeiro homem foi criado em graça. Mas, nem por isso a graça seria natural, porque não seria transmitida pela virtude seminal, mas conferida ao homem desde que ele recebesse a alma racional; como também, desde que o corpo é capaz, infunde-lhe Deus a alma racional, que portanto não vem por transmissão.

Donde se deduz clara a RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO.

Art. 3 – Se os homens no estado de inocência eram todos iguais.

O terceiro discute-se assim. – Parece que os homens no estado de inocência eram todos iguais.

1. Pois, Gregório, no que não delinqüimos, somos todos iguais. Ora, no estado de inocência não havia delito. Logo, todos eram iguais.

2. Demais. – A semelhança e a igualdade é a razão do amor, conforme aquilo da Escritura: Todo o animal ama ao seu semelhante; assim também todo o homem ama ao seu próximo. Ora, no sobredito estado, abundaria entre os homens o amor, que é o vínculo da paz. Logo, no estado de inocência, todos eram iguais.

3. Demais. – Cessando a causa, cessa o efeito. Mas, a causa da desigualdade entre os homens, atualmente, provém da parte de Deus, que conforme os méritos premeia uns e pune outros; e da parte da natureza, pois por defeito da mesma uns nascem fracos e falhos, outros fortes e perfeitos. O que não se daria no primitivo estado.

Mas, em contrário, diz a Escritura: as que há, essas forma por Deus ordenadas: Ora, a ordem consiste, principalmente, na disparidade, como diz Agostinho: a ordem é a disposição de coisas iguais e desiguais, atribuindo a cada uma o lugar devido. Logo, no primeiro estado, que era ordenadíssimo, havia disparidade.

SOLUÇÃO. – Forçoso é admitir-se alguma disparidade no primeiro estado ao menos quanto ao sexo, pois sem a diversidade sexual não havia geração. E também semelhantemente quanto à idade, pois uns nasciam dos outros, não sendo estéreis os que se unissem.

Mas, no tocante à alma, também haveria diversidade, quanto à justiça e à ciência. Pois, o homem não obrava coagido, mas com livre arbítrio, pelo qual pode aplicar o espírito, mais ou menos, a fazer, querer ou conhecer alguma coisa. Por onde, uns progrediriam na justiça e na ciência, mais que outros. Também por parte do corpo podia haver disparidade. Pois, o corpo humano não estava de tal modo isento das leis da natureza que não recebesse, mais ou menos, alguma ajuda ao auxílio dos agentes exteriores, porquanto a vida do homem sustentava-se de alimentos. E assim, nada impede dizer que , segundo a disposição diversa do ar e o sítio diverso das estrelas, uns fossem gerados mais robustos de corpo, maiores, mais belos e de melhor compleição, que outros. Mas, de modo tal que, naqueles que se salientassem não houvesse nenhuma deficiência ou pecado, quer da alma quer do corpo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Pelas palavras citadas, Gregório entende excluir a disparidade que se funda na diferença da justiça e do pecado; pela qual uns devem sofrer, penalmente, a coerção de outros.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A igualdade é a causa de ser igual a dileção mútua. Todavia, entre desiguais pode haver maior dileção que entre iguais, embora não haja de lado a lado igual correspondência. Assim, o pai ama naturalmente, o filho mais do que o irmão, a outro; embora o filho não ame o pai tanto quanto dele é amado.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A causa da disparidade podia provir, por parte de Deus, não de ele punir a uns e premiar a outros; mas, de sublimar mais a uns, e a outros, menos, de modo que a beleza da ordem resplendesse mais nos homens. E também por sua parte, a natureza podia causar a disparidade, ao modo supra-dito, sem nenhum defeito da mesma.

Art. 4 – Se o homem, no estado primitivo, podia enganar-se.

O quarto discute-se assim. – Parece que o homem, no estado primitivo, podia enganar-se.

1. Pois, diz a Escritura: A mulher foi enganada em prevaricação.

2. Demais. – O Mestre das Sentenças diz: a mulher não se horrorizou com a serpente falante, por ter pensado que esta recebera esse poder de Deus. O que era falso. Logo, a mulher enganou-se antes do pecado.

3. Demais. – É natural que quanto mais de longe uma coisa é vista, tanto menos vista é. Ora, a natureza dos olhos não tendo sido afetada pelo pecado, o princípio supra se lhe aplicava, já no estado de inocência. Logo, o homem havia de se enganar relativamente ao tamanho da coisa vista, como agora.

