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CAMPANHA DE ROSÁRIOS PELAS ELEIÇÕES

 

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Sartre, filósofo da contestação

 

PERDOE-ME THOMAS MOLNAR. Não tenho a intenção de desmontar ou violar o livro admirável que consagrou a Sartre, filósofo da contestação (Paris, Ed. du Prieuré 1969). Quero apenas transmitir a meus leitores algumas reflexões despertadas por obra tão estimulante. Aqui deixo estas reflexões, esperando que o leitor descubra o encadeamento, que só será perfeito na leitura integral do livro.  

 
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De onde vem o imenso sucesso de Sartre? Da habilidade de ter feito uma sábia mistura de todas as filosofias modernas, previamente desnatas ou desidratadas?  Não o creio. Sartre é indubitavelmente pouco original, e não é muito difícil analisar os ingredientes de sua salada. Todos os filósofos, de Descartes a Husserl e Heidegger, aí estão, mas o que predomina é Hegel e Marx. Numa época como a nossa, esse é o truque para o sucesso. "O homem novo" do qual engravidou nosso século é um arlequim cosido de pedaços pedidos às épocas anteriores. Os séculos de decadência substituem a originalidade pelo sincretismo. E sob este ponto de vista o cérebro de Sartre é um excelente aparelho de compor e dosar. Quando lemos suas obra podemos prever, com boa segurança o modo com que vai compor uma mistura para nos inculcar seus sofismas.
 
Basta ver o que é a moda: é o que se des-moda, como já foi dito, mas é também o que se re-moda e perfeitamente se plagia. o teclado da tolice é monótono. Para ver isto com nitidez basta visitar um asilo de alienados.
 
O sucesso de Sartre — já em declínio e provisoriamente substituído pelo de Marcuse — só se explica pela hábil combinação dos sistemas em que todos os esp~iritos, ditos modernos, podem encontra o que julgam procurar. (Distingamos entre moda e tradição. A moda é a repetição morna do tempo, a tradição é o jato vivo do eterno. A moda nasce e morre, a moda faz data. A tradição flui sem cessar às vezes subterraneamente, de suas fontes vivas: "o pacto original do homem", segundo Simone Weil, não envelhece). 
 
Sartre não é apenas o perfeito arlequim da filosofia moderna, cosido à mão, made in Paris. É um refletor, um espelho em que o homem moderno automaticamente se encontra consigo mesmo (ou julga realizar esse difícil encontro)1. Nesse sentido pode-se dizer que Sartre não existe. Ele é uma imagem, nem mesmo a própria imagem e sim a de todos os que nunca saíram de si mesmos, e jamais sairão, e cujo nome, hoje, é Legião. Sartre é a subjetividade do homem moderno posta em fórmulas, etiquetada, padronizada e reduzida ao vazio absoluto: não há nada, nenhuma realidade nessa subjetividade, a não ser palavras, palavras que têm um sentido, sem dúvida, mas não o sentido que corresponde aos seres de que são sinais, mas apenas o sentido que lhes dá quem as pronuncia.
 
Será Sartre então ininteligível? Não, não. Todos os que se movem na radical subjetividade de Sartre se compreendem. Sartre é um espelho falante, um espelho que fala pelos que nele se miram e nele se ouvem e se entendem, ou melhor, um espelho ou ressoador em que seus leitores se ouvem, se entendem, e já que nada existe fora deles, digamos um espelho ou ressoador onde eles encontram o ego, o oco, o vazio em que comungam.  
 
É preciso reconhecer em Sartre o mérito de ter conseguido arrancar a significação profunda da filosofia moderna e a fascinação do nada que a tortura: velho salgueiro apodrecido e reduzido à casca que, de época em época, se desgasta. "A monstruosa profundidade da epiderme" dizia Verlaine. "A monstruosa profundidade do Eu" poderíamos acrescentar: furada a película, não se encontra nada, indefinidamente. Sartre ousou proclamar a boa nova da perdição, de cuja revelação remava sem parar o moderno humanismo. Ei-la: "O homem é uma paixão inútil".
 
