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Rostos, roupas e paramentos

Estas reflexões começaram no hall do Municipal onde me achei numa noite de bailado russo. Antes de mais nada, porém, devo dizer, para tornar mais compreensível o que se segue, que costumo passar muito tempo, anos às vezes, sem encontrar certos fenômenos da chamada vida social. Por isso, nessas circunstâncias gozo de uma vantajosa inexperiência e ainda consigo ver certas coisas de chofre, com a surpresa das crianças ou dos idiotas. Ambos esses pontos de vista são indubitavelmente superiores àquele do homem informado, do incurável adulto de visão plastronada, do homem que se habituou, que sabe como se fazem as coisas, como se entra num teatro ou se serve um chá numa tarde de irreparável elegância.

 
Daquela inexperiência resulta, como conseqüência bastante incômoda, que vivo me espantando e me assustando. A insensatez aparece em tudo e sempre com aspecto novo; o desvario se diferencia indefinidamente. Quando se julga já ter visto bastante bizarria no mundo surge ainda uma inédita ou pelo menos sob forma inteiramente inesperada. Parece que tudo é novo nas ruas, tudo inaudito nas conversas das esquinas e tudo incrível nas escadarias dos teatros. Mas essa inexperiência, apesar de sua evidente superioridade sobre a carapaça, é apenas uma questão de sensibilidade e está longe de constituir uma sabedoria. Está no plano das sensações, é feita de impressionismo mais do que de reflexão.
 
A experiência real da sabedoria, aquela verdadeira da inteligência, que o homem moderno pretende imitar com a insensibilidade, vê nessas manifestações do mundo sempre a mesma coisa. Se a insensatez aparece sempre nova para o impressionista imaginativo, o pecado certamente aparece sempre o mesmo para o sacerdote que passa horas por dia no confessionário. O pecado surge sempre, penso eu, com uma monotonia horrível. É sempre a mesma história que se esforça por ser uma história, a mesma penitência que ainda chega incompleta com uns restos da mesma complacência. A maior humilhação para o homem está nessa impossibilidade de ter uma história própria no pecado. O pecado é a própria banalidade. Ao contrário do que possa esperar um amador de estados de alma, creio que o sacerdote que se debruça sobre o pecado não encontra movimento e vibração, mas imobilidade e paralisia. O próprio penitente muitas vezes pensará que está ouvindo as mesmas fórmulas e os mesmos conselhos, e julga que o padre se repete, que o sacerdote não varia. Mas quem se repete é ele, porque a monotonia é a face do pecado. O pecador é o cacete, o banal, o homem desesperadamente pouco interessante, o menos divertido dos espetáculos.
 
Mas com tudo isso, e se não estou muito errado, o aspecto exterior, a epifania do mundo se caracteriza pela diversidade vertiginosa.
 
Para o indivíduo que se instalou o mais comodamente possível no mundo passa-lhe um fenômeno contrário que não contém a sabedoria nem requer a sensibilidade das impressões. É o contrário do poeta e do sacerdote. para esse o mundo não espanta porque tornou-se monótono, mas em compensação ele procura a diversidade no domínio próprio da inteligência. Daí nasce a angústia baseada, por assim dizer, na tolerância da sensibilidade. Procura teorias específicas para atender à insegurança dos movimentos exteriores porque para eles importa definitivamente crer na segurança do mundo. A diversidade das aparências mergulha procurando levar a fermentação do mundo para o próprio plano da inteligência. São tranqüilos nas ruas, nas escadarias, perfeitamente informados a respeito de roupas e gestos, mas desforram-se admitindo que cada um pode ter na opinião, um sistema, uma verdade.
 
* * *
 
O fato é que fiquei assustado quando me achei de repente no hall do Municipal numa noite de bailado russo, no meio de centenas de damas paramentadas com grandes mantos vistosos. Por que aqueles mantos? De onde tinham saído? Onde os tinha eu visto, e quando?
 