4. Demais. – Agostinho diz, que, no sonho, a alma adere á semelhança da coisa, como se fosse a própria coisa. Ora, no estado de inocência, o homem havia de comer e, por conseguinte, de dormir e sonhar. Logo, enganou-se quando aderiu ás semelhanças, como se estas fossem as coisas.

5. – Demais. – O primeiro homem não conhecia, como já se disse, as cogitações dos outros homens e os futuros contingentes. Se pois alguém lhe dissesse algo de falso, sobre tais coisas ele ter-se-ia enganado.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Tomar o falso como verdadeiro não é da natureza criada do homem, mas pena de danado.

SOLUÇÃO. – Alguns disseram que, sob o nome de engano duas coisas podem se entender: qualquer opinião irrefletida, pela qual aderimos ao falso, como se fosse verdadeiro, sem o assentimento da crença; e, além dessa, a crença firme. Ora, em relação ás coisas das quais Adão tinha ciência, de nenhum dos dois sobreditos modos o homem podia enganar-se, antes do pecado; mas, quanto às coisas de que não tinha conhecimento, podia enganar-se, tomando-se o engano na acepção lata, como opinião qualquer, sem o assentimento da crença. E isto dizem, porque pensar com falsidade, relativamente a tais coisas, não é nocivo ao homem; e, desde que não aderiu, assentindo temerariamente, não há culpa.

Mas tal posição não se coaduna com a integridade do primeiro estado. Pois, como diz Agostinho, naquele primeiro estado evitava-se tranqüilamente o pecado, permanecendo o que não era de nenhum modo possível qualquer mal. Ora, é manifesto que, assim como a verdade é o bem do intelecto, assim a falsidade é-lhe o mal, segundo diz Aristóteles. Por onde, não era possível, o intelecto do homem, no estado de inocência, aderir a uma falsidade como se fosse verdade. Pois, assim como nos membros do corpo do primeiro homem havia certa carência de uma perfeição, a saber o esplendor, sem que todavia qualquer mal nele pudesse existir; assim também no intelecto podia haver carência de algum conhecimento sem que nele, de qualquer modo, pudesse existir qualquer opinião falsa.

E isto também claramente resulta da retidão mesma do primitivo estado, pela qual, enquanto a alma permanecesse sujeita a Deus as virtudes inferiores do homem seriam sujeitas ás superiores, nem a estas poriam obstáculos aquelas. Ora, sendo manifesto, pelo que já foi dito, que o intelecto é sempre verdadeiro, em relação ao seu objeto é sempre verdadeiro, em relação ao seu objeto próprio, nunca poderá em si mesmo, enganar-se; mas todo engano lhe advém de alguma potência inferior, p. ex., da fantasia ou outra semelhante. E por isso vemos que quando à faculdade natural de julgar não há nenhum obstáculo, não nos enganamos com tais aparições, mas só quando lhe há obstáculo, como acontece com os que dormem. Por onde é claro, que a retidão do primitivo estado não era compatível com nenhum engano do intelecto.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Embora á sedução da mulher se seguisse o pecado por obra, contudo ela já foi subseqüente ao pecado da elação inferior. Pois, diz Agostinho: a mulher não teria acreditado nas palavras da serpente, se já não lhe existisse na mente o amor do próprio poder e uma certa soberba presunção de si.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A mulher pensava que a serpente recebera o poder de falar, não da natureza, mas de alguma operação sobrenatural. – Embora não seja necessário seguir, neste ponto, a autoridade do Mestre das Sentenças.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Se fosse representado algo ao sentido ou á fantasia do primeiro homem de modo diferente do da existência natural, nem por isso ele se enganaria porque pela razão discerniria a verdade.

RESPOSTA À QUARTA. – O que acontece em sonho não se imputa ao homem, porque não tem então o uso da razão, ato próprio do homem.

RESPOSTA À QUINTA. – O homem, no estado de inocência, não acreditaria em quem dissesse um falsidade sobre os contingentes futuros ou as cogitações dos corações; mas acreditaria que tal seria possível, o que não era pensar com falsidade. – Ou se pode dizer que lhe adviria algum socorro divino, para que não se enganasse no tocante às coisas de que não tinha ciência. – Nem vale a instância que certos aduzem, dizendo que, na tentação, não lhe adveio o socorro, para que não se enganasse, embora então dele mais tivesse necessidade; porque já lhe precedera o pecado, na alma, e não recorreu ao auxílio divino.

