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Category: Crise da IgrejaConteúdo sindicalizado

A grande traição: a mentalidade católico-liberal

Outubro 22, 2016 escrito por site_permanencia

Dom Marcel Lefebvre

Reconciliar a Igreja com a Revolução: tal é a empresa dos liberais que se dizem católicos.

Os liberais que se dizem católicos sustentam que a doutrina católica do Reino Social de Nosso Senhor Jesus Cristo e da união da Igreja com o Estado é sem dúvida verdadeira, mas inaplicável mesmo nos países católicos:

·  Na teoria, pode-se aceitar a tese proposta pelos Papas e teólogos.

·  Na prática, deve-se ceder ante as circunstâncias e resolutamente aderir à hipótese: promover o pluralismo religioso e a liberdade de cultos:

Os liberais católicos não têm deixado de sustentar que desejam a ortodoxia tanto quanto os mais intransigentes, e que sua única preocupação são os interesses da Igreja: "a reconciliação que procuram não é teórica nem abstrata, mas somente prática”[1]

"Roma perderá a Fé"— 170 anos de La Salette

Relativamente à aparição da Santíssima Virgem em "La Salette", como a qualquer outra manifestação do Céu sobre a terra, nossa curiosidade humana procura saber o que o Céu foi levado a dizer à terra. Mas é antes o atrativo do divino e a solicitude com a nossa santificação que nos deveria impelir a conhecer estas revelações. Por isso, daremos, duma parte, "in extenso", as revelações feitas por Maria a 19 de setembro de 1846, em La Salette, doutra parte esperamos que tendo sido a inteligência instruída com estas coisas, a vontade será então fortificada, para que daí venha a santificação das almas: é o objetivo de Nossa Senhora, o qual deve ser o nosso. Que os curiosos sem desejo de santidade se abstenham de continuar a ler, pois se arriscariam de não compreender a Santíssima Virgem; os que, porém, querem se santificar que tirem proveito disso.

A 19 de setembro de 1846, duas crianças, Maximino Giraud e Melânia Calvat, originário de Corps no departamento de Isère, na França, guardam as suas vacas nos arredores do lugarejo de La Salette. Eis aqui o que Melânia escreverá desde 1860 e que publicará em 1875, com o "imprimatur" de Dom Zola, bispo de Lecce na Itália. Aí ela confia o texto do seu segredo que havia escrito e transmitido, como Maximino fizera com o seu, ao Papa Pio IX, em julho de 1851. Leia mais

Enfim, o cisma

Dom Lourenço Fleichman OSB

Em 1976, amigos franceses enviaram a Gustavo Corção notícias de um bispo italiano que escrevera para seus padres e fiéis denunciando o comunismo. Os amigos que enviaram a auspiciosa notícia ao jornalista e escritor católico estavam entusiasmados com a novidade, achando que aquela reação podia significar uma mudança de ares na Igreja.

Gustavo Corção escreveu sobre o fato um artigo em que mostrava aos seus amigos e leitores que o entusiasmo não era cabível. Antes de mostrar quão superficial era a crítica do bispo ao comunismo, Corção explicou:

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Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Devemos fazer proselitismo?

Pe. Bernard de Lacoste, FSSPX

 

O Papa Francisco frequentemente e com muita energia condena o proselitismo dos católicos. Esse tema volta e meia reaparece nos seus comunicados orais e escritos. Por que uma tal insistência? Qual é a doutrina católica nessa matéria?

 

1. O sentido da palavra proselitismo

O termo deriva de “prosélito”, que etimologicamente significa “recém vindo a um país estrangeiro”. Essa palavra é usada na Bíblia para designar os gentios ou não-judeus que viviam de modo estável com o povo de Israel, e tinham o propósito de entrar na Aliança e observar a lei de Moisés. Daí, passou para a linguagem cristã. O proselitismo é a atitude daqueles que buscam converter os demais para a sua fé. Nos nossos dias, o termo adquiriu uma conotação negativa e designa um comportamento frequentemente agressivo, desprovido de respeito pelos outros. É assimilado a uma propaganda intempestiva e mesmo a uma certa violência destinada a fazer novos adeptos. O uso corrente da palavra nos leva a fazer as distinções seguintes:

Quanto ao modo, é preciso distinguir um bom proselitismo, que usa da mansidão e busca convencer respeitando a liberdade do interlocutor; e o mau proselitismo, agressivo, violento e ameaçador.

Quanto ao fim procurado, deve-se distinguir entre o proselitismo louvável, que visa o bem da pessoa; e o condenável, que procura explorar o próximo em proveito de uma seita.

É evidente que os dois significados negativos do termo (quanto ao modo e quanto ao fim) não correspondem ao espírito católico. Todo católico deve rejeitar esses proselitismos. O espírito missionário se inspira na caridade teologal e rejeita a agressividade sectária.

Mas, para além dessa conotação pejorativa, compreendido como uma simples tentativa de convencer alguém a se tornar católico, com o recurso de argumentos racionais; esse comportamento é católico? O Papa Francisco responde negativamente, como demonstram as citações abaixo.

 

2. O que diz o Papa Francisco

No avião, retornando de Bangladesh, no dia 2 de dezembro de 2017, o papa disse: “A paz começa a se romper neste campo quando começa o proselitismo. E existem tantos modos de proselitismo. Isto não é Evangelho”[1].

Durante as Jornada Mundial da Juventude, na Cracóvia, um jovem o interrogou sobre a conduta que deveria ter com um bom amigo ateu, “o que devo fazer para mudá-lo, para convertê-lo?”. O papa respondeu-lhe prontamente: “A última coisa que tu deves fazer é dizer algo. Tu vives o Evangelho e se ele te perguntar porque fazes isto, podes explicar a ele porque o fazes e deixe que o Espírito Santo o atraia”[2] A conversão só pode vir da “força e da mansidão do Espírito Santo”, e não de uma tentativa de “convencer mentalmente, com apologética, razão”.

O Papa Francisco declarou também, na Conferência de Imprensa de 21 de junho de 2018: “no movimento ecumênico, devemos tirar do dicionário uma palavra – proselitismo. É claro? Não pode haver ecumenismo com proselitismo, é preciso escolher: ou és de espírito ecumênico, ou és um ‘proselitista’”[3].

Do mesmo modo, em Marrocos, 31 de março de 2019: “Os caminhos da missão não passam pelo proselitismo, que sempre leva a um beco sem saída [...] A Igreja cresce não por proselitismo, mas por testemunho”[4].

No seu discurso de maio de 2019, o papa alertou para uma confusão possível entre evangelização e proselitismo. “Evangelização é testemunho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. É Ele quem atrai [...] Não é procurar novos sócios para esta “sociedade católica”, não, é mostrar Jesus; que Ele se mostre na minha pessoa, no meu comportamento; e abrir espaços a Jesus com a minha vida.”[5]

A evangelização liberta, enquanto o proselitismo faz perder a liberdade, afirmou o papa em setembro do mesmo ano[6].

Não se trata de um ensinamento novo. Bento XVI, numa homilia de 13 de março de 2007, no Brasil, disse: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’: como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”[7].

Em 1986, João Paulo II se dirigia nesses termos aos participantes de um colóquio teológico judaico-cristão: “Vosso colóquio pode ajudar a evitar o erro do sincretismo, a confusão da nossa identidade recíproca de crentes, a sombra e suspeição de proselitismo. Efetivamente, levais adiante as perspectivas do Concílio Vaticano Secundo, que também tem sido o tema dos documentos posteriores da Comissão da Santa Sé pelas relações religiosas com o judaísmo”[8]. Também escreveu em 28 de junho de 2003: “Ao mesmo tempo, desejo uma vez mais asseverar aos pastores, aos irmãos e irmãs das Igrejas Ortodoxas que a nova evangelização não deve de modo algum ser confundida com o proselitismo, sem com isto negar o dever do respeito da verdade, liberdade e dignidade de cada pessoa”[9].

Essas citações mostram que o Papa Francisco, na mesma linha dos seus dois predecessores, não se opõe à evangelização. Ele encoraja mesmo os católicos a serem missionários, como se lê em Evangelii Gaudium (cap. 5), mas compreende o termo evangelização em sentido restrito: mostrar o exemplo de vida católica, ser um testemunho do Evangelho por seu comportamento. Em revanche, não quer que os católicos lancem mão de argumentos para convencer os não-católicos a abraçarem o catolicismo. Em outros termos, se alguém quer se converter ao catolicismo, o processo tem de ser espontâneo, sem que algum católico o tenha ocasionado por meio de uma discussão. O uso da apologética para favorecer uma conversão é condenado.

Assinalemos que o Papa João Paulo II foi mais longe ao condenar não apenas a tentativa de conversão por meio de argumentos apologéticos, mas mesmo toda a tentativa de conversão no que concerne os judeus: “Cada uma de nossas religiões [católica e judia], na plena consciência dos laços que as unem, e em primeiro lugar aquele laço de que fala o Concílio, quer ser reconhecida e respeitada na sua identidade própria, para além de todo sincretismo e de toda apropriação equívoca”[10]. Diz ainda aos judeus: “Sim, por meio da minha voz, a Igreja Católica, fiel ao que o Segundo Concílio Ecumênico do Vaticano declarou, reconhece o valor do testemunho religioso do vosso povo”[11]. “Será necessário precisar, sobretudo para aqueles que se mantém céticos, e até mesmo hostis, que esta aproximação não há de confundir-se com certo relativismo religioso e menos ainda com uma perda da identidade? [...] Deus conceda aos cristãos e aos judeus encontrarem-se mais, realizarem trocas em profundidade e a partir da identidade de uns e de outros, sem nunca a obscurecerem de nenhum lado, mas procurando verdadeiramente a vontade de Deus que se revelou!”[12]

Bento XVI diz exatamente a mesma coisa aos judeus: “mesmo nos aspectos que, em virtude da nossa íntima convicção de fé, nos distinguem uns dos outros aliás, de forma específica em tais aspectos devemos respeitar-nos e amar-nos reciprocamente”[13].

 

3. Aplicação prática

Esse ensinamento dos papas recentes não ficou apenas na teoria. Foi posto em prática no apostolado. Já em 1993, os representantes da Igreja católica se comprometeram a não procurar a conversão dos cismáticos ortodoxos. Eis o que a Santa Sé assinou nos acordos de Balamand (no. 22): “Nós o rejeitamos [o uniatismo] como método de procura da unidade. (...) A ação pastoral da Igreja católica, quer latina, quer oriental, não procura mais fazer com que os fiéis passem de uma Igreja à outra; em outras palavras, não visa mais o proselitismo entre os ortodoxos. Visa responder às necessidades espirituais dos seus próprios fiéis e não tem nenhuma vontade de expansão às custas da Igreja ortodoxa”[14].

A mesma prática foi ensinada com respeito aos judeus: não se deve mais buscar convertê-los ao catolicismo. É o que lemos no documento da Comissão pelas relações religiosas com o judaísmo, datado de 10 de dezembro de 2015: “A Igreja católica não conduz e não promove nenhuma ação missionária institucional específica em direção dos judeus”[15].

Está claro: ainda que haja um testemunho, não é para converter.

 

4. Uma insistência impressionante

Se proselitismo é algo bem comum entre os muçulmanos ou entre as seitas, não é entre os católicos do século XXI, donde uma legítima interrogação sobre a pertinência das proposições do papa. O vaticanista Sandro Magister observa com exatidão: “Se por ‘proselitismo’, o Papa Francisco entende uma atividade missionária exercida de modo exagerado, forçado, que se mediria pelo número de novos batizados, onde terá ele encontrado algo do tipo para classificar como um real ‘perigo’ ‘ressurgindo’ no seio da Igreja católica? Mistério. Porque, se há uma realidade incontestável na Igreja desses últimos cinquenta anos, não é o excesso, mas antes o colapso do esforço missionário.”

