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Category: LiteraturaConteúdo sindicalizado

Gustavo Corção, animal-professor, escritor genial

Dom Lourenço Fleichman, OSB

O texto sobre Gustavo Corção que publicamos aqui foi escrito para a Revista citada no artigo em 2010. Vale notar que as publicações da Permanência sobre Gustavo Corção, seus artigos publicados no site e depois em livros de coletâneas, atraíram a atenção de alguns poucos estudiosos e pensadores. Foi assim que algumas teses acadêmicas foram escritas, e livros publicados. Hoje já é mais fácil encontrar Gustavo Corção nas livrarias do que na época em que escrevi esse artigo.

Se a Revista Conhecimento Prático de Literatura fizesse uma pesquisa junto a seus leitores com as seguintes perguntas:

- qual o autor brasileiro que foi considerado sucessor de Machado de Assis?
- qual o autor brasileiro que teve seu primeiro livro esgotado em menos de um mês?
- qual o escritor nacional que foi indicado por Manuel Bandeira para o Premio Nobel de Literatura?

Quem pensaria em Gustavo Corção? Pode-se dizer que Corção é um ilustre desconhecido, tendo sido esquecido e abandonado pelo mundo dos intelectuais. Hoje dificilmente se imagina a importância desse escritor nos vinte e cinco anos de sua carreira literária. Seu pensamento é de tal personalidade e profundidade que atraiu a atenção e a amizade dos grandes que o precederam. Vejam o que dizia dele o grande crítico Oswaldo de Andrade:

“Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Leger, Cocteau e Cendras, a esse original e magnífico Valéry Larbaud, a Supervielle e Romains, enfim, a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sarcástica, alguém me lembra o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei, no Quartier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX.

O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável — faca de dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem, sem dúvida, o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também na Descoberta do Outro não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.”
Correio da Manhã
, Rio de Janeiro, 5-4-1952 (Continue a ler)

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

A Cultura e Hamlet

Niilismo e crença na peça Hamlet, de Shakespeare

 

O prof. David Allen White, como insistia nas suas aulas e conferências, apontou que as ideias inscritas em Hamlet, de Shakespeare, foram o começo do mundo moderno. A peça, escrita por volta de 1600, dramatiza o conflito entre a rica cultura católica da Idade Média e o ascendente individualismo dos inícios da idade moderna, uma das mais profundas mudanças de paradigma da civilização ocidental, e cujos efeitos persistem até os nossos tempos pós-modernos. Uma imagem útil dessa mudança vem do filósofo Eric Voegelin, que percebeu que o homem moderno deixou de considerar-se um elo na cadeia hierárquica que se origina em Deus e passou a ser ele mesmo o centro do universo e de todo o significado – uma visão “macroantrópica”, nos termos de Voegelin. Um fato notável é a ressurreição, por obra dos humanistas da Renascença, da frase de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”. Um dos eixos da ação de Hamlet é a dúvida que corrói as velhas certezas e que permite que o príncipe das vestes negras procure de per si o significado das coisas e confie no seu raciocínio e na sua melancolia a fim de atuar no podre reino da Dinamarca. Embora a tragédia se encerre com múltiplas mortes, Shakespeare durante o curso da trama dá uma resposta e uma solução às dúvidas de Hamlet, com um resultado angustiante; essa resposta estabelece as bases para uma restauração da tradição perene, e dá uma das maiores contribuições a ela.

 

As dúvidas corrosivas de Hamlet

Um breve porém significante momento no Ato 2, Cena 2 da peça identifica o problema central desse primevo homem moderno. Na tentativa de explicar o comportamento estranho de Hamlet, o conselheiro da corte Polônio lê para o rei e a rainha uma carta de amor que Hamlet enviara à sua filha Ofélia. Escrita num tempo anterior à narrativa, enquanto ainda estudava na Universidade de Wittenberg – célebre por ser o lugar onde Lutero produzira as 95 teses e como que o nascedouro do Protestantismo – a carta de Hamlet expressa as dúvidas corrosivas que envolviam o início da cultura moderna:

 

          Duvides [isto é, suspeites] que a estrela é ardente,

          Divides que o astro-rei irá se pôr,

          Duvides [isto é, suspeites] que a verdade sempre mente,

          Mas não duvides tu do meu amor.