Então tive a certeza brusca que aquela gente estava chegando de pilhar as sacristias dos arredores. Os mantos, as sedas, as púrpuras, os ouros, toda aquela paramentação tinha sido arrancada dos nichos apagados.
 
A estridência do sacrilégio não parecia espantar muito porque todos conversavam amenamente. As damas deslizavam calmamente dando jeitos nos mantos, os cavalheiros faziam curvetas, e uma incensação de cigarros finos envolvia o "decor" que amanhã o mais abjeto dos cronistas irá chamar de "ambiente de fina espiritualidade".
 
Ainda esperei que chegassem de repente investigadores acompanhados de sacristãos excitados, que toda a quadrilha fosse convidada a amontoar ali mesmo no hall o "butin", e que por fim fosse tudo devolvido, mantos e coroas, à Rainha despojada.
 
Há dias atrás um piedoso ladrão devolveu a coroa de Nossa Senhora da Glória mas o jornal, tratando-o por meliante, só achou explicável o fato pela dificuldade que ele tinha experimentado em fundir a peça. Realmente o ponto de fusão do ouro é elevado e nos tempos que correm é muito mais fácil acreditar num problema metalúrgico do que num arrependimento sincero.
 
* * *
 
Há poucos dias atrás (e perdoem-me o que essas reflexões tenham de pessoal e sem gosto) quando eu andava pelas ruas procurando o sentido das coisas, e olhava de longe, com melancolia, para as torres das Igrejas, a Divina Providência valeu-se duma coisa muito pequenina e muito insignificante para me empurrar e me atirar "de bruços, estatelado, dentro da casa luminosa".
 
Julgo que seja impossível contar a história de uma conversão. Em geral é costume, nesses casos, fazer um romance encharcado de psicologia sentimental onde a fé aparece de repente como um açúcar cristalizado no fundo duma compota. Faz-se um enredo enchendo os claros, dá-se importância a um certo passeio um uma certa leitura não deixando de mencionar de vez em quando o Espírito Santo mais como fiador do que como principal autor. Nunca tentarei semelhante tarefa porque, pelo pouco que já andei considerando, conclui que iria contar a história mais estúpida do mundo1. É fácil imaginar por exemplo uma história em que somente uma palavra em dez fosse legível. No meu caso muito poucas  palavras são legíveis, mas entre essas poucas ficaram alguns nomes, nomes de pessoas. E um nome já é uma formidável história.
 
Mas voltando através àquela suposição sobre os processos de Deus, quero dizer que as coisas pequenas que encontrei no caminho foram simplesmente casacos e chapéus. A incongruidade dos chapéus, o desespero dum casaco, demonstraram-me com violência o pecado original, mas a insensatez das indumentárias pareceu-me sempre conter um elemento mais trágico do que a ofensa do sexto mandamento. Havia qualquer coisa antes de pudor, antes da concupiscência na lenda das roupas.
 
Haverá coisa mais trágica do que um chapeuzinho de pano verde veronense com um caco de galalite ou pedaço de fita armado em cima de dois caracóis num ângulo impossível? Haverá coisa mais fascinante do que um jaquetão? Quando tudo isso se amontoa nas esquinas ou flui nas avenidas, aos borbotões, e ainda se complica com embrulhos, gravatas e balangandans, e quando se advinha sob o disfarce o pobre corpo humano sem glória, um corpo perseguido, crivado de imperativos que a cada hora são contornados ou iludidos, e quando a gente ainda vê os rostos torcidos no sorriso sociável do bom munícipe e ouve o falar, ininterrupto como um castigo, o inesgotável e miúdo cacarejar das vozes que não têm nada para dizer, então é impossível não desconfiar que há um enorme equívoco na vida e no destino dessas bizarras criaturas.
 