 

5. Um ensinamento que não é católico

O termo proselitismo não é usado habitualmente na Igreja. Fala-se antes em espírito missionário ou apostolado. Mas, se considerarmos a realidade designada por essa palavra, é fácil constatar que o proselitismo foi praticado por muitos santos. Pensemos, por exemplo, no século II d.C., em São Justino, espírito aberto e conhecedor das filosofias do seu tempo. Após sua conversão ao cristianismo, usou de toda a sua energia, pela palavra e pela pluma, para converter os não-cristãos, notadamente os judeus, à religião de Cristo. Basta ler o seu Diálogo com o judeu Trifão para constatar com que ardor argumenta a fim de convencer que apenas a religião católica é a verdadeira. Ele foi detido em Roma por seu proselitismo e executado no ano 166, pois não queria renegar a sua fé. Mencionemos também São Francisco de Sales que, por seu proselitismo, converteu a quase totalidade da província do Chablais, que era protestante, ao catolicismo. E que dizer dos santos Martinho, Bonifácio, São Francisco Xavier, Pedro Canísio, Josaphat etc? Conta-se que São Domingos, em 1204, foi confrontado no Languedoc com a heresia albigense. Sentia-se tomado de uma profunda compaixão por aquelas almas abusadas, que marchavam para a perdição eterna. Uma noite, numa hospedaria de Toulouse, compreendeu que o estalajadeiro era cátaro. “Domingos soube consertar essas inconsequências e confusões. Com força, discutiu sem fraquejar. Com amor, soube persuadir. O homem não pôde resistir ao Espírito que falava por aquela boca de tanta convicção. Ao raiar do dia, aceitou a luz. Domingos partiu feliz de ter ganho um irmão, transtornado pelo contato íntimo com a heresia, entusiasmado com esse primeiro sucesso apostólico para além das fronteiras da sua Castela”[16]. É de temer que o Papa Francisco condene o zelo de São Domingos pela conversão das almas.

 

6. O que diz Santo Tomás?

Ao se interrogar sobre os debates públicos entre católicos e hereges, o Doutor Angélico escreve: “Não se deve discutir sobre os artigos da fé, como duvidando deles; mas para manifestar-lhes a verdade e refutar os erros. Por isso é necessário, para a confirmação da fé, disputar às vezes com os infiéis; ora, defendendo a fé, conforme aquilo da Escritura: Sempre aparelhados para responder a todo o que vos pedir razão daquela esperança que há em vós. Ora, para convencer os errados, segundo ainda a Escritura: Para que passa exortar conforme à sã doutrina, e convencer aos que contradizem”[17].

Santo Tomás, eco fiel da Tradição, reconhece aqui a legitimidade da discussão e do debate com o fim de convencer o herege da verdade do catolicismo.

 

7. O que diz o Magistério da Igreja?

O Papa Pio XI em Mortalium ânimos, mostrou que o único ecumenismo católico é aquele que consiste não em um diálogo inter-religioso mutuamente enriquecedor, mas no zelo pelo retorno dos desviados ao único aprisco: “não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.”[18]

E São Pio X escreveu na Carta ao Sillon, em 1910: “... se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções errôneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar”[19].

Esse ensinamento se funda em uma verdade que os papas sempre recordaram, e sobre a qual Pio IX muito insistiu: “Conhecemos perfeitamente o dogma católico, a saber, que fora da Igreja ninguém pode ser salvo”[20]. É essa convicção que levou os apóstolos e, após eles, milhares de católicos, a evangelizar os infiéis, a arriscar suas vidas e mesmo de derramar seu sangue para tirar os desviados dos seus erros e lhes transmitir o ensinamento da Igreja. Tal foi a resposta a ordem de Cristo: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei.”[21]

 

8. A fonte desse erro

A recusa de toda forma de proselitismo tem origem nos erros eclesiológicos do concílio vaticano II. Recusando o dogma “Fora da Igreja não há salvação”, os modernistas pretendem que “pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem”[22]. João Paulo II concluiu: “E no Espírito Santo, cada indivíduo, cada povo tornou-se — através da Cruz e da Ressurreição de Cristo — filho de Deus, participante da vida divina e herdeiro da vida eterna”[23]

Ao invés de dizer que a Igreja de Cristo é a Igreja católica, o concílio escreveu que a Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja católica[24], deixando entender que a Igreja de Cristo se estenderia para além da Igreja católica, de modo imperfeito, graças aos elementos de Igreja presentes nas outras confissões cristãs. Mencionemos, enfim, essa afirmação inaceitável do concílio: “O espírito de Cristo não se recusa servir-se delas [das Igrejas e comunidades separadas] como meios de salvação”[25].

Esses erros destruíram o espírito missionário. Se é possível salvar-se sem ser católico, para que se dar ao trabalho de buscar converter os infiéis? No máximo, ajudar o homem a tomar consciência da sua dignidade divina.

 

9. Conclusão

Se por proselitismo compreendemos o zelo ardente pela conversão das almas ao catolicismo, esse proselitismo é católico. É o espírito missionário. É o espírito dos apóstolos. É um efeito da caridade para com o próximo. Se o meu próximo está em erro e em vias de danação, farei tudo o que depender de mim para esclarecê-lo e reconduzi-lo ao bom caminho. Para tanto, rezarei por ele, darei bom exemplo e mesmo, ainda que desagrade ao Papa Francisco, buscarei falar-lhe e tentar convencer-lhe, com delicadeza e prudência, de que Cristo fundou uma única religião, fora da qual não há salvação.

 

(Courrier de Rome, nov/2021 - Tradução: Pemanência)

 


[2] Ibidem.

[10] Anzitutto, ciascuna delle nostre religioni, nella piena consapevolezza dei molti legami che la uniscono all’altra, e in primo luogo di quel “legame” di cui parla il Concilio, vuole essere riconosciuta e rispettata nella propria identità, al di là di ogni sincretismo e di ogni equivoca appropriazione.

[16] M. H. Vicaire, Histoire de saint Dominique.

[17] Suma Teológica, IIa. IIae, q. 10 art. 7 ad 3. (http://permanencia.org.br/drupal/node/4764)

[19] Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, 25 de agosto de 1910.

[20] Encíclica Quanto Conficiamur, 10 de agosto de 1863.

[21] Mt 28,19.

[24] Lumen Gentium no. 8.

[25] Unitatis Redintegratio no. 9.

Um critério e uma palavra

Gustavo Corção

Nos textos do Concílio Vaticano I que transcrevemos nos últimos artigos -- e mais especialmente aquele que trata da infalibilidade, e da autoridade ensinante da Igreja e do Sumo Pontífice, vimos bem realçado um bom critério, com que se reconhece entre todas a voz da Igreja de Cristo, e com o qual qualquer fiel, pela infalibilidade natural da razão nos seus primeiros princípios e até o nível do senso comum nos mais próximos e evidentes corolários poderá discernir a santa doutrina da "outra", e obedecer ao enérgico conselho do Apóstolo que manda repelir os pregadores de "outro evangelho", sejam eles apóstolos, papas ou anjos (Gl 1, 8).

Este critério é o seguinte: só se reconhece a voz da Igreja, e só se reconhece a autenticidade de seu ensino e portanto o valor benéfico e salvífico de qualquer ato de sua hierarquia, onde a idéia de continuação de uma identidade tiver claro realce, ou pelo menos não for obscurecida e até contrariada pela idéia de uma inovação. Retomemos por exemplo o texto do cap. IV da Sessão IV do Concílio Vaticano I, onde se concentra o condicionamento e a definição da infalibilidade: "Pois, em verdade, aos sucessores de São Pedro não foi prometido o Espírito Santo para que propaguem uma nova doutrina segundo suas próprias revelações MAS PARA QUE COM SUA ASSISTÊNCIA GUARDEM santamente e exponham fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, isto é, o depósito da fé" (op. cit., pág. 492).

Ora, se percorrermos os mais significativos textos conciliares e pós-conciliares observaremos sem dificuldade que a idéia de inovação é obsessiva e define bem o espírito que as guiou.

Antes de exemplificarmos e de tirar consequências, insistamos no valor teológico, metafísico, e de senso comum de nosso critério. De início todos nós sabemos que as coisas criadas estão em constante movimento, sobretudo as coisas corpóreas, e por conseguinte, a mobilidade está mais do lado da matéria, enquanto a imutabilidade está no lado de Deus, no lado do espírito, e até no da forma inteligível das coisas deste inquieto mundo, ou deste "restless universe", como disse Max Born, prêmio Nobel de Física. Psicologicamente segue-se que a atitude de uma alma é tanto mais alta e mais sábia quanto mais procurar as coisas, e idéias imutáveis; e será tanto mais pueril, primitiva ou selvagem quanto mais vivamente se interessar pelas coisas móveis, por tudo que passa e que muda.

Ora, a tragédia de nosso tempo, decorrente de quatro ou cinco séculos de empirismo crescente, está no fato de ter atingido as cúpulas da Igreja o primado da novidade sobre o da perenidade. Creio que qualquer leitor já percebeu que dentro desta atmosfera é difícil falar de Deus, e que tudo convida a falar de evoluções e revoluções. Ou de nada: que é o grande assunto. 

Na Sagrada Escritura o termo novo tem um sentido de especial elevação quando se refere ao único necessário, que poderíamos chamar o único novo. Em três livros principais este termo significa a única grande coisa nova na história do mundo, antes da qual o amargo Dom de Ciência dos autores do Eclesiastes diziam: nihil novum sub sole, para marcar a melancólica monotonia de um universo em irresistível processo de envelhecimento.

Em contraste com o desprezo bem assinalado em toda a Sagrada Escritura pelas novidades menores que fazem comichões nos ouvidos e na alma, o termo novo tem uma sonoridade de anúncio do Céu quando o apóstolo grita: -- "Quem está em Cristo é uma nova criatura; o mundo antigo passou, eis que tudo é novo" (2Cor 5, 17). Em Isaías, em previsão do advento do Verbo, lemos: "Eis que eu crio um novo céu e uma nova terra" (Is 65,17); no Apocalipse, sempre com referência à segunda vinda de Cristo: "Vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido" (...) E o que estava sentado no trono disse: "Eis que faço tudo novo" (Ap 21, 1-5).

Não é preciso mais para bem assinalar o transcendente sentido do termo novo, e por isso mesmo, a severidade com que todas as grandes vozes católicas vêem o gosto de novidades nas coisas de Deus e de sua Igreja que vem mais do século e da matéria, do que de Cristo e do espírito.

***

Até aqui já estamos armados de um critério muito firme, e de um sinal muito significativo para demarcar a linha divisória que separa os que querem, a todo preço, guardar a Fé católica até o fim, dos que toleram ou até saboreiam as novidades que mais os prendem ao mundo ou à esteira dos acontecimentos do que à Cruz de Nosso Senhor. Em tempos tranquilos, ou relativamente estáveis que eu ainda alcancei nos dias em que a infinita misericórdia de Deus me devolveu a graça e os dons de meu batismo, dispúnhamos de sinais mais claros para discernir a voz da Igreja, sua doutrina, seus mandamentos e, para resistir às seduções do vozerio do mundo, tínhamos o critério tradicional da autoridade suprema da Igreja: "ubi Petri, ibi Ecclesia".