 

Ó querida Ofélia, enojam-me esses números [isto é, versos]. Falta-me a arte de expressar os meus gemidos. Mas amo-te bem mais que a eles. Oh, muito mais, acredites. Adeus.

          Sempre mais teu, caríssima senhora,

          Enquanto nele durar esta máquina,

          Hamlet.

 

É interessante que os dois primeiros versos do poema envolvem dúvidas sobre a visão tradicional do universo: pensar que as estrelas são ardentes significa que elas não são feitas de matéria celestial como se pensava; duvidar do movimento do sol indica a crença no movimento heliocêntrico em oposição ao modelo geocêntrico de Ptolomeu. Mais importante ainda é como esse modo de ver as coisas se universaliza no terceiro verso: Ofélia deve suspeitar que a mesma verdade é falsa. O jovem desnorteado só pode ter certeza duma coisa: do seu íntimo sentimento pessoal de amor por Ofélia. O ácido corrosivo da dúvida dissolveu tudo exceto a emoção, e o lance subsequente mostra que os sentimentos, ainda que se expressem de forma apaixonada, podem mudar. Ataques de melancolia – Hamlet é o que hoje em dia chamaríamos de depressivo diagnosticado – misturam-se com a incerteza e a angústia, quiçá também a loucura oprima o príncipe; ele despenca no abismo do niilismo, ao rejeitar quase tudo e quase todos ao seu redor, inclusive Ofélia na terrível cena logo após o famoso discurso “Ser, ou não ser”.

Depois de quatro atos de confusão, angústia, e até assassinato, o ato final começa no local para onde se inclina a peça inteira: no cemitério. A Cena 5, Ato 1 é o passo mais importante do drama moderno; ele não apenas recapitula o tema do niilismo mas também dá uma resposta a ele. Já de volta à Dinamarca, após sobreviver providencialmente a uma tentativa de assassinato, Hamlet, com o seu amigo Horácio, aproximam-se de dois homens cavando uma cova. Uma vez que por falta de espaço reutilizam-se as covas, o coveiro e o seu assistente estão empurrando vários ossos para o lado enquanto Hamlet prepara a cena. Começa o diálogo com um gracejo entre os coveiros e depois entre eles e Hamlet; a comédia recorda o homem da sua natureza humana e coloca-lhe os pés no chão, de molde que ela é relevantemente apropriada a uma cena cujo tema é o final de cada um dos homens. Os coveiros pedem a Hamlet que identifique um crânio em particular, mas porque a morte é uma grande niveladora Hamlet é incapaz de fazê-lo. Enfim, diz o coveiro que o crânio pertencia ao antigo bobo da corte, Yorick. O que se segue é um dos mais icônicos momentos da história do drama: Hamlet segura o crânio dum comediante, “um tipo de graça infinita e de incomparável fantasia”, que outrora produzira “gracejos que faziam os convivas cair na gargalhada”. Nada disso importa, contudo, pois tudo se encaminha à dissolução, retorna ao pó. Hamlet pede ao crânio que se dirija ao “quarto da minha dama e diga-lhe” que ainda que ela emboce o rosto com uma polegada de maquiagem, ao cabo também ela transformar-se-á numa caveira. No abismo niilístico de Hamlet, não existe significado real: Yorick, uma bela dama, Alexandre o Grande, “o imperioso César, morto e tornado em lama”, tudo se transfigura em caveiras fétidas a apodrecerem na terra. Imediatamente após esses momentos, que antecipam o drama ateísta do século XX, chega a procissão fúnebre de Ofélia: enquanto Hamlet estava fora, a virtuosa moça enlouquece e afoga-se. Imagens da beleza pousam no cemitério niilístico: “a carne bela e impoluta” de Ofélia e as violetas são símbolos da castidade e da fidelidade. Hamlet, espantado, apresenta-se e faz um anúncio decisivo:

 

          Este sou eu,

          Hamlet o Danês,

          Amei Ofélia. Nem quarenta mil irmãos,

          Some-se embora todo o seu amor,

          Seriam páreos ao meu.

