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Category: Meditações e sermõesConteúdo sindicalizado

A intolerância católica

Cardeal Pie

Meus irmãos (...)

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos e assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela. Se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas uma tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam se exercer por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias como outros observaram antes de mim.(...)

Deixo, porém, este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios:

A religião que vem do céu é verdade e ela é intolerante com relação às doutrinas errôneas

A religião que vem do céu é caridade e ela é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: “Spiritum veritatis et pacis”. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem varias as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opiniões de coisas duvidosas: “in dubiis, libertas”. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por conseqüência ela é uma e intolerante: “in necessariis, unitas”. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se ela duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se ela admite com indiferença que se ponha a seu lado sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la, sob pena de ser despojado dela bem cedo.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte; porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: “2 e 2 fazem 4”? Se vierdes me dizer que 2 e 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 e 2 fazem 4. (...)

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum batisma”. Há, no céu, um só Senhor: “Unus Dominus”. Esse Deus cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só Símbolo, uma só doutrina, uma só fé: “una fides”. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: “Unum batisma”. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: Um Deus, uma fé, uma Igreja: “Unus Dominus, una fide, unum batisma”.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo e o filósofo de Genebra (Jean-Jacques Rosseau) disse, falando do Salvador dos homens: Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém, recusa-se a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu Reino. Confesso que nisso não há sutilezas, há intolerância, a exclusão a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou seus apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina vai incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão, do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.(...)

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o Olímpio nacional crescia como o Império.

Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o Cristianismo, quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu seio. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos: eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. “Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível: Pervicaciam et inflexibilem obstinationem”. “Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos: Apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium”. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os judeus ou os cristãos querem se dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta de seu Símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações, mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os Símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os Mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade da fé. Porque os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina: nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Católica conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do Céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar a Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar a sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar a esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas essas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trata de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo que o Símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rosseau foi, entre nós, apologista e propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que  tenha ido mais longe que o paganismo, o qual nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do catecismo genovês, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas; isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem ser conciliadas; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer possuírem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas elas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o cristianismo que crê no Messias que veio e o judaísmo que o espera ainda; o catolicismo que obedece ao papa, e o protestantismo que olha o papa como o anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda, não é minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, ela toma, todos os dias, novas formas sob a pena e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousa os destino da França. — A que ponto de loucura nós então chegamos? — Nós chegamos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, excludente de toda doutrina que não é a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que tem um pai comum: Vos ex patre diabolo est. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade. É este, meus irmãos, nosso primeiro princípio: a religião que desce do céu é a verdade, e por conseqüência ela é intolerante quanto às demais doutrinas.

Não nos peçais a tolerância em relação às doutrinas. Encorajai, ao contrário, nossa solicitude em manter a unidade do dogma, que é o único laço da paz sobre a terra. O orador romano disse: a união dos espíritos é a primeira condição da união dos corações. E este grande homem faz entrar na definição mesma da amizade, a unanimidade de pensamento em relação às coisas divinas e humanas: Eadem de rebus divinis et humanis cum summa charitate juncta concordia.

Nossa sociedade está sujeita a mil divisões; nós nos lastimamos disso todos os dias. De onde vem este enfraquecimento das afeições, este resfriamento dos corações? Ah! meus irmãos, como seriam os corações aproximados onde os espíritos estão tão distantes? É porque cada um de nós se fecha no amor de si mesmo. Queremos por fim a essas dissidências sem número que ameaçam destruir todo espírito de família, de cidade e de pátria? Queremos não ser mais estrangeiros, adversários e quase inimigos uns dos outros? Voltemos a um Símbolo e nós reencontraremos logo a concórdia e o amor.

(Trecho de sermão pregado na Catedral de Chartres)

O sobrenatural em Lourdes

 

D. José Pereira Alves

Conferência ilustrada com projeções

 

Meus senhores, não sou eu quem vai fazer conferência. O vivo das telas, o colorido dos quadros, tudo que há de impressionante nas projeções se encarregará de dizer à vossa alma o que a minha palavra não pode nem sabe.

Se algum raio de eloquência brilhar nesta palestra, será o raio de eloquência esmagadora do fato, estudado à luz da crítica sábia dos competentes. Dar-me-ei por imensamente remunerado se depois no santuário da minha alma a vossa consciência me disser: cumpriste o teu dever de padre, de semeador do Evangelho. O trabalho que ides ouvir não tem preocupações científicas: é o trabalho do vulgarizador religioso. Dividi esta palestra em duas partes: — uma histórica e a outra apologética. Na primeira parte ouvireis a narrativa dos acontecimentos de Lourdes, cidade do sul da França; na segunda, vereis que esses prodigiosos acontecimentos provam a existência do sobrenatural, a divindade e a verdade da religião católica que os possui. Ponde em ação as vossas nobres faculdades e contemplai este novo paraíso que Deus plantou na terra e no qual Maria, a nova Eva, a Mãe da vida, oferece o fruto fecundo de extraordinárias bênçãos, de incontáveis benefícios de um coração de mãe.

 

A GRUTA

Eis ali a gruta, a gruta abençoada, onde a Formosa Senhora aparece a Bernadete Soubirous! Eis ali a gruta selvagem, silenciosa e triste entrelaçada pelos ramos de uma roseira brava! Quem diria que esta solidão seria o lugar de tanta maravilha? Quem diria que a rocha bruta desses ermos seria o teatro das graças mais escolhidas do Altíssimo?

Falando da gruta, o peregrino convertido escreveu o livro Du Diable à Dieu. Adolfo Retté arranca da sua alma na sua obra Un séjour à Lourdes estes belos sentimentos: “Daí se irradiam através das brumas do materialismo, as claridades deste astro fixo: o Sol da graça. Na gruta, o Sursum Corda realizado que se experimenta por toda a parte em Lourdes, toma todo o seu desenvolvimento.

A alma, embebida de oração, sente que aí é proibido ao mau girar em torno de si.

O influxo sobrenatural penetra-a, com uma imperiosa doçura e vivifica-a: é alguma coisa como uma Eucaristia de luz. Parece que se está numa estufa quente, onde pompeiam as palmas e as flores da vida contemplativa, enquanto o inverno reina lá fora.

Nesta tépida atmosfera, sente-se a presença da Santa Virgem. Os olhos do espírito se abrem, não é mais a estátua de Fabisch que ocupa a cavidade onde se deram as aparições: é a Imaculada mesma. Ela está lá: de suas mãos descem sobre as cabeças inclinadas as consolações e os ensinos. A gente se ajoelha e, como Bernadete, a gente beija o chão e fica-se num extase de uma inefável paz de espírito”

Meus senhores, a gruta selvagem e muda, nas rochas de Massabielle, vai em breve dourar-se de uma celeste e esquisita claridade.

A 1° de fevereiro de 1858, uma menina, acompanhada de sua irmã e uma amiga, se achava diante desta gruta agreste, silenciosa e triste. Era Bernadete.

 

BERNADETE

Vede, meus senhores: é a fisionomia, cheia de paz e de sinceridade, da eleita de Maria.

Mas quem era Bernadete? Era uma humilde filha de Lourdes, de 14 anos, o mais novo rebento do casal Soubirous. No lar paterno reinava a pobreza. Mais uma vez a lei ordinária da Providência que escolhe os fracos e os humildes para as grandes coisas, ia receber uma solene confirmação. A indigência dos Soubirous precisara de lenha e Bernadete, Maria, sua irmã, e Joana Abadie, sua companheira, partiram a busca-la. Fazia frio. Os cuidados da mãe de Bernadete, que sofria de asma, não permitiram que ela fosse sem meias.

Caminhavam elas ao longo do Gave que serpeava cantando a eterna queixa de suas águas e se viram na extremidade da ilha de Chalet, formada pelo Gave e pelo canal de Savy que se atirava à corrente fluvial ao pé da gruta selvagem, rodeada de silvas.

Maria e Joana tiraram os seus tamancos e atravessaram o raso canal do moinho. Bernadete de saúde delicada, temeu passar a corrente.

As companheiras se negaram a transportá-la; Bernadete esforçou-se inutilmente para passar o canal a pé enxuto. Resolveu tirar as suas meias. Já havia soado o meio-dia. Uma calmaria grande pairava no ar. O silêncio das margens do Gave era apenas interrompida pelo gemido da corrente. As folhas das árvores, imóveis, pendiam dos ramos tranquilos. Dir-se-ia que a natureza pressentindo um mistério se recolhera em uma solene e grandiosa meditação.

Ingênua e descuidada camponesa, tira as tuas meias que a terra que vais pisar, é santa. A calma da natureza que te envolve, não te impressiona? Meus senhores, o céu se aproximava da terra e a escolhida de Deus e da Virgem de nada suspeita em plena posse da mais perfeita tranquilidade do espírito, sem a excitação nervosa de espécie alguma, despreocupada. Apenas Bernadete tira uma das meias, um ruído de ventania forte quebrou a monotonia do campo. A menina ergueu os seus lindos olhos e nada viu. Dominava o mesmo silêncio de morte. Enganar-se talvez.

De súbito, um outro ruído, semelhante, apavorou a criança. Contemplou a paisagem em volta. Reinava a mesma calma nas bordas do Gave. Do lado oposto do canal, porém, a roseira brava que abraçava a gruta cavada na rocha abrupta era agitada por um vento forte. A rocha começou a iluminar-se. Um nimbo dourado se forma no rochedo e acima da moita agreste da roseira brava, uma visão deslumbra os olhos ofuscados de Bernadete. Era uma mulher de estranha e inigualável beleza, augusta e nobre.

 

A APARIÇÃO

Moisés se quedara, cheio de assombro, diante da sarça ardente do Horeb, donde trovejava a voz de Jeová.

Do centro duma sarça luminosa se erguia agora diante de uma simples camponesa o perfil celestial de uma mulher no viço da juventude, olhar de bondade e de expressão soberana. “Ela era jovem e bela, conta Bernadete, sobretudo bela, como eu nunca vi. Ela olhava-me, sorria, fazia sinal para que me aproximasse sem receio. E com efeito, eu não tinha mais medo, mas parecia que não sabia mais onde estava”

A Bela Senhora, de branca túnica, como a neve da montanha, cingida de azul, tinha sobre os alvos pés nus uma brilhante rosa de ouro. Das mãos postas em divinal atitude caiam as contas de um lindo terço alvíssimo.

Bernadete, instintivamente, de joelhos, começou a recitar o terço e a Formosa Aparição, sorrindo e aprovando, começou a passar entre os dedos angélicos as contas do seu terço, sem dizer palavra. Abria apenas os lábios purpurinos para dizer com Bernadete: — Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto.

“Quando o terço acabou de ser recitado, diz Bernadete, a Senhora tornou a entrar no rochedo e a nuvem de ouro desapareceu com ela”

O espetáculo grandioso da visão mergulhava a menina privilegiada num êxtase e a lembrança doce e profundamente viva da deslumbrante e graciosa jovem não deixava o espírito de Bernadete.

Foi nesta doce contemplação que de joelhos a acharam suas companheiras que riram muito de encontrá-la em oração numa paragem tão deserta e triste.

Bernadete levantou-se e ajudou Maria e Joana a trazerem os três feixes de varas secas que tinham reunido.

O coração de Bernadete, porém, não pode resistir e contou tudo em segredo, à sua irmã. Em casa, debaixo da pressão de sentimento causado pelo maravilhoso fato começou a chorar. “Que tens Bernadete? ” Perguntou-lhe Mme. Soubirous. Maria revelou todo o segredo de sua irmã. “São ilusões, minha filha, disse sua mãe, expulsa essas ideias e sobretudo não voltes a Massabielle”. 12 e 13, sexta e sábado, foram para Bernadete dias de tortura. Ela ansiava por voltar à gruta. Um não sei que de misterioso a atraia. Meus senhores, iam principiar as grandes cenas desse drama divino que abalou e abala o mundo inteiro. No dia 14, Mme. Soubirous permitia que a filha fosse a Massabielle. As suas amigas tinham-na aconselhado a levar água benta. Diante da roseira brava ajoelhou Bernadete, orou e, pouco depois, rompeu o seu silêncio religioso, gritando: — “Lá está ela! Lá está ela! ”. Depressa, gritou-lhe uma companheira, atira-lhe água benta. Bernadete obedeceu e a Virgem luminosa sorriu. Foi a segunda aparição. Mme. Soubirous repreendeu sua filha e a ameaçou. Dias depois, a pedidos instantes de várias pessoas, Bernadete obteve autorização de ir à Gruta que exercia no seu espírito de criança uma sedução irresistível. Era o dia 18 de fevereiro. “Ei-la, exclamou Bernadete, e rindo, sem agitação apresentou à Senhora uma folha de pape. “O que tenho a dizer não é preciso escrever”, disse a visão, e pedindo a Bernadete que voltasse durante 15 dias, ajuntou: “Prometo tornar-te feliz, não neste mundo, mas no outro”. A notícia espalhou pela cidade como o raio. A curiosidade popular agitou-se, as opiniões dividiram-se. Entretanto as aparições sucederam-se na presença de milhares de testemunhas. Já na quarta houve 500 pessoas. A vidente foi examinada, interrogada pelo médico de Lourdes, Dr. Dozous, pelo Sr. Dufo, advogado, pelo Sr. Pougat, presidente do tribunal. Suas respostas simples, precisas, claras, cheias de verdade e sinceridade, deixaram-nos estupefatos.

Na 6ª aparição, estudada cientificamente pelo Dr. Dozous, que nada verificou de anormal no organismo de Bernadete, a visão pediu que ela rezasse pelos pobres pecadores, pelo mundo tão agitado. “Deixando estes lugares onde a emoção geral era tão grande, narra o Dr. Dozous, testemunha ocular interessada, Bernadete retirou-se como sempre, na atitude mais simples, mais modesta, sem prestar atenção à ovação pública de que era objeto”. Os poderes públicos julgam prudente intervir; intentam dissuadi-la de ir a Massabielle e ela tem para dar-lhes uma resposta de heroína: “Não vo-lo prometo”. A franqueza lutava com a força e venceu-a.

Ameaçada de prisão, resiste. Não tinha ela prometido à Bela Senhora voltar durante 15 dias? Daí em diante gendarmes acompanhavam a vidente à gruta.

No dia 24, renova-se a aparição. No dia 25, depois de alguns minutos de meditação, Bernadete levanta-se, afasta os ramos da roseira brava e beija a terra debaixo da rocha além da sarça. E voltando continua a sua prece. Levanta-se de novo, indecisa, adianta-se para o Gave, recua, parece escutar alguém. Volta para a gruta e depois de ter levantado a cabeça como para interrogar a Visão começa a cavar a terra. A cavidade que fizera, enche-se de água: ela bebe desta água e com ela lava o rosto. O fio d’água se avoluma, torna-se um jorro potente e transforma-se nesta fonte maravilhosa que abastece as nove piscinas de Lourdes, produzindo 122 mil litros de água por dia. Na 11ª aparição, Bernadete recebeu esta mensagem: “Ide dizer aos padres que aqui se deve edificar uma capela”. Vinte dias depois do dia 4 de março, entre 15 a 20 mil pessoas assistiram ao êxtase, a branca Aparição já esperava no seu nicho de pedra a sua predileta. Era o dia 25 de março, dia da Anunciação. Bernadete partira para Massabielle à primeira alvorada. Contra a sua expectativa, a rocha já estava banhada pelo suave e divino resplendor da Visão que, jovem e radiante, pousava sobre a sarça da roseira selvagem. Bernadete caindo de joelhos pediu-lhe que dissesse quem era. A Bela Senhora deixou aflorar nos lábios um sorrido.

“Ao meu terceiro pedido — conta Bernadete — a Senhora juntou suas mãos, elevou-as até o peito, olhou para o céu, depois, separando lentamente as mãos e inclinando-se para mim, me disse: Eu sou a Imaculada Conceição

Na poesia virgiliana, em formoso hexâmetro, se encontra este belo verso do cisne mantuano: — Incessu patuit Dea — A Deusa revelou-se pelo andar.

Bem mais luminosa, bem mais bela, de maior candura de mais augusta majestade que a Deusa olímpica — fantasia de poeta — sois Vós, ó Imaculada. Nos revelastes pelas palavras, cheias de emoção e de virtude, com que confirmas com tanta solenidade o dogma de vossa Imaculada Conceição, proclamado pela voz infalível de Pio IX. Ah! Meus senhores, o véu do mistério que envolvia a gruta, caíra e nesta onda de luz reveladora como numa visão apocalíptica fulge no céu da História da Igreja um grande sinal. Era uma mulher vestida de sol! Depois de sua morte, Maria ainda não se revelara tão solenemente à sua grande família humana!

A multidão, ao saber da celeste resposta, delirante e transportada de entusiasmo, caiu de joelhos e fez ressoar pelas margens do Gave murmurante, a invocação da Imaculada: — “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós

 

O MILAGRE DA VELA

A 7 de abril, a doce e graciosa visão iluminou a rocha de Massabielle. Foi então que se deu o célebre milagre da vela. Damos a palavra ao Dr. Dozous, testemunha do fato que assim o descreve:

“No momento em que ela começava a fazer de joelhos a sua ascensão ordinária, sobreveio de repente um tempo de suspensão neste movimento, e sua mão direita, aproximando-se então da esquerda, pôs a chama da grossa vela debaixo dos dedos desta mão, bastante afastados uns dos outros para que esta chama pudesse passar facilmente entre eles. Ativada nesta ocasião por uma corrente de ar assaz forte, não me pareceu produzir na pele que atingia nenhuma alteração. Cheio de pasmo diante deste fato estranho, impedi que alguém o fizesse cessar, e, tomando o meu relógio, pude, durante um quarto de hora, observá-lo facilmente. Concluída a sua oração e havendo desaparecido de sua face a transformação, Bernadete levantou-se e dispôs-se a retirar-se da gruta. Retive-a um momento e lhe pedi que me mostrasse a mão esquerda que examinei com o maior cuidado. Não encontrei vestígio nenhum de queimadura. Dirigindo-me então à pessoa que havia tomado a vela, roguei-lhe que a acendesse e me desse. Imediatamente coloquei muitas vezes, continuadamente a chama da vela sob a mão esquerda de Bernadete que a retirou, dizendo-me: Não me queimeis. Este fato refiro-o como o vi e como muitas pessoas, colocadas como eu perto de Bernadete, o verificaram perfeitamente; refiro-o tal como se deu, sem explica-lo”

Meus senhores, o milagre da vela desafia a ciência humana a explica-lo dentro das leis que regem a natureza. Ele permanecerá inexplicável, senão apelarmos para Deus que assim vinha autenticando irrefragavelmente os assombrosos acontecimentos de Lourdes. A décima-oitava e última aparição realizou-se no dia de N. S. do Carmo. “A Virgem sorriu a Bernadete, diz um orador, como para confirmar o passado e iluminar o futuro”. Desse dia em diante Bernadete volta à sua vida ordinária, frequentando a escola, simples, de uma ingenuidade adorável. Viveu depois destas maravilhas mais 20 anos. Em Nevers tornou-se Soror Maria Bernard. Ela escondeu-se na dobra de sua grande humildade. “Não se a imagina casada, mãe de família; perdida nos tumultos e nas algazarras do século”, diz Adolpho Retté. Deve-se-lhe aplicar o belo verso de Luiz de Cordonell.

Radiante por ter desposado o silêncio; ela sepultou-se num mosteiro. Escolheu a melhor parte e renunciando a si mesma, acabou de merecer a felicidade eterna cuja segurança a Santa Virgem lhe tinha dado. Bernadete cumprira a sua missão, abrira para a humanidade enferma, um caminho de vida, de benção, de paz, o caminho trilhado pelos peregrinos de todo o mundo, que conduz a Lourdes, a humilde cidade transformada pela celestial predileção da Virgem no paraíso de suas graças e no grande empório de fé para onde convergem as multidões que vão suplicar à Imaculada a cura do seu corpo e a luz de sua alma.

Lourdes é a cidade de Maria, é a nova Jerusalém, é a Canaã, onde mana leite e mel perenemente.

Tendes diante de vós, um panorama de Lourdes.

Lourdes, envolvida no manto azul da Virgem luminosa, Maria escolheu-te entre as tuas irmãs para seres a urna sagrada do seu coração de Mãe. Salve, Lourdes!

Lourdes é a cidade da Virgem. Depois que o clarão de Massabielle se projetou sobre ela como uma benção de luz, Lourdes tornou-se o centro da atração universal das almas, um foco interno de vida e de salvação.

Lá está a nova piscina de Siloé, onde os doentes deixam as suas muletas e os seus bordões, as suas compressas e os seus catres. Maria aí pronuncia um contínuo — surge et ambula — a todos que vão implorá-la na sua gruta bendita. Ela dissera: “Eu quero que aqui venham em procissão”

E de todo o mundo ali tem vindo, em imponentes peregrinações, a procissão de toda a Cristandade. Que dizem, senhores, as estatísticas? Ouçamos Bertrin: de 1867 a 1909 exclusivamente houve em Lourdes 5.207 peregrinações que tiveram 4.919.000 peregrinos. Naturalmente, os primeiros anos fornecem a parte mais modesta nesta espantosa estatística. Se, desprezando o ano excepcional do cinquentenário, tomarmos os dez que o precederam, veremos que há uma média anual de 155 peregrinações. Em dez anos 2.491 trens levaram 1.549 grupos, que compreendiam 1.636.000 peregrinos. A estas cifras pasmosas, ajuntemos o número incalculável de peregrinos isolados, de turistas e curiosos. A estação de Lourdes, ela só, recebe por ano mais de um milhão de viajantes.

De todos os países do globo afluem peregrinos. O Episcopado está a frente deste grandioso movimento. Os santuários de Lourdes onde drapejam as bandeiras dos povos em honra de Maria e que recordam pela piedade dos fiéis as bondades inexplicáveis da Virgem de Massabielle, têm sido visitados por 2.013 bispos, arcebispos, primazes, cardeais, vindos dos mais diversos e remotos pontos do mundo.

A nossa querida pátria enviou a Lourdes 36 bispos que depositaram aos pés de Maria a homenagem da terra do Cruzeiro que é também a terra da Imaculada! E Lourdes, cantada pela harpa da Cristandade, exaltada pelo episcopado, coroada de glória pelos Pontífices Romanos, achou pequena a França para contê-la e multiplicou-se pelo mundo inteiro nas pequenas grutas, representativas da sua, espalhadas pelo orbe. Leão XIII falando de sua gruta nos jardins do Vaticano dizia a um cardeal: “Que quereis? É o meu canto de França”. O Gave não rola mais as suas águas por deserta e solitária natureza, mas um Te Deum de gratidões eternas perpassa, vibrante de fé, pelas suas margens outrora despovoadas. “Que tiveste, ó Gave, exclama Mons. Pie para fugires, porque recuastes? E de ti, Montanha, que transportes se apoderaram para saltares como os carneiros suspensos dos teus cumes, e vós, colinas, para dardes pulos como os cordeiros presos aos vossos flancos? ”

O globo inteiro sentiu uma comoção desde que, pela virtude da ordem celeste, a pedra foi cavada em forma de bacia e de reservatório, desde que o rochedo foi convertido em uma fonte d’agua que não deixou de correr. Qui convertit petram in stagna aquarum et rupem in fontes aquarum

Meus senhores, Lourdes é o grande hospital que a Providência abriu na terra para as chagas físicas e morais do gênero humano. Milhares de doentes ali desembarcam para merecerem o favor da Virgem. É um espetáculo vivo da dor humana gravada naquelas faces macilentas e cavadas pelas enfermidades, naqueles membros cobertos de chagas e paralíticos. O trem branco silva, levando o sofrimento da humanidade à Gruta miraculosa, às suas piscinas, aos seus santuários, erigidos pela fé e pelo amor. Seria infindável a lista das diversas enfermidades de toda a espécie, curáveis e incuráveis.

Em leitos, em catres, de muletas, em carros, os doentes invadem a cidade de Maria. E a palavra humana poderá dizer o delírio, o entusiasmo e sobretudo o hino de gratidão que rebenta do peito dos miraculados? E Lourdes está tão impregnada de fé, de esperança, de amor, sente-se ali tanto a presença maternal da Virgem que, coisa notável, ainda os não miraculados partem dali com a alma inebriada de uma paz reconfortante e de uma alegria viva e admirável. E a partida dos trens de Lourdes é para os que se ausentam daquele pedaço do céu, um aperto do coração, o despertar amargo de uma saudade que acabrunha.

As glórias de Maria não podem ser comparadas às glórias do seu Filho. Em 1888 o Santíssimo Sacramento começou a receber uma solene manifestação de fé. É a imponente procissão do Santíssimo Sacramento. Os círios tremem brilhantes. Os estandartes oscilam reverentes, no espaço. A voz grave da tribo sacerdotal é interrompida pelas aclamações dos fiéis. Sublime espetáculo!

Como tu és bela, como tu és grande, como tu és divina, ó incomparável religião que produzes tais maravilhas! E lá estão os enfermos que pedem ao Filho de Davi a sua cura, lá estão nos seus catres os grandes doentes esperando a passagem miraculosa do Filho de Maria. Dá-se uma cura e um frêmito eletriza a multidão. É o triunfo do Cristo, é o triunfo de Maria. Magnificat, cantam mil vozes; Magnificat, gritam mil peitos; e o Cântico da Virgem ondula por aquela massa iluminada que se agita, reboando ao longe. Lourdes, teatro de tão estupendos prodígios, apresenta ao mundo civilizado e à incredulidade sarcástica a prova científica dos seus milagres. Lá está Le bureau des constatations criado em 1887, dirigido a princípio pelo Dr. Saint-Maclou e depois pelo ilustre Dr. Boissarie. “Redige, diz um escritor, uma média de 140 processos verbais por ano. Aí houve em 1897, sobre 210 trens de peregrinações, 2.825 doentes hospitalizados; 5.053 em 1901; 5.502 em 1904, 5.618 em 1907”

Neste ofício de verificações médica, são as curas examinadas com o rigor dos processos científicos. Todos os médicos, quaisquer que sejam suas ideias e opiniões, podem estudar os fatos miraculosos. Em Lourdes tudo se faz às claras, como testemunham atestados de profissionais que não partilham das nossas crenças.

 

A GRUTA (estado atual)

Meus senhores, encerrando o quadro breve e imperfeito da história de Lourdes, eu vos peço mais um olhar para a gruta de Massabielle, não mais para a gruta selvagem e deserta das bordas do Gave, mas para a gruta, bruta e selvagem na sua natureza severa, transformada pela piedade reconhecida. Ei-la! Acima da roseira brava se destaca A Madona de Fabisch, em mármore Carrara, de formosura ideal.

