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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

9. O coração de Jesus!

O Coração de Jesus!

 

Se o Salvador descobria assim todas as belezas e todas as riquezas das suas Divinas Chagas à humilde Irmã conversa, poderia Ele deixar de lhe abrir os tesouros da sua grande ferida de amor? “Eis a fonte onde deveis vir buscar tudo; é sobretudo rica para vós! ...”, dizia Jesus mostrando·lhe as suas Chagas num luminoso esplendor, sobresaíndo com um brilho incomparável, no meio de todas, a do seu Adorável Coração:

“Vem à Chaga do meu Divino Lado... - é a Chaga do amor donde saem chamas bem vivas.”

Jesus concedia-lhe às vezes, vários dias seguidos, a graça de ver a Santíssima Humanidade gloriosa. Conservava-se então junto da sua serva, conversava familiarmente com ela, como outrora com a nossa santa Irmã Margarida Maria Alacoque. E esta última, “que nunca deixa o Coração de Jesus” dizia: “Era assim que Nosso Senhor se mostrava a mim”, enquanto o Bom Mestre reiterava os seus amorosos convites:

“Vem ao meu Coração e nada temerás... Coloca aqui os teus lábios para haurires a caridade e a espalhares no mundo... Mete aqui a tua mão para daí tirares os meus tesouros.”

Um dia fez-lhe conhecer o imenso desejo de derramar as graças de que o seu Coração está cheio:

“Toma, lhe disse, porque a medida está cheia. Não posso já contê-las, tão grande é o desejo que tenho de as dar.”

Uma outra vez, foi um convite para utilizar ainda e sempre esses tesouros:

“Vinde receber a efusão do meu Coração que deseja derramar as suas graças! Quero dar-vos da minha abundância, porque hoje recebi na minha misericórdia almas salvas pelas vossas orações.”

A cada instante, sob formas diversas, são apelos a uma vida de união com o Sagrado Coração:

“Conserva-te bem unida a este Coração para receber e espalhar o meu Sangue. Se quereis entrar na luz do Senhor, deveis esconder-vos no meu Coração Divino. Se quereis conhecer a intimidade das entranhas da misericórdia d’Aquele que tanto vos ama, deveis meter-vos na abertura do meu Sagrado Coração com respeito e humildade.”

“Eis o vosso centro. Ninguém poderá impedir-vos de o amar nem fazer-vos amá-lo sem que o vosso coração corresponda. Tudo o que as criaturas disserem não vos pode tirar o vosso tesouro, o vosso amor!... Eu quero que me ameis sem apoio humano.”

Aqui, Nosso Senhor insiste, dirigindo a todas às esposas uma exortaçao instante:

“Quero que a alma religiosa esteja desprendida de tudo porque, para vir ao meu Coração, não deve ter laço nem fio que a prenda à terra; é preciso ir conquistar o Senhor a sós com Ele; é preciso procurar esse Coração no vosso próprio coração.”

Depois dirige-se de novo à Irmã Maria Marta mas, através da dócil serva, visa todas as almas e muito especialmente as almas consagradas:

“Eu tenho necessidade do teu coração para me compensar e fazer companhia... - Ensinar-te-ei a amar-me, porque tu não o sabes fazer: a ciência do amor não se aprende nos livros, ela é apenas dada à alma que contempla o Divino Crucificado e lhe fala de coração a coração. Em cada uma das tuas acções, deves estar unida a mim.”

E Nosso Senhor faz-lhe compreender as condições e os frutos maravilhosos da união íntima com o seu Divino Coração:

“A esposa que não se reclina sobre o peito do seu Esposo nas penas e no trabalho, perde o tempo. Quando ela cometeu faltas, deve reclinar-se sobre o meu Coração com grande confiança. Neste foco ardente desaparecem as vossas infidelidades; o amor queima-as, consome-as todas!... - É preciso que me ameis, que me abandoneis tudo. - Deveis repousar-vos sobre o Coração do vosso Mestre como S. João. - Dais-lhe grande glória amando-O assim.”

Ah! como Jesus deseja o nosso amor! Ele o mendiga!

Aparecendo um dia com toda a glória da Ressurreição, disse à sua bem-amada, com um profundo suspiro:

“Com isto, minha filha, mendigo como o faria um pobrezinho: Eu sou um mendigo de amor! Chamo os meus filhos um por um... , olho-os com complacência quando vêm a Mim... Espero-os!”

E tomando realmente o aspecto de um mendigo, repetia-lhe ainda, cheio de tristeza:

“Eu mendigo o amor, mas o maior número, mesmo entre almas religiosas, recusa-me este amor! Minha filha, ama-Me puramente por Mim-mesmo, sem olhar ao castigo ou à recompensa.”

E designando-lhe a nossa santa Irmã Margarida Maria cujo olhar “devorava” o Coração de Jesus, disse-lhe:

“Esta amou-me com este amor puro e unicamente por Mim só!...”

A Irmã Maria Marta procurava amar assim. Como um foco imenso, o Sagrado Coração a atraía a si por ardores indizíveis... Ela ia para o seu Bem-Amado por impulsos de amor que a consumiam... mas que, ao mesmo tempo, deixavam na sua alma uma suavidade inteiramente divina! E Jesus dizia-lhe:

“Minha filha, quando escolho um coração para me amar e fazer a minha vontade, acendo nele o fogo do meu amor. - Contudo não avivo esse fogo contìnuamente, com receio de que o amor próprio ganhe alguma coisa e que recebam as minhas graças por hábito. - Retiro-me de tempos a tempos para deixar a alma entregue à própria fraqueza. Ela vê então que está só... comete faltas e essas quedas a mantêm na humildade... Mas por causa dessas faltas não abandono a alma que escolhi; olho-a sempre. Eu não sou tão exigente, perdôo e volto... Cada humilhação vos une mais ìntimamente ao meu Coração. Não vos peço grandes coisas, quero simplesmente o amor do vosso coração. Estreita-te contra o meu Coração e descobrirás toda a bondade que ele encerra. - É lá que aprenderás a doçura e a humildade. Vem, minha filha, meter-te dentro dele. Esta união não é somente para ti, mas para todos os membros da tua Comunidade. Diz à tua superiora que venha depôr nesta abertura todas as ações das tuas Irmãs, mesmo os recreios: lá estarão como num banco e serão bem guardadas.”