Vem daí seu sucesso. Nosso contemporâneos estão gastando as últimas reservas de realidade que seu subjetivismo ainda continha, ao menos na conduta. O que se diz não é mister que se pense, e muito menos que se faça. E agora:
 
Ah! bebeu-se tudo, tudo comeu-se, e nada mais resta dizer! Todos os bastardos, os abortos, frustrados, impúberes, os declamadores que não chegam a existir falam de existência etc., etc., e se precipitam sobre aquele que, definitivamente, disse o que eles jamais poderão ser sem destruir tudo o que é. O nada é um ponto de convergência, como o ser, e até mais sedutor. É difícil "cair para cima" no Princípio do Ser. Cair no nada está ao alcance de qualquer um: basta-lhe deixar tudo correr. Mas, para saborear a vertigem do vácuo é preciso fazê-lo em torno de si. Todas as subjetividades se aglomeram assim no mesmo niilismo, no mesmo apetite de destruição. O acúmulo delas se faz massa. Os intelectuais dos tempos modernos anulam, esvaziam tudo por onde passam. Manada de búfalos diplomados. 
 
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E por isso têm de ser marxistas, à imagem de seu chefe de fila. O subjetivismo deles coincide com o coletivismo, como também com o niilismo: "Eu sou todos, o inimigo misterioso de tudo"2.
 
E não há aí nenhum mistério, senão para Victor Hugo ao mesmo tempo lúcido e enfeitiçado, perspicaz até o momento em que condenaria a si mesmo. O eu é, sem o mínimo paradoxo, o mais feroz dos coletivistas. Ele quer que cada um seja eu e se reduza a seu eu próprio. Para isto é preciso que cada eu nada tenha. Se tem alguma coisa tem o ser, o real, em que se aliena e se torna outro em relação a si mesmo, e deixa de ser eu.
 
Uma "sociedade" com a praga que Valery chama "a multiplicação dos sós", é necessariamente coletivista. Como diria o conselheiro Acácio, para ser eu, não é preciso ser outro, na dependência de outro, Deus, homem, hierarquia, sociedade, instituições, coisas, universo, nada em suma de tudo que é. É então necessário suprimir qualquer alienação, romper todos os vínculo que ainda unissem, mesmo mentalmente, o eu ao não-eu.
 
Mas, para que todas as subjetividades estejam na mesma situação, é preciso compor todo um Estado proprietário de tudo que não é o próprio eu, o eu esvaziado de ser, ou , se assim podemos dizer, o eu que recebe seu vazio de ser — Monstro anônimo em cujas mínimas percepções, se vê que não passa de um Aparelho manobrado por uma "nova classe dirigente" e minoritária. The madness of the many for the gain of a few, dizia Pope. Atrás do monstro estão os maquinistas.
 
Para ver isso, é preciso deixar toda a subjetividade. Ao contrário, quanto mais mergulhamos na subjetividade para liberá-la do que não é ela, tanto mais nos diluímos numa coletividade imaginária, numa espécie de "teosfera" de massa humana divinizada, que outra coisa não é senão o eu indefinidamente dilatado. O intelectual moderno adora esse joguinho mental em que, como diz Marx, o "indivíduo coincide com a espécie". Sem sair dele mesmo, sem nada fazer senão tudo desfazer.
 
Sartre traz assim em si o destino da humanidade. Para reconciliar o eu com os outros, precisa tudo destruir e tudo reconstruir, mas somente na imaginação. O próprio da coletividade (e do coletivismo) é de não existir a não ser no espírito. As conseqüências do mito marxista são todavia reais: Leviatã, totalitarismo etc., etc. A miragem no deserto também tem conseqüências para os viajantes que as vêem: A diferença entre Sartre e esses viajantes é esta: Sartre e seus êmulos não percebem que são vítimas de uma miragem. Assim é que Sartre, sem nenhum abalo interno ou externo, pode escrever: "Numa sociedade do tipo da URSS, em que o valor supremo é o trabalho, e a generosidade do produtor, que produz para dar, tornar-se a virtude maior". Não vale a pena perguntar a tão magnânimo escritor porque é que não se engaja imediatamente como trabalhador de choque na URSS. Ele nos responderia humildemente que reconhece sua indignidade e que recebe polpudos direitos autorais nos países burgueses para expiação de seus pecados. O melhor, ou pior, é que ele está convencido disso. "O homem é o ser cuja aparição faz que um mundo exista" escreve Sartre. De onde se deduzirá que "Sartre é o ser cuja aparição faz que exista a generosidade do Estado soviético, que produz para dar". A fórmula é dele mesmo: O Estado soviético produz para dar! Ah! a estupidez infinita do "intelectual"...
 