         

 

Amor, e não falta de sentido

No abismo do túmulo, quando lhe morrera alguém próximo, Hamlet não encontra a falta de sentido, mas a força mais poderosa do universo: o amor. Com a reafirmação do sentido, pode Hamlet novamente ser uma pessoa completa – por isso, ao dar o passo à frente, diz o seu nome e apresenta o seu título real – mas na tragédia é significativo que tal fato ocorra apenas após a morte de Ofélia. Nas palavras de Charles Boyer, apenas depois de ser ela destruída durante um lance trágico o herói consegue perceber “o que se perdeu em razão da sua visão equivocada do mundo”. Com a proximidade da sua própria morte, na cena seguinte, a última da peça, Hamlet expressa de contínuo a sua crença na velha ordem. Diz ele a Horácio que “Há uma divindade que ao fim nosso molda / Mui distinto do que ansiamos”, que “Na queda dum pardal / Especial providência existe”, numa resposta clara à mais célebre fala da peça, “A prontidão é tudo… deixa estar”. Eis o conhecimento adquirido pela dor, que é um dos distintivos da tragédia.

Em The Death of Christian Culture [A Morte da Cultura Cristã], John Senior escreve que “a literatura é o boi de carroça da cultura, e a sua besta de carga”. Na literatura, as ideias e os valores da cultura se transmitem indiretamente enquanto o leitor vivencia a história ao lado das personagens. O conflito de Hamlet se torna o nosso conflito, assim como é nossa a peregrinação de Dante e nossa a viagem de Ulisses. Nesse sentido os grandes autores não são apenas “as breves crônicas abstratas do nosso tempo” mas os arquitetos da mesma civilização. Citando novamente Senior:

“A cultura, como em ‘agricultura’, é o cultivo da alma a partir do qual o homem cresce. Para que se estabeleçam os métodos adequados, devemos ter ideias claras acerca da colheita. ‘Que é o homem?’, pergunta o Catecismo de Um Vintém [The Penny Catechism], que responde: ‘Uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus, para conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo’. A cultura, portanto, tem claramente essa simples finalidade, a despeito da complexidade e a dificuldade dos meios.”

Por isso, a cultura sempre repetirá as mesmas verdades sob distintas expressões no decorrer do tempo, pois sempre haverá a necessidade de relembrar os homens daquilo que já conhecem mas esqueceram, e daquilo que amam, para que esse amor seja novamente acalentado.

 

(The Angelus - tradução: Permanência)

Começando a ler Chesterton

Wojciech Golonka

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) é justamente louvado pelos católicos pela sua grande contribuição à defesa da Fé e da Igreja Católica. Ele, de fato, foi um “prodigioso defensor da fé”, como o Cardeal Eugenio Pacelli, que veio a se tornar o Papa Pio XII, afirmou em um telegrama de condolências enviado ao Arcebispo de Westminster quando Chesterton faleceu. Na verdade, a Santa Sé já o havia reconhecido como tal antes mesmo de sua morte, pois ele, juntamente com Hilaire Belloc, foi premiado com a Ordem de São Gregório Magno pelos serviços que prestaram à causa católica. Portanto, Chesterton deveria ser lido até mais do que se alega, e, ainda assim, alguns leitores podem achá-lo complicado e um pouco excêntrico. Eles provavelmente têm razão de pensarem assim.

Então como começar a ler Chesterton sem perder o ânimo? Claro, você pode tentar ler um de seus livros, talvez fique viciado em Chesterton, como ocorre com muitos que o descobrem -- nesse caso, estará pronto para atravessar suas leituras e passagens mais difíceis. Mas também pode ser repelido ainda no começo; e, então, o que fazer? Permita-me tentar criar um “manual de instruções” para quem quer se aproximar da obra de Chesterton, antecedido de uma breve análise de sua evolução literária e religiosa.