Detalhe comovente entre mil outros: Quando a Irmã Maria Marta, nessa noite, deu conta de tudo à superiora, não pôde conter-se sem interromper e perguntar:

“Minha Madre, que quer dizer esta palavra banco?”

Era uma pergunta filha da sua cândida ignorância... Depois continuou a sua mensagem:

“Por meio da humildade e do aniquilamento, devem os vossos corações unir-se ao meu... Ah! minha filha, se tu soubesses quanto o meu Coração sofre com a ingratidão de tantos corações!... É preciso que unais as vossas penas às do meu Sagrado Coração.”

É mais particularmente ainda às almas encarregadas da direção doutras, diretoras ou superioras, que o Coração de Jesus se abre com as suas riquezas:

“Tu farás um grande ato de caridade oferecendo todos os dias as minhas Divinas Chagas por todas as diretoras do Instituto”.

“Dirás à tua mestra que venha encher a sua alma na Fonte e amanhã, o coração dela estará cheio para derramar as minhas graças sobre vós. É a ela que compete acender o fogo do santo amor nas almas, falando-lhes muitas vezes nos sofrimentos do meu Coração. Concederei a todas a graça de compreenderem as máximas do meu Sagrado Coração. Por meio do trabalho e da correspondência da alma, todas lá chegarão à hora da morte.”

“Minha filha, as tuas superioras são as depositárias do meu Coração; é preciso que eu possa dar às suas almas todas as graças e sofrimentos que desejo. Diz à tua Madre que venha buscar a estas Fontes (o seu Coração e as suas Chagas) o que precisa para as tuas Irmãs... - Ela deve olhar para o meu Coração Sagrado e confiar-lhe tudo, sem se importar com o que dizem os homens.”

8. A coroa de espinhos

A coroa de espinhos

 

Uma coisa tocante é que Jesus reclama para a sua Augusta Cabeça coroada de espinhos um culto especialíssimo de veneração, de reparação e de amor. - A coroa de espinhos foi para Ele causa de sofrimentos particularmente cruéis:

“A minha coroa de espinhos fez-me sofrer mais do que todas as outras Chagas, confiou Ele à sua espôsa, foi o meu mais cruel sofrimento depois do Jardim das Oliveiras. Para o aliviar, é preciso observar bem a vossa regra”.

Ela é para a alma fiel, até à imitação, uma fonte de méritos:

“Vê, diz-lhe Ele, esta cabeça que foi trespassada por teu amor e por cujos méritos deves um dia ser coroada. Feliz a alma que a tiver contemplado bem e sobretudo a tiver praticado!... Eis onde está a vossa vida; caminhai nela simplesmente e caminhareis com segurança. As almas que tiverem contemplado e honrado a minha coroa de espinhos na terra, serão a minha coroa de glória no Céu!”

“Por um instante que contemplardes esta coroa na terra, dar-vos-ei uma para a eternidade... é ela, é a coroa de espinhos, que vos ganhará a da glória.”

Ela é o dom de escolha que Jesus concede aos seus privilegiados:

“A minha coroa de espinhos, eu a dou aos meus privilegiados. É o bem próprio das minhas esposas e das almas favorecidas. - Ela é a alegria dos bem-aventurados, mas para os meus bem-amados sôbre a terra, é um sofrimento.” - (Do lugar de cada espinho, a nossa Irmã via sair um raio de glória que não se pode descrever.)

“Os meus verdadeiros servos procuram sofrer como eu, mas nenhum pode atingir o grau de sofrimento que eu suportei.”

Jesus pede a essas almas uma compaixão ainda mais terna pela sua Adorável Cabeça. Ouçamos este grito do coração que Ele dirige à Irmã Maria Marta mostrando-lhe a sua Cabeça ensangüentada, toda trespassada e exprimindo um sofrimento tal, que a pobrezinha não sabia em que termos explicá-lo:

“Aqui tens Aquele que procuras... vê em que estado está!.. Olha... arranca os espinhos da minha Cabeça, oferecendo os méritos das minhas Chagas pelos pecadores... Vai em busca das almas.”

Como vemos, nestes chamamentos do Salvador, repercute-se sempre como um eco do eterno sítio, a preocupação da salvação das almas:

“Vai em busca das almas.”

“Aqui tens a tua instrução: o sofrimento, para ti; as graças que deves obter, para os outros”.

“Uma única alma que faça as suas ações em união com os méritos da minha santa coroa ganha mais que a Comunidade inteira.”

A estes fortes apelos, o Mestre sabe juntar estímulos que inflamam os corações e fazem aceitar todos os sacrifícios. Foi assim que, em outubro de 1867, Ele se apresentou ao olhar extasiado da nossa jovem Irmã, com esta coroa toda cercada duma glória deslumbrante:

“A minha Coroa de Espinhos iluminará o Céu e todos os bem-aventurados! Na terra há algumas almas privilegiadas a quem a mostrarei, mas a terra é muito tenebrosa para a ver.”

“Vê como é bela depois de ter sido tão dolorosa!”

O Bom Mestre vai ainda mais longe. Ele associa-se aos triunfos como aos sofrimentos dela... Faz-lhe entrever a glorificação futura. Aplicando-lhe, com vivas dores, esta santa Corôa sobre a cabeça diz-lhe:

“Toma a minha coroa, e neste estado te contemplarão os meus bem-aventurados.”

