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Category: Dom Lourenço Fleichman, OSBConteúdo sindicalizado

Enfim, o cisma

Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1976, amigos franceses enviaram a Gustavo Corção notícias de um bispo italiano que escrevera para seus padres e fiéis denunciando o comunismo. Os amigos que enviaram a auspiciosa notícia ao jornalista e escritor católico estavam entusiasmados com a novidade, achando que aquela reação podia significar uma mudança de ares na Igreja.

Gustavo Corção escreveu sobre o fato um artigo em que mostrava aos seus amigos e leitores que o entusiasmo não era cabível. Antes de mostrar quão superficial era a crítica do bispo ao comunismo, Corção explicou:

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Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Alívios e alertas

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Certos anos passam na rapidez vertiginosa e estranha que nos angustia. Outros teimam em não terminar. Dizem que 1968 foi um desses anos que não terminou. A Revolução mostrou sua face gélida e diabólica em diversas partes do mundo, numa tentativa desesperada de destruir de vez a Civilização Católica. Talvez tenha conseguido em parte, mas não devemos desesperar da misericórdia de Deus. Para Ele, nada é impossível.

Devemos rezar para que 2018 alcance rapidamente o seu termo e ceda o lugar para o que lhe há de seguir. No fundo, o que muda quando adentramos em 1º de janeiro? Será a noite da virada diferente de qualquer outra? Espera a Divina Providência a chegada do limiar da convenção humana para dar novas graças ou receber novas orações? Deus, que vive no presente eterno não se incomodaria com esses detalhes não fosse seu singular cuidado em agradar aos homens, esperando que assim estes se inclinem mais a agradar a Deus. Por isso podemos crer nas especiais graças de um novo ano, de um novo nascimento, de uma luz qualquer que brilhe nesse mundo dos homens.

A crise inicial

Ainda no 1º semestre, o ano de 2018 nos trouxe graves apreensões. Os caminhoneiros de todo o Brasil paralisaram nosso país de modo ilícito e irresponsável, sob o olhar conivente dos democratas de carteirinha que, por escrúpulos ou por malícia, não enviaram as tropas para livrar nossas estradas e nossa liberdade. O país ficou escravo de uma casta sedenta de privilégios.

Naquela ocasião reunimos um grupo de colaboradores da Permanência a fim de elaborar um texto explicativo da posição oficial da Permanência diante daquela situação de terríveis consequências para o Brasil. O editorial de hoje retoma partes daquele texto que ainda não tinha sido publicado.

Critérios de avaliação

O primeiro critério de avaliação dos princípios que regem a política dos povos é a própria Revelação, o que Deus revelou aos homens.

São Pedro, em sua Epístola, diz com todas as letras: “Servos, sede submissos a toda instituição humana, por amor de Deus”. Pesem as palavras do Apóstolo: há motivo sobrenatural – o amor de Deus – para critério de nossa atitude social e política. O texto continua: “... quer ao rei, como a soberano, quer aos governadores como enviados por ele para tomar vingança dos malfeitores e para louvar os bons; porque esta é a vontade de Deus, que fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; procedendo como homens livres, e não como tendo a liberdade por véu para encobrir a malícia, mas como servos de Deus”. 1

E o primeiro papa continua nesse tema: “Servos sede obedientes aos vossos senhores (empregados sede obedientes aos vossos patrões), com todo o temor, não só aos bons e moderados, mas também aos agressivos. Porque é uma graça o suportar alguém as contrariedades, sofrendo injustamente, pelo conhecimento do que deve a Deus”.

Dois motivos sobrenaturais são, pois, apresentados: obedecer por amor a Deus e obedecer para suportar com paciência a Cruz desta vida.

São Paulo não é menos enfático, na epístola aos Romanos:

“Não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. E os que se opõem atrairão sobre si a condenação”. (...) “Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida”. 2

Após verificar como a Revelação nos instrui, devemos procurar o pensamento da Igreja na Tradição, sobretudo no ensinamento dos papas ao longo da vida da Igreja, para discernir como aqueles princípios foram sendo aplicados com o passar dos séculos.

Ao mesmo tempo não podemos interpretar ao proveito de nossas opiniões o parecer doutrinário e moral consignado nos textos do Magistério. Esse sempre foi o erro dos modernistas, tal como aparece no pensamento do Card. Joseph Ratzinger, por exemplo, ao afirmar que os textos dos papas antigos serviam para a Igreja daquela época, mas com as circunstâncias atuais eles já não teriam valor.

Esse não é o pensamento da Igreja, que atribui aos textos do Magistério valor de verdade a ser seguida, variando apenas a gravidade do pecado no caso de se recusar essa verdade.

No caso da paralisação dos caminhoneiros, em maio de 2018, chegaram a dizer que as greves condenadas por Leão XIII na Rerum Novarum seriam de outra natureza das greves atuais, e que por isso o ensinamento de João Paulo II e do Novo Catecismo seriam corretos, quando dão às greves a legitimidade recusada pelos papas antigos. Porém, não há nada na história do século XIX que indique greves mais violentas do que as atuais. Esse argumento não é válido, e o que devemos concluir é que, assim como a doutrina da Igreja foi dissolvida com o liberalismo do Concilio Vaticano II, no que toca o ecumenismo ou a liberdade religiosa, assim também os princípios católicos, que sempre nortearam a ação política, desviaram-se para uma espécie de socialização que nasce com João XXIII e continua até os dias do Papa Francisco.

De fato, quando a Igreja ensina a doutrina da Verdade, ela o faz através de princípios que são sempre verdadeiros, e devemos ter uma devoção toda especial para com essa orientação, rechaçando as inovações modernistas.

“Porquanto não é lícito desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em que ele resida, mais do que resistir à vontade de Deus; ora, os que lhe resistem correm por si mesmos para sua perda. ‘Quem resiste ao poder resiste à ordem estabelecida por Deus, e os que lhe resistem atraem a si mesmos a condenação” (Rom 5, 2)Assim, pois, sacudir a obediência e revolucionar a sociedade por meio da sedição é um crime de lesa-majestade, não só humana, mas divina”. 3

Ainda Leão XIII, condenando o comunismo por desprezar a autoridade divina e humana:

“Nada deixam intacto ou inteiro do que foi sabiamente estabelecido pelas leis divinas e humanas para a segurança e honra da vidaEnquanto censuram a obediência devida às autoridades às quais o Apóstolo nos ensina que toda a alma deve ser sujeita e que receberam por empréstimo de Deus o direito de mandar, eles pregam a igualdade absoluta de todos os homens no que diz respeito aos direitos e deveres”. 4

Alguém perguntaria quando se torna lícito fazer alguma manifestação contra os governantes ou contra os patrões? O mesmo papa responde em outra encíclica;

“A única razão que os homens têm para não obedecer é quando algo demandado por eles repugna abertamente ao direito natural ou ao direito divino; porquanto não podem ser mandadas e nem executadas todas aquelas coisas que violam a Lei natural ou a vontade de Deus. Se, pois, suceder que o homem se veja obrigado a fazer uma das duas coisas, ou seja, ou desprezar os mandamentos de Deus ou desprezar a ordem dos príncipes, ele deve obedecer a Jesus Cristo, que nos manda dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mt. 22, 21), e, a exemplo dos Apóstolos, responder vigorosamente; ‘Importa obedecer mais a Deus do que aos homens’ (Atos 5, 29)”. 5

Mas isso não é motivo para qualquer greve ou paralisação. Muitas vezes ao trabalhador é pedida a virtude da paciência e a visão do Bem Comum, mais do que seus interesses particulares ou corporativos.

“O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e freqüente, porque estas greves causam danos não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública.

Na mesma encíclica o papa tinha dito um pouco antes: “importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte (...) É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves, ameaçam a tranqüilidade pública”. 6

O texto da Rerum Novarum é tão atual que parece ter sido escrito para os dias de hoje. Eles são opostos em todos os pontos às concessões admitidas pelos papas mais recentes. Vejam que a Igreja, partindo de São Paulo, considera que os homens devem ter um espírito de obediência aos governantes, quaisquer que sejam, limitando essa obediência apenas aos casos em que estes nos obrigariam a atos contrários à Lei de Deus, ou seja, o Decálogo, ou à Lei Natural, inscrita nos corações de todos os homens, de qualquer tempo e de qualquer lugar.

A noção de Bem Comum

Logo o Brasil entrou em época de campanha eleitoral, a qual, por tensa e densa que foi, parece ter levado um tempo muito maior do que os poucos meses que de fato se passaram. Procuramos, então, adaptar aquele trabalho inicial, alargando seu leque de considerações para uma visão mais geral sobre a política católica, que servisse de critério para os eleitores interessados em porem em prática os princípios da filosofia política da Igreja na sua Tradição bi-milenar.

Agora que a escolha do novo chefe da nação ficou definida, podemos voltar a esse estudo com mais calma para lembrarmos dos princípios católicos que regem nossos atos morais na vida individual e na vida política.

Uma das noções mais difíceis de se compreender dentro do ambiente da democracia liberal moderna é a de Bem Comum. Os liberais interpretam o Bem Comum de dois modos equivocados: em primeiro lugar consideram equivocadamente o voto como sendo o sinal mais eficaz da vontade do povo, e a partir daí, entendem “Bem Comum” como sendo essa vontade expressa pelo voto, pela maioria, pelo número. Nada mais contrário à verdadeira noção de Bem Comum, a qual, como o termo mesmo já expressa, é necessariamente o Bem. Ora, quem fixa como meta o bem, em qualquer obra que realize, considera em primeiro lugar o fim a ser alcançado. Como o fim último do homem no seu ser ou em qualquer coisa que faça é Deus, a Beatitude, todas as obras humanas necessitam dessa meta, desse fim último alcançado que gera o repouso e a felicidade eterna.

Assim, o critério para sabermos se algo, ou um ato, faz parte do Bem, é provar que ele obedece à Lei eterna de Deus, obedece aos Mandamentos de Deus e à Igreja Católica, a qual recebeu, e apenas ela recebeu, autoridade divina sobre a orientação dos homens e das nações. Esse lado prático do Bem orienta o homem na escolha dos meios a serem adotados para alcançar o bem particular que lhe é devido.

A outra interpretação equivocada de Bem Comum é vê-lo como sendo o bem pessoal ampliado ao máximo pelas liberdades totais. Quanto mais livre, mais independente e mais rico. Espalha-se a riqueza material e com isso todos ficam felizes e satisfeitos. Logicamente essa autonomia afasta drasticamente o homem do seu fim último, e o orienta a uma atuação política contrária muitas vezes ao Bem que vem de Deus e nos conduz a Ele.

Por outro lado, os socialistas e comunistas interpretam o Bem Comum com essa visão estereotipada que considera o Estado Socialista como sendo o único bem do povo, o único provedor, o único dono, o único produtor. Quanto mais Estado, mais dependência e menos necessidade de possuir. O resultado é a pobreza geral na qual todos os povos socialistas caíram.

Alívios

Cabe lançarmos um olhar para os últimos anos do nosso Brasil. Quando o sr. Aécio Neves perdeu a eleição em 2014, os liberais que adoram a democracia ficaram sem chão. Como o Brasil vivia há anos sem uma política verdadeira, dominado que estava pelas esquerdas desde Fernando Henrique Cardoso, parecia que o domínio do PT continuaria por muitos anos ainda. Não contam nunca com a vontade de Deus, não acreditam na Providência divina.

As coisas se precipitaram rapidamente e conhecemos dois anos do governo Michel Temer em que muitas coisas começaram a serem consertadas no Brasil. Pode ser que o sr. Temer seja tão ladrão quanto os demais, e que termine na prisão. Mas o trabalho que fez à frente do governo devolveu ao país um projeto sério. Enquanto o governo do PT já tinha abandonado o país ao retorno da inflação galopante, Temer conseguiu em um ano levar a inflação a percentuais espetaculares e estimulantes, além de diminuir pela primeira vez, desde o início da era PT, o desemprego no país. Além disso alavancou o cadáver da Petrobrás, nos livrou do domínio dos sindicatos, preparou a reforma da Previdência, a qual só não foi votada por causa do crime cometido pelo sr. Janot, de lançar ao ventilador da mídia as acusações contra o presidente que frearam as possibilidades políticas de Temer e do Brasil.

Hoje, quando Jair Bolsonaro se prepara para assumir a presidência, deve agradecer ao seu predecessor por ter tirado o Brasil do fundo buraco em que o PT o havia precipitado. E Bolsonaro parece saber disso.

Não podemos fechar o ano de 2018 sem mencionar a mudança impressionante que tem acontecido com a política do nosso país. As multidões que se sentiam asfixiadas pelo PT, acuadas e escondidas, parecem ter despertado. Os resultados das eleições foram lições dadas aos antigos políticos que abusaram e traíram o país com seu projeto de perpetuar-se no poder. O PT sobretudo, foi rechaçado fortemente, e todas as mentiras lançadas sobre golpe e volta de suposta ditadura foram desfeitas pela verdade.

Apesar de muitas atitudes fanatizadas de certos grupos, o fato é que temos hoje um presidente da República capaz de entender o que é o Bem Comum, de estabelecer seus ministros com esse critério específico de buscar o Bem, a Lei Natural em primeiro lugar, e apesar de seus equívocos causados pelo protestantismo de sua mulher, pelo menos ele tem sabido se portar corretamente, atribuindo a Deus a orientação do Brasil no caminho da verdade e do Bem.

Alertas

Algumas das idéias levantadas nessa fase de transição do governo soam límpidas, naturais e benfazejas. Outras nos afligem e nos deixam um sabor agridoce diante do que virá pela frente. Estamos na iminência de vermos equipes técnicas e competentes darem rumos novos ao Brasil, aliviando de diversas formas as crises que se abateram sobre a nação. Ao mesmo tempo, ainda não é possível avaliar corretamente o que significa a presença tão forte dos protestantes na orientação do novo governo. Não nos iludamos. Historicamente, quando os protestantes encontram meios, fazem de tudo para denegrir, atrapalhar ou mesmo perseguir a Igreja. É verdade que a ausência de padres, bispos, autoridades católicas no apoio a Bolsonaro só contribuiu para a presença de pastores protestantes. Mas eles não são os únicos.

Há também uma nova direita chamada “conservadora” que se pretende católica, mas que segue orientações de hereges notórios, de adeptos de religiões comparadas, de seguidores de René Guénon e outros. A Permanência não poderia se alinhar com esse tipo de pensamento, pois ele rompe com a fé íntegra, falsifica a noção de Religião e conduz os homens a caminhos ruins para o pensamento e para a vida prática.

Continuamos cumprindo nosso papel de formação católica do pensamento, dentro da orientação dada pela Igreja e pelos papas até as vésperas do Concílio Vaticano II. A Tradição, para um católico, significa Revelação transmitida oralmente, verdades de fé infalível que não foram escritas, mas transmitidas pela Igreja por obra do Divino Espírito Santo. Esperamos que o novo governo de Jair Bolsonaro saiba esquivar-se de tantos enganos que o cercam tentando abocanhar poder na nova oportunidade.

Resta-nos manter nossa Esperança na Divina Providência, sabendo que Nosso Senhor é o Rei das nações, e Ele só pode abrir as portas, e elas necessariamente se abrirão; fechá-las e serão fechadas com toda a certeza. Nesse Tempo do Advento e Natal ouviremos as grandes Antífonas Ó, com que a Igreja conclama Nosso Senhor para vir, para se encarnar. Com uma delas terminamos esse Editorial, pedindo ao Menino Jesus, Rei e Senhor do Brasil, que olhe por nossos governantes e pelo povo brasileiro.

“Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abres e ninguém fecha, que fechas e ninguém abre. Vinde tirar do cárcere o prisioneiro que está nas trevas e na sombra da morte.” (Antífona do dia 20)

  1. 1. Iª Pe 2, 13 e seg. 
  2. 2. Rom. 13, 1 a 5.
  3. 3. Leão XIII, Immortale Dei.
  4. 4. Leão XIII, Quod Apostolici Muneris
  5. 5. Leão XIII, Diuturnum illud
  6. 6. Leão XIII, Rerum Novarum, 1891

Entre Papas e Cardeais

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Eis que, surpreendentemente, nos preparamos para conhecer o sexto papa do Concílio Vaticano II. Tendo já ultrapassado a marca dos 50 anos do seu início (1962), não podemos dizer que as coisas, no meio dessa crise, sejam previsíveis. Ainda há espaço para sustos e surpresas.