Chesterton foi, acima de tudo, um observador buscando a verdade sobre o homem e seu destino. Um honesto, porém autônomo e auto educado gênio, levou muito tempo até que finalmente chegasse à Igreja Católica e fosse profundamente influenciado pela clareza de sua doutrina. Essa transformação é evidente nos seus escritos. Educado em uma família vagamente cristã, ele, primeiramente, tornou-se agnóstico na adolescência. Então, ao se apaixonar por Frances Blogg no final do Século XIX, que era uma garota educada por freiras anglocatólicas e sinceramente cristã, embora protestante, isso o ajudou a redescobrir o credo cristão tal como definido pelo Concílio de Nicéia, embora sem que ainda aderisse a alguma instituição em particular, especialmente a Igreja Católica. Naquele tempo, a heresia modernista estava atacando não apenas a Igreja Católica, mas também os setores mais conservadores dentro do protestantismo, aos quais Chesterton, formalmente, aderia. Mas, como ele tinha uma compreensão católica do credo, rejeitava interpretações da Escritura que levassem ao afastamento da historicidade dos milagres, alegações de que o dogma tinha origens puramente humanas ou a evolução da moral baseada em mudanças na consciência humana ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, combatia os grandes erros de seu tempo – o marxismo, que direcionava todas as atividades humanas a fins materiais; o determinismo, que alegava que o homem não tem livre-arbítrio; o racionalismo e o positivismo, que negava qualquer intervenção de Deus na história humana, especialmente através dos milagres; mas também o imperialismo (hoje se diria “globalismo”) e até mesmo o racismo. Seu conflito com esses erros – e aqueles que os espalharam – resultaram na sua primeira grande obra, Hereges (1905). Então, pressionado por seus adversários a esclarecer quais eram suas visões, três anos mais tarde ele publicou Ortodoxia, expondo suas crenças sobre a natureza humana, o mundo e o Cristianismo.

Ambos os livros trazem descrições jocosas de seus oponentes e algumas intuições brilhantes sobre os temas desenvolvidos. Ainda assim, é possível que o leitor considere Chesterton um pouco complicado quanto se trata de desenvolver essas ideias na forma de um tratado. A sua conversão ao Catolicismo mudou alguma coisa naquele ponto? Primeiro, é preciso deixar claro que ele já estava a caminho da Igreja Católica em 1911, pois “estava mais inclinado que nunca a crer, embora não tivesse ainda admitido que as teses das Igrejas Anglicana e Grega1 estavam menos próximas da verdade que as da Igreja Católica Romana” (William Odie, Chesterton and the Romance of Orthodoxy: The Making of GKC, 1874-1908, Oxford University Press, p. 382). Ele também, ao mesmo tempo, travou amizades com alguns padres católicos romanos e admirava seu profundo conhecimento da psicologia humana. Recebeu forte influência deles, embora só tenha abraçado o Catolicismo em 1922. Então, tenha paciência se você estiver rezando pela conversão de um conhecido bom e honesto, pois Chesterton já foi um deles. Embora, como ele mesmo admitia, a fé e o pensamento católicos abria-lhe grandes perspectivas intelectuais, esse processo de esclarecimento e iluminação de sua mente também levou algum tempo.

Por exemplo, O Homem Eterno, publicado em 1925, é sua grande obra-prima apologética em defesa da divindade de Cristo e contém duas simples intuições: o homem não pode ser apenas um animal, pois ele dá sinais de ser espírito; Cristo não pode ser apenas um homem, pois ele dá sinais de ser uma divindade. Apesar dessa simplicidade, o processo de deduzir essas duas ideias claras através de uma demonstração longa e complicada pode ser assustador para os leitores.

Agora, olhemos para seus ensaios polêmicos com os modernistas e protestantes dos anos 1920 e 1930, como aqueles publicados em dois livros apologéticos: A Coisa: Por que sou católico (1929) e The Well and the Shallows (1935). Eles são mais fáceis que O Homem Eterno. Isso significa, penso, que, se o leitor quiser se beneficiar do gênio apologético de Chesterton, é muito melhor começar com os livros que escreveu na última década de sua vida, quando ele já estava sob influência do Catolicismo. Também recomendo meu livreto Protestantism as Seen by G.K. Chesterton. 80% do seu texto é composto de citações extraídas de vários de seus livros e, acima de todos, de A Coisa e The Well and the Shallows. Não que eu queira recomendar meu próprio trabalho, mas, como um estudioso que dedicou vários anos aos seus escritos, recomendo-lhe seu pensamento apresentado em uma síntese que lhe traz o melhor de sua polêmica sobre o tema. Além disso, essa obra expõe a evolução do protestantismo ao longo dos séculos e também explica como ele, eventualmente, transformou-se em modernismo e rejeitou completamente o credo cristão, que, na atual crise da fé, é um perigo ainda maior que no tempo das polêmicas de Chesterton.

