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Category: Pe. Gabriel Billecocq, FSSPXConteúdo sindicalizado

A caridade, amor sobrenatural

Hoje em dia, os católicos são solicitados em toda parte. É impossível percorrer uma rua em Paris sem encontrar um pedinte, impossível encontrar um lugar na França onde não haja um estrangeiro pedindo abrigo. Qual é nosso dever de caridade? Perguntam-se os fiéis.

 

Voltemos às definições

Atualmente, todo mundo fala de tudo, mas não é capaz de dar as definições verdadeiras das palavras ou dos conceitos utilizados. Isso é assim de modo eminente para a caridade. Essa bela virtude foi aviltada pelo naturalismo devastador que há três séculos assola o mundo.

Então, o que realmente é a caridade? O catecismo responde assim: “A caridade é uma virtude sobrenatural, infusa por Deus na nossa alma, pela qual amamos a Deus por Ele mesmo acima de tudo, e amamos ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.”

Quatro pontos vão reter a nossa atenção. A caridade é 1) uma virtude sobrenatural; 2) amor; 3) amor a Deus; e 4) amor ao próximo.

 

Virtude sobrenatural

Sabemos pela fé que recebemos duas vidas distintas e concomitantes. A vida natural é a da nossa natureza humana, recebida de nossos pais. O corpo e a alma, a inteligência e a vontade pertencem a essa vida.

Na sua bondade, Deus quis acrescentar à vida da natureza humana uma outra vida: a sua. O que nós chamamos de vida sobrenatural – por exceder as capacidades da natureza – é uma participação na vida divina. Nós chamamos também de vida da graça, porque ela é um dom puro e gratuito que Deus faz ao homem. É uma elevação a uma ordem muito superior à da natureza do homem. Elevação que não destrói em nada a vida natural, mas antes a aperfeiçoa.

Com efeito, ao nos fazer participar da sua vida divina pela graça, nosso Criador nos atribui um fim ou uma felicidade bem maior que aquela que a natureza abandonada a si mesma poderia nos fazer entrever. A realidade dessa vida sobrenatural, à exemplo da vida natural, tem seus componentes. A graça é a essência dela, as virtudes infusas são os seus princípios de ação. Assim como, com nossa natureza humana, possuímos faculdades que nos fazem agir como homens, do mesmo modo, na vida sobrenatural da graça, possuímos princípios de ação que nos fazem agir não mais apenas como homens, mas como filhos de Deus. Eis o que precisamente são as virtudes sobrenaturais.

A caridade é uma virtude sobrenatural. Dito de outra maneira, só pode existir na alma de quem possui a graça, e sua ação é essencialmente sobrenatural. Possuir a caridade, viver da caridade, realizar atos de caridade não são o apanágio do homem na plena posse da sua natureza, e sim algo próprio dos filhos de Deus, dos que vivem em estado de graça.

 

Um certo amor

Mas, o que é essa virtude? Uma virtude é um princípio de ação. Qual é a ação ou o ato da caridade? Trata-se de um amor, mas não de um amor qualquer. Santo Tomás possui longos e belos textos sobre o tema[1]. A caridade é uma amizade.

A amizade é uma forma particular de amor. O amor é uma atração, um apetite por um bem, um movimento que move o amante em direção ao ser amado.

Esse movimento pode se revestir de uma dupla intenção da parte de quem ama. No primeiro caso, o amante quer se apoderar da coisa amada para si mesmo, para o seu próprio bem ou satisfação. Falamos, nesse caso, em amor de concupiscência, termo que não possui aqui nenhuma conotação moral. Quando o leão é atraído pela gazela, trata-se de amor de concupiscência: ele quer a gazela para si. Também é assim com o homem que cobiça uma Ferrari ou a mulher que deseja uma bolsa de pele de crocodilo. 

No segundo caso, o amor se volta para uma pessoa a quem o amante quer o bem. O ser amado não é mais desejado para si, como no amor de concupiscência, mas é amado em si mesmo, para o seu bem. Fala-se então de amor de benevolência, o que significa etimologicamente, de modo perfeito, a realidade desse amor: querer o bem. Assim, os pais têm pelos seus filhos um amor de benevolência, amor pelo qual desejam o bem aos seus filhos.

A amizade é um amor de benevolência, mas um amor de benevolência particular. A amizade acrescenta, com efeito, à benevolência uma reciprocidade: o amante quer o bem do amado e o amado quer o bem do amante.