O papa Pio XII1 morreu em outubro de 1958. Com ele morria uma visão ainda tradicional da vida da Igreja, da moral, da liturgia, dos dogmas e da influência impressionante que a Igreja mantinha há dois mil anos sobre os caminhos da humanidade. Mesmo sendo constantemente perseguida e maltratada, os maus não conseguiam avançar sem freios e sem limites, porque havia uma palavra divina, um homem vestido de branco, sentado na Cátedra de S. Pedro, e que servia de consciência para todos os povos, para governantes e súditos, mesmo quando estes já não eram mais católicos.

Não que fosse obedecido e amado. Mas era uma referência, e o mundo não se entregava ao mal sem temer a condenação que viria da Igreja. Com isso, a decadência era contida; seguia seu curso, é verdade, mas em ritmo mais lento.

Foi eleito, então, para o trono de São Pedro, o cardeal Roncalli, o papa João XXIII2. Descrito por seus historiadores como um homem simples, amigável, quebrando protocolos, conversando com todos, ficou conhecido como o “bom” papa João. Na verdade, seu espírito ecumenista data de muito tempo, como aparece em suas atividades de jovem bispo, na Bulgária, quando iniciou relações com os ortodoxos daquele país, ou em Paris, como Núncio. Em suas encíclicas, João XXIII dará provas de um pensamento liberal e equivocado, ao tentar assimilar as tendências de um mundo socialista para torná-lo aceitável dentro de uma doutrina católica que, para ele, devia ser aberta e tolerante. O resultado são textos dúbios, calcados em preocupações temporais de certa paz e de concórdia, isentas das exigências próprias do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Desenvolvia assim temas caros à maçonaria, como direitos humanos, dignidade da pessoa e afins, que fugiam completamente das preocupações espirituais de um catolismo tradicional, voltado para a defesa do depósito da fé e da Revelação sobrenatural .

João XXIII fará, então, a convocação do Concílio Vaticano II, e depois de propagar como finalidade a não condenação das heresias modernas, desejou um concílio voltado para conversas pastorais, troca de experiências e um otimismo beato sobre o futuro da Igreja. Pior do que isso foi a cumplicidade do chefe da Igreja com os revolucionários que tomaram de assalto o Concílio, sob a batuta do Cardeal Lienart. Logo no início do Concílio, este prelado exigiu a substituição dos textos já preparados para debate, por outros, liberais, que um grupo de bispos já havia preparado em segredo e por debaixo dos panos. João XXIII aceitou tal revolução, assim como aceitou outras que viriam em seguida, dando a esses progressistas da Aliança Europeia o domínio completo das ações do concílio3.

No meio de tantas ambigüidades, aberturas e revoluções, não se pode admirar que o Concílio Vaticano II tenha estabelecido uma nova religião dentro de Roma e na alma do povo católico. O resultado terrível foi a perda da fé generalizada, a destruição da doutrina tradicional da Igreja, e a diminuição constante da sua autoridade moral e espiritual sobre os desígnios da humanidade.

Apesar de ter escrito textos com ideais maçônicos, visões naturalistas sobre a vida social e política, de ter mesmo mantido certas relações com a maçonaria, não se conhece provas cabais de que tenha sido, ele próprio, maçon. Não nos parece fonte fidedigna um ou dois livros escritos por maçons, onde se afirma tal relação. Claro está que interessa a esta seita secreta vangloriar-se de ter tido um papa no seu grêmio, o que tira desses autores qualquer valor histórico.

O cardeal Montini4 era Patriarca de Milão quando foi eleito no lugar de João XXIII. A porta do erro e da decadência tinha sido entreaberta por João XXIII, ela será escancarada por Paulo VI. Quando trabalhava na Secretaria de Estado do Vaticano, o bispo Montini recebera um castigo grave por ter mantido contatos com os comunistas de Moscou nas costas de Pio XII. Será afastado de Roma. O erro de Pio XII foi ter dado a este bispo desobediente uma diocese cardinalícia, mesmo não tendo recebido esta honraria do papa Pacelli. Será cardeal no 1º consistório de João XXIII, abrindo caminho para a sua eleição, poucos anos depois.

Com Paulo VI a Igreja verá um tempo de destruições. Todo o belo edifício doutrinário e sacramental da Igreja será demolido. Não sobrará pedra sobre pedra. Todos os sacramentos serão reformulados segundo o novo espírito, a missa nova será assinada, sendo mais um culto protestante do que verdadeira missa; a disciplina eclesiástica será tão mitigada que os escândalos sexuais começarão a surgir de todos os lados. A fé será ultrajada, com padres e bispos deturpando a divindade de Nosso Senhor, a perpétua virgindade de Maria, a natureza da revelação, a sacralidade dos ritos e sua eficácia. Enfim, tudo será abalado. A destruição será o resultado de um grande terremoto religioso. E o povo fiel perderá a fé sobrenatural e até mesmo a noção do que seja essa fé.

De João Paulo I5 só podemos dizer que deu a impressão de querer reverter o quadro de destruição, senão na questão de fé, pelo menos nas influências maçônicas dentro do Vaticano. Não teve tempo. Seu pontificado durou 33 dias, e muitos afirmam que foi assassinado.

João Paulo II6 dará continuidade à obra do Concílio Vaticano II, cabendo a ele a reconstrução de todo o edifício destruído por Paulo VI, mas agora com o novo espírito do Concílio. Terminará a reforma dos sacramentos, fará um novo Código de Direito Canônico, prosseguirá a reforma completa da Cúria Romana, publicará o novo Catecismo oficial, nova tradução oficial da Bíblia, nova Via Sacra, modificando até mesmo o Rosário da Virgem Maria. Além disso, levará o ecumenismo ao seu ponto mais afastado da verdadeira fé católica, instituindo os encontros de Assis, onde todas as religiões enviam seus chefes para rezarem juntos, significando que pouco importa a religião de cada um. Desse encontro heretizante, surgirá o que o papa chamou de “espírito de Assis”, um novo espírito que passa a governar a Igreja de Vaticano II.

Finalmente, Bento XVI7, que ainda é papa quando escrevemos esse editorial, apesar de ter tido algumas atitudes mais conservadoras, jamais renunciou à obra do Concílio, nem mesmo se permitiu diminuir a influência deste sobre seu pensamento e seus atos.

Suas encíclicas dão prova dessa influência constante do Concílio, mesmo dos textos claramente opostos à doutrina católica, como Gaudium et Spes, freqüentemente citado pelo papa. Tomemos como exemplo a primeira encíclica, Deus Caritas est8 , onde Bento XVI envereda por certa tese acadêmica sobre a noção de amor. Mas não consegue se livrar dela ao abordar a questão do amor como está no Novo Testamento, e faz comparações do amor divino em termos de Eros e Agape, no mínimo, inconvenientes.

Essa tendência intelectualista de escrever teses aparece também nas demais encíclicas do papa. Em Spes Salvi9, a erudição é grande, mas o espírito católico fica de lado, jamais encontrando a definição clara do dogma católico sobre a virtude da Esperança. Em Caritas in Veritate10, o papa faz o elogio da Populorum Progressio11,  de Paulo VI, sobre a política e desenvolvimento dos povos, sob o enfoque liberal do Concílio Vaticano II.

Em nenhum momento Bento XVI apresenta a doutrina católica pelo seu dogma, por aquilo que ela tem de imutável e eterno. Sempre reflexões, aberturas, autores estrangeiros ao catolicismo e mesmo inimigos da fé são convidados à mesa de “discussões” de Bento XVI. O grande sucesso desses textos junto aos novos católicos desse mundo de hoje deve-se mais à imensa ignorância que se tem da verdadeira fé, do que à fidelidade da doutrina ali contida.

Todos os seus livros, mesmo aqueles contendo erros graves de tempos mais progressistas, foram reeditados depois de se ter tornado papa, e jamais ouvimos de sua boca um sinal de querer mudar o que antes escrevera.

Se, por um lado, escreveu o Motu Proprio Summorum Pontificum, em 2007, afirmando que a missa tradicional nunca fora ab-rogada e pode ser celebrada, não se vê interesse, no Vaticano, em defender a causa de tantos padres que são perseguidos por seus bispos diocesanos e impedidos de celebrar a missa de sempre. De certa forma, o Motu Próprio serviu para confirmar e estender a perseguição, pois ela agora se aplica também a padres diocesanos mais conservadores.

Mais tarde, em 2009, teve a coragem de levantar as falsas excomunhões impostas aos quatro bispos da Fraternidade São Pio X, mas logo viu-se obrigado a dar explicações numa carta que escreveu a todo o clero. Ainda aqui, Vaticano II era como um manto que cobria todo o pensamento do papa.

 

Finalmente, ordenou que se recebesse uma comissão teológica da Fraternidade S. Pio X, para debater os pontos de litígio apresentados por esta. Após dois anos de debates, o impasse impediu que se prolongassem as conversas, pois os representantes do Vaticano não aceitavam que a doutrina progressista do Vaticano II se opunha à Tradição católica. Queriam de todas as maneiras forçar o pensamento em aceitar que Vaticano II estaria na continuidade da Tradição, mesmo diante de evidentes contradições.

Dessas conversas surgiram, em 2011-2012, tentativas de um entendimento prático que daria à Fraternidade um estatuto oficial reconhecido por Roma. Mas após meses de grandes angústias nos meios tradicionais, o próprio papa encerrou a conversa, afirmando, em carta pessoal ao Superior Geral da Fraternidade, que a aceitação do Vaticano II, dos ritos novos, do novo espírito, era exigência para um reconhecimento da Fraternidade.

Agora, diante da surpresa da renúncia do papa, nos deparamos com mais uma grave questão. O tempo todo, Bento XVI se refere ao seu ministério. Sempre que fala da renúncia, refere-se a esse ministério petrino. Temos a impressão que os próprios papas desse catolicismo deformado já não acreditam muito na realidade que lhes foi imposta pelo Divino Espírito Santo. Falam como se tivessem aceito uma função, como um acionista de grande empresa aceitaria ser Diretor Presidente por certo tempo. Aliás, faz parte da linguagem transformada pelo Vaticano II, chamar a esse ministério, de “serviço”, o que só vem reforçar essa triste impressão. E essa constatação nos faz lembrar aquelas palavras antigas de Mons. Marcel Lefebvre, quando afirmava que nós, os que guardamos a Tradição contra os detratores da Igreja, somos os verdadeiros defensores do papa e do papado. Eles próprios já não acreditam mais no poder sobrenatural do sucessor de Pedro.

O pontificado de Bento XVI não trouxe nenhuma solução aos graves problemas de fé que assolam a Igreja há décadas. O estilo tornou-se mais comportado, mais conservador na liturgia, mais intelectual nos escritos; porém, o naturalismo horizontal, o ecumenismo irenista onde cada qual encontra o seu deus e se sente bem, o liberalismo político e social e a oposição constante à Tradição da Igreja, continuaram até o fim. E a crise não terminou.

Estes são os papas do Vaticano II. Eles o fizeram, prosseguiram, impuseram ao povo católico sem se preocuparem se era da vontade de Deus ou para a salvação das almas. Da noite para o dia, uma missa sem sacrifício e sem cruz foi imposta, sob penas severas, a todos os padres. Muitas almas perderam a fé, escandalizadas pelo que viam acontecer na Igreja. Outras a perderam por terem absorvido o novo espírito de Vaticano II, tornando-se protestantes sem se darem conta. Paralelamente, o laicismo invadiu toda a Igreja, causando um esvaziamento impressionante dos mosteiros e casas religiosas. Muitos conventos fecharam as portas e foram vendidos para se tornarem museus ou escolas. O número de católicos foi diminuindo em todo o mundo e já não podemos mais falar de uma Civilização ocidental Católica, aquela impressionante herança dos mil anos de Idade Média, que formaram a Europa e o mundo católico.

Enquanto isso, os papas e bispos, ao longo desses últimos 50 anos, nunca conseguiram enxergar a realidade do mundo segundo a verdade de Deus. A todo momento interpretam os desastres, acidentes, guerras e tudo o mais com palavras pacifistas, moles, sem eficácia e sem sentido. Raras vezes atribuem os escândalos ao pecado e nunca se ouve um chefe católico se preocupar com a condenação eterna das almas. Só falam de uma falsa paz, só pregam a concórdia nessa vida, só se preocupam com o corpo do homem e sua felicidade na terra, e de salvar as aparências de certa “decência” boazinha.

Um novo papa será eleito. Humanamente não há nada que nos incline a achar que algum dos cardeais possa vir a restaurar a Igreja e ajudar as almas a se salvarem. Todos eles, para chegarem onde estão, aderiram de todo o coração aos desmandos desse maldito concílio que tanto mal trouxe para a Igreja e para as almas. Estão, pois, certos de que devem continuar a propagar esse Humanismo com tintas de religiosidade, que tudo contaminou.

Não temos preferências. Se for eleito um péssimo cardeal, progressista, destruidor, as coisas podem ficar mais claras, a evidência da falta de fé ficaria mais patente, o que nos ajudaria a segurar melhor a espada do bom combate. Por outro lado, a perseguição se tornaria mais amarga, e nós teríamos apenas a graça divina como sustento, o que já é nossa condição há 50 anos. Se for eleito um cardeal “conservador”, veremos as mesmas ambigüidades atuais perdurarem na Igreja. Cada vez que o papa falar em latim, ou celebrar uma missa mais conservadora, os blogs conservadores de plantão darão urras de alegria e dirão que o papa está restaurando a Igreja.

Mas Deus vomita os mornos e não aceita que a defesa da sua Igreja seja feita por homens cegos, ingênuos e débeis. Porque a restauração da Igreja só poderá ser realizada quando nós merecermos, por nossos sacrifícios e dores oferecidas, pelas humilhações e perseguições suportadas, pela constância das nossas orações e das nossas lágrimas. Somente assim o Divino Espírito Santo realizará o milagre da conversão de um papa. Sem essa conversão espetacular, espiritual, sem que o papa entenda na fé, ao menos em parte, todo o enlace da crise atual, não haverá grandes mudanças no horizonte da Igreja.

Peçamos a São José, esposo da Virgem Maria, protetor da Santa Igreja, e a São Miguel Arcanjo, chefe da milícia celeste, que nos permita ver com nossos olhos, ouvir com nossos ouvidos, o dia abençoado em que tal conversão chegará ao coração do sucessor de São Pedro.

(Editorial da Revista Permanência 269)

  1. 1. Eugênio Pacelli (1876-1958)
  2. 2. Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963)
  3. 3. Cf. Wiltgen, Ralph, S.V.D., O Reno se lança no tibre, Ed. Permanência
  4. 4. Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897-1978)
  5. 5. Albino Luciani (1912-1978)
  6. 6. Karol Józef Wojtyła (1920-2005)
  7. 7. Joseph Alois Ratzinger (1927-2005)
  8. 8. 25 de dezembro de 2005
  9. 9. 30 de novembro de 2007
  10. 10. 29 de junho de 2009
  11. 11. 26 de março de 1967

Formação e deformação do homem

O texto a seguir é a transcrição adaptada e completada de uma conferência pronunciada a um grupo de rapazes católicos, na Capela Nossa Senhora da Conceição, em janeiro de 2012. Foi mantido o estilo coloquial.

 

Introdução

O meu propósito nesta conferência é tratar um problema muito sério que ocorre na vida de todos, de todas as famílias, de todos os casais. Vocês bem sabem, e não vou entrar neste detalhe, que a sociedade moderna não ataca apenas a religião e a fé, mas perverte também a natureza das coisas. No comportamento dos homens também existem distorções graves, fruto desses duzentos anos de liberalismo e dos quinhentos anos de espírito revolucionário. As transformações foram se fixando e atingiram aspectos essenciais da vida social. Assim, a tese que quero apresentar para vocês é a seguinte: “vocês não são homens”.