Dezenas de muletas, ali deixadas pelos agraciados da Virgem, pendem como troféus de vitória. Os círios trêmulos que a mão do reconhecimento acende iluminam o sagrado recinto. “Eu poderia, diz Adolpho Retté, o anarquista convertido, descrever as multidões que se sucedem na Gruta, salientar as diversas maneiras porque revelam a sua devoção. Eu poderia dizer estes furacões de litanias e de invocações que reclamam às vezes o gesto e a palavra dum diretor de peregrinações. Eu poderia juntar os doentes e seus olhares e suas fisionomias transfiguradas pela esperança”. Sim, meus senhores, o mundo se precipita sobre Lourdes e se acotovela nas grades da Gruta abençoada. Ali todas as classes se misturam e se abraçam como irmãos. Lourdes promove a confraternização dos povos, prega o heroísmo da caridade com o exemplo de suas instituições de assistência cristã dos seus liteiros abnegados; desperta o sentimento religioso e estabelece a harmonia social unindo as nacionalidades num cosmopolitismo admirável e sublime.

A grua misteriosa, em cujas rochas a Virgem deixou para sempre o rastilho, a impressão luminosa de sua visão, a benção fecunda do seu amor, agasalhando-os debaixo de sua túnica de Mãe, cinge todos os corações num só halo de esperança, numa democracia bendita, a democracia de Maria Imaculada.

Meus senhores, Loures que é um foco de religião e de amor, é no meio da Igreja de Deus a apologética viva de nossa fé. Deus encarregou sua Mãe adorável de dar à audácia insultante da incredulidade a resposta esmagadora dos assombrosos milagres de Massabielle, que demonstram irrespondivelmente a existência do sobrenatural e a divindade da religião que a possui.

É o que vamos ver na senda parte desta palestra.

 

II PARTE

 

Meus senhores, as aparições de Bernadete foram reais? Este movimento universal, esta manifestação grandiosa é apenas uma forma de fanatismo que tem as suas raízes no embuste ou na ilusão? Meus senhores, a realidade das aparições de Massabielle trazem o cunho duma verdade indubitável.

As leis que regem o testemunho histórico dos fatos naturais são as mesmas que regem o testemunho dos fatos maravilhosos. Se o testemunho de Bernadete está revestido das condições devidas para arrastar o consenso, ninguém mais poderá negar a realidade de suas extraordinárias visões.

Ora, ele o está duma maneira soberana. Para que Bernadete seja digna de crédito, basta provarmos que ela não quis enganar-nos nem se enganou: a sinceridade e a ciência de Bernadete. Quem estuda a psicologia de Bernadete, quem observa a alma ingênua desta montanhesa, simples não pode duvidar da sua sinceridade.

A ignorância, a simplicidade, a modéstia, o desinteresse dessa menina, deixam à parte toda a suspeita.

Impossível que Bernadete fosse uma comediante.

Quanto a afligiam os interrogatórios!

Jamais quis focalizar na sua pessoa que mais escondia na solidão do claustro.

Menina, pobre, sem recursos jamais quis aceitar um real da generosidade pública. Os testemunhos abundam. As suas respostas em interrogatórios habilmente preparados e feitos por pessoas por responsabilidade social, foram sempre resposta claras, precisas, sem a mínima contradição. Bernadete, ignorante e simples camponesa, triunfou sempre de todas as provas de todos os laços armados para surpreendê-la. Na hora de sua morte, neste momento solene em que a alma vai comparecer ao tribunal do Deus vingador, vinte anos depois dos extraordinários sucessos. A Igreja quis fazer a Bernadete, então Soror Maria Bernard, um supremo interrogatório. Os delegados dos Bispos de Tarbes e Nevers, assistidos pelas religiosas, junto àquele leito já ensombrado pela asa da morte, ouviram da vidente risonha a confirmação formal das suas revelações. Bernadete morreu dizendo: — “Eu a vi, sim, eu a vi”. Mas se a sinceridade de Bernadete escapa a toda dúvida, não ter-se-á enganado ela, não teria sido vítima duma profunda alucinação mental? Sim, respondem os céticos. Não, respondemos nós, responde a ciência, responde a eloquência das circunstâncias desta grande história.

As influências nervosas supõem uma natureza nervosa. Ora, Bernadete, além de asma, não sofria doença. O seu temperamento era calmo, são, alegre e risonho. A ideia religiosa não lhe teria produzido no espírito uma agitação profunda? Nenhuma. A piedade de Bernadete era uma piedade simples que nada tinha de extraordinário. A sua cultura religiosa, a dificuldade que ela tinha a esse respeito, não a puderam preparar para um misticismo tão exaltado. Nem a exercícios espirituais a menina Soubirous assistia. Ainda não fizer a primeira comunhão. A natureza física e moral de Bernadete era contrária absolutamente a qualquer alucinação. Antes da visão, durante a visão e depois da visão, a conduta, as maneiras, as palavras de Bernadete, repugnam às leis da alucinação. Não me sendo permitido assinalar as provas abundantes da não alucinação de Bernadete, limito-me a salientar a explicação científica do Dr. Voisin, médico e notável e competente de Salpetrière.

A alucinação de Bernadete foi completa e deveria ter produzido o desarranjo cerebral, porque o cérebro de uma criança não pode resistir a uma alucinação de tal natureza. E, concluindo que tal era a alucinação de Bernadete, afirmou que ela ficara louca e por isso fora internada num convento. Ora, a loucura de Bernadete é uma calunia. Não há nada melhor provado do que o senso perfeito de Bernadete, o que é atestado pelos médicos e por todos. A conclusão do Dr. Voisin prova, pois, a não alucinação de Bernadete. Se fora alucinada teria perdido a razão; ora, tal não se realizou. E assim, meus senhores, o testemunho de Bernadete, cheio de sinceridade e pleno e real conhecimento, se impõe a todo o espírito reto e imparcial. Qual foi a atitude da Igreja diante das aparições de Massabielle? Foi a da prudência e da reserva. Para que recordar a severidade e a prudência de Mons. Peyramale, pároco de Lourdes, recebendo as declarações de Bernadete, as exigências de seu zelo talvez um tanto excessivas? Os fatos maravilhosos de Lourdes foram tomando tanto vulto que Mons. Peyramale se viu obrigado, cheio de emoção, a levar a seu Bispo o estado singular de sua paróquia. Mons. Laurence apelou para a ação do tempo até que veio o momento oportuno de nomear solenemente uma comissão episcopal de sindicância, composta de dezesseis membros. Depois de longas e paciente investigações, foi a 18 de janeiro de 1862 que apareceu o mandamento do Sr. Bispo de Tarbes dando julgamento sobre a aparição que se realizou em Lourdes.

“Nós julgamos que a Imaculada Maria realmente apareceu a Bernadete Soubirous a 11 de fevereiro de 1858 e dias seguintes, em número de 18 vezes na Gruta de Massabielle, perto da cidade de Lourdes; que esta aparição reveste todos os caracteres da verdade e que os fiéis têm motivos fundados para crê-la certa. Submetemos humildemente o nosso juízo ao juízo do Soberano Pontífice, que é encarregado de governar a Igreja Universal”. Os Sumos Pontífices, não se tratando de fé e de moral, não intervieram para confirmar o sentido diocesano. Mas pelas suas palavras, pelo seu exemplo, pela sua devoção, têm dado a equivalência desta aprovação pública.

Pio X, gloriosamente reinante, não estabeleceu como festa litúrgica da Igreja Universal a 11 de fevereiro, a Festa da Aparição da Imaculada?

Meus senhores, não há que duvidar, a realidade das aparições de Lourdes é um fato de solidíssimas bases históricas e a Virgem de Massabielle o continua a demonstrar com o argumento fulgurante dos seus milagres.

A crítica científica exige que nos tempos presentes fatos e fenômenos para construir os alicerces de suas verdades. Pois bem, Lourdes, se satisfaz plenamente. O projecionista vai fazer desfilar diante de vós, como numa procissão de dor e ao mesmo tempo de ventura, diversos mártires do sofrimento curados pela Virgem de Lourdes.

Eu quisera ter tempo de analisar e criticar cada um destes milagres para fazer ressaltar a intervenção do divino, do sobrenatural.

Mas ainda assim a sua simples exposição é impressionante e vale um argumento.

 

YVONNE AUMAITRE

É uma interessante criança de 23 meses. Tinha os dois pés aleijados. Seu pai que era médico mergulhou-a na piscina e, ao retirá-la, abraçou-a curada e sã.

 

VION DURY

É um velho soldado. Num incêndio as chamas lhe queimaram os olhos. Verificava-se um duplo descolamento da retina. Fez uma novena no Hospital de Anfort à Virgem de Lourdes.

Repentinamente sentiu uma grande dor. Maria restituiu a vista ao cego.

A sociedade francesa de oftalmologia proclamou que era um caso sem precedentes.

 

CONSTANCE PIQUET

Foi declarada incurável, afetada dum cancro horrível que a devorava há três anos, é miraculada em Lourdes pela divina e celeste “consoladora dos aflitos”. Dois minutos após a imersão, o cancro havia desaparecido.

Cura instantânea, verificada uma hora mais tarde por 15 a 20 médicos, inclusive o Dr. Regnauld, da Escola de Medicina de Reims.

 

VIUVA PECANTET

Atacada de lúpus é igualmente beneficiada pela misericordiosa Virgem de Massabielle.

 

CATHERINE LAPEYRE

Devorada por um cancro na língua, arrastada pela fama dos prodígios daquela que é a Mãe de Misericórdia e nossa esperança, teve um olhar de súplica para Maria que, bondosa e terna, lhe restituiu a saúde.

 

GABRIEL GARGAN

Para descrever este milagre de um grande valor apologético por causa da excepcional circunstancia em que se realizou, eu apelo para a pena brilhante do poeta, convertido acima citado: — “E que dizer daqueles que não possuíam a fé e que se vangloriavam de sua incredulidade e que vieram apenas a Lourdes a instância duma família crente ou para adoçarem o pesar duma mãe piedosa? ”

Estou perdido, dizem eles, pouco importa o que fizerem de mim. Foi o caso de Gargan. Sua história tem sido muitas vezes contada.... Recordo somente que, depois de um acidente da linha de ferro, Gargan, acometido de um traumatismo da medula espinhal, viu-se inteiramente paralisado. De mais, seu estômago apenas suportava quantidade ínfima de alimento; não dormia e sofria dores intoleráveis. Enfim, à sua chegada a Lourdes, a gangrena havia invadido os seus membros inferiores.

Resistiu por muito tempo as súplicas de sua mãe, que, vendo-o condenado pelos médicos, só esperava na Santa Virgem. Ele cedeu apenas para ter paz. Durante a viagem, recusou a orar e pouco antes de entrar na estação, como sua mãe lhe pedisse para levantar os olhos para o crucifixo que culmina a montanha chamada do Calvário, ele desviou a cabeça aborrecido.

Era um incrédulo total! A vinte de agosto de 1901, levaram-no numa padiola à esplanada para receber a benção do Santíssimo Sacramento. Tinha perdido os sentidos. Sua face apresentava uma coloração azul; seu corpo estava gelado. Parecia tão perto da morte que os assistentes estiveram a ponto de reconduzi-lo ao hospital para que a vista deste cadáver não atemorizasse os outros doentes. Não, deixai-o gritou a pessoa que o acompanhava, se ele morrer cobrir-lhe-ei a face e após a benção o levaremos.

O Santíssimo Sacramento passou no meio de cânticos e invocações. Apenas o sinal sagrado foi traçado sobre a cabeça de Gargan, este levanta-se, salta da padiola, dá alguns passos, gritando: — “Santa Mãe de Deus, eu vo-lo agradeço”. Estava curado.

Meus senhores, que há na terra de mais sublime? Que há de mais maravilhoso do que a Benção da Imaculada salvando a vida aos próprios incrédulos de um modo tão espantoso? Lourdes confunde a impiedade e Lourdes a salva.

Dupla cura: do corpo e do coração. Em Lourdes, agradecido, Gabriel Gargan, vai fazer todos os anos o serviço de carregar as padiolas e banhar os doentes na piscina!

 

CAROLINE ESSERTEAU

Era doente da medula espinhal. A cabeça, as pernas não podiam virar-se em todas as direções.

Foi declarada incurável. Mas a Virgem de Lourdes encontrou na sua divina terapêutica o remédio para os seus males.

 

CLEMENTINA TROUVÉ

Tinha uma doença dos ossos da cabeça. O seu lugar de moradia era protestante.

Curada, instantaneamente ao primeiro banho da piscina, ela foi na terra objeto de discussões. O médico que a examinou antes da partida não pode deixar de exclamar: fosse o bom Deus ou o diabo, a menina está curada.

 

MARIE LEBRANCHU

Tuberculose no 3° grau. Era um esqueleto vivo, diz Bertin; a tosse a sacudia de um modo deplorável. Ao sair da primeira imersão, escrevem os médicos de Lourdes, Marie Lebranchu experimenta um bem-estar instantâneo. Examinamo-la com cuidado no gabinete dos médicos. Não encontramos nem estertores, nem sopros, nem palidez. O Presidente do Bureau ajunta: — Não restava nem o menor traço de lesão no pulmão.

 

MARIE LEMARCHANEL

A sua cura pertence à classe das curas instantâneas. Eis o que diz uma testemunha ocular, o Dr. Homtres: “Lembro-me muito bem de ter visto Marie Lemarchanel diante das piscinas esperando a sua vez de tomar banho.

Seu aspecto, particularmente repugnante, tocou-me. As duas faces, a parte inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera inferior do nariz, o lábio superior, estavam cobertos de uma úlcera de natureza tuberculosa, e segregando um pus muito abundante. Os panos que cobriam esta face estavam cobertos de pus. Ao sair da piscina, eu dirigi-me imediatamente ao hospital, para junto dessa mulher.

Reconheci-a muito bem, ainda que o seu aspecto estivesse inteiramente mudado. Em lugar da repugnante chaga que eu acabava de ver, achei uma superfície, ainda vermelha, na verdade, mas seca e como recoberta de uma epiderme de nova formação. Os panos que tinham servido para prensar a chaga, antes de sua entrada na piscina estavam ao lado dela todos manchados de pus”. E o médico, atestando a cura de igual chaga na perna da doente, termina vivamente impressionado por uma tão súbita mudança, produzida por uma simples imersão na água fria, numa afecção, como o lupus, tão rebelde a toda espécie de medicamentos.

São estes últimos doentes as três personagens do célebre romance de Émile Zola, o blasfemador das obras de Maria.

Mas... adiante, meus amigos, não nos envenenemos na atmosfera deletéria de Émile Zola.

 

PIERRE DE RUDDER

A perna deste homem foi arrebentada por uma árvore. A cura deste miraculado ficou célebre. Os ossos quebrados, saíam das suas chagas que foram examinadas pelos médicos. Foi curado no santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em Oostakker, na Bélgica. A sua cura foi instantânea. Os ossos fragmentados se soldaram, fechando-se a chaga. Depois da morte de Rudder, exumaram o seu cadáver e todo o mundo verificou a soldadura.

Que mais para o milagre?

Senhores, em Lourdes a intervenção do sobrenatural é uma evidência. Só os espíritos orgulhosos, pseudocientíficos, de parti pris, num apriorismo lamentável de incredulidade, ousam negá-lo.

As curas operadas pela Virgem de Lourdes, se operam na Gruta, na passagem do Santíssimo, nos trens e mesmo fora de Lourdes. Recebem o favor do céu crentes e incrédulos.

Apelaram para a sugestão e os apologistas católicos poderão responder com o Dr. Beruhens no seu livro “De la suggestion et de ses aplications á la therapeutique”. Muitas vezes opera maravilhas, mas não milagres. Não há remédio que possa restaurar o que foi destruído. A sugestão nunca poderá restabelecer uma função cujo órgão indispensável já não existe”. Apelaram para as virtudes terapêuticas da água de Lourdes, e a análise química não encontrou na fonte milagrosa qualidades curativas. Excelente água potável simplesmente. Charcot comparou os doentes de Lourdes aos seus internados de la Salpêtrière. Mas, oh! Que diferença! A placidez, a piedade, a resignação dos enfermos de Lourdes, estão em oposição com os fenômenos de alucinação e histeria dos doentes daquele hospício. Batidos, em todos os pontos, os inimigos refugiam-se nos redutos do agnosticismo. É a força desconhecida. A força desconhecida, meus senhores, é Deus, é Maria. Terminemos com as notáveis palavras do Dr. Varguez, inspetor das águas de Baséges, professor da Faculdade do Montpellier. Há aí certamente uma força contingente superior às que foram dadas à natureza, estranha à água de que ela se serve para a manifestação do seu poder. Se me perguntarem o que eu vi em Lourdes, disse o eminente professor, antes de morrer, eu posso responder: “Pelo exame dos fatos mais autênticos, colocados acima do poder da ciência e da arte, eu vi, eu toquei a obra divina, o milagre”

Meus senhores, Lourdes é o sobrenatural revelado em pleno século materialista e irreligioso.

Mas se existe o sobrenatural na Gruta de Massabielle, divina é a Fé que ilumina Lourdes, divina é a Igreja Católica em cujo seio Lourdes esplende como radiante estrela. Divino são os preceitos desta religião de maravilhas e, como tais, impõem à consciência na conduta moral dos indivíduos, das famílias e da sociedade.

Quando a impiedade ousou gritar: — Deve-se fechar Lourdes! 2.500 médicos uns em nome da religião, outros em nome da humanidade, diversos em nome da medicina, refutando as ridículas objeções, responderam: — Não!

Em Dr. Vicent se podem ler as suas abalizadas e doutas respostas.

Senhores, sob as abóbadas da basílica mariana continuam os cânticos da gratidão mundial. Das suas colunas tremulam, como homenagem dos povos, os pavilhões das nações de Maria, e ali, eu vejo ondular a bandeira de minha pátria, carregada, dos troféus de sua grandeza, como o símbolo auriverde do coração do Brasil, a terra da Imaculada. O mundo inteiro canta aos pés de Maria: Salve, ó Virgem Coroada, Salve! Doce visão de paz e de ternura inigualável a se destacar imaculada e branca, destes nimbos misteriosos, tu resumes o ideal da Beleza, da Verdade e do Amor. O Bardo dos cânticos já tinha cantado: — Pomba minha, mostra a tua face nas aberturas da rocha. Senhora, enquanto a harpa humana tiver uma corda, ela vibrará em tua honra, enquanto o coração dos teus filhos tiver uma fibra, ela soluçará o hino de sua gratidão, e o eco do seu gemido irá se juntar a esse Ave, Ave, Maria, que reboa, há mais de 50 anos pelas ilhargas das montanhas de Massabielle.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Conferência sobre a Ressurreição de Cristo

D. José Pereira Alves

Conferência realizada no Círculo Católico do Rio de Janeiro

 

Eminência

Exmo. e Revmos. Senhores

Minhas Senhoras,

Senhores.

 

O Exm°. Sr. Dr. Moreira da Fonseca acaba de ler a esta douta assembleia o seu magnífico trabalho em que nos deu a certeza da morte real de Jesus Cristo.

Cabe-me a honra de oferecer ao vosso elevado espírito, a consideração das provas da Ressurreição do Divino Salvador.

 

O SEPULCRO VAZIO

O túmulo, em que jazia o corpo de Jesus Cristo exânime, fora encontrado vazio. Eis um fato verificado pelos apóstolos, por Santa Maria Madalena, pelas santas mulheres e pelos discípulos. “Alguns dos nossos foram ao sepulcro, escreve S. Lucas, e acharam todas as coisas como as mulheres o tinham dito”

Esta mesma verificação foi feita pelos inimigos de Cristo. Não pode haver dúvida. Os guardas do túmulo não podiam deixar de comunicar os acontecimentos da noite aos seus chefes.

Os príncipes dos sacerdotes e anciãos que tinham espalhado pelo povo a notícia do furto do corpo, foram com toda a certeza e, com eles os habitantes de Jerusalém, examinar o sepulcro de onde desaparecera o corpo do Crucificado.

São milhares de testemunhas — as próprias testemunhas da morte — que podem ver e percorrer o túmulo do Cristo vazio.

O corpo de Jesus não está mais ali.

Que era feito, pois, do corpo de Jesus Cristo?

 

APARIÇÕES

Santa Maria Madalena volta ao Jardim de novo deserto, com o espírito agitado por mil pensamentos. O Divino Mestre morrera.

Havia só no meio de sua confusão mental um ponto evidente e desesperador. O túmulo estava vazio. Mais uma vez ela percorre com o olhar indagador o interior do sepulcro e certifica-se da sua desgraça. Não estava mais ali. Ela viu então dois anjos, dois enviados de Deus, vestidos de um manto branco, assentados um à cabeceira, outro no pé do túmulo no qual o Senhor repousara.

“Mulher, disseram os anjos, porque tu choras? ” — “Porque, respondeu ela, levaram o meu Senhor e eu não sei onde o puseram”

Subitamente, a um sinal ou ruído, Santa Maria Madalena se voltou e viu um homem de pé que lhe perguntou também: “Mulher, porque tu choras? A quem procuras? ” E ela pensando que falava ao jardineiro respondeu: “Se foste tu que o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o levarei comigo”

“Maria”, disse o homem. Aquela voz tinha o timbre divino do Mestre e Santa Maria Madalena, sacudida nas profundezas da alma por aquele mistério de doçura e amor, reconheceu Jesus e gritou, lançando-se aos seus pés: “Rabboni! Ó meu Senhor! ”

Foi a primeira visão de Cristo.

Ela disse aos apóstolos: “Vi o Senhor”

É assim que Santa Maria Madalena, depois de receber a mensagem divina se tornou apóstola da Ressurreição.

 

EMAÚS

Há na minha catedral um pequeno e velho quadro onde certamente pousou a mão de um grande artista. A noite desce. Os dois discípulos de Emaús, atraídos pelo encanto misterioso do desconhecido que lhes revelava durante o caminho os segredos das Escrituras sobre o Cristo, insistem com o viandante para descansar e parecem dizer: “Já anoitece, fica conosco”

O peregrino daquela tarde primaveril florida e bafejada pela brisa perfumada da Palestina, tem o ar complacente de uma terna condescendência. Há por toda a cena, inspirada no Evangelho, uma cor natural, uma harmonia, todo um perfume cristão de sentimento, amor e de paz silenciosa que a alma se sente enlevada pelo êxtase da fé e pela sublime poesia do Evangelho.

É verdadeiramente cheio de emoções o episódio de Emaús. Durante toda a viagem, os dois discípulos são subjugados pelas palavras ardentes do inesperado interlocutor, mas não o conhecem. Sentam-se à mesa para a refeição frugal da noite. “No fim da ceia, escreve conhecido autor, Jesus ressuscitado, livre das tristezas da Quinta-feira Santa, longe da presença importuna de Judas, numa intimidade mais estreita, no meio do silêncio mais profundo e mais puro dos campos renovou o mistério da Ceia. “Tomou o pão, benzeu-o, rompeu-o e ofereceu-o aos discípulos”. Seus olhos se abriram. Mas Jesus desapareceu. Ainda não era hora do Céu, comenta um ilustre escritor. Quando eles, em transportes de alegria, voltaram para anunciar aos apóstolos a maravilha de que foram testemunhas oculares, souberam, antes de abrirem a boca, que o Salvador aparecera a Pedro.

 

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS

Os apóstolos, ouvindo a narrativa emocionante de Emaús, discutiram com calor os últimos estranhos acontecimentos. As portas da casa estavam cuidadosamente fechadas por medo dos judeus.

Naquelas horas de ânsia e de inquietações, Jesus aparece de pé no meio deles, dizendo: “A paz seja convosco, sou eu, não tenhais medo! ”

Foi um momento de espanto para todos. Que seria? Perguntavam interiormente a si mesmos. Um fantasma? Um espírito? Teriam sido vítimas de uma alucinação? Estavam vendo e, de medo, não ousavam proferir uma palavra. Então o Senhor lhes falou: “Por que vos perturbais. Por que todos esses pensamentos que se elevam em vossos corações”

“Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo: apalpai, examinai, os espíritos não têm carne, nem ossos. Vós vedes que eu tenho”.

E mostrou-lhes as mãos e os pés. Era bem uma evidência sensível para as testemunhas atônitas daquele espetáculo. E para dar-lhes uma prova fulminante da realidade pediu de comer e comeu com eles. Era demais. Os corações dos apóstolos saltavam de transbordamento, de imensa e inefável alegria. Foi, na frase de notável pensador, o primeiro Aleluia da Igreja. Nele se condensava todo o gáudio católico da universal festa da Páscoa que ainda hoje agita as almas e os sinos dos nossos campanários.

E Jesus, que atravessou a vida e a morte dando-se à humanidade, pensando nas circunstâncias vindouras, convivas da régia mesa pascoal, comunica ao sacerdócio, representado na culminância pontifical dos apóstolos, o privilégio divino, o poder, reservado ao Altíssimo, a faculdade suprema de perdoar: “A paz seja convosco! Como meu Pai me enviou, eu vos envio”. E, soprando sobre eles, acrescentou:

— “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos”

Só Deus poderia restituir à matéria a glória e a liberdade da vida. Só um Deus pode atribuir a si e delegar a outros o poder sublime de restituir ao pecador a glória e liberdade do espírito, a ascensão sobrenatural para o Infinito.

As belas e empolgantes cenas da Ressurreição não deviam terminar em Jerusalém com a aparição de Cristo a São Tomé. As aparições hierosolimitanas destinadas à demonstração absoluta da ressurreição deviam suceder no plano divino as aparições da Galileia, destinadas à configuração definitiva da Igreja e ao supremo legado das palavras e da benção do Salvador.

A poesia, o esplendor e a paz do país da Galileia onde se refugiava a caravana apostólica, banhada de alegrias e de esperanças ofereciam uma moldura rica, florida, luminosa a esse último quadro da vida messiânica de Jesus.

As margens do Lago de Genesaré, de águas tão puras, Simão Pedro, o velho pescador, com saudades do mar, disse: “Eu vou pescar”. Os outros disseram: “Vamos contigo” e a barca de Pedro, a barca simbólica, vogou sobre a água durante a noite profunda.

Nada fizeram. As primeiras horas da manhã, um desconhecido lhes grita da praia: “Meus rapazes, tendes alguma coisa? ” “Não”, respondem. E o desconhecido ajuntou: “Lançai a vossa rede à direita da barca e achareis”

Uma nova pesca milagrosa. As redes estavam pesadas. “É seguramente o Senhor”, disse João a Pedro.

Era realmente Jesus. Eles não se atreviam, entretanto, a pergunta-lo, sabendo que era o Senhor. Só depois que Jesus lhes distribuiu o pão e o peixe, puderam aproximar-se e gozar da divina intimidade do Ressuscitado.

Os primeiros raios começaram a dourar as montanhas e iluminar aquele paraíso de recanto galileu enquanto Jesus, na plenitude da vida imortal e cheio de celestial doçura tomava parte no repasto frugal dos apóstolos, à beira do lago tranquilo e azul.

Como tudo isto é admirável de simplicidade! Nenhum artifício nessas narrativas evangélicas.