Depois, dirigindo-se aos santos e designando a sua querida vítima:

“Aqui está, diz-lhes, o fruto da minha coroa.”

Sendo a Santa Coroa a felicidade dos justos, é ao contrário um objeto de terror para os maus. Foi o que um dia viu a Irmã Maria Marta num quadro oferecido à sua contemplação por Aquele que gostava de a instruir desvendando-lhe os mistérios de Além-Túmulo. Iluminado com os esplendores desta Divina Coroa, apareceu à sua vista o Tribunal onde as almas hão-de ser julgadas. Elas passavam contìnuamente diante do Juiz Soberano. As almas que tinham sido fiéis durante a vida, lançavam-se com confiança nos braços do Salvador. As outras, ao verem a Santa Coroa e lembrando-se do amor de Nosso Senhor, que tinham desprezado, precipitavam-se, horrorizadas, nos abismos eternos... - Foi tão impressionante esta visão, que a pobre Irmã, contando-a, tremia ainda de receio e de espanto.

7. Motivos da devoção às Sagradas Chagas

Motivos da devoção às Sagradas Chagas

 

Confiando à Irmã Maria Marta esta “missão”, o Deus do Calvário comprazía-se em revelar à sua alma arrebatada os inumeráveis motivos de invocar as Chagas Divinas, assim como os benefícios desta devoção. Todos os días, em todos os instantes, para a excitar a fazer-se uma ardente apóstola, Jesus lhe descobre os inapreciáveis tesouros destas fontes de vida:

“Nenhuma alma, depois da minha Santa Mãe, teve como tu a graça de contemplar, de dia e de noite, as minhas Sagradas Chagas”.

“Minha filha, conheces o tesouro do mundo?... O mundo não quer conhecê-lo”.

“Eu quero que tu as vejas assim, para que melhor compreendas o que fiz vindo sofrer por ti”.

“Minha filha, todas as vezes que ofereceis a meu Pai os méritos das minhas Divinas Chagas, ganhais uma fortuna imensa. Sois semelhante àquele que encontrasse na terra um grande tesouro, mas como não podeis conservar esta riqueza, Deus retoma-a, e minha Divina Mãe também, para vo-la restituir no momento da morte e aplicar os seus méritos às almas que deles carecem, porque vós deveis aplicar a riqueza das minhas Sagradas Chagas. É preciso que não fiqueis pobres porque o vosso Pai é muito rico!... A vossa riqueza? é a minha santa Paixão!”

“Aquele que está na necessidade, que venha com fé e confiança, que tire constantemente o que precisa, do tesouro da minha Paixão e das aberturas das minhas Chagas!”

“Este tesouro pertence-vos!... Tudo está nele! tudo - exceto o inferno!”

“Uma das minhas criaturas traiu-me e vendeu o meu sangue, mas vós podeis tão facilmente reuni-lo gota a gota!... - Uma só gota basta para purificar o mundo... e vós não pensais nisso!... não conheceis o seu valor!”

“Os algozes fizeram bem trespassando-me o lado, as mãos e os pés, porque abriram assim fontes donde correrão eternamente as águas da minha misericórdia. Só o pecado, que foi a sua causa, é preciso detestá-lo. Meu Pai compras-se na oferta das minhas Sagradas Chagas e das dores da minha Divina Mãe. Oferecer-lhas é oferecer-lhe a sua glória, é oferecer o Céu ao Céu”.

“Eis com que pagar as dívidas de todos! - Porque, oferecendo a meu Pai o mérito das minhas Sagradas Chagas, satisfazeis pelos pecados dos homens1.”

Jesus estimula-a - e a nós com ela, - a aproveitar esse tesouro:

“É preciso confiar tudo às minhas Divinas Chagas e trabalhar na salvação das almas por meio dos seus méritos.”

Pede-nos que o façamos com humildade:

“Quando abriram as minhas Sagradas Chagas, o homem teve ‘vaidade’ julgando que elas se fechariam, mas não, elas serão eternas, e eternamente contempladas por todas as minhas criaturas. Digo-te isto, para que tu não as contemples com rotina, mas que as veneres com grande humildade”.

“A vossa vida não é deste mundo; tirai as Chagas de Jesus e tornar-vos-eis terrestres... Sois muito materiais para compreender toda a extensão das graças que recebeis pelos seus meritos... Vós não olhais suficientemente para o sol na sua plenitude... Nem mesmo os meus sacerdotes contemplam suficientemente o Crucifixo. Eu quero que me honrem todo”.

“A seara é grande, abundante, é preciso humilhar-vos, mergulhar-vos no vosso nada para colher almas, sem olhardes para o que já fizestes”.

“É preciso não temer mostrar as minhas Chagas às almas... O caminho das minhas Chagas é tão simples e tão fácil para ir para o Céu!”

Pede-nos Ele que o façamos com corações de serafins. - Mostrando-lhe um grupo desses espíritos angélicos que se comprimiam em torno do altar, durante a Santa Missa, Jesus disse à Irmã Maria Marta:

“Eles contemplam a beleza, a santidade de Deus! admiram, adoram... não podem imitar. Quanto a vós, é preciso sobretudo que contempleis os sofrimentos de Jesus para vos conformardes com Ele. - É preciso que venhais às minhas Chagas, com os corações bem inflamados, bem ardentes e fazer, com grande fervor, as aspirações para obterdes graças que solicitais.”

Pede-nos que o façamos com uma fé ardente:

“As minhas Chagas estão bem frescas, é preciso que as ofereçais como se fosse a primeira vez”.

“Na contemplação das minhas Chagas encontrareis tudo, para vós e para os outros”.

“Faço-tas ver para que nelas entres.”