Quando porém o próprio papado se divide, como ocorreu nos tempos do grande cisma do Ocidente, ou quando o vértice da Igreja é atingido pelas tempestades do século, Deus não abandona seu povo aos caprichos de pastores desencaminhados, e com graças especiais guardará as almas que se prendem à santa doutrina tradicional, imutável, que foi assinada com o Sangue de nosso Salvador. Pela prática da oração, da meditação e da boa leitura teremos a alma dotada de fino ouvido para logo nos livrar dos primeiros pruridos do amor próprio, dos sopros do demônio, ou da propaganda do mundo. Esta é a idéia principal de nossa modesta contribuição de hoje. E agora ilustramos a teoria com um exemplo.

***

Temos aqui neste livro, Nuevas Normas de la Missa, editado pela B.A.C. em texto bilingue, Madrid, 1970, uma Constituição Apostólica assinada pelo Sumo Pontífice, que começa a apresentação do Novo Missal por esta referência àquele promulgado por São Pio V, que até poucos anos atrás era para nós a joia, o livro principal de nossa missa quotidiana. Começa assim a Constituição Apostólica: "O Missal Romano promulgado em 1570 por Nosso Predecessor São Pio V em continuidade com os decretos do Concílio de Trento, sempre foi considerado como um dos numerosos e admiráveis frutos que aquele Sacrossanto Concílio disseminou por toda a Igreja de Cristo. E durante 4 séculos (1570/1970) constituiu a norma da Celebração do Sacrifício Eucarístico para os sacerdotes de rito latino, e foi levado a quase todas as nações do mundo pelos arautos do Evangelho. Nem se deve esquecer que inumeráveis santos alimentaram a piedade e o amor de Deus com as leituras bíblicas e as orações do Missal cuja disposição geral remontava, no essencial, a São Gregório Magno...”

Neste ponto da leitura, minha filha parou, e com ar de admiração, perguntou-me:

-- Mas então por que é que substituíram essa joia por outro missal? Qual foi a razão principal alegada?

Na continuação da leitura veremos que foi alegada a conveniência de acomodar o novo missal à “mentalidade contemporânea”.

-- Hein? E o que é que se entende por “mentalidade contemporânea”?

-- Páginas adiante, 17 e seguintes, a mesma Constituição Apostólica nos dá amostra desse modelo a que se deveriam acomodar as normas do Sacrifício Eucarístico: “... vivamente confiamos que a NOVA ordenação do Missal permitirá a todos, sacerdotes e fiéis, preparar seus corações à Celebração da Ceia do Senhor com RENOVADO (?) espírito religioso e ao mesmo tempo sustentados por uma meditação mais profunda das Sagradas Escrituras (...). E nesta REVISÃO do Missal Romano, além das MUDANÇAS trazidas às três partes, à Oração Eucarística, ao Ordinário da Missa e ao Lecionário, outras seções foram também REVISADAS. Uma atenção particular se dedicou às orações (...) de modo que às NOVAS necessidades correspondam FÓRMULAS NOVAS...”

Com a palavra e o critério escolhidos por nós para esta análise, já sentimos o timbre de uma língua diferente daquela empregada por Pio IX, nos textos do Concílio Vaticano I. Cada vez mais brutalmente se configura diante de nossa consciência boquiaberta, o que já chamamos de tenebrosa evidência.

 

(19/8/76)

"Novidades conciliares": Dignitatis Humanae, Gaudium et Spes, Lumen Gentium cap. 3.

Dignitatis Humanae

Uma enésima reviravolta doutrinal aconteceu na declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa, na qual os Padres conciliares e os redatores do documento (sobretudo o jesuíta Courtney Murray, Mons. Pavan e o dominicano Hamer) proclamaram, em contradição patente com as condenações constantes da Santa Sé, que “a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa [...] de tal sorte que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra sua consciência, nem impedido de agir, dentro dos justos limites, segundo sua consciência, em privado ou em público, sozinho ou associado a outros.

“[O Concílio Vaticano II] declara que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana [...] Este direito [...] deve ser reconhecido de tal maneira que constitua um direito civil.”1

O documento conciliar afirma a seguir: “O direito à liberdade religiosa não é fundado numa disposição subjetiva da pessoa, mas em sua própria natureza”, razão pela qual este direito persiste “mesmo naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar a verdade e aderir a ela: seu exercício não pode ser entravado desde que a ordem pública esteja resguardada.”2

Dignitatis Humanae afirma então o direito a não ser impedido de professar publicamente e promover ativamente uma religião falsa, designando este direito como um direito inalienável fundado sobre a dignidade da própria natureza do homem.

É em sentido diametralmente oposto que o Magistério constante da Igreja sempre se exprimira, como resumiu o Papa Leão XIII: “Se a inteligência aderiu a opiniões falsas, se a vontade escolheu o mal e se apega a ele, nem uma nem a outra atinge sua perfeição, todas as duas decaem de sua dignidade nativa e se corrompem. Então não é permitido divulgar e expor aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar esta licença sob a tutela e a proteção das leis”3. O Papa Pio XII reafirmou também, pela enésima vez, nove anos apenas antes do início do Concílio Vaticano II, a eterna doutrina católica: “O que não corresponde à verdade e à lei moral não tem objetivamente nenhum direito à existência, nem à propaganda, nem à ação.”4

Segundo Dignitatis Humanae, ao contrário, até a seita dos “Filhos de Deus” (hoje “Família de amor”), que pratica a prostituição e a pedofilia; até os discípulos de seitas satânicas (com que lógica discriminá-los dos outros “portadores de direito”?), assim como qualquer outra pseudo “confissão religiosa” teriam o direito estrito de não serem impedidos de praticar o mal, desde que uma hipócrita “ordem pública” seja resguardada; dito de outro modo, basta-lhes a simples legalidade exterior, o beneplácito de um Estado agnóstico, ateu na prática. O documento insiste e precisa ainda, com inacreditável insolência, que “seria fazer injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus para os seres humanos recusar ao homem o livre exercício da religião na sociedade desde que a justa ordem pública seja resguardada”5 e “o poder civil [...] ultrapassa seus limites se atribui-se o direito de dirigir ou impedir os atos religiosos” (exteriores e públicos).6

Consequentemente:

Segundo Dignitatis Huamane a Santa Igreja Católica teria durante quase dois milênios feito “injúria à pessoa humana e à própria ordem estabelecida por Deus”, pois ela sempre negou, por um lado, o direito ao exercício público das falsas religiões e, por outro, sempre inculcou o princípio segundo o qual o Estado, dada a possibilidade de distinguir a verdadeira religião das falsas, tem o dever de apoiá-la e reconhece-la até juridicamente como a única verdadeira, além do dever de impedir o exercício público dos falsos cultos (que podem, no máximo e em certos casos, para evitar males maiores, serem apenas tolerados; o que se tolera continua a ser sempre falso e permanece um mal, enquanto o que tem direito só pode ser aquilo que tem caráter de verdadeiro e de bom).

Dignitatis Humanae promoveu o agnosticismo do Estado, isto é, o ateísmo prático do Estado, que não teria mais nenhum dever em relação ao verdadeiro Deus e à verdadeira religião, nem mesmo o de conformar suas leis com as de Cristo, já que deve permanecer – sempre segundo Dignitatis Humanae, naturalmente – acima dos partidos para garantir que “não ocorra nenhuma discriminação” entre os cidadãos por motivos religiosos.7

Mas – gostaríamos de perguntar à hierarquia “conciliar” fomentadora deste liberalismo “católico” – uma vez aprovado o agnosticismo-ateísmo de Estado, uma vez declarada a incapacidade ou incompetência presumida deste último para emitir julgamentos em matéria religiosa (e, portanto, para distinguir entre o erro e a verdade, e consequentemente também entre o bem e o mal), como se poderá pretender que este Estado garanta uma ordem pública justa?8

As contradições e absurdos de Dignitatis Humanae são evidentes e os resultados concretos e amedrontadores desta ideologia católico-liberal que os Padres do Vaticano II quiseram impor, em contradição com o Magistério eterno e para agradar ao “mundo moderno”, estão hoje sob os olhos de todos: o ateísmo laico do Estado, tão exaltado pelos “Padres conciliares” triunfa hoje por todos os lados, sabotando a Igreja, corrompendo as almas, destruindo – sempre com o discurso enganador e o sorriso nos lábios – a sociedade católica e as famílias através da pornografia distribuída a mão cheias, pela promoção de leis favorecendo divórcio e aborto, por uma escola do Estado que produz permanentemente novos cidadãos “democratas” impregnados até a medula de idéias maçônicas e iluministas etc., e pouco se importando – senão, como seria um Estado leigo? – com os apelos e as lamentações estéreis e contraditórias dos “papas conciliares” em matéria de contracepção, divórcio, aborto, homossexualidade, manipulações genéticas, eutanásia, liberação da droga...

A audácia chegou ao auge, entretanto, quando os redatores de Dignitatis Humanae, na introdução (que Paulo VI mandou acrescentar para tentar tranquilizar os que se opunham a esse texto), na qual se assegurava que a Declaração “não traz nenhum prejuízo à doutrina católica tradicional sobre o dever moral do homem e das associações a respeito da verdadeira religião e da única Igreja de Cristo”.9 Basta, ao contrário, ler os documentos da Santa Sé sobre este assunto, de Gregório XVI a Pio XII – sem falar dos mais antigos – para perceber exatamente o contrário: todos os Papas precedentes condenam o que Paulo VI e os “Padres do Vaticano II” aprovam e vice-versa.

 

Gaudium et Spes

Na Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre o mundo contemporâneo, os padres conciliares anunciaram ao mundo que “... o Concílio se propõe antes de tudo a julgar nessa luz os valores mais considerados por nossos contemporâneos e ligá-los a sua fonte divina. Pois estes valores, na medida em que procedem do engenho humano, que é um dom de Deus, são muito bons; mas não é raro que a corrupção do coração humano os afaste da ordem desejada: é por isso que eles necessitam ser purificados”.10

Esses famosos “valores considerados por nossos contemporâneos” e que constituem a base ideológica da Gaudium et Spes, não são outra coisa senão a liberdade, a igualdade e a fraternidade (o tríptico da Revolução maçônica francesa de 1789), das quais o documento conciliar tratou de modo difuso. Gaudium et Spes é, em suma, o documento oficial exprimindo a vontade dos homens do Vaticano II de se reconciliar com as Revoluções de 1776 (Estados Unidos) e de 1789 (França), promotoras destes pseudo “valores”. A obra de decantação do espírito anticristão – larvado ou virulento – que os regenerasse (a “purificação” evocada acima) permitiria, segundo os relatores da Gaudium et Spes, a sua introdução na doutrina e na práxis da Igreja: esta se reconciliaria plenamente com o “mundo moderno” neopagão, nascido precisamente destas Revoluções e impregnado destes “valores”.