A beleza se irradia límpida e tocada da graça divina dessas páginas de verdade, de vida, de amor e de paz — promessas do Natal hoje transfiguradas numa realidade histórica, testemunhada e sentida por milhões de almas erguidas para o céu pela virtude divina do Redentor que, ressurgindo dentre os mortos e abandonando a solidão do seu túmulo, freme, palpita, esplende na vida para não morrer mais.

Nas diferentes aparições da Galileia o Salvador a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, não só cria o poder supremo da Igreja instituindo, solene, o papado, mas faz profecias de glória; projeta as grandes linhas da sua obra divina através dos séculos e anuncia o Espírito, o Paráclito que lhes há de ensinar toda a verdade.

É impossível nos limites deste modestíssimo trabalho a particularização desse grandioso período da Ressurreição.

Finalmente sobre um pequeno monte vizinho do Lago de Genesaré Nosso Senhor aparece a mais de quinhentos galileus.

São testemunhas das quais muitas viviam no tempo de São Paulo, segundo a sua própria afirmação. O Salvador faz um discurso público aos onze apóstolos: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, ensinai a todos os povos, pregai a toda criatura. Batizai os homens em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que eu mandei. Aquele que crer, e for batizado será salvo. Aquele que não crer será condenado. Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Jesus Ressuscitado dirige a sua fala de Soberano à Igreja Docente e à Igreja Discente, aos apóstolos e aos quinhentos discípulos em assembleia solene sobre o cimo sagrado, — cátedra do Mestre e do Fundador — criando e determinando a vida e as funções constitucionais da sua Igreja visível.

A última aparição do Divino Ressuscitado que durante quarenta dias, em horas diferentes, em lugares diversos e descobertos, a intervalos bem notados se mostra vivo e pessoal a testemunhas de categoria, condição, idade, sexo, espírito, caráter e interesses vários numa atmosfera de dúvida, hesitações e patente incredulidade, a última aparição se realiza no Monte das Oliveiras — de tanta recordação pungente.

É daí que o Cristo quis traçar a via triunfal, da sua glória, a Ascensão para o eterno Pai.

Depois de pronunciar o seu adeus supremo, últimas palavras de sua missão terrena, o seu programa de verdade e de amor. Nosso Senhor estende sobre todos, as suas mãos abertas em chagas de luz — em última benção — e começa lentamente a subir para o céu.

Eles olhavam no espaço ainda a nuvem em que se recolhera o Redentor triunfante quando dois anjos os arrancaram do êxtase, dizendo: “Galileus, que fazeis aí de pé olhando para o céu? Esse Jesus que acaba de deixar-vos para subir ao céu, voltará de lá como o viste subir”

Minhas senhoras, meus senhores. Que pensar de tudo isto?

O túmulo de Jesus estava vazio na manhã de domingo. Milhares de amigos, inimigos, indiferentes, o testemunharam.

Que corpo era esse, pois, que apareceu em tantos lugares e circunstância a tão diferentes pessoas durante quarenta dias? Que corpo era esse, que não só se deixava ver e tocar, mas que agia, falava e afirmava uma personalidade com uma consciência perfeita e clara do seu ser, da sua ação e das suas funções próprias e um sentimento vivo e determinado do seu Eu? Era um corpo? Era um fantasma? Era um espírito? Era uma projeção alucinatória de Santa Maria Madalena, dos apóstolos e dos discípulos de Cristo? Ou foi realmente a aparição miraculosa do Cristo que deixara vazio o sepulcro na alvorada esplêndida do domingo?

A hipótese do furto do corpo pelos discípulos do Cristo já está abandonada. Nenhum racionalista que se preze ou tenha probidade intelectual, prestigia nos nossos dias essa hipótese. O mesmo se pode dizer do espírito de impostura e má fé atribuído aos apóstolos. Reville presta uma homenagem magnífica à sinceridade profunda desses homens que se deixaram matar pelo Cristo Ressuscitado.

Picard nota muito bem: não foram os discípulos, dizem, foram os judeus que roubaram o corpo de Jesus. Esta hipótese é ridícula da parte da incredulidade. Os judeus teriam assim fornecido armas contra si mesmos. Destruíram a única peça de convicção que podia aniquilar o testemunho dos apóstolos...

A suposição de Strauss de que o corpo de Jesus Cristo foi atirado ao lixo, opomos este fato de notoriedade pública no tempo de São Paulo; foi sepultado. De resto, naquela maneira de agir não era conforme nem à lei romana nem à lei judaica. Segundo a primeira, o cadáver devia ser entregue logo que fosse reclamado. Quanto à lei judaica, esta estabelecia expressamente que o cadáver do supliciado devia ser sepultado antes do pôr do sol.

As hipóteses racionalistas, inventadas para explicarem a Ressurreição de Cristo, de Strauss, Renan, Harnak e de tantos outros hipercríticos ou romancistas modernos e contemporâneos, são evidentemente um esforço desesperado do racionalismo para negar a existência do sobrenatural.

As explicações dadas por Strauss, Renan, Noak, Ewald Lang, Hosten, são diversas, mas têm um fundo comum — as aparições são visões subjetivas. Já estão fora de moda e sem interesse pelo vão esforço que representam para tornar ilusória o fato da Ressurreição.

Outros não recusaram a realidade das aparições, mas negaram a Ressurreição física de Jesus Cristo. As alucinações dos apóstolos teriam sido alucinações verdadeiras. Aparições objetivo-subjetivas. Jesus sobrevivia num estado espiritual e capaz de agir espiritualmente sobre o sentido humano e assim tornou sensível a sua presença e a sua ação aos apóstolos que visualizavam, isto é, traduziam por visões objetivas o que percebiam, e oralizavam, isto é, interpretavam como verdadeiros discursos o que compreendiam.

Ora, meus senhores, minhas senhoras, lendo todos esses devaneios mascarados de cor científica ou filosófica, nós nos lembramos instintivamente do verso de Virgílio — Quis Deus vult perdere, prius dementat — e nos entristecemos sobre essas ruínas do orgulho humano, humilhado na tentativa insana de apagar as estrelas do céu.

As narrativas evangélicas documentam a realidade corpórea da Ressurreição. Os discípulos tocaram um corpo real, ainda que glorioso, com suas mãos e ouviram com seus ouvidos.

No texto evangélico também não se acha fundamento para as visões pneumáticas objetivas de Leim e Schweizer para quem as cristomanias são visões interiores do estado glorioso de Cristo no céu, interpretadas pelos apóstolos no sentido de sua Ressurreição corpórea.

Essa ilusão de ótica, necessária para reanimar a fé nos apóstolos nem satisfaz a consciência moderna, inimiga do sobrenatural, nem explica o contato sensível do Cristo em suas aparições diversas durante quarenta dias, nem o túmulo vazio atribui à divindade a causa direta do erro.

A Ressurreição é o fato fundamental do Catolicismo.

Os vinte séculos da verdade católica se apoiam no túmulo glorioso de Jesus Cristo. É o milagre que, por excelência, prova a divindade de Cristo. Ressuscitar um morto é um prodígio. Ressuscitar a si mesmo é o prodígio dos prodígios. Na sua vida e na sua morte o Divino Mestre multiplicou os fatos extraordinários que documentaram divinamente as suas afirmações absolutas sobre a sua personalidade divina.

Na Ressurreição, a demonstração do Salvador atingiu o seu apogeu de luz e de glória. Os inimigos da fé compreenderam muito bem que aceitar a ressurreição é aceitar toda a revelação cristã com todas as suas consequências doutrinais.

São Paulo escreveu claramente: Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha pregação e inútil a vossa fé.

O racionalismo chegou ao cúmulo de negar a morte de Cristo. Cristo segundo alguns incrédulos, apenas desmaiara na Cruz. No repouso, ele voltou a si da frieza do túmulo e das resinas do embalsamento.

E esses espíritos orgulhosos não leram que Pilatos só deu autorização para a descida do corpo depois de se ter certificado de sua morte? E o divino supliciado poderia ter resistido após tão terríveis tormentos à lança do soldado romano que lhe abre o peito na largura de uma mão? E como esse Cristo desfigurado, arrastando-se, desgraçado, saindo penosamente de um sepulcro poderia ter fortalecido e transformado os seus medrosos discípulos?

A impiedade se torna ridícula na ânsia de repudiar o sobrenatural, custe o que custar.

A palavra do anjo continua a ser uma palavra de vitória:

“Procurais a Jesus de Nazaré que foi crucificado? Ressuscitou; não está aqui”

O túmulo está vazio. Os soldados romanos subornados dizem que estavam dormindo quando roubaram o corpo do crucificado.

E como esses pescadores tímidos, rudes, pobres, sem meios, sem influencia, sem nenhum interesse para eles, afrontando as consequências do seu ato, teriam violentado, corrompido ou enganado a guarda romana? Todas as explicações atingem o máximo do absurdo.

O túmulo do Cristo, vazio, apesar de todas as precauções tomadas, só tem uma explicação aceitável. É a palavra do anjo: “Ressuscitou; não está aqui”

Santa Maria Madalena, suas companheiras e os apóstolos foram vítimas de uma alucinação, gritam os céticos de todos os tempos.

A psicologia dessas gloriosas testemunhas do Cristo redivivo é o que há de mais contrário ao fenômeno da alucinação.

Nenhuma delas se mostra crédula. Nenhuma pensa na Ressurreição. Santa Maria Madalena corre ao sepulcro e quando vê a pedra derribada, diz: “Roubaram o Senhor e não sei onde o puseram”. Ela se lamenta junto do túmulo abandonado. Diante dela está um homem de pé. “Por que choras mulher? A quem procuras? Se tu o tiraste, responde Madalena, dize-me onde o puseste”

Maria! Disse o homem.

E a grande arrependida, reconhecendo Jesus naquela voz cheia de doçura, exclama: “Rabooni! ” É assim que Madalena se torna a apóstola da Ressurreição. Ela diz aos discípulos: “Vi o Senhor”. Os apóstolos foram duma incredulidade a toda prova. E eles tomaram as santas mulheres por visionárias. E quando o Senhor lhes aparece, eles julgaram-no um fantasma. Um deles, São Tomé, leva a audácia de sua incredulidade a querer tocar as chagas do Mestre. Sugestão e alucinação se tornaram na linguagem dos ímpios, palavras cômodas para explicarem os fatos sobrenaturais.

Bossuet, no seu famoso discurso sobre a história universal disse: “Ao terceiro dia, Jesus Cristo ressuscita; aparece aos seus que o haviam abandonado e se obstinavam a não crer na sua Ressurreição. Os discípulos o veem em particular, e todos o veem em conjunto; aparece uma vez a mais de quinhentos homens reunidos. Um apóstolo, assegura que a maior parte dentre eles vivia no tempo em que ele escrevia. A Ressurreição é um inabalável fato histórico. A sua certeza está acima de toda a dúvida. A sua certeza está acima de toda a dúvida. O Cristo ressurgiu. E, ressurgindo, ressuscitou o mundo.

Levantou todas as lousas que pesavam sobre o gênero humano, baniu todas as escravidões — a escravidão dos sentidos, do coração, da inteligência. Sobre a família humana raiou um novo sol. Todos os infelizes, todos os desgraçados puderam soltar um suspiro de alívio. Como um verdadeiro triunfador, o Cristo Ressuscitado invadiu a consciência da humanidade e criou uma mentalidade e uma civilização desconhecida.

Jesus transformou o homem com seu verbo, com sua graça, com seu amor. Ele semeou na alma racional essas verdades fecundas que produziram na sociedade uma total revolução nas ciências, nas artes, nas leis, na política, nos costumes e na vida dos povos, essas verdades que fizeram surgir do caos social antigo um novo mundo moral, iluminado pelas fulgurações e relâmpagos da Ressurreição.

São essas torrentes de luz que dobram os joelhos dos sábios e arramam dos seus lábios palavras como estas do grande matemático Cauchy: “Eu sou católico, e, se me perguntassem a razão disso, veriam que as minhas convicções são resultado não de preconceitos de família, mas de um exame aprofundado. Veriam como se gravaram para sempre no meu espírito verdades mais incontestáveis aos meus olhos do que o quadrado da hipotenusa”

A pedra do sepulcro do Divino Vencedor é o granito da Igreja. Há vinte séculos contra ela se despedaçam crânios. Mas é um granito de amor. Há vinte séculos ela recebe as lágrimas de todos os infortunados, as flores de todos os agradecimentos, as homenagens da inteligência e do coração.

Há vinte séculos sobre essa lousa augusta se repetem, num crescendo de amor, os beijos da gratidão genuflexa que bendiz, aclamam, canta por todos os júbilos de Páscoa, a alvorada cristã do Deus Ressuscitado.

A Ressurreição de Jesus Cristo tranquiliza o nosso espírito. Não estamos iludidos sobre o nosso futuro. O Cristo ressuscitado garante todas as certezas da Fé e todos os ensinamentos da Igreja. Ficamos na posse consciente de verdades eternas. Os ventos vários das filosofias humanas não poderão abalar a nossa confiança que repousa indefectível no rochedo iluminado do Domingo Pascal. A ressurreição física de Jesus é a prova decisiva.

Doravante estamos voltados para o céu donde esperamos Nosso Senhor Jesus Cristo que transformará o corpo de nossa humildade, segundo o modelo de seu corpo glorioso.

O Cristo, primogênito da vida e vencedor da morte, envolve na benção de sua ressurreição gloriosa a carne sofredora da humanidade. Nós cremos na imortalidade da alma e na perpetuidade radiosa da carne ágil, sutil, impassível, esplendente, como uma flor do espírito, no Reino da glória, forma suprema da beleza sensível, transfiguração pelo sopro criador do Artista Divino.

Na igualdade dos seres que a morte nivela é sempre a mesma devastação do corpo que se decompõe e vai alimentar a erva humilde depois devorada, talvez, por um animal estúpido.

Seja o cérebro de um sábio, — laboratório do pensamento seja a mais abjeta das criaturas, é sempre a mesma a humilhação da morte. Diante do sepulcro aberto não vemos mais que podridão, poeira e pó. Se perguntarmos ao materialista se o homem ficará reduzido à miséria do túmulo, ele responderá: “Ficará. A matéria será restituída à circulação da natureza”

E o pensamento? Os surtos de seu espírito? Os seus desejos? As vozes supremas de sua alma? Todos os seus movimentos transformados em sensações e ideias? Tudo ficará perdido para sempre, dizem os materialistas.

Coisa terrível é a morte do homem que só crê na matéria! Espanta, aterroriza!

Se perguntarmos a um ultra espiritualista se a matéria ficará reduzida à miséria do túmulo, ele responderá. “Ficará, porque vai ser restituída a circulação da natureza, somente a alma não sofrerá essas misérias”

É menos terrível essa concepção da morte.

Só a alma com os seus pensamentos, os seus surtos e os seus desejos não se poluiria no túmulo.

Mas o cérebro onde se elaboram as ideias, o coração onde se aninham os sentimentos, o corpo onde demoram as vibrações, tudo desaparecerá para sempre no conceito do espiritualista ingrato.

Nós católicos, porém, não podemos admitir essa poeira eterna do cérebro, do coração, do nosso corpo.

Deus não quis condenar o homem-fanal da criação à podridão eterna, à devastação completa do corpo que foi feito à sua imagem e semelhança.

Credo resurrectionem. Nós acreditamos na ressurreição da carne. Estamos convencidods de que esta há de florir.

Quando Deus, completou o plano da criação, do limo, formou o homem e lhe deu o sopro de vida, o espiráculo de vida não foi para reduzi-lo a nada, nem para inutilizar o encanto de sua obra, que formou os enlevos da criação.

Não foi inutilmente que colocou essa semelhança de sua imagem no meio de sua obra gigantesca.

Não foi inutilmente que criou para os seus olhos os encantos da vegetação e as maravilhas da luz e os esplendores dos quadros que a sua mão de artista formou onipotentemente.

Não foi inutilmente que criou par os ouvidos do homem a deslumbradora orquestração da natureza, a música das águas, o canto dos pássaros, a harmonia das esferas.

A carne é herdeira das liberalidades divinas.

Quando a alma quer rezar, os lábios murmuram, o coração palpita, as mãos se juntam e se erguem para o alto numa atitude magnifica. E não é possível que essa carne fique reduzida à podridão para sempre. Também ofereceu seu sangue, se sacrifica, se martiriza por Deus.

A Igreja saúda a carne irmã da carne de Jesus Cristo.

A nossa religião respeita o espírito e a carne criada, cuja ressurreição proclama.

Sendo divina a nossa religião, é eminentemente humana. Não se preocupa só com a alma, mas também com o corpo. Sem corpo não teríamos ressurreição completa. É um dogma da nossa Igreja a ressurreição da carne. O sepulcro não é só podridão. O nosso esquife é berço da imortalidade.

A própria natureza nos prenuncia a ressurreição da carne.

Ao pôr do sol, todas as tardes, segue-se a noite longa e silenciosa. À alvorada, o sol surge. É a ressurreição da manhã. O lavrador atira o grão humilde que vai apodrecer para nascer, reflorir e frutificar. A larva se transforma em crisálida e esta em borboleta que alça o voo em demanda do infinito, no anseio da liberdade.

Se Deus concede a vida ao vegetal que nasce da semente apodrecida, a vida que palpita na verdura dos campos, no coma verde das árvores, se dá essa vida que cintila na asa das borboletas, por que razão não a concederá à nossa carne, também?

A carne apodrecida é transfigurada e se preparará para ser a angélica farfala, de que nos fala Dante, em procura do sol divino.

A razão disso nos persuade, porque seria terrível essa separação eterna da alma e do corpo.

Deus criou do limo a carne e depois deu-lhe alma e disse-lhe: “Alma, tu és rainha, aqui está um trono; alma, tu és chama, aqui está um coração, onde tens sangue, paixão, amor, sentimento; alma, tu és vibração, aqui estão os nervos; alma, tu és luz, aqui está uma lâmpada; alma, tu és raio, aqui estão os olhos, através dos quais poderás esplender”. E a alma se precipitou para esse corpo para substituir a natureza.

A alma e o corpo constituem uma só substância. A natureza exige a ressurreição da carne.

O corpo não é lira, que a alma agite durante algumas horas, durante algum tempo, durante uma existência, apenas.

O corpo reza, chora, ri, geme, suspira, é feliz e é desgraçado com a alma. Separados na morte, voltam a unir-se na outra vida.

A alma celebra com o corpo e epitalâmio da terra e da eternidade. Vivem numa perfeita vida conjugal.

A razão e a fé nos mostram que assim tem sido compreendido sempre desde os tempos de Zend Avesta em que Ormuz se refere, sem nada que dúvida faça à ressurreição da carne. Platão, Sêneca, a crença mosaica, tudo nos convence do mesmo modo. São Paulo, nas suas Epístolas, afirma que o corpo será semeado na corrupção e ressuscitará incorruptível, ressuscitará na glória.

Senhores, há dois mil anos, Cristo reina. A cruz flutua em todos os continentes. A bandeira de Cristo Rei congregou todos os povos derrubando barreiras dos costumes. O mundo vivia de orgulho, e Cristo ensinou a humildade.

Foram por Ele transfigurados todos os costumes e todas as gentes se dobraram aos seus ensinamentos. Invadiu a trama e o tecido de todas as instituições e apareceu como o maior legislador da humanidade. Abateu as barreiras de todas as regiões até então existentes. Fez ruírem os deuses antigos de seus pedestais, extinguiu a casta sacerdotal antiga.

Ensinou o Pai Nosso, oração universal, recitado por todo o mundo, que vale como demonstração sublime da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu sou o Bem, disse Nosso Senhor, e toda a humanidade enamorada segue-lhe os ensinamentos maravilhosos que afrontam a fúria dos tempos.

Envelhecem as repúblicas, passam as instituições, muda-se a face dos acontecimentos. Só o Cristo vive, só o Cristo atravessa as idades. Só o Cristo resiste a todas as mutações que se operam no mundo.

Se assim não fosse, Cristo seria um mentecapto ou um impostor, seria um velhaco ou um bandido, cuja pregação seria sem valor.

Mas a sublimidade do Evangelho bem atesta no vigor de suas indestrutíveis verdades que só um Deus seria capaz de nos dar tão grandioso monumento de sabedoria.

Não falta quem não tenha dito ter sido Cristo um visionário, um louco, um filósofo, um revolucionário.

Mas Cristo é realmente Deus, nosso Deus, força e fundamentos da verdade. No seu trono de glória, no mistério do tabernáculo, no último recesso do sacrário, ele exora misericórdia para toda a humanidade.

Em tão augusto silêncio, ele está trabalhando a obra imortal da Igreja, por toda a eternidade, porque Ele disse: “Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”

Aparecendo à Santa Margarida através do véu branco que cobre o sacrário, disse: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e deles é tão pouco amado”

Glória, pois ao Cristo que ressurgiu dos mortos e preparou para a humanidade a glória da RESSURREIÇÃO.

 

Eminência.

V. Eminência com esta bondade que não cansa, se dignou vir a esta casa para prestigiar a ação dos bravos da União Católica; abençoar esta numerosa e brilhantíssima assembleia em que a fé, a ciência, a cultura, a graça cristã e o espírito católico desta Metrópole fulguraram; honrar e animar o modesto pregador do Divino Ressuscitado, enfim, emoldurar no esplendor da púrpura esta bela noite do Ano Santo, noite da Ressurreição.

Beijamos agradecidos esta Púrpura que já se doura dos raios romanos com a investidura de V. Eminência na alta Missão de Legado Pontifical ao Congresso Eucarístico Nacional.

Outra missão incumbe também a Vossa Eminência.

Dir-se-ia, senhores, que o nosso Cardeal leva enrolado na púrpura sagrada o bele e generoso Coração do Sul para uni-lo ao ardente Coração do Norte, fundindo-os num só Coração — O Divino Coração Eucarístico que no Ostensório da Bahia histórica vai abençoar a união dos brasileiros.

Boa viagem, Sr. Cardeal, para a descoberta cristã da República.

Cabral chamou Monte Pascal o primeiro cume descoberto, — o cume dos Aimorés, — entre os arrebóis de Páscoa. O Brasil nascia para a civilização, sob o sinal glorioso do Divino Ressuscitado da Galileia. Sua vocação histórica era sagrada pelas auroras da Ressurreição.

Quem sabe, Eminência, se à sombra do Monte Pascal, os sinos das velhas igrejas da colônia em repiques de aleluia nacional não irão saudar o ressurgimento cristão do ESTADO BRASILEIRO?!

 

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Segunda Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

 

Da resignação necessária para ouvir a vocação de Cristo,

renunciar todas as coisas e ser discípulo Dele

 

              Como Cristo Nosso Senhor chama incessantemente os homens para que O sigam, nesta meditação mostrarei qual a disposição mais conveniente que devemos procurar (Exercícios Espirituais de Sto. Inácio, ibid.), para que a santa vocação entre em nós e por ela alcancemos a vida eterna. Declarou-o o próprio Senhor naquela sentença memorável, que disse por São Lucas (Lc 14, 33): “Qualquer de vós que não renuncia tudo o que possui, não pode ser meu discípulo”. Nestas palavras não manda que todos renunciem a todas as coisas, deixando-as de fato, mas que as renunciem com o coração e abandonem as afeições desordenadas por elas, estando preparados para deixá-las se forem impedimentos à salvação, ou se o Senhor, com especial vocação, inspirar a deixá-las, por ser meio mais conveniente e seguro para que se salvem; nestas coisas se incluem o dinheiro, a honra, a dignidade e os cargos proeminentes, bem como os pais, os irmãos, os filhos, os amigos e os conhecidos – quaisquer pessoas ou objetos desta terra, cujo amor desordenado pode impedir-nos de seguir a Cristo e de sermos discípulos Dele. Pressuposto isso, mostraremos três tipos de homens que desejam chegar à salvação, seguindo a Cristo, e querem dispor-se para alcançá-la, a fim de que vejamos qual deles acerta, e qual devemos imitar.

                Primeiro ponto. – O primeiro tipo são os homens que desejam chegar à salvação sem usar os meios adequados, por causa da grande dificuldade que sentem: desejam seguir a Cristo, mas não renunciar a todas as coisas, e caso desejem renunciá-las e abandonar as afeições desordenadas, não tomam medidas eficazes para abandoná-las, como o doente que deseja curar-se, mas recusa sangrias, purgas e outros remédios necessários à saúde, em razão da dor e amargura que sente ao tomá-los. A disposição destes é totalmente contrária à vocação divina e à ordem de abandonar todas as coisas; assim, nunca alcançarão a saúde espiritual nem a vida eterna, porque esta não se alcança só com desejos, se faltam obras; assim, parece que querem se salvar e curar, mas de fato não o querem. Por isso disse o Espírito Santo (Pr 13, 4): Vult, et non vult piger, “o preguiçoso quer e não quer”: quer o fim, mas não os meios; quer ir aonde está Cristo, mas não atrás de Cristo; quer a bondade da virtude, mas não a dificuldade, e por isso a deixa. Refletirei também sobre mim, para ver se a minha pretensão a certas virtudes é engano, pois às vezes digo para mim que quero alcançar a humildade e vencer a soberba, mas não quero humilhar-me nem ser humilhado; que quero ter paciência e vencer a ira, mas não gostaria de sofrer, e assim permaneço soberbo e impaciente. A mortificação das paixões é o meio necessário para vencer os vícios, e a prática das virtudes o é para ganhá-las.

                Segundo ponto. – 1. O segundo tipo são os homens que desejam chegar à salvação e usar os meios de alcançá-la, porém meios oriundos do próprio juízo e vontade, e não de Deus. Querem seguir a Cristo e renunciar o apego desordenado das coisas, mas sob a condição de ficarem com elas; ainda que sejam ocasião de pecado, e Deus os alerte interiormente para que as abandonem, recusam-se e por isso se entristecem, como o rapaz rico, a quem disse Cristo Nosso Senhor (Mt 19, 21): “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens”. Estes são semelhantes aos doentes que desejam curar-se e tomam os remédios, mas não os que o médico receita, e sim os que escolhem conforme o gosto pessoal, forçando a vontade do médico para que os aprove. Deste modo, estas pessoas buscam trazer a vontade de Deus até à sua, e não levar a sua até à vontade de Deus; por conseguinte, dispõem-se a recusar a vocação divina de renunciar a todas as coisas, com risco de condenarem-se, pois bem sabe Nosso Senhor que a cura está em deixar as coisas possuídas, para que se abandonem as afeições desordenadas e os muitos pecados que daí procedem. Quase sempre devo acreditar que o remédio das enfermidades espirituais não reside nos meios que escolho com o meu juízo cego, mas naqueles que Deus – que é o médico da alma – ordena; veja-se o exemplo de Naaman, o leproso, que, apesar de aspirar pela cura da lepra, negava-se a usar o meio indicado pelo profeta Eliseu (4Rs 5, 10), que era banhar-se sete vezes no Rio Jordão, preferindo o meio fácil que inventou na própria cabeça, que era o profeta tocá-lo com a mão. Porém, se não mudasse de ideia e se resignasse à vontade do profeta, nunca se curaria, uma vez que Deus decidira curá-lo, não pelo meio que escolhia, mas por outro que mais lhe convinha.

