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Category: AnônimoConteúdo sindicalizado

Introdução ao segundo domingo da Quaresma

“Este é meu Filho bem-amado, escutai-O” 

 

Paramentos roxos

 

A estação de hoje reunia-se na Igreja de Santa Maria, chamada In Dominica, pelo fato de os cristãos aí se congregarem no Domingo. Era tradição ter sido nela que São Lourenço distribuía os bens da Igreja aos pobres. Era no século V paróquia de Roma.

Como nos três Domingos da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, são nos 2°, 3° e 4° da Quaresma os textos do Antigo Testamento que formam a trama da composição das missas, de sorte que os séculos passados continuam a preparar-nos para os mistérios da Páscoa. No 2° Domingo da Quaresma, lemos em Matinas a história da benção solene do velho Isaac dada no leito da agonia ao seu filho Jacó. Todos conhecem esta bela página da Escritura. A Abraão e Isaac sucede Jacó, de preferência ao primogênito Esaú, para se tornar o herdeiro e transmissor das promessas e bênçãos divinas. “Sê o senhor dos seus irmãos e que as nações se prostrem diante de ti. Todos os povos serão abençoados em ti e no que nascer de ti” (Gênesis). Os Santos Padres veem no Patriarca Jacó que suplanta o irmão para ser, em vez dele, o objeto dos favores divinos, uma figura de Cristo, o segundo Adão que se torna, em vez do primeiro, o chefe duma humanidade regenerada e abençoada por Deus, aquele em quem o Pai pôs todas as complacências e os povos serão abençoados. Comparando os dois textos, o do Gênesis e o do Evangelho da Missa, facilmente poderemos ver como concordam e se completam no pormenor mais insignificante. Deus abençoou o seu filho revestido da nossa carne, como Isaac abençoou Jacó revestido das vestes do irmão. Santo Agostinho, que olha as peles de cabrito como um símbolo do pecado, diz que Jacó, cobrindo com elas as mãos e o pescoço, é a imagem de Cristo, que, sendo sem pecado, tomou sobre Si os pecados dos outros1.

Isto deixa-nos ver como a história de Jacó é figura de Cristo e da Igreja. E lembremo-nos que Jesus Cristo, o Filho de Deus, que o Evangelho de hoje nos apresenta a transfiguração no Monte Tabor como sendo o objeto das complacências do Pai, solidarizou-se conosco, ao ponto de se vestir “com a carne” e de se deixar morrer por nós para nos tornar coerdeiros da sua glória e filhos queridos do Pai dos Céus. Em Jesus fomos abençoados por Deus — n’Ele que é o mais velho, o primogênito de muitos irmãos.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

  1. 1. O Pontifical oferece-nos, na oração que o Prelado diz ao calçar as luvas, um simbolismo idêntico “Cobri, Senhor, as minhas mãos com a pureza do Homem Novo que desceu dos Céus a fim de que, tendo Jacó obtido com as mãos cobertas de peles de cabrito, a benção de seu pai, possa eu alcançar também a benção da vossa graça, oferecendo-Vos esta vítima de salvação”

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação

Irmã Maria-Marta Chambon Da Visitação de Santa Maria de Chambéry e as Sagradas Chagas de N. S. Jesus Cristo

 

V. + J.

 

Irmã Maria-Marta Chambon

Da Visitação de Santa Maria de Chambéry

AS SAGRADAS CHAGAS DE N. S. J. CRISTO

 

5ª Edição

1926

 

ADAPTADO DA VERSÃO PORTUGUESA POR PERMANÊNCIA

apresentação do primeiro domingo da quaresma

“E vieram os anjos e serviram-no”

 

Paramentos roxos

 

Neste domingo que era outrora o primeiro dia da Quaresma, reunia-se a estação na basílica de S. Salvador 1.