Infelizmente para os “Padres conciliares”, diante destas admiráveis perspectivas de pacificação e de fraternidade universal erigidas sobre bases naturalistas e, portanto, maçônicas, se armavam as barreiras das múltiplas condenações dos Soberanos Pontífices contra o espírito da Revolução, matriz dos “valores” em questão, dos quais os papas tinham demonstrado que eles eram inseparáveis. Eis, por exemplo, as palavras claras e precisas com que o Papa Bento XV tinha condenado as “novas idéias” da Revolução francesa, tão caras aos “padres do Vaticano II”:

“Depois dos três primeiros séculos desde as origens da Igreja, ao longo dos quais o sangue dos cristãos fecundou toda a terra, pode-se dizer que jamais a Igreja correu perigo semelhante a este que se manifestou no fim do século dezoito, ocasião em que uma filosofia em delírio, prolongamento da heresia e da apostasia dos Inovadores, adquiriu sobre os espíritos um poder universal de sedução e provocou um abalo profundo, com o propósito determinado de fazer ruir os fundamentos cristãos da sociedade, não somente na França, mas pouco a pouco em todas as nações”.11

Antes dele, São Pio X tinha afirmado sem possibilidade de equívoco:

“Nosso cargo apostólico nos impõe velar sobre a pureza da fé e sobre a integridade da disciplina católica, de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, sobretudo quando o erro e o mal lhes são apresentados numa linguagem fascinante, que, dissimulando o caráter vago das idéias e o equívoco das expressões sob o ardor do sentimento e da sonoridade das palavras, pode inflamar os corações por ideais sedutores, mas funestos. Tais foram em tempos recentes as doutrinas dos pretensos filósofos do século dezoito, as da Revolução e do liberalismo, tantas vezes condenadas”.12

Mas, para os “novos teólogos” autores da Gaudium et Spes (entre os quais figurava infelizmente também o Padre conciliar Karol Wojtyla), tudo isso não passava de uma “doutrina velha” da Igreja do passado, ainda fechada em seu “dogmatismo” arcaico, e que devia de agora em diante dar lugar à nova Igreja conciliar, pronta a fazer as pazes com todos os inimigos de Deus.

O espírito naturalista e antropocêntrico da Revolução que invadiu a Gaudium et Spes emerge, em uma leitura atenta, em diversas passagens do documento, apesar de mergulhado no habitual contexto “tranquilizador”, aparentemente ainda católico.

Este espírito não católico, antropocêntrico, se nota, por exemplo – simples ponta de um iceberg – na afirmação ambígua segundo a qual “crentes e não crentes estão geralmente de acordo sobre este ponto: tudo sobre a terra deve estar ordenado para o homem, seu centro e seu cume”.13 Ou ainda quando se procurava fazer crer que o homem é “a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma”14, contra o ensinamento da Revelação, pela qual Deus criou tudo para Si15, pois o fim último de toda criatura é Deus e não o homem.

Gaudium et Spes se apresentava em suma como um documento que, apesar das habituais precauções adotadas pelos redatores, queria evidentemente romper com o ensinamento da Igreja e negar as condenações dos Soberanos Pontífices contra o mundo moderno, isto é, contra o pensamento moderno que quer substituir Deus pelo homem. De resto, o “novo teólogo” Joseph Ratzinger admitia isso francamente: “Se se procura um diagnóstico global do texto [Gaudium et Spes – n.d.r], poder-se-ia dizer que ele é (ligado como os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de contra-Syllabus [...]. Contentemo-nos com a constatação de que o texto desempenha o papel de um contra-Syllabus na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial com o mundo tal como ele se tornou desde 1789”.16

É difícil compreender com que lógica Paulo VI pôde depois falar da “abertura ao mundo” programada pelo Vaticano II como de “uma verdadeira invasão do pensamento mundano na Igreja”17, lamentando-se da presença da “fumaça de Satanás” no “Templo de Deus”.18

 

Lumen Gentium, c. 3

No capítulo 3, no. 22 da Lumen Gentium, aparecem os resultados evidentes do esforço titânico dos novos modernistas para atacar o Primado jurisdicional do Soberano Pontífice.

A ala liberal modernista do Concílio conseguiu comprometer o dogma do Primado papal de jurisdição graças à introdução da noção de “colegialidade episcopal”, que implica a necessidade de um governo colegial da Igreja: o Papa dividiria o poder de agora em diante com os bispos, praticamente em igualdade com eles, reduzindo seu Primado a um simples primado de honra (como “Primus inter pares”, primeiro entre os iguais)

Aqui também o intuito “ecumênico” dos conjurados é claro: uma vez eliminado o Primado de jurisdição (isto é, de governo) do Papa, a Igreja católica se tornaria finalmente aceitável por aqueles – ortodoxos e protestantes – que não queriam e não querem reconhecer a autoridade suprema do Vigário de Cristo. Mas tal Igreja—e isso é evidente para todo mundo, a não ser para os “Padres do Vaticano II” – não seria mais aquela que Nosso Senhor Jesus Cristo fundou sobre Pedro e seus sucessores, apesar de que, para falar como Pio XII, tudo teria sido “unificado, mas para a ruína”.19

A reação de um grupo de cardeais e de bispos do Coetus Internationalis Patrum conseguiu parcialmente abrandar o golpe e convencer Paulo VI a precisar o sentido do texto – afastando a interpretação abertamente democrática proposta pelos neo-modernistas – pelo acréscimo de uma Nota explicativa praevia que, entretanto, num estilo montiniano clássico, deixava intacto o texto do documento.20

Assim se conseguiu evitar o pior, ao menos por curto tempo, mas o abalo tinha sido forte demais e os primeiros desabamentos começaram a se manifestar com rapidez.

Se é verdade que a ala progressista do Concílio não chegou a obter a capitulação completa do Papado (difícil demais de obter de improviso sem uma lavagem cerebral prévia e progressiva dos fiéis), conseguiu, entretanto, plantar sólidas premissas para isso, começando a introduzir na Igreja o vírus da democracia, da assembléia e do Sínodo (concretizado logo depois no parlamentarismo do Sínodo dos bispos, das Conferências episcopais, dos diversos Conselhos – presbiteriais, pastorais etc.) que mais tarde explodiram no pós-Concílio. Se bem que a proposta feita pelo próprio João Paulo II (!) de mudar o modo de exercício do Primado papal e, portanto, de aniquilá-lo na prática – ainda que, como costuma ocorrer, por vias alternativas e em etapas progressivas – para agradar aos habituais heréticos impenitentes e irredutíveis (cf. Encíclica Ut unum sint), não constitua outra coisa senão o fruto quase maduro desta colegialidade herética.

 

A confissão de Paulo VI: o discurso de encerramento do Vaticano II

Ainda que não se trate de um documento conciliar no sentido estrito, é interessante trazer algumas passagens realmente significativas da homilia pronunciada por Paulo VI por ocasião do encerramento do seu Concílio¸em sete de dezembro de 1965.

Feliz com os resultados obtidos, Paulo VI se deixou levar a confissões que, pondo em relevo o espírito não católico no qual os trabalhos conciliares tinham sido conduzidos, deveriam ser suficientes para abrir os olhos de bastante gente. “O humanismo laico profano – exclamou Paulo VI – apareceu enfim com sua verdadeira estatura e, num certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião (porque é uma religião) do homem que se fez Deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu [...] Reconheçam ao menos este mérito, vós humanistas modernos, que renunciai a transcendência das coisas supremas, e sabei reconhecer nosso humanismo: nós também, nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem.”

Um discurso completamente nas antípodas do grito do Apóstolo dos Gentios, que exclamou: “Se alguém não ama o Senhor, que seja anátema”21, não hesitando em pôr os fiéis em guarda contra o “filho da perdição”, o Anticristo que, no meio da apostasia geral, se oporá e elevará “acima de tudo que se chama Deus ou objeto de culto até a se sentar em pessoa no Templo de Deus, se tornando a si mesmo por Deus”22 Mas eis, ao contrário, que Paulo VI se apresenta com seu Vaticano II que, em vez de lançar o anátema contra o humanismo moderno (isto é, contra a “religião do homem que se faz Deus” como o Anticristo), o abraça fraternalmente. Não mais excomunhões, não mais Syllabus – triste herança dos sombrios tempos pré-conciliares – mas uma união híbrida e sacrílega entre o catolicismo e o mundo anticristão, entre a Igreja e as ideias da Revolução.

Não era difícil prever o que aconteceria: derrubadas as muralhas que separam a Igreja do mundo, isto é, as barreiras entre a Verdade e o erro, e entre o bem e o mal, o rebanho se dispersaria. Os Papas “conciliares”, enganados por uma falsa teologia e pelos complôs dos inimigos jurados da Igreja, se transformariam paulatinamente em capelães da Nova Ordem Mundial maçônica, novos Pontífices de uma super igreja ecumênica e liberal, reduzida a uma simples fachada, lugar de reencontro de todas as religiões. A paz sobrenatural prometida por Jesus Cristo a seus fiéis se transformaria em uma paz completamente terrestre para unir todos os povos na apostasia, da qual o encontro inter-religioso de oração em Assis, em 1986, não passou de um primeiro sinal.

 

(Continua)

  1. 1. DH no. 2/a.
  2. 2. DH no. 2/b.
  3. 3. Encíclica Immortale Dei.
  4. 4. Alocação Ci riesce, 6 de dezembro de 1953.
  5. 5. DH no. 3/d.
  6. 6. DH no. 3/e.
  7. 7. DH no. 6/d.
  8. 8. DH no. 3 e no. 7/c.
  9. 9. DH no. 1/d.
  10. 10. GS no. 11/b.
  11. 11. Carta Anno iam exeunte, 7 de março de 1917.
  12. 12. Nosso cargo apostólico – carta sobre “O Sillon”, 25 de agosto de 1910.
  13. 13. GS no. 12/a.
  14. 14. GS no. 24/d.
  15. 15. Col 1, 16.
  16. 16. J. Ratzinger, Les príncipes de la théologie catholique, ed. Téqui, 1982, pág. 426.
  17. 17. 23 de novembro de 1973.
  18. 18. 30 de junho de 1972.
  19. 19. Humani Generis.
  20. 20. Paulo VI adotará mais tarde a mesma tática “dupla face” em relação ao Novo catecismo holandês herético dos anos 70
  21. 21. 1Cor 16, 22.
  22. 22. 2Ts 2, 3-4.

A Guerra Fútil da Outra contra o Catolicismo

Robert Morrison

 

Como vários católicos atentos observaram, o Motu Proprio Traditionis Custodes, de Francisco, encerrou abruptamente a confusa campanha da “hermenêutica da continuidade”, que tinha por objetivo convencer o mundo de que, apesar de tudo o que transparecia, as reformas do Vaticano II estavam em continuidade com a religião Católica de sempre. Como deixa claro a carta que acompanha Traditionis Custodes, é necessário escolher entre as crenças e práticas que os católicos mantiveram por quase dois mil anos e aquelas que decorreram do Vaticano II. Ora, se fossem as mesmas, por que seria necessário escolher entre elas?

Ao passo que a tentativa de eliminar a ruptura entre o Catolicismo e a religião animada pelo Vaticano II (a Outra[1]) tenha sido sempre irremediavelmente frustrante e fútil, avaliar as diferenças entre as duas religiões é, em comparação, simples e iluminador. Para esse fim, vale considerar: o papel da Outra na guerra movida por Satanás; como e por que as duas religiões são diferentes; o propósito da nova religião; por que o Catolicismo é a única religião rejeitada pela Outra; e, finalmente, quão incoerente é a Outra.

 

O papel da Outra na guerra movida por Satanás

Poderíamos nos ver tentados a considerar a situação atual da Igreja como uma refutação de sua indefectibilidade. De fato, muitos abandonam a Fé porque acreditam erroneamente que a Igreja foi derrotada. Todavia, Deus tem nos dado razões abundantes para nos mantermos firmes na Fé, mesmo se parece que os inimigos triunfaram: temos a promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16, 18), e dois mil anos de história onde vemos a Igreja resistir a assaltos aparentemente insuportáveis.