Art. 3 – Se o primeiro homem tinha ciência de todas as coisas.

O terceiro discute-se assim. – Parece que o primeiro homem não tinha ciência de todas as coisas.

1. Pois, tal ciência ele a tinha por espécies adquiridas, por conaturais ou infusas. Ora, não por espécies adquiridas, porque o conhecimento pro meio delas provêm da experiência, como diz Aristóteles; e o primeiro homem ainda não podia ter experiência de todas as coisas. Semelhantemente, nem por espécies conaturais; por ter ele a mesma natureza que nós, e a nossa alma é como uma tábua em que nada está escrito, como diz Aristóteles. Se era, pois, por espécies infusas, então a ciência que tinha das coisas não era da mesma natureza que a nossa, que haurimos delas.

2. Demais. – Todos os indivíduos da mesma espécie conseguem do mesmo modo a perfeição. Ora, os outros homens não tem ciência de todas as coisas, imediatamente, desde o princípio; mas a adquirem ao seu modo, na sucessão do tempo. Logo, nem Adão, desde que foi formado, teve ciência de todas as coisas.

3. Demais. – O homem foi colocado no estado da vida presente para que a sua alma progrida no conhecimento e no mérito; pois para isso foi a alma unida ao corpo. Ora, o homem naquele primeiro estado progrediria, no mérito; logo, também no conhecimento das coisas. E portanto, não tinha conhecimento de todas.

Mas, em contrário, ele, por si mesmo impôs os nomes aos animais, como diz a Escritura. Ora, os nomes devem convir às naturezas das coisas. Logo, Adão conhecia as naturezas de todos os animais; e pela mesma razão tinha conhecimento de todas as outras coisas.

SOLUÇÃO. – Na ordem natural o perfeito precede o imperfeito, como o ato, a potência; pois o potencial só é atualizado pelo que já é atual. E como as coisas foram, no princípio, instituídas por Deus, não só para existirem em si mesmas, mas para serem os princípios de outras, por isso foram produzidas num estado perfeito, em virtude do qual pudessem ser princípios de outras. Ora, um homem pode ser princípio de outro, não somente pela geração corpórea, mas também pela instrução e pelo governo. E portanto, assim como o primeiro homem foi instituído no estado perfeito, quanto ao corpo, de modo que imediatamente pudesse gerar, assim também o foi quanto à alma, para que imediatamente, pudesse instruir os outros e governar.

Ora, como não pode instruir quem não tem ciência, por isso o primeiro homem foi instituído por Deus de modo a ter ciência de todas as coisas em relação ás quais dever ser instruído. E estas são todas as que virtualmente existem nos primeiros princípios conhecidos por si mesmos, i. é., todas as que os homens podem naturalmente conhecer. – Mas para o governo da vida própria e o das dos outros, é necessário não só o conhecimento das coisas que podem ser naturalmente conhecidas, mas também o das que excedem o conhecimento natural, porque a vida do homem se ordena a um fim sobrenatural; assim, para o governo da nossa vida é necessário conhecer as coisas da fé. Por isso o primeiro homem recebeu o conhecimento das coisas sobrenaturais na medida em que era necessário para o governo da vida humana, de conformidade com aquele primeiro estado. Porém ele não conhecia as outras coisas, que não podem ser conhecidas pelo seu esforço natural nem são necessárias ao governo da vida humana; como são as cogitações dos homens, os futuros contingentes e certos conhecimentos particulares como, p. ex., quantos seixos jazem num rio e outros semelhantes.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O primeiro homem tinha ciência de todas as coisas, por meio de espécies infusas por Deus. Mas nem por isso a sua ciência era de natureza diversa da natureza da nossa ciência; assim como os olhos, que Cristo deu ao cego de nascença, não eram de natureza diferente da daqueles que a natureza produziu.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Adão, como primeiro homem, devia ter alguma perfeição que não cabe aos outros homens, segundo resulta do que já foi dito.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Adão, relativamente á ciência das coisas naturais, que se podem conhecer, não progrediria quanto ao número das coisas sabidas, mas quanto ao modo de saber; pois, o que sabia pela inteligência, saberia, depois, pela experiência. Relativamente porém, aos conhecimentos sobrenaturais, progrediria mesmo quanto ao número, por meio de novas revelações; assim como os anjos progridem por novas iluminações. Mas não há símile entre o progresso no mérito e o na ciência, porque um homem não é o princípio do merecimento de outro, como é o da ciência.

