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Pensamento (124)

Pode a Igreja morrer?

Dom Lourenço Fleichman OSB

Muitas pessoas me pedem que atualize com mais freqüência o site. Confesso que não tenho conseguido me dedicar mais a este apostolado, levado pelo excesso de trabalho nas quatro capelas sob minha responsabilidade, nas revisões doutrinárias dos livros que editamos e na cura das almas. Estamos iniciando agora o projeto do Colégio São Bernardo, a primeira escola da Tradição no Brasil, sobre a qual falaremos a seu tempo.

Felizmente tenho a ajuda de uma equipe atuante no que toca a produção da Revista Permanência, de outra forma não conseguiria manter o ritmo dos lançamentos trimensais. Confesso que é um trabalho que nos traz muita satisfação.

Agora mesmo assistimos a mais um grave escândalo do ecumenismo desenfreado. A reunião promovida pelo papa Francisco I dentro do Vaticano, no domingo de Pentecostes é apenas um gemido naturalista, um grunhido da História, dentro da obra destruidora do Vaticano II.

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Divagações a respeito dos jovens

Modéstia à parte, tenho sido ultimamente entrevistado, mas permanece inevitavelmente a mesma indagação fundamental: o que penso eu da juventude. Ora, devo confessar que não penso absolutamente nada da juventude. Por mais que me esforce e que esmiúce a pergunta, por mais que analise os conceitos envolvidos no inquérito, só consigo pensar que a juventude é a juventude. Que outro juízo esperam os colegas de mim? Não consigo, sinceramente, descobrir nenhum predicado que convenha a todos os jovens, a não ser a própria juventude. O jovem é jovem, eis aí o pensamento profundo atual, avançado, audacioso, que ofereço a todos os jornais e revistas. E desde já lanço o repto: a quem me provar que o jovem não é jovem entregarei minha casa e meus livros.

Outro dia, entretanto, ouvi alguém dizer, aliás pela milésima vez, que o “jovem é autêntico”, e que o jovem, pelo fato de ser jovem, sofre a pressão ou a colisão das inautenticidades dos velhos. O que quererá dizer isto? Receio que o pressuposto de tal afirmação, se algum existe, é o de só existir, em toda a vida humana, uma estreita faixa etária, como diria o Dr. Alceu Amoroso Lima, em que o mísero bípede implume se encontra consigo mesmo. Eu poderia invocar a longa experiência de vida e contestar o fenômeno. Sim, posso assegurar que já encontrei muitos jovens com todas as características do canalhismo; e até poderia acrescentar, com robusta convicção, que essa peculiaridade da alma humana está equitativamente distribuída por todas as idades. Lembro-me por exemplo dos moços da extinta UNE, ou entidade máxima estudantil: quase todos os dirigentes que conheci eram canalhas e demonstraram uma virtuosidade capaz de causar inveja a um velho crápula aposentado. Por dois desses fui enrolado apesar de toda a experiência da vida de que me gabei pouco atrás. Mas talvez esteja enganado: os sagazes observadores da eclesialização do mundo ou da secularização da Igreja, e sobretudo os sociólogos dessa índole dirão que observei mal e que confundi canalhismo com atitudes de protesto. Os jovens que praticam atos de canalhice, segundo os padrões tradicionais, não são canalhas porque são jovens e não são canalhas porque estão apenas replicando à deixa da falida geração que só legou taras e misérias. Sim. Um dos postulados que parece presente na base de tudo o que se diz hoje dos jovens é o da total falência do mundo anterior. E aí temos um estranho conflito e até se duvidarem uma estranha revolta: a de um ente de razão contra outro ente de razão, a de um ser abstrato contra outro ser abstrato.

Outra coisa que ainda não logrei entender é a ideia de apresentar o jovem como um vanguardista. Como assim? Vanguardista sou eu. Nasci antes dele, provavelmente morrerei antes dele, e assim se vê que estou sempre na frente. Com meus setenta e um estou na ponta onde já são escassos os companheiros, e quanto mais viver e mais envelhecer, mais na frente e distanciado estarei. Quando esse moço desordeiro da França nasceu, eu já sabia trigonometria esférica, cálculo diferencial e outras coisas. Estava até começando a ficar grisalho, tal era a imensa dianteira que levava sobre esse retardatário. Já fazia a barba quando nasceu o pai do moço desordeiro. Fui autêntico algum dia? Ai de mim, no tempo em que atravessei a faixa etária da autenticidade não haviam nascido os sociólogos para fazerem a frase que me pusesse em estado de graça em relação a mim mesmo. Vivi sem essa absolvição, ou tive minha mísera e estreita autenticidade obscuramente vivida sem que dela se apercebessem a família, a cidade e o país. Minto. Um ou outro amigo certamente me estimou como se sentiu estimado, mas éramos modestos a respeito desses atributos fascinantes que cobrem hoje multidões. Fascinantes? Pensando bem creio perceber que não há nada mais melancólico do que esse efêmero esplendor que inventaram hoje para ainda mais estreitar a pobre vida humana. Já sabíamos, pela experiência e pela revelação, que o tempo é breve e que a vida é curta. Encurtaram-na ainda mais os que exaltam a supracitada faixa etária. Pobres moços! Têm missa especial no Largo do Machado, têm diversas outras regalias, mas estão condenados à inautenticidade dentro de três ou quatro anos. É só casarem-se e terem filhos e estarão definitivamente expulsos do paraíso etário, e desenganados em matéria de autenticidade. Ontem uma jovem jornalista que me entrevistava teve de repente um calafrio de terror.