Além disso, há importantes aparições da Santíssima Virgem Maria trazendo avisos proféticos sobre a infiltração na Igreja. No início do século XVII, María del Buen Suceso de La Purificación (comumente conhecida como Nossa Senhora do Bonsucesso) apareceu à Venerável Madre Mariana de Jesus Torres, uma freira de clausura do Convento Real da Imaculada Conceição em Quito, Equador. Sua mensagem a respeito de eventos que ocorreriam no século XX é de particular interesse para os católicos de hoje:

“Nesse momento supremo de necessidade da Igreja, aquele que deve falar, calará. Tempos funestos sobrevirão, nos quais aqueles que deveriam defender em justiça os direitos da Igreja sem temor servil nem respeito humano, darão as mãos aos inimigos da Igreja para fazer o que estes querem. Ai do erro do sábio, ai daquele que governa a Igreja, o pastor do rebanho que meu Santíssimo Filho lhe confiou! Mas quando eles parecerem triunfantes; quando a autoridade abusar de seu poder, cometendo injustiças e oprimindo os fracos, sua queda estará próxima. Paralisados, serão atirados ao chão.”

Claramente Nossa Senhora quis que entendêssemos que haveria um tempo em que pareceria que as autoridades visíveis da Igreja “dariam as mãos aos inimigos da Igreja para fazer o que estes querem”. E ainda assim, não conseguimos detectar ali nenhum sinal de que essas calamidades significariam que a Igreja teria deixado de ser Igreja ou que teria perdido a proteção do Espírito Santo.

Sob a mesma luz das aparições marianas, revelando que a Igreja prevalecerá apesar dos assaltos diabólicos, podemos considerar a visão do Papa Leão XIII de que Deus daria a Satanás uma janela de tempo para que este tentasse destruir a Igreja. Essa visão levou o papa a compor a grande oração a São Miguel Arcanjo incluída nas Orações Leoninas, assim como um exorcismo contra Satanás, que inclui a seguinte passagem (na versão original):

“As hostes astuciosíssimas encheram de amargura a Igreja, Esposa Imaculada do Cordeiro, e inebriaram-na com absinto; puseram-se em obras para realizar todos os seus ímpios desígnios. Ali onde está constituída a Sede do Beatíssimo Pedro e Cátedra da Verdade para iluminar os povos, aí colocaram o trono de abominação da sua impiedade, para que, ferido o Pastor, dispersassem as ovelhas.”

Certamente o Papa Leão XIII não considerava que uma situação tão terrível na Igreja representasse uma negação da consoladora doutrina da indefectibilidade. E nem nós devemos fazê-lo. Antes, à medida que vemos os assaltos contra a Igreja aumentarem, devemos multiplicar nossos esforços para aceitar toda graça com que Deus nos cumulará.

O estabelecimento da Outra em oposição ao Catolicismo é uma das mais importantes realizações de Satanás e de seus lacaios na guerra contra Deus. Satanás busca insultar a Deus e Sua Igreja e levar para o inferno tantas almas quanto possível. Mas sabemos com certeza que, no fim, Satanás perderá — temos de lutar para nos encontrarmos do lado vencedor, aderindo sempre ao verdadeiro Catolicismo, custe o que custar.

 

Como e por que as duas religiões são diferentes

Não fosse pela continuidade visível do papado (que, é claro, os sedevacantistas negam), seria auto-evidente que o Catolicismo e a Outra são religiões diferentes: as crenças de uma estão frequentemente em desacordo com as da outra, e quase não há semelhança entre as práticas litúrgicas das duas religiões. Nenhum Santo do período anterior ao Vaticano II reconheceria a Outra como católica; nenhum profeta da Outra aceita realmente as crenças que os mártires morreram para proteger.

Além das diferenças entre crenças e práticas litúrgicas, há uma profunda disparidade na forma como seus adeptos creem nas verdades professadas por essas religiões. No Ato de Fé, podemos ver a base católica para crer:

“Senhor Deus, creio firmemente que há um só Deus em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo; que dá o céu aos bons e o inferno aos maus, para sempre. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar, e ao terceiro dia ressuscitou. Creio em tudo mais que crê e ensina a Igreja Católica, Apostólica, Romana, porque Vós, ó Deus, revelastes todas essas coisas; Vós, que sois a eterna verdade e sabedoria que não pode enganar nem ser enganada.”

O Ato de Fé contém certas Verdades católicas, e naturalmente omite muitas outras — mas cremos “em tudo mais que crê e ensina a Igreja Católica” porque Deus, que não pode enganar nem ser enganado, as revelou. Uma vez que vemos a Igreja como o organismo estabelecido por Jesus para transmitir fielmente a Fé a todas as pessoas até o fim dos tempos, cremos baseados na autoridade da Igreja e sabemos que possuímos a mesma Fé que possuiu cada católico que foi para o Céu.

E na Outra, como se crê? Felizmente essa religião tem apenas sessenta anos de idade, então deveria ser relativamente fácil rastrear suas crenças até chegar àquelas de seus pais fundadores. Infelizmente, entretanto, as crenças da Outra mudam o tempo todo. Mesmo quando as crenças permanecem as mesmas, isso talvez só aconteça porque um grupo de bispos não obteve os votos necessários para persuadir outro grupo de bispos de que a religião deve mudar.

Esse processo de mudança contínua é, na verdade, um aspecto importante dessa religião. Em seu discurso de encerramento do Vaticano II, o Papa Paulo VI falou sobre o amor da nova religião pela mudança perpétua:

“Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar-se, julgar retamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica, e, por assim dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua rápida e contínua mudança.”

Não temos a menor ideia das mudanças que ocorrerão amanhã, porque apenas uma coisa é certa na Outra: não pode haver qualquer retorno ao verdadeiro Catolicismo!

 

O propósito da nova religião

Se nos dermos conta de que a verdadeira mente por trás da Outra é o Príncipe das trevas, poderemos ver que o propósito da nova religião não pode ser outro senão insultar a Deus e à Sua Igreja e levar almas para o inferno. Mas os agentes humanos da nova religião não acreditam mais no inferno (exceto, talvez, como um destino para aqueles terríveis católicos tradicionalistas), então geralmente buscam outro propósito para promover a Outra.

Podemos ver os propósitos dos agentes humanos em várias declarações proeminentes do próprio Vaticano II:

“A isto se propõe o Concílio Ecumênico Vaticano II, que, ao mesmo tempo que une as melhores energias da Igreja e se empenha por fazer acolher pelos homens mais favoravelmente o anúncio da salvação, como que prepara e consolida o caminho para aquela unidade do gênero humano, que se requer como fundamento necessário para que a cidade terrestre se conforme à semelhança da celeste.” [João XXIII – Discurso de abertura do Vaticano II]

“Em virtude da sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de Cristo e de reunir sob um só Espírito todos os homens, de qualquer nação, raça ou cultura, a Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível e fortalece o diálogo sincero.” [Gaudium et Spes, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno]

“Promover a unidade é, efetivamente, algo que se harmoniza com a missão essencial da Igreja, pois ela é, ‘em Cristo, como que o sacramento ou sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’. Ela própria manifesta assim ao mundo que a verdadeira união social eterna flui da união dos espíritos e dos corações, daquela fé e caridade em que indissoluvelmente se funda, no Espírito Santo, a sua própria unidade.” [Gaudium et Spes, Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno]

“O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terrível estatura, e por assim dizer desafiou o Concílio para a luta. A religião que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isso poderia ter-se dado, mas de fato não se deu. (...) A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas — que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra — absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós — e nós mais do que ninguém — somos cultores do homem. [Paulo VI – Discurso de encerramento do Vaticano II]

O propósito da nova religião é unir e servir a todos os homens, o que só pode ser feito removendo do Catolicismo tudo o que o mundo rejeita. Em seu Prometeu: A Religião do Homem, o Pe. Álvaro Calderón descreve a nova religião como “a Religião do Homem”, construída sobre os princípios do humanismo (que Paulo VI ratificou acima). O Pe. Calderón identifica uma mudança chave que precisava ser feita no Catolicismo para criar a nova religião:

“Tudo que o humanismo precisava para tornar o Evangelho amável e tirar proveito de seus benefícios era dissolver a Cruz de Cristo. Para o humanismo integral, o grande defeito do cristianismo medieval, em certo sentido o seu único, foi ter centrado o mistério de Cristo no Sacrifício, tingindo a religião com um matiz negativo, tão repugnante ao coração do homem. (...) O Verbo se fez homem para satisfazer a dívida dos homens com Deus, pois por sua obediência até a morte glorificou-O infinitamente, e trouxe aos pecadores a possibilidade da redenção. Para abolir a necessidade do preço de sangue, os magos do humanismo anularam a nota de débito. Se o pecado não nos deixa em dívida com Deus, o sacrifício da Cruz é um pormenor desnecessário no mistério de Cristo, e podemos deixá-lo de lado.”

Uma vez que se remove a Cruz de Cristo, com todas as suas implicações doutrinais e morais, a religião se torna muito mais confortável e aceitável para não-católicos. Quantas novidades trazidas pela Outra realmente permaneceriam de pé se seus proponentes ainda acreditassem e ensinassem que qualquer um que queira salvar sua alma tem de tomar sua cruz e seguir Jesus?

Cada mudança feita em nome do Espírito do Vaticano II tentou esvaziar o Catolicismo para desenvolver uma religião falsificada que possa avançar os objetivos globalistas com a autoridade visível da Igreja Católica. Assim, em vez de erradicar o pecado, podemos desviar o foco para a erradicação das emissões de carbono; em vez de ensinar o Evangelho às nações, podemos abraçar todos os homens do jeito que estão (contanto que estejam vacinados, é claro). A Outra é a força mais importante na tentativa de convencer a humanidade a abandonar sua resistência às demandas da Nova Ordem Mundial. Se, ao olhar para Roma, o mundo visse o verdadeiro Catolicismo em vez da Outra, o grande Reset jamais teria chance de êxito.

 

Por que o Catolicismo é a única religião rejeitada pela Outra?

Sabemos, pelo Encontro de Oração do Papa João Paulo II em Assis, que a nova religião abraça todas as outras. Francisco, é claro, voltou a enfatizar isso de várias maneiras.

O documento Nostra Aetate, do Vaticano II, forneceu a base para esses esforços de aceitação de todas as religiões, ainda que reserve um papel especial para Cristo:

“A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. No entanto, ela anuncia, e tem mesmo obrigação de anunciar incessantemente Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-19). Exorta, por isso, os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os seguidores de outras religiões, dando testemunho da vida e fé cristãs, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles se encontram. A Igreja olha também com estima para os muçulmanos.”

Isso estabelece um padrão bastante baixo para que uma religião seja aceita pela Outra. Sem dúvida, então, a Outra deveria aceitar o Catolicismo, certo? Mas agora vemos, mais claramente que nunca, que a religião chamada Catolicismo é a única que Francisco não aceita mais. Isso é necessário porque, se o Catolicismo é aceito, todas as outras religiões devem ser recusadas. A observação do Pe. Calderón a esse respeito é perspicaz:

“O inimigo mortal do ‘humanismo integral’ é o catolicismo integral, em particular o tomismo, porque este possui de verdade todos os benefícios que aquele possui de aparência, além de saber de cor os seus sofismas.”

Tendo subvertido a Fé para servir a toda a humanidade, os inovadores têm de silenciar aqueles que realmente sabem que isso é heresia. Assim, o Catolicismo é a única religião que tem de ser esmagada pela Outra.

 

Quão incoerente é a Outra?

Pode-se pensar que a nova religião é apenas tão estulta quanto qualquer seita protestante média, com sua rejeição da Verdade católica em favor de crenças modificadas para se adequarem aos caprichos dos homens. Entretanto, diferentemente das seitas protestantes, a Outra tenta reter sua identidade católica para que possa servir melhor aos interesses da Nova Ordem Mundial. Por isso, a Outra sofre de uma esquizofrenia que seria cômica se não fosse tão destrutiva.