As vestimentas esquisitas que vemos nas ruas têm qualquer coisa de angustioso e de arranjado na última hora. Fazem pensar numa improvisação de pânico, num arrecadar febril de um minuto de fuga. Aquela história começou evidentemente na porta do paraíso perdido. Os homens de penitência também se vestiram quando viram que estavam nus. Mas a veste de penitência tem sentido na própria penitência, na descoberta da nudez. E também tem o sentido da salvação, isto é, da volta do Senhor. Assim o monge é uma sentinela sempre pronta, sempre na expectativa do Rei: o hábito, o cinto, as sandálias, tudo no monge está pronto para o Cristo, sob tensão escatológica.
 
As roupas variadíssimas dos homens nas ruas, ao contrário, pela diversidade, pela variedade, pelo despropósito, são coisas apanhadas às pressas e significam justamente o contrário dessa espera: são símbolo de fuga.
 
Na escadaria do Municipal, porém, vê-se na pompa do vestuário um elemento especial que não lembra a fuga das ruas nem a espera dos mosteiros. Aí há uma fixação, uma realização, um encontro; uma consumação, uma cristalização. O vestuário de gala não é roupa nem hábito: é paramento.
 
Não fogem nem esperam porque já se encontram dentro deles mesmos. Não precisam da glória de Deus porque agora se cobrem com a vistosa e fantástica paramentação da própria glória. O burguês paramentado, com manto, é qualquer coisa que agride a mais elementar sensibilidade. É o homem que se glorifica a si mesmo; que coroa a própria cabeça; que se consagra; que inventa, realiza, determina a sua própria vestição, a sua própria ordenação, com os materiais de sua própria glória e a garantia incontestada de sua suficiência.
 
É a mão que se impõe na própria cabeça e que ajeita diante do espelho uma estola inventada. E no fim dessa cerimônia de auto consagração, dando um jeito de olhos e um tapa no drapeado do manto, ele acha que ficou bem.
 
Se o imperador Romano era um usurpador do Kirios, do único Imperador, apesar do determinismo histórico que pretende tirar o cristianismo da putrefação dos cezares, se Augusto e Tibério não passavam de macacos do Kirios, o burguês paramentado, através das dinamizações revolucionárias, atingiu o mais baixo nível de imitação subalterna.
 
Nem se pode dizer que é usurpador da nobreza a quem tomou as terras e os castelos: trata-se, antes, de uma orgia vulgar, duma grossa partida de criadagem embrigada que achou de se enfeitar com os mantos das castelãs assassinadas.
 
Mas em última análise a questão ainda se reduz a um confronto decisivo entre ele, burguês, e Deus; entre o sacerdócio dele mesmo, burguês, e o sacerdócio de Deus.
 
O sacerdote de Deus, o homem consagrado pelo Bispo que é o próprio Cristo, também recebe o paramento. O ouro, a seda, a púrpura entram no seu vestuário para o espanto do mundo que só vê nisso a "pompa" da Igreja, o alarde dos recursos financeiros da cúria. O sacerdote veste o ouro e a seda, veste a Glória por cima do hábito da penitência, realizando uma consumação terrível como aquela da cruz. O reino de Deus se encontra com o Reino de Deus, a prontidão escatológica passa no ato de Glória, vive a presença do Rei. Repete-se a experiência da cruz na pessoa do sacerdote mas aqui, lembrando a crucificação de Pedro, o que nos ombros consagrados não é a penitência, é a Glória. O paramento crucifica. A Glória de Deus pesa, esmaga. Contam que Pio XI, nas grandes solenidades sentia a tal ponto a enorme carga da Glória do Senhor que aparecia com uma palidez cadavérica. Um imenso e acabrunhante "non sum dignus" apertava-lhe o coração piedoso.
 
Mas no burguês não. Nele o manto não pesa. Não o deve a ninguém, comprou e pagou. Vestiu-se. Consagrou-se. Casa um deles é um universo fechado, um Deus.
 