Toda a liturgia respira um pensamento de fortificante confiança, desde o Intróito, Gradual e Ofertório até a Comunhão, compostos todos com versículos do Salmo 90 que vem quase por inteiro no Tracto e se repete durante a Quaresma para ser, por assim dizer, o diapasão da vida nova, de bom combate, que devemos levar nestes dias. E não são acaso as lutas do Salvador, que se vão desenrolando diante de nós, para nos encorajar na batalha? A Igreja, pelo menos, assim nos dá a entender, propondo à nossa meditação o Evangelho que refere à tentação de Cristo. Era a missão que empreendera de esmagar Satã que começava, e referi-la a Igreja neste princípio da Quaresma parece querer indicar o verdadeiro motivo de confiarmos na vitória. O Senhor triunfou e a Igreja diz-nos que podemos triunfar com Ele, porque afinal a verdade é que a tentação e o combate que se desenrola em nós e à nossa volta, são a tentação e o combate e também a vitória de Cristo. O nosso esforço é d’Ele, as nossas forças são d’Ele e o nosso triunfo na Páscoa é d’Ele também. Empreendamos, pois, generosamente o bom combate cuja estratégia o Apóstolo em grandes linhas nos traça na Epístola da Missa. Encorajemo-nos com este pensamento de que o progresso espiritual nas almas é a vitória de Cristo que se prolonga e que o combate necessário para a garantir já foi dado. Estes dias da Quaresma são tempo de salvação, são o tempo favorável que nos permite marcar posições definitivas no combate incessante do espírito contra a carne. E a Igreja convida-nos com maternal solicitude a terçar armas neste combate glorioso, para celebrarmos purificados na alma e no corpo o mistério sublime da Paixão do Senhor.

É verdade, diz S. Leão em Matinas, que deveríamos viver sempre diante de Deus com as mesmas disposições requeridas para a condigna celebração dos mistérios pascais. Mas, porque isto é virtude e apanágio de poucos e porque a fragilidade humana tende sempre para o relaxamento, aproveitemo-nos ao menos da Quaresma para recuperarmos o tempo perdido e reparemos, pela penitência e boas obras, as faltas e negligências do outro tempo.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952

  1. 1. A Quarta-feira de Cinzas e os dias subsequentes até o 1° Domingo só mais tarde foram adicionados á Quaresma para completar os 40 dias de jejum.

Introdução ao domingo da Quinquagésima

Jesus disse-lhe: Vê; a tua fé te salvou.” (Evangelho)

Paramentos roxos

A Igreja estuda com particular diligência, nas três semanas da Septuagésima, as grandes figuras de Adão, Noé e Abraão, que respectivamente apelida: pai do gênero humano; pai de numerosa descendência; e pai dos crentes. Já estudamos nos domingos da Septuagésima e da Sexagésima os dois primeiros. Vamos estudar hoje Abraão. Na liturgia ambrosiana o Domingo da Paixão era chamado Domingo de Abraão e liam-se no ofício os responsórios de Abraão. Na liturgia romana o Evangelho desse Domingo é consagrado ainda ao grande patriarca. Mas depois, quando se juntou à Quaresma o Tempo da Septuagésima, reservou-se o Domingo da Quinquagésima para o Patriarca.

Querendo Deus criar um povo para Si e preservá-lo do contágio da idolatria, deu-lhe um chefe que o governasse, a quem chamou Abraão, que quer dizer pai de muitos povos. Retirou-o de Ur, cidade da Caldeia, e conduziu-o para a terra que lhe prometera e guardou-o em todos os seus caminhos. Foi pela fé, diz a Epístola aos Hebreus, que Abraão obedeceu ao apelo divino e partiu para o país que devia receber em herança. Partiu cheio de fé sem saber para onde ia. Foi pela sua fé que chegou a Canaã onde viveu 25 anos como estrangeiro. Foi pela sua fé que já na velhice se tornou pai de Isaac e que não duvidou, à voz de Deus, sacrificá-lo, não obstante, ser o filho único em quem tinha posta a esperança de ver realizar-se a promessa divina duma posteridade numerosa. Bem sabia o Patriarca que Deus era assaz poderoso para ressuscitar lhe o filho de entre os mortos. E por este motivo o recuperou, e isto em figura. De fato, Isaac, escolhido para ser gloriosa vítima de seu pai, foi uma figura de Jesus Cristo. Como Ele, levou às costas o instrumento do sacrifício e foi arrancado miraculosamente às garras da morte. Foi assim que Abraão, com a sua fé, acreditando sem hesitar na palavra de Deus, contemplou de longe o triunfo do Senhor na Cruz e alegrou-se. E foi então que Deus lhe confirmou a promessa: “Porque não recusaste sacrificar-Me o teu filho único, abençoar-te-ei e dar-te-ei uma descendência numerosa como as estrelas do Céu e como as areias das praias”. Estas promessas realizou-as Jesus Cristo com a sua Paixão. Jesus Cristo resgatou-nos, diz São Paulo, e deixou-se morrer na Cruz, a fim de que a benção de Abraão fosse comunicada por Ele aos gentios e recebêssemos pela fé a promessa do Espírito, quer dizer, do Espírito de adoção que nos fora prometido. E é por isso que a oração da 5ª leitura do Sábado Santo nos diz que Deus “Pai soberano dos crentes, derramando abundantemente sobre a Terra a graça da adoção, multiplica os filhos da promessa pelo mistério pascal constitui Abraão, seu servo, pai de todos os povos. É com efeito pelo Batismo (que outrora se ministrava na Páscoa e no Pentecostes) que nos tornamos filhos de Abraão e entramos na herança que Deus prometeu a nossos pais e que é a Igreja, simbolizada pela terra prometida”.