Pede-nos que o façamos com confiança:

“É preciso que não vos inquieteis com as coisas da terra, minha filha, vereis na eternidade o que ganhastes pelas minhas Chagas. As Chagas dos meus Sagrados Pés são um oceano. Traze a elas todas as minhas criaturas; essas aberturas são bastante grandes para nelas as alojar todas.”

Pede-nos que o façamos com espírito de apostolado e sem jamais nos cansarmos:

“É preciso que oreis muito para que as minhas Sagradas Chagas se espalhem no mundo.” (Neste momento, sob os olhos da vidente, partiram das Chagas de Jesus cinco raios luminosos, cinco raios de glória, que envolveram o globo.) “As minhas Sagradas Chagas sustentam o mundo. É preciso pedir-me a firmeza no amor das minhas Chagas, porque elas são a fonte de todas as graças. É preciso invocá-las muitas vezes... levar a isso o próximo... É preciso falar e tornar a falar delas para imprimir essa devoção nas almas... Será preciso muito tempo para estabelecer esta devoção, trabalhai nela com coragem”.

“Todas as palavras ditas a respeito das minbas Chagas me dão prazer, um indizível prazer!... Conto-as todas”.

“Mesmo que haja pessoas que não queiram vir às minhas Chagas, é preciso que tu, minha filha, aí as faças entrar!”

Um dia em que a Irmã Maria Marta sentia uma sede ardente, disse-lhe o seu Bom Mestre:

“Minha filha, vem a mim e eu te darei uma água que te saciará! No Crucifixo, há tudo: há com que saciar, há para todas as almas!”

“Minha filha, eu quero que tu bebas nas minhas Chagas para dar aos pequeninos”.

“Com as minhas Chagas tendes tudo! Elas fazem obras sólidas, não pelo gozo, mas pelo sofrimento”.

“Vós sois operárias que trabalhais no campo do Senhor: com as minhas Chagas, ganhais muito e sem dificuldade. Oferece-me as tuas ações e as de tuas Irmãs, unidas às minhas Sagradas Chagas; nada as pode tornar mais meritórias nem mais agradáveis aos meus olhos. - Há riquezas incompreensíveis, mesmo nas mais pequenas.”

Convém notar o seguinte: nas manifestações e confidências de que acabamos de falar, o Divino Salvador não se apresentava sempre à Irmã Maria Marta com todas as suas adoráveis Chagas, às vezes mostrava-lhe apenas uma à parte. Foi assim que um dia, depois deste ardente convite:

“Deves aplicar-te a curar as minhas feridas contemplando as minhas Chagas.”

Ele lhe descobre o seu pé direito, dizendo:

“Quanto não deves respeitar esta Chaga e esconder-te nela como a pomba!”

Uma outra vez mostra-lhe a sua mão esquerda:

“Minha filha, tira da minha mão esquerda os meus méritos para as almas, para que elas estejam à minha mão direita por toda a eternidade... As almas religiosas estarão à minha direita para julgar o mundo, mas, antes disso, pedir-lhes-ei conta das almas que deveriam salvar.”

  1. 1. Todas estas palavras foram pronunciadas em diversas circunstâncias, especialmente no ano de 1868. Nosso Senhor dirigia-se umas vezes só à Irmã Maria Marta, e outras - por meio dela - à Comunidade e a todos os fiéis.

6. A "Missão"

A “Missão”

 

“Uma coisa me penaliza, dizia o doce Salvador à sua humilde serva, é que há almas que olham a devoção às minhas Chagas como estranha, como desprezível, como uma coisa que não convém ... e é por isso que ela cai no esquecimento. No Céu, eu tenho santos que tiveram uma grande devoção às minhas Sagradas Chagas, mas na terra, quase ninguém me honra desta forma.”

Esta queixa tem todo o fundamento! Num mundo onde “gozar” parece ser a única preocupação, quantas pessoas, mesmo cristãs, perderam a noção do sacrifício!... Pouquíssimas almas compreendem a cruz! Muito poucas se aplicam a meditar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que S. Francisco de Sales chama, tão justamente, “a verdadeira escola do amor; o mais doce e o mais violento impulso da piedade”.

Ora, Jesus não quer que fique inexplorada esta mina inesgotável, nem que fiquem esquecidos e perdidos os frutos das Sagradas Chagas. Escolherá - e não faz Ele sempre assim? - o mais humilde dos instrumentos para executar a sua obra de amor. No dia 2 de outubro de 1867, a Irmã Maria Marta assistia a uma “tomada de hábito”, quando, abrindo-se a abóbada dos Céus, ali viu ela desenrolar-se a mesma cerimônia com um esplendor bem diferente do da terra. Toda a Visitação do Céu estava presente, e as primeiras madres, voltando-se para ela, como para lhe anunciar uma boa nova, disseram-lhe todas contentes:

“O Pai Eterno deu à nossa Santa Ordem o seu Filho, de três maneiras:

“1.° Jesus Cristo, a sua Cruz e as Chagas, a esta casa particularmente.

“2.° O seu Sagrado Coração.

“3.° A sua Santa Infância para honrar; é preciso que tenhais toda a simplicidade duma criança nas vossas relações com Ele.”

Este tríplice dom não parece novo. Remontando às origens do Instituto, encontramos na vida da nossa Madre Ana Margarida Clément, contemporânea de Santa Joana de Chantal, estas três devoções que distinguiram todas as religiosas formadas por ela. Alguns dias mais tarde, a nossa Rev.ma Madre Maria Paulina Deglapigny, falecida havia dezoito meses, apareceu à sua antiga filha e confirmou-lhe o dom das Sagradas Chagas: “A Visitação, disse-lhe ela, já tinha uma grande riqueza, mas não era completa. Eis aí porque é ditoso o dia em que deixei a terra, pois, em lugar de terdes somente o Sagrado Coração de Nosso Senhor, tereis toda a Santa Humanidade, isto é, as suas Sagradas Chagas. Eu pedi esta graça para vós.”