                2. Refletirei ainda sobre mim, em outros pontos particulares de minha vida, para ver se incido neste engano; pois, se me confesso, erro ao recusar os meios de cura que o confessor prudente assinala, escolhendo os que me aparecem à frente. Se sou religioso, é grande engano pretender a perfeição de estado pelos meios que escolho com o meu próprio juízo, buscando convencer os prelados a concordarem com a minha vontade, em vez de curvá-la para querer o que eles querem; deste modo, dir-me-á Cristo Nosso Senhor o que disse a São Pedro (Mt 16, 23), num caso semelhante: Vade post me Satana, “Retira-te de mim, Satanás”, pois não sou obrigado a fazer o que tu queres, mas tu o que Eu quero: o mestre não seguirá o discípulo, mas o discípulo o mestre, nem o súdito governará o superior, mas o superior o súdito. Ó, Soberano Mestre, porque sois o caminho, a verdade e a vida, não permitais que eu vá por um caminho diferente do Vosso, nem siga outra verdade diferente da Vossa, nem viva outra vida senão a que vivíeis, sempre seguindo-Vos a Vós, que descestes do céu, cumprindo não a minha, mas a vontade do Pai, na vereda que Ele Vos assinalou.

                Terceiro ponto. – 1. Aqui vemos que o terceiro tipo de homem é o mais ditoso, porque é o daqueles que desejam alcançar a salvação, a vitória sobre as afeições desordenadas e a perfeição das virtudes pelos meios que Deus escolheu, resignando-se totalmente à vontade divina e prontificando-se a deixar sem vacilo as coisas que possuem, caso seja mais conveniente para a honra e glória de Nosso Senhor e a salvação das almas; é o exemplo dos doentes que desejam curar-se e se confiam nas mãos dos médicos, determinados a tomar todos os remédios receitados e convenientes à saúde, sem preferirem um a outro.

                2. Estas pessoas possuem admirável disposição para ouvir a vocação divina e receber dela ilustrações e inspirações, confiando sempre na providência de nosso grande Deus e Senhor, o qual, como disse o profeta Isaías (48, 17), ensina-nos o que é proveitoso e conveniente, e nos guia por esta via ao céu, quer por Si mesmo, quer por seus ministros. Quem deixa que Deus o guie, aceitando os meios que inspira e ordena, há de alcançar um oceano de paz e santidade, e chegará com segurança ao porto da salvação e perfeição, pois a Divina Providência chama a cada um para o estado e o modo de vida que mais lhe convém [...]. Conforme tudo isso, se compararmos os três tipos de homens, e verificarmos os danos e enganos do primeiro e segundo tipos, sou obrigado a escolher o destino do terceiro. Diante da presença de Deus Nosso Senhor, direi do fundo do coração, como outro Saulo recém-convertido (At 9, 6): Domine, quid me vis facere? “Senhor, que quereis que eu faça?” Vede aqui o vosso servo, desejoso de Vos servir e seguir, mas as afeições desordenadas me prostram doente; ponho-me em vossas mãos, para que façais de mim o que quiserdes: estou disposto a cumprir a Vossa vontade; inspirai-me e ensinai-me os meios mais convenientes para a saúde da alma, que eu, junto com a Vossa divina graça, me ofereço a executá-los, ora retendo o que possuo, ora abandonando tudo por Vosso amor.

            3. Existem outras pessoas que querem ir mais adiante; assim, para imitar com perfeição a Cristo Nosso Senhor, desejam e se inclinam, no que lhes cabe, a ser pobres, desprezados e afligidos como Ele o foi, de preferência a serem ricos, honrados e consolados, como aconteceu com outros justos, embora estes sempre se conservassem indiferentes diante da posse ou privação dos bens, segundo a vontade de Deus, uma vez que Sua Majestade não faz a todos a graça de chamar para que O sigam na verdadeira pobreza voluntária da vida religiosa, ou para que padeçam trabalhos e injúrias por Seu amor. Eu deveria procurar tal disposição com todas as minhas forças, imitando o Apóstolo, que dizia (Gal 6, 14): “Mas longe mim o gloriar-me senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo”. Ó, Deus Eterno, por Vossa misericórdia, concedei-me essa disposição, para que seja eu digno de que me chameis a fazer e padecer os grandes feitos da Vossa glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

Primeira Meditação para a Quaresma

Pe. Luís de la Puente, S. J.

               

 

Da vocação geral com que Cristo Nosso Senhor chama a todos

os homens para que se neguem a si mesmos,

tomem a sua cruz e O sigam.

 

 

                Porque Cristo Nosso Senhor veio ao mundo, como disse São João (1Jo 3, 8), para desfazer as obras do demônio, trataremos primeiro nesta meditação sobre o chamado do demônio, que convoca as pessoas para que o sigam contra a Cruz de Cristo Nosso Senhor, e logo depois sobre o chamado do próprio Cristo, para que, comparando este com aquele, vejamos a quem é mais acertado seguir. Esta meditação e a seguinte darão muita luz para que elejamos com acerto o estado mais conveniente para a nossa salvação.

                Primeiro ponto. – 1. Em primeiro lugar, há de se considerar Lúcifer (Jo 14, 30; Exercícios Espirituais de Santo Inácio, 2ª sem., 4º dia) príncipe deste mundo, sentado num trono de fogo, cheio de fumo, com aparência horrível e rosto espantoso, rodeado de numerosos demônios, príncipes de trevas, os quais confabulam para guerrear contra o Cristo Nosso Senhor, e dar batalha contra o exército da Cruz. Para tanto, armam laços de tentações aos homens, induzindo-os a três vícios, que São João denomina (1Jo 2, 16) concupiscência da carne, cobiça dos olhos e soberba da vida. Primeiro convidam as pessoas aos prazeres da carne, donde nascem os vícios da gula e da luxúria; então, à cobiça de dinheiro e honras, donde procedem os vícios da avareza e da ambição; depois, à soberba da vida, que é o desejo de excelência, em que há presunção de si mesmo e das próprias opiniões; chama-se a isso soberba da vida, porque é soberba imensa, viva e buliçosa, que vive e cresce sempre (Sl 73, 23), e alimenta os demais vícios e pecados do mundo.

                2. Em seguida, há de se ponderar sobre a raiva (1Pe 5, 8; Ap 12, 9) com a qual os demônios cerceiam o mundo por todos os lados, buscando a quem devorar, quer como leões, com a força e a violência das perseguições; quer como dragões, com a astúcia dos raciocínios aparentes, para enganar os homens e pô-los a seu serviço. Grandíssimo é o estrago que causam, pois são inumeráveis os homens que atraem: uns se rendem à cobiça dos bens; outros, à cobiça das riquezas e honrarias mundanas; e outros ainda, à soberba e à altivez da vida; enfim, alistam-se nas forças demoníacas todos os inimigos da Cruz de Cristo, os quais – como disse São Paulo (Fil 3, 18-19), deplorando a miséria desses homens – têm como deus o ventre e a glória mundana, para a própria confusão, pois o fim deles é a morte eterna. Pensando nisso, à imitação do Apóstolo, lamento que existam tantos que sigam as hostes do demônio, e me admiro de que haja gente tão louca que o queira seguir, sabendo que a recompensa de tal serviço será o inferno. Refletindo a minha vida passada e presente, chorarei porque estive neste engano algum tempo, e suplicarei a Nosso Senhor para que me liberte dele para sempre. Amém.

                Segundo ponto. – 1. Em segundo lugar, hei de considerar a Cristo Nosso Senhor sentado num lugar humilde, com o rosto sereno e amoroso, rodeado de discípulos e muitas outras pessoas, dizendo a todos eles: Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam, et sequatur me: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me”. Nestas palavras, contrariamente ao príncipe deste mundo, Cristo chama e convida os homens a três coisas: primeiro, a negarem-se a si mesmos, mortificando as três concupiscências do mundo e os vícios que delas procedem, ou seja, que neguem e mortifiquem o amor dos prazeres sensuais, a cobiça de dinheiro e vã glória, e a soberba interior, mortificando o juízo e a vontade, e toda presunção e desejo de excelência.

                2. Segundo, chama-os para que levem a Cruz e se ofereçam em oposição às três concupiscências do mundo, ou seja, que sofram trabalhos e dores, necessidades e desprezos, além de toda sorte de humilhação e sujeição; pois a Cruz Espiritual de Cristo está montada com estas três peças: pobreza, desprezo e dor, embora cada uma delas encerre trabalhos muito distintos, que as acompanham; a Cruz requer que todos a carreguem a cada dia, aceitando cotidianamente o que lhes couber, com perseverança até a morte. Terceiro, Cristo chama os homens para que O sigam, imitando as virtudes e os exemplos que dá com a abnegação e com o peso de Sua própria Cruz, porque já decidiu que não admitirá em Sua escola nem em Sua companhia quem não decidir abraçá-la e não se alistar no Seu exército; por isso disse (Lc 14, 27) que “O que não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo”.

                3. Agora hei de considerar quão acertada é esta vocação; pois, se sou mau e inclinado a vícios e pecados desde o nascimento, é justo que me negue a mim mesmo e mortifique todas as más inclinações, para libertar-me dos males que delas nascem. Se prêmios, riquezas, honras e excelências mundanas são o combustível para todas as maldades, cumpre abandonar o amor desordenado de tais coisas para preservar-me de tantas misérias. E se esta vida mortal me reservar muitos trabalhos, cansaços, dores e tribulações, que haverá de mais sensato do que fazer da necessidade virtude, e abraçar a Cruz de boa vontade, merecendo por ela a vida eterna? Se Jesus Cristo Nosso Senhor desceu dos céus, a fim de levar a Cruz e abraçar-Se à dor, à pobreza e ao desprezo, qual o problema em segui-Lo, imitando os atos de meu Capitão, meu Rei e meu Deus? Ó, soberano Capitão, já que me convocais para que me negue, vinde lutar comigo contra mim, pois mais forte que eu será quem me vencerá. Assim, porque quereis que leve a minha cruz a cada dia, dai-me a cada dia a Vossa graça, para que, sob a opressão do madeiro, não caia nem desfaleça.

                Terceiro ponto. – 1. Em terceiro lugar, há que considerar três argumentos eficacíssimos que Cristo Nosso Senhor nos apresenta, a fim de nos persuadir dessa vocação. Primeiro: “O que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por amor de mim achá-la-á” (Mt 16, 25); ou seja: Vossa salvação e vida eterna é negar-vos, levar a vossa cruz e seguir-Me até à perda da vida temporal, se for o caso, como já pedi; quem a perder assim, não a perderá totalmente, porque Eu a devolverei renovada e eterna. Do mesmo modo, posso imaginar que Cristo Nosso Senhor me diz: Quem por Mim perder dinheiro, honra, prêmios, amigos e qualquer outro bem temporal, depois o reencontrará; ao contrário, quem quiser ganhar ou conservar essas coisas contra a Minha vontade, perderá tudo, além da própria alma para sempre.

                2. O segundo argumento é: “Que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou o que dará o homem em troco de sua alma?” (Mt 16, 26). Como se dissesse: Se seguis a sugestão do demônio e não a Minha vocação, havereis de perder para sempre a alma, pois de que vos aproveitará a posse de todos os prêmios, riquezas, honras e excelências do mundo, se no final vossa alma se condena? Perguntai aos condenados que estão ardendo no inferno, e eles vos dirão (Sb 5, 8): De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? Que bem nos fez? Qual proveito tiramos dos prêmios, das honrarias, das dignidades e de todos os bens da terra? Tudo passou como sombra, e agora, por causa da nossa maldade, estamos em perpétuo tormento.

                3. O terceiro argumento é (Mt 16, 27): “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras”; ou seja: Tenho de vir julgar o mundo com o estandarte e a bandeira de Minha Cruz; quem não a quis carregar comigo, condenarei ao fogo eterno com os demônios, cujo bando seguia; mas quem deu ouvidos à vocação e abraçou a Cruz, levarei comigo para a glória do Pai. Sopesando esses três argumentos, compararei estes dois chamados, o de Lúcifer e o de Cristo; o fim brutal dos que seguem a um, e o fim ditoso dos que seguem o outro; pois não é possível, como disse o Redentor (Mt 6, 24), servir ao mesmo tempo a dois senhores: não podemos servir a Deus e às riquezas, a Cristo e às honrarias vãs, nem é possível assentar praça sob as bandeiras de capitães tão contrários; por isso, cuidarei de fechar os ouvidos às sugestões de Lúcifer e de abri-los à vocação de Cristo, negando-me a mim, abraçando a minha cruz e seguindo o soberano Capitão sob a Sua bandeira. Eis uma pergunta que ajudará na decisão de qual bandeira abraçar: a quem gostaria eu de haver seguido ou escolhido, quando chegar a hora de minha morte e tiver de me apresentar diante do tribunal de Cristo? A riqueza ou a pobreza, a honra ou o desprezo, os prêmios ou as aflições, o cumprimento da vontade própria ou a abnegação dela e de mim mesmo? Assim, escolherei agora o que mais tarde gostaria de haver escolhido.

                4. Para não remeter o acerto da boa escolha apenas à hora da morte e ao juízo, acrescento que o chamado do demônio, embora num primeiro momento prometa deleites, honras, riquezas, liberdade e descanso, está tão misturado com numerosas amarguras, que é verdadeiramente trabalhosíssimo (Sb 5, 7); até os condenados confessam que viveram cansados no caminho da maldade, e andaram por estradas ásperas e dificultosas. Por seu lado, o caminho de Cristo, embora seja de abnegação, está traçado pela Providência Divina, e ajustado às forças de cada um, vindo misturado com tantas consolações e graças celestes, que é verdadeiramente suavíssimo nesta vida, de tal modo que os que seguiam as tropas do demônio encontram grande alívio ao seguir o caminho de Cristo; assim o disse o Senhor (Mt 11, 28): “Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”; ou seja: O jugo é a abnegação, mas suave; o peso é a cruz, mas leve, contanto que sejais mansos e humildes como Eu, porque aos humildes dou a Minha graça, com o que se torna leve tudo aquilo que em si mesmo é pesado e amargo (Ti 4, 6). Ó, dulcíssimo Mestre, sobre cujos ombros carregais a minha cruz e a de todos os mortais, concedei-me ouvir o Vosso chamado e abraçar os trabalhos da cruz, deixando à Providência os consolos ao levá-la, para que, escolhendo na vida o que gostaria de haver escolhido na morte, receba em Vosso juízo a coroa da glória. Amém.

(Tradução: Permanência. Meditaciones Espirituales del V. P. Luís de la Puente, de la Companía de Jesús – Tomo II; Imprenta de Pablo Riera, 1856, Barcelona; págs. 58-66.)

A beleza de Maria

D. José Pereira Alves

Conferência pronunciada no Seminário de Olinda

 

Dir-me-eis, senhores, a razão por que estou aqui? Como definir-me neste momento? Sonho ou realidade, toda essa visão de luz, de festa, de riso, e de paz?

Eu de nada quero saber; porque um fato de uma verdade crua é que eu estou aqui e é este fato que me acabrunha implacavelmente. Chamá-lo-ia um pesadelo e um duende, se outro que não a Boa Mãe, fosse o objeto deste festival do espírito. Amarrado por cadeias formadas de fibras de corações a esta tribuna, eu recebo a ordem indeclinável de ser o que não sou: “conferencista”! Seja! É preciso uma metamorfose? Não há dúvida. É preciso sê-lo ainda disfarçado? Pois não! Por que não a máscara e o disfarce?

Aceitemos, pois, o fato consumado! Na presente conferência não me haveis de achar, porque haveis de achar os outros, salvo em alguns dos recantos, escondido na obscuridade pessoal. Creio que nem mesmo me posso comparar à laboriosa e pequenina abelha que da matéria prima colhida entre as flores fabrica um delicioso e refinado mel.

Eu sou antes semelhante à garrula criança que, durante o formoso mês de maio, recolhe no avental azul lindas rosas dos canteiros floridos. E depois as entrelaça, dispõe e forma um belo ramalhete para oferecer à Virgem da ermida.

A minha conferência, pois, é um buquê, onde eu só tenho folhas, porque as flores são dos outros; e, por cima, a sua disposição, que é o meu trabalho quase todo, acusa bem a imperícia do seu autor. A eloquência do púlpito tem feito a sobejo o panegirico da fisionomia espiritual de Maria e mergulhado nesses abismos a luz, voltando à tona cega de tanta glória e esplendor. Eu, meus senhores, escolhi para tema desta minha conferência mariana a Beleza exterior e física de Maria Santíssima.

Não se trata de um estudo crítico e profundo da matéria: é apenas uma apologia simples desta formosura sem rival.

Não é também uma exposição à altura do objeto, porque nem tempo houve, nem “a tanto me pode ajudar engenho e arte”.

A Beleza externa de maria será considerada:

1° No conceito Bíblico.

2° No conceito Tradicional.

3° No conceito Litúrgico.

4° No conceito Teológico.

5° No conceito Artístico.

 

Conceito Bíblico

Tiremos agora as nossas sandálias, porque santa é a terra em que vamos entrar. Escutemos no silêncio da alma, porque penetramos no sancta sanctorum onde Jeová faz trovejar a sua divina voz. Como as grandes catedrais da nossa Santa Religião, vasta, grandiosa, resplandecente é, e o é, soberanamente, essa Catedral da Religião que se chama a Bíblia.

Nas nossas melhores e mais importantes igrejas há um simbolismo admirável que se espalha pelas magníficas pinturas, baixos relevos, pelas linhas duma estatuária rica e artísticas decorações. O mesmo se dá na Basílica da Fé — a Bíblia. Um simbolismo surpreendente vive e palpita naquelas páginas do Céu com um esplendor raro de imagens, de alegorias, de fatos, de painéis lindíssimos e de uma significação profunda.

O Divino Redentor, que foi realmente o negócio dos séculos, se acha prefigurado e vaticinado em toda a Escritura antiga. Lê-se no Talmud que todos os profetas não vaticinaram senão sobre os dias messiânicos. Em virtude das afinidades estreitíssimas entre a personalidade de Cristo e a personalidade de Maria, resultante do mistério da Encarnação, eu creio que não será uma frase atrevida afirmar que, à semelhança do seu Filho, Maria foi também o negócio dos séculos prefigurado e vaticinado nas Sagradas Escrituras. Negotium saeculorum. Novum Testamentum in vetere latet et vetus in novo patet.

O Novo Testamento se oculta no Velho e o Velho se revela no Novo, diz o grande Santo Agostinho. Eu classifico ao menos para o meu fim, em dois grupos distintos a escritura figurativa de Maria o grupo personativo e o grupo emblemático. O grupo personativo compreende um grande número de figuras da predestinada pelo Altíssimo no segredo dos seus conselhos. Destaquemos a esmo: Ester, Judite, Sara, Raquel, Noemi, Abigail, Betsabé, Rebeca, Eva, Esposa do Cântico dos Cânticos.

Analisemos esses tipos bíblicos da Virgem sem falar de outros muitos que apareçem nos Livros Sagrados. Que diz a Bíblia, meus senhores, não digo da fisionomia moral, mas do caráter estético, sensível destas personagens, espelhos presentes da Virgem futura? Que diz?[1]

De Ester, lê-se no seu livro que era muito formosa e de incrível beleza, incredibili pulchritudine. Judite é de elegantíssima presença. Sara em extremo bela — pulchra nimis. Raquel é delineada como uma virgem bela e de formoso semblante; não é Noemi que diz: não me chameis Noemi, isto é, formosa? Prudentíssima e formosíssima era Abigail de Nabul, refere o 1° Livro dos Reis; a formosura excepcional de Betsabé e de Rebeca é superlativamente reconhecida nos Reis e no Gênesis; e Eva a mãe dos viventes, a primeira mulher, não podia deixar de surgir das mãos do Criador com todas as graças da natureza. O poema sagrado nos seus idílios com tanta prodigalidade de pinturas, com tanta poesia de expressão descreve a Esposa! Abri de olhos fechados o Cântico dos Cânticos e em cada página de ouro cintila o mesmo fulgor descritivo do formoso objeto do esposo encantado. [2]Senhores, porque essa insistência do Espírito Santo em acentuar a beleza dessas figuras de Maria? Porque tendo elas caracteres tão diferentes, missões diversas, tem este ponto de contato, de afinidade: a Beleza? Essas considerações dos autores nos iniciam nos desígnios da Providência. O Eterno retratara de antemão a beleza daquela de quem cantou o poeta Florentino: “Ó Virgem, Mãe e Filha de teu Filho; Mais do que ente criado humilde e alta; foste ao divino intento alvo prefixo”.[3]

Eram os esboços da obra-prima. Sim, porque[4]:

 

Obra-prima do artista onipotente

Tu és, Maria, a joia mais fulgente

De toda a criação.

 

Não tem mais brilho o sol, candor a lua,

Nem há beleza que se iguale à tua

Na graça e perfeição”.

 

O argumento de Santo Antonio é o seguinte: todas as mulheres que são figuras de Maria na Lei Antiga foram célebres pela sua beleza; ora, a verdade é superior à figura e a realidade à sombra; logo a formosura de Maria é incomparavelmente mais deslumbrante do que a de suas figuras bíblicas. Essas figuras são sinais de Maria. Qual é a noção filosófica de sinal?

É aquilo cujo conhecimento prévio leva ao conhecimento da coisa significada. Porque não será a sua fiel representação em virtude de sua relação sobrenatural? Essa reflexão confirma o argumento do douto santo. A propósito escreve um autor: “Plínio, o velho, conta em sua História Natural que o famoso pintor Zêuxis devendo fazer um quadro que os habitantes d’Agrigento queriam consagrar a Juno, estudou as virgens desta cidade para reproduzir em sua obra todas as belezas que poderia descobrir nelas. Pois bem, de uma maneira muito mais admirável, Deus Criador de todo o universo, Deus, o mais sublime dos pintores, escolheu entre as criaturas tudo o que elas encerravam de grandeza e de beleza e como numa pintura sublime, o realizou por Sua sabedoria infinita na Virgem Maria”. Do outro grupo — o grupo dos emblemas — ressalta pelas razões aduzidas a beleza exterior da Virgem. Na Sagrada Escritura nossa boa Mãe do Céu possui uma preciosíssima flora e mesmo uma esplêndida fauna. No reino das coisas sem vida, de toda a fulguração dos céus, de todos os encantos da terra em uma palavra de tudo o que há de belo e de brilhante formou o Altíssimo a auréola dos símbolos de sua eleita — objetos de suas eternas e amorosas intuições. É a mesma semelhança ou proporção do representante e do representado, do sinal e da coisa significada, da ideia típica e do objeto que se impõe claramente. Uma outra reflexão, meus senhores. O emblema envolve em sua natureza um caráter formal de atribuição: é um atributo real; ora, a lei da atribuição exige uma adequada proporção possível entre o sujeito e o atributo, para que ela seja relativamente perfeita. Por que razão, pois, tão belos títulos, belos nas coisas que exprimem, hão de descrever apenas a fisionomia luminosa da alma de Maria? Porque não fotografarão também a surpreendente beleza de seu olhar, dos seus lábios, de sua peregrina face?

Não há razão plausível para essa exclusividade moral. Belas coisas exprimem os emblemas marianos. Sim!

Não é ela a gemedora pomba escondida entre os rochedos? Não é ela a águia real alcandorada sobre os montes?

Que beleza! Que flora figurativa!

“Eu me elevei como o cedro do Líbano: estendi os meus ramos como as palmeiras de Cades; ergui-me como o plátano plantado à beira das águas, eu espalhei um perfume como a canela e como o bálsamo mais precioso”[5]. Floresce como a rosa e perfuma como o lírio, segundo a interessante estrofe encontrada em um antigo pergaminho:

 

Ut rosa flores

Flagras ut lilium,

Ora pro nobis

Ad tuum Filium.

 

Irradia como o sol, formosa como a lua, radiante como a aurora.

Que multidão, que riqueza, que brilho de comparações! E sobretudo é a rutilante estrela:

 

Symbole déespérance á l’heure ou tout est sombre,

Astre celeste ou Dieu mit toute sa splendeur,

Vienne le crépuscule intense qui fait peur,

Vienne l’heure angoissante ou le salut se couche;

“Ave Stella”, dira, dans un soupir, ma bouche[6]

 

Da análise dos dois grupos figurativos da Virgem emerge, brilhante de formosura inigualável, o perfil hiperangélico de Maria. E não se apele para o silêncio dos Evangelhos, porque esse mesmo silêncio é o maior panegírico de sua beleza exterior. Tenha a palavra S. Antonino: “Tendo Maria em plenitude tudo que de bondade e de beleza houve nos outros, calando-se o Evangelho acerca de um privilégio particular como a beleza e outros, louvou-a mais supondo tacitamente do que manifestando.

Do mesmo modo que os Arcanjos por serem louvados pelos dons superiores, por isso não estão privados dos dons inferiores que neles estão mais perfeitamente do que nas ordens menos nobres. E eu digo que o Evangelho não emudece muito, ao contrário, ele proclama a beleza peregrina de Maria. Não é aquele Mater Jesu a raiz e a preconização virtual das prerrogativas ainda naturais da augusta Mãe de Deus? E por que não tomar em toda a sua extensão a graça de que Maria possui a plenitude? ”[7]

 

Conceito Tradicional

Os estudos feitos sobre as antiguidades pagãs não têm apenas contribuído para o progresso científico, mas também têm derramado luz no problema religioso.

Os sábios que têm aclarado com a lâmpada de suas pacientes investigações esses labirintos do mito, descobriram relações e harmonia entre o mundo lendário e o mundo cristão, apesar de sua natural antinomia. Os inimigos da Igreja julgavam encontrar nessas semelhanças de doutrina um argumento formidável para provar que o Cristianismo é um grande plágio das religiões, relíquias conservadas no museu do passado, como se a seiva pujante de nossa fé pudesse ter saído dessas múmias estratificadas no sarcófago dos tempos!

Toda essa afinidade se explica naturalmente pela difusão primitiva da Revelação entre os povos.

Não é a religião verdadeira que é o plágio, muito ao contrário, ela é o arquétipo divino que o paganismo copiou, deformando-o na abominável saturnal dos seus vícios e paixões. E é por isso que nós encontramos na Mitologia antiga sombra dos mistérios inefáveis do Cristianismo. A Mariologia lucrou com essa pesquisas crítico-religiosas nos cultos pagãos[8].

A Virgem parece desenhar-se no perfil de Íris, de Ceres e outras divindades do círculo místico. Pois bem, aí, nas tradições idólatras, podereis descobrir confirmações do que vos tenho afirmado na explanação do presente trabalho sobre a formosura externa de Maria. Como tenho em muita conta o vosso precioso tempo, eu apenas citarei um testemunho pagão. Mas não irei desentranhá-lo do politeísmo helênico nem dos carvalhos do druidismo gaulês nem do masdeísmo persa que Zoroastro reformou ou do Budismo índico.