− Estou ficando velha! Estou ficando velha!

Pensei que fosse mirrar à minha vista, como a velha das Minas de Salomão, mas vi que permanecia com os mesmos vinte e tantos. Ela então explicou-me:

− Estou ficando velha porque estou começando a concordar com o senhor. O que vai ser de mim lá na redação? Estou perdida!

Sim, a pobre moça estava perdida porque começava a pensar nos filhos que iam crescer, e que daqui a poucos dias estarão dizendo que são autênticos. Num momento de silêncio pesado estivemos a medir a imensa responsabilidade de sermos pessoas sem idade definida, sim, pessoas vivas e dadas em espetáculo do mundo...

(O GLOBO, 6/6/1968 )

A civilização na perspectiva da piedade

Jean Madiran

 

1. — Civilização é um termo recente, não tem dois séculos. Mas a idéia é antiga, pois os inimigos da civilização têm um nome bem antigo: BÁRBAROS. Esse nome foi dado pela civilização grega, e designava os estrangeiros. Nas primeiras páginas da Política de Aristóteles já encontramos referência aos bárbaros, os quais estarão presentes no pensamento desde os primórdios da filosofia e por toda a parte. Assim, desde o início, a civilização está presente na reflexão dos pensadores.

“Os bárbaros são definidos como povos que não vivem sob as leis”[1]. Há a lei eterna, a lei natural, as leis positivas e suas relações conhecidas ou desconhecidas:

“A lei natural, que deve ser a norma de todas as nossas leis humanas, pode ser definida como uma participação da lei eterna, que é Deus. É claro que o reconhecimento público da lei natural não gerará automaticamente a observância dessa lei — a história está aí para prová-lo, tanto na experiência dos indivíduos como na das nações. Mas, uma coisa é reconhecer que não observamos uma lei que sabemos ser preciso observar, outra coisa é pretender que não há nenhuma lei imutável e comum, e agir como se ela não existisse. Com esta atitude, instituímos a barbárie mais universal que pode haver. Os bárbaros, com efeito, eram definidos como homens que não viviam sob leis. Ora, os bárbaros da antigüidade jamais negaram a lei natural em toda a sua generalidade. O homem, para fazê-lo, e tornar-se o pessimum omnium animalium (Santo Tomás, in I Pol., lect. I) numa medida tão draconiana, precisaria esperar pelo século das luzes.”[2]

Por onde se vê que a civilização se define antes de mais nada por sua relação com a lei natural. Sob um primeiro enfoque, a civilização identifica-se com a lei natural. Sob um segundo enfoque, verifica-se o que a distingue: a lei natural é universal e imutável, enquanto as civilizações são particulares, com seus progressos e declínios, com sua história. As civilizações decaem ou desaparecem sob o peso da barbárie interior ou exterior; ou ainda, desmoronam após acontecimentos aparentemente fortuitos, sem relação visível com o bem ou o mal, ou com a oposição entre o homem civilizado e o bárbaro. Elas também conhecem ressurgimentos inesperados. A civilização de Cnossos e de Festo[3] desapareceu completamente por algum motivo desconhecido, como um inútil empecilho ao gênero humano; desde outro ponto de vista, ela sobreviveu por sua influência sobre Micenas e, por intermédio de Homero, talvez ela ainda nos diga algo sem que o saibamos. Há casos em que a decadência se dá de modo tranqüilo, com a civilização apodrecendo lentamente e de pé, sem que o ferro do bárbaro venha do exterior para dar cabo da sua vida. Decadências quase hermeticamente fechadas em si mesmas, peças de laboratório, porém misteriosas. Que os filósofos, ao menos os maiores, surjam de preferência no declínio das civilizações e não no seu alvorecer ou no apogeu, apenas aumenta o mistério.

 

2. — A lei natural foi inscrita por Deus na natureza das coisas e dos seres, gravada por Ele no coração dos homens e finalmente revelada no Decálogo. Ela é de si mesma acessível à razão humana, mas não sem dificuldades imensas e um grande risco de erro. Ela relaciona-se com a história, foi inscrita, enunciada e promulgada em vista de uma história: com efeito, a civilização é a lei natural e sua história entre os homens. O fluxo e refluxo de civilização e barbárie, é a história do modo com que a lei natural é recebida, conhecida, acatada e praticada pelo gênero humano.