O Coração de Jesus! ah! quem o possue não possuirá Jesus todo? todo o amor de Jesus?... Sem dúvida. Mas as Sagradas Chagas são como que a expressão prolongada - e bem eloqüente - desse amor. Por isso é que Jesus quer que O honremos todo e que adorando o seu Coração ferido, não esqueçamos as suas outras Chagas, abertas também pelo amor. E não deixa de oferecer interesse, a êste propósito, comparar o dom da Humanidade Padecente de Jesus, feito à nossa Irmã Maria Marta, com o que foi concedido, na mesma época, à nossa venerável Madre Maria de Sales Chappuis: o dom da Humanidade Santa do Salvador.

S. Francisco de Sales, nosso bem-aventurado pai, que muitas vezes visitava a sua querida filha para a instruir paternalmente, também a confirmou na certeza da sua “missão”. Um dia que eles conversavam juntos, disse-lhe ela com a sua costumada ingenuidade:

- “Meu Pai, bem sabeis que as nossas Irmãs, não teem confiança nas minhas afirmações, porque eu sou muito imperfeita.”

- “Minha filha, respondeu o santo, as vistas de Deus não são as da criatura, - a criatura julga segundo as vistas humanas. - Deus dá as suas graças a uma miserável que nada tem, a fim de que tudo a Ele se atribua. Deves estar bem contente com as tuas imperfeições, porque elas escondem os dons de Deus. - Deus escolheu-te para completar a devoção ao Sagrado Coração: o Coração foi mostrado à minha filha Margarida Maria, e as Sagradas Chagas à minha pequenina Maria Marta!... É uma alegria para o meu coração de Pai, que esta honra seja prestada por vós a Jesus Crucificado! Isto faz o complemento da Redenção que Jesus tanto desejou!”

A SS.ma Virgem veio também, num dia da Visitação, confirmar a jovem Irmã no seu caminho. Acompanhada dos nossos santos fundadores e da nossa santa Irmã Margarida Maria, disse-lhe com bondade:

“Eu dou o meu fruto à Visitação, assim como o levei à minha prima Isabel. - O teu Santo Fundador reproduziu os trabalhos, a doçura e a humildade de meu Filho; a tua Santa Mãe de Chantal, a minha generosidade, passando por cima de todos os obstáculos para se unir a Jesus e fazer a sua santa vontade; a tua bem-aventurada Irmã Margarida Maria, reproduziu o Sagrado Coração de meu Filho para o dar ao mundo... E tu, minha filha, foste escolhida para deter a justiça de Deus fazendo valer os méritos da Paixão e das Sagradas Chagas do meu único e bem-amado Filho, Jesus...”

E como a Irmã Maria Marta opusesse algumas objeções sobre as dificuldades que havia de encontrar, disse-lhe a Virgem Imaculada:

“Minha filha, não vos inquieteis, nem tu, nem a tua superiora, porque o meu Filho sabe bem o que há-de fazer... Quanto a vós, fazei só, dia a dia, o que Jesus deseja...”

Os convites e as exortações da SS.ma Virgem multiplicavam-se e tomavam todas as formas:

“Se quereis riquezas, ide buscá-las às Sagradas Chagas de meu Filho... Todas as luzes do Espírito Santo saem das Chagas de Jesus, mas recebereis estes dons à proporção da vossa humildade...”

“Eu sou a vossa Mãe e digo-vos: ide buscar as graças às Chagas de meu Filho!... Sugai o sangue até o esgotar, o que, afinal, nunca aconteceria.”

“É preciso que tu, minha filha, apliques as Chagas de meu Filho pelos maus, para os converter.”

Depois das intervenções das primeiras madres, do nosso santo fundador (S. Francisco de Sales) e SS.ma Virgem, não devemos esquecer neste quadro, as de Deus-Pai, por quem a nossa querida Irmã sentiu sempre uma ternura, uma confiança filial e que por Ele foi divinamente amimada. - Foi Ele quem primeiro a instruiu acerca da sua “missão” futura e lha recordava de tempos a tempos:

“Minha filha, dou-te o meu Filho para te ajudar durante o dia, a fim de poderes pagar tudo o que deves à minha justiça por todos. Tirarás constantemente das Chagas de Jesus aquilo com que deves pagar as dívidas dos pecadores.”

A Comunidade fazia procissões e orações por diversas necessidades:

“Tudo isso que me dais nada é, declarou Deus-Pai.”

“- Se não é nada, replicou a audaciosa Irmã, ofereço-Vos tudo o que o Vosso Filho fez e sofreu por nós.”

“- Ah! responde o Pai Eterno, isso é muito!”

Por sua vez, Nosso Senhor, para fortificar a sua serva, assegura-lhe, muitas vezes, que ela é realmente chamada a reavivar a devoção às Chagas redentoras:

“Eu te escolhi para despertar a devoção à minha Santa Paixão nos desgraçados tempos em que viveis.”

Depois, mostrando-lhe as suas Sagradas Chagas como um livro onde queria ensinar-lhe a ler, ajunta o Bom Mestre:

“Não tires os olhos deste livro e nele aprenderás mais do que os maiores sábios. A oração às Sagradas Chagas compreende tudo.”

Noutra ocasião, durante o mês de junho, estando ela prostrada aos pés do SS.mo Sacramento, Nosso Senhor abrindo o seu Coração Sagrado, como a fonte de todas as outras Chagas, insiste ainda:

“Eu escolhi a minha fiel serva Margarida Maria para divulgar o meu Divino Coração, e a minha pequenina Maria Marta para insinuar a devoção às outras minhas Chagas!... As minhas Chagas salvar-vos-ão infalìvelmente; elas salvarão o mundo.”