Todo amor de benevolência não é necessariamente recíproco. O mestre ou o professor tem pelos seus discípulos um verdadeiro amor de benevolência que, infelizmente, nem sempre é retribuído... A amizade, ao contrário, pressupõe a reciprocidade, porque o amigo é amigo do seu amigo!

Essa reciprocidade merece ser explicitada. Com efeito, para que exista uma benevolência recíproca, é preciso que haja uma troca, algo de comum sobre o qual essa reciprocidade vai ser exercida. Dito de outro modo, existe um bem comum, uma comunhão de bens que permite, aos dois amigos, essa troca de amor.

Assim, toda amizade é um amor de benevolência recíproca, fundada em alguma comunhão ou comunicação de um bem.

 

O amor de Deus

Qual é, portanto, a comunicação do bem na caridade?

Santo Tomás responde de modo tão lapidar, que é quase desconcertante! “Portanto, quando há uma comunhão de bens entre o homem e Deus, posto que Deus nos faz partilhar a sua beatitude, resulta que essa partilha implica em uma amizade.”[2]

O bem comunicado é a beatitude de Deus. Dito de outro modo: o bem comunicado é a própria vida de Deus. Eis o que é a caridade. Um amor recíproco entre Deus e o homem fundado na vida divina, que nos é comunicada pela graça!

Quanta riqueza numa simples definição! Antes de mais nada, a caridade é um amor de Deus, amor pelo qual amamos a Deus tal como Ele se ama, posto que Deus é caridade. Que grande mistério, uma reciprocidade entre Deus e sua criatura!

Deus criou em nós a capacidade de amar (eis o porquê desse amor ser sobrenatural, essa capacidade excede nosso simples poder) e de amá-lo tal como Deus é na intimidade da sua vida trinitária (eis outra razão da caridade ser sobrenatural: o seu objeto está fora do nosso alcance, sendo inacessível e incognoscível a nossa vontade e conhecimento). Compreende-se também que, para viver de caridade, é preciso viver da graça, posto que essa última é uma participação na vida divina. Sem a graça, não há caridade, simplesmente porque não há mais nada de comum entre o homem e Deus. O simples fato de amar a Deus como nosso criador não basta tampouco para definir a caridade, posto que ela excede as capacidades da natureza humana, que não alcança a intimidade divina.

Se compreendemos bem em que consiste a caridade, podemos então nos perguntar em que consiste a caridade pelo próximo. Será ela possível, uma vez que a caridade é o amor recíproco entre o homem e Deus?

 

O amor ao próximo

Nosso Senhor, que nada diz em vão, acrescentou este pequeno inciso a propósito do mandamento de amar a Deus: “O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo...”[3]

Tudo está dito com a palavra semelhante! Não há duas virtudes de caridade. Há uma só que consiste em amar a Deus como Ele se ama, e amar a Deus no próximo por Deus e em Deus.

Tudo permanece sobrenatural no amor ao próximo. O que visa a caridade pelo próximo, não é o seu bem estar material, a quantidade de arroz na mesa ou a qualidade das cobertas com que passará a noite. Isso pode até fazer parte, mas não é o principal. O que define a caridade fraterna é a mesma comunicação que existe na caridade com Deus: a beatitude ou a vida de Deus.

Amar ao próximo é desejar-lhe a graça e a vida divina, é entretê-la nele. Amar ao próximo é ver nele a obra de Deus, por vezes ainda não iniciada, mas a ser começada. Amar ao próximo de modo material é predispor-lhe a receber o amor de Deus, pois aí está a felicidade de Deus a que o homem é chamado.

 

Desvio diabólico

Compreende-se bem, por esses desenvolvimentos, como a caridade foi aviltada. O naturalismo é a chave disso. Pois, após passar pelo filtro desse naturalismo, não restou grande coisa da caridade. Fez-se dela uma aptidão puramente humana, um amor humano. Atribuiu-se a ela um objeto humano: o emigrante; ao qual se acrescentou meios humanos: a acolhida. Para cúmulo, deu-se ao homem um fim humano: o globalismo, sob os aspectos do ecologismo e do respeito pela “mãe terra”.

O diabo é o símio de Deus. Nesse caso, sua força consiste em guardar a palavra caridade esvaziando-a de toda substância sobrenatural a fim de fazer dela um humanitarismo. O pior talvez não seja isso. A força do demônio é de fazer com que aquele que deveria agir como Vigário de Cristo esteja hoje a serviço do globalismo.

 

(Le Chardonnet no. 362 – Tradução: Permanência)

 

[1] S.T., IIa IIae, q. 23.

[2] S.T., IIa IIae, q. 23., a. 1.

[3] Mt 22, 34.