Também há outro approach, mais cronológico, ao seu pensamento apologético que não expõe o leitor ao risco de se assustar com a dificuldade do texto. Ele também escreveu pequenos romances, e eles são simples, têm um senso de humor irresistível e, ainda que tenham alguns defeitos do ponto de vista literário (as pessoas normalmente se decepcionam com o final deles), trazem diálogos vívidos nos campos da religião, da política e da moralidade. Enquanto The Ball and the Cross (1909) representa um conflito muito curioso entre a fé e a descrença, o Flying Inn (1914) é uma profecia inacreditável sobre o islamismo invadindo o mundo ocidental. O Homem que era Quinta-Feira traz uma sólida axiologia na qual se demonstra que a heresia é o pior de todos os pecados. Manalive (1912) é um grande antídoto ao veneno puritano destilado pelo calvinismo nos países anglo-saxões. Você não vai desperdiçar seu tempo com essas leituras, pois essas histórias cômicas sempre trazem miniensaios escondidos, disfarçados sob a forma de diálogos.

Para encerrar, podemos dizer que, ao recomendar suas obras em geral, a Igreja acha bom e proveitoso ler Chesterton. Pessoalmente, eu acho que, embora alguns de seus livros escritos antes de sua conversão contenham alguns erros doutrinários ou inexatidões, como demonstrado pelo padre tomista francês, Joseph de Tonquédec, não são erros perigosos para os leitores. Mas a coisa mais importante a se enfatizar é o fato de que ele, de algum modo, previu os erros com os quais a humanidade se confrontaria. Muitos já estavam presentes, na forma de falsos princípios, na sua época.

Portanto, pode-se aplicar a ele o que ele mesmo dizia de William Cobbett: “Em uma palavra, ele enxergou o que nós enxergamos, mas ele enxergou quando nada estava lá. E alguns não conseguem enxergar – mesmo quando tudo já está lá. É o paradoxo de sua vida que ele amava o passado, e era o único que vivia o verdadeiro futuro. O futuro era nebuloso, como sempre é; e, de algumas maneiras, sua inteligência, largamente instintiva, era suficientemente nebulosa quanto a ele”. E, em segundo lugar, não apenas Chesterton previu esses erros, mas ele também os refutou de uma maneira compreensível ao homem comum. Aqui, novamente, o que ele dizia de Chaucer, outro gênio de tempos passados, também se aplica a si mesmo: “Eles não se deram o trabalho de inventar uma nova filosofia, mas, ao invés, herdaram uma grande filosofia. Ela é, na maioria dos casos, uma filosofia que muitos grandes homens têm em comum com homens muito ordinários… O grande poeta apenas professa expressar o pensamento que todo mundo sempre teve”. Esse pensamento, que todo mundo sempre teve, tem um nome em especial: Tradição. Ler Chesterton vai lhe trazer um conhecimento melhor dos seus princípios.

(The Angelus, set-out/2020 - tradução: Permanência)

  1. 1. Aqui, o autor, naturalmente, está se referindo à Igreja cismática grega (Igreja “Ortodoxa”), não a toda e qualquer Igreja Grega (como as Igrejas Católicas Bizantinas, que estão em união com Roma e são tão católicas quanto a nossa Igreja Católica Romana).