A fé em Jesus Cristo, que mereceu a Abraão a prerrogativa de pai dos crentes e nos dá a faculdade de nos tornarmos seus filhos, constitui o tema do Evangelho de hoje. Jesus Cristo anuncia a sua Paixão e triunfo e cura um cego dizendo-lhe: a tua fé te salvou. Este cego recobrou a vista, diz S. Gregório, na presença dos Apóstolos. E isto foi para confirmar a fé dos que não podiam ainda suportar toda a luz da revelação dum mistério celeste. Porque era necessário que, vendo-O mais tarde morrer pelo modo que lhes predissera, não duvidassem de que havia de ressuscitar também. A Epístola por seu lado põe em plena evidência a fé de Abraão. E não é como filhos carnais de Abraão que nos havemos de salvar, mas como filhos duma fé semelhante à de Abraão. Em Jesus Cristo, diz S. Paulo, nem a circuncisão (os Judeus), nem a não circuncisão (os Gentios) valem nada, mas a fé que opera na caridade. “Andai no amor, continua o Apóstolo, naquele amor de que nos amou Cristo”.

Neste domingo e nos dois dias seguintes costuma fazer-se uma adoração solene do SS. Sacramento, denominada, Adoração das 40 horas, pelos excessos cometidos nestes dias. Foi instituída por S. Antonio Maria Zacaria († 1539) e enriquecida com numerosas indulgências por Clemente XIII.

 

Do Evangelho: Este cego de que nos fala o Evangelho representa sem dúvida o gênero humano. Depois que foi expulso do Paraíso na pessoa do primeiro homem, ignora as claridades da luz sobrenatural e sofre as consequências do seu erro, mergulhado nas trevas do exílio.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

O bom samaritano da década de 1970 nos Estados Unidos

[Nota da Permanência: O texto a seguir foi escrito por um monge beneditino norte-americano em homenagem a Dom Marcel Lefebvre. Tudo aquilo que o religioso escreveu acerca da importância do grande bispo para os católicos do seu país, podemos subscrever no que se refere aos católicos do Brasil]

 

A década de 1970 foi uma época turbulenta para a Igreja Católica. A aplicação das mudanças litúrgicas na Igreja foi brutalmente implementada com o assim chamado espírito do Concílio. Nós testemunhamos a destruição dos altares principais das igrejas, sendo substituídos pelo que ficou conhecido como as mesas de açougueiro de 19701 . Vimos as igrejas sendo destituídas da mesa de comunhão dos fiéis, das imagens dos santos e do crucifixo acima do altar principal, o qual foi substituído por uma cruz vazia e um véu branco representando o Cristo ressuscitado em oposição ao sacrifício de Cristo na Cruz. O tabernáculo foi escondido em alguma parte obscura da igreja. O sagrado canto gregoriano foi substituído, na melhor das hipóteses, por “Kumbaya, My Lord” 2, ou, na pior das hipóteses, com as missas “clown” 3 ou “rock-n-roll”. A mais devastadora mudança foi no rito sagrado da missa em si, que ficou desfigurado a ponto de ficar essencialmente irreconhecível. Os clérigos daquela época tornaram-se centrados no homem. Eles não mais pregavam sermões sobre Deus e as almas, mas denunciavam a injustiça social sobre o proletariado.