Deus castiga?

Pe. Gabriel Billecocq, FSSPX

Com essas palavras — “Deus não castiga” — a mídia difunde os dizeres de muitos eclesiásticos, como Dom Éric de Moulins-Beaufort que, por exemplo, afirmou recentemente numa entrevista: “A coerência bíblica leva à convicção de que Deus, o Deus vivo, não age na história para punir.”1

No entanto, a questão está em todos os corações. Nos deparamos nas ruas com dois tipos de homens: de um lado, os que nos insultam e negam Deus, mas que terminam por acusa-lo dos castigos presentes; de outro, os que, considerando esse vírus como uma punição, pedem nossa intercessão a Deus. Deus castiga? Não procuramos aqui saber se o coronavírus é um castigo de Deus, e sim examinar se Deus pode ou não punir.

 

O Antigo Testamento

O primeiro reflexo que nos vêm, quando essa questão vêm a tona, é o de abrir o Antigo Testamento. Deparamo-nos então com a revolta de Coré, Datan e Abiron. Os dois últimos, da tribo de Rubem, apoiavam o levita Corá contra os privilégios de Moisés e Aarão (na verdade, sentiam ciúmes da posição hierárquica dos dois irmãos e fomentavam uma revolta). Apesar de Moisés exortar à humilhação diante de Deus, o orgulho desses homens foi punido ostensivamente. A terra se entreabriu e engoliu as famílias de Datan e Abiron. Quanto à Coré e aos duzentos e cinquenta homens que o apoiavam oferecendo incenso, foram devorados por um fogo que desceu do Céu. No dia seguinte, toda a multidão dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e Aarão de serem responsáveis pelas mortes dos das tribos de Rubem e de Levi. Um novo fogo celeste devastou o povo e foi preciso a intercessão do grande sacerdote para pôr fim a esse fogo2.

Encontramos também o episódio da translação solene da arca da aliança para Sião nos tempos de Davi. A arca estava sobre um carro novo puxada por bois quando, de repente, ao chegar em uma eira, os bois escorregaram. Oza estendeu a mão para a arca de Deus e susteve-a. O Senhor indignou-se e Oza caiu morto ali mesmo. A razão? Somente os levitas estavam autorizados a tocar neste objeto sagrado e Oza não era da tribo de Levi. Trata-se claramente de um castigo3

Há muitos exemplos como esse no Antigo Testamento e não podemos citá-los todos. Mas a conclusão de impõe: Deus castiga! De resto, nosso contemporâneos fariam bem em se lembrar do episódio de Sodoma e Gomorra…

 

O Novo Testamento

Dir-se-á, talvez, que era assim na antiga aliança, quando Deus educava o seu povo; doravante, o castigo deu lugar à misericórdia. Com acerto, citarão o episódio da mulher adúltera: “vai, e não peques mais”, diz Jesus. O que apenas corrobora o que já dizia o Profeta Ezequiel: “Não quero a morte do ímpio, mas sim que se converta do seu mau proceder e viva” (Ez 33, 11). 

Os numerosos milagres, as múltiplas remissões dos pecados (Maria Madalena, o bom ladrão etc) não devem ocultar outras páginas do Evangelho. Pense na figueira maldita por não carregar frutos. Releia parábolas como as do rico mau que está no inferno, ou a do homem que comparece às bodas sem a veste nupcial e é lançado no fogo eterno. Medite o capítulo 23 de São Mateus que relata as maldições de Jesus aos Fariseus. Que não se esqueça tampouco com que misericórdia Nosso Senhor expulsou do templo os vendilhões. O episódio de Ananias e Safira, nos Atos dos Apóstolos, também é eloquente! 

Em resumo, é preciso dizer que a nova aliança é uma lei de amor, uma lei de misericórdia. Mas, seria compreender mal a misericórdia divina separá-la da justiça. Ocultar todos os atributos divinos para ficar apenas com a sua misericórdia seria, além de um erro teológico, tomar a Deus por um bonachão.

 

Justiça e misericórdia

Ser misericordioso significa inclinar-se sobre a miséria de outrem para aliviá-la. Ora, a verdadeira miséria do homem é o pecado. Deus, portanto, demonstra uma misericórdia eminente quando, inclinando-se sobre nossos pecados, nos desoprime e nos liberta deles. Mas, aí está: o pecado não é uma miséria como as demais. Não é  apenas uma simples miséria do homem. É também uma ofensa feita a Deus. Há, portanto, esse duplo aspecto a ser considerado ao se falar da miséria moral do homem: o homem é miserável porque ofendeu a Deus.