Art. 2 – Se Adão, no estado de inocência, via os anjos em essência.

O segundo discute-se assim. – Parece que Adão, no estado de inocência, via os anjos em essência.

1. Pois, diz Gregório: Pois, no paraíso, o homem se acostumara a gozar das palavras de Deus e a conviver com os anjos, pela pureza do coração e celsitude da visão.

2. Demais. – No estado da vida presente, a alma, por estar unida a um corpo corruptível, fica privada do conhecimento das substâncias separadas; e isso a oprime, como diz a Escritura. E, daí vem, segundo já foi dito, que a alma separada pode ver as substâncias separadas. Ora, a alma do primeiro homem não sendo corruptível, não era oprimida pelo corpo. Logo, podia ver as substâncias separadas.

3. Demais. – Uma substância, conhecendo-se a si mesma, conhece outra, como foi dito. Ora, a alma do primeiro homem conhecia-se a si mesma. Logo, também conhecia as substâncias separadas.

Mas, em contrário. – A alma de Adão era da mesma natureza que as nossas. Ora, as nossas não podem inteligir as substâncias separadas. Logo, nem o podia a do primeiro homem.

SOLUÇÃO. – O estado da alma humana pode ser a dupla luz considerado. Primeiro, quanto aos modos diversos da sua existência natural; e então distingue-se o estado da alma separada, do estado da alma unida ao corpo. De outro modo, considera-se o estado da alma quanto à integridade e á corrupção, conservando o mesmo modo de existir natural; e então distingue-se o estado de inocência do estado do homem depois do pecado. Ora, a alma do homem, no estado de inocência, bem como agora, era acomodada a um corpo que devia aperfeiçoar e governar. Por isso está dito que o primeiro homem foi feito em alma vivente, i. é. com uma alma que dá ao corpo a vida animal. Mas a integridade dessa vida ele a tinha, por ser o corpo totalmente sujeito à alma, não a empecendo em nada, como já antes se disse. Ora, é manifesto, pelo que já ficou estabelecido, que, sendo a alma acomodada ao governo e á perfeição do corpo, quanto á vida animal, é próprio à nossa alma o modo de inteligir que consiste em recorrer aos fantasmas. Por onde, este modo de inteligir era próprio também á alma do primeiro homem.

Ora, quanto a este modo, há um movimento na alma, como diz Dionísio, de três graus. O primeiro é pelo qual a alma, partindo das coisas exteriores, concentra-se em si mesma. Pelo segundo, ela sobe a unir-se às virtudes superiores unidas, i. é., aos anjos. Pelo terceiro, ulteriormente, é levada ao bem superior a todas as coisas, i. é., Deus. – Ora, pelo primeiro processo, consistente em partir a alma, das coisas sensíveis, para se concentrar em si, completa-se-lhe o conhecimento. Pois como já se disse antes, a operação intelectual da alma ordenando-se, naturalmente, às coisas exteriores, pode assim pelo conhecimento destas, ser conhecida perfeitamente a nossa operação intelectual, como o ato o é pelo seu objeto. E por essa operação intelectual pode ser perfeitamente conhecido o intelecto humano, como a potência o é pelo próprio ato. No segundo processo porém não há o conhecimento perfeito; pois, como o anjo não intelige recorrendo aos fantasmas, mas de modo muito mais eminente, como já se viu antes, o referido modo de conhecer, pelo qual a alma se conhece a si mesma, não leva suficientemente ao conhecimento do anjo. E muito menos ainda o terceiro processo termina em conhecimento perfeito, pois, mesmo os próprios anjos, por se conhecerem a si mesmos, não podem alcançar o conhecimento a si mesmos, não podem alcançar o conhecimento da divina substância, por causa do excedente dela.

Assim pois a alma do primeiro homem não podia certamente ver os anjos em essência. Todavia tinha deles um modo de conhecimento mais excelente que o que temos; pois o seu conhecimento era mais certo e fixo, em relação aos inteligíveis interiores, do que o nosso. E por causa dessa tão grande eminência, diz Gregório que ele convivia com os espíritos dos anjos.