Assim, por exemplo, em nome da promoção da unidade católica, Francisco promulga Traditionis Custodes para banir a mais importante e visível fonte de unidade da Igreja, a Missa Tridentina. Então, em vez de uma Missa que conecte católicos uns com os outros mundo afora e ao longo da história da Igreja, o que resta é o Novus Ordo, que serve como um símbolo visível de divisão entre todos os católicos. É evidente que o Novus Ordo não apenas divorcia o católico de hoje dos católicos que viveram ao longo dos séculos, mas também de seus irmãos católicos que estão do outro lado do mundo. E porque Satanás tem um prazer perverso em escarnecer da Igreja, o Novus Ordo também é diferente de paróquia para paróquia dentro da mesma diocese; e diferente dentro da mesma paróquia dependendo do celebrante; e diferente até para um mesmo celebrante dependendo de qual versão das “Orações Eucarísticas” ele decide dizer num determinado dia.

Por pior que seja a situação litúrgica da Outra, temos de nos perguntar se a situação doutrinal — ao menos na prática — não é ainda mais incoerente. Há salvação fora da Igreja? Existe um inferno? Mulheres devem ser sacerdotes? Uniões simplesmente civis são louváveis? O pecado mortal deve impedir que alguém receba a Comunhão? Existe mesmo algo chamado pecado mortal?

Em cima disso tudo, adicionemos a incansável busca da Outra pela feiura na arte, na arquitetura e na música. Tragicamente, a obsessão da Outra pela feiura estética é comparada apenas à sua grotesca imoralidade.

Temos ouvido dizer que na nova religião 2+2=5, mas dizer isso é muito generoso. O paralelo adequado para a nova religião é dizer que 2+2=5, ou 7, ou talvez infinito, ou um Volkswagen, ou sua canção favorita, ou qualquer outra coisa que você queira, exceto 4. Se isso soa despropositado, pergunte a si mesmo por que não podemos manter as crenças e práticas que todos os Santos reconheceriam como católicas. Como pode o Catolicismo ter sido o único caminho de salvação ao longo de dois mil anos, e então — por meio de decretos de homens imorais — tornar-se o único banido?

Agora é evidente que Deus precisará intervir de maneira extraordinária para livrar a Igreja do flagelo da Outra, mas não estamos impotentes. Fomos avisados de que estes dias chegariam e que precisaríamos nos voltar para a Bem-aventurada Virgem Maria em busca de auxílio para perseverarmos. Que ela possa esmagar a cabeça de Satanás e a Outra que ele tenta impor sobre a Igreja! Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós!

(Fonte: The Remnant Newspaper. Tradução: Permanência)


[1] O autor utiliza, no original em inglês, o neologismo Vatican2ism. Em nossa versão, optamos pela expressão “a Outra”, termo utilizado por Gustavo Corção na década de 1970 para designar a nova religião de Vaticano II.

Entre Papas e Cardeais

Dom Lourenço Fleichman, OSB

Eis que, surpreendentemente, nos preparamos para conhecer o sexto papa do Concílio Vaticano II. Tendo já ultrapassado a marca dos 50 anos do seu início (1962), não podemos dizer que as coisas, no meio dessa crise, sejam previsíveis. Ainda há espaço para sustos e surpresas.

O papa Pio XII1 morreu em outubro de 1958. Com ele morria uma visão ainda tradicional da vida da Igreja, da moral, da liturgia, dos dogmas e da influência impressionante que a Igreja mantinha há dois mil anos sobre os caminhos da humanidade. Mesmo sendo constantemente perseguida e maltratada, os maus não conseguiam avançar sem freios e sem limites, porque havia uma palavra divina, um homem vestido de branco, sentado na Cátedra de S. Pedro, e que servia de consciência para todos os povos, para governantes e súditos, mesmo quando estes já não eram mais católicos.

Não que fosse obedecido e amado. Mas era uma referência, e o mundo não se entregava ao mal sem temer a condenação que viria da Igreja. Com isso, a decadência era contida; seguia seu curso, é verdade, mas em ritmo mais lento.

Foi eleito, então, para o trono de São Pedro, o cardeal Roncalli, o papa João XXIII2. Descrito por seus historiadores como um homem simples, amigável, quebrando protocolos, conversando com todos, ficou conhecido como o “bom” papa João. Na verdade, seu espírito ecumenista data de muito tempo, como aparece em suas atividades de jovem bispo, na Bulgária, quando iniciou relações com os ortodoxos daquele país, ou em Paris, como Núncio. Em suas encíclicas, João XXIII dará provas de um pensamento liberal e equivocado, ao tentar assimilar as tendências de um mundo socialista para torná-lo aceitável dentro de uma doutrina católica que, para ele, devia ser aberta e tolerante. O resultado são textos dúbios, calcados em preocupações temporais de certa paz e de concórdia, isentas das exigências próprias do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Desenvolvia assim temas caros à maçonaria, como direitos humanos, dignidade da pessoa e afins, que fugiam completamente das preocupações espirituais de um catolismo tradicional, voltado para a defesa do depósito da fé e da Revelação sobrenatural .

João XXIII fará, então, a convocação do Concílio Vaticano II, e depois de propagar como finalidade a não condenação das heresias modernas, desejou um concílio voltado para conversas pastorais, troca de experiências e um otimismo beato sobre o futuro da Igreja. Pior do que isso foi a cumplicidade do chefe da Igreja com os revolucionários que tomaram de assalto o Concílio, sob a batuta do Cardeal Lienart. Logo no início do Concílio, este prelado exigiu a substituição dos textos já preparados para debate, por outros, liberais, que um grupo de bispos já havia preparado em segredo e por debaixo dos panos. João XXIII aceitou tal revolução, assim como aceitou outras que viriam em seguida, dando a esses progressistas da Aliança Europeia o domínio completo das ações do concílio3.

No meio de tantas ambigüidades, aberturas e revoluções, não se pode admirar que o Concílio Vaticano II tenha estabelecido uma nova religião dentro de Roma e na alma do povo católico. O resultado terrível foi a perda da fé generalizada, a destruição da doutrina tradicional da Igreja, e a diminuição constante da sua autoridade moral e espiritual sobre os desígnios da humanidade.

Apesar de ter escrito textos com ideais maçônicos, visões naturalistas sobre a vida social e política, de ter mesmo mantido certas relações com a maçonaria, não se conhece provas cabais de que tenha sido, ele próprio, maçon. Não nos parece fonte fidedigna um ou dois livros escritos por maçons, onde se afirma tal relação. Claro está que interessa a esta seita secreta vangloriar-se de ter tido um papa no seu grêmio, o que tira desses autores qualquer valor histórico.

O cardeal Montini4 era Patriarca de Milão quando foi eleito no lugar de João XXIII. A porta do erro e da decadência tinha sido entreaberta por João XXIII, ela será escancarada por Paulo VI. Quando trabalhava na Secretaria de Estado do Vaticano, o bispo Montini recebera um castigo grave por ter mantido contatos com os comunistas de Moscou nas costas de Pio XII. Será afastado de Roma. O erro de Pio XII foi ter dado a este bispo desobediente uma diocese cardinalícia, mesmo não tendo recebido esta honraria do papa Pacelli. Será cardeal no 1º consistório de João XXIII, abrindo caminho para a sua eleição, poucos anos depois.

Com Paulo VI a Igreja verá um tempo de destruições. Todo o belo edifício doutrinário e sacramental da Igreja será demolido. Não sobrará pedra sobre pedra. Todos os sacramentos serão reformulados segundo o novo espírito, a missa nova será assinada, sendo mais um culto protestante do que verdadeira missa; a disciplina eclesiástica será tão mitigada que os escândalos sexuais começarão a surgir de todos os lados. A fé será ultrajada, com padres e bispos deturpando a divindade de Nosso Senhor, a perpétua virgindade de Maria, a natureza da revelação, a sacralidade dos ritos e sua eficácia. Enfim, tudo será abalado. A destruição será o resultado de um grande terremoto religioso. E o povo fiel perderá a fé sobrenatural e até mesmo a noção do que seja essa fé.

De João Paulo I5 só podemos dizer que deu a impressão de querer reverter o quadro de destruição, senão na questão de fé, pelo menos nas influências maçônicas dentro do Vaticano. Não teve tempo. Seu pontificado durou 33 dias, e muitos afirmam que foi assassinado.

João Paulo II6 dará continuidade à obra do Concílio Vaticano II, cabendo a ele a reconstrução de todo o edifício destruído por Paulo VI, mas agora com o novo espírito do Concílio. Terminará a reforma dos sacramentos, fará um novo Código de Direito Canônico, prosseguirá a reforma completa da Cúria Romana, publicará o novo Catecismo oficial, nova tradução oficial da Bíblia, nova Via Sacra, modificando até mesmo o Rosário da Virgem Maria. Além disso, levará o ecumenismo ao seu ponto mais afastado da verdadeira fé católica, instituindo os encontros de Assis, onde todas as religiões enviam seus chefes para rezarem juntos, significando que pouco importa a religião de cada um. Desse encontro heretizante, surgirá o que o papa chamou de “espírito de Assis”, um novo espírito que passa a governar a Igreja de Vaticano II.

Finalmente, Bento XVI7, que ainda é papa quando escrevemos esse editorial, apesar de ter tido algumas atitudes mais conservadoras, jamais renunciou à obra do Concílio, nem mesmo se permitiu diminuir a influência deste sobre seu pensamento e seus atos.

Suas encíclicas dão prova dessa influência constante do Concílio, mesmo dos textos claramente opostos à doutrina católica, como Gaudium et Spes, freqüentemente citado pelo papa. Tomemos como exemplo a primeira encíclica, Deus Caritas est8 , onde Bento XVI envereda por certa tese acadêmica sobre a noção de amor. Mas não consegue se livrar dela ao abordar a questão do amor como está no Novo Testamento, e faz comparações do amor divino em termos de Eros e Agape, no mínimo, inconvenientes.

Essa tendência intelectualista de escrever teses aparece também nas demais encíclicas do papa. Em Spes Salvi9, a erudição é grande, mas o espírito católico fica de lado, jamais encontrando a definição clara do dogma católico sobre a virtude da Esperança. Em Caritas in Veritate10, o papa faz o elogio da Populorum Progressio11,  de Paulo VI, sobre a política e desenvolvimento dos povos, sob o enfoque liberal do Concílio Vaticano II.

Em nenhum momento Bento XVI apresenta a doutrina católica pelo seu dogma, por aquilo que ela tem de imutável e eterno. Sempre reflexões, aberturas, autores estrangeiros ao catolicismo e mesmo inimigos da fé são convidados à mesa de “discussões” de Bento XVI. O grande sucesso desses textos junto aos novos católicos desse mundo de hoje deve-se mais à imensa ignorância que se tem da verdadeira fé, do que à fidelidade da doutrina ali contida.

Todos os seus livros, mesmo aqueles contendo erros graves de tempos mais progressistas, foram reeditados depois de se ter tornado papa, e jamais ouvimos de sua boca um sinal de querer mudar o que antes escrevera.

Se, por um lado, escreveu o Motu Proprio Summorum Pontificum, em 2007, afirmando que a missa tradicional nunca fora ab-rogada e pode ser celebrada, não se vê interesse, no Vaticano, em defender a causa de tantos padres que são perseguidos por seus bispos diocesanos e impedidos de celebrar a missa de sempre. De certa forma, o Motu Próprio serviu para confirmar e estender a perseguição, pois ela agora se aplica também a padres diocesanos mais conservadores.