Hamlet - um olhar católico

Em 23 de fevereiro de 2002, Mons. Richard Williamson apresentou uma conferência sobre Hamlet aos professores da Escola Sainte-Famille, em Lévis, no Quebec. Publicamos o resumo feito por Jean-Claude Dupuis no boletim Long-Sault, número 2 (primavera de 2002), págs. 14-18. -- Le Sel de la Terre

  

William Shakespeare (1564-1616) é o escritor mais famoso de língua inglesa. Sua peça de teatro Hamlet (1600) permanece como uma das mais conhecidas e apreciadas do mondo anglo-saxão. Mons. Williamson precisa que Shakespeare não era nem teólogo nem filósofo. Era um artista, um dos maiores de todos os tempos, diz. E como todo artista, sua obra é marcada por uma relativa imprecisão. Shakespeare reflete a passagem da mentalidade medieval para a mentalidade moderna, a passagem de um sociedade cristã à uma sociedade apóstata. Sua obra traz, a um tempo, algo do teatro moralizador da Idade Média e algo do drama psicológico moderno. Podemos, portanto, fazer uma leitura cristã e tradicional ou, ao contrário, uma leitura romântica e revolucionária, que Mons. Williamson qualifica de hollywoodiana. Naturalmente, é esta última que prevalece em nossos dias. Mas, um católico pode encontrar em Shakespeare interessantes reflexões sobre o problema do mal.

Mons. Williamson lembra que a Bíblia contém tudo o que é necessário para compreender a natureza satânica do mundo moderno e para aprender a resistir a ele. Não obstante, a literatura profana pode por vezes nos ajudar a ilustrar os princípios católicos em uma linguagem mais acessível aos nossos contemporâneos e, sobretudo, aos jovens que infelizmente são demasiadamente marcados por uma visão cinematográfica da vida. Os clássicos literários, diz o Bispo, nos desvendam a profundeza da natureza humana e as causas da sociedade moderna.

O problema da apostasia constitui a trama de fundo da obra de Shakespeare. Seus heróis lutam contra uma insurreição interior da alma, conseqüência do eterno conflito entre o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio. O herói shakespeariano é inicialmente nobre, mas entretém uma fraqueza que o fará sucumbir à tentação. Assim é a ambição para Macbeth, o ciúme, para Otelo e o puritanismo, para Ângelo. O herói cai. Ele rejeita o amor para satisfazer sua paixão desregrada cometendo um assassinato. Em seguida, toma consciência do mal que fez e que se fez, mas ele não pode resolver o conflito senão por uma fuga desesperada para a morte. O herói shakespeariano é um idealista que se perde no niilismo por não encontrar resposta às suas questões. Com efeito, falta-lhe a graça divina. Não é ele a imagem do mundo moderno?

Mons. Williamson analisa a peça à luz desta dupla leitura, católica e moderna. A história se passa na Dinamarca. O rei é envenenado furtivamente por seu irmão Cláudio, que usurpa a coroa e desposa sua cunhada Gertrudes, mãe do herói Hamlet. O espectro do rei assassinado aparece a Hamlet. Ele revela a seu filho as circunstâncias de sua morte e pede a ele de o vingar. Hamlet é um homem jovem de coração puro que denuncia a corrupção da corte (Há algo de podre no reino da Dinamarca) e ama sinceramente a filha do lorde camareiro Polônio, Ofélia. Entretanto, ele sofre de melancolia (hoje dir-se-ia: depressão) e pensa até em suicídio. A aparição do espectro de seu pai transforma suas nobres aspirações em paixões odientas. Ele repele o amor de Ofélia, cujo pai ele mata por acidente, mas sem remorso. Sua noiva perde a razão e se mata, talvez voluntariamente. Hamlet tem a oportunidade de matar Cláudio enquanto ele reza; mas renuncia a isto para não enviar seu tio para o céu. Seu desejo de vingança não tem mais limite. Contudo, a melancolia e uma certa crença o paralisam. Hamlet pergunta a si mesmo se mais vale combater o Mal ou fugir dele pela morte. 

Ser ou não ser, essa é que é a questão: Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna ou tomar armas contra um mar de escolhos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — Dormir: Nada mais; e dizer que pelo sono findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — Dormir. Dormir! Talvez sonhar — eis o problema, pois os sonhos que vieram nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida. [...] Quem carregara suando o fardo da pesada vida se o medo do que depois da morte —o país ignorado de onde nunca ninguém voltou — não nos turbasse a mente e nos fizesse arcar c'o mal que temos em vez de voar para esse, que ignoramos?1 

Enquanto que Hamlet se interroga sobre o sentido da vida e da morte, Cláudio conspira com o irmão de Ofélia, Laertes, para fazer com que ele perca a vida na ponta de um florete envenenado, durante uma competição de esgrima. Hamlet pressente a cilada. Ele poderia facilmente evitar a competição, mas ele não está mais interessado na vida, e se deixa conduzir por um sombrio pessimismo.

Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora;  e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo: se ninguém conhece aquilo que aqui deixa, que importa deixá-lo um pouco antes?2

O drama termina em uma carnificina rocambolesca em que morrem Hamlet, Laertes, Cláudio e Gertrudes. Um rude guerreiro estrangeiro, Fortimbrás, termina por se empossar do trono. A força bruta triunfa sobre as ruínas da corrupção moral (Cláudio) e do niilismo espiritual (Hamlet), dois traços característicos do mundo contemporâneo.

Hamlet é um herói ou criminoso? Os modernos responderiam que Hamlet teve razão de se revoltar contra a corrupção da sociedade encarnada por Cláudio. Ele comete talvez alguns erros grosseiros em sua revolta, como a morte, no fundo justificada, de Polônio ou o quase-suicídio, mais triste, de Ofélia. Mas o rebelde tem todos os direitos e a revolução exige sangue. Cláudio e Laertes, que representam o poder estabelecido (o papai), associam-se para destruir a juventude revolucionária (o adolescente em crise). O herói termina por triunfar e por restabelecer uma certa justiça, mas ao preço de sua vida (o suicídio "interpelante" do adolescente incompreendido). Tudo termina por uma carnificina malsã, cuja responsabilidade é devolvida à ordem social hipócrita. Assim, Hamlet encarna, na ótica moderna, "o drama da ascensão à consciência e à liberdade" (Petit Robert).

Um católico fará, da mesma peça, uma leitura completamente diferente. Hamlet é um nobre príncipe enfraquecido por sua melancolia (a tristeza, primeira armadilha do demônio) que não pode resistir à tentação da vingança. O espectro de seu pai vem certamente do inferno, pois uma alma do purgatório não poderia incitar ao mal. Tendo preferido o ódio ao amor, Hamlet rechaça sua noiva, destrata sua mãe e ataca o rei, do qual é, contudo, o legítimo herdeiro. Hamlet solapa os fundamentos da ordem social: o matrimônio, a piedade filial, a autoridade pública. Sua rebelião odienta arruinará sua vida pessoal, sua família e a paz do reino, mas ele prossegue com vivacidade, como estes jovens burgueses decadentes que se tornam comunistas para acertar suas contas com seus pais. Quem vive da espada, perecerá pela espada. A revolta conduz à morte, tanto a do herói como a de seus inimigos. Ela conduz sobretudo ao desgosto pela vida que Hamlet manifesta aceitando o duelo contra Laertes. Definitivamente, Hamlet não restabeleceu a justiça na Dinamarca; ele simplesmente fez aquele reino cair nas mãos do estrangeiro Fortimbrás.

O drama que aflige a alma de Hamlet é fascinante. Em uma sociedade corrompida, é melhor combater (inutilmente) ou suportar e morrer (também inutilmente)? Notemos que Hamlet não deseja aderir à imoralidade: seu coração é demasiado nobre. Notemos igualmente que os católicos podem por vezes colocar-se a mesma questão: É preciso combater a desordem atual (sem esperança de sucesso) ou se desinteressar dela (o que equivale a morrer espiritualmente)? Resistir é inútil, golpear também. Que fazer?

Segundo Mons. Williamson, Hamlet não encontrou a solução porque não colocou o problema em termos católicos. Hamlet é o filho perturbado de um Shakespeare perturbado, no qual a juventude de nosso tempo se reconhece. Mas, por que Shakespeare era perturbado?