Por que posso dizer isso? Porque a atitude geral dos homens casados não é mais uma atitude de homem. E se assim ocorre, se a maioria dos jovens casados ingressa na vida familiar sem uma atitude de homem, é porque não estão sendo formados como homens. Apesar de freqüentarem a Capela, de serem católicos e estudarem o catecismo, vocês respiram esse ambiente cultural decadente. Por isso, preciso alertá-los antes, para que saibam agir como homens agora. Será que as mulheres os aceitarão, quando perceberem que vocês recuperaram a condição e as atitudes próprias dos homens? Talvez não. Será preciso, por outro lado, formar as mulheres, o que é outra tarefa necessária na reeducação da sociedade católica.

O problema não é saber se são homens por terem vida masculina, por usarem calças compridas e agirem exteriormente como homens. Não é a voz grossa ou a força física que falta na nossa sociedade. Eu diria mesmo que quanto menor a atitude essencialmente masculina, mais o homem engrossa a voz e ameaça com os punhos, para tentar impor-se pelo temor. Trata-se de saber o que é ser homem, o que isso significa. O mundo perdeu essa noção, e vocês a perderam juntos.

Paralelamente, o mundo levou a mulher a ocupar o lugar dos homens, a ocupar o vazio deixado pelo homem nos estudos, no trabalho, na prática da autoridade; e isso altera os fundamentos da sociedade.

Há, portanto, um movimento duplo e simultâneo, no qual as atitudes de chefia, de autoridade, de força moral e de referencial da sociedade bascularam do lado masculino para o lado feminino. Elas assumiram esse papel sem que vocês se dessem conta; ou melhor, insensivelmente, os homens deixaram para elas o papel de comando da sociedade.

Não discuto, de modo algum, a maior ou menor capacidade das mulheres de exercerem a chefia e a autoridade. Estou pronto para reconhecer a grandeza delas. O que me ocupa aqui é um problema de ordem superior, espiritual, causado por uma deficiência da natureza humana, tal como foi criada por Deus, e das conseqüências desastrosas que ela tem causado na vida da sociedade.

 

A Casa

Tudo começa dentro de casa: é onde recebemos educação. E aqui acontece a primeira deficiência: a falta ou a recusa de educação.

Gostaria de deixar claro que não podemos considerar como educação o mesmo que é pregado pelos governantes atuais. Segundo eles, o que falta ao Brasil é educação. Para remediar, pretendem investir em maior número de escolas, ou de vagas universitárias, como se escolaridade desse ao homem a verdadeira educação. De que adianta dar um diploma a todos, se nas escolas e nas famílias já não se transmite o caráter reto? Nem sempre os povos sem escolaridade foram povos mal educados. Hoje, ao contrário, quando a escolaridade se espalhou e universalizou, o que mais se encontra pelo mundo é a falta de caráter e de virtudes.

Nosso propósito é analisar a ausência de virtudes na educação moral dispensada pelos pais e pelas escolas.

Ora, dentro do conceito de educação, deveríamos pensar em obediência – é a primeira virtude que nos é exigida na vida. Deveríamos todos aprender a obedecer desde o berço, mas crescemos sem conhecer essa virtude, porque os pais não sabem se impor. A televisão, a internet, os jornais dizem aos pais que eles têm de dar liberdade à criança, não podem castigar, não podem repreender. Com isso, a criança não sabe obedecer, porque os pais não sabem mandar. Como tudo na vida moderna, é pelo lado subjetivo que se encara o exercício da educação, e ficam com pena, não podem dar uma palmada simples, que serviria perfeitamente como linguagem muito bem conhecida de uma criança que não despertou ainda para as ideias universais. Quando a desobediência e a arrogância dos filhos mal educados começar a ficar mais grave, aí os pais exercerão sua autoridade de modo excessivo e bruto, porque foram guardando a raiva, sempre subjetiva, até que não agüentam mais e explodem com violência.

Deveríamos pensar também na virtude da justiça: ela nos ensina a dar a cada um segundo os seus méritos e segundo a sua qualidade. Dentro de casa é que se aprende a verdadeira justiça. E o primeiro ato de justiça é dar aos pais a submissão que lhes é devida; dar a si mesmo a condição de subordinado, de filho, condição igualmente devida às crianças. Hoje, dentro de casa, ela já não existe, porque cada um morde o seu pedaço, cada um quer a sua parte, e todos vivem do egoísmo. O mundo moderno, individualista e subjetivista, produz o egoísmo, e por isso ele vai querer ensinar a justiça no comunismo, que é o regime do inferno levado à vida social. É aí, na política esquerdista, fomentadora das maiores injustiças que o mundo já conheceu, que se ouve falar de justiça, mas de uma noção deturpada, porque dentro de casa já não se ensina mais. Os próprios pais se consideram em igualdade em relação aos filhos, a quem atribuem pseudo-direitos e mínimos deveres.

Outra virtude que será demolida pela sociedade atual é a amizade. Também ela é uma virtude. Eis outra coisa que o mundo moderno tira da alma. Ora, a amizade se produz no convívio dentro de casa, sobretudo entre irmãos. Uma casa onde as crianças devem conviver com seus irmãos, devem partilhar de seus bens, devem aprender a generosidade para com o próximo, é uma fonte de amizade verdadeira, que será um dia aplicada ao próximo.

A vida familiar, na convivência entre um grupo de irmãos, também produz atritos. É preciso aprender a lidar com os atritos. Mais tarde, a sociedade e até mesmo o mercado de trabalho será cruel com quem não souber suportar o próximo. As pessoas, em casa, não sabem mais suportar os atritos. Fecham-se em seu amor-próprio, na desobediência, nas injustiças e não conseguem mais um mínimo de paz. Os filhos que aprendem a obediência, a justiça, a amizade, aprendem também a suportar as ordens mais pesadas e os defeitos dos seus irmãos.

Outra virtude que se deveria aprender em casa é a ordem, a boa ordenação das coisas, a hierarquia e o respeito. Mas isso já é sabido: desde os anos 60 que os filhos se colocam no mesmo nível dos pais, numa guerra insana contra seu próprio lar. O que vemos, nos dias de hoje, é a criança dar ordens aos pais, e estes os servirem como se fossem seus empregados. Tiram dos filhos a capacidade de reagir diante das situações da vida, tolhem as iniciativas humanas, a começar pelo copo d’água que se apressam em buscar quando a criança grita, deitada num sofá: — Mãe, traz água!!!! São raras as famílias em que os pais ensinam a seus filhos o espírito de sacrifício.

Há certos ritos naturais na vida da casa, que também se devem ensinar às crianças: saber se levantar quando uma visita chega; saber comer à mesa com a família reunida, e não vendo televisão; os meninos não irem à mesa sem camisa, as meninas não usarem roupas indecentes, etc. Tudo isso são coisas muito importantes na formação do caráter.

Desapareceram também, na casa, a oração e a piedade. É dentro de casa, pequenino, que se aprende a rezar. E quando não se aprende pequenino a rezar, não se aprende mais. Por uma graça, alguém, muito mais velho, é sacudido por Deus e se converte. Conseguirá perseverar? Claro que existem casos de perseverança na vida católica e na oração, entre convertidos adultos, mas é difícil, tudo fica mais difícil. Se a piedade e a regra da oração não forem ensinadas no berço, é bem mais difícil perseverar. Aqueles que receberam isso desde a pequena infância, agradeçam a Deus; aqueles que não receberam, saibam que não existe verdadeira vida de homem sem piedade. Vocês são católicos, batizados, precisam estar em contato com Deus. Isso influenciará cada uma das etapas de suas vidas.

Piedade não é ir a Missa todo domingo: isso é obrigação estrita de todo católico; piedade é a prática do catolicismo: o homem católico confia em Deus, tem uma relação com Deus. Não basta dizer: “Ah! Eu Creio” – é pouco; “Eu vou à Missa” – é pouco; “Mas é Missa de São Pio V” – ainda é pouco. É preciso mais do que isso. É preciso amar a Deus em tudo, com todas as forças, fazer d’Ele a referência primeira das nossas vidas. E esta referência precisa estar presente em todas as etapas, em todas as idades. Isso se aprende em casa.

A criança é deformada dentro de casa. Não o é por falta de amor dos pais, não é isso. Os pais amam seus filhos, mas amam de um amor errado. O equívoco está em achar que o amor sentimental é o verdadeiro amor que vem do espírito racional. Tudo isso nós podemos colocar como sendo causado pelo sentimento. Vocês não são homens. Por quê? Porque vivem dos sentimentos e não da razão. O demônio é um anjo esperto; ele quer levar todo mundo para o inferno; sabe que é pelos sentimentos que ele pega o homem. É pelos sentimentos que pecamos. O pecado vem pelo sentimento. Quando não se consegue mais dominar os sentimentos pela razão, então o homem deixa de ser homem, age como animal irracional, e cai no pecado.

Com Adão e Eva foi exatamente assim. Foram criados numa situação de natureza íntegra: a razão humana dominava as paixões. Quando Adão e Eva pecaram, a integridade se rompeu, a natureza tornou-se decaída. Nós nascemos, por castigo de Deus, com o pecado original. Duas coisas que estão juntas: a mancha do pecado original e a natureza decaída. O Batismo limpa a mancha, não muda a natureza, que continua decaída.

É por isso que não somos verdadeiramente homens, porque, se definimos o homem como um animal racional, então a razão deveria imperar sobre aquilo que é animal. Porque os animais também têm sentimentos. Todos têm algum tipo de sensibilidade, ainda que seja a menor de todas, que é a sensibilidade física. Sentem fome, sentem necessidades e vão em busca do necessário, movidos pelo instinto. Deus lhes deu o instinto para isso; a nós, não. Para nós, Deus deu a razão. E é pela razão que vamos em busca das nossas necessidades. Também pela razão devemos controlar nossos sentimentos animais para obedecer à Lei do Criador.

Porém, com a natureza decaída, a situação se inverte, e não a dominamos mais. Impera dentro de nós a lei das paixões: “Porque eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” 1.

E como podemos fazer com que volte a razão a dominar? Pela graça. Só a graça, essa criação de Deus soprada dentro de nós, pode restaurar nossa condição humana. Mas ela é instável, não é algo que se tenha em definitivo, pois somos levados a pecar quando esquecemos de ter em Deus nossa referência principal.

Formar homens significa inverter a tendência da natureza decaída, devolver à razão o reinado sobre os sentimentos, em todas as situações que se apresentarem diante de nós. Somos homens, somos racionais, por isso precisamos aprender a dominar a nós mesmos para, em seguida, dominar as situações da vida que se apresentarem diante de nós.

 

Escola

Se dentro de casa não aprendemos essas coisas, não é na escola que as iremos aprender. Ao contrário, na escola de hoje, somente reforçaremos a desordem, a inimizade, a injustiça, o egoísmo. A escola de hoje é formadora de vícios, porque não nos dá o que deveríamos receber. Somos forçados ao sentimento. Freqüentemente lemos nos jornais afirmações como esta: “o homem precisa viver de paixão”. Está errado. O homem precisa aprender a dominar suas paixões, orientá-las pela razão. Muitos psicólogos modernos acusam a Igreja de querer uma condenação sumária das paixões, o que teria provocado os distúrbios que se encontram na juventude. Mas isso não é verdade. A Igreja sempre ensinou que as paixões fazem parte da natureza sensível do homem. Em si, elas não são nem boas nem más, seriam neutras se não houvesse sempre uma polarização dos nossos atos entre o bem e o mal. Acontece que a natureza decaída se inclina com facilidade ao mal, movida por paixões desregradas. Se nossa natureza inclinada ao mal não fizer um esforço de elevação espiritual, cairá no pecado, na desobediência, na impureza ou na avareza. Essa é a situação da natureza decaída em Adão e Eva.

Os pais de vocês, quando se converteram, aprenderam algo sobre esse combate espiritual, mas não souberam aplicá-lo na educação dos seus filhos: podem ter tentado ensinar algo disso, mas não tudo. Às vezes dão aos filhos essa compreensão, mas esquecem de ensinar a piedade. Ora, como vocês vão sobreviver sem a piedade? Como vocês vão conseguir a graça, que é o único meio de manter a razão reinando sobre os sentimentos? Vocês sabem o que os pais dizem? “Não dá tempo para ensinar tudo”. Se eu pergunto: “você reza com seus filhos?” — “Não consigo, não dá tempo”. Mas eu pergunto: por que não dá tempo?

Vamos ver que alguns dos problemas que encontramos em casa, também os encontramos na escola.

Mas na escola damos um passo a mais na nossa vida social. Nela aprendemos uma coisa que, infelizmente, em casa já não se aprende. Na escola temos obrigações a cumprir. O ideal é que as crianças tenham suas tarefas e obrigações em casa, mas isso é raro.

Com essas obrigações aprende-se a fazer sacrifícios. Aprende-se a superar suas próprias deficiências e a desenvolver seus talentos: saber lidar com as vitórias e com as derrotas. É na escola que a criança deveria perceber que tem um desafio a realizar, boas notas, bom estudo, bom comportamento. Se ela repetir de ano, sentirá o remorso e o arrependimento, a vontade de melhorar e recuperar o tempo perdido.

A amizade e os atritos serão vividos de um modo novo, na escola. Uma coisa é ter atritos com o irmãozinho, outra coisa bem diferente é não se entender bem com alguém que pode bater em você, ou prejudicar sua estabilidade no convívio com os demais. Na escola a criança deverá aprender a firmar suas amizades com aqueles que merecem. Muitas vezes as amizades são fontes de muitos erros, de negligências e pecados. Toda criança bem educada conseguirá conciliar a alegria e o senso lúdico com a obediência, a honestidade e a pureza.

Qual a finalidade da escola? Qual a finalidade da família? A educação recebida em casa ou na escola deve desenvolver o caráter, a honra, e a Fé. Essas coisas se aprendem e passam a fazer parte da nossa natureza. A criança deve tornar-se um homem que não mente, que preza a honestidade em tudo o que faz, e que procura conviver com os amigos.

Na escola, a finalidade primeira é o estudo. Uma formação complementar à vida em família e que deveria ser subordinada à orientação moral ensinada pelos pais. A escola hoje, na verdade, já não tem mais o papel que deveria ter.

A escola hoje é dominada pelo Estado. Existe uma usurpação, por parte do Estado, do poder de ensinar. A criança tem de ir para a aula, tem de estar na escola. No fundo existe uma intenção de tirar dos pais o dever de criar e educar os filhos. A proibição, no Brasil, do home-schooling é significativa. Na cabeça deles, os pais não podem dar aulas porque o Estado é o responsável. Cuidado! Esse erro vai entrando, vai entrando dentro da gente, e perde-se a noção da verdade. Quem tem a obrigação de educar é a Igreja, na ordem sobrenatural, e são os pais, na ordem natural. Essa é a ordem estabelecida por Deus desde a criação do mundo. A escola é complementar, recebe dos pais delegação para atender seus filhos. O Estado nosso, que se impõe como educador, é comunista, é socialista, e manipula as consciências.

Aprende-se, tanto em casa como na escola, uma certa cultura. Quando falo de cultura, quero dizer aprender a ler. Não me refiro a aprender o alfabeto, a ser alfabetizado; digo aprender a ler, compreender que é através da leitura dos grandes clássicos, da verdadeira literatura, que aprendemos a conhecer a vida, aprendemos, pelo exemplo, o bem e o mal, e também adquirimos a capacidade de bem escrever. Cabe aos pais ter uma biblioteca ou usar uma biblioteca verdadeira para dar aos filhos essa formação de leitura.

Mas isso lhes parece muito chato: por que irão ensinar à criança o gosto da boa leitura, se podem apertar um botão e colocá-la diante de imagens vivas e cativantes da televisão ou de um computador? Então existe um problema aqui também na formação da criança, na formação da cultura. Temos aqui uma questão de cultura, tanto na literatura quanto na música. E temos também uma questão de Fé.