As vítimas de todas essas mudanças foram os próprios padres e os fiéis sob seus cuidados. Algumas estimativas falam de 120.000 padres abandonando o sacerdócio. Só Deus sabe o dano feito às almas dos fiéis durante estes tempos terríveis. Esses pobres padres foram vítimas da ilusão de que o homem e o mundo têm mais a oferecer do que Deus. Foi nesses mesmos anos que os EUA aceitaram legalmente o assassinato de crianças ainda não nascidas.

Essa era a triste situação da Igreja na década de 1970. Esses exemplos são bem conhecidos, mas há muitos outros que permanecem ocultos na consciência das vítimas. Era como se os ladrões tivessem nos despojado de nossa Igreja, deixando-nos meio mortos à beira da estrada da vida. A maioria das famílias, confundidas por seus pastores, simplesmente deixaram a Igreja em busca de um sentido para a vida. Muitas almas desiludidas voltaram-se para as comunidades hippies, onde tentaram satisfazer sua sede pelo sobrenatural com drogas alucinógenas e prazer sensual que chamavam de "amor livre".

Essas feridas infligidas a toda a sociedade nos fazem pensar na parábola do Bom Samaritano. Nosso Senhor explica que a maior lei é o amor a Deus e a segunda é o amor ao próximo como a si mesmo. Um doutor da lei, para O tentar, pergunta: “Quem é meu próximo?” Nesta ocasião, Nosso Senhor apresenta a parábola do Bom Samaritano.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Jerusalém simboliza a cidade da paz celestial e

Jericó, a cidade da vaidade mundana. Na década de 1970, desejamos descer da vida católica tradicional para a vaidade de uma sociedade decadente infestada de drogas. Caímos nas mãos de ladrões que nos despojaram do sacrifício da Missa tradicional e da formação de verdadeiros sacerdotes. Eles bateram em nossas almas com um catecismo herético deixando-nos moralmente meio mortos à beira da estrada da vida. Os antropocêntricos padres do Novus Ordo e os grupos de apostolado ofereciam treinamento da sensibilidade em vez de doutrina, eles não podiam ajudar nossas almas feridas. Esses foram tempos sombrios para o Corpo Místico de Cristo. Parecia não haver esperança enquanto esperávamos o que parecia ser uma morte certa para nossas almas.

Para aqueles que não viveram na década de 1970, tentem imaginar-se espiritualmente meio mortos, largados a beira da estrada, esperando a morte, incapazes de socorrer a si mesmos. Aqueles que deveriam ajudá-los passavam ao largo. Tentem olhar através dos olhos de uma alma meio morta quando finalmente vê alguém parando para ajudar. Imagine a sua alegria ao se deparar com um rosto desconhecido que olha com compaixão. Alegria, esperança e gratidão voltam a este corpo ferido. O único desejo deste tipo o homem é ajudar sem esperar nada em troca.

Para nós que atravessávamos aquela terrível tempestade, podemos dizer com sinceridade que a alegria, esperança e gratidão voltaram às nossas almas feridas quando Dom Marcel Lefebvre veio para a América. Ele não precisava de nós, apenas se ofereceu para ajudar nossas almas angustiadas porque nenhum outro bispo nos EUA vinha em nosso auxílio. Ele era realmente como o Bom Samaritano. O vinho que derramou em nossas feridas pode ser comparado ao Santo Sacrifício da Missa que mais de uma vez foi oferecida em nossas capelas improvisadas. O óleo que ele derramou sobre nós foi a unção do sacerdócio concedido ao nosso país com o seminário que fundou em nosso solo. Ele nos levou para a estalagem fortalecendo a nossa fé na Santa Mãe Igreja. Ele confiou nossas almas ao dono da estalagem que pode ser comparado aos jovens padres da Fraternidade São Pio X. As duas moedas dadas ao dono da estalagem para o nosso cuidado foram a formação que ele lhes deu na verdadeira doutrina católica e na vida moral de sempre.

Na realidade, o único Bom Samaritano é Nosso Senhor, mas Ele atua por meio dos ministros da Igreja. Na década de 1970, o ministro do Bom Samaritano para os católicos feridos da América foi Sua Excelência Reverendíssima Dom Marcel Lefebvre. Ele descobriu que nosso país fora espancado, ferido e deixado meio morto. Seu amor a Deus e ao próximo o impulsionou a vir em nosso auxílio. Vimos com nossos olhos sua caridade em ação. “Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes”.