Mais tarde, em 2009, teve a coragem de levantar as falsas excomunhões impostas aos quatro bispos da Fraternidade São Pio X, mas logo viu-se obrigado a dar explicações numa carta que escreveu a todo o clero. Ainda aqui, Vaticano II era como um manto que cobria todo o pensamento do papa.

 

Finalmente, ordenou que se recebesse uma comissão teológica da Fraternidade S. Pio X, para debater os pontos de litígio apresentados por esta. Após dois anos de debates, o impasse impediu que se prolongassem as conversas, pois os representantes do Vaticano não aceitavam que a doutrina progressista do Vaticano II se opunha à Tradição católica. Queriam de todas as maneiras forçar o pensamento em aceitar que Vaticano II estaria na continuidade da Tradição, mesmo diante de evidentes contradições.

Dessas conversas surgiram, em 2011-2012, tentativas de um entendimento prático que daria à Fraternidade um estatuto oficial reconhecido por Roma. Mas após meses de grandes angústias nos meios tradicionais, o próprio papa encerrou a conversa, afirmando, em carta pessoal ao Superior Geral da Fraternidade, que a aceitação do Vaticano II, dos ritos novos, do novo espírito, era exigência para um reconhecimento da Fraternidade.

Agora, diante da surpresa da renúncia do papa, nos deparamos com mais uma grave questão. O tempo todo, Bento XVI se refere ao seu ministério. Sempre que fala da renúncia, refere-se a esse ministério petrino. Temos a impressão que os próprios papas desse catolicismo deformado já não acreditam muito na realidade que lhes foi imposta pelo Divino Espírito Santo. Falam como se tivessem aceito uma função, como um acionista de grande empresa aceitaria ser Diretor Presidente por certo tempo. Aliás, faz parte da linguagem transformada pelo Vaticano II, chamar a esse ministério, de “serviço”, o que só vem reforçar essa triste impressão. E essa constatação nos faz lembrar aquelas palavras antigas de Mons. Marcel Lefebvre, quando afirmava que nós, os que guardamos a Tradição contra os detratores da Igreja, somos os verdadeiros defensores do papa e do papado. Eles próprios já não acreditam mais no poder sobrenatural do sucessor de Pedro.

O pontificado de Bento XVI não trouxe nenhuma solução aos graves problemas de fé que assolam a Igreja há décadas. O estilo tornou-se mais comportado, mais conservador na liturgia, mais intelectual nos escritos; porém, o naturalismo horizontal, o ecumenismo irenista onde cada qual encontra o seu deus e se sente bem, o liberalismo político e social e a oposição constante à Tradição da Igreja, continuaram até o fim. E a crise não terminou.

Estes são os papas do Vaticano II. Eles o fizeram, prosseguiram, impuseram ao povo católico sem se preocuparem se era da vontade de Deus ou para a salvação das almas. Da noite para o dia, uma missa sem sacrifício e sem cruz foi imposta, sob penas severas, a todos os padres. Muitas almas perderam a fé, escandalizadas pelo que viam acontecer na Igreja. Outras a perderam por terem absorvido o novo espírito de Vaticano II, tornando-se protestantes sem se darem conta. Paralelamente, o laicismo invadiu toda a Igreja, causando um esvaziamento impressionante dos mosteiros e casas religiosas. Muitos conventos fecharam as portas e foram vendidos para se tornarem museus ou escolas. O número de católicos foi diminuindo em todo o mundo e já não podemos mais falar de uma Civilização ocidental Católica, aquela impressionante herança dos mil anos de Idade Média, que formaram a Europa e o mundo católico.

Enquanto isso, os papas e bispos, ao longo desses últimos 50 anos, nunca conseguiram enxergar a realidade do mundo segundo a verdade de Deus. A todo momento interpretam os desastres, acidentes, guerras e tudo o mais com palavras pacifistas, moles, sem eficácia e sem sentido. Raras vezes atribuem os escândalos ao pecado e nunca se ouve um chefe católico se preocupar com a condenação eterna das almas. Só falam de uma falsa paz, só pregam a concórdia nessa vida, só se preocupam com o corpo do homem e sua felicidade na terra, e de salvar as aparências de certa “decência” boazinha.

Um novo papa será eleito. Humanamente não há nada que nos incline a achar que algum dos cardeais possa vir a restaurar a Igreja e ajudar as almas a se salvarem. Todos eles, para chegarem onde estão, aderiram de todo o coração aos desmandos desse maldito concílio que tanto mal trouxe para a Igreja e para as almas. Estão, pois, certos de que devem continuar a propagar esse Humanismo com tintas de religiosidade, que tudo contaminou.

Não temos preferências. Se for eleito um péssimo cardeal, progressista, destruidor, as coisas podem ficar mais claras, a evidência da falta de fé ficaria mais patente, o que nos ajudaria a segurar melhor a espada do bom combate. Por outro lado, a perseguição se tornaria mais amarga, e nós teríamos apenas a graça divina como sustento, o que já é nossa condição há 50 anos. Se for eleito um cardeal “conservador”, veremos as mesmas ambigüidades atuais perdurarem na Igreja. Cada vez que o papa falar em latim, ou celebrar uma missa mais conservadora, os blogs conservadores de plantão darão urras de alegria e dirão que o papa está restaurando a Igreja.

Mas Deus vomita os mornos e não aceita que a defesa da sua Igreja seja feita por homens cegos, ingênuos e débeis. Porque a restauração da Igreja só poderá ser realizada quando nós merecermos, por nossos sacrifícios e dores oferecidas, pelas humilhações e perseguições suportadas, pela constância das nossas orações e das nossas lágrimas. Somente assim o Divino Espírito Santo realizará o milagre da conversão de um papa. Sem essa conversão espetacular, espiritual, sem que o papa entenda na fé, ao menos em parte, todo o enlace da crise atual, não haverá grandes mudanças no horizonte da Igreja.

Peçamos a São José, esposo da Virgem Maria, protetor da Santa Igreja, e a São Miguel Arcanjo, chefe da milícia celeste, que nos permita ver com nossos olhos, ouvir com nossos ouvidos, o dia abençoado em que tal conversão chegará ao coração do sucessor de São Pedro.

(Editorial da Revista Permanência 269)

  1. 1. Eugênio Pacelli (1876-1958)
  2. 2. Angelo Giuseppe Roncalli (1881-1963)
  3. 3. Cf. Wiltgen, Ralph, S.V.D., O Reno se lança no tibre, Ed. Permanência
  4. 4. Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897-1978)
  5. 5. Albino Luciani (1912-1978)
  6. 6. Karol Józef Wojtyła (1920-2005)
  7. 7. Joseph Alois Ratzinger (1927-2005)
  8. 8. 25 de dezembro de 2005
  9. 9. 30 de novembro de 2007
  10. 10. 29 de junho de 2009
  11. 11. 26 de março de 1967

Quando os inimigos se tornam amigos

Pe. Philippe Toulza, FSSPX

 

Como explicar o declínio da evangelização na Europa? A rigor, a resposta a essa pergunta é que qualquer decréscimo no Cristianismo tem como sua causa, ao menos na porção adulta que afeta, uma falta de cooperação com a ação de Deus. De fato, a graça nunca falta; se a evangelização não se consuma, então isso se dá porque o homem, a quem ela está destinada, apresentou um obstáculo a ela. A descristianização ocorre quando, em um grupo humano, uma proporção crescente de almas não mais adere à fé ou, embora se mantendo católica, negligencia seu progresso em direção a Deus ou mesmo abandona a fé (ou a vida católica). Durante o iluminismo, o filósofo Julien de la Mettrie (1709-1751) foi um desses casos; ele nasceu em uma família católica na Bretanha, e seu pai achava que ele poderia ser um Padre. Ele preferiu dedicar-se ao estudo da medicina, o que o levou ao materialismo, ao ateísmo e ao libertinismo; ele espalhou essas convicções em seus escritos e entrou para a história como um exemplo lamentável de secularização. Aqueles responsáveis pela descristianização são, portanto, homens como ele e outros que rejeitam, em maior ou menor grau, para si mesmos ou para aqueles sob seus auspícios conforme o caso, as exigências do Reinado de Cristo.

Essa explicação põe a culpa em várias portas de entrada e, portanto, não é muito específica. Por essa razão, muitos preferem explicar essa descristianização não pelas suas verdadeiras causas, que devem ser buscadas nas almas, mas por aquilo que incita as almas a se afastarem de Cristo. Algumas dessas causas começaram a agir em Pentecostes: o demônio e o mundo. Outras causas estão mais intimamente conectadas a circunstâncias específicas, e são essas causas que nos interessam: quais delas levaram à secularização da Europa?

 

O pensamento moderno

Uma realidade tão complexa quanto a descristianização e realizada em um continente inteiro ao longo de vários séculos, necessariamente, é resultado de diversas causas: a perda das raízes [de um povo] devido à industrialização, a subversão das sociedades intelectuais, o apoio eclesiástico à escravidão, o avanço do hedonismo, etc. E alguns fatores trabalharam no sentido de promover outros fatores. Porém, o consenso geral é que a principal causa da descristianização é a modernidade. A começar com o Renascimento, a Europa pensou que estava redescobrindo a grandeza da natureza humana que o teocentrismo medieval, supostamente, havia escondido. Havia dúvida quanto a se a raça humana realmente tinha o pecado original e se o homem realmente precisava bater no próprio peito. Então, com o ímpeto da reforma protestante, toda autoridade religiosa parecia perigosa à liberdade; seguindo Rousseau e, após, Kant, a Europa divinizou a autonomia do homem. Assim como Descartes, no Século XVII, havia recusado argumentos que apelassem à autoridade na Filosofia, os pensadores modernos questionaram o dogma; eles não tinham mais a fé da mãe de Villon. No fim, levantes políticos como aqueles de 1789 desafiaram as instituições. Pedia-se liberdade de expressão do pensamento. A aliança entre o trono e o altar era denunciada. Padres eram suspeitos de serem gananciosos e o jugo da moralidade foi jogado fora; o ódio de Voltaire se espalhava. A diversidade religiosa, mesmo aquela entre católicos e protestantes, tornou-se um pretexto para rejeitar a autoridade dos Padres; havia tantas religiões na terra… o fato do Catolicismo ser a religião de nossos pais bastava para torná-lo mais crível que as outras?

Os direitos humanos eram opostos à “intolerância” do passado, a razão à fé, a independência à lei. Essas ideias modernas encorajavam as almas e as instituições a se afastarem da religião tradicional. O resultado é que, hoje, como Danièle Hervieu-Léger escreve, “o Catolicismo, que era a matriz social, política e cultural do mundo ocidental, hoje, até mesmo nas áreas onde ele desenvolve seu poder civilizatório, é cada vez mais ostracizado às margens da vida social. É apenas uma questão privada de um número cada vez menor de indivíduos; ele não mais molda profundamente as condutas e as consciências”

A modernidade não é o único problema; a descristianização também tem sido atribuída ao progresso científico e tecnológico. Isso tem fundamento? É verdade que, nos Séculos XVI e XVII, o conhecimento humano da natureza progrediu; muitas descobertas foram feitas na astronomia, na mecânica e na geografia; os homens pararam de atribuir a seres espirituais os fenômenos que, agora, a ciência era capaz de explicar. Atenágoras e São Tomás haviam, por exemplo, atribuído o movimento das estrelas à ação dos anjos, mas, agora, a gravitação universal explicava esse movimento e parecia desacreditar a Teologia. Ao mesmo tempo, a imprensa, instrumentos ópticos e, mais tarde, o motor a vapor aumentaram o domínio humano sobre a natureza. As condições de vida melhoraram, o que colocou em parênteses a esperança na vida eterna. A ciência médica, em breve, seria capaz de proteger os homens da praga; eles realmente precisavam rezar? Primeiro os meios de transporte e, depois, as comunicações tornaram-se mais rápidos e levaram a contatos com outras civilizações, que viam nossa religião de uma perspectiva diferente. Em suma, o progresso científico e tecnológico não apenas estavam em conformidade com o pensamento moderno, eles também o ajudaram a florescer. Apesar disso, eles não eram mais que uma oportunidade favorável à descristianização, e não sua verdadeira causa; pois a ciência, em si mesma, não se opõe à religião. Além disso, ainda que o pensamento moderno tivesse sido impedido de florescer por alguma razão, o progresso científico e tecnológico ainda teria sido realizado, assim como aconteceu na Idade Média cristã. A descristianização da Europa não teve outra causa principal senão o crescimento da modernidade.