Donde resulta a RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Não por opressão do corpo a alma do primeiro homem era deficiente, na intelecção das substâncias separadas; mas porque o era o seu objeto conatural em relação á excelência das substâncias separadas. Ao passo que nós somos deficientes sob ambos esses aspectos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A alma do primeiro homem não podia, pelo conhecimento de si mesmo, chegar ao das almas separadas, como já se disse antes; porque é ao seu próprio modo que uma substância separada conhece outra.

Art. 1 – Se o primeiro homem via a Deus em essência.

O primeiro discute-se assim. – Parece que o primeiro homem via a Deus em essência.

1. Pois, a beatitude do homem consiste na visão de Deus. Ora, o primeiro homem, vivendo no paraíso, tinha uma vida feliz e rica de todos os bens, como diz Damasceno. E Agostinho: Se os homens tinham os seus afetos, como agora os temos, como eram felizes naquele lugar de inenarrável beatitude, i. é., no paraíso? Logo, o primeiro homem, no paraíso, via a Deus em essência.

2. Demais. – Agostinho diz: ao primeiro homem não faltava nada do que a boa vontade pode alcançar. Ora, nada de melhor pode alcançar a boa vontade do que a visão da divina essência. Logo, o homem via a Deus em essência.

3. Demais. – Pela visão de Deus em essência, vê-se a Deus, sem termo médio e sem enigma. Ora, o homem, no estado de inocência, via a Deus sem termo médio, como diz o Mestre das Sentenças. Também o via sem enigma, porque, como diz Agostinho, o enigma importa obscuridade, e esta foi introduzida pelo pecado. Logo, o homem, no primeiro estado, via a Deus por essência.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Não primeiro o que é espiritual, senão o que é animal. Ora, o que é espiritual em máximo grau é ver a Deus em essência. Logo, o primeiro homem, no primeiro estado da vida animal, não via a Deus em essência.

SOLUÇÃO. – O primeiro homem não via a Deus em essência, no estado comum da sobredita vida; a menos que não se diga que o visse em rapto, quando Infundiu o Senhor Deus um profundo sono a Adão, segundo refere a Escritura. E a razão é que, sendo a divina essência a beatitude mesma, o intelecto de quem vê tal essência está para Deus como qualquer homem está para a beatitude. Ora, é manifesto que nenhum homem pode, voluntariamente, deixar de querer a felicidade; pois, natural e necessariamente o homem a busca, e foge da infelicidade. Por onde ninguém que veja a Deus em essência pode afastar-se dele voluntariamente e pecar. Por isso todos os que assim o vêm estão de tal modo consolidados no amor de Deus, que não poderão pecar, eternamente. Ora, como Adão pecou, é claro que não via a Deus em essência.

Conhecia-o, todavia, por um certo conhecimento mais elevado que aquele com o qual agora o conhecemos; e assim, de certo modo, o seu conhecimento era intermédio entre o da vida presente e o da pátria onde se vê a Deus em essência. Para a evidência do que devemos considerar que a visão de Deus, em essência, se divide por oposição com a visão de Deus, por meio da criatura. Ora, quanto mais uma criatura é elevada e semelhante a Deus, tanto mais claramente o vê; assim como um homem vê-se mais perfeitamente no espelho que mais nitidamente lhe reflete a imagem. Por onde é claro que Deus é muito mais eminentemente visto pelos efeitos inteligíveis, do que pelos sensíveis e corpóreos. Ora, na vida presente o homem está privado do conhecimento pleno e lúcido dos efeitos inteligíveis, porque é solicitado pelas coisas sensíveis e a elas se atém. Mas, como diz a Escritura: Deus criou o homem reto. E a retidão do homem criado por Deus consistia em que as coisas inferiores se sujeitassem ás superiores, e estas não fossem impedidas por aquelas. Por onde, o primeiro homem não ficava privado, pelas coisas exteriores, da contemplação firme e clara dos efeitos inteligíveis, que percebia pela irradiação da verdade primeira, fosse por conhecimento natural ou gratuito. E, por isso, diz Agostinho: Talvez, Deus antes falasse com os primeiros homens, como agora fala com os anhos, ilustrando-lhes as mentes pela própria verdade incomutável; embora não com tanta participação da divina essência como a de que os anjos são susceptíveis. Assim, pois por esses efeitos inteligíveis de Deus, conhecia-o mais claramente do que agora conhecemos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – O homem era feliz no paraíso, não daquela perfeita beatitude à qual havia de ser transferido, consistente na visão da divina essência; levava, contudo, como diz Agostinho, uma vida feliz, de certo modo, por ter a integridade e uma certa perfeição natural.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Boa é a vontade bem ordenada. Ora, a do primeiro homem não seria ordenada, se, no estado de merecimento, quisesse ter o que lhe estava prometido como premio.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Há duplo termo médio. Um, no qual o que por ele é visto o é simultaneamente com ele; assim, quando um homem se vê no espelho vê-se simultaneamente com o próprio espelho. Outro é aquele, pelo conhecimento do qual, chegamos ao conhecimento de algo desconhecido; tal é o termo médio da demonstração. Ora, Deus era visto sem este termo médio; não porém sem o primeiro. Pois, não era necessário ao primeiro homem, como o é para nós, chegar ao conhecimento de Deus por uma demonstração deduzida de algum efeito; mas, simultaneamente, com os efeito, sobretudo com os inteligíveis, conhecia a Deus ao seu modo. – Semelhantemente, devemos notar que a obscuridade que implica o nome de enigma pode ser entendida de duplo modo. Enquanto qualquer criatura é algo de obscuro, comparada com a imensidade do esplendor divino; e então Adão via a Deus em enigma, porque o via pelo efeito criado. De outro modo, pode se entender por obscuridade a que resultou do pecado, pela qual o homem fica privado, pela atração das coisas sensíveis, da consideração dos inteligíveis; e então não via a Deus a não ser em enigma.