(The Angelus, Novembro de 2020)

  1. 1. “1970 butcher block table”: O autor refere-se a grandes blocos de madeira quadrados ou retangulares usados inicialmente por açougueiros como mesa de corte, porém em alguns continentes passou a ser usado também em cozinhas domésticas. Nota do tradutor.
  2. 2. "Kum ba yah" (“Vinde” em um dialeto africano) “My Lord” (Meu Senhor): Cântico de data ainda disputada, sabe-se que era cantado por escravos africanos cristianizados nos E.U.A. Durante as décadas de 1950 e 1960 do século XX ganhou forte conotação política sendo usado em movimentos por direitos civis também nos E.U.A. A letra em si não possui nada de contrário à doutrina católica, são insistentes súplicas de um pecador para que Deus não o abandone, porém no conjunto o cântico é inapropriado para a liturgia, ainda mais por ter sido impregnado de conotação política. Nota do tradutor.
  3. 3.Missas “clown” (Palhaço): Série de conhecidos ultrages à missa católica onde pessoas fantasiadas de palhaço cumprem funções litúrgicas e recebem a Sagrada Comunhão. Nota do tradutor.

Introdução ao domingo da Sexagésima

“A semente é a palavra de Deus” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

O Breviário fala-nos de Noé toda semana.

“Vendo Deus que era grande a malícia do homem sobre a Terra, disse: Vou exterminar o homem que criei. Faze, pois, uma arca de madeira e entra nela, que estabelecerei contigo a minha aliança. E Deus fez então chover sobre a Terra, quarenta dias e quarenta noites. A arca flutuava à superfície das águas que se elevaram acima das grandes montanhas. Os homens pereceram e Noé salvou-se com os seus na arca... Passou algum tempo e Noé soltou uma pomba, que regressou com um ramo de oliveira. Noé compreendeu que as águas tinham baixado. E então disse-lhe Deus: Sai da arca e multiplicai-vos sobre a Terra. E Noé levantou um altar e ofereceu a Deus um sacrifício de agradável odor”.

Esta narração, referida ao mistério pascal, é comentada por uma bela oração de Sábado Santo. Ei-la: “A justa cólera do Criador submergiu o mundo culpado nas águas da vingança, e só Noé se salvou na arca. Depois a virtude admirável do amor lavou o universo no sangue”. Foi o madeiro da arca que salvou o gênero humano e foi o da Cruz que resgatou o mundo. “Só tu foste digna, diz a Igreja ao falar da Cruz, de seres para o mundo naufragado a arca que o leva ao porto”. A porta aberta no costado da arca e por onde entraram os que se haviam de salvar do dilúvio nos é apresentada na liturgia como figura do mistério da Redenção; porque do lado de Jesus saiu sangue e água simbolizando os sacramentos do Batismo e da Eucaristia.

“Ó Deus que, lavando nas águas os crimes do mundo corrompido, nos destes no mesmo dilúvio a imagem da regeneração, para que um mesmo elemento fosse o fim dos vícios e a imagem das virtudes, olhai com bondade para a vossa Igreja e multiplicai nela a vossa intervenção regeneradora, abrindo por toda a Terra as fontes do batismais que devem renovar os povos”.

No tempo de Noé, diz S. Pedro, salvaram-se do dilúvio 8 pessoas somente, e isto foi símbolo do Batismo que nos salva a todos. E quando o Bispo benze na Quinta-feira Santa o azeite de oliveira que há de servir para os sacramentos diz:

“Quando os crimes do mundo tinham já sido expiados nas águas do dilúvio, veio uma pomba anunciar a paz à Terra com o ramo de oliveira no bico, que era símbolo então das graças que nos reservava o futuro. Este símbolo realiza-se, quando a unção do azeite, depois que água do Batismo nos lavou, nos vem dar ao rosto paz e beleza”.

Mas no que Noé se assemelha mais com Jesus Cristo é na missão que Deus lhe confiou de ser o pai de numerosos povos. Noé é, com efeito, o segundo progenitor do gênero humano e o símbolo da vida renascida.