Não! Aqui mesmo nas nossas virgens florestas continentais, sob a verde umbela da pujante vegetação da América do Sul, no Paraguai, os habitantes do grande lago Zaragas, os Macênicos contavam aos missionários que “outrora uma mulher belíssima, ficando sempre virgem, teve do mesmo modo, uma encantadora criança que, depois de homem, operando milagres insignes, um dia no meio de muitos discípulos subiu aos ares convertendo-se no sol”. Consultemos, porém, a tradição cristã, não a que está nos monumentos antigos, mas a que está no senso católico, nos escritos dos Santos Padres e escritores eclesiásticos. Nessa rica messe há apenas o trabalho de escolher. Poderei reclamar a vossa paciente e benévola atenção? Escutai. O pensamento tradicional revela-se em toda parte, absorvendo a insignificante minoria contrária. Ide por aí afora em nossa terra, pelos nossos mais atrasados lugarejos, interrogai o filho do povo, e vereis que o mais bronco dos nossos patrícios não poderá admitir que a Virgem da Conceição não exceda em formosura a mais prendada das filhas dos homens. O mesmo, a fortiori, se daria num meio culto. Se eu pedisse agora nesta luzida assembleia uma votação nominal, Maria Imaculada alcançaria decerto uma esplêndida vitória. É tempo de referir alguns eloquentes testemunhos da dinastia espiritual dos Padres da Igreja e escritores eclesiásticos. Santo André de Jerusalém afirma que “Maria em seu corpo é a mais pura joia da virgindade, um céu esplêndido, uma viva imagem da beleza suprema, uma estátua viva que Deus mesmo esculpiu”. Ela é o espelho da beleza por excelência, diz Santo Alberto Magno. São João Damasceno escreve que “Maria é ao mesmo tempo a obra-prima da natureza e da graça”. Para que multiplicar sem necessidade as citações? Non sunt multiplicanda, é o aforismo da filosofia[9]. Nós não temos a felicidade de possuir de nossa extremosa Mãe Celeste um autêntico retrato. Seria um bálsamo para nosso espírito embeber o nosso olhar naqueles olhares de doçura que tanto consolaram os apóstolos.

Não o temos; nem a imagem comumente atribuída a São Lucas, diz um ilustre jesuíta, nem as descrições minuciosas que os historiadores gregos de data mais recente nos deixaram, são de natureza a assegurar um juízo do que o exterior de Maria poderia ter sido. Jamar, apoiado nesses historiadores, nos dá o seguinte retrato de Maria:

“Ela era duma estatura mediana; seu rosto era oval, dum puro colorido; e notável pela delicadeza e graciosa regularidade das linhas; a fronte larga, sobrancelhas bem arqueadas e dum moreno ligeiramente escuro; olhos vivos; cuja pupila era matizada dum delicado azul.

O nariz e a boca eram perfeitamente proporcionados; lábios purpurinos, queixo de uma forma irrepreensível; cabelos louros; as suas mãos desembaraçadas e delicadas”[10].

Revesti, meus senhores, este belo perfil, de nobreza, de candura, de modéstia, de gravidade, de maneiras simpáticas e distintas, e tereis Maria, segundo as descrições antigas, na esplendente e encantadora expressão de sua beleza sempre jovem. Sempre jovem, sim. Dionísio Areopagita quase que a tomou por uma Divindade se não soubera pela Revelação que só há um Deus. E quando a visitou, a Virgem estava muito além da idade juvenil. Eu li que, quando Deus resolveu criar a rosa, convocou para este fim uma câmara de deputados do universo. Uns queriam-na sem espinhos, outros sem eles não lhe achariam graça; e foi tal a balbúrdia e desencontro de opiniões, que Deus, por um golpe de estado, dissolveu a câmara e criou a rosa por um decreto especial. Este apólogo traz à lembrança aquela piedosa alegoria de Gerson sobre a criação da formosíssima Rosa Mística do Céu, alegoria que será a chave destas considerações sobre a Beleza de Maria no conceito tradicional. Quando o Altíssimo se determinou a formar Maria diante do seu sólio aurifulgente apresentou-se uma formosa dama acompanhada de suas servas. E ela assim falou: “Ó Deus que eu adoro e canto, permiti que ofereça os meus humildes préstimos para a formação daquela que é a ansiedade dos povos; nada farei para embelezar a sua alma candíssima porque isto não está em meu poder, mas eu juro e comigo juram as minhas dedicadas servas que havemos de torná-la a rainha inigualável da formosura.

Eu derramarei no seu rosto o encanto duma simplicidade, duma majestade ternura tal como jamais se verá; hei de compor tão bem o seu olhar, as suas palavras, os seus gestos, que ela será um modelo perfeito e admirável; ao vê-la todos hão de exclamar: esta mulher merece em verdade ser a imperatriz do mundo, a rainha triunfante dos céus. Era a natureza que assim falava, cortejada pelas influências e causas naturais. Falava ainda a poderosa princesa, quando se adiantou uma outra dama que tinha o ar e o porte duma verdadeira rainha.

Deslumbrante séquito a rodeava. Era a Graça. Ela desejava rematar esplendidamente a obra-prima do Criador. Por ela falou a sua irmã — a Sabedoria — implorando ao Onipotente o favor da concessão. E foi assim que dos prodígios da natureza e da graça brotou a rosa branca e virginal que Deus criou para o enlevo do céu e êxtase da terra”.

A alegoria do religioso chanceler coroa magnificamente a prova testemunhal do conceito de tradição da beleza mariana. Diz Santo Agostinho, que as palavras são vasos de ouro que contém o licor do pensamento. O licor do pensamento tradicional é finíssimo, mas eu lamento profundamente que as minhas desluzidas palavras não tenham sido essas taças de ouro para a libação de tão precioso néctar.

 

Conceito Litúrgico

Não é infrutífero o labor de quem escava as entranhas ricas duma mina. Não é! Não é improfícuo o mourejar de sol a sol do nosso lavrador a abrir nos seios da terra virgem sulcos para o plantio. O seu suor não é como a gota de suor de Buda guardada num templo da Coréia, suor que esteriliza, diz a lenda, a vegetação circunjacente.

Não, o suor do trabalho fecundo é germe, é arbusto, é árvore, é fruto, é flor e, mais tarde, pão e vida. Eu também me fiz de mineiro e fui buscar lá nas antigas liturgias o ouro precioso de uma confirmação em favor do meu asserto; fiz-me de solerte lavrador e abri o sulco nesse terreno opulento do ritual cristão, não para plantar mas para descobrir entre os esplendidos tesouros joias de preço real para prestar homenagem à fascinante beleza externa de Maria. E podia dizer como Arquimedes: “Eu achei”. Na verdade, achei. Ouvi, senhores. Não há aqui lugar nem há tempo para uma dissertação profunda sobre tão importante estudo. Limitar-me-ei a uma singela exposição. As pinturas das catacumbas e as imagens são o que se chama a Liturgia muda.

Mas deixá-la-ei para algumas considerações que dizem respeito à arqueologia e à iconografia mariana. Agora apenas uma ligeira síntese dessas pérolas espalhadas na liturgia marial de todos os tempos porque o culto de Maria tem as suas origens na idade apostólica, para não dizer que é eterno como Deus. [11]A liturgia grega canta assim: “justos alegrai-vos; regozijai-vos, ó céus; exultai, ó montes; o Cristo nasceu; a Virgem está sentada semelhante a um querubim... E mais: Ó vós que sois o brilhante palácio do Senhor, como vindes num miserável estábulo dar ao mundo o Rei, o Senhor encarnado por nós, ó Virgem toda santa esposa do grande Deus? ” “Salve, Virgem Mãe de Deus, exclama a Liturgia Abissínia, Vós sois o turíbulo de ouro que trazeis o carvão de fogo, o verbo encarnado...”

O rito Moçárabe é deste modo que celebra a Virgem Santíssima. “É a lâmpada que o Espírito acendeu e em que fez aparecer a verdadeira Luz”. Ouvi algumas estrofes escolhidas desta encantadora sequência:

 

Salve, Mater Salvatoris,

Vas electum, vas honoris,

Vas caeleste gratiae.

 

E na décima e undécima estrofes:

 

Tu caelestis paradisus,

Libanusque non incisus,

Vaporans dulcedinem.

 

Tu candoris et decoris...

Tu dulcoris et odoris,

Habes plenitudinem.

 

Que encanto! Tu tens toda a beleza, a plenitude — habes plenitudinem.

A décima sexta nos pode dar um excelente coronal:

 

Sol, luna lucidior,

Et luna sideribus,

Sic Maria dignior

Creaturis ormnibus.[12]

 

E quantas vezes tendes repetido no Breviário ou no Ofício parvo aquela antiguíssima antífona:

 

Ave Regina coelurum,

Ave Domina angelorum.

 

Virgem gloriosa que a todos venceis em beleza — Super omnes speciosa. A Deus, ó Soberana da Beleza, reza a Cristo por nós:

 

Vale, o valde decora,

Et pro nobis Christum exora.

 

A hinologia, o antifonário, prosas e ladainhas, Missas e Ofícios, nos forneceriam as expressões mais poéticas da Beleza de Maria, num religioso lirismo de encantar.

Como podeis ver, é impossível a Liturgia mariana em todas as suas surpreendentes manifestações. Mas, para exemplo, tomai o Breviário ou o Missal.

Abri-os: 15 de agosto. Muito bem! É a festa de hoje — A Assunção de Maria.

Ofício vesperal. Cantaste-lo há pouco. Última antífona: tu es bela e formosa, ó filha de Jerusalém. Antífona ad magnificat: “Ó Virgem Prudentíssima para onde tu te elevas como uma aurora rutilante? ”

“Filha de Sião, toda formosa e meiga, tu és bela como a lua e brilhante como o sol”. Que quereis mais? Lede as lições do primeiro noturno: “Eu sou negra, mas sou formosa, ó filhas de Jerusalém, como os tabernáculos de Cedar... Tu és bela — os teus olhos são como os da pomba”.

E assim a Liturgia vai aplicando à figura angélica da Virgem todo o fulgor dos tropos bíblicos e das eloquentíssimas palavras dos Padres da Igreja, cujo testemunho em favor da Beleza exterior da Imperatriz Celeste é tão claro e peremptório. Aqui poderiam objetar dizendo que o senso litúrgico se refere à maravilha de sua alma sobrenatural e não à formosura corporal.

Bem que em muitas das citações vê-se claramente compreendida esta beleza e máxime na festividade da Assunção, em que se celebra a miraculosa subida de Maria ao Céu, corpo e alma, como se pode ainda responder dizendo que a Liturgia canta uma plenitude de Beleza, que não é estranha ao sentido bíblico, à tradição e ao bom senso que sobre tal ponto não hesita. E, para concluir essas modestíssimas reflexões sobre a Liturgia mariana, recordemos a bela e encantadora Ave-Maria em que está o completo panegírico de nossa celestial e carinhosa Mãe: cheia de graça.

No mês de maio entre todas as flores realça a Rosa — símbolo místico — Beleza sobre-humana que maio em flores saúda, como canta harmoniosamente a musa italiana na peregrina música do verso:

 

Te del Signore piccoletta ancella

Sorrisa de um gentil nimbo d’amore,

Saluta com l’angelica favelia

Il dolce maggio in fiore:

 

Saluta l’aria deliziosa e plena

Di profumi, di canti, d’armonia,

E la balza fiorita e la serena

Convalle: Ave Maria.

 

E il bosco fondo mormorante a’ venti,

E la collina aprica e solatia

Sprigionano d’omaggio umili accenti

A Te, dolce Maria.[13]

 

Conceito Teológico

Dizem, meus senhores, que o Nemrod apresentou, um dia, três urnas fechadas aos três filhos. Os escravos seguravam-nas.

Ao seu primogênito disse o rei: “Escolhe meu filho, a urna que te parece conter maior tesouro”. O príncipe escolheu uma que era de ouro, na qual havia a palavra — Império. Abriu-a e estava cheia de sangue. Nemrod dirigiu-se ao segundo filho e disse: “Toma também uma delas e abre-a”. O mancebo obedeceu e na sua urna de âmbar tinham gravado — Glória.

Nela estavam guardadas as cinzas dos grandes da terra. “Filho meu, falou o monarca ao terceiro, toma a urna de barro e abre tu também”. Ele abriu-a; estava vazia, mas no fundo se via escrita esta palavra: Deus.

Qual das urnas vale mais? perguntou o rei. Os ambiciosos disseram que era a de ouro; os poetas e conquistadores que era a de âmbar; os sábios responderam que era a de barro, vazia porque uma só letra do nome de Deus valia mais que o globo da terra.

Pois bem, meus senhores, por mais humilde que seja o barro humano, por mais frágil que seja a estátua de argila em cuja fronte o Eterno acendeu os lumes da razão, esse barro que vive, que sente e pensa, torna-se maior que a sua própria natureza, quando em seus misteriosos abismos, a Fé gravou indelével o nome sacrossanto da Divindade. O seu coração é o santuário de Deus, de conformidade com a palavra do Apóstolo: toda a edificação construída em Cristo cresce como um templo consagrado ao Senhor — sanctum in Domino.

Sobre os escombros dos ídolos antigos erguem-se os altares do Deus vivo, sobrenaturalmente iluminados. Pois bem, meus senhores, Maria é o tabernáculo por excelência do Altíssimo, tabernáculo debaixo de cujo pavilhão Deus habitaria não espiritualmente, mas ainda corporalmente.

Digo mais: o Corpo de Deus humanado, templo augusto, tiraria a sua matéria da preciosa matéria do corpo de Maria, santuário divino.

Senhores, os templos materiais dedicados à glória de Deus, ostentam e devem ostentar na sua fisionomia arquitetural uma beleza, uma feição estética admirável, eles que são destinados à suprema Beleza-Deus.

Que dizer da formosura da decoração externa do mais digno, do mais grandioso dos templos divinos?

O Artista excelso não se deixou vencer pelos artistas humanos e de Maria fez a sua obra-prima de sua divina Arte. As afirmações teológico-racionais ou melhor, a razão teológica robustece desse modo os dados fornecidos pela Bíblia, pela Tradição e pela Liturgia.

Eu quisera dispor de mais tempo e traria à tela desta modesta discussão muitos outros argumentos. Limitar-me-ei a apresentar mais um que não poderei desenvolver completamente.

Há uma lei fisiológica que determina a reprodução dos tipos: a lei chamada hereditariedade. A hereditariedade e a verificação da “lei pela qual, diz Mercier, o ser vivo possui um princípio de finalidade imanente, em virtude do qual tende naturalmente à formação, à conservação, à reprodução dum tipo determinado”. Em virtude desta lei herda-se não somente o caráter da espécie, mas ainda se transmite os caracteres individuais.

Baseados nessa lei, procuram certos filósofos destruir o livre arbítrio sustentando que o vício e a virtude são heranças.

Nada mais falso em psicologia, porque o vício e a virtude — não são produtos materiais. Em virtude do fenômeno hereditário dá-se algumas vezes retrocesso nos tipos dos avós, o que se chama atavismo.

A fortiori, o tipo imediato imprime os seus caracteres físicos. Daí a lei ordinária que os pais são semelhantes aos filhos e vice-versa. E ainda mais o sexo masculino, é o ensino dos autores e uma coisa vulgar, reproduz ordinariamente as feições maternais: filii matrizant.

Ora, meus senhores, Jesus Cristo é o mais belo dos homens — speciosus prae filiis hominum; é o filho de Maria. Logo Maria de quem Jesus, como Filho, reproduz as lindíssimas feições, foi ornada das galas de uma formosura sem rival.

A lei supramencionada admite exceções; aqui, porém, não se verificam, porque em Maria, segundo ensina um autor, a semelhança entre o Filho e a Mãe deve ser mais acabada em virtude da ação do Espírito Santo, que não podia ser perturbada pela causalidade de influências subalternas.

A razão teológica une, pois, a sua nota vibrante ao hino universal em honra da beleza daquela de quem cantou Leão XIII na inspirada poesia — Prece à Virgem:

 

Maria Dulce melos dicere mater ave:

Dicere Dulce melos, ó pia Mater ave,

Tu mihi delicia, spes bona, castus amor,

Rebus in adversis tu mihi praesidium.

 

Senhores, perdoai a tirania de minhas palavras e vinde contemplar comigo a Beleza de Maria no conceito artístico.

Sob este ponto de vista um novo horizonte de considerações descortina-se à visão de nossa alma embebida neste esplendor sobre-humano que nimba a figura doce, meiga, imaculada da Rainha do Céu.

 

Conceito Artístico

A arte, meus senhores, é a encarnação do ideal. Filho das visões do espírito, o ideal projeta sobre a obra de arte um raio de sublime concepção. Com razão disse Castelein: “A obra de arte deve ser original, harmoniosa, evocadora do ideal”.[14] O Belo criado, que a arte auxiliada pela ideia luminosa, genial e pelas formas concretas e sensíveis da imaginação, procura traduzir e encarna, é um reflexo do ideal Supremo.

É o que disse Kant: “O belo é um reflexo do infinito sobre o finito: é Deus entrevisto”

O Eterno fez as coisas como expressões do seu ser, de sua bondade, de sua beleza essencial, de suas perfeições; elas são o espelho da Divindade. Ora os seres exprimem as perfeições divinas segundo o grau de sua perfeição material; são espelhos mais ou menos luminosos e perfeitos.

Pois bem, meus senhores, os artistas cristãos conceberam um ideal grandioso e sublime da beleza de Maria, considerando-a como a obra prima das mãos do artista divino, feitura plástica, perfeitíssima do poder do Criador. E como o ideal se materializa na forma sensível, eles procuravam imprimir nos tipos de arte mariana — uma perfeição estética inigualável.

Não foi somente pelas prerrogativas espirituais, que a Fé lhes mostrou em Maria, que eles a esculpiram, a cantaram sobrenaturalmente bela. “A voz da tradição e da sua razão lhes revelaram também a Virgem em todo o fulgor de sua formosura sensível. Nas criptas das catacumbas a arte primitiva cristã deixou as suas pinturas de Maria; e séculos afora a Virgem tem recebido as homenagens dos eleitos do gênio artístico. Como não admitir essas magníficas Madonas de Rafael, de Vinci, em sua “Santa Família”, de Fra Angélico; a “Assunção” do Ticiano e a de Murilo? O gênio arrematado pela fascinação do ideal, sentiu-se muitas vezes apoucado diante do sublime.

Eu cito um laureado orador:[15]

“Como traduzir estas maravilhas?

Ah! A obra é difícil, porque, como muito bem disse Dante, “a forma não se harmoniza sempre com as instruções da arte; porque a matéria é surda para responder”.

“Angélico de Fiesole derramou mais de uma vez lágrimas; Leonardo de Vinci quebrou os pincéis; Miguelangelo criticou as suas obras; grandes artistas se sentiram invadidos pela tristeza todas as vezes que tentaram representar a divina realeza do Cristo e as graças celestes de sua Mãe; e sobre as obras primas que nós admiramos hoje eles ousavam apenas lançar os seus olhares desanimados”

Que vos direi, senhores, da iconografia Mariana? Seria uma lista infindável a enumeração desses primores da estatuária e escultura dos mestres cristãos.

Os dicionários iconográficos nos fornecem um compte rendu minucioso das belezas de mármore e de gesso, que sorriem na própria insensibilidade da matéria, que, mudas, são duma eloquência que admira, dum encanto que seduz e hipnotiza o olhar.[16]

Vede, meus senhores, esta esplendida imagem da Virgem da Assunção, dádiva preciosa da generosidade do nosso venerando Prelado[17]. Vêde-a nesse belo monumento enfeitado de garridas flores. Não há um que de celeste e de divino na expressão de seu olhar, na peregrina formosura de suas faces cor de rosa? O artista arregaçou-lhe delicadamente o manto azul-celeste sobre a túnica de ouro. É só assim, meus senhores, que a arte pode conceber a Maria.

A numismática também quis render o seu respeito à Virgem inefável. Na exposição marial realizada no Palácio de Latrão a 26 de novembro de 1904, havia uma soberba coleção de 12 mil medalhas, sinetes e moedas de Maria, enviadas pelo Padre Corbiére de Saint Louis des Français.[18]

Quantas harmonias o anjo da arte divina tem atirado aos pés de Maria? Porventura a alma musical não tem sofrido os tormentos da inspiração para saudar a Beleza da Mãe de Deus?

Senhores, eu sou constrangido a resumir para não fatigar a vossa benevolente atenção. Mas, como esquecer os surtos do gênio da poesia, celebrando as graças da Rainha dos Anjos?

As liras de todos os povos com a tristeza dos seus trenos o com a vivacidade dos seus júbilos celebraram os encantos da Senhora.

Permita-me o autor[19] algumas de suas lindas estrofes, feitas à beira do túmulo: — In hora mortis:

 

Maria, dulce Signora,

eletta como il sole,

per cui il cielo s’infiora

di rose e di viole;

 

Maria, Vergine pura,

aurora sempiterna

alta piú che criatura

sui ciecli ove s’eterna

 

La Somma Sapienza;

vedi quant’é l’errore

che incombe e la demenza

che ci ottenebra il cuore!

 

Assim a poesia toma parte no harmonioso e universal congresso das artes em louvor da Virgem a quem a humanidade implora um olhar que, como diz o poeta espanhol, é:

 

Bello fulgor que al sacro Eden nos guia

Dulce Maria!

 

Para citar poesia nossa, da terra brasileira, ouvi como no Caramuru, S. Rita Durão descreve a formosura de Maria:

 

“Todos suspendem em pasmo respeitoso

O amável formosíssimo semblante;

E mais nele se ostenta poderoso

O soberano autor do céu brilhante:

Quanto a angélica luz de rutilante,

Quanto dos serafins o ardente incêndio,

De tudo aquele rosto era um compendio”

 

Meus senhores, na solenidade inaugural da exposição mariana em Roma, o Cardeal Ferrata, num discurso admirável sobre o tema “Maria foi a sublime inspiradora da arte cristã”, enunciou entre outros estes belos pensamentos: “Maria é o gênio mais fecundo, o ideal mais puro da arte cristã, desta arte que tem por objeto a harmonia da fé e da razão, do natural e do divino das maravilhas deste mundo e dos esplendores revelados”. Maria é bela como o sorriso de Deus, nela se encontram o sublime, o verdadeiro, o belo e o bem.

Falando de Rafael, disse estas palavras: “Ele pode ser chamado o pintor por excelência da Rainha do Céu. Das belas tradições da Escola de Umbria, do estudo dos mestres precedentes, mas sobretudo do seu coração, de seu gênio, de sua natureza tão delicada, o jovem artista tirou a inspiração que deu à fisionomia de Maria esta forma tão pura e bela, esta pose majestosa e atraente, esta expressão suave e venerável de Virgem e de Mãe, que nos arrebata e nos enche de amor como uma visão do paraíso”[20]

A Virgem, meus senhores, que tem recebido em todos os séculos tão brilhante consagração de sua real beleza parece dizer aos marechais da arte, na frase de Monsabré, estas palavras que o grande dominicano põe nos lábios virginais de Maria:

“Amantes da verdadeira beleza que procurais o divino na Criação, contemplai-me, pedi-me inspiração e conselhos: Eu sou o Senhor das Artes”[21]

O ideal artístico de Maria abraça o conjunto de todas as suas belezas espirituais e naturais, que o Artista exprime nas formas mais resplandecentes da matéria, porque não pode conceber que uma alma tão peregrina e celeste fosse a inquilina eterna duma moradia vulgar.

Permiti, senhores, que eu termine esta última parte de minha humilde conferencia com chave de ouro: é a homenagem de um príncipe da arte, da inteligência eleita de um grande poeta à Beleza de Maria.

É o primoroso soneto de Luís de Camões, orgulho imortal das duas pátrias que falam a Língua Portuguesa:

 

Para se enamorar do que criou

Te fez Deus, sacra Phenix, Virgem Pura.

Vede que tal seria essa feitura

 

Que para si o seu Feitor guardou.

 

No seu alto conceito te formou

Primeiro que a primeira criatura,

Para que única fosse a compostura,

Que de tão longo tempo se estudou.

 

Não sei se diga eu tudo quanto baste

Para exprimir as raras qualidades

Que quis criar em ti quem tu criaste.

 

És filha, Mãe e Esposa: e se alcançaste

Uma só, três tão altas dignidades,

Foi porque a Três de Um só tanto agradaste.

 

Deo Gratias” é o grito que a vossa delicadeza acaba de sufocar.

Deo Gratias” também digo eu porque hei de levado até o Calvário a minha Cruz. Mas ainda, senhores, uma dose de paciência e eu desaparecerei daqui.

Não quero terminar sem levar os meus parabéns a essa mocidade levítica que tão filialmente festeja a subida gloriosa de sua Mãe ao país das eternas alegrias — O Céu.

Filhos de Maria, este vosso esforço vos honra em demasia e é uma segurança ao mesmo tempo que uma credencial junto ao trono da Mãe de Deus.

Nos prélios do vosso futuro apostolado, no campo aberto da batalha universal, haveis de recordar-vos, saudosos, destes momentos felizes, verdadeiros paraísos volantes na terra; haveis de recordar-vos, jovens (e com lágrimas nos olhos), e esta recordação por si só seria um bálsamo, porque, no vosso peito há de brotar a flor da esperança naquela que não se deixa vencer em amor, nem deixa homenagem sem recompensas!

Meus parabéns!

Eu li, senhores, que um saltimbanco assistia a uma grande festa em honra de Maria. Essa história que li numa revista francesa — Lectures pour tous, a encontrei mais[22] desenvolvida numa conferencia mariana do nosso ilustre e católico patrício o Sr. Conde de Afonso Celso. Diz ele que a imagem era da Virgem da Glória, das que tem o menino Jesus no braço.

Todos, ávidos de homenagear a Virgem, traziam, cada um a sua oferta. Este levava o lírio branco; esse o seu perfumoso incenso; aquele atirava flores; mais além na salva tiniam as moedas de ouro e de prata.

Só o nosso acrobata não se movia. Coitado! Era tão pobre o palhaço da feira! Mas ele se afligia muito.

 

Que poderei dar?

De súbito na sua alma de pobre e de simples, mas devoto de Maria, relampejou uma ideia. E ele disse com seus botões: “Eu sei fazer cabriolas, eu tenho os meus jogos. Quem sabe se ela não aceitará isto oferecendo-o de coração? É tão boa! ” E, rompendo o povo, aproximou-se do altar, estendeu um tapete no chão e começou a fazer toda a sorte de ginástica e de cambalhotas de sua arte diante do nicho.

Foi um escândalo. O povo gritava, quase o agarravam como um louco.

E ele, o bom saltimbanco, teimava. “Deixem-me, senhores. A intenção é que vale. Ao menos o menino há de gostar. As crianças gostam disso”

Consentiram, cheios de emoção. O pelotiqueiro, diz Afonso Celso, fez o que de mais fino contava o seu repertório.