Dirão vocês: escola e Fé? Ora, a obrigação de toda escola deveria ser dar a Deus o verdadeiro culto, que é o culto católico. Temos de receber na escola uma complementação da casa, tanto na parte do convívio, da obediência, amizade, da formação do caráter, como da cultura e da Fé.

Quando eu era criança, estudava num colégio católico de leigos, não eram religiosos. Todo mês de maio, por exemplo, um menino e uma menina eram escolhidos para serem “Guardiães de Nossa Senhora”. A cada semana novas crianças eram escolhidas; uma coisa aparentemente boba, mas era a maior honra que podíamos ter no colégio. Quando a educação é feita com Fé, os pequenos ritos e gestos têm uma importância enorme, nunca mais se esquece. Meus antigos colegas de Primário, mesmo os que não guardaram a Fé, lembram-se ainda hoje: “Gostávamos de ser Guardiães de Nossa Senhora”. Cabe à escola nos dar algo da verdadeira Fé, do estudo sério e da formação complementar do caráter.

Os pais precisam ter conhecimento da escola em que matricularão seus filhos, devem saber o que procurar quando vão escolher uma escola. Não se trata de buscar aquela que vai levar o filho ao primeiro lugar no vestibular, não é isso. Além do bom nível de ensino e da disciplina, ela deveria oferecer o complemento de uma educação católica para seus filhos.

Com a crise de Fé que se espalhou dentro da Igreja, arma-se um novo problema, pois as escolas religiosas já não são aptas para dar às crianças uma educação que inclua a perseverança na Fé. De tal forma os erros do Concílio Vaticano II estão impregnados nessas escolas, que elas servem mais para arrancar a Fé do coração das crianças.

Os pais deverão procurar institutos de leigos com boa disciplina e bom nível de estudo, de pessoas sérias que se preocupem com a formação da família tradicional, e depois eles mesmos devem complementar em casa o que a escola não proporciona. Isso exige dos pais espírito de sacrifício, em casa. Em vez de gastar seu tempo com o Facebook, os pais têm a obrigação de se sentar com os filhos para ver as notas, acompanhar de perto os livros que são analisados na escola, e ensinar-lhes em casa as disciplinas que a Escola não ensina, como a vida dos santos, catecismo, história da Igreja, e diversas outras atividades culturais importantes. Nesse sentido, adquire grande importância o curso de Catecismo da Capela, ou de qualquer Priorado tradicional. Os pais não podem negligenciar essa formação dos seus filhos, pois na crise da adolescência a base moral e religiosa adquirida na infância será de grande valor.

E eu termino este capítulo sobre a Escola, voltando à casa, para lembrar a grave necessidade de se organizar a oração do Terço em família, além de se criar um ambiente de respeito e de interesse pelas coisas da Igreja. Talvez possam fazer em casa pequenos gestos ou cerimônias que marquem as crianças. No Natal, por exemplo, mostrar para a criança pequena o Presépio e, no dia 24 de dezembro, na Noite de Natal, colocar o Menino Jesus no Presépio, com uma pequena oração ou um cântico de Natal. Pequenos gestos que formam a Fé, e que podem se repetir em outras ocasiões.

 

Faculdade

O significado de estudo na faculdade não é o mesmo da Escola. Temos uma técnica a aprender. Devemos aprender as coisas que serão úteis para o trabalho honesto, com vistas a uma remuneração suficiente para o nosso sustento e o da nossa família. Mas é preciso evitar a visão marxista do homem trabalhador no sentido de ser uma força produtiva. Vivemos num mundo que respira o socialismo, que esquece o sentido espiritual do trabalho, que é o resgate da condição de pecado da humanidade. “A terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida” 2.

O fato é que vamos aprender uma técnica para possuir uma profissão. Vocês vão considerar as oportunidades e seguir uma carreira. Na faculdade continua havendo um problema com a justiça, com a obediência, apesar de que isso diminui um pouco, pois o regime agora é de maior liberdade. Por outro lado, os esquerdistas tentarão convencê-los de que os jovens podem consertar o mundo injusto, segundo eles causado pelos monstros capitalistas. Falarão da justiça social e do bem do Povo, uma entidade sem forma e sem lei, que lhes serve perfeitamente para a Revolução.

O convívio na faculdade parece mais maduro, mas está ainda longe da maturidade adulta. Continuará a vida de amizades assim como os atritos. A piedade não poderia, nessa hora, diminuir, mas é o que, em geral, acontece: o mundo abre-se para o jovem como se fosse um sonho; ele aspira à autonomia, aos amores da vida, à posse do dinheiro e da liberdade. Pela primeira vez a educação recebida na infância vai mostrar para que serve, pois será preciso saber lidar com esses anseios e paixões mais fortes. Aqueles que aprenderam desde cedo a obedecer, a ser equitativos e justos, a dividir com os outros da casa e da escola, passarão pela faculdade sem cair num deslumbramento perigoso.

Aqui aparece mais um problema na vida do jovem, a relação com o dinheiro. Todo o mundo moderno vive em torno do dinheiro. Como os homens perderam a noção da vida eterna e desta vida passageira neste mundo, vão concentrar nas riquezas materiais o fim de suas vidas. Fazem do dinheiro o seu deus.

Ora, nós não trabalhamos pelo dinheiro. É preciso que o católico saiba que há um problema moral relacionado ao dinheiro. Nosso sentimento nos inclina à posse de bens, isso é natural. Faz parte daquilo que chamamos de concupiscência. Nesse caso, é a concupiscência dos olhos que nos inclina de modo exagerado à busca pelo dinheiro e pelos bens. Pelas inclinações perversas da nossa natureza decaída, temos uma dificuldade para nos conter; pela falta de moralidade do mundo em que vivemos, somos literalmente empurrados ao pecado pela explosão de ofertas de toda espécie, sobretudo dos objetos e aparelhos eletrônicos que invadiram a nossa sociedade.

Se alguém disser, numa roda de amigos, que não se interessa pelo dinheiro, que prefere uma vida modesta, é chamado de louco.

Mas não podemos esquecer o exemplo dado por Nosso Senhor nos Evangelhos, pela vida pobre que viveu, pelo pouco que possuiu, e pela dificuldade extrema que declarou haver para que um rico entre no Céu. A pobreza levada aos extremos é ruim, pois gera a falta do mínimo necessário para se viver em paz e em certa harmonia espiritual e material. Porém, a riqueza posta como centro da vida gera tantas obrigações e falsas necessidades, que o homem perde também a paz, vive estressado e doente, cria inimigos e falsos amigos, e não tem tempo para cuidar da sua salvação eterna.

É preciso ainda saber que muitos homens não levam jeito para lidar com muito dinheiro. Se cada um souber se contentar com aquela vida que parece ser a melhor para si, seguindo os passos da Divina Providência, certamente terá paz mais segura.

 

Vocação religiosa

Um dia alguém recebe de Deus um chamado. É muito difícil haver um chamado para a vocação se a criança não for educada com princípios católicos, em casa, na escola e na faculdade. Sempre que posso eu alerto os pais de família, porque não formaram seus filhos para a vocação. Isso é um problema que vocês vão ter de enfrentar. Por que não formaram seus filhos para a vocação? Porque os formaram para ganhar dinheiro.

Eles os formaram para ter mulheres, viver no prazer ou para o sexo? Não, absolutamente. É verdade que, em geral, foram fracos quando não limitaram o uso da televisão, da internet, as noitadas em ambientes sensuais, atravessando a madrugada, toda essa vida social decadente e imoral que se vê hoje, e que leva ao pecado. Contudo, não foi essa a intenção primeira deles. Tiveram falta de visão? Sim, mas não era essa a intenção. A conseqüência dessa fraqueza é uma vida estéril, vazia, sem busca da verdade, sem amor pela oração, e sem vocações nas nossas famílias da Tradição.

Vocês podem objetar que o mundo é assim, exige que se viva dessa maneira. Respondo: nem tanto, nem tão pouco; é possível conviver com os amigos, jogar bola, se divertir, e não pecar. O pecado é como um muro: podemos chegar bem perto, até bater com a cabeça nele, mas não podemos ir além, senão, não somos homens. O homem quando peca, não é homem. Não tem mais a razão iluminada pela graça, dominando sobre os sentimentos; ele inverteu o seu reino interior e perdeu sua qualidade de filho de Deus.

A vocação é o fruto da presença de Deus. A maioria das vocações é uma graça que Deus dá apesar de o jovem ter vivido dessa forma. Quando há algo dentro do coração do homem que é dócil a esse chamado de Deus, o jovem abandona tudo e segue a Cristo. Mas acontece o contrário, quando há algo que não é dócil, porque preso ao vício, preso aos prazeres, preso ao gosto do dinheiro, preso ao gosto da liberdade. E a vocação morre na esterilidade da semente do espírito.

Eu falei da presença de Deus, de Jesus Cristo. Qual a relação do homem católico com Jesus Cristo, que é homem? É preciso que o católico tenha alguma relação com Jesus Cristo: relação séria, de homem a homem. Às vezes é preciso sentar-se diante de nosso pai, e ter uma conversa de homem a homem, já não mais de criança. O problema é que Jesus virou uma espécie de mito para a gente. Ele está no crucifixo, está no altar. Aos domingos vamos à Missa, comungamos; sabemos mais ou menos que se trata da Presença Real de Jesus, mas não estamos mais ligados a nada. Vocês não têm a seriedade de olhar para Ele e dizer: “Eis O homem”. Tenho de me espelhar n’Ele, Ele é o meu modelo. Tudo aquilo que posso dizer sobre minha virilidade, Ele possui em perfeição. Tudo o que posso dizer sobre meu modo de ser homem, Ele se encarnou para me ensinar. Tudo o que tenho como preocupação de homem, posso falar com Ele, pois serei ouvido. É na Fé, é verdade. Mas é preciso passar pela Fé para podermos ter com Ele a conversa eterna que iniciaremos na porta do Paraíso. Um dia morreremos, e quando isso ocorrer, Ele estará lá, sentado em seu trono. Então, chegaremos. A quem puder olhar nos seus olhos e dizer: –“Senhor, estou aqui. Posso entrar no vosso Reino? Fui fiel para poder entrar, lutei para poder entrar, fiz tudo para poder entrar”, Ele vai olhar nos seus olhos e dirá: “Entre, venha tomar parte no Reino que lhe foi preparado desde o princípio”. Porém, se o homem começar a desviar o olho, a não poder encará-Lo face a face, Ele dirá: “Afaste-se de mim, maldito, e vá para o fogo do inferno”.

Então, estamos na faculdade, na profissão, em casa, estudando, praticamos esporte... Ele tem de ter participação nisso.

Vocês talvez não tenham sido chamados à vocação, mas precisam ter uma relação com Jesus Cristo, como todo católico.

 

O que na educação ajuda a vocação religiosa?

Piedade, honra, Fé, educação, aprender a rezar... O pai deve perder tempo com o filho, saber que não pode ficar pendurado na internet, com seus amigos: ele tem de perder tempo com o filho. A primeira coisa que vão tentar colocar na cabeça de vocês é que ter filhos atrapalha. Todo mundo vai dizer isso para vocês: filho atrapalha, atrapalha o meu projeto de vida. Ora, quem disse que Deus quer esse seu projeto de vida? Você perguntou para Ele? Ele disse que tem de ser assim?

Ter filhos não atrapalha, porque o filho é o fruto do casamento, é a razão de ser da vida familiar. Ter filhos, para um jovem casal moderno, é reverter a situação de decadência, é sermos homens de verdade. Parece que eu avancei um pouco ao falar do casamento, mas não faz mal. Voltaremos a falar no assunto.

 

Esporte

Dentro de tudo isso entra a questão do esporte. É uma questão menor, podemos dizer assim, mas pode ser perigosa. Pode significar saúde e bem estar. Aqueles que não gostam de praticar esporte devem se esforçar para fazer alguma atividade física, porque o mundo moderno corrompe o corpo e a alma; sim, corrompe o corpo também. Não temos medida na comida, não temos medida na bebida. O mundo moderno é profundamente intemperante.

O homem antigo não precisava praticar esporte. A vida já era um esporte: ele cortava lenha, roçava a terra, andava a cavalo, tudo nele era esforço. A vida era um combate físico, de modo que o homem era saudável naturalmente. Hoje, não: o homem fica sentado atrás de uma cadeira, na escola toda, na faculdade toda e também na profissão: computador, computador, computador. Assim, vai atrofiando, desenvolvendo dores, gordura etc. Dessa intemperança pecaminosa surge a grave preguiça, a inversão da noite e do dia, a perda do ritmo natural do sono restaurador.

Mas, além da saúde, existe a paixão. E a paixão vicia, é sentimento sobrepondo-se à razão. Quando o esporte significa uma paixão, ele acarreta muitos erros e faltas, a começar pelos estudos e demais obrigações. O esporte é saudável, é gostoso, mas tem de se tomar cuidado. Outro problema relacionado com o esporte é a vaidade com o corpo. Chega a ser doentio o cuidado que vemos em rapazes ligados ao esporte, ou às academias de ginástica, onde se promove o culto do corpo. Muitos católicos se deixam levar por erros grosseiros como este.

Muitas vezes, por outro lado, encontra-se na prática do esporte a formação do sentido de justiça que pode ser uma virtude. O espírito de sacrifício e de superação também podem estar presentes, assim como o aprendizado da aceitação virtuosa da vitória e da derrota, como vimos na escola. Também podemos ver os jovens desenvolverem as amizades, o sentido da ordem, da hierarquia e da camaradagem.

A piedade muitas vezes cai muito, pode desaparecer por completo. É muito bom viajar com os amigos, competir, mas é preciso lembrar que temos nossas obrigações religiosas. O 3º Mandamento é uma obrigação estrita, e não podemos faltar à missa por causa de uma competição. Quando estamos no meio do mundo, temos obrigação de rezar. O católico tem obrigação de rezar, pois não seria normal estarmos numa casa e nunca nos dirigirmos ao dono da casa. Deus é o Senhor do nosso coração, e devemos todos os dias dar a Ele o nosso tributo de amor, que se manifesta pela obediência aos seus Mandamentos e pela oração.

 

Meu trabalho, minha profissão

A dedicação. Um dia acordamos e estamos formados. Vamos aprender que não podemos fazer somente o que queremos. É preciso acordar cedo. Dedicação. O profissional dedicado vai ser visto pelo patrão, vai buscar a perfeição: não apenas a obrigação, mas o gosto de fazer a coisa bem feita, não pela vaidade.

Cuidado com o comunismo. Aqui o comunismo vai atuar muito forte: virá o sindicato, o Procon, a tentação de tudo resolver nos tribunais. Tentarão impingir nas suas cabeças que o patrão é necessariamente usurpador e mau; o espírito de vingança será a tônica do ensinamento comunista. Todo mundo tem isso hoje no sangue. Somos deformados. Em alguns casos pode ser necessário entrar na justiça, mas em geral, não é esta a atitude de um homem católico. Cuidado com o desejo de se dar bem na vida. Já vi muitos católicos, que freqüentam a Missa, entrarem na justiça contra o patrão. Às vezes o patrão faz algo que não deveria fazer, isso pode acontecer; mas é preciso suportar com paciência muitas injustiças, e a vida continua. Não se pode querer tudo no rigor da justiça, sabem por quê? Porque acabaremos achando que essa vingança mesquinha é o normal da vida, e não saberemos agir de outra forma. Leiam o Evangelho. O que custa todo dia ler um pedacinho do Evangelho? Nele, aprendemos a conhecer esse homem, que é também Deus, e nos ensina a viver como verdadeiros homens. Ora, lá no Evangelho lemos a história do sujeito que devia uma boa quantia, suplicou ao patrão e teve a dívida perdoada. Logo em seguida, esse mesmo homem encontrou um companheiro que lhe devia um valor insignificante, bateu nele e o colocou na prisão. O patrão, ao saber disso, chamou-o e disse: “Eu não perdoei a sua dívida, que era muito maior? Por que você não teve misericórdia com ele?”. Eis o Evangelho, e ele é contra o sindicato, contra o comunismo, contra esse mundo de aproveitamentos mesquinhos em que se vive hoje.