Numa outra circunstância disse-lhe:

“O teu caminho é tornar-me conhecido e amado pelas minhas Sagradas Chagas, sobretudo no futuro.”

Pede-lhe que ofereça incessantemente as suas Divinas Chagas pela salvação do mundo:

“Minha filha, o mundo será mais ou menos perturbado, conforme tu tiveres feito a tua tarefa... Tu foste escolhida para satisfazer a minha justiça. Encerrada no claustro, deves viver na terra como se vive no Céu, amar-me, orar incessantemente para apaziguar a minha vingança e renovar a devoção às minhas Sagradas Chagas.

“Eu quero que, por esta devoção, não só as almas com quem vives sejam salvas, mas ainda muitas outras!”

«Um dia, pedir-te-ei contas se tu aproveitaste bem este tesouro em favor de todas as minhas criaturas”.

“Verdadeiramente, lhe disse Ele mais tarde, verdadeiramente, minha esposa, Eu habito neste lugar e em todos os corações!... Neles estabelecerei o meu reino de paz, destruirei pelo meu poder, todos os obstáculos, porque Eu sou o Senhor dos corações e conheço todas as misérias... Tu, minha filha, és o canal das minhas graças. Fica sabendo que o canal nada tem de seu, não tem senão aquilo que fazem passar por dentro dele. É preciso que, como canal, não guardes nada e digas tudo o que te comunico”.

“Eu te escolhi para fazeres valer os méritos da minha Sagrada Paixão por todos; mas quero que te conserves sempre escondida. - A mim me compete anunciar mais tarde que é por êste meio que o mundo há-de ser salvo - e também pelas mãos de minha Mãe Imaculada!...”

5. Opinião dos Superiores Eclesiásticos

Opinião dos Superiores Eclesiásticos

 

A superiora e directora duma alma tão privilegiada não podiam tomar só sobre si a responsabilidade deste caminho extraordinário... Consultaram os superiores eclesiásticos e em especial, o Rev.mo Cônego Mercier, Vigário Geral e Superior da Casa, sacerdote de grande prudência e de grande piedade; o Rev.o Pe. Ambroise, provincial dos Capuchinhos da Sabóia, homem de grande valor moral e doutrinal; o Rev.mo Cônego Boudier, apelidado “o Anjo dos Montes”, capelão da comunidade, cuja reputação de ciência e santidade passavam os limites da nossa província. O exame foi sério e completo. Os três examinadores foram unânimes em afirmar que o caminho, que a Irmã Maria Marta seguia, tinha o selo divino. Aconselharam que se escrevesse tudo, mas aliando a prudência às suas luzes, julgaram também que era preciso ocultar estes fatos até que aprouvesse “a Deus revelá-los diretamente”. Foi por isso que a Comunidade ignorou as graças insignes com que era favorecida, num dos seus membros - o menos apto para as receber, humanamente julgando. Foi por isso também que, considerando como sagrado o conselho dos superiores eclesiásticos, a Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel começou a relatar, diariamente, com escrupulosa exatidão, não omitindo mesmo certas faltas - frutos da ignorância ou de falta de memória - as narrações da humilde conversa, a quem Nosso Senhor dava ordem de nada ocultar à superiora. “Nós depomos aqui, na presença de Deus e dos nossos Santos Fundadores, por obediência e o mais exatamente possível, o que cremos ser-nos enviado do Céu por uma amorosa predileção do Divino Coração de Jesus, para felicidade da nossa Comunidade e bem das almas”.

“Deus parece ter escolhido, na nossa humilde família, a alma privilegiada que deve renovar, no nosso século, a devoção às Sagradas Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a nossa humilde Irmã doméstica Soror Maria Marta Chambon, que o Salvador gratifica com a sua presença sensível. Ele mostra-lhe todos os dias as Divinas Chagas, para que ela aplique constantemente os seus méritos, pelas necessidades da Santa Igreja, pela conversão dos pecadores, pelas necessidades do nosso Instituto, - e sobretudo para o alívio das almas do Purgatório”.

“Jesus fez dela o seu brinquedo de amor e a vítima do seu beneplácito... - e nós, cheias de reconhecimento, sentimos, a cada instante, a eficácia das suas orações sobre o Coração de Deus.”

Tal é a declaração com que se abre a narração da Rev.ma Madre Teresa Revel, digna confidente dos favores do Altíssimo. -É' às suas notas que vamos buscar todas as citações que vão seguir-se.

4. Três dias de êxtase

Três dias de êxtase

 

No mês de Setembro de 1867, a Irmã Maria Marta caiu, como lho tinha anunciado o Divino Mestre, num estado incompreensível, que difìcilmente se pode definir: estava deitada no seu leito, imóvel, sem falar, sem ver, não tomando alimento algum; mas o pulso continuava muito regular e tinha o rosto levemente colorido. Isto durou três dias, 26, 27 e 28, em honra da SS.ma Trindade, e foram, para a triste vidente, três dias de graças excepcionais... Todo o esplendor dos Céus veio iluminar o humilde lugar onde desceu a Trindade Santíssima. Deus Pai, apresentando-lhe Jesus numa hóstia, disse-lhe: “Eu te dou Aquele que tu me ofereces tantas vezes”, e deu-lhe a Comunhão. Depois desvendou·lhe os mistérios de Belém e da Cruz, iluminando a sua alma com vivas luzes sobre a Encarnação e a Redenção. Tirando depois de Si mesmo o seu Espírito como um raio de fogo, deu-lho afirmando-lhe: “Ele contém a luz, o sofrimento e o amor!... O amor será para mim; a luz para descobrires a minha vontade; o sofrimento, enfim, para sofreres, de momento a momento, como Eu quero que sofras.”