E então, rezam as crônicas, houve um milagre. O Menino Jesus que estava nos braços da Virgem, sorriu, quase aplaudiu o acrobata.

O pelotiqueiro entusiasmado, oh! Se o tivésseis visto imaginai, senhores, fez prodígios de ginástica, empregando todas as forças possíveis.

Extenuado, esgotado, nadando em suor, ele rolou por terra. Coisa nunca vista!

O Menino sorria e a Mãe Celeste, sorrindo, desceu do altar, devagarinho, cheia de doçura, com nívea mão enxugou, com a ponta do manto cor do céu, a fronte suarenta do acrobata.

Senhores, eu sou como o saltimbanco da Virgem da Glória.

Não tinha vela, não tinha ouro, nem incenso, nem flores. Pobre como palhaço de feira, eu toquei a minha indigência.

Que oferenda lançar aos pés de minha Mãe?

Vi os meus irmãos com as mãos cheias de mimos e eu não os tinha.

Como o pelotiqueiro da lenda vim para aqui, ao pé do deslumbrante monumento, fazer o que sabia.

Não vos importuneis com as minhas peloticas sem arte e sem estilo, porque a intenção é que vale.

Se não mereço que a Virgem enxugue o meu suor, com a fimbria azul do marchetado véu, ao menos tenho a confiança de ir juntamente com os meus indulgentes ouvintes contemplar no Céu a Beleza deslumbrante de sua peregrina face.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

 


[1] Cf. Terrien Jourdain.

[2] Cf. Terrieu Jourdain. Escrip.

[3] Divina Comédia.

[4] Apud. Rev. S. Cruz.

[5] Cântico dos Cânticos.

[6] Apud. Noél.

[7] Cf. Terrien – Nicolas.

[8] Apud, Nicolas.

[9] Vid. Terrien, Jourdain.

[10] Apud. Jordain.

[11] Vid. Nicolas.

[12] Adam de S. Vitor.

[13] Leonardo Mascello, Foglie al vento.

[14] Psichologie.

[15] Monsabré

[16] Vid. Dicc. Iconographique, Migne.

[17] D. Luiz de Britto, Arcebispo de Olinda.

[18] Rome, revue.

[19] Ver. P. Mascello

[20] Apud. Revue Rome.

[21] Discurs et Panegiriques.

[22] Apud. Rev. S. Cruz

Os tormentos do inferno

São Roberto Bellarmino

Caríssimos irmãos, quando contemplo o início e o crescimento da religião de Cristo e recordo os sinais e prodígios do Redentor, duas coisas me parecem admiráveis e quase inacreditáveis: a primeira, que existam pessoas que se recusam a abraçar a Santíssima Fé; a segunda, que aqueles que a abraçaram persistam no pecado.

Muitas foram as predições dos profetas, e quase unânime o consenso dos povos, e sem conto o número dos milagres, e imensa a esperança depositada em nossa Fé. Fomentou-a a caridade, fixou-a a antigüidade, confirmou-a a sucessão dos bispos e, enfim, fortificou-a a autoridade da Igreja Católica Romana. Por isso, quem não se assombraria com o fato de que, desde o início da pregação da fé, ainda se encontrem pessoas para as quais a doutrina da Igreja Católica Romana é inconsistente, pessoas essas que não temeram endossar os atos dos autores das novas seitas e, portanto, do Mestre dos Erros? Semelhantemente, como se é capaz de escutar que certos indivíduos acreditam na punição eterna para quem viole as leis de Deus, mas não se abismar que tais indivíduos – os que aderem a essa crença – não obstante pecam contra Deus com a mais descarada tranqüilidade e audácia?

Ora, se a certa hora a ninguém se permitisse meter os pés para além dos portões da cidade – em razão dum edito do rei – sob pena de morte por enforcamento, quem haveria de ser tão descuidado e negligente da própria segurança a ponto de, à hora proibida e na presença de inúmeras testemunhas, aventurar-se a pôr o pé para além dos portões? E se acaso, por um motivo qualquer, alguém o fizesse, não lhe invadiria mais tarde o medo, não apenas das testemunhas mas também do portão, como se tal objeto estivesse cônscio do crime que se cometera? Por seu lado, estão todos os cristãos persuadidos de que Deus Onipotente proferiu uma sentença irrevogável, em cujo teor se lê que, quem partisse desta vida culpado de violação [grave] 1 à lei de Deus, como condenado que é, seria ligado às correntes eternas e sofreria tormentos inauditos e infindos, [caso não se arrependesse dos pecados antes da morte] 2. Todavia, observamos dia após dia muitos que ofendem a Deus, sem que para isso sejam coagidos, instigados, e muitas vezes até sem serem convencidos, mas por iniciativa própria, de boa vontade e com boa consciência. Decerto, eles buscam as ocasiões de pecado, regozijam se as encontram e, se não, lamentam. Que haveríamos de apontar como causa disso?

Caríssimos, parece-me que há três causas principais: falta de meditação, ignorância e amor-próprio, a última das quais os gregos com maior propriedade e acerto chamam de filáucia. A falta de meditação não é a menor das causas; pelo contrário, talvez seja a principal razão por que o risco do tormento eterno, que está sempre a nos acossar a todos, não nos afasta do pecado. Para muitas pessoas não lhes falta a fé, mas antes a meditação atenta e diligente do que a Fé propõe e ensina. Por isso, acredito que empreenderia uma tarefa agradabilíssima a Deus e útil a vós se hoje, como prometi no sermão anterior, eu lhes puxasse pela memória e exibisse diante dos vossos olhos o quão horrível, atroz e inexorável são as torturas que Deus preparou para a gente ímpia e perversa. Mas antes de falar dos tormentos do inferno, convém fazer algumas refutações, apoiado em dois elementos que mencionei há pouco.

De início, porque ignoramos a gravidade e a magnitude do pecado, mal conseguimos acreditar nos tormentos infernais com que as Santas Escrituras admoestam os homens nefandos. Afirma Santo Agostinho, nestes termos: “Para a razão humana, a pena eterna parece dura e injusta, pois que nesta [nossa] enfermidade da razão carecemos do conhecimento da sabedoria pura e soberana, pela qual é possível sentir a grandeza da afronta cometida na prevaricação originária.” Se de fato entendêssemos a gravidade da falta, só com muita dificuldade alimentaríamos dúvidas acerca da severidade da pena. Gostariam de saber de mim a imensidão da gravidade do pecado? Caríssimos, é ele tão imenso que a consciência não consegue abarcá-lo, visto que sobrepuja as faculdades da alma humana e derrota a inteligência dos seres mortais. Será o pecado certamente um mal imenso e infinito, se medirmos a magnitude da ofensa com a medida da dignidade e da nobreza do ofendido, que são infinitas.

Bem sabereis o perigo e a gravidade da doença do pecado se a comparardes com a excelência e a dignidade do Médico e dos remédios necessários para a cura. Quando ouvimos dizer que há uma pessoa tão doente que, insatisfeita com os médicos das redondezas, manda chamar cirurgiões de lugares distantes e estranhos, e que necessita de drogas preparadas a primor e com grande custo, então nos seria lícito a nós – que não somos médicos – afirmar que tal pessoa padece duma enfermidade gravíssima. Que se há de pensar, pois, da doença do pecado, a qual nem a sabedoria, nem o gênio, nem o poder e nem as faculdades de todos os homens e de todos os anjos seriam capazes de curar? Se não descesse a mesma Sabedoria do seio de Deus Pai, e preparasse um remédio perfeito a partir do Sangue do seu Santíssimo Corpo, decerto a doença destruiria a humanidade inteira.

Verdadeiramente, caríssimos, não tivesse eu outro argumento para demonstrar a gravidade do pecado, este só bastaria para persuadir todos os homens de que qualquer falta cometida contra Deus é um crime tão incomensurável que – ao considerar a pena devida à falta – com muita justiça poderíamos afirmar: “Olhos ainda não viram, ouvidos ainda não ouviram, nem jamais penetrou em qualquer coração humano as torturas e tormentos que Deus tem preparado para aqueles que O ofenderam.” Por que Deus, a própria Sabedoria, desejaria fazer-se homem, ser levado a Cruz, morrer e destruir o reino do pecado, senão para derrotar o poder e o domínio [de satã] e se tornar Ele mesmo o exterminador do pecado? Se por vezes meditássemos nestas coisas, não nos inclinaríamos ao pecado com tanta facilidade, e teríamos uma opinião diferente das torturas do inferno. Mas voltemos às causas da persistência do nosso torpor.

Caríssimos irmãos, é assombrosa a força persuasiva do amor, do maldito amor-próprio. Ele é, por assim dizer, a persuasão encarnada; essa alcoviteira – poderosa por natureza – é tão aduladora que, com as suas manhas, convence quase todas as pessoas a cortejarem a crença de que não sofrerão nenhuma pena ou, se as sofrerem, hão de ser breves e parcas, mesmo que vivam vidas desonestas e iníquas. Esta é a origem da opinião célebre entre alguns filósofos que, segundo Aristóteles, atribuem a si mesmos a excelência dos seus feitos, esperando que o próximo lhes dê o crédito e a admiração pela autoria deles, ao passo que atribuem a causas externas toda a sorte de crimes e injúrias que não raro cometem. Por isso, se agem bem, desejam recompensa e, se mal, o perdão da dívida.

Um após o outro, os erros dessa raiz germinaram até na pena de escritores cristãos, erros que Santo Agostinho enumera e refuta no Livro XII d’A Cidade de Deus. Havia quem acreditasse que não existem penas reservadas para católicos, mesmo para os de vida corrupta. Já outros, de iniciativa própria, deram o veredito de que não apenas os católicos, mas até os hereges – se tivessem sido outrora católicos – estariam dispensados da pena eterna! Outros ainda afirmaram que nem os católicos, nem os hereges a que se conferisse o Sacramento do Batismo, padeceriam as torturas eternas. Há outros que, indo mais longe ainda, conceberam que todos os homens – fossem cristãos, judeus ou pagãos – seriam salvos no Julgamento Final, quer pelos próprios méritos, quer pela intercessão e sufrágios de outrem. Já chegaram a existir pessoas que prometeram a esperança do perdão e a salvação eterna não só aos homens, mas até aos demônios do inferno! Quem mais seria capaz de baralhar nestas pessoas o senso de compaixão e causar nelas a adesão a opiniões tão insensatas sobre as torturas do inferno, senão o amaldiçoado amor-próprio? Assim sendo, não nos deve espantar que o amor-próprio atualmente dissemine tais idéias entre indivíduos que só com lentidão e dificuldade compreendem que o perigo das insuportáveis torturas eternas também pairam sobre elas. Deveras, raciocina e diz entre si essa gente tola: “É claro que Deus não me teria resgatado a um preço tão alto, nem padecido tantos males aqui na terra, se Ele planejasse me jogar eternamente na masmorra, por causa duma simples blasfêmia ou outro crime qualquer!”

Em verdade, caríssimos irmãos, devemos nos insurgir contra essa opinião falsa e perniciosa e expor os frágeis fundamentos sobre que está assentada. Digamos que o nosso rei venha a se afeiçoar de certo homem obscuro, regalá-lo com cargos públicos e enfim alçá-lo ao governo duma bela e aprestada cidadela do seu império. Agora imaginemos que este tal conspire com inimigos contra o seu rei e lhes entregue a cidadela confiada aos cuidados dele. Se fosse o caso de que no curso dos acontecimentos esse homem fosse capturado e levado à presença do rei, que pensais que faria com ele o rei? O fato de que um dia o rei tivesse afeição pelo traidor lhe impediria de pronunciar as penalidades estabelecidas para a traição? Certamente, as penas seriam atrozes, e tanto mais quanto maiores os precedentes benefícios conferidos. Assim é conosco. Embora Deus nos tenha amado com amor sumo, enviado o Seu Filho até nós, disposto que Ele sofreria e padeceria muitas agonias para a nossa libertação – apesar de tudo isso, se desertássemos para o campo do inimigo e entregássemos as cidadelas da alma aos demônios, Ele ainda nos puniria com tormentos eternos.

Há alguém que ainda não ouviu a história do patriarca José? Venderam-lhe os seus irmãos como escravo, e quando lhe conduziram ao Egito, lá o comprou o mordomo de Faraó, que passou a lhe querer bem, nomeou-o supervisor de toda a sua casa e lhe confiou a administração de todos os negócios; porém, mal suspeitara que José houvesse seduzido a sua esposa e tivesse adulterado com ela, não se contentara em lhe arrancar a dignidade da prefeitura da casa, mas o mandou lançar no mais pestilento dos calabouços.

Que dizer dos anjos condenados? Não fora o Príncipe dos Demônios outrora o Príncipe dos Anjos? E como foi! Segundo ensinava São Gregório Magno, e bem antes dele Tertuliano, além de muitos outros escritores eclesiásticos, era ele o mais nobre e principal dos anjos, tanto assim que o grau da sua preeminência entre as obras de Deus passou a ser o de sua humilhação, desgraça e degradação. Donde na Sagrada Escritura é chamado de “Lúcifer” (Is 14.12), “O principal entre as obras de Deus” (Jó 40, 14), “o selo da semelhança (de Deus), cheio de sabedoria e perfeito na beleza.” (Ez 28, 13). Dele ainda Ezequiel: “teu vestido estava ornado de toda casta de pedras preciosas.” (Ex 28, 13). E ainda: “No jardim de Deus não havia cedros mais altos do que ele.” (Ez 31, 8). E igualmente: “tiveram dele emulação todas as árvores deliciosas que havia no jardim de Deus.” (Ez 31, 9).

Então, se o maior e o mais sábio e eminente dos anjos foi expulso do Paraíso, em razão dum único pecado, e arremessado no abismo, que há de acontecer conosco, que nos apegamos ao lodo dos inúmeros pecados, e nos indulgenciamos na benevolência e bondade de Deus? Como é possível fazer objeções a isso, se Deus afligiu não apenas os anjos mas até ao Seu Filho por causa dos pecados? Meus caros, Deus ama ao Seu Filho verdadeiro e dileto acima de tudo e, ainda assim, quando Ele carregou nos ombros todos os pecados e manifestou o desejo de satisfazer a ofensa deles, Deus o esmagou e, como apregoava o profeta Isaías, consumiu-o “com sofrimentos” (Is 53, 10). Deus O destinou para aflições e torturas que nunca nenhum ser humano provara nesta terra. Grande e implacável se mostrou o ódio de Deus contra o pecado, quando o Filho provou em Si a vingança severíssima dos crimes alheios! Mas “se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?” (Lc 23, 31). Nosso Senhor foi adornado com as primícias da salvação e iluminado com toda a graça e beleza espiritual. Se a raiva de Deus, incitada por crimes alheios, O vergastou com a chama da Paixão, de modo a reduzi-l’O ao “último dos homens, um homem de dores” (Is 53, 3), que se fará com a madeira seca, i. e., com os seres humanos desprovidos do orvalho da graça e da virtude? Ao que irá reduzi-los a fornalha do inferno, inflamada por tantos crimes, ultrajes e transgressões? Porque as coisas são assim, meus caros, não devemos sequer pensar em duvidar de que os castigos do inferno são insuportáveis e inenarráveis.

Entretanto, parece que escuto uma voz se levantar e objetar-me: “Já alguém retornou do inferno e confirmou que tais coisas são verdade?”. Ah, pergunta tola! Tanto mais temível é esse calabouço, justamente porque ninguém jamais conseguiu sair de lá! Se alguém retornasse do inferno, todos depositariam esperança em tal retorno. Como de lá nunca ninguém voltou, isso só prova que o inferno é um poço profundíssimo, donde não há saída possível.

Este bom-senso, se não tivéssemos outras fontes, aprenderíamos até nas fábulas. Por certo, narra a fábula que a raposa viu muitas criaturas entrando no covil do leão, mas nenhuma delas saindo de lá. Não se perguntou a raposa: “Ninguém vem para fora anunciar os riscos que existem no covil do leão; logo, não haverá nenhum risco.” A fábula, dizia eu, não nos conta que ela tenha dito isso, mas antes, ao contrário, conta-nos que a raposa se atemorizou ainda mais de aproximar-se do covil do leão pelo só motivo de que vira muitos entrarem e nenhum sair. Precisamos de mais confirmações? O poder divino já restaurou a vida a muitos mortos, que com palavras e atos nos referiram a magnitude das penas do inferno e, demais a mais, afiançaram de que elas excedem em muito qualquer coisa imaginável. São Gregório Magno, São João Clímaco e vários outros santos e doutores documentaram tais casos.

Deixai-me agora retornar ao ponto crucial do meu sermão. Em todo pecado existem duas malícias: uma é voltar as costas ao Sumo Bem Incriado, e a outra é voltar-se ao miserável bem criado [se comparado ao primeiro]. Semelhantemente, existem duas tristezas na pena correspondente à falta: a primeira se origina da perda da beatitude eterna, e a segunda das torturas e tormentos que assolarão igualmente a alma e o corpo. Chamam os teólogos a essas duas torturas de pena do dano e pena dos sentidos.

Falemos em primeiro lugar da perda da felicidade, que é das penas a mais rigorosa. Caríssimos, não é possível existir nenhuma punição inventada ou até imaginada tão monstruosa que não seja superada pela perda do Sumo Bem. O calor do fogo infligido ao corpo provoca dores insuportáveis, mas só lesiona a boa constituição e o temperamento do corpo, que no todo é um bem mediano e modesto. Quão brutal, então, será a tortura que há de afastar e separar [as almas] de Deus, cuja simples face é um bem tão incomensurável que santifica e contenta qualquer pessoa num instante! Entre os romanos [considerava-se] que dentre todas as punições a pior era de longe o exílio – i. e., quando obrigavam o cidadão, por causa de grandes crimes, a deixar a cidade, sendo assim despojado da convivência dos seus compatrícios, e a viver entre os bárbaros em ilhas ainda meio selvagens. Por isso afirmava Cícero, quando o exilaram, que havia ingressado como que num mundo novo; chegou ele a espantar-se e, por assim dizer, a confundir Céus e terra: “Contemplai a beleza da Itália!, exclamava ele, contemplai a celebridade de suas cidades e a delícia de seus territórios! Contemplai os prados, os frutos e a beleza de Roma! Contemplai a benevolência dos cidadãos e a dignidade e a majestade da República!” Que pesar imenso sentirá então quem for privado dos palácios do Paraíso, da Comunhão dos Santos, das regiões venturosas onde reinam a paz, o amor, a alegria e a tranqüilidade, e ressoa o hino de louvor e o júbilo, e se entoa o aleluia eterno e, acima de tudo, onde mora a Luz Puríssima, cuja face santifica e contenta quem a contempla! Que pesar imenso sentirá então quem for compelido a habitar para todo o sempre em calabouços infectos e em sentinas repletas de toda a imundície, “onde habita a sombra da morte, onde não há nenhuma ordem, mas um sempiterno horror” (Jó 10, 22), onde só se ouvirá a voz dos lamuriantes e blasfemadores, onde só se escutará o clangor dos malhos e o estalo dos açoites, na companhia da hoste dos demônios, monstruosos e bárbaros, e da escória dos pecadores!

Mas bem sei o que dirão os amantes desta vida presente: “Já não nos falta, nesta vida presente, tudo quanto mencionaste? Quem de nós reside em palácios celestiais? Quem de nós contempla luz puríssima? Mas nos entristece ou atormenta a falta disso? Pelo contrário: se nos fosse permitido sempre residir neste corpo e gozar dos bens da vida presente, pensaríamos ainda de leve nos bens do Paraíso?”

Caríssimos irmãos, esta é uma ilusão costumeira dos ignorantes, os quais não concebem que, após a morte, estimaremos as coisas que agora possuímos com outros olhos e outras idéias. São João Crisóstomo expressou essa mudança com estas belas palavras: “Quem arde no inferno perde para sempre o Reino dos Céus, e a perda do Reino é certamente uma pena maior que o tormento das chamas. Ora, sei que muitos temem o inferno, e sei também que a perda da glória celestial é uma punição muito mais amarga que o próprio inferno. Não é de espantar que eu não consiga descrever tais punições neste sermão, pois, assim como desconhecemos a bem-aventurança das recompensas divinas, naturalmente ignoramos de todo quais os efeitos de sua perda. Não obstante, certificar-nos-emos da magnitude desta perda, quando a experiência começar a nos instruir. Só então abriremos os olhos e retiraremos o véu; só então que os ímpios conhecerão – para a sua profunda aflição – qual é a diferença entre o Sumo e Eterno Bem e os bens frágeis e perecíveis deste mundo mortal”.

Para fins de ilustração deste tópico, tenham a bondade de aceitar a seguinte comparação, que foi a melhor que conseguimos. Existia certa vez um rei poderosíssimo, que não tinha filhos que o sucedessem na administração do reino. Um dia ele ouviu falar dum menino airoso e agradável de aparência, mas de origem humilde e meios parcos. Ordenou o rei que lhe trouxessem o menino, cuja instrução a partir daí foi confiada a tutores. Estipulou o rei que, se o menino quando chegasse à maturidade fosse educado, sábio, ajuizado e adornado de bons modos e de todas as virtudes, sendo assim pessoa conveniente para assumir a direção do estado, ele haveria de ser proclamado rei e soberano legítimo, instalado no trono real com cetro e diadema, e incumbido do governo de todo o reino; mas, ao contrário, se se transformasse num homem cruel, seria atado em correntes e condenado às galés, com toda a ignomínia e a desgraça da penalidade. Os ministros reais deram cumprimento imediato às ordens do rei: convocaram o menino e o confiaram aos tutores, que usaram de muita diligência ao educá-lo nas letras e costumes. Contudo, o menino deixou-se levar pelos outros meninos, sem notar os benefícios de que gozava. Mal o professor punha os pés fora da casa, o menino escondia o livro no canto mais escuro do quarto e vagabundeava o dia inteiro, construindo casinhas de cacos de vaso e brincando de piques. Já perto do pôr do sol o professor retornou e lhe fez uma sabatina das lições, mas o menino sequer se recordava onde pusera o livro. Irado o professor sovou o menino e apisoou as casinhas de caco; disse enfim ao pupilo: “Oh, se soubesses o que desperdiças com essas tuas criancices! Talvez aprendas mais tarde, mas só quando tal conhecimento já te não servir de nada.” Ora o menino, como menino que era, chorou com o castigo e a repreensão do professor, mas lamentou ainda mais as casinhas quebradas. Nem as palavras do professor, nem a vontade e o testamento do rei lhe pesaram no espírito. Decerto, no dia seguinte ele esqueceria a surra e a admoestação recebidas, e novamente construiria casinhas de cacos e voltaria aos jogos infantis. Quando o menino crescesse, os testamenteiros do rei se deparariam com uma pessoa rude e ignorante, e de modo geral incapacitada para governar o reino. Leriam para ele o testamento do rei, e então o poriam a ferros e o enviariam às galés na pior das degradações. Ora que pensais que mais lhe penalizou com lágrimas e amargura: a labuta das galés ou a perda do reino? Talvez escuteis de mim que ele lamentou amargamente a condenação às galés, porque não sou capaz de conceber um estado de vida mais desgraçado nesta terra. Certamente, a única esperança de quem foi sentenciado às galés é fartar-se de açoites. No entanto, tenho plena certeza de que o seu coração se angustiou e afligiu muito mais quando o despojaram da honra de governar o maior e mais suntuoso dos reinos, pois existe alguma coisa mais miserável e desgraçada para se dizer ou pensar do que a notícia de alguém que perdeu o mais esplêndido e nobre dos reinos, por causa de ninharias infantis?

Caríssimos irmãos, para quem de nós não se aplica essa parábola? Enquanto vivemos na terra, somos crianças. Não conhecemos nada de elevado, nem contemplamos nada de sublime. Estamos todos ocupados com assuntos burlescos e ninharias infantis. Quão ansiosos somos em amontoar casas de lama! Em que diferem elas das casas de cacos dos meninos, salvo serem algo maiores em tamanho? Assim é o entusiasmo dos mercadores, as ambições dos governadores e dos cortesãos, as obras dos arquitetos, as contendas dos reis e dos príncipes por cidades, províncias e reinos; assim também os processos judiciais dos cidadãos em torno de posses, limites e cursos d’água. Isso mesmo: são tudo ninharias! São ninharias só um pouquinho maiores que as das crianças, e por essa razão, escreve Santo Agostinho, são chamadas de negócios3. Apesar de tudo quanto mencionei serem ninharias, se comparadas aos negócios da vida futura, não por isso elas ainda ocupam a maioria esmagadora das pessoas, de forma que não consigam dedicar um pensamento sequer aos negócios do reino celeste, que é único negócio sério e verdadeiro [desta vida]. E tudo acontece sob a vigilância do Professor Celeste, que se encarregou de nossa instrução; talvez ele nos encontre merecedores de tomar posse do Reino dos Céus. Ele lamenta continuamente nossa inconstância e deplora: “Até quando amareis (à maneira de) crianças, a infância? (Até quando é que) os insensatos cobiçarão as coisas que lhe são nocivas?” (Pr 1, 22). “Por que amais a vaidade e buscais a mentira?” (Sl 4, 3). Então, com Seu pé Ele destrói nossas casinhas de cacos.

Deus confunde amiúde os nossos desejos. O mercador espera o navio cargueiro abarrotado de mercadorias do Oriente, e eis que escuta a notícia de que a embarcação naufragou e a mercadoria submergiu no oceano! Já outros depositam toda a esperança no filho e confiam que em breve ele há de se tornar doutor em teologia, canonista, até Papa! Constroem sobre ele as torres altaneiras de seus planos, mas eis que chega a notícia de que uma leve febre acometeu o filho, e que depois de alguns dias o filho chegou ao termo da vida! Outro homem é convidado a um casamento, a um elegante repasto, a uma ilustre recepção. Ele está pronto para ir, mas eis que fica indisposto e, para que se consume a cura, deve abster-se de vinho e comida!

Quem é esse, pergunto-vos, quem é esse que faz isso conosco? Quem é esse que frustra os pensamentos e conselhos dos homens? Caríssimos irmãos, quem faz tais coisas é o nosso Professor, e as faz não porque nos odeie, mas porque nos ama com ternura! Porquanto é Seu desejo limpar os obstáculos que nos impedem de avançar no caminho do Paraíso que Ele nos preparou. Deveras, quais crianças tolas, suportamos contrariados a destruição das nossas casinhas de cacos, a perda dos bens da terra e outros castigos do Senhor. E eis que de novo amontamos nossos caquinhos, mas não dedicamos nenhum pensamento ao Reino dos Céus, que está nos chamando quando nos flagela.