Qual a finalidade da profissão? Subsistência, viver, comer; isso significa ganhar dinheiro. Agora, esse dinheiro é diferente daquele outro. Isso aqui é nossa obrigação: é preciso ganhar dinheiro. E esse dinheiro precisa ser ganho com a razão dominando os sentimentos.

Existe ainda outro ato de justiça nosso para com o patrão. Quantas tentações as pessoas têm de roubar. “Não faz falta, não”. Ora, não faz falta, mas não é seu. É preciso manter a seriedade da propriedade. Nosso Senhor vai pedir contas disso. Vocês sabem que quando alguém se confessa de furto, o padre explica ao penitente sobre a obrigação da devolução. Não basta se confessar, é preciso devolver; a justiça de Deus o exige.

Por outro lado, pode acontecer de um católico se deparar com alguma exigência contrária à moral ou à fé. A alma católica precisa ponderar com cuidado, pedir conselho, e uma vez ficando estabelecido que aquele ato é, em si mesmo, um pecado, conversar com seus chefes e explicar sua dificuldade de consciência. Atos ilícitos com contratos, favorecimento de abortos, e outros tipos de exigências não podem ser realizadas.

Por fim, é preciso considerar que o mundo moderno levou o homem a divinizar o trabalho, talvez por causa do apego exagerado, que ele mesmo criou, ao dinheiro. O fato é que muitos pais de família negligenciam o tempo que deveriam dedicar aos filhos e à esposa, para ganhar mais dinheiro. Muitas vezes até mesmo o descanso dominical e a missa ficam relegados a segundo plano. Somos levados insensivelmente a considerar as obrigações familiares e religiosas como algo secundário, como um peso e um estorvo para a nossa vida. Para aprofundar essa noção, recomendamos a leitura do artigo “A Casa”, de Gustavo Corção. Tenhamos um grande apego às nossas famílias. O ambiente familiar deve ser de tal forma preservado que a volta para casa seja sempre acompanhada de alegria e de repouso. O mundo moderno empurra o homem para fora de si mesmo, para a perda da vida interior, ao mesmo tempo em que o empurra para a rua, para o exterior da sua casa, do seu casulo onde são alimentadas as amizades profundas e a piedade.

 

Casamento

Eu digo para vocês que não são homens, também por causa da relação que têm com a mulher. Dirão vocês: “É o contrário. É por isso mesmo que somos homens: é natural ao homem buscar a mulher”. É verdade, mas quando nessa busca deixam que imperem os sentimentos, a coisa se complica, porque gera o pecado.

A mulher, em princípio, é a companheira. Adão procurou, entre todos os seres, uma companhia para si e não a encontrou. Deus, então, tirou a costela de Adão e fez a mulher. Adão reconheceu em Eva o osso dos seus ossos, a carne da sua carne. Chamou-a de mulher da sua carne. Virago. “Vir” significa homem, em latim. Aquela que veio do homem.

Ela é complemento, porque de fato preenche a vida do homem. E esse complemento começa como uma fortaleza que deve ser conquistada. A relação do homem começa com uma conquista, e não é qualquer mulher que deve ser conquistada.

Que significa conquistar uma mulher? Para quê? É uma ordem da natureza a conquista da mulher, para que ela seja companheira, para que ela seja o complemento. Por causa dessa finalidade, a fortaleza deve ser vencida e conquistada. Esse ímpeto que conduz o homem à conquista do seu castelo é o amor.

O que o mundo moderno faz neste ponto, esse mundo sem lei e sem honra, é viver de paixões, extravasar as paixões na busca da mulher. Isso não é o verdadeiro amor, que está na formação de uma companheira, de um complemento. Porque uma coisa é a conquista de uma fortaleza – lugar forte, estável, definitivo – outra coisa é possuir um “carrinho de mão”.

Uso aqui a figura de um carrinho de mão para mostrar a instabilidade, a coisa cambiante e cambaleante.

A mulher de hoje, que é conquistada pela juventude, é “carrinho de mão”. Tem rodinha. Rotatividade. O verdadeiro amor só pode ser por uma fortaleza, que se conquista para ser sua, para ser sua morada e seu domínio. Aparece aqui a veracidade desse bem do casamento, tal como Deus o instituiu no Paraíso, que é a indissolubilidade. Todo casamento é indissolúvel, porque é a conquista de uma fortaleza amada, que se tornou sua morada definitiva.

Como se realiza essa conquista? Vocês sabem muito bem que no passado, no regime de casamento natural, ele passava a existir a partir da união carnal. Se um homem e uma mulher tiveram relações, consideravam-se casados. Nós, católicos, batizados, temos um sacramento. O sacramento do Matrimônio gera uma graça sobrenatural que sela a união do casal. Nosso Senhor instituiu um sacramento próprio para isso, próprio para o amor, próprio para o sexo, próprio para a conquista da fortaleza. É um sacramento, e se é assim, se é um sacramento, se a conquista da fortaleza vem pela graça, olhem então para Jesus Cristo e perguntem se vocês podem namorar como o mundo hoje namora. Vale a pena fazer isso? Essa é a questão: Perguntem a Jesus Cristo. Vocês não estão sendo homens quando levam uma vida de pecado, quando se entregam a qualquer coisa. Vocês têm uma casa para formar. Não percebem que tendo com a mulher uma relação banalizada, estão destruindo essa fortaleza? Não estão considerando os fundamentos da sua casa futura? A mulher que não é a fortaleza a ser conquistada, é casa sem muralha, é porta aberta, onde os homens entram e saem ao sabor das paixões e sentimentos.

Os jovens de hoje diminuem tudo quando não percebem que a mulher é a porta aberta ao pecado. Vocês vão ter de criar um casulo, criar asas coloridas, como a borboleta. Quando um homem se une a uma mulher, ele a possui. Mas isso não acontece nesses namoros sexuais modernos. Ele a levou para casa? Vai dar comida para ela? Vai ter filhos com ela? Claro que não; então, eles não possuem a mulher, não é amor verdadeiro. Não tem Jesus Cristo. Não tem finalidade.

E eu já ouço a resposta: “Ah! Mas eu a amo”. É claro que ama! Qualquer homem ama uma mulher que está em seus braços. Mas não é o verdadeiro amor. É um amor de sentimento, uma paixão que une a carne, mas não é a conquista de uma fortaleza. É a conquista de um carrinho de mão. Um a mais, na coleção dessa falsa virilidade.

Quando isso é feito com a finalidade própria, então a razão domina sobre os sentimentos. O homem possui a mulher nesse sentido profundo de que falei, e o sentimento de posse é verdadeiro. Há uma falsa posse no sentimento que vem a um homem quando tem relações com uma mulher que não é a sua esposa, que não é a sua escolhida, a sua companheira conquistada.

O mundo da Revolução em que vivemos propaga que, quanto maior o número de mulheres com quem um homem tem relações, mais viris são. É o contrário disso: eles são menos homens. Qual a mulher que quer hoje ser possuída? Pergunto aos que têm condições para já estarem casados: Por que até hoje não se casaram? Porque a mulher não quer. Ela tem profissão, ela quer se formar, quer manter sua liberdade. Então vocês não as possuíram. Na hora que vocês conquistarem a fortaleza, a mulher se entrega, e ela só quer uma coisa: ser do homem. E aí ela se casa. Hoje em dia ninguém se casa por causa disso. Não existe o verdadeiro amor. Portanto, não existe verdadeiro sexo. É tudo uma enganação, um prazer passageiro e egoísta. Não é posse, não é a conquista da fortaleza. Isso tem de ser visto, isso precisa ser analisado de modo muito profundo diante de Jesus Cristo.

A formação da família passa por essa crise profunda, em que a mulher se igualou ao homem na busca de uma profissão, no dinheiro que quer ganhar, deixando de lado o maior bem que é a maternidade e a transmissão aos filhos do caráter e da honra, que é a verdadeira educação. Quando ela considera o casamento um bem para si mesma, une-se de modo instável ao seu namorado, considerando mais a manutenção da sua vida própria do que a doação de si mesma ao seu marido. Ele, por sua vez, deformado pela falsa ideia de masculinidade que lhe passaram, não saberá viver como verdadeiro homem. Os dois terão diante de si o desafio de voltar à casa, e nem sempre saberão como realizar este retorno.

 

Voltamos à casa

Tudo começa dentro de casa, para a criança que se tornará um homem adulto. Após todas as etapas que procuramos analisar, voltamos à casa, à nova casa criada pelo casamento. Ao longo da vida de criança até alcançar a idade adulta, a grande questão será a formação da cabeça do homem. É aqui que eu queria chegar. Toda esta conferência foi feita para analisarmos como os homens, hoje, iniciam sua vida de casados. Vocês não são homens porque a cabeça de vocês é deformada. Não sabem mais possuir. Digo isso porque, quando chegam na casa, não são chefes, não são autoridade, não são pais. Continuam sendo garotos mimados, egoístas, agora em disputa com a mulher para ver quem, no igualitarismo moderno, vence a queda de braço.

 

Qual a característica de um chefe em casa?

Em primeiro lugar, o papel do chefe da casa é comandar a sua casa, amar sua esposa, educar seus filhos. Em seguida existe a grande obrigação de dar subsistência à casa. Que a mulher ajude nesse ponto, como o homem ajuda a cuidar dos filhos, entende-se, apesar de que deve haver um esforço da sociedade familiar para proteger e priorizar a permanência da mãe junto a seus filhos. Que o homem se lembre de que cabe a ele essa obrigação, e a ela a obrigação própria da maternidade. Um primeiro ponto muito importante para a boa formação do lar é a harmonia das tarefas e das funções.

O pai precisa saber que ele dominou, ele conquistou a fortaleza, ele adquiriu a autoridade. Essa autoridade não significa que a mulher não seja companheira dele. Os dois se completam, mas não como duas peças de uma máquina. A vida da esposa é, ao mesmo tempo, complementar e subordinada à vida do marido. A analogia que poderíamos tomar seria a relação entre a cabeça e o coração. Um não vive sem o outro, mas a cabeça é mais do que o coração. Nela reside a inteligência, o conhecimento e a visão. Sem o sangue bombeado pelo coração, a cabeça morre, mas sem a cabeça, a bomba de sangue não serviria para nada. Essa harmonia está na essência da casa, ela é muito mais do que uma harmonia de agir, de bom entendimento entre os dois. A essência da família está nessa relação de autoridade e de subordinação. Ela é bela e profunda e o casal ganharia muito se compreendesse a riqueza que existe nesse fundamento espiritual da família.

Os dois mandam nos filhos, os dois têm autoridade sobre os filhos, mas entre os dois existe uma hierarquia. Ele é o chefe da casa, mas o homem de hoje não sabe mais ser chefe, ser cabeça. Não foi formado dentro dessa perspectiva. As mulheres trabalham, estudam, têm altas posições nas empresas, e quando chegam em casa não sabem mais se posicionar diante do marido. A mulher enfrenta o marido porque tem vontade própria. O marido reclama da mulher porque tem suas atividades próprias e a casa atrapalha. O filho enfrenta os pais. Tudo é invertido.

Então, o sujeito chega com a noiva para se preparar para o casamento (muitas vezes já vivem como marido e mulher). O padre explica “Adão e Eva... Pecado Original... Deus deu Eva para Adão... instituiu o casamento natural... Jesus Cristo elevou o casamento ao nível de sacramento, um ato sagrado... formação da família”. Casam-se, e logo começa a briga. “Eu quero isso”, “eu quero aquilo”, “eu quero assim”, etc. Perdeu-se a ordem das coisas. O homem com seus sentimentos, vontades e gostos; e a mulher, com seus sentimentos, vontades e gostos vão fazer uma mistura. Casamento hoje é mistura. Na hora em que os sentimentos, vontades e gostos do homem não derem certo com os da mulher – porque sentimento, vontades e gostos são coisas que variam – acaba o casamento. Não é isso o casamento. Casamento é passar por cima dos sentimentos, vontades e gostos porque existe algo chamado família, e família é mais do que o homem e mais do que a mulher. Existe um bem comum, e esse bem comum o homem tem obrigação de preservar. Ele, em primeiro lugar, porque é o chefe: Deus vai lhe pedir contas do que fez com sua família. Se Deus instituiu a reforma da razão sobre os sentimentos por meio do sacramento do Matrimônio, é porque Jesus Cristo tinha, para com a família, algo de muito forte, e confia ao homem algo que é d’Ele: “Eu te dou esta família, homem, chefe, para você cuidar, para propagar o gênero humano, para levar isso adiante, até o dia em que Eu tenha a corte celeste completa e acabe com esse mundo passageiro, para todos viverem na glória do Paraíso, enquanto os pecadores irão para o inferno”. Jesus Cristo tinha uma intenção muito forte, e Ele põe isso na mão do homem, na chefia da família. O homem esqueceu que ele tem essa responsabilidade. Hoje é tudo vivido no mesmo nível, no igualitarismo. Ouvem o que o padre tem para dizer, a doutrina bimilenar da Igreja, mas não sabem pôr em prática, porque o mundo não deixa. A mulher também não sabe mais o que significa essa subordinação, revolta-se contra ela como se trabalhar num escritório ou num projeto qualquer também não lhe trouxesse submissão às autoridades. Perdeu a noção de que, subordinada àquele que ama, àquele que a ama, e voltada para o bem dos filhos a quem deu à luz, viveria mais feliz do que no deserto de um mundo cruel e implacável. Como disse Gustavo Corção, elas acharam mais interessante arrumar um fichário do que arrumar a gaveta do armário.

Esta situação significa um desequilíbrio grave nas forças naturais da sociedade, no fundamento da família. O convívio dos meninos com meninas da mesma idade, continuando na adolescência e na juventude alterou completamente a relação entre os dois sexos. A saudável diferença de idades que existia antigamente, quando as mulheres casavam-se com homens mais velhos, desapareceu quase por completo, pois o convívio diário atrai os jovens da mesma sala da escola ou da faculdade. Como a psicologia da mulher é mais amadurecida do que a do homem, elas acabam tendo mais dificuldades para a função que lhes é própria na hierarquia da família, enquanto os homens se acomodam, sem perceber, numa confortável dependência da mulher mais madura do que eles.

Jamais a humanidade conheceu época tão desequilibrada como a atual. O meio século que nos separa do final da 2ª Guerra Mundial abriu um abismo entre o mundo moderno e o anterior. Estamos em uma nova civilização que já não tem mais nada de cristã. Está destruída a família, está destruído o homem e também a mulher. Este novo mundo é formado por uma geração de homens que perderam a noção da fortaleza própria do homem; uma geração de mulheres que perdeu o gosto pela maternidade e pela grande aventura de educar filhos, para que recomecem, mais tarde, o ciclo da vida social, pela fundação de uma nova família.

Os católicos podem resistir a essa destruição. Mesmo não tendo mais o Evangelho como critério da civilização, podemos mantê-lo como critério das nossas casas, da educação dada aos filhos, das escolas que possamos fundar e do mundo empresarial que consigamos formar.

No final da nossa formação, recomeçamos todo o processo: casa, escola, faculdade, vocação, esporte, profissão... Mas agora são vocês, e não seus pais. São vocês com suas esposas e com os filhos que vieram do casamento. Porque vocês souberam ser homens, souberam vencer o mundo, reverter a situação que o mundo trouxe para a vida de vocês.

Então, vocês vão viver a vida sabendo que têm uma finalidade, que é assumir o turno de vocês na construção da civilização cristã.

Essa é a realidade em que se vive hoje. Pensem nessas coisas e considerem isso de um modo profundo na vida de vocês. Não sei se tem solução para toda a sociedade, pois isso depende de um milagre, e nem sempre os homens merecem os milagres. Mas certamente existe uma solução pontual para cada um de vocês. Basta que procurem voluntariamente a formação necessária e a vida virtuosa que, só ela pode nos dar a graça divina necessária para a restauração do homem ainda nessa vida, e a conquista do céu, na vida eterna.