Qual foi a atitude da Igreja diante dele? Primeiramente, ela o deplorou. O edifício da Europa cristã estava rachando, suas paredes estavam desabando, ela ameaçava ruir; para o Corpo Místico de Cristo, era um golpe ao panorama da fé sobrenatural. O destino de São Thomas More foi emblemático desse tempo. Chanceler do Rei da Inglaterra, ele rejeitou a nova lei promulgada pela Coroa que separava o país da unidade da Igreja. Por isso, ele foi aprisionado na Torre de Londres até seu julgamento; terminou sendo decapitado, assim como Cosme, Damião e Cecília séculos antes. Em 1535, durante essas provações, ele escreveu um livro no qual contemplava A Tristeza de Cristo no Jardim das Oliveiras. Suas meditações também expressam sua própria tristeza diante da morte. Pode-se ver, nelas, também, a tristeza da Igreja face à descristianização da Europa, uma descristianização na qual o cisma que se formava do outro lado do Canal era um passo que levaria a Inglaterra ao anglicanismo. Mas a Igreja não se limitou a deplorar a perda de influência. Ela reagiu, e a história de sua ação compõe-se de duas grandes fases. Da reforma até o Vaticano II, a Igreja se opôs à modernidade. Após o Concílio, ela escolheu uma nova atitude. Passemos a analisar essas duas fases.

 

Oposição inicial

Até metade do Século XX, a apreensão da Igreja face à secularização se expressava, acima de tudo, nos documentos do Magistério. Eles revelam que, entre 1517 e 1965, o julgamento da Santa Sé sobre a modernidade era severo. Do Século XIX em diante, a maioria desses documentos eram encíclicas. Elas todas se baseiam numa arquitetura razoavelmente semelhante, da qual a Quanta Cura de Pio IX é um bom exemplo. Nesse texto, escrito em 1864, o Papa descreve o nascimento de uma nova ideia sobre o papel da religião na sociedade; ele deplorava o naturalismo dessa ideia e respondeu a ela com os ensinamentos tradicionais sobre os direitos públicos da Igreja. Pio IX baseava sua encíclica em dois pressupostos:

1. A secularização vem do erro e do mal. Quanta Cura estigmatizava as “calúnias dos hereges”, os “livros venenosos”, as “doutrinas ímpas”, as “iníquas maquinações dos malvados” e as “monstruosas opiniões”. O que levou Pio IX a ser tão severo foi o fato de que, 16 anos antes, forças revolucionárias o haviam despojado de uma parte dos Estados Papais. Em Novembro de 1848, o chefe de governo da Santa Sé, Pellegrino Rossi, até mesmo foi assassinado por rebeldes quando o Palácio do Quirinal foi cercado pelos seguidores de Giuseppe Mazzini. O Papa teve de fugir à noite. Pio IX sentiu a revolução na própria pele.

2. A oposição da Igreja à modernidade é justa, e os meios usados nessa oposição sempre foram prudentes. Na visão de Pio IX, seus predecessores “nada cuidaram tanto como descobrir e condenar […] todas as heresias e erros” com “apostólica fortaleza”, e ele desejava seguir “os passos ilustres de Nossos Predecessores”. Nem Pio IX, nem os outros pontífices se arrependeram da oposição da Igreja à modernidade. Eles convidavam os Bispos a rezar, a serem cautelosos na escolha dos candidatos ao sacerdócio, a pregar a verdade ainda mais, a refutar os erros, a recuperar as almas; eles proibiram publicações más e impuseram sanção após sanção. Mais tarde, Leão XIII optaria por um tom menos virulento em seus ensinamentos. Nenhum Papa agiu exatamente da mesma maneira que os outros, mas todos eles eram unânimes nesses dois pressupostos.

Alguns podem alegar que houve tréguas nesse confronto entre a Igreja e a modernidade. Por exemplo, Leão XIII pediu aos católicos franceses que apoiassem a República; Pio XI condenou a Action Française; Pio XII deu discursos de rádio modernos; outras concessões podem ser mencionadas também… Essas observações são verdadeiras; apesar disso, de Leão X a Pio XII, a conduta da Igreja, de modo geral, foi constante.

 

A grande tormenta

No começo do pontificado de João XXIII, essa descristianização ainda era causa de preocupação. Dom Marcel Lefebvre adentrou o anfiteatro conciliar em 1962 indagando-se sobre como a contra-atacar. Pois o seu tempo como Bispo em Tulle havia aberto os olhos do ex-missionário na África para a realidade da Europa: seminários vazios, clero desanimado, igrejas quase sem fiéis. A perseverança da juventude era causa especial de preocupação para os padres paroquianos. Já em 1938, François Mauriac havia escrito: “A primeira comunhão de uma criança é o sinal oficial e reconhecido de que ela vai abandonar Cristo e a Igreja”

O que tinha de ser feito? Essa questão preocupou os padres do Vaticano II, e um texto sobre as relações da Igreja com o mundo foi preparado. Ele levou à constituição Gaudium et Spes: nela, o Concílio promulgou um ponto de virada na conduta da Igreja. De acordo com certos Padres Conciliares, a oposição entre a Igreja e o mundo não apenas não havia solucionado o distanciamento entre os homens e a religião, mas havia aumentado ainda mais essa realidade. A Igreja havia perdido o apoio do poder secular, e, agora, ela precisava encontrar uma nova forma de se equilibrar; ela havia perdido a confiança das pessoas e precisava tornar-se mais atraente. Em suma, a Igreja precisava adaptar-se à situação. Bento XVI fala sobre essa ação: “O Catolicismo, que havia construído e adornado o mundo ocidental, parecia, cada vez mais, perder sua força. Ele parecia esgotado, e o futuro parecia estar destinado a ser governado por outras forças espirituais. Essa sensação de perda do presente por parte do Catolicismo e a tarefa que decorria dela foi bem expressada pelo termo aggionarmento. O Cristianismo precisava estar no presente, para ser capaz de formar o futuro”. Os Papas do Concílio delinearam, em essência, o caminho a ser seguido. No discurso inaugural de 1962, João XXIII insistiu que o passado não havia sido tão maravilhoso quanto eles haviam pensado, nem os tempos presentes tão ruins quanto eles haviam considerado, paradoxalmente unindo o conhecimento da secularização com um otimismo oculto; ele concluiu com a promessa de que, dali em diante, a Igreja seria mais misericordiosa. No discurso de encerramento de 1965, Paulo VI louvou o que ele acreditava que a Igreja tinha em comum com o humanismo contemporâneo: o culto do homem. Esses discursos, em conjunto com os textos do Concílio, definiram a nova atitude. Os dois pressupostos anteriores foram abandonados e substituídos por dois pressupostos, estes contrários:

1. Nem tudo na modernidade era falso ou mau. Muitas das aspirações dos homens eram justas. A severidade do julgamento da Igreja sobre o mundo foi substituída por um otimismo benevolente para obter uma reconciliação.

2. Na oposição histórica da Igreja ao mundo moderno, certas posturas haviam sido contrárias ao Evangelho e demandavam arrependimento.

Baseada nesses dois pressupostos, a nova postura da Igreja viria a afetar os três poderes eclesiásticos:

1. O Magistério: ele deveria denunciar menos os erros e enfatizar mais os elementos convergentes do Catolicismo com as culturas nas quais ele era forçado a viver; o primeiro desses elementos era a convicção de que o homem é bom. O diálogo entre religiões tornou-se uma palavra de ordem do Magistério. Abertura ao mundo.

2. Os sacramentos: decidiu-se que os ritos seriam reformados para os tornar mais aceitáveis aos nossos tempos, menos austeros e mais populares. A fronteira clara entre o profano e o sagrado foi questionada.

3. As leis da Igreja: elas se tornaram menos numerosas, menos repressivas à natureza humana, e as autoridades se mostrariam, dali em diante, mais flexíveis no controle da fidelidade a essas leis.

Nem tudo foi definido no Concílio, mas tudo foi expressado ou experimentado em decorrência dele. Parte das atividades paroquiais estaria, dali em diante, direcionada à criação de um ´mundo mais justo´. Juntamente com outras religiões e os governos, a Igreja tinha a intenção de combater a desigualdade econômica, trabalhar pela paz e promover os direitos humanos. A Teologia do Papa Wojtyla deu a esses objetivos uma densidade intelectual. Enquanto regimes totalitários causavam grandes desgraças a várias nações, João Paulo II explicava que a pessoa humana era o alfa e o ômega do governo. Seu personalismo foi visto como uma maneira de escapar do coletivismo.

 

O fim de Cristo Rei

Como sinal dessa amizade com a modernidade, o conceito de Cristandade foi abandonado. Essa decisão não foi uma mera coincidência. De fato, a aliança entre o altar e o trono havia sido uma força inestimável na oposição às ideias modernas, mas essas ideias não eram mais demonizadas. E o Catolicismo, enquanto religião do Estado, não era mais conducente à liberdade e soberania do povo.

Cristo, portanto, foi destronado. Até o começo do Século XX, a missão recebida d´Ele aplicava-se ao homem nas três dimensões que Deus lhe havia dado na criação: como indivíduo, como membro de uma família e como um cidadão. Os Padres liberais haviam negado a terceira dimensão. Eles proclamaram a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae); o Vaticano II não foi além disso, ele não chegou a apoiar a neutralidade religiosa do Estado. Mas o Papa e os Bispos encerraram o trabalho depois dele. Eles assentiram à descristianização dos governos que já havia sido imposta à Igreja aqui e ali. Ela errou -- alegaram eles -- ao se envolver na política. Teodósio foi julgado e condenado, digamos assim. O historiador Jean Delumeau chegou a dizer que a Cristandade havia sido maléfica à fé, pois a religião de nossos ancestrais era frágil, e sua fidelidade aos mandamentos, rara! A Cristandade havia fracassado; na verdade, ela era responsável por esse fracasso: “A presente descristianização é, em grande parte, o preço a se pagar por aquela enorme aberração que durou um milênio e meio”

Delumeau estava, apenas, seguindo o rumo indicado pelas autoridades da Igreja. Esse novo rumo era como um tapa na cara dado por Paulo VI em Pio IX e seus predecessores. Pois, até 1965, se a religião causava alguma oposição, era uma oposição entre a Igreja e o mundo. Mas, com 1965, uma nova oposição nasceu, uma oposição entre aqueles que aderem ao passado da Igreja – e Dom Lefebvre estava entre eles – e aqueles que não mais o fazem.

(The Angelus, Set-Out 2020. Tradução: Permanência)

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