Mas virá o tempo, acreditai-me, virá o tempo em que teremos de passar pelos portões da morte para o outro mundo, mundo onde reconheceremos num instante que já somos homens adultos; neste novo lugar não é possível encontrar crianças. A passagem desta para a outra vida, pelo simples fato de ser passagem, já nos torna a todos nós homens crescidos! Ouviremos então a seguinte declaração: “O Reino dos Céus e as suas lindas moradas estavam sendo preparadas para ti. Se ao menos tivesses dado ouvidos à verdadeira sabedoria! Mas porque preferiste às tolices infantis, e desprezaste a voz e as admoestações de teu professor, serás lançado com ignomínia e vergonha nas trevas exteriores, onde ‘haverá choro e ranger de dentes’ [Mt 25, 30]”, e outras torturas e punições eternas.

Caríssimos irmãos, que diremos então? Que pensaremos dessas casinhas de cacos, dessas honrarias ridículas, desses negócios infantis, quando percebermos com a clareza dos raios do sol que por causa de sombras e sonhos fomos persuadidos a abrir mão de bens duma bondade inexplicável, bens realmente duráveis e imperecíveis? Oh, com que pesar o espírito do homem pecador irá lamentar: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas? [Sb 5, 8]. De que nos aproveitou correr terras e oceanos, a fim de juntar riquezas? De que nos aproveitou esgotar-nos de tanto trabalhar, a fim de sustentar nosso fausto no palácio dos príncipes? De que nos aproveitou empregar todas as finezas da arte para cortejar as honrarias, i. e., para cortejar terra e cinzas, a fim de alcançar as honrarias por nós mesmos? De que nos aproveitou atormentar a cabeça e gastar noites a fio em estudos, a fim de compreender os autores mais obscuros e deles captar algum raio de luz? Portanto, vede que tudo passa como sombra, ao passo que ignoramos a verdadeira honraria, a verdadeira riqueza, o verdadeiro prazer, a verdadeira sabedoria da verdade e o Eterno e Soberano Bem. E uma vez perdidas, já não há esperança de recuperá-las!” Caríssimos, há de ser tão grande o pesar de espírito que, apesar de todos os condenados saberem perfeitamente que os portões da beatitude eterna estão encerrados para eles e um imenso precipício se cavou entre eles e a morada dos bem-aventurados, a força do desejo natural os compelirá a implorar: “Senhor, Senhor, abre-nos” (Mt 25, 11).

Por isso, o sapientíssimo doutor São João Crisóstomo afirma: “Certamente o inferno é algo de intolerável. Quem desconhece que a pena do inferno também é horrível?” Ora, ainda que alguém postulasse a existência de milhares de infernos, não seria capaz de dizer nada que transmitisse com exatidão o que é ser excluído das honras da glória bem-aventurada do Paraíso, o que é ser odiado por Cristo e o que é ouvir Dele estas palavras: “Nunca vos conheci” (Mt 7, 23), sendo assim condenado porque negara comida e bebida a quem tinha fome e sede. Melhor seria agüentar a descarga de milhares de raios, do que ver aquele rosto cheio de gentileza e piedade desviar-se de nós, e aqueles olhos cheios de tranqüilidade incapazes de suportar a visão de nossa presença. A perda do Soberano Bem acarreta [também] a perda de todas as coisas boas. Que isso significa? Apenas que os olhos dos condenados nunca mais apreciarão belas paisagens, nem os ouvidos escutarão cantos suaves, nem o paladar provará sabores aprazíveis, nem o tato sentirá objetos macios. Uma vez excluído do consórcio com Deus, o homem ficará de uma vez para sempre mergulhado num oceano de sofrimentos e calamidades, sem esperanças de fuga.

Deixai-me terminar neste ponto o que tenho para contar sobre o Soberano Bem e prosseguir agora discorrendo sobre aquela tortura que os teólogos denominaram pena dos sentidos. Denominaram-na assim porque ela deve incidir sobre os sentidos e as forças, exteriores e interiores, no corpo e na alma. Comecemos com a tortura dos sentidos interiores.

Existem quatro faculdades espirituais, pertinentes ao assunto de que tratamos, que no inferno padecerão tormentos espantosos. A primeira dessas faculdades, os gregos a chamavam de “fantasia”, mas nós a chamamos de “pensamento”; a segunda é a memória; a terceira, a inteligência; e a quarta, a vontade.

A faculdade do pensamento padecerá de certos tormentos gravíssimos e opressivos, que o corpo e o espírito terão de aturar. Se, pois, nesta vida uma dor intensa pode subjugar e reprimir o pensamento dum homem a ponto de ele não conseguir parar de pensar nela, embora o queira com ardor, o que as penas do inferno – em comparação, muito maiores – farão às almas? Assim, o pensamento aguçará as dores, e as dores excitarão o pensamento; e ambos se estimularão mutuamente, de modo que as almas ou os corpos dos condenados não repousarão jamais. Essas dores serão objeto de perpétua contemplação de quem poderia ter meditado frutuosamente nestas coisas, mas se recusou a pô-las em prática, ou de quem despreza nesta terra utilizar seus pensamentos mais profícuos como rédeas contra a luxúria. Na vida futura, tais pensamentos serão os cruéis verdugos a atormentá-lo.

Também a memória será uma pesada cruz para as almas condenadas, quando ela lhes patentear a felicidade dos velhos tempos e os prazeres passados, pelo bem dos quais vieram a se abismar naqueles tormentos. Só aí conhecerão o verdadeiro sabor do sal generoso e da pimenta picante que se esparziam nos banquetes, que outrora lhes eram tão aprazíveis. Mas muito maior sofrimento haverá quando elas compararem a brevidade dos prazeres passados com a eternidade das tristezas presentes; quem poderia topar com um matemático tão erudito que fosse capaz de nos calcular a extensão do abismo que separa o tempo e a eternidade? Por isso, quantos brados não irão lançar? Quantos suspiros não irão arrancar do imo peito quando, ao meditarem com cuidado, descobrirem que os prazeres, que mal duram um instante, passaram qual sombra ou sonho, enquanto a tristeza não terá fim nem termo!

A inteligência, porque é a faculdade mais eminente e perspicaz, padecerá uma cruz mais intolerável, pois nesta faculdade habitará o verme com que a Sagrada Escritura ameaça tão amiúde os pecadores: “O seu bicho não morrerá, e o seu fogo não se extinguirá” (Is 66, 24). Assim como o verme brota da madeira e rói o mesmo pau donde foi gerado, assim o verme nasce do pecado e trava com o pecado uma guerra eterna. Este verme nada mais é que a penitência perpétua, cheia de cólera e desespero, cheia da dor que se origina dos pecados e crava as unhas nas almas dos condenados, tão logo percebam que perderam o Reino dos Céus e atraíram para si torturas indescritíveis por causa de seus pecados. Lemos no livro do Gênese que certa vez os egípcios gozaram sete anos de tanta fertilidade e abundância que abarrotaram os silos onde armazenavam os grãos. A estes sete anos se seguiram outros sete de tanta esterilidade e penúria que os egípcios foram obrigados a trocar dinheiro, campos, gado e até a si mesmos por grãos. Quem poderia descrever o profundo arrependimento que sentiram nesta época, ao se darem conta da negligência em armazenar os grãos no tempo em que o frumento transbordava dos celeiros? Quem poderia descrever sua aflição, porque não acumularam para o tempo da futura penúria, quando o diligente armazenamento de grãos não apenas os livraria da pobreza e da fome, mas também torná-los-ia muitíssimo mais ricos.

Caríssimos irmãos, o verme dos condenados é de tal natureza, que não descansa nem de dia nem de noite, pois rói, mastiga, devora e se alimenta das entranhas dos desgraçados pela eternidade afora. E os desgraçados tampouco esquecem a oportunidade esplêndida, que tiveram cá nesta terra, de evitar essas penalidades a um custo baixo, e de assegurar o Reino dos Céus por um preço módico. Nessas circunstâncias, injuriar-se-ão uns aos outros para sempre, e dirão: “Ai de nós! O Reino dos Céus se ofereceu a nós, e se ofereceu grátis. Mais ainda, quase que implorou para que o recebêssemos, mas recusamos. Se nós nos tivéssemos arrependido dos pecados e confessado, tudo haveria de ser perdoado! Por acaso, eram suplícios colossais a penitência e a confissão? Se implorássemos misericórdia, ser-nos-ia dada quase de imediato! Se implorássemos pela bondade divina, ei-la ali a nosso dispor! Ora, se oferecêssemos um copo de água fria em honra de Deus, lograríamos encontrar a vida eterna! Mas agora vamos jejuar para sempre, vamos ser afligidos para sempre – e não haverá frutos disso. Oh, precioso tempo, que já passaste e nunca retornará, eternamente! Que nos oferece o mundo para que ousemos provocar a terrível cólera de Deus? Sim, se nos oferecessem todos os reinos e impérios do mundo, e se nos afiançassem que deles gozaríamos por milhares de anos, que seria isso tudo, comparado à menor destas penas eternas? Mas o mundo não nos oferece reinos, nem impérios, nem duração certa, mas a mera sombra dum prazer miserando. E é por isso que nos obrigamos a suportar o fardo das torturas eternas? Oh, por que somos tão tolos e tão cegos? Quem nos roubou o entendimento? Quem nos cerrou os olhos e entupiu os ouvidos? Quem nos traz tão enfeitiçados, que não refletimos sobre essas torturas, nem dedicamos um pensamento a esse novíssimo? Quem nos traz tão enfeitiçados, que nunca nos precavemos contra tal pobreza, nem atentamos naqueles que nos deram bom conselho?” Se a faculdade da inteligência há de sofrer tudo isso, que diremos da vontade, que é a causa principal dos pecados?

A vontade sofrerá a tortura duma inveja furiosa, que afrontará a glória e a honra de todos os santos e do próprio Deus; pois, como canta o salmista: “Ve-lo-á o pecador, e se indignará; rangerá os dentes, e se consumirá” (Sl 111, 10). Os danados também não possuirão aquilo que desejam, pois “o desejo dos pecadores perecerá” (Sl 111, 10). Daí levantar-se-á na vontade dos pecadores um ódio implacável contra Deus, e do ódio por sua vez originar-se-ão maldições horrendas e blasfêmias inauditas, que nunca hão de sair de seus lábios e bocas; não terão eles a menor esperança de salvação redentora, mas saberão com toda a certeza que nunca voltarão às graças de Deus, e que as torturas nunca hão de findar ou mitigar-se; compreenderão que é Deus quem os mantém atados em cadeias, por assim dizer, às penas eternas, e que é Ele quem – desde o alto – ateia sobre eles o fogo, e que é Ele quem atiça as fornalhas do inferno com seu hálito poderoso. Os réprobos ficarão encolerizados como cães raivosos, latindo blasfêmias e injúrias sem cessar; amaldiçoarão a Deus porque os criou e os condenou à morte; amaldiçoarão a Deus porque Ele os matará para sempre, não consentindo em que morram; amaldiçoarão Seu poder porque os tortura imensamente; amaldiçoarão Sua sabedoria porque nenhuma infração escapa dela; amaldiçoarão Sua bondade, porque se transformou para eles em ferocidade e condenação; amaldiçoarão Sua Cruz e o Sangue derramado sobre eles, porque os beneficiou muitíssimo; amaldiçoarão a Rainha dos Céus, porque ela foi para muitos pecadores a Porta da Vida e da Misericórdia, mas para eles se converteu agora em cruel madrasta. Enfim, amaldiçoarão todos os santos, porque em meio aos tormentos observá-los-ão regozijando e exultando em triunfo. Essas maldições serão a eterna sinfonia de seus ouvidos, suas matinas e vésperas, os salmos e cânticos entoados no templo tenebroso dos demônios, onde o incenso será de enxofre, e os círios poços donde sobem fumo e fogo e, em vez das harpas e órgãos, rangido de correntes e rumor de malhos e chibatas.

Verdadeiramente, se a simples menção de coisas tão horrendas incute terror e impõe respeito, que será então aturar realmente, naquele lugar de eternidade, as coisas que se escutaram e disseram?  Que devemos fazer para que não sejamos compelidos a participar dessas solenidades tenebrosas?

Recorda o profeta Jeremias que o Senhor lhe mostrou dois cestos cheios de figos. Um deles continha figos bons, muito bons mesmo; o outro continha figos ruins, muito ruins mesmo, que não se poderiam de jeito nenhum comer. A não ser que eu esteja enganado, o profeta nos está ensinando que os dois tipos de figo são figura dos dois tipos de pessoas que haverá após esta vida. Por isso, todos chegaremos àquele estado que é bom, muito bom mesmo – ou que é ruim, muito ruim mesmo. Não há estado intermédio entre o estado dos bem-aventurados – que é bom, muito bom mesmo – e o dos condenados – que é ruim, muito ruim mesmo, porquanto o fogo do Purgatório, que alguns consideram um estado intermédio, arde até um tempo certo e definido, do que se depreende que todas as almas que agora estão lá ou que lá estarão [no futuro] serão partícipes da glória e felicidade eterna, alcançando aquele estado que é bom, muito bom mesmo. E com a ajuda de Deus lhes apresentaremos no próximo sermão o quão bom, muito bom mesmo, será o estado dos bem-aventurados; por sua vez, o estado dos condenados, que é ruim, muito ruim mesmo, ficará claro com o que já dissemos e ainda resta por dizer.

Assim manifestamos, com toda a nossa habilidade, que a tristeza decorrente da perda do bem supremo e que atormenta as faculdades da alma interior, é fortíssima e indescritível. Demonstraremos agora que as penas e torturas infernais que incidirão nos sentidos externos dos condenados são as mais atrozes de todas.

A recompensa dos bem-aventurados não é um bem particular em especial, separado e distinto doutros bens, mas um bem generalizado e comum, que contém em si todos os bens, prazeres e delícias. Assim a define Boécio: “Estado de perfeição, que consiste em possuir todos os bens.” De modo análogo, a pena dos condenados não é um pesar específico, que afetasse a cabeça ou os rins, os dentes ou os olhos, mas um mal generalizado que dissemina todos os sofrimentos pelos membros, articulações e sentidos do corpo. Nesta terra nunca provamos do sofrimento generalizado dos condenados, bem como nunca provamos o bem generalizado dos bem-aventurados, porque uma pessoa com dor nos olhos não sofre desta feita dos dentes, nem com dor de dentes sofre por isso dos olhos; esse padrão se aplica a todas as demais dores corporais. Porém, no inferno a dor atrocíssima há de ser uma só e simultânea, e acometerá rins e peito, e cada articulação, centro nervoso, medula, sentido e faculdade do corpo. Assim como o pecador usou os membros para ofender a Deus, assim não haverá parte, ou antes, não haverá a menor parte sua que não tenha torturador e algoz específico. Pergunto-vos: Que sentiria aquele de nós que, durante apenas um dia, fosse submetido à tortura geral dessa pena? Qual seria para ele a duração desse dia? Não lhe pareceria que cada momento dura mais que vários meses, e que cada hora, mais que vários anos? Sem dúvida, caríssimos, se víssemos na rua um cão sofrendo essa dor generalizada, não duvido de que ficaríamos comovidíssimos. Se for possível dalgum modo descrevê-las, eis aí a pena e eis a dor com que serão torturados os seres humanos condenados ao inferno, não apenas por um só dia, mas pelos séculos dos séculos. Mas procedamos a partir daqui a uma investigação mais atenta e diligente das várias espécies de penalidades.

Os olhos, porque observam todas as coisas, com muita justiça se oferecem como os primeiros à nossa consideração. Estes nossos olhos, aqui e agora, não os sacia o prazer: eles fitam avidamente as belas formas; quais depositários de curiosidades, voam ligeiros para assistir a espetáculos mesquinhos e ridículos; quais mulherengos impuros, levam amiúde imagens vulgares para a alcova do coração. A única coisa que não conseguem fitar é o infortúnio catastrófico dos pobres e miseráveis. Qual a cruz que há de torturar os olhos no inferno? Decerto, a primeira coisa que lhes aparecerá são as formas horrendas dos demônios: olhar um demônio é experiência tão horrível que dizem que algumas pessoas perderam a sanidade e outras a vida. Comentando o Salmo IX, conta São Bernardo de um de seus monges a quem certa noite lhe visitou uma figura pavorosa. Durante todo o dia seguinte, esse monge quase perdeu o tino por causa da visita, imaginando-se sempre em perigo. Até que, numa hora em que calhou de todos os monges estarem dormindo, ele deu um tal grito que os acordou a todos e os encheu de pavor. Cassiano, nas Colações, também relata que entre os antigos anacoretas [ermitões] às vezes assomava um temor tão forte do demônio – o qual fazia questão de lhes aparecer, mas sempre com formas horríveis – que ninguém tinha coragem de ficar só; tampouco os que compartilhavam celas ousavam dormir ao mesmo tempo: enquanto uns dormiam, outros faziam vigília, entoando salmos e hinos sem parar. Se neste mundo nosso os demônios podem reivindicar para si um poder tão grande sobre nós, e se aqui os tememos imensamente, que farão, pergunto-vos, que farão quando estiverem em seu próprio território, onde não precisam temer exorcismos, água benta, nem os méritos e as orações dos santos? Se eles vagueiam por aqui, donde são expelidos com tanta violência, que hão de fazer no país onde governam e dominam? Imaginem um homem andando pelo cemitério; se a mera suspeição da presença dos demônios o assaltasse, talvez fosse o suficiente para que ficasse de cabelos em pé e a voz se afogasse na garganta. Qual não será a confusão dos pecadores, quando naquele comum “Cemitério dos Condenados” encontrarem face a face com a multidão dos monstros, fantasmas e quimeras!

Além disso, que cruz os olhos dos condenados sofrerão, quando virem as suas esposas, pais e filhos nos mesmos tormentos! Hegesipo nos legou um relato da destruição de Jerusalém: Alexandre, filho de Hircano e capitão dos hebreus, quando quis infligir a algumas pessoas uma penalidade atrocíssima, ordenou a crucificação simultânea de oitenta prisioneiros na praça da cidade. Enquanto estivessem vivos, as esposas e filhos de cada um seriam cruelmente vergastados diante de seus olhos. Deste modo, os desgraçados padeceriam não uma mas muitas mortes. No inferno também não há de faltar essa punição: com imenso pesar, ali os filhos verão os seus pais e os pais verão os seus filhos, os maridos as suas esposas e as esposas os seus maridos; além disso, todos os que tiverem sido causa dos pecados de outrem, suportarão na companhia deles as torturas infernais!

Caríssimos irmãos, sei que nesta notável universidade [i. e., Lovaina, na Bélgica, onde se proferiu o sermão] a maioria dos moços – moços de fato modestos, pacatos, estudiosos e religiosos – está sendo cultivada e instruída. Estou ciente desse fato, em parte pelo que ouvi doutras pessoas, em parte pelo que observei em pessoa. Eu me regozijo imensamente com isso, e assim dou graças ao Senhor de todos nós. Mas o meu coração ficou muitíssimo contristado ao ouvir que, entre tantos moços direitos, existem corruptores e corrompidos, que circulam entre vós e assediam os simples de coração, seduzindo-os a freqüentar as bebedeiras, os bailes e outros estímulos à luxúria. Ai de vós, homens impuros, imitadores do diabo e flagelos da juventude! Ousais então invejar e roubar a dignidade dum bem tão excelente? Que hão de fazer quando, em meio à combustão das labaredas abrasadoras, virem-se na companhia daqueles a quem enganaram? Oh, quantas vezes não ireis repetir: “Morra o dia em que te vi pela primeira vez, morra o dia em que me empenhei em te manipular e enganar! Quando te jogava no vício da bebedeira e noutros crimes e escândalos, estava eu me jogando nestes tormentos!” Por sua vez, objetará o outro: “Morra o dia em que pela primeira vez te trouxe à minha companhia, ladrão e carrasco de minha alma; morra o dia em que pela primeira vez dei ouvidos aos teus discursos envenenados!” Eis o dueto e a sinfonia desses amaldiçoados, e tal sinfonia agora nos admoesta para que passemos dos olhos aos ouvidos.

Os ouvidos que outrora se deleitaram em canções licenciosas, regozijaram ao escutar infâmias e detrações contra vizinhos, ouviram indolentemente por horas a fio os mascates na praça pública, ao passo que se agastavam com um sermão de apenas uma hora na igreja – esses ouvidos, no inferno, só escutarão gemidos, urros, choros, contumélias, blasfêmias e maldições; pois, se no Reino dos Bem-Aventurados há de se entoar para sempre louvores divinos e aleluias melífluos, já no calabouço dos condenados há de ressoar para sempre gritos e blasfêmias; alguns desses hinos serão cantados no tom dos malhos e açoites.

Lembro-me de ter lido no livro Vida de Sula, de Plutarco, a seguinte história: certo dia esse cruel ditador ordenou se juntassem seis mil homens num pequeno círculo. Ao mesmo tempo, ordenou que o Senado deveria reunir-se num templo não muito distante dali. Daí então instruiu os soldados que, enquanto estivesse discursando, massacrassem os seis mil homens o mais rápido possível. Assim, quando Sula começou o discurso ao Senado, ouvia-se o estrépito e o fragor contínuo de inúmeras espadas, cujos sons se misturavam aos gritos e gemidos dos massacrados. O ditador advertiu os senadores para que escutassem os procedimentos na câmara, e não fossem curiosos nem prestassem atenção ao que acontecia do lado de fora. Entretanto, como todos os senadores ficassem apavorados e fora de si, mal puderam concentrar-se no discurso. Daqui é possível conjeturar qual “sinfonia” e quais “órgãos e harpas” escutaremos, se nos fosse permitido encostar o ouvido nos portais do inferno, onde não seis mil porém um sem conto de pessoas que choram, gritam e vociferam, serão massacradas, flageladas e golpeadas para sempre.

Que diremos sobre o sentido do olfato? Não existe sentina mais imunda, nem esgoto mais pestífero que se compare ao lago do inferno, onde se há de lançar toda a imundícia do mundo. São Vítor Africano descreve os tormentos que os vândalos arianos infligiram aos santos mártires, e assegura que um dos piores sofrimentos era o fedor da masmorra. A descrição do santo se refere aos Quatro Mil Novecentos e Noventa e Seis Mártires que juntos foram torturados no mesmo calabouço; ele relata que os vândalos jogaram literalmente os confessores de Cristo uns sobre os outros no recinto estreito do cárcere, como uma fieira de caranguejos ou, para falarmos com mais propriedade, como preciosos grãos de milho. Naquele amontoamento não havia lugar retirado para que alguém atendesse às necessidades da natureza. Premidos pela necessidade, deixavam as fezes e a urina num só canto, de forma que o fedor e o nojo superou todo o sortimento das punições. Os vândalos, por sua vez, sofreram severa punição na mão dos mouros, que eclipsaram aquela raça: os mouros conduziram publicamente ao mesmo calabouço os vândalos que, mal entrando lá, atolaram-se até os joelhos numa verdadeira voragem de lama. Assim os vândalos provaram na carne o cumprimento da profecia de Jeremias: “Os que se nutriam ente púrpuras, abraçaram o esterco” (Lm 4.5).

Meus caros, comparai a pena dos mártires com as torturas dos condenados. Havia poucas pessoas nas masmorras onde prenderam os confessores de Cristo; já nas masmorras do inferno haverá muitíssimas pessoas. Naquela, apenas a imundície humana exalava fedor; nesta, reunir-se-á em montão a imundície, o excremento, a carniça, a impureza e o fartum do mundo inteiro. Então, se o fedor do calabouço terrestre superou toda casta de punições, quem haverá de suportar o fedor do inferno, incomparavelmente mais impetuoso e horrendo? Quem consegue ler sem horror sobre aquela nova variedade de tormento que, seja verdade ou ficção, descreve o poeta latino ao cantar:

Vivos ligava a mortos, contrapondo

 Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,

 E em triste abraço e pútrida sangueira

 Nesta agonia longa os acabava.

Virgílio, Eneida.

Livro 8, linhas 485-488.

(Tradução de Manuel Odorico Mendes).

Que diremos perante esse quadro? Que um homem vivo e saudável será atado ao cadáver frio; que o desgraçado definhará, porque aspirará o abominável odor, a bicharia e o chorume que porejam do corpo; que um homem vivo há de ser assassinado por um homem morto – e quem não se aterraria apenas ao escutar isso, e quanto mais quem o testemunhasse? Mas se tais métodos de punição nos parecem severos e monstruosos – como de fato o são – que dizer do fedor do inferno, que se levantará das pilhas de corpos putrefatos?

Mas se o sentido do olfato sofre tais punições, ficaria imune à pena o sentido do paladar, que de praxe é causa de crimes muito mais numerosos e graves? Meus caros, os beberrões e os glutões impuros não hão de conhecer – e conhecer de fato, pela primeira vez – a que custo adquiriram pratos e licores delicados, cujo preço de compra nesta terra estimavam de pouquíssima monta? Verdadeiramente, o sentido do paladar será torturado com fomes e sedes indescritíveis. Quem hoje não suporta um jejum de dois dias – e acha que a natureza não estará saciada, a não ser que beba ao ponto de se intoxicar e vomitar – há de ser torturado com fome e sede tais, que é impossível conceber ou excogitar pena mais dolorosa. Quem não se comoveria com as palavras do homem rico do Evangelho: “Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama” (Lc 16, 24). Que pobreza maior que essa poder-se-ia imaginar? Que coisa mais insignificante poderia desejar um rico, que outrora “se banqueteava esplendidamente todos os dias” (Lc 16, 19)? Ele, que não se satisfazia nem com vinhos preciosíssimos, não busca sequer um copo d’água, nem implora a Lázaro – o que é mais incrível – que mergulhe a mão inteira n’água: pede tão-somente que Lázaro umedeça a pontinha do dedo em água – e nem isso lhe é concedido! Deram-nos a conhecer essas coisas, para que saibamos que os efeitos da sentença de excomunhão e interdição que o Senhor proferiu contra os condenados são tão universais que ninguém é capaz de levar-lhes o mais leve conselho ou auxílio: para onde quer que os condenados voltem os seus olhos ou estendam as suas mãos, saberão que todos os canais de conselho ou auxílio lhes foram interditos.

Os náufragos em alto-mar amiúde retesam pés e mãos, como estivessem se sufocando e pelejando com a morte; todavia, não deparam nada além de água, o que frustra todo o empenho que intentam para se agarrarem em alguma coisa. Eis o que acontecerá com quem se tenha abismado naquele derradeiro Mar de Misérias, sufocando-se ali para todo o sempre. Implorarão todos os tipos de auxílios, chegarão até a pedir socorro à própria morte, mas em vão, pois lá não existe ninguém que possa dalguma sorte lhes prestar o mínimo socorro.

Caríssimos irmãos, são de fato verdade tais coisas? Donde as aprendemos? Quem no-las contou? Foi Homero? Platão? Virgílio? Quem no-las contou foi a Verdade em Si, a Sabedoria de Deus em pessoa, que não pode mentir! Ainda existe fé no mundo? Ainda usam os homens a razão? Podem formar julgamentos sobre qualquer coisa? Como sobreveio esse torpor nos homens que costumavam acreditar em tais coisas? Somos diligentíssimos em repelir outros males menores; por que motivo então nos não dispomos a encontrar um modo de evitar as torturas infernais?