Art. 3 — Se os astros do céu são animados.

O terceiro se discute assim. – Parece que os astros do céu são animados.

1. – Pois, o corpo superior deve ser ornado com mais nobres ornamentos. Ora, os ornatos dos corpos inferiores são animados, como os peixes, as aves e os animais terrestres. Logo, também os astros que são os ornatos do céu.

2. Demais. – A forma do corpo mais nobre é mais nobre. Ora, o sol, a lua e os outros astros são mais nobres do que os corpos das plantas e dos animais. Logo, tem mais nobre forma. Forma nobilíssima, porém, é a alma, princípio da vida; pois, como diz Agostinho, qualquer substância viva é, na ordem da natureza, superior à que não o é. Logo, os astros do céu são animados.

3. Demais. – A causa é mais nobre que o efeito. Ora, o sol, a lua e os outros astros são causas da vida, como de maneira sumamente clara se vê nos animais gerados da putrefação, que têm vida pela virtude do sol e das estrelas. Logo, com muito mais razão, os corpos celestes vivem e são animados.

4. Demais. – Os movimentos do céu e dos corpos celestes são naturais, como se vê claramente em Aristóteles. Ora, o movimento natural provém de um princípio intrínseco. Logo, sendo o princípio dos movimentos dos corpos celestes uma substância apreensiva, movida, como o é quem deseja, pela causa desejada, conforme diz Aristóteles; resulta que o princípio apreendente é o princípio intrínseco aos corpos celestes. Logo, estes são animados.

5. Demais. – O primeiro móvel é o céu. Ora, no gênero dos móveis, o primeiro é o móvel que  a si mesmo se move, como o prova o filósofo, porque o existente por si é anterior ao existente por outro. Ora, só os seres animados movem-se a si mesmos, como também o mostra Aristóteles. Logo, os corpos celestes são animados.

SOLUÇÃO. – Sobre esta questão houve diversas opiniões, entre os filósofos. Assim, Anaxágoras, como refere Agostinho, foi acusado pelos atenienses por ter dito  que o sol era uma pedra ardente, negando absolutamente que fosse deus, ou algum ser animado. Porém os Platônicos ensinavam, que os corpos celestes são animados. Também, semelhantemente, sobre este assunto, variam as opiniões dos Doutores da fé. Assim, Orígenes admitia que os corpos celestes fossem animados. Também Jerônimo parece da mesma opinião, ao expor a passagem: O vento corre, visitando tudo em roda. Basílio, porém, e Damasceno afirmam que os corpos celestes não são animados. Ao passo que Agostinho deixou a questão duvidosa, não se inclinando para nenhuma opinião, como se vê nos seus comentários e no Enquirídio, onde também diz, que se os corpos celestes são animados, as suas almas pertencem à sociedade dos anjos.