“O ramo da oliveira simboliza a feliz fecundidade que Deus concederia a Noé depois de sair da arca, e a arca é denominada no Ofício de hoje por S. Ambrósio “seminarium”, quer dizer, lugar onde se guarda a semente da vida que deve recobrir o mundo. Ora, bem melhor que Noé, Jesus Cristo repovoou o mundo com a prodigiosa descendência das almas crentes e fiéis a Deus. É por isso que a oração da 2ª profecia do Sábado Santo pede ao Senhor que realize os seus desígnios eternos e complete na paz a obra da redenção do homem: “... possa ver o mundo sentir a reparação do que estava caído e a renovação do que envelhecera e todas as coisas restabelecidas na integridade primeira por aquele mesmo que deu a todos o ser”.

No princípio, foi pelo Verbo, quer dizer, pela Palavra, que Deus fez o mundo. E foi pela pregação do Evangelho, que Jesus, o Verbo de Deus, veio regenerar os homens. Fomos regenerados, diz S. Pedro, por uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, que nos foi anunciada pelo Evangelho. A esta luz, já vemos todo o relevo da parábola do Semeador, que vem na Missa de hoje.

Se nos tempos de Noé os homens pereceram, diz S. Paulo, foi por serem incrédulos. Noé que acreditou salvou-se na arca. Do mesmo modo, os que acreditarem e guardarem a palavra do Senhor serão salvos. E S. Paulo enumera na Epístola de hoje tudo o que é necessário para levar aos povos a fé no nome de Deus. Ele foi, com efeito, o pregador por excelência, o Ministro de Cristo que Deus escolheu para levar aos povos os clarões da Boa-Nova do Verbo Encarnado.

Do Evangelho: Jesus deita a semente da palavra nos corações bem dispostos. Procuremos recebe-la bem e façamo-la frutificar na paciência para que Aquele que passou a vida a lançar nas almas a boa doutrina continuando a fazê-lo por meio da sua Igreja, nos possa recompensar com o cêntuplo que prometeu aos que O escutarem e seguirem fielmente.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao domingo da Septuagésima

“Ide vós também para a minha vinha” (Evangelho)

 

Paramentos roxos

 

A aproximação dos textos do Breviário e do Missal, esta semana, esclarece-lhes singularmente o sentido e a importância. As lições e os responsórios do Ofício da noite são tirados do Gênese e relatam a história da criação do mundo e do homem, a queda dos primeiros pais, a promessa do Redentor e finalmente a morte de Abel e a sequela das gerações até Noé. “No princípio, diz o Livro Santo, Deus criou o Céu e a Terra, formou o homem e colocou-o num jardim delicioso para o cultivar”. Jesus Cristo, observa São Gregório, diz-nos que o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que assalaria operários para a sua vinha. Ora, quem pode melhor representar o pai de família do que o Criador, que governa com a sua Providência tudo o criado e traz neste mundo os seus escolhidos como o Senhor traz os servos em sua casa? A vinha é a Igreja. Todos os que se aplicaram com retidão à prática do bem e exortaram os outros com a palavra ou com o exemplo a enveredar pelos caminhos da virtude, são operários desta vinha. Pelos da primeira, da terceira, da sexta e da nona hora, quis o Senhor designar o povo judeu, que desde o princípio se esforçou por servir a Deus na pessoa dos seus profetas e dos seus santos e não cessou de trabalhar no cultivo da vinha. Pelos da undécima, designou os gentios e a eles se dirige: “Porque estais aqui o dia todo sem fazer nada? ”Todos os homens são, pois, convidados a trabalhar na vinha do Senhor, quer dizer, na própria santificação e na alheia, e glorificar por este modo a Deus. Mas Adão, falhou à sua missão: “porque tu comeste do fruto da árvore que te ordenara não comesse, a terra será maldita e tirarás dela o teu sustento à força de trabalho. Só dará espinhos e cardos. Comerás o pão no suor do teu rosto até que voltes à terra donde saíste”. Exilados do Paraíso, diz S. Agostinho, o primeiro homem comunicou a pena de morte e reprovação a todos os descendentes. O gênero humano, assim condenado, foi, por assim dizer, afundado na desgraça que vai arrastando consigo através das misérias da vida. Os textos da Missa estão cheios dos mesmos pensamentos. “Dores de morte me cercaram”, diz o Intróito. E é com justiça, diz a Oração, que sofremos pelos nossos pecados. A Epístola apresenta-nos a vida como um circo onde é necessário lutar para ganhar a coroa. O denário da vida eterna, acrescenta o Evangelho, será dado só àquele que trabalhar na vinha do Senhor. Deus na sua sabedoria preferiu, diz S. Agostinho, tirar o bem do mal a não permitir mal algum. Deus com efeito compadeceu-se dos homens e prometeu-lhes um segundo Adão que restabeleceria a ordem perturbada pelo primeiro. O Paraíso era “a sombra duma vida mais perfeita”. Exilados de lá com Adão, perdêramos o direito a essa vida que ele representava. Porém, o segundo Adão veio reabrir-nos a porta e dar possibilidade de lá reentrarmos. Senhor, canta a Igreja, Vós sois o nosso auxílio na angústia e na indigência. Tendes o perdão convosco, iluminai sobre nós a Vossa face e salvai-nos.