Sendo assim, Deus não pode agir com misericórdia para com o homem sem que ele possua uma genuína vontade de pedir perdão e reparar a ofensa cometida. Ora, pedir perdão e reparar pelas ofensas são atos de justiça.

Só há misericórdia, portanto, se há justiça. E a justiça exige uma reparação à altura da falta. Esta reparação é, propriamente falando, um castigo, uma pena, ou ainda, uma penitência. Deus tem de castigar para fazer misericórdia.

Pode-se objetar que são muitas as almas que se beneficiaram da misericórdia divina sem que tivessem de sofrer um castigo. Mas isso seria esquecer que a obra de justiça por excelência é a Paixão de Jesus e a sua morte na Cruz. Trata-se de um castigo verdadeiro, de uma punição pelos nossos pecados. “Ele se fez pecado” diz São Paulo, e aplacou a ira divina com a sua morte.

A misericórdia de Deus com respeito ao homem decorre da Paixão e da Cruz de Nosso Senhor. Dito de outra maneira, decorre daquele ato de justiça pelo qual Deus tornou-se propício a nós. É a partir daí que Deus nos é misericordioso e alivia a nossa miséria, nos convida a segui-lo no caminho da Cruz.

São Paulo dizia ainda: “[Eu] completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Cl 1, 24) dando a compreender que a todo homem há um dever de viver na penitência em espírito de reparação. “Ou sofrer, ou morrer”, dizia ao seu modo a grande Santa Teresa.

Infeliz do homem que não quer se arrepender dos seus pecados. A esses corações endurecidos na sua miséria, é preciso temer a cólera divina. “Se isto se faz no lenho verde”, disse Jesus as mulheres de Jerusalém, “que se fará no seco?”

 

As vias insondáveis da Providência

Deus não quer a morte do pecador. Ele quer a sua conversão. Mas há pecadores que não querem se converter, que desejam a sua morte espiritual. A conversão de tais pecadores só se obtém — quando se obtém — pelo sofrimento do Justo e dos justos. É amiúde pelo castigo dos que lhe são agradáveis que Deus, vendo nos corações de tais santos uma generosidade de amor, inclina-se para a misericórdia para com as almas endurecidas.

O castigo dos justos aqui em baixo é muitas vezes o prelúdio de conversões extraordinárias. “O sangue dos mártires é sementeira de católicos”, já dizia em seu tempo Tertuliano. As almas religiosas e enclausuradas são muitas vezes almas reparadoras que atraem numerosas graças de conversão. Por onde se pode mensurar a loucura dos padres conciliares que abriram de par em par as clausuras monásticas.

Quanto aos que recusam a conversão, São Bernardo deplora muitas vezes a sua prosperidade material como sendo a justa recompensa da sua miséria moral: usufruem desde já da recompensa de que serão privados na eternidade. Sim, um dia serão castigados por seu pecado, mas nada impede que também o sejam aqui embaixo. Há, pois, um mistério, e é o mistério da unidade divina, na qual se encontram intimamente unidas a justiça e a misericórdia divina. Deus continua a castigar pois o pecado é para Ele uma ofensa incomensurável. Mas, esse castigo aceito pelos justos converte-se em misericórdia e perdão das ofensas.

 

Deus não castiga

Dizer que Deus não castiga é uma loucura de consequências portentosas. Equivale a tomar o nosso Bom Deus por um ser bonachão e fraco, voltado para o homem como para o seu fim; ao invés de tomá-lo como um Pai ávido pela nossa perfeição. 

Dizer que Deus não castiga equivale a dizer o pecado não o atinge. É tornar supérflua a paixão e morte de Nosso Senhor sobre a Cruz, inútil o Santo Sacrifício da Missa, ociosa a vida religiosa, infecunda e fútil a penitência. Quem não reconhecerá nisso os frutos amargos da nova religião do homem? Como, então, se assombrar ao ver os próprios bispos ousando afirmar que Deus não castiga?

Sempre podemos responder-lhes que Deus não pune diretamente, mas se serve da estupidez e da perversidade dos ímpios para que se punam uns aos outros pelas descobertas científicas do seu incomensurável orgulho. A auto-destruição da Igreja engendrou a auto-destruição da humanidade…

 

 

  1. 1. Entrevista no jornal Figaro, 10 de abril de 2020
  2. 2. O relato se encontra no capítulo 16 o livro dos Números
  3. 3. Esse castigo não nos permite prejulgar da danação de Oza. o castigo tem, sobretudo, valor de exemplo, para ensinar o respeito pela lei divina
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