Para se conhecer de algum modo a verdade, em tal diversidade de opiniões, deve-se considerar, que a união da alma e do corpo não é para o corpo, mas para a alma; porque a forma não é para a matéria, senão inversamente. Ora, a natureza e a virtude da alma se depreendem das suas operações, que também de certo modo são o fim dela. Mas, sendo o nosso corpo necessário a certas operações da alma, que só se exercem mediante ele – como é claro nas operações da alma sensitiva e nutritiva – segue-se que tais almas necessariamente estão, por causa das suas operações, unidas aos corpos. Há porém certas operações da alma, que não se exercem mediante o corpo, fornecendo-lhes este apenas um adminículo; assim, o corpo fornece à alma humana os fantasmas de que ela carece para inteligir. Por onde, é necessário seja tal alma unida ao corpo, para as suas operações, embora possa ser dele separada.

Ora, é manifesto, a alma do corpo celeste não pode ter as operações da alma nutritiva, que são nutrir, crescer e gerar; pois, tais operações não são próprias ao corpo incorruptível por natureza. Semelhantemente, também não são próprios ao corpo celeste as operações da alma sensitiva, pois, todos os sentidos se fundam no tato, que é apreensivo das qualidades elementares. Ora, todos os órgãos das potências sensitivas exigem uma determinada proporção mediante certa comissão dos elementos, dos quais, estão separados, por natureza, os corpos celestes.

Resta portanto que, das operações da alma, só duas podem convir à alma celeste, convém a saber, inteligir e mover; pois, o apetecer é consecutivo ao sentido e ao intelecto, e se ordena relativamente a ambos. A operação do intelecto, porém, não se exercendo pelo corpo, deste não precisa, salvo enquanto dele recebe, pelos sentidos, os fantasmas. Ora, as operações da alma sensitiva não convém aos corpos celestes, como já ficou dito. Por onde, não sendo por causa da operação intelectual que a alma haveria de unir ao corpo celeste, resulta, que haveria de sê-lo só por causa da moção. Mas, para mover não é necessário que a alma se lhe uma como forma, senão só pelo contato da virtude, assim como o motor se une ao móvel. Por isso Aristóteles, após haver mostrado que o primeiro auto-motor compõe-se de uma parte motora e de outra movida, diz que essas duas partes se unem por contato; quer mutuamente, de uma com a outra, se ambas forem corpos; quer de uma com a outra, mas não inversamente, se uma for corpo e outra, não.

Ao passo que para os Platônicos as almas se unem aos corpos só pelo contato da virtude, como o motor ao móvel. Assim, quando Platão ensina que os corpos celestes são animados, quer dizer que as substâncias espirituais se unem aos corpos celestes como os motores aos móveis.

E que os corpos celestes sejam movidos por uma substância apreendente, e não só pela natureza, como os graves e os leves, bem se vê pelo fato de a natureza não mover senão para um termo, o qual, atingido, ela repousa; o que não acontece com o movimento dos corpos celestes. Donde, resta que se movam por alguma substância apreendente. Por isso, Agostinho diz, Deus governa todos os corpos pelo espírito de vida.

Assim, é claro que os corpos celestes não são animados do mesmo modo que as plantas e os animais, mas equivocamente. Por onde, entre os que dizem que são animados e os que dizem que inanimados, há pequena ou nenhuma diferença real, senão só verbal.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Ao ornato pertencem certos seres com movimento próprio. E neste ponto, os astros do céu, movidos por uma substância viva, convém com outros seres pertencentes ao ornato.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Nada impede seja absolutamente mais nobre o que, todavia, sob certos aspectos não o é. Assim, a forma do corpo celeste, embora não seja, absolutamente mais nobre do que a alma do animal, o é , todavia, quanto à natureza da forma. Pois, aperfeiçoa totalmente a sua matéria para que esta não seja potencial em relação á outra forma; coisa que a alma não faz. Por onde, quanto ao movimento, os corpos celestes se movem por motores mais nobres.

RESPOSTA À QUARTA. – O movimento do corpo celeste é natural, não por princípio ativo, mas passivo; porque tem na sua natureza, a aptidão a ser movido pelo intelecto, por um determinado movimento.

RESPOSTA À QUINTA. – Diz-se que o céu se move a si mesmo, enquanto composto de motor e de móvel e não como composto de forma e matéria; porém, pelo contato da virtude, como ficou dito. E deste modo, também pode dizer-se, que o seu motor é um princípio intrínseco; de modo que assim o movimento do céu possa chamar-se natural, por parte do princípio ativo; bem como se diz natural ao animal, enquanto animal, o movimento voluntário, segundo se vê em Aristóteles.

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