No último dia, convidando-a a contemplar, num raio que descia do Céu sobre ela, a Cruz do Filho, o Pai Celeste “fez-lhe compreender melhor as Chagas de Jesus, para o seu bem pessoal”. Ao mesmo tempo, num outro raio que partia da terra para o Céu, viu ela claramente a sua missão e como devia fazer valer os méritos das Chagas de Jesus para o mundo inteiro.

3. Vigílias e penitências corporais

Vigílias e penitências corporais

 

As Superioras, inclinando-se perante os sinais certos da vontade do Céu - sinais em que não podemos deter-nos para não avolumar este pequeno opúsculo – decidiram-se, pouco a pouco, apesar das apreensões, entregá-la às exigências de Jesus Crucificado.

A Irmã Maria Marta vê-se primeiro convidada a passar as noites estendida no soalho da cela. Depois recebe a ordem de trazer noite e dia um rude cilício. Em breve deve entrançar uma coroa de agudos espinhos que não lhe permite mais apoiar a cabeça, sem sentir dolorosos sofrimentos.

No fim de oito meses, em maio de 1867, não contente com as noites passadas no chão, com o cilício e a coroa de espinhos, Jesus exige à Irmã Maria Marta o sacrifício do próprio sono, pedindo-lhe que vele sozinha, junto do SS.mo Sacramento, enquanto tudo dorme no Mosteiro. Em tais exigências não encontra a natureza satisfação! Mas não é este o preço habitual dos favores divinos?... No silêncio das noites, Nosso Senhor comunicava-se à sua serva da maneira mais maravilhosa. Algumas vezes, é certo, Ele a deixava lutar penosamente, durante longas horas, com a fadiga e o sono, mas o mais freqüente era apoderar-se dela imediatamente e arrebatá-la a uma espécie de êxtase. Confiava-lhe as suas penas e os seus segredos de amor, enchia-a de carícias, tirava-lhe o coração para o meter dentro do seu. O seu trabalho nesta alma tão humilde, tão simples e dócil, aumentava todos os dias.

2. Primeiros anos de vida religiosa

Primeiros anos de vida religiosa

 

Francisca Chambon tinha 18 anos quando entrou no Mosteiro da Visitação de Santa Maria de Chambéry. Dois anos mais tarde, na festa de Nossa Senhora dos Anjos - 2 de agosto de 1864 - pronunciou os santos votos, tomando lugar, definitivamente, entre as religiosas de véu branco (leigas), com o nome de Irmã Maria Marta. Nada, exteriormente, fazia prever coisa alguma em favor da nova esposa de Jesus. A beleza da filha do Rei era verdadeiramente toda interior... Deus que, indubitavelmente se reservava compensações, tinha, no que respeita aos dons naturais, tratado a Irmã Maria Marta com verdadeira parcimônia!... Maneiras e linguagem rústicas, inteligência quase medíocre, que nenhuma cultura, nem sequer sumária, viera desenvolver: a Irmã Maria Marta não sabia ler nem escrever1; sentimentos que só se elevavam sob a influência divina; um temperamento vivo e um pouco tenaz; as suas Irmãs bem o dizem sorrindo: “Oh! era uma santa! mas uma santa que por vezes nos dava trabalho!...”

A “santa” bem o sabia! E com uma candura comovedora, queixava-se a Jesus por ter tantos defeitos: “As tuas imperfeições, respondia Ele, são a maior prova de que tudo o que se passa em ti vem de Deus. Eu nunca tas tirarei; elas são a cobertura que esconde os meus dons. Desejas muito ocultar-te? Eu ainda o desejo mais do que tu!...”

Ao lado deste retrato, gostaríamos de colocar outro, com traços mais atraentes. Sob estas aparências menos lisonjeiras, a observação mais atenta das superioras em breve adivinhou, e depois descobriu, uma fisionomia moral já muito bela, embelezando-se todos os dias sob a ação do Espírito de Jesus. Notam-se aqui traços marcados com esses sinais infaliveis que revelam o Artista Divino... e revelam-no tanto melhor quanto os senões da natureza não desapareceram: nesta inteligência tão apagada, quantas luzes, quantas vistas profundas! Neste coração sem cultura natural, que inocência, que fé, que piedade, que humildade, que sede de sacrifício! Bastará agora recordar o testemunho da superiora, a Rev.ma Madre Teresa Eugênia Revel: “A obediência é tudo para ela. A candura, a retidão, o espírito de caridade que a anima, a mortificação e, sobretudo, a humildade sincera e profunda, parecem-nos as garantias mais certas da ação de Deus sobre esta alma. Quanto mais recebe, mais entra num verdadeiro desprezo de si mesma, estando quase sempre esmagada pelo temor de estar na ilusão. Dócil aos conselhos que lhe dão, as palavras do sacerdote e da superiora têm um grande poder para lhe dar a paz... O que sobretudo nos tranqüiliza é o seu amor apaixonado à vida escondida, a imperiosa necessidade de fugir dos olhares humanos e o receio de que percebam o que nela se passa.”

* * *

Os dois primeiros anos de vida religiosa da nossa Irmã decorreram quase normalmente; a não ser um dom de oração pouco vulgar, um recolhimento perpétuo, uma fome e sêde de Deus contínuas, nada se lhe notava de verdadeiramente particular que fizesse prever coisas extraordinárias. Mas, em setembro de 1866, a jovem conversa começou a ser favorecida com freqüentes visitas de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem, das almas do purgatório e dos Espíritos Bem-aventurados.

Jesus Crucificado - sobretudo - oferece, quase todos os dias, à sua contemplação, as Divinas Chagas, ora resplandecentes e gloriosas, ora lívidas ou ensangüentadas, pedindo-lhe que se associe às dores da sua Sagrada Paixão.