  1. 1. S. Paulo Rom, VII, 19.. E mais adiante o Apóstolo completa: “Mas vejo nos meus membros uma outra lei que se opõe à lei do meu espírito” Idem, VII, 23.
  2. 2. Gn 3, 17

Burguês, mundano e soberbo

Dom Lourenço Fleichman, OSB

A Permanência nasceu das aulas de Gustavo Corção. Nasceu da necessidade de dar continuidade ao trabalho de formação intelectual iniciado no Centro Dom Vital, onde Corção ensinou a doutrina Tomista durante muitos anos. Da decomposição dos princípios e intenções do seu fundador, Jackson de Figueiredo, devido às inclinações marxistas do então presidente, Alceu Amoroso Lima, não restou outra solução a Corção e a seus alunos senão abandonar aquele alto lugar de estudos católicos. Estávamos em tempos do Concílio Vaticano II. Alguns anos mais tarde seria fundada a nossa Permanência. Tinha sede em Laranjeiras, onde o Cardeal Dom Jaime Câmara celebrou a missa inaugural, em 29 de setembro de 1968. Os trabalhos foram iniciados com o lançamento da Revista Permanência, modesta no tamanho, grande no conteúdo, e que levou a todo o Brasil ao longo de 22 anos, a doutrina da Tradição católica, segura, apaziguadora, infalível. Como nossos leitores sabem, retomamos a publicação da Revista no Natal de 2011.

No último mês de novembro foi realizada numa fazenda perto de Taubaté, S.P., a Jornada de Formação, organizadas pela Fraternidade São Pio X, com a colaboração da Permanência, e que reuniu cerca de oitenta pessoas, entre jovens e adultos. O tema desse ano foi, justamente, a formação intelectual do católico, seus estudos, a necessidade de se aprofundar o catecismo para respondermos aos questionamentos constantes das pessoas que nos cercam, no trabalho, na escola, nas ruas da cidade.

As conferências estiveram a cargo dos padres que trabalham no Brasil, mas foram enriquecidas pela vinda do Pe. Alvaro Calderón, professor no Seminário N. Sra Corredentora, em La Reja, Argentina, um dos principais teólogos da Fraternidade S. Pio X.

Sua conferência tratou de interessante paralelo entre as quatro Notas da Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, e a família católica. Por esta analogia mostrou com clareza a diferença entre a família católica e a família liberal.

Se nossas famílias da Tradição não estiverem atentas com o modo de interagir com o mundo liberal, serão contaminadas e porão em risco os fundamentos da sua essência, perdendo, em seguida, o caminho para alcançar o seu fim último, que é a salvação dos seus membros.

Para evitar a contaminação com o espírito liberal e os erros modernos, devemos considerar com toda a atenção o que está acontecendo hoje com a humanidade, em termos civilizacionais.

No seu livro Dois Amores Duas Cidades, Gustavo Corção explica o aparecimento, no século XIV, do principal personagem dos tempos modernos, após a quebra da Idade Média católica:

“Entra em cena agora o personagem que desempenha o papel mais importante dos tempos modernos; ou melhor, o personagem cujo tipo, cuja índole, cujos códigos, em resumo, cujo espírito constitui um dos mais característicos fatores da nova civilização. Trata-se do “burguês”, que é o invasor dos tempos modernos pelas forças da Renascença e da Reforma, como os bárbaros foram os invasores do Império Romano. (...) Queremos dizer que surgiu um novo ideal coletivo, que diferenciou-se um novo super-ego, ou que ascendeu ao firmamento da mitologia do tempo um novo arquétipo.” 1

A força civilizacional do espírito burguês, característica da quebra da civilização do homem interior, do homem católico, produziu a civilização do homem exterior, do homem moderno, como explica Corção. Esse homem burguês produzirá na sociedade uma vida voltada para o enriquecimento e para a boa aparência; a moral burguesa estabelecerá suas regras de conduta, seu comportamento estereotipado, rígido e falso, isento de Deus, mas ainda envolvido em um ambiente estoico de domínio de si e desprezo das fraquezas humanas.

Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, o espírito burguês não conseguirá mais manter as aparências de uma falsa moralidade sem Deus, e deixará transparecer sem maiores escrúpulos o mundanismo sensual que culminará, no final do século XIX, na manifestação de homens importantes da cultura e da política, mergulhados no homossexualismo e no adultério generalizado.

Apesar da reação antimodernista de São Pio X e do crescimento, na primeira metade do século XX, do catolicismo tradicional, a Revolução triunfou no Concílio Vaticano II, derrubando as muralhas espirituais e morais que a Igreja Católica representava na tentativa de manter viva a Civilização Católica Ocidental. Ainda não se conseguiu medir com precisão a gravidade e o alcance civilizacional dos desmandos dos papas e bispos que atacaram com força total a Tradição da Igreja, precipitando-a na mais grave crise de toda a sua história, e abandonando seu papel de represar a decadência da humanidade caminhando para o inferno.

Mas o tempo passa inexorável e insistente, deixando para trás os séculos que se reputavam grandiosos e inovadores. O novo século, o nosso eletrônico e digital século XXI, modificou profundamente o homem em seus interesses e em seu comportamento.  Deu a ele ferramentas novas que moldaram a humanidade no que talvez seja seu derradeiro estado.

O espírito burguês surgido no século XIV iniciou uma civilização fundada na concupiscência dos olhos, na busca das riquezas e das aparências enganadoras; mesmo as grandes navegações, que tanto nos encantam por diversos aspectos, não deixaram de ser uma busca intensa pelas riquezas do oriente e pelas novidades do mundo lá fora. Mercantilismo dominante, produção do dinheiro e aparecimento do Capitalismo materialista, que mistura à liberdade própria do espírito humano, a ganância das paixões isentas da Lei de Deus.

O enriquecimento brutal das nações não podia deixar de ser seguido por certo conforto e deleites da vida. O espírito mundano será um passo a mais, a conseqüência natural do dinheiro fácil. Por isso a civilização nova será movida agora também pela concupiscência da carne.

Nesse início de século XXI, estamos assistindo ao aparecimento de um novo homem, de uma nova civilização, ou, se preferirem, do acabamento dessa civilização moderna iniciada há mais de setecentos anos atrás. Depois de estabelecer na cultura e nas artes, nas casas e nas tabernas, nas cidades e no campo, um mundo marcado pelas riquezas e pelos prazeres, o homem respira, hoje, por todos os poros, a soberba da vida; a última concupiscência que faltava como força de civilização, como preparação para o Anti-Cristo. Com ela termina a formação desse homem sem Deus, sem família, sem Pátria.

Este é o principal aspecto do que estamos vivendo hoje. Impregnou-se nas almas uma nova mitologia, como falava Corção acima; não mais homens isolados que vivem do orgulho ou do egoísmo, mas a própria civilização que erigiu a soberba da vida como sistema, completando assim o quadro em que aparece o Adão terminal, o terceiro Adão, o autor do que Corção chamou de “pecado terminal”, fonte do século do desamor.

Esta civilização fundamentada no Amor-próprio, depois de ter desviado seus olhos e interesses das coisas do alto para buscar as riquezas da terra; depois de ter desviado seus atos da fortaleza e pureza da vida para mergulhar nos prazeres da carne, volta-se agora para a destruição de toda e qualquer autoridade, para o achincalhe do 4º Mandamento.

“Vêem-se tendências contestatárias, torrentes de recusa e de protesto atiradas contra o passado, contra a tradição, contra o pai. As novas gerações são solicitadas a manifestarem sua maioridade com a bofetada na mãe e a morte do Pai”...

“O mundo moderno, nos seus pruridos revolucionários, é anticristão porque é todo orientado por uma soberba rejeição do Pai. E para maior escárnio inventaram uma fraternidade revolucionária baseada na decapitação do Rei, já que não tinham à mão a própria cabeça do Pai que está no Céu.” 2

No advento das grandes Revoluções, o desprezo pela autoridade do pai era assunto dos salões e dos livros de filósofos iluministas; tornou-se lei quando os revolucionários ocuparam o poder; hoje está presente no ar que se respira e ocupou as almas de modo universal. Mesmo nas melhores famílias católicas, formadas em torno das Capelas tradicionais, reina este espírito de soberba que se manifesta pela completa autonomia de pensamento, de decisões e de gostos.

Jovens dos dois sexos, às vezes crianças, adultos e velhos, todos partem do princípio de que cada um tem sua opinião, que todos têm o direito de manifestá-la livremente, e que as tradicionais instituições reguladoras e orientadoras das almas: a família, a paróquia, a escola, já não podem mais se manifestar.

O amor-próprio manifesta-se, em primeiro lugar, na nossa inteligência, estabelecendo o reino da opinião. Seria útil que o leitor retorne à leitura de alguns capítulos do livro A Descoberta do Outro, onde Gustavo Corção explica o processo da opinião na alma humana. A inteligência fica cega e não consegue enxergar a verdade.

Em seguida, o amor-próprio age na nossa vontade inclinando-a a tomar decisões baseadas em suas próprias opiniões, causando equívocos e erros difíceis de serem revertidos.

Finalmente, o amor-próprio excita nossa sensibilidade, causando paixões exageradas que nos impedem de perceber o erro das decisões da vontade e o vazio da argumentação das opiniões.

Os prodígios do Anti-Cristo foram então oferecidos a esta geração, filhos do orgulho. Abriu-se para o homem atual grande quantidade de ferramentas modernas, digitais, suficientes para que a civilização da soberba se manifestasse de modo integral e completo. Esse ambiente generalizado de blogs e facebooks era tudo o que o homem dessa civilização precisava para vomitar suas opiniões sobre tudo e sobre todos.

Não há mais regras, não há mais leis, não há mais espírito de obediência ou de humildade. Cada um encontra em sua casa, em sua vida, no trabalho ou na condução, o meio de estar conectado em tempo integral, ocupando sua mente e seus interesses com o mais superficial, raso e vazio oceano de mediocridades. Sente o prazer irresistível da força fictícia e enganadora, da aparência de autonomia de pensamento, de liberdade de escolhas, de impressão de erudição, falsa cultura de uma alma inebriada do seu próprio nada.

Trazemos um exemplo marcante ocorrido recentemente no ambiente da Tradição e que ainda incendeia as almas. Advertimos o caro leitor para o fato de não estarmos ocupados com o mérito da questão, mas tão somente com o método adotado pelo homem do orgulho e da soberba no caso vertente. Pela primeira vez desde a sua fundação, a Fraternidade São Pio X atravessou uma crise interna sem ter conseguido guardar um único segredo. Diante da exposição constante na internet, dos mais sigilosos documentos, se enganaria o leitor que imaginasse a existência de um sussurro que fosse, soprado ao pé do ouvido, e que não tivesse sido revelado. Não houve. Como se a casa de Monsenhor Marcel Lefebvre tivesse virado um botequim ou uma rua de vila, tornou-se proibido guardar segredo; uma espécie de “permissão” parecida dada para que cada um tirasse suas conclusões apressadas, totalmente fora do alcance de qualquer autoridade sobre esta terra, e mesmo no céu.

Não é difícil entender por que este ano ficou famoso pela enxurrada de falsos doutores, cada qual ocupado na estranha tarefa de tornar pública e notória sua própria opinião, exposta na vitrine da internet de blogs e facebooks. Em cada um desses casos não se encontra nenhum vínculo verdadeiro com uma autoridade qualquer. Ei-lo o homem pós-moderno, o homem sem limites, sem leis, sem freios. Desembestou pelas ladeiras e curvas desse mundo e já não consegue mais parar. Em algum lugar será encontrado meio morto, levado pela fúria do seu falso saber, enganado por suas próprias decisões. E quando um anjo se aproximar, ouvirá da sua boca cheia de terra, num último sorriso, a confissão do seu pecado: “eu sou um gênio”.

A alma que se conhece a si mesma se humilha. Nada vê, com efeito, de que possa se orgulhar. Ela alimenta dentro de si o doce fruto de uma ardente caridade, conhecendo nela a bondade sem limites de Deus.” (Santa Catarina de Sena, Carta ao Papa Gregório XI)

A humildade recomenda a pequenez dos meios, sem recomendar a pequenez dos fins. Quanto aos fins, é tão magnânima como a magnanimidade. Santa Teresinha do Menino Jesus escolheu a pequena Via, porque queria ir mais longe e mais alto” (Gustavo Corção, Dois Amores Duas Cidades, Vol. II, parte I, cap. 3, pag. 109-110)

 

(Editorial da Revista Permanência 268)

  1. 1. Agir, Rio de Janeiro, 1967. Vol. II, Parte II, cap. IV, pág. 172-173
  2. 2. Gustavo Corção, artigo O Quarto Mandamento, Revista Permanência nº 59, set. 1973, pág. 11

Não deixe o sal perder a sua força (Editorial)

EDITORIAL Nº 266

Uma das características mais importantes de uma instituição é sua fidelidade à idéia mestra que definiu sua fundação e sua linha de pensamento. Se os reponsáveis por uma empresa, por um projeto qualquer, ou por uma ordem religiosa, variassem a cada passo na finalidade que determinou aquela reunião de homens, ela jamais poderia perdurar no tempo, pois seus membros não saberiam em que direção estariam caminhando.

É nesse contexto que devemos entender aquela palavra que atribui à santidade dos fundadores das grandes ordens religiosas a perseverança delas ao longo dos séculos. Comparem a existência da Ordem de São Bento, dos Franciscanos ou dos Dominicanos, com qualquer empresa moderna. Enquanto aquelas gloriam-se por permanecerem idênticas na sua essência, ao longo de quinze séculos (S. Bento) ou setecentos outros (S. Francisco e S. Domingos), basta uma empresa qualquer alcançar vinte e cinco ou cinqüenta anos para se considerar tradicional e cheia de experiência. E de fato assim é, se considerarmos o mundo sempre cambiante e ondulante em que vivemos.

A Permanência não é uma ordem religiosa, mas tampouco é uma empresa comercial. Apesar de termos como objetivo a difusão da doutrina católica tradicional e, a partir dela, a resistência aos erros do último Concílio do Vaticano, algo mais do que a doutrina nos une. Em torno de Gustavo Corção criou-se na Permanência uma família que se caracteriza por um espírito sobrenatural que vai muito além da sã doutrina. Algo de difícil definição e delineamento, mas real e pessoal.

Esse espírito nasceu das aulas e escritos de Gustavo Corção. Ali era transmitido, como de pai para filhos, certo posicionamento diante das coisas de Deus e da sua Igreja que poucas vezes se encontra pelo mundo. Alguns dos nossos jovens tiveram a oportunidade de ver como os franceses da Tradição, nos anos 1980, chegavam nos mosteiros ou no seminário conhecendo latim, grego e Sto Tomás de Aquino. Mas bastava um acontecimento mais grave e polêmico surgir no âmbito da crise da Igreja ou da política internacional, para se perceber que aqueles rapazes não tinham recebido em sua formação o sensus fidei necessário para um julgamento sobrenatural reto e certeiro.

Quanto tempo se perde a ler e estudar coisas irrelevantes que mais se aproximam da curiosidade do que da formação católica! Quantas vezes ouvimos, nas aulas de Gustavo Corção, o mestre simplesmente ignorar algum assunto proposto por um de seus alunos, mostrando em duas palavras o porquê de não podermos perder tempo com aquilo. Ao mesmo tempo, nas situações mais difíceis e delicadas, com que genial simplicidade ele mostrava a solução teológica mais exata, sempre voltada para a salvação das almas e com um aspecto constante: de fácil compreensão, pois Corção era, realmente, um animal-professor, como ele próprio gostava de dizer.

Um dos pontos em que esse espírito sobrenatural aparece de modo impressionante é na compreensão a que ele chegou sobre a natureza da crise que submerge a Igreja Católica no cataclisma atual. Desde cedo ele entendeu que estava em jogo muito mais do que os aspectos diversificados e pontuais comentados pela maioria dos defensores da Tradição. Via a importância de se defender a missa contra a revolução protestante emanada de Vaticano II, ou de se criticar as edições absurdas das Biblias modernistas, ou ainda os catecismos heretizantes produzidos pelas Conferências Episcopais com o aval da Roma modernista. Porém seu espírito aguçado exigia de si mesmo e dos seus alunos a compreensão exata sobre a natureza da crise: é a essência do catolicismo que está ameaçada. Porque “se o sal perder a sua força, para que servirá?” 1

Parece-nos importante levar ainda mais adiante a nossa lembrança dos princípios do nosso fundador quanto à crise da Igreja e, para tanto, transcrevemos aqui o artigo “A Descoberta da Outra”, de 1977, na íntegra. Pedimos especial atenção dos nossos leitores aos termos precisos usados por Corção para definir a crise pelo que ela tem de esssencial e que aparecem logo nos primeiros parágrafos. São eles que nos servem ainda hoje para a posição da Permanência diante da crise que perdura:

Um leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.

Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na "nova Igreja" podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os "teólogos da libertação".

Devemos dar especial atenção aos pronunciamentos das Conferências Episcopais que rarissimamente dizem coisa parecida com a Santa Religião ensinada por Jesus Cristo. Basta prestar atenção, ler, e comparar toda a prodigiosa logorréia dos reformadores com o que já lemos dos santos doutores, dos santos Papas, e de toda a Tradição católica. Eles não falam a mesma língua de nossa Mãe Igreja, não usam o mesmo léxico, não seguem o mesmo espírito. Evidencia-se com brutalidade dolorosa o fato de ter sido a Igreja invadida, ou de ter se deixado seduzir pelos mesmos inimigos que combatia. Uma das notas mais características do novo espírito é a da tolerância erigida em máxima virtude, e o correlato horror por qualquer espécie de luta ou combate. Os novos levitas corrompem a juventude, destroem as famílias, mas quando alguém ergue a voz pedindo punição severíssima para os seqüestradores e para os traficantes de drogas, logo começam a esganiçar gritinhos: Violência, não! Violência, não!

E aqui encerro a concisa resposta que dou ao leitor escandalizado: foi a atenta observação desses fatos, foi a paciente leitura de himalaias de mediocridade e foi a comparação gritante entre o que ensinam e o que ensinaram os santos, e creio que foi principalmente a graça de Deus certa­mente pedida cada dia, cada hora, nessa especial e gravíssima intenção, que nos levaram a essas conclusões. Se é preciso usar o recurso dos gritos que tanto usam hoje, gritarei eu também, e não esconderei a reação que tive em 1965 após a primeira leitura da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: corri ao telefone do amigo mais próximo já chorando, já engasgado de soluços que me sacudiam o corpo todo. E gritei: eles estão loucos! Eles estão loucos! E mais não digo.

Vejo em seguida nos meios católicos um dilúvio de calamidades pavorosas. Nas melhores famílias católicas, tradicionalmente católicas, os jovens, pervertidos pelos professores de colégios católicos, se transformam em anormais, comunistas, criminosos seqüestradores, ou em inutilizados toxicômanos. Meu Deus! Como pode? Como pode? Como Pode? O mistério da permissão divina nos traz vertigens quando pensamos em tantos bons pais tão terrivelmente atingidos.

Mas quando pensamos que a crise de costumes que dissolve todos os valores morais de uma civilização é principalmente gerada pela impiedade e pelo orgulho dos homens, que reivindicam todas as liberdades e todos os direitos; e principalmente quando pensamos que é exatamente nessa hora sombria que os homens de Igreja julgam ter feito uma descoberta muito inteligente, e muito oportuna – a de se abrir para o mundo e até a de nele procurar inspirações para o novo humanismo que apregoam – então, com temor e terror, pensamos que a misteriosa permissão divina, já nos foi profeticamente revelada na Sagrada Escritura, e durará até o dia em que os homens descobrirem apavorados que desprezaram Deus, que contrariaram Deus, que se riram de Deus. E, nesse dia de espantosa desolação descobrirão "que não passam de homens" e que só Deus é o Senhor.

Neste ponto da entrevista, o leitor me faz uma pergunta muito séria e de importância capital:

— Qual é, na sua convicção, o traço principal, o conteúdo essencial dessa Outra religião que o senhor vê nos re­cintos da Igreja Católica?

— Mais uma vez insistido neste ponto: a desordem que se observa nos meios eclesiásticos e que produz tais malefícios, não pode  ser apenas uma pura desordem. A desfiguração da Igreja do Verbo Encarnado, isto é, da religião do Deus que se fez homem, tem uma figura: a da religião do homem que se faz Deus. Essa é a figura da desfiguração.

— Não foi o próprio Papa Paulo VI quem disse no discurso de encerramento do Concílio que "a Igreja de Deus que se fez homem encontrou-se no Concílio com a religião do homem que se faz Deus"?

— Exatamente. E se o amigo continuar a atenta leitura desse documento, se convencerá de que não exagero nem me perco em fantasias se lhe disser que a figura essencial da Outra é a de um humanismo que se torna uma nova religião que difere do cristianismo por seu desolado naturalismo, isto é, pela ausência da mais bela de todas as obras de Deus – a ordem da graça e da salvação.

Eles tentam disfarçar a chatice e a tristeza sinistra e feia, com retalhos de cristianismo sem vida  mas a anemia profunda do corpo sem sangue está na visibilidade da Outra que só serve para eclipsar a Santa Visibilidade da Igreja de Cristo.

— E como poderá a Igreja Católica desembaraçar-se desses equívocos e voltar a ser  visível, dourada, um pouco mais hoje, um pouco menos amanhã, mas sempre anunciando aos homens, aprisionados no efêmero, um Reino que não é deste mundo?

— O senhor espera ainda ver neste mundo a Igreja Militante em todo o seu esplendor?

— Não. A desordem é profunda demais e chegou aos vasos capilares dos membros da Igreja. Se ela não fosse obra sobrenatural de Deus eu diria, em termos usados pelos físicos, que a desordem é sempre prodigiosamente irreversível.

E, no caso, a improbabilidade de tal recuperação seria ex­pressa por números espantosos como dez elevado a menos mil (10-1000) que, na verdade, não exprimem nada. Não são números concretos nem entes de razão; quando muito diríamos que só são entes de giz no quadro negro. Emile Borel dizia francamente que, diante de tais improbabilidades, é melhor dizer simplesmente que são impossíveis. Mas nós aqui estamos  falando da mais maravilhosa das obras de Deus:

"Deus qui humanae substantiae dignitatem mirabiliter condidisti, et mirabilius reformasti"

E o que a nós parece impossível, é possível para Deus. Mas nossa esperança teologal não nos obriga a esperar acontecimentos neste mundo. No ponto da vida em que me acho, só posso esperar, pela misericórdia de Deus e pelo Sangue de Cristo, a felicidade de ver brevemente a Igreja do Céu em toda a sua beleza eterna e fora do alcance dos flagelos humanos.

E é a alegria dessa esperança teologal que, nestes dias de transição desejo aos meus leitores e companheiros de trabalho.

A Permanência aprendeu de seu fundador a manter-se sempre igual, pacifica e fiel, profundamente ligada à vontade de Deus segundo critérios de fé sobrenatural, ou seja, da adesão devida ao Mistério de Deus, verdade primeira, e que se declara e manifesta pela profissão de fé católica, mesmo nos momentos mais confusos e nebulosos que nos foi dado viver. Devemos permanecer nesses princípios se pretendemos continuar sendo a Permanência de Gustavo Corção, de Julio Fleichman e dos demais mestres que nos precederam.

*

Por outro lado, o fundador da Permanência deu à nossa instituição um exemplo de constante aplicação dos princípios da Lei Natural, iluminados pela fé, à coisa política da nossa Pátria. Porque também no governo dos povos a verdade precisa estar em primeiro lugar.

Por causa dessa verdade, Gustavo Corção viu no movimento militar de 1964 a reação espontânea do povo brasileiro contra a implantação forçada do regime comunista em nossas vidas. Foram as mulheres católicas, com panelas vazias em uma das mãos e o Terço na outra, que forçaram nossos militares a cumprirem seu dever cívico de defesa da Pátria. Por um milagre da Virgem padroeira do Brasil, nossos soldados expulsaram os inimigos do povo sem um único tiro, sem massacres ou guerra civil. Protegeram a população contra a guerrilha urbana dos esquerdistas, que matavam civis inocentes sem piedade, e até mesmo seus próprios companheiros de milícia, quando isso lhes interessava. Raramente o povo brasileiro passou por momentos de perigo no combate à luta armada comunista. E isso, graças aos cuidados extremos dos nossos generais. Quem viveu nessa época sabe que a população vivia em paz; quem tinha a temer eram os terroristas ou os ideólogos de carteirinha.

Porém hoje, após oito anos do governo Lula, com seu romantismo quase beato em favor de um comunismo adocicado, os antigos guerrilheiros assumiram o controle do nosso país, gente perversa, que está dando passos seguros no caminho de uma vingança pessoal contra aqueles que os derrotaram de modo tão brilhante e total.

Hoje o Brasil parece entregue a uma decadência certa, pois assistimos a elaboração de leis e à formação dessas “comissões” que nada mais são do que instrumentos paralelos para estabelecer uma máquina comunista no Brasil. Como sempre, pelo voto.

Política Econômica: O governo só enxerga a curto prazo e, nesse caso, está completamente desconectado da realidade: busca fazer o país crescer estimulando artificialmente o consumo. Ora, isso não tem como dar certo: todo chefe de família sabe que, se em sua casa começarem a gastar demais, logo toda a família estará atolada em dívidas e terá de apertar os cintos. Hoje as estatísticas demonstram que é recorde o endividamento dos brasileiros: em média, 20% do que ganham vai para o pagamento de dívidas. Imagine o que ocorrerá quando todo o país tiver de apertar os cintos!

Código Florestal: Verdadeira paródia de um conto para crianças, aqui também há vilões, heróis e uma linda mocinha em perigo. A mocinha é a natureza. Os anti-heróis são os estudantes, celebridades e jornalistas. Os vilões, na visão deles, são os homens do campo. É um enredo curioso porque no caso, os "homens de cidade" seriam os amantes e defensores da natureza; os "homens do campo", os que se dedicam e cultivam a terra, seriam os seus inimigos. O objetivo dos “heróis”, portanto, é impedir a ação dos “maus”: por trás da campanha "Veta Dilma" está a concepção ambientalista, que subverte o objetivo do negócio rural: ao invés de ser a produção racional, passa a ser a preservação das matas. Essa história não tem final feliz, porque paralisa o país, impedindo o desenvolvimento da produção agrícola.

Comissão da Verdade: A ironia dessa comissão é ter sido criada por uma presidente que, ela própria, dissimula sua participação em crimes do período militar (como guerrilheira). Nenhum membro escolhido busca a verdade nos fatos, mas apenas na ideologia. Apesar da Lei de Anistia, os esquerdistas não descansam enquanto não conseguirem sua vingança pré-programada; martelam nessa mesma tecla até que as amarras jurídicas caiam e a vingança possa ser executada.

Além desses pontos, a política atual está minando toda a integridade que ainda restava no povo brasileiro. Vão forçando e insistindo até que conseguem seu intento. Por isso preparam-se para novas tentativas de desarmamento, para novas leis favoráveis ao aborto, para liberar o porte de drogas e de destruição da família brasileira. Os espantalhos vão sendo espalhados pelo Brasil de modo a assustar a todos, tirando do povo simples e dos mais bem formados, qualquer poder de reação.

Hoje já não há mais o Exército Brasileiro capaz de combater esses vingadores derrotados de outrora. Por outro lado, não há mais a Igreja Católica capaz de conduzir a sociedade aos atos morais necessários para que se mantenha a paz e a harmonia entre os homens. Nem mesmo políticos há, que se oponham de modo verdadeiro ao lixo de uma esquerda retrógrada.

Pela Igreja e pela Pátria, peçamos a Nossa Senhora Aparecida que nos proteja dos nossos inimigos, enquanto nós tratamos de seguir os passos firmes de Gustavo Corção.

(Revista Permanência, 266)

  1. 1. S. Mateus, 5, 13.

A Permanência no centenário de Fátima

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Em 1987, ao se completarem os 70 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima, Portugal, Dom Marcel Lefebvre reuniu a sua Fraternidade Sacerdotal São Pio X no local das aparições, numa peregrinação internacional de padres, seminaristas e religiosos, juntamente com alguns poucos milhares de fiéis, sobretudo da França e Alemanha.

Nessa ocasião o bispo de Ecône fez uma solene consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, sem querer, de modo algum, usurpar um papel de chefia que não era o seu, mas desejando, por outro lado, cumprir a ordem dada pela Mãe de Deus, quando da aparição a irmã Lúcia, em Tuy, na Espanha, em 1929.

Se os papas se recusaram a consagrá-la, ou se o fizeram sempre de modo parcial, eu pelo menos – pensava o santo bispo – cumprirei a minha parte. Eis o trecho da consagração relativo à Rússia, feita por Dom Marcel Lefebvre, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na Cova da Iria:

... na intenção de frear os castigos que anunciastes, vos tornastes a mensageira do Altíssimo, para pedir ao Vigário de Jesus Cristo, unido a todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao vosso Imaculado Coração. É com pesar que vemos que ainda não deram resposta a vossos pedidos.

Por esta razão, a fim de antecipar o feliz dia em que o Soberano Pontífice realizará os pedidos de vosso divino Filho, sem nos atribuir uma autoridade que não nos pertence, mas por uma humilde súplica dirigida ao vosso Coração Imaculado, em nossa condição de bispo católico, penetrados de solicitude pela sorte da Igreja universal, e unidos a todos os bispos, padres e fiéis católicos, Nós resolvemos responder, por Nossa parte, aos pedidos do Céu. (...)

E Dom Lefebvre continua com mais detalhes:

Em segundo lugar, damos, entregamos e consagramos, na medida em que isso está em nosso poder, a Rússia, ao vosso Imaculado Coração: nós vos suplicamos, na vossa maternal misericórdia, de tomar esta nação sob vossa poderosa proteção, de fazer dela vosso domínio onde reinais como Rainha, de fazer dessa terra de perseguições uma terra de eleição e de bênção. 

Nós vos conjuramos a submeter tão inteiramente essa nação a vós, que, convertida de sua impiedade legal, torne-se um novo reino para Nosso Senhor Jesus Cristo, nova herança para vosso doce cetro. Do mesmo modo, tendo abandonado seu antigo cisma, que ela retorne à unidade do único rebanho do Pastor eterno, e que, submetida assim ao Vigário de vosso divino Filho, ela torne-se um ardente apóstolo do Reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as nações da Terra.

Como fica claro no texto dessa bela consagração, a Rússia jazia ainda sob a escravidão da União Soviética. Quem poderá dizer qual a influência desse ato nos acontecimentos que viriam? Quantas mudanças após o fim da Cortina de ferro e as vicissitudes sofridas pelo povo russo após 70 anos de comunismo.

Em duas ocasiões a consagração realizada por Dom Marcel Lefebvre foi renovada pelos bispos da Fraternidade São Pio X: 1997 e 2005. E agora, no último dia 19 e 20 de agosto do ano corrente de 2017, realizou-se a terceira renovação dessa mesma consagração. O contexto não poderia ser mais grandioso: reuniu-se em Fátima uma multidão de cerca de nove mil fiéis, 200 religiosas, entre irmãs da Fraternidade, dominicanas, hospitalares e outas. Entre os seminaristas, sacerdotes e religiosos eram mais de 300. Todo esse mundo rezando em torno dos três bispos da Fraternidade São Pio X num evento de grande porte.

A peregrinação organizada pela Permanência e nossas Capelas atravessou o mar salgado com fiéis da Capela São Miguel (Rio de Janeiro), da Capela Nossa Senhora da Conceição (Niterói), da Capela N. Sra da Assunção (Fortaleza), de Florianópolis e de São Paulo. Os 33 peregrinos se juntavam a cerca de 50 outros do Priorado de S. Paulo, além de alguns que foram por conta própria. Ao todo os brasileiros beiravam uma centena. Bela representação se pensarmos na distância e na situação de grave crise por que passa nosso país.