***
 
Afinal, voltando à noite do bailado, sempre consegui chegar à cadeira que correspondia ao meu número. As cadeiras são todas iguais, com números e letras, em filas. Aqui a revolução democrática reconquista o terreno perdido pondo em cheque o fausto das indumentárias. Ainda não se lembraram de construir um teatro com um trono para cada dama afim de evitar o conflito estético entre o manto e a fila. É verdade que lá dentro já despiram os mantos proporcionando ao amador uma sistemática pouco interessante de espáduas fatigadas, e também que a gente começa a se sentir à vontade quando se reconhece aqui e ali algum rosto de vizinha ou parenta. Ora, justamente quando me dispunha a esticar as pernas e esperar o bailado, e já me persuadia que o melhor era considerar o fenômeno gala sob o aspecto duma grande inocência burlesca, encontrei rostos conhecidos. Depois perturbei-me com a presença de duas mil faces encravadas na concavidade do anfiteatro. Não se consegue um abrigo na banalidade porque uma face nunca é banal. Por mais que façam, que se esforcem, cada uma tem uma marca. Durante um entreato, num corredor, encontrei um velho amigo de colégio. Uma face que tinha sido de menino. Hoje está entumescida e gretada. Vê-se ainda, por baixo do entumescimento e das gretas, a luminosidade duma infância sempre presente, dum reflorescimento sempre possível. Não me lembro ao certo o que ele me disse sobre o bailado ou sobre a guerra porque eu via a sua face, e quando ele se debruçava para mim cheio de argumentos, o rosto muito próximo inchava-se e perdia os contornos. Era uma coisa enorme, uma geografia com planícies, charnecas e montes, um planeta imenso, uma vida. Lá dentro, na concha da platéia, são duas mil faces ou cinco mil, não importa, voltadas para o mesmo retângulo. Juntaram-se ali numa comunidade estilhaçada, numa reunião em que todos se ignoram, para esperar que naquele retângulo se inscrevam certas figuras estéticas. Figuras sem rosto. Aquele retângulo imprime caráter à comunidades das duas mil faces; é por causa dele, por ser ele um retângulo estético e civilizado que cada um na platéia se compenetra de finura e civilização. O bailado imanta a platéia. O espetáculo educado educa. E por isso, pela força e mérito do bailado, os cavalheiros fazem curvetas e ciciam comlicenças. Se estivéssemos noutro lugar, lá onde as bombas caem, estariam soltando imprecações e cerrando os punhos. Aqui não, por causa do bailado as mãos tratadas manejam binóculos com gestos de oficiante. E as faces, as duas mil faces que não podem ser banais, esforçam-se, tentam imobilizar-se num êxtase de salão.
 
***
 
Evidentemente com todas essas reflexões tumultuárias, erradas ou certas, não consegui ver o bailado direito. a sensação imediata que tive foi o de serem o Proteu e o Galo de Ouro coisas muito menos fantásticas do que o hall do teatro. Sempre tive, aliás, uma certa desconfiança em matéria de bailado que ainda me parece uma arte dolorida, hesitante, vagamente ridícula, que a cada instante perde o pé metafísico e mergulha no arbitrário. Sobra, nessas ocasiões, somente o sentido técnico. A elite dos "connoisseurs", como em todos os espetáculos, suponho, vive à custa de um relativismo, rememorando e comparando temporadas. Para a maioria entretanto o que importa é tirar do espetáculo dois comentários finos e sobretudo o alívio de ter vencido mais um escalão da complicada vida dos civilizados. Importa ter ido ao bailado.
 
No fim da noite tornei a encontrar no hall a mesma multidão paramentada, mas creio ter percebido que iam embora sem entusiasmo. Um acabrunhamento medido combinado com uma impaciência flácida determinava a lenta evacuação do teatro. Então assaltou-me a mente a esperança absurda de ver aquele bando todo arrependido (decepcionado com o sem lucro da pilhagem) ir devolver nas sacristias, nos nichos apagados, as coroas e os mantos, como aquele bom ladrão de Nossa Senhora da Glória.
 
(A Ordem, Julho de 1942)

  1. 1. [N. da P.] Felizmente, Gustavo Corção mudou de idéia quanto a esse ponto, e dois anos nos deu "A Descoberta do Outro" — talvez a mais bela autobiografia espiritual em nossa língua.
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