A Missa da Septuagésima assim estudada prepara-nos para começar este novo período do ano litúrgico com uma compreensão mais perfeita dos mistérios pascais. Aprende-se melhor deste modo tudo o que a Páscoa representa e o que a Igreja nos ensina quando diz: “Deus criou o homem duma maneira admirável e resgatou-o de maneira mais admirável ainda”.

 

Do Evangelho: O amanhecer do mundo, a primeira hora, diz S. Gregório, pode entender-se do tempo que vai de Adão até Noé; a terceira, de Noé até Abraão; a sexta, de Abraão até Moisés; a nona, de Moisés até a vinda do Salvador; a undécima, desde a vinda do Salvador até o fim do mundo. Todos os homens são, portanto, chamados a trabalhar para a glória de Deus e a receber como salário o denário da vida eterna.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao terceiro domingo depois da Epifania

“Dizei uma só palavra e o meu servo será curado”

 

Paramentos verdes

 

Estes quatro domingos têm todos o mesmo Intróito, Gradual, Aleluia, Ofertório e Comunhão, e referem-se todos igualmente à realeza de Cristo. Os dois milagres referidos no Evangelho de hoje têm ambos a mesma significação. O primeiro é a cura dum leproso judeu. E o Senhor quer que os Príncipes dos Sacerdotes constatem oficialmente o prodígio. O segundo é o do Centurião, dum pagão, que humildemente confessa a sua indignidade e a sua fé. Todos os povos são, pois, convidados a tomar parte na herança do reino e no banquete da glória, em que a própria divindade será o pão da nossa alma. Filhos do reino de Deus, renovemos a nossa fé na divindade de Cristo e proclamemo-la com atos de virtude e daquela caridade que constitui o grande mandamento e que S. Paulo nos recorda na epístola de hoje. “A graça da fé em Jesus, diz S. Agostinho, opera a caridade”. Que nada nos separe desta caridade, e que ela produza na nossa alma sentimentos de paz e de amor para com todos os homens.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Introdução ao segundo domingo depois da Epifania

Jesus transforma a água em vinho nas Bodas de Caná.

 

Paramentos verdes

 

Fiel à promessa que fizera a Abraão, Deus enviou o seu Filho para resgatar o povo eleito, que se não circunscrevia à órbita judaica somente, mas compreendia os homens de todos os lugares e de todos os tempos. Jesus é, pois, aquele rei que a terra toda deve adorar e servir. Havendo sido convidado às núpcias em Caná, diz S. Agostinho, aceita o convite para nos revelar o profundo mistério que nelas se encobre e que é a união de Cristo com a sua Igreja. Todos os Padres são unanimes em ver neste milagre aí operado, além da confirmação da missão redentora de Cristo, o símbolo da Eucaristia e da aliança que Jesus Cristo estabeleceu com as almas e selou com o sinete do seu sangue e a qual se consuma na sagrada comunhão. São as núpcias divinas na terra, prelúdio das eternas do céu. Éramos água e Cristo fez-nos vinho, vinho novo, duma vinha que é também nova e que foi regada com o sangue dum homem-Deus. Diz S. Tomás que a conversão da água em vinho é símbolo da transubstanciação, milagre tamanho que faz do vinho eucarístico o sangue da aliança de paz que Deus estabeleceu com a sua Igreja.

Do Evangelho: O milagre de Caná mostra-nos bem o que pode Maria junto do Coração do Filho. Mas diz S. Ambrósio que ela não Lhe pede serviços vulgares, mas aquilo que só Deus pode fazer.

 

Missal Quotidiano e Vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, Beneditino da Abadia de S. André. Bruges, Bélgica: Desclée de Brouwer e Cie, 1952.

Comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias?

A comunhão na língua é contrária às práticas sanitárias. Assim afirma um artigo publicado no Catholic Leader australiano por Elizabeth Harrington, a oficial de educação para a Comissão de Liturgia da Arquidiocese de Brisbane:

É ruim para os ministros dar comunhão na língua às pessoas que estão de pé, que é a postura recomendada para comunhão na Austrália, e isso é anti-higiênico porque é difícil aos ministros evitar passar saliva para os outros comungantes1.

Essa afirmação (normalmente feita por proponentes da comunhão na mão) revela uma ignorância da prática tradicional da Igreja Romana e das rubricas para a distribuição da Santa Comunhão na língua.

Em primeiro lugar, o comungante deve ajoelhar-se; obviamente, são feitas exceções para os portadores de deficiência, que normalmente desejariam poderem ajoelhar-se. Não apenas esse ato mostra a humildade dos comungantes ao receber Nosso Senhor Sacramentado (i.e., Deus), mas essa postura submissa também permite dar a Hóstia na língua de maneira mais prática, segura e… Higiênica – em todos os três casos, muito mais que através da comunhão na mão.

Outro interessante aspecto é que a forma tradicional de receber a Comunhão de joelhos e na língua demonstra o caráter romano de praticidade que permeia o rito litúrgico de mesmo nome, resultando em uma maneira digna e reverente de receber o Pão dos Anjos, e fácil e eficiente ao mesmo tempo.

A rubrica tradicional do Rituale Romanum prescreve que o Padre deve, cautelosamente, tomar a Hóstia pela ponta com seu polegar e indicador direitos; nenhum outro dedo pode ser usado para realizar essa ação. Como diligentemente ensinado em aulas tradicionais preparatórias para a Primeira Comunhão, o comungante deve inclinar sua cabeça para trás levemente, abrir a boca e estender um pouco a língua, criando o que comumente se chama de “travesseiro da língua”. O Padre, então, consegue colocar, facilmente, a Hóstia na língua sem tocar a língua do comungante, até mesmo sem tocar seus lábios – o que resulta na ausência de contato físico entre o ministro e o comungante.

Mas, com a comunhão na mão, contato direto é feito entre o ministro (normalmente o Ministro de Eucaristia) e os comungantes, que, normalmente, não lavaram (ou higienizaram) suas mãos antes de receber. Portanto, com a comunhão na mão, existe um perigo real de se espalharem germes indesejados.

O fato é que, antes do clamor dos progressistas pela comunhão na mão (algo que foi feito sem aprovação da Santa Sé2, poderíamos acrescentar), o problema da higiene jamais foi levantado em relação à maneira tradicional de receber a Santa Comunhão – e isso durante uma era em que os pregadores da higiene estavam empenhados em tornar o mundo livre de germes.

A ironia dessa acusação contra a Comunhão na língua é que aqueles que promovem a comunhão na mão por razões inexistentes de higiene, ao mesmo tempo, encorajam a prática de “compartilhar o copo” (receber o Preciosíssimo Sangue comunalmente do cálice), prática essa que a Igreja Romana fez cessar em tempos antigos precisamente em razão de preocupações com a higiene (i.e., devido aos restos de saliva que, inevitavelmente, se acumulam quando um grupo de pessoas bebe do mesmo recipiente) – o que poderia levar a desdém por esse Sagrado Mistério.

Esse tema apenas fornece mais um exemplo de como, através de suas práticas tradicionais, a Santa Madre Igreja é zelosa tanto por nossas necessidades espirituais, quanto naturais. Pelo lado sobrenatural, ela nos dá uma maneira reverente na qual nós, pobres e indignos pecadores (“Domine non sum dignus”, citando os sentimentos do Centurião), podemos receber o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor, e, na esfera natural, de uma maneira que não prejudique nossa saúde corporal.

  1. 1. Esse é o jornal arquidiocesano, e o título do artigo era “Communion in the Hand”, publicado em 12 de Fevereiro de 2012, na coluna “Liturgy Lines”. Ele está indisponível online sem uma assinatura.
  2. 2. Cf. o livro fenomenal do Bispo Juan Laise, Communion in the Hand: Documents and History e essa página com um vídeo do Cardeal Burke, que inclui muitos links pertinentes sobre a comunhão na mão.