O dia 19 de agosto marcava o centenário da 4ª aparição de Nossa Senhora. De fato, no dia 13 desse mês, em 1917, as três crianças estavam na prisão e não puderam comparecer ao encontro marcado pela Mãe do Céu. Foram surpreendidas pela aparição da Virgem Maria quando, já libertadas da prisão, se dirigiam à Cova da Iria, no local chamado Valinhos, poucas centenas de metros após se deixar Aljustrel, o vilarejo onde moravam. Hoje há um oratório com uma bela imagem de Nossa Senhora.

A Fé sobrenatural é um dom de Deus que se aloja na nossa inteligência e esclarece nossa razão, realizando em nós o ato de crer, e dando-nos motivos e forças para agirmos segundo a vontade de Deus, na Caridade. Essencialmente, a Fé não necessita de apoio sensível e é capaz de agir sobre nós, mesmo em condições adversas, como no meio de uma guerra, ou num leito de hospital. No entanto, a prática da Igreja e o exemplo dos santos mostram uma relação muito íntima entre a realização sobrenatural e interior da Fé e as coisas físicas que sempre acompanham a vida sensível dos homens. É assim que estar de joelhos no meio das pedras, diante do lugar em que o corpo glorioso da Virgem Maria encostou nessa terra; estar ali rezando o Rosário no dia mesmo em que se completam 100 anos dessa aparição, é algo que move os céus, que espalha de modo mais abundante as graças de conversão, de santificação, de adoração e louvor.

Não se trata de “sentir” alguma coisa, uma emoção, ou banhar-se em lágrimas para, por assim dizer, confirmar a graça invisível. Ao contrário, é como se a graça invisível nos levasse pela mão, nos conduzisse à sublime presença do Céu tocando a Terra, sem abandonar o que em nós há de humano, dual, corpo e alma, espírito e sensibilidade. 

Foi assim que no sábado 19, após a missa cantada às 15:00 de uma tarde quente e ensolarada, com os milhares de fiéis tentando se esconder do sol de 38º sob as poucas árvores do parque em que se montaram as tendas do altar, seguimos em procissão rezando o Terço, pelas trilhas do campo, entre as oliveiras e carvalhos. A multidão de padres e fiéis compactou-se em torno da imagem de Nossa Senhora nos 100 anos dessa aparição, quando Nossa Senhora insistiu muito sobre o aspecto sobrenatural da oração constante.

Essa multidão já mudara o ambiente da pequena cidade. Por toda parte encontrávamos padres e religiosas da Tradição. Os franceses dominavam a cidade, tendo vindo aos milhares. Ouvia-se igualmente por toda parte o inglês de muitos americanos e o alemão. 

Os grupos iam e vinham, entre os túmulos de Francisco e Jacinta, dentro da Basílica, a Capelinha das aparições, construída no local mesmo em que Nossa Senhora tocou a Terra, o parque onde foram celebradas as missas do sábado e do domingo, e o vilarejo de Aljustrel, hoje transformado por um turismo religioso intenso, mas que preservou, restaurou e iluminou o lugar onde os três pastorinhos viveram a maior aventura ocorrida nos últimos cem anos. 

O mundo se transformou, a Revolução tomou conta das sociedades e expulsou a fé da vida dos homens; passamos por duas guerras mundiais, o Concílio Vaticano II destruiu o obstáculo ao reino do Anticristo, o homem pisou na Lua, dominou os semi-condutores e aplicou-lhes os algoritmos da programação mais avançada. Mudaram-se os costumes sociais, os costumes religiosos, a política dos povos. E nada disso chega perto da grandeza e da importância de Fátima.

Se pensarmos no conjunto de graças recebidas pelas três crianças, desde a intensa preparação feita pelo Anjo de Portugal, em 1916, passando pela maternal presença da Virgem Maria nas seis aparições de 1917, na heróica comunhão das crianças com o sofrimento das almas dos pecadores, nos atos de reparação, nas orações pelo papa, na gravíssima responsabilidade que a Mãe do Céu punha em seus tão pequeninos ombros mostrando-lhes o Inferno, e exigindo delas a mais filial e plena união reparadora ao Imaculado Coração; se imaginarmos a alma de três crianças sabendo que o castigo terrível da guerra iria se abater sobre a humanidade e que cabia a elas anunciarem ao mundo o remédio oferecido por Nosso Senhor, de recorrer à Mãe de Deus no amor puríssimo do seu Imaculado Coração; enfim, se pensarmos em tantos outros detalhes que não podemos aqui enumerar, decididamente estamos diante do maior evento acontecido sobre a Terra nesses tempos de apostasia e de calamidade. 

Por isso tudo era importante atender ao chamado de Dom Bernard Fellay e termos uma representação aos pés do trono da graça, como cantamos no introito da missa do Imaculado Coração, celebrada no domingo, ali pertinho do lugar em que esse mesmo Coração foi mostrado aos homens pela primeira vez, na palma da mão de Nossa Senhora:

Adeamus cum fidúcia ad thronum gratiae” – avancemos com confiança ao trono da graça, ao trono do amor maternal, ao trono do socorro nos dias de tribulação, em que só o coração da Mãe pode vir em auxílio aos seus filhos aflitos e famintos.

Assim foi a missa do domingo 20 de agosto, em Fátima. Para que se tenha uma idéia da grandeza da reunião, cerca de 25 sacerdotes distribuíram a Comunhão aos nove mil peregrinos reunidos. Mesmo assim ultrapassou os 20 minutos o tempo necessário para que todos comungassem. 

No final da missa os três bispos reunidos renovaram a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ao citar esta questão no sermão da missa, Dom Bernard Fellay lembrou que a conversão da imensa nação eslava não significa apenas o fim do comunismo. Após tantos séculos de cisma, de uma ruptura que se iniciou pela recusa da autoridade do papa como sucessor de Pedro e chefe da Igreja universal e que levou o povo russo também à heresia, ao recusar todos os dogmas solene e infalivelmente pronunciados pela Igreja ao longo dos últimos séculos, não faz sentido imaginarmos que a Rússia possa ser agraciada por um milagre que a livrasse da escravidão soviética sem que a levasse à única Fé, à única verdade proclamada e ensinada com toda a autoridade de Cristo pela Igreja Católica Romana.

E falamos de Igreja Romana! Logo surge outra questão aflitiva: como imaginar uma conversão da Rússia à fé da Igreja Romana sem pensar na conversão das autoridades da Igreja, o papa e os bispos do mundo inteiro, à verdadeira fé ensinada ao longo de dois mil anos e rechaçada pelo Concílio Vaticano II. Este é o drama que vivemos. Ele só faz aumentar nossas obrigações espirituais, nossa necessidade de praticar oração e penitência, o terço diário e o estudo do verdadeiro catecismo.

O fato é que, malgrado os 70 anos de regime ateu e perseguidor da fé, a Rússia parece ser o único país capaz de manter certas exigências morais já desaparecidas do Ocidente. Qualquer coisa de religioso se conserva mesmo na estrutura governamental e apesar dos seus governantes, o que significa que no dia em que o papa resolver obedecer à ordem do Céu e consagrar a Rússia, junto com todos os bispos do mundo, ao Imaculado Coração de Maria, mesmo sendo tarde, algo de portentoso, de espetacular poderia suceder, e nós veríamos uma reviravolta na situação atual, em que o liberalismo tomou conta de todo o mundo ocidental, que só fala e só raciocina em termos de total liberdade para tudo e para todos os que não são católicos. 

Na Espanha, mais uma vez os homens responderam aos ataques islâmicos no coração da Europa proclamando as liberdades e a democracia. Foi assim em Paris, em Nice, na Alemanha. Enquanto a cegueira tomar conta dos governantes, políticos, artistas, jornalistas etc. os inimigos da Fé católica, os inimigos da Civilização Cristã crescerão e nos ameaçarão dentro de nossas casas, em nossas cidades. A Europa já caiu diante dos milhões e milhões de islâmicos que a invadiram encontrando os portões abertos. Muitos sofrimentos foram preditos pela Virgem Maria em Fátima, e todos se realizaram ou estão se realizando: o fim da 1ª Grande Guerra, o início da 2ª Guerra ainda no pontificado de Pio XI, a Rússia espalhando seus erros pelo mundo, o desaparecimento de muitas nações etc.

Muito antes do Concílio Vaticano II abrir as portas da Igreja ao mundo liberal já se constatava uma política equivocada diante das nações. Conhecemos alguns desastres provocados pela política e pela diplomacia do Papa Pio XI, tais como o massacre dos Cristeros, no México, ou a condenação da Action Française, de Charles Maurras. Ora, as aparições de Fátima, e em particular o pedido de consagração da Rússia, contrariavam os desejos da política do Vaticano na época de Pio XI. Apesar de ter mostrado até certo ponto crer na veracidade das aparições, este papa preferiu não realizar a consagração. 

Por isso, Nosso Senhor se lamentou com a irmã Lúcia, numa comunicação espiritual que esta teve em Rianjo, na Espanha, e sobre a qual ela escreve:

“Numa ocasião em que eu pedia a Deus a conversão da Rússia, da Espanha e de Portugal, pareceu-me que Sua Divina Majestade me dizia: “Me consolas muito pedindo a conversão dessas pobres nações. Pede-a também à minha Mãe dizendo-lhe sempre: “Doce Coração de Maria, sede a salvação da Rússia, da Espanha e de Portugal, da Europa e do mundo todo”. (...) E em outra ocasião: “Avise aos meus ministros que, como eles seguem o exemplo do rei da França, retardando a execução do meu pedido, eles o seguirão nas dores. Jamais será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria”.

E ao Pe. Gonçalves, seu confessor: “... Nosso Senhor me disse se lamentando: “Não quiseram ouvir meu pedido. Como o rei de França, eles se arrependerão e o farão, mas será tarde. A Rússia terá espalhado seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições contra a Igreja. O Santo Padre terá muito a sofrer”.

Diante desse contexto, a reunião de cerca de dez mil pessoas em Fátima, no ano do centenário, as missas, os terços rezados, as penitências realizadas pela multidão e, sobretudo, a renovação da Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria fortalecem a nossa Fé católica, nos anima no combate, nos exige atitudes verdadeiras e fortes dentro de nossas famílias, em nossas Capelas, suplicando à Virgem Maria que sopre em nossos corações o seu espírito de fé sobrenatural, de sabedoria, de amor pelos pobres pecadores e pela conversão do papa e dos bispos, para que, enfim, assumam o seu papel de confessores da Fé diante de um mundo apóstata.

(Revista Permanência 287)

Breve introdução aos salmos

breve introdução aos salmos

 

NOME — Em hebraico o salterio tem o nome de sefer tehillim — livro dos louvores (liber hymnorum, traduz São Jerônimo).

Salmo é um nome grego (psalmos) que traduz a palavra “mizmor” que encabeça muitos salmos “psalleim” — tocar um instrumento de corda ; ou cantar acompanhado de instrumento de corda.”

Saltério — conjunto de salmos.

INSPIRACAO — O Conc. de Trento confirma a Tradição antiga ao enumerar entre os Livros canônicos o “Psalterium davidicum 150 psalmorum”. É catalogado entre os livros poéticos e sapienciais.

NUMERO — 150; cifra canônica. Fora disso é apócrifo.

LINGUA — Foram todos escritos em hebraico.

AUTORES — O título do Conc. de Trento não quer afirmar que Davi é o único autor.

Davi é o autor de 88 salmos: O texto hebraico lhe atribui 73, outros 15 lhe atribui a Vulgata e LXX e 2 pela S.E. em outros Livros, mas 2 desses não são certamente de Davi ( sl42 & 136 )

Outros Autores:

— Salomão— atribuem— lhe o ps. 71 e 126.

— Moisés— sl89.

— Hemán ( do Templo )— sl87.

— Ethán ( do Templo )— sl88.

— Asaf ( mestre de coro do Templo no reinado de Davi. )— sl49; 72— 82 (12 salmos).

— Filhos de Coré (descendentes do levita revolucionário castigado por Moises no deserto) — ps. 41— 48; 83,84,86,87 (12 salmos ).

 

TEXTO dos SALMOS

Apesar de que o texto hebreu e o texto dos LXX (Vulg.) concordem com o número dos salmos, existe uma diferença de numeração entre eles. Os salmos eram de uso litúrgico, por isso os hebreus devido a circunstancias uniram alguns salmos e separaram outros o que acarretou diferenças:

    

 

              

DIVISÃO do SALTERIO

O saltério dos 150 salmos é o resultado da união progressiva, conduzida pela Providência , de diversas coleções de salmos mais ou menos compenetrados entre sí. Na Bíblia hebréa os 150 salmos são divididos em cinco livros e no último salmo de cada livro se encontra uma doxologia terminada por “...Fiat,Fiat.”. (com exceção do ps. 150 que é ele mesmo uma doxologia de todo o saltério).

Essa divisão nos dá uma cronologia aproximativa, que pode não ser exata por possível reacomodacão temática dos salmos para uso litúrgico.

Fillion fixa o período de composição dos salmos (excetuado o de Moisés) do ano 1050 ao 450 a.C. ( + — 600 anos)

 

1o LIVRO  — ps.1 a 41.

“Saltério Yahvista” porque Deus é designado pelo nome de Yahveh.

Autor — Davi

São salmos “pessoais”— tema freqüente: confiança em Deus nas dificuldades (perseguição de Saúl e revolta de Absalon)

 

2o LIVRO — ps.41 — 71.

“Saltério Elohista”— Elohim substitui o nome de Yahveh para que o santo nome de Deus não seja repetido (reverencia).

Autores — Davi, Filhos de Coré, Asaf e Salomão:

— saltério de Coré ps. 41 a 48 — De grande beleza e rica doutrina ; amor apaixonado pelo Templo e por Jerusalém.

—  ps. 49 de Asaf — é um poema nacional.

—  2o saltério davídico — ps. 50 a 71  (65, 60 e 70 são anônimos e o 71 é atribuido a Salomão).Aqui não se trata mais da epopéia davídica mas de uma oracão de  um exilio de coracão, um apelo todo cheio de confianca.

 

3o LIVRO  ps. 72 a 88    Elohísta.

— Saltério de Asaf — ps.72 a 82 . Conjunto de poemas nacionais que anima uma fé intensa na proteção de Deus sobre seu povo. Esse saltério foi muito cantado no exílio de Babylónia.

— sl83 a 88 — salmos isolados, reagrupados após o exílio. sl85— Davi,  sl87— Hemán,  sl88— Ethán.

 

4o LIVRO sl89 a 105  Yahvista.

— salmos isolados :sl89 — Moisés;

sl90,91,93,94,103 parecem pré— exilianos;

sl101 post— exiliano.

— salmos reais : realeza de Yahveh sobre indivíduos e nações : sl92, 95— 99.

— salmos davídicos — sl100 e 102.

— salmos históricos 104, 105: benefícios de Yahveh e infidelidade dos judeus.

 

5o LIVRO os 106 a 150   Yahvista.

— salmos diversos: sl106 — histórico.

sl107 a 109; 137 a 144 — Davi

sl110 e 111— sapienciais.

sl118 e 136— triunfo da Lei.

sl126— Salomão

— salmos do “Hallel “( do hebreu halle — Yah.) usado nas cerimonias mosáicas.

Hallel ordinário sl112 a 117

Grande Hallel   sl134 e 135

Pequeno Hallel sl145 a 150.

— salmos graduais: São 15 salmos ( sl119 a 133 ) post exilianos em sua maioria compostos para sustentar e exaltar a fé dos israelitas durante as peregrinações à Jerusalém.

LANÇAMENTO DO BOLETIM PERMANÊNCIA

O dia 6 de janeiro, festa da Epifania de Nosso Senhor, seria também aniversário de Julio Fleichman, meu pai, que participou junto a Gustavo Corção e outros alunos e amigos, da fundação da Permanência, em 1968. 
Dr. Júlio, como era conhecido, presidiu o movimento e dirigiu a Revista Permanência entre 1969 e 2003. Dois anos depois de ceder o cargo, veio a falecer, vítima de um câncer no cérebro.
Levados pelo alto nível intelectual e religioso de Gustavo Corção, os amigos da Permanência sempre pautaram o trabalho na formação profunda e séria da doutrina católica, em seus diversos pontos. (Continue a ler)

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