Entretanto, as penalidades que temos mencionado nem de longe são as piores: existem outras ainda mais gravosas. O parecer da justiça divina exige que o sentido do tato, pelo qual se cometeram tantos crimes, ultrajes, sacrilégios, impurezas e adultérios, sofra torturas ainda mais atrozes que os demais sentidos. O algoz desse sentido será o fogo, um fogo tão poderoso, intenso e eficaz que, comparado a ele, o nosso fogo terrestre parece não ser fogo verdadeiro mas pintado. Não podemos duvidar de que o fogo há de causar imensa aflição e tormento, porque foi Deus quem o destinou para executor de Sua justiça. Meus caros, imaginai um homem lançado vivo numa fornalha ardente, cuja portinhola se fechasse enquanto ficasse ele lá durante uma hora inteira. Se fôssemos contemplar atentamente qual seria a sua dor, não teríamos um entendimento claro, mas a mera impressão, por assim dizer, do que é viver no inferno. Pergunto-vos: quais ombros suportarão as chamas ardentes? Quais peitos se não despedaçarão na eternidade das torturas? Como indagava o profeta Isaías: “Qual de vós poderá habitar em um fogo devorador” (Is 33, 14)?

Precisamos dizer mais alguma coisa? Além dessa punição, acrescentar-se-á outra – e, decerto, não das menores – para que os condenados sejam atormentados não apenas com o calor do fogo, mas também com o frio intolerável! Se nos estearmos nas palavras de São Basílio Magno, nenhuma das torturas se comparará com a dor resultante da amaríssima rispidez do frio.

São Basílio nos deixou a história dos Quarenta Mártires. Queria um tirano crudelíssimo e ferocíssimo supliciar esses mártires com tormentos indescritíveis. Chegou à conclusão de que o melhor tormento seria a morte de inverno, porquanto habitavam numa região fria por natureza. Era tão intenso o frio que lá vigorava que certos lagos congelavam, a ponto de as pessoas andarem por sobre eles com carroças e animais de carga; a torrente dos rios mais caudalosos se petrificava no leito, e de rios que eram se transformavam em estradas pavimentadas de mármore. O tirano escolheu uma noite em que o setentrião soprava com todo o ímpeto, e ordenou que se expusessem os mártires nus ao relento, permitindo que morressem dum tormento prolongado e indescritível.

Esses, caríssimos, serão os jogos dos condenados, e essas as suas partidas, nas quais – como lamenta Jó – serão compelidos do excesso de calor aos chuveiros de neve, e dos chuveiros de neve ao excesso de calor. Não se tratam de invenções nem fábulas dos poetas. Escutai o que diz o Senhor a Jó: “Entraste, porventura, nos depósitos de neve, ou viste os depósitos de saraiva, que eu preparei para usar contra o inimigo, no dia da guerra e da batalha?” (Jó 38, 22,23). Escutai o salmista: “Fará chover sobre os pecadores carvão ardente e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu cálice” (Sl 10, 7). E se essa “porção” é amaríssima, que seria então ter de beber o cálice inteiro? Ah, infelizes, quão melhor ser-vos-ia se nunca tivesses nascido! Ah, olhos miseráveis, que serão aterrados com as horrendas formas demoníacas e torturados com fumo espessíssimo, e que sempre estarão abertos para observar as próprias misérias! Ah, ouvidos miseráveis, que escutarão pela eternidade o ruído dos açoites e blasfêmias, e o lamento dos malditos! Ah, nariz desgraçado, que sentirá pela eternidade o fedor dos ambientes infectos e dos corpos putrefatos! Ah, barrigas e bocas miseráveis, que serão atormentadas com fome e inanição perpétuas e sede intolerável! Ah, membros ignóbeis, que habitarão no poço que vomita flamas sulfurosas! Quanto tempo durará: dez anos, vinte anos, cem anos? De jeito nenhum, pois isso ainda seria uma espécie de consolação. Verdadeiramente, há de durar pela eternidade e além – se fosse possível chegar a um além. Eternidade. Ó mundo fugaz, que nos prenuncia uma realidade tão durável!

Caríssimos fiéis, a natureza dessa eternidade é tal, que sem ela nenhuma punição se julgaria severa, e com ela nenhuma se julgaria branda; não obstante, será este o sal que irá condimentar as penas dos condenados, porquanto os anos de torturas serão tão numerosos quanto as estrelas brilhantes do céu, os grãos de areia da praia e as gotas d’água no oceano. E quando se houver esgotado este abismo de eras, será tão-somente o recomeço das dores. A roda irá girar infinitamente. Canta o salmista: “Como (um rebanho de) ovelhas são postos no inferno; a morte os apascenta” (Sl 48, 15). Os cordeiros pastam as folhas das plantas, mas não arrancam as raízes, de modo que as plantas cresçam novamente e por sua vez os tornem a alimentar. Assim será nas pastagens do inferno, onde se acharão os rebanhos dos condenados, o pasto dos tormentos e a Morte, o pastor da manada. A Morte conduzirá os condenados aos pastos, onde pastarão tormentos para sempre; a forragem nunca acabará, nem o cálice do Senhor, que terão de beber, esgotar-se-á. Enquanto o Reino dos Céus existir, as masmorras infernais perdurarão; enquanto os bem-aventurados regozijarem, os condenados padecerão; enfim, enquanto o próprio Deus viver, no inferno os réprobos morrerão. A não ser que Deus deixe de ser o que Ele é, não cessarão eles de ser o que são. Ó vida de morte, ó morte imortal! Que nome afinal te daremos a ti, Morte ou Vida? Se és vida, porque matas? Se morte, porque deves perdurar? Não nos é lícito chamá-la nem morte nem vida, pois que cada um desses estados comporta algum bem: a Vida tem sossego, e a Morte tem um fim – mas tu não terás sossego e nem um fim. Que diríamos que és tu, senão a totalidade do mal contido na vida e na morte? Da morte herdaste o tormento, e da vida a duração. Verdadeiramente, despojou Deus a vida e a morte do bem que nelas havia, e o que sobrou Ele colocou em ti! Ó poção envenenada, ó droga amarga! Todos os pecadores hão de tragar o cálice do Senhor!

Caríssimos irmãos, decerto seria algo excelente se pudéssemos entender um pouquinho que fosse a eternidade das penas, pois essa meditação por si só – qual uma rédea – refrearia toda a nossa luxúria e moderaria as nossas vidas, de forma que todos nos pareceríamos não apenas cristãos, mas monges e anacoretas santíssimos! Pensai na cruz que um homem acometido dalguma moléstia suportasse no decorrer duma única noite.  Quantas vezes não irá revirar-se daqui para acolá? Quão longa não lhe parecerá a noite! Quantas vezes conta as horas, e qual a duração de cada uma, segundo o julgamento dele? Que ansiedade não o acometerá à luz da alvorada! Quantas vezes se indaga quanto já se passou da noite e se o arrebol não tardará a aparecer! Se tal aflição nos parece enorme, qual não será a aflição dos que se deitarão não em leito macio, mas em labaredas ardentes e resplendentes, no decorrer duma noite sem aurora nem esperança de dia? Ó escuridão profundíssima! Ó noite, eterna noite! Ó noite, que a boca de Deus em pessoa amaldiçoou! Ó noite, que não há de ver o arrebol nem o esplendor da alvorada!

Caríssimos irmãos, se o mero pensamento dessa eternidade nos terrifica a nós, que será não [apenas] contemplá-la, mas abismar-se realmente nas penas eternas? O tormento eterno é uma coisa tão horrenda que, se tal pena incidisse apenas num só dos filhos de Adão, todos teríamos motivos para temer e tremer. Por que então não ficamos comovidos, quando sabemos com toda a certeza que o número dos tolos é infinito; quando sabemos que o caminho que nos conduz à vida é estreito e poucos são os que o encontram, e que o caminho da perdição é largo e muito são os que o percorrem [Mt 7, 13]? Se não acreditamos nessas coisas, onde está a nossa fé? Se acreditamos nelas, onde o [nosso] bom senso? Se temos boa cabeça e damos crédito às Escrituras, como é possível que ainda estejamos adormecidos, quando um perigo tão horrendo paira sobre nós? Como é possível que ainda nos agradem a bebedeira e a libertinagem, que ainda nos deleite a vida indolente? Por isso, cobremos ânimo. Sacudamos o torpor em alguma hora, para que assim alcancemos as dádivas da graça aqui nesta terra e depois da morte, na glória do Senhor, que para sempre seja santificado. Amen.

(Traduzido por Permanência a partir da tradução americana. Hell and its torments, TAN Books and Publishers, Inc; Rockford, Illinois, 1990.)

  1. 1. São Roberto Belarmino proferiu este sermão ante uma congregação, cuja maioria esmagadora era de universitários católicos; por isso, não havia necessidade de ressalvar as observações com as óbvias advertências da teologia católica, que aqui estão entre chaves. – N. do Editor do original.
  2. 2. Idem.
  3. 3. Negotium, negócio; de nuga, ninharia – N. do Tradutor do original.

Sermão da Sexagésima

Pregado na Capela Real, no ano de 1655.

 

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e: propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar,não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim arguis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gé neros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-seão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

 

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregandome a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

 

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.

Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

 

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que saneia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demónios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de pinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?

 

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?

 

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

 

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.

Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vedeo no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.

 

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

 

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

 

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»

Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum. 

O reinado social de Cristo no Brasil pela Eucaristia

D. José Pereira Alves

Conferência realizada em Buenos Aires

 

O nosso Brasil é uma pátria eucarística. Deus lhe concedeu essa predestinação histórica. A sua vocação cristã não foi apenas assinalada pela cruz erguida na terra virgem. Nas mãos de Frei Henrique de Coimbra, sob a verde umbela da mata rumorosa e selvagem, na primeira Missa da descoberta, a hóstia divina pairou como uma bandeira viva de Cristo proclamando a posse sagrada do território. Nosso Senhor armava na região desconhecida o seu pavilhão eucarístico. Alçava o pendão de sua realeza. O Brasil recebia o seu batismo na pia do altar. Desde aquele instante supremo seria o país do Coração Eucarístico, o Tabor do S. S. Sacramento.

A sua configuração geográfica seria quase a forma de um coração.

Cruzes e corações se encontrariam incrustados nos exemplares de sua flora e nas estrelas do céu. Deus o escolhera para ser o soldado do seu tabernáculo e arauto do Rei de Amor.

O culto da Eucaristia se irradiou por toda a nacionalidade com a aurora profética da primeira Missa.

O Cristo prometia a si mesmo operar uma nova transfiguração.

O Brasil se transfiguraria pela adoração e pelo amor da Hóstia Santa numa apoteose perene ao Cristo, Rei das nações que Ele recebeu em herança. Estão aí presentes em toda a sua visibilidade histórica os documentos desta fé eucarística que produziu, em nossa terra e sociedade, o milagre de uma unidade espiritual que serve de base indestrutível à unidade geográfica, racial e social de todo o nosso imenso país.

São os monumentos, as igrejas eretas desde o período colonial para a glória da Eucaristia. Há capitais, como Recife, em que as matrizes primeiras foram dedicadas ao S. S. Sacramento. Nas menores paróquias eram reservadas capelas especiais e mais ricas, as capelas do Santíssimo. O ouro, a prata, pedras preciosas enriquecem e constelam cálices, ostensórios, sacrários, altares, candelabros, lampadários-trabalhos riquíssimos de ourivesaria de talha, estatuária-primores de uma velha arte, saturada de inspiração religiosa e de piedade eucarística.

As belas artes se encontraram em piedoso rendez-vous para perpetuarem, através do tempo, a imortalidade da devoção nacional ao Deus velado no silêncio augusto da vida eucarística.

Em palanquins dourados ia o Viático, escoltado e seguido de multidão devota, aos moribundos ou sob umbelas vermelhas, o sacerdote a pé ou a cavalo, conduzia o Pai Nosso, como o povo ainda chama com ternura, ao Senhor, pelas fazendas, sítios agrestes, lugares rurais.

As festas do S. S. Sacramento sempre foram no Brasil custeadas por inúmeras confrarias e irmandades e pelo povo, festas excepcionais pelo esplendor do culto, pela afluência extraordinária, pelas procissões esplêndidas e triunfais, sempre coroadas por soleníssimo Te Deum.

E tão tradicionais o foram que municipalidades, como a Edilidade de S. Salvador da Baia, conservaram como uma honra celebrar com pompa, às expensas públicas, as solenidades do Corpo de Deus, mesmo depois da separação da Igreja do Estado. Tanto é verdade que a Nação só a contragosto se via oficialmente longe do altar!

Todas essas manifestações eloquentes do culto externo eram e ainda são expressões altissonantes do sentimento profundo dos brasileiros em relação à Sagrada Eucaristia.

Com a devoção à Virgem Santíssima da Conceição freme no sangue, na alma da raça, o amor crescente ao S. S. Sacramento, herança dos mártires.

Para citarmos apenas uma lembrança dos tempos da colônia, evoquemos tão somente o sangue do horrível morticínio de 3 de outubro de 1645 em Urussú, Estado do Rio Grande do Norte, em que os heróis da fé no Senhor Sacramentado eram trucidados e morriam gritando: “Louvado seja o S. S. Sacramento! ” Crônicas antigas nos falam da música celeste dos aromas do incenso e da conservação maravilhosa dos corpos dos cristãos, vítimas imoladas pelo furor herético e pagão, sementes eucarísticas de uma grande cristandade, consagrada ao Divino Coração Eucarístico.

Regada por um sangue tão generoso, cultivada com toda a solicitude pela ação missionária de Portugal bandeirante e católico, a árvore nacional não podia deixar de crescer, frondejar e produzir os mais abundantes frutos de vida eucarística, transformando o Brasil, como é hoje, um imenso altar do Coração Eucarístico.

A todas aquelas aparatosas manifestações do culto eucarístico de que tivemos ocasião de evocar, correspondiam já desde a época colonial o espírito de adoração eucarística, a oração do tabernáculo, a ascensão de almas, vítimas de amor. Já em 1750, um filho do nordeste brasileiro, o alagoano Felix da Costa, varão de grandes virtudes, fundava o Santuário Eucarístico de Macaúbas, hoje na Arquidiocese de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, recolhimento de religiosas clausuradas, consagradas à adoração do S. S. Sacramento, nesse laus perene brasileiro que é uma glória secular da nossa vida católica. É aí que o Cristo Redentor e Salvador, adorado e amado por almas virgens, simples e abrasadas de amor, recebia o beijo silencioso e a súplica incessante da alma cristianíssima da Pátria.

Desse cimo espiritual desceria a Benção eucarística da renovação social da nossa terra como uma aurora das apoteoses nacionais ao S. S. Sacramento.

Com o despertar religioso provocado pelo grito libertador da seráfica e heroica figura de D. Frei Vital Maria de Oliveira, com o rejuvenescimento das ordens religiosas e dos seminários e renascimento da vida paroquial, a organização da catequese infantil e a fundação de associações católicas, imunes da contaminação maçônica, a vida eucarística nacional começou a tomar um desenvolvimento prodigioso que se tornou universal e profundo em todo o país, graças especialmente à instituição providencial do Apostolado da Oração, que popularizou e intensificou com a Missa da primeiras sextas-feiras, a adoração solene e as comunhões reparadoras, à Devoção ao Sagrado Coração de Jesus e deu a todas as suas festas um cunho altamente eucarístico. O povo brasileiro, em décadas sucessivas, ficou saturado de amor pelo Coração Divino que nos deu o presente supremo da Eucaristia.

Pois bem, essa saturação eucarística, ao impulso vigoroso da hierarquia, guiada por esse bispo providencial — o Bispo da Eucaristia —, como o chama o povo, que é o nosso querido Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, essa saturação de amor transbordou na vida pública e social do Brasil, como uma torrente restauradora da consciência, mesmo política, da nossa pátria cristã. Os grandes Congressos Eucarísticos, como o de São Paulo em 1915, o inesquecível Congresso Nacional do Centenário, em 1922, e o recente e extraordinário Congresso Eucarístico Nacional de S. Salvador da Bahia, promovido com enorme brilho pelo Exmo., Primaz do Brasil e presidido pelo Eminentíssimo Legado Pontifício, o Sr. Cardeal Dom Sebastião Leme, tem sido no Brasil verdadeiros “pentecostes” de graças e retumbantes e profundos plebiscitos de amor ao Deus escondido, à Hóstia Divina dos nossos altares.

As semanas eucarísticas se sucedem em todas as dioceses com uma intensa repercussão espiritual. Hoje, pode dizer-se que não há solenidade, semana católica ou congresso que não culmine numa afirmação de fé na Eucaristia.

Esse movimento ascensional para o sacrário arrastou e arrasta multidões nos retiros, nas missões populares, é a alma das organizações paroquiais e se constitui sangue de toda a circulação religiosa brasileira.

As Horas Santas são hoje ansiosamente frequentadas pelo povo nas mais modestas paróquias do interior e, em muitos lugares, inúmeras velas, símbolos de favores alcançados estrelam as noites eucarísticas.

As classes superiores foram também dominadas pelo Cristo do tabernáculo. Nas capitais e cidades importantes, sobretudo na metrópole do Rio de Janeiro, num crescente edificante, centenas de intelectuais, homens de cultura geral e especializada, professores eminentes e estudantes das Escolas Superiores se aproximam da mesa da Santa Comunhão: é a Páscoa da inteligência.

As classes armadas, em verdadeira parada de fé, depõem cada ano suas espadas aos pés do altar do Cordeiro e em linhas de paz e de amor bebem a força, a coragem e o sacrifício no cálice eucarístico da redenção.

Essas páscoas benditas se renovam em vários setores da vida social, da vida brasileira. É um movimento consolador.

S. Eminência, o Sr. Cardeal D. Sebastião Leme pondo uma cúpula monumental sobre estas colunas erguidas pelo espírito nacional criou a corte suprema do Rei do amor: A Adoração Perpétua Nacional, no templo de Santana. E já hoje na Bahia e em São Paulo se instalam outras cortes perpétuas, em que é adorado e servido o Divino Senhor dos corações.

Diante desse panorama eucarístico não há senão exclamar: Cristo reina na sociedade brasileira pela Eucaristia.

A Eucaristia é a chave do nosso progresso na hierarquia, pela multiplicação rápida de nossas dioceses e pelo esplendor e fecundidade de nosso cardinalato, cuja púrpura é o cérebro de nossa irradiação espiritual, e nossa ação católica é o segredo de nossa expansão de vida interior e sobrenatural, não só em nossas comunidades religiosas, seminários e colégios, mas na floração exuberante de nossos grupos católicos na rede, hoje, tão alargada de nossas associações e obras de interesse espiritual, na coordenação de todos os valores da Santa Igreja no Brasil. É ela ainda que anima, encoraja e informa o esforço de tantos católicos que pelejam pelo Reino de Cristo com as armas da luz e da inteligência, da palavra e da pena, da ação cultural e do rádio.

Na sua tese recente sobre LES RENOUVEAU RELIGIEUX D’APRÉS LE ROMAN FRANÇAIS, Mme. Elisabete M. Frazer oferece uma contribuição importante ao estudo desse fenômeno contemporâneo que é o ressurgimento católico da mentalidade cultural.

Já hoje a Religião não é apenas considerada como uma organização social admirável, uma força de disciplina humana. Ela surge no romance, na literatura, com um aspecto do mistério e do sobrenatural.

A guerra fez a humanidade pensar no além diante das ruínas acumuladas nessa horrível tragédia da História.

Esse renascimento mundial do pensamento religioso não podia deixar de ter extensa repercussão na sociedade brasileira. Encontrou felizmente o movimento católico desencadeado pela Igreja nas massas e nas elites sob a forma providencial da ação eucarística no indivíduo, na família, nos grupos organizados e nas multidões pelas grandiosas manifestações de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo no S. S. Sacramento.

Os homens católicos de pensamento, a mocidade católica que estuda e os expoentes de várias classes sociais são hoje sentinelas do Sacrário e apóstolos da Realeza Eucarística de Jesus.

Foi assim que se preparou esse magnífico estado d’alma que nos permitiu a vitória apolítica, consagrando a Constituição de 16 de julho, arejada de espírito cristão, que pôs a sua confiança em Deus, nos deu o Ensino Religioso, o Matrimônio indissolúvel, a assistência às Forças Armadas, o serviço militar eclesiástico sob a forma hospitalar, e criou no Direito Internacional o princípio novo da colaboração da Igreja e do Estado, apesar da separação; em suma, consagrou as aspirações cristãs da Liga Eleitoral Católica, constituída pelo Episcopado Nacional com um caráter supra e extra partidário, visando apenas o Reinado Social do Rei do Amor, na pátria brasileira.

Cristo reina e reinará no Brasil.

Cumpre-nos, a nós, soldados de Cristo, defender por todas as formas da Ação Católica, conservar o patrimônio eucarístico da pátria pela educação eucarística da nossa infância no lar, no templo, na escola, pela formação eucarística de nossa mocidade, pela penetração eucarística cada vez mais profunda da mentalidade nacional.

No obelisco de São Pedro se leem estas esplêndidas palavras de Sisto V: Cristus vincit, regnat, imperat, ab omni malo plebem suam defendat.

Já não será nos granitos do Corcovado, mas no Coração vivo da Pátria Eucaristica que escreveremos aquelas palavras: Cristo vence, reina e impera, defende de todo o mal o seu Brasil.

Desta gloriosa e hospitaleira Argentina, Grande Dama-Nobre de Cristo, transformada nestes dias magníficos na Metrópole Eucarística da Cristandade, no Ostensório do mundo, voltaremos incendidos da Divina Caridade, com a bênção maternal da Virgem de Lujan, Padroeira do Congresso, e apaixonados pela salvação de nossa pátria, iremos realizar no Brasil os votos paternais do grande pontífice Pio XI, expressos no último telegrama ao Presidente Justo: conseguir que o Evangelho de Cristo seja a inspiração na vida de todos os povos de maneira que todos possam gozar dos benefícios da paz e da Civilização cristã.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Não há amor maior

“O meu preceito é este: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Não há amor maior que dar a própria vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,12-14).

 

Nosso Senhor convida seus discípulos a entregar suas vidas a seu amigo. Ele, claramente, ensina que não há amor maior que esse. Seguindo Cristo crucificado, o sacrifício da vida inteira de uma pessoa por amor de Deus, nosso maior amigo, é a maneira mais perfeita de obedecer a Deus. Há muitas maneiras através das quais um homem ou mulher pode aceitar esse mandamento divino da caridade. A vida matrimonial pede, em algum grau, que os esposos sacrifiquem suas vidas por seus filhos e pelo cônjuge. Muitos vivem uma vida celibatária em continência perfeita no mundo, sacrificando suas vidas por alguma obra de caridade. Os soldados também, de uma maneira especial, sacrificam suas vidas pelo seu país. Porém, duas das maneiras mais perfeitas de “entregar sua vida” ao próximo são a vida religiosa enclausurada e a vida de um missionário. Esses dois estados de vida, em essência, construíram a Cristandade.

O missionário edifica a Cristandade de dentro para fora. Da ordem espiritual das almas advém a ordem necessária para o avanço material da sociedade. O verdadeiro objetivo de toda a atividade missionária é a santificação das almas. Apenas após estabelecer a prática geral da virtude, o missionário pode começar a ver os benefícios materiais da sociedade. Se o canibal não parou de comer seu próximo, ou se o bárbaro não parou de guerrear e pilhar os inocentes, não pode haver nenhuma harmonia real ou qualquer tipo de estrutura na sociedade. O pecado e o vício, que são frutos do amor-próprio desordenado, são os elementos mais poderosos de autodestruição em qualquer sociedade. A alma pagã deve, em primeiro lugar, reconhecer que Deus tem o direito de pedir a ele grandes sacrifícios na sua vida pessoal. Apenas então ele será capaz de pensar em seu próximo caridosamente.

É aqui que a vida contemplativa vem em auxílio do missionário. Nenhum ser humano pode entrar no coração do homem. A vida interior de uma alma pertence, exclusivamente, a Deus, nosso Criador. Pelo sacrifício de sua vida inteira, o religioso impetra a Deus pela salvação das almas. Através das orações e dos sacrifícios dos religiosos, Deus adentra a esterilidade da terra inculta das almas e dá-lhes sua graça, usando o missionário como seu instrumento. O missionário não pode adentrar a alma de seu fiel, tampouco pode o contemplativo, mas Deus, como Mestre daquela alma, tem direito de entrada.

Em 1985, Dom Marcel Lefebvre abençoou a clausura das irmãs carmelitas nos Estados Unidos. Em seu sermão, ele explicou a vida de um mosteiro carmelita: “O Carmelo é uma casa de sacrifício e oração”. A casa ilustra a vida comum dos religiosos contemplativos vivendo na “casa” de sua comunidade. O sacrifício de suas vidas inteiras é derramado ao pé da Cruz em união ao sacrifício de Nosso Senhor. Suas mortificações purificam não apenas as suas almas, mas as dos seus próximos. Suas orações são oferecidas pela glória de Deus e pela salvação das almas. Elas unem-se, intimamente, às orações dos padres missionários, quase compartilhando da oração do Pai mencionada pelo profeta Joel: “Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, postos entre o vestíbulo e o altar, e digam: Perdoa, Senhor, perdoa ao teu povo, e não deixes cair a tua herança em opróbrio, de sorte que as nações a dominem”

O Reino de Deus funda-se sobre esse espírito, sejamos nós leigos, religiosos ou missionários. Infelizmente, o mundo moderno, construiu a “Cidade dos homens decaídos” ao negar esses valores. A família moderna pode ter uma casa confortável como moradia, mas eles, frequentemente, não têm um lar familiar. A ideia do sacrifício foi eliminada de suas confortáveis vidas, nas quais o prazer é o único objetivo real de sua existência. A oração foi substituída por reclamações, desespero e uma espécie de zombaria de Deus. Nossa sociedade moderna construiu uma civilização sobre as ruínas da noção católica de Cristandade. Estabelecemos uma morada confortável na qual os pais abortam seus filhos e praticam eutanásia para matar seus próprios pais, na qual a sensualidade do prazer pessoal é o ponto de referência para todas as decisões a serem tomadas, e na qual uma blasfêmia desesperadora zomba de nosso Criador. A “casa de sacrifício e oração” tornou-se um “abrigo de sensualidade de blasfêmia para os desabrigados”.

Nosso Senhor ensina que o Reino de Deus está dentro de nós. Ele também nos ordena buscar, primeiro, o Reino de Deus, e todas as outras coisas nos serão dadas. Para a reconstrução da Cristandade, devemos, primeiramente, estabelecer Nosso Senhor como Rei de nossas almas, tornar-nos seus amigos e entregar nossas vidas a Ele. Devemos viver continuamente na sua “casa de sacrifícios e orações”.

A Cristandade, ou o reino espiritual, é a real edificação da civilização. “Santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita Vossa vontade assim na terra como no Céu...”

(Revista The Angelus, Julho-Agosto de 2020. Tradução: Permanência)

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