A obra de Hildegard Hammerschmidt-Hummel, The Hidden Existence of William Shakespeare [A Vida Desconhecida de William Shakespeare], pode nos esclarecer. Shakespeare era um católico em uma Inglaterra elisabetana que perseguia severamente os católicos pela violência, mas, sobretudo, pelo ostracismo. Em 1600, ano em que Hamlet foi escrito, o triunfo do protestantismo é absoluto. A maior parte dos ingleses aceitou o cisma e os católicos que ainda sobreviveram não ousam se manifestar muito. Ora, Shakespeare era um destes católicos que escondiam sua fé para se manter na sociedade. Ele recusa tomar o caminho do martírio. Mons. Williamson não o culpa: é preciso, diz ele, ser um verdadeiro mártir antes de apontar o dedo para aqueles que cedem na perseguição. Quantos dentre nós terão a coragem de testemunhar a fé quando as forças do anticristo nos perseguirem violentamente (o que talvez ocorra em breve)? Mas a pusilanimidade de Shakespeare altera sua concepção da vida. Seu meio-catolicismo não o permite resolver os problemas existenciais que ele colocava, por outro lado, muito bem.

Mons. Williamson traça um paralelo entre Hamlet, Shakespeare e a juventude atual.

Hamlet, príncipe herdeiro da Dinamarca, vive exilado em seu próprio reino, abandonado ao mal pela dupla traição de seu tio e de sua mãe. Ele tem razão de reagir contra a corrupção, mas não emprega bons meios. Sua ação termina em um inútil banho de sangue e em uma interrogação niilista: Ser ou não ser?

Ao fim de sua vida, Shakespeare consegue sair do impasse ao redescobrir a resposta cristã ao problema do mal: a redenção pela morte sacrificadora. Em Rei Lear (1606), a heroína regenera o mundo por sua própria oblação, não pela morte dos maus. O Cristo não salvou o mundo caçando os Heródes e os Pilatos, mas oferecendo a si mesmo na cruz. No mundo atual, os católicos devem reagir imitando Nosso Senhor, sacrificando a si mesmos pela oração e pelo dever de estado, como justamente nos ensinou Nossa Senhora de Fátima. Shakespeare recuperou sua paz interior desta maneira. Ele morreu piedosamente, após ter recebido os últimos sacramentos de um monge beneditino.

Mons. Williamson termina sua magistral conferência explicando o objetivo do ensino da literatura clássica em uma escola católica. Os cinco últimos séculos da história ocidental são marcados pela apostasia. A literatura não poderia senão experimentar as conseqüências. Não teríamos o direito, diz ele, de procurar nesta literatura, mesmo na mais clássica, a expressão perfeita dos princípios cristão. Para isso, é preciso ler a Bíblia e os Padres da Igreja. Mas a literatura clássica ilustra uma certa ordem natural. Por exemplos, os homens aí são masculinos e as mulheres, femininas. A obra de Shakespeare é tão ligada à mentalidade tradicional, que quase se passa em silêncio sobre ela nos programas escolares atuais dos países anglófonos. De fato, Shakespeare, assim como tudo o que é clássico, contraria os modernos, uma vez que nos eleva ao nível dos princípios naturais da antiga sociedade. Se não se deve fazer da literatura um fim em si, ao modo dos humanistas ateus, lembremo-nos, contudo, que o sobrenatural tem de se apoiar sobre a natureza e que a fé dificilmente pode se enraizar em uma alma impregnada dos princípios contrários à natureza da cultura moderna. O estudo de Shakespeare pode servir de antídoto contra os grandes danos do espírito hollywoodiano.

  1. 1.  Hamlet e Macbeth, Shakespeare, Nova Fronteira, Rio, 1995.
  2. 2.  ibid.

Falsas Lições sobre Gustavo Corção

 Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Quando escrevi o prefácio ao livro O Pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer, procurei denunciar a falsificação que seus sucessores e seus padres realizavam ao esconder e abandonar toda referência aos textos do grande bispo, com data a partir da década de 1970. Nesta época tornaram-se mais claras as causas dramáticas da crise da Igreja e por todo o mundo apareceram críticas mais severas ao Concílio Vaticano II e sua obra. LEIA A CONTINUAÇÃO
 

O sentido profundo da obra de Machado de Assis

A mim me repugna toda atitude que desliga o homem de sua obra: isto redunda em tecnicismo, que, no meu entender, é um dos maiores males da época.

Macbeth

Neste artigo, que decididamente não é o de um especialista, quis simplesmente expor algumas anotações feitas durante a leitura de algumas das peças de Shakespeare, especialmente de “Macbeth”.

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