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Sabemos que, para Marx, a história se divide em dois períodos: o primeiro em que, sendo alienado, o homem não pode ser ele mesmo; o segundo em que, liberado de suas alienações pela graça do comunismo integral, pode o homem se criar a si mesmo como ser inteiramente livre. "Segundo este destino histórico", escreve com justeza Thomas Molnar, Sartre se situa no segundo período da história do mundo: ele é o "São Paulo" de um "Cristo" que seria Karl Marx.  
 
Nunca se repetirá bastante que o marxismo é uma heresia cristã, e que é o ponto do extremo atingimento da heresia cristã dentro da qual nosso mundo do século XX (e o que nele subsiste de catolicismo) está soçobrando. Nunca se dirá bastante que, desde o "advento do Eu" inaugurado por Lutero -- lembremos os Trois Reformateurs de Maritain a propósito desse registro de nascimento -- assistimos todos à decomposição do cristianismo, à sua secularização, do rebatimento da vertical da salvação sobrenatural sobre o plano horizontal da salvação temporal. Nada se explica na história do mundo moderno sem "as idéias cristãs que ficaram loucas" de Chesterton, e sem a corrupção do cristianismo. E isto assim é, não somente porque o cristianismo impregnou sociologicamente as mentalidades a tal ponto que sua renegação ainda manifesta o revés de sua presença, não somente também porque, para ser eficaz, a luta contra o cristianismo pede-lhe as armas (a razão e a fé), mas sobretudo porque o corpo de verdades constituído pela reconciliação da natureza e da graça, desde a Redenção, é tão universal que, até para dele se evadir, é preciso ainda de algum modo a ele pertencer, e é preciso apoderar de uma dessas verdades, deixando-a morrer das conseqüências da amputação, e então, em torno desse cadáver, construir não sei que espécie de mecânica de suplência. E é por isso que, para triunfar, como atualmente se vê, a heresia deve penetrar no próprio interior do cristianismo, in sinu gremioque Ecclesiae.
 
O subjetivismo moderno é o fruto abortado de um cristianismo corrompido. A boa nova, anunciada por Cristo, é a da Salvação individual. O Verbo não se encarnou para salvar povos, sociedades, raças, civilizações e humanidade, mas para salvar as almas radicalmente pessoais, encarnadas em corpos3 que ressuscitarão no último dia. I and my God dizia o Cardeal Newman, e nós diríamos que essa divisa condensa e exprime a essência do cristianismo, mas exprime-a no nível do sobrenatural, segundo uma palavra de Pascal: "Derramei por ti tal gota de sangue", e segundo o mistério da predestinação onde se encontram a total liberdade da ação divina, pela qual os eleitos chegam à bem-aventurança, e a inteira liberdade do homem. A graça, princípio radical de operação propriamente divinas no homem, penetra até o centro mesmo da pessoa incomunicável que é sua sede (actimes sunt suppositorum) sem constranger a liberdade, e até, ao contrário, conferindo-lhe seu caráter livre, "porque Deus opera em cada espécie de ser segundo a natureza própria da espécie", de modo que a ação divina é verdadeiramente da própria pessoa:  
 
"É preciso que o homem chegue ao fim último por suas própria operações, per proprias operationes", diz Santo Tomás. E para que a pessoa seja, ela mesma, causa eficiente (ipsa efficiens), é preciso que ela seja renovada, regenerada, disposta por Deus a atos sobrenaturais. O divino entra assim na própria fonte de todas as nossas atividades, no coração de nossa pessoa pelo divino sobre-elevada. Pode-se pois afirmar que o cristianismo é a religião de um Deus que se revela à pessoa, como tal.  
 