  1. 1. Importa nunca perder de vista esta completa ignorância da Maria Marta: dum lado ficaremos maravilhados por achar tanta “exatidão doutrinal e precisão de expressões” numa pessoa de tão pouca cultura; doutro, desculparemos facilmente o que houver a desejar em certos “pormenores que se não relacionam com a substância das coisas”. (Apreciação do Rev. Pe. Mazoyer, S. J.)

23. Se é conveniente, ao combater o erro, combater e desacreditar a personalidade de quem o sustenta e divulga.

Pe. Sarda y Salvany

Dirá alguém: “É certo que assim se passa com as doutrinas abstratas. Mas será conveniente combater o erro, por maior que seja, ao se fixar e encarniçar contra a personalidade de quem o sustenta?” Eis a nossa resposta: Sim, muitíssimas vezes é conveniente, e não só conveniente, mas até indispensável e meritório diante de Deus e da sociedade. E ainda que se possa deduzir essa afirmação do que anteriormente foi exposto, queremos todavia tratá-la aqui ex professo, pois é grande a sua importância.

Com efeito, não é pouco frequente a acusação que se faz aos apologistas católicos de preocupar-se sempre com pessoas, e quando se lança essa acusação a um dos nossos, parece aos liberais e aos contaminados de liberalismo que já não há mais que dizer para condená-lo. E contudo não têm razão; não, não a têm. As idéias más devem ser combatidas e desacreditadas, e é preciso torná-las odiosas, desprezíveis e detestaveis à multidão, a quem elas tentam enganar e seduzir.

Assim como as idéias não se sustentam em nenhum caso por si mesmas, elas não se difundem nem se propagam sozinhas; não poderiam, por si mesmas, produzir todo o mal de que sofre a sociedade. São como as flechas ou balas, que a ninguém iriam ferir, se não houvesse quem as disparasse com o arco ou o fuzil.

Ao arqueiro e ao fuzileiro devem se dirigir, pois, os tiros de quem pretenda destruir a sua mortal pontaria. E qualquer outro modo de fazer guerra será tão liberal como queiram, mas não terá senso comum.

Os autores e propagandistas de doutrinas heréticas são soldados com armas de envenenados projéteis; suas armas são o livro, o jornal, o discurso público, a influência pessoal. Não basta, pois, desviar-se para evitar o tiro. Não, a primeira coisa a se fazer, a mais eficaz, é inabilitar o atirador.

Assim, convém desautorizar e desacreditar o livro, o jornal e o discurso do inimigo; e não só isto, mas também, em certos casos, desautorizar e desacreditar a sua pessoa. Sim, a sua pessoa, pois este é o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, a pólvora ou o canhão. Pode-se, pois, em certos casos revelar em público suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia seu nome e sobrenome. Sim, leitor, e pode-se fazer em prosa ou em verso, a sério ou de piada, em caricaturas e por todos os meios e procedimentos que no futuro se possa inventar. É importante apenas não pôr a mentira a serviço da justiça. Isso não; não se pode sob pretexto algum faltar com a verdade, nem um iota. Porém, sem sair dos estritos limites desta verdade, lembremo-nos daquele dito de Crétineau-Joly: A verdade é a única caridade permitida à história; poderíamos acrescentar: e à defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres, que já citamos, provam esta tese. Os próprios títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, o primeiro tiro procuravam dirigi-lo contra os heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichoeum, Adversus Adamanctum; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis fuerit Julianus etc. De modo que quase toda a polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto como doutrinal; lutando corpo a corpo com o herege, como também contra a heresia. E o que dizemos de Santo Agostinho poderíamos dizer de todos os Santos Padres.

De onde o liberalismo tirou, pois, a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e até mesmo as lisonjear e agradar? Firmem-se no que ensina sobre isto a tradição cristã, e deixem-nos a nós, os ultramontanos, defender a fé como se defendeu sempre na Igreja de Deus.

Que penetre, pois, a espada do polemista católico; que fira e vá direto ao coração! É a única maneira real e eficaz de combater.

1. Infância e juventude

Sua infância e juventude

 

Francisca Chambon nasceu duma família de agricultores, modesta mas cristã, na aldeia de Croix-Rouge, perto de Chambéry, no dia 6 de Março de 18411. No mesmo dia recebeu o santo batismo, na Igreja paroquial de S. Pedro de Lemenc. Aprouve a Nosso Senhor revelar-se muito cedo a esta alma inocente. Quando Francisca tinha nove anos, levando-a uma sua tia à adoração da cruz, numa sexta-feira santa, viu Jesus Cristo lacerado, ensanguentado, como no Calvário. “Oh! em que estado o vi!”... dirá ela mais tarde. Foi esta a primeira revelação da Paixão do Salvador, que devia ocupar tanto lugar na sua existência. Mas nos seus tenros anos, foi sobretudo favorecida pelas visitas do Menino Jesus. No dia da sua Primeira Comunhão, veio a ela visìvelmente; e desde então, em todas as comunhões, até à morte, será sempre Jesus Menino que ela verá na Santa Hóstia. Jesus tornou-se o companheiro inseparável da sua juventude, seguia-a ao trabalho, nos campos, conversava com ela pelos caminhos e acompanhava-a à casa paterna. “Estávamos sempre juntos... oh! como eu era feliz! tinha o Paraíso no coração!...” dizia ela recordando, no fim da vida, estas longínquas e dulcíssimas lembranças. Na época destes precoces favores, Francisca nem pensava em contar a sua vida de familiaridade com Jesus: contentava-se em gozá-la, julgando ingenuamente que toda a gente possuía o mesmo privilégio. Contudo, a pureza e o fervor desta menina não podiam passar despercebidos ao digno pároco da freguesia: e por isso dava-lhe freqüentemente a Sagrada Comunhão. Foi também ele que nela descobriu a vocaçao religiosa e a foi apresentar ao Mosteiro da Visitação. 

  1. 1. A data correta é 6 março 1841 [N. do ed.].
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