Essa é a razão pela qual uma sociedade de pessoas, por si incomunicáveis, é possível mas somente em nível sobrenatural: penetrando até o centro mais íntimo de cada pessoa, e impregnando-a de sua graça, Deus as chama, todas as que ele elegeu, à participação de sua vida divina. Gozam todas de um mesmo bem comum sobrenatural que cada uma reencontra presente em cada uma das outras, naquilo que as constitui propriamente. Compreende-se assim o alcance dos preceitos evangélicos: "Amarás o Senhor teu Deus; e o próximo como a ti mesmo", sendo o segundo semelhante ao primeiro: cada pessoa que ama Deus com amor sobrenatural coincide com seus próprios alicerces e aí descobre a presença de Deus, e então se ama a si mesma com um amor que nada tem de egoísmo e que o próprio Deus move em direção ao próximo, onde está presente de fato ou em esperança; essa pessoa ama então a pessoa do outro como ama sua própria, ambas na sobre-elevação do amor divino. E por aí se vê que, para amar o próximo com amor sobrenatural, único capaz de atingir o próximo como tal, e de quebrar por cima a incomunicabilidade da pessoa, é preciso primeiro amar Deus sobrenaturalmente4. O amor do próximo passa sempre pela cabeça do Corpo Místico de Cristo e não seria possível sem essa cabeça. Entrevemos aqui a razão pela qual a Igreja exige uma autoridade suprema que garanta a efusão da graça de Deus em seus membros, e que seja a indefectível guardiã da doutrina.  
 
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Uma sociedade "personalista e comunitária" só é possível na altura do sobrenatural. O Reino de Deus não é deste mundo, ainda que esteja no mundo de modo incoativo. A secularização dos conceitos fundamentais sobre os quais está fundado, secularização que não para de se acelerar desde a Reforma, a Revolução e a "Mutação" da Igreja desencadeada pelo Vaticano II, é o empreendimento de destruição das sociedades naturais (e da política natural que lhe corresponde) o mais violento que a humanidade pode conhecer: esse empreendimento, em nome da liberdade e da igualdade, dissocia radicalmente as pessoas incomunicáveis que agrupa e amontoa. Por via de conseqüência surge um novo tipo de estado que desempenha o papel da divindade desaparecida e que socializa, graças a um aparelho coercitivo totalitário, ou de tendência totalitária, as condutas pessoais. Não é de admirar que esse tipo de estado tome o nome de Estado-Providência: ele se substitui a Cristo, fonte de todas as graças. E é por isso que o bispo Schmitt, de Metz, um dos corifeus do "personalismo comunitário" proclama logicamente que "a socialização é uma graça".
 
Marx e Sartre aqueceram até o mais alto grau de incandescência subversiva esse "personalismo comunitário" que devemos denunciar como a heresia cristã por excelência, heresia que transporta as noções fundamentais da vida sobrenatural para a vida social e política, e no mesmo passe transmuta o homem em ersatz da divindade.
 
Basta ler o belo livro de Thomas Molnar para verificar que Sartre se atirou no marxismo como quem entra numa ordem religiosa. Como tantos outros, ele é uma pobre vítima da perfeita heresia cristã que rebenta hoje no mundo como um abscesso.
(Trad. Gustavo Corção, publicado em PERMANÊNCIA, Nov. 1970)
 

 

  1. 1. Nota do Tradutor.
  2. 2. "Je suis tous, l´ennemi mysterieux de tout", V. Hugo
  3. 3. [N. do Trad.] A expressão "almas encarnadas em corpos" é infeliz por sugerir a idéia de uma existência da alma separada anterior a existência do corpo, idéia essa insustentável. O artigo nada perderia se aqui o autor dissesse "almas cujos corpos...".
  4. 4. [N. do Trad.] Diriamos que é preciso no que nos toca, primeiro nos entregarmos ao império do amor divino, verdadeiramente primeiro nesse encontro de amor.
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