A lei natural é conhecida de três maneiras. Na sua mais ampla generalidade, “é preciso fazer o bem e evitar o mal”[4], é a primeira evidência imediata da razão prática. A esse respeito, já é para nós inseparável de uma história, aquela que marca mais fortemente o ser humano: a história dos seus primeiros anos. Uma vez que o despertar da razão é posterior ao nascimento físico, esse despertar é favorecido, guiado, retardado ou paralisado pela educação. A lei natural “está inscrita no coração dos homens e nenhuma iniqüidade a pode apagar”[5], mas “é eclipsada quando se trata de uma ação particular a ser realizada, na qual a razão é impedida de aplicar o princípio geral ao caso particular do qual se trata, por causa da concupiscência ou de alguma paixão qualquer”[6]. Cabe à educação formar o homem para o domínio das paixões e concupiscências e, por isso, se não cumprir seu papel, será em parte responsável pelos eclipses que poderão ocorrer à lei natural mesmo na sua mais ampla generalidade.

Em segundo lugar, a lei natural é conhecida nos seus preceitos secundários por uma atividade discursiva da razão (ou ainda por conaturalidade). Ora, a lei natural comporta não apenas “princípios gerais conhecidos por todos”, mas também “princípios secundários mais particulares, que são como que as conclusões que decorrem dos princípios gerais”[7]. Sob esse aspecto, a educação intelectual e moral é muito importante para o conhecimento da lei natural. E esse conhecimento é bem mais frágil: “Quanto aos preceitos secundários, a lei natural pode ser apagada do coração dos homens, seja em razão de propagandas perversas[8], (…) seja por conseqüência de costumes depravados e hábitos de corrupção moral”[9].

Em terceiro lugar, a lei natural é conhecida como verdade revelada, pois além de acessível à razão ela nos foi dada por Deus no Decálogo: “Os Mandamentos do Decálogo são os primeiros preceitos da lei, e sua absoluta evidência os impõe facilmente ao assentimento da razão natural”[10]. Os domínios da razão e da fé não são tão estanques que uma mesma verdade não possa pertencer a um e outro domínio sob diferentes pontos de vista. “Mesmo no que se refere àquilo que a razão humana é capaz de conhecer acerca de Deus, era preciso que o homem fosse instruído pela revelação divina. Caso contrário, apenas poucos alcançariam o conhecimento de Deus, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros. No entanto, a salvação do homem depende do conhecimento dessa verdade… Logo, para que a salvação adviesse aos homens de modo mais conveniente e seguro, cumpria que eles fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas”[11]. A lei natural foi expressamente recebida de Deus num dado momento da história do povo hebreu e, por meio dele, transmitida a toda a humanidade.

O conhecimento da lei natural aparece assim sob a dependência de uma educação, de uma transmissão e de uma história. Sua dependência é menor, sua sobrevivência é mais fortemente assegurada sob o primeiro aspecto, pois, uma vez que foi gravada por Deus no coração do homem, não pode ser arrancada dali. Contudo, isso não a põe inteiramente ao abrigo das particularidades da história individual ou coletiva. — Na medida em que comporta conclusões tiradas pela razão, sua dependência aumenta. Enquanto ela é a transmissão de uma revelação feita uma única vez, ela está inteiramente engajada nas vicissitudes da história.

O conhecimento natural da lei, “depois de longo tempo e de mistura com muitos erros”, foi a obra do pensamento grego, e nós recolhemos sua herança em Ésquilo e Sófocles, Platão e Aristóteles. A revelação sobrenatural da lei foi confiada ao povo hebreu e nos foi transmitida pela “história santa” e pela Igreja. O nascimento da civilização pode portanto ser situado no tempo e no espaço — ela nos vem da Grécia e da Palestina, e não de outra parte. No entanto, se é verdade que a civilização é a história da lei natural por entre os homens, existem claramente outros focos de civilização: contudo, estão eles não apenas privados do Decálogo, como chegaram muito aquém do pensamento grego no conhecimento racional da lei natural. Por analogia com os “preambula fidei”, poderíamos com maior exatidão chamá-las de “preâmbulos de civilização”.

 

3. — Vê-se, pois, a que ponto o homem é devedor:

“Nós nos tornamos obrigados para com os outros, segundo a excelência diversa deles e os benefícios diversos que nos fizeram. Ora, em ambos os casos o lugar supremo pertence a Deus, por ser perfeitíssimo e o princípio primeiro que nos deu o ser e nos governa. Mas, em segundo lugar, os princípios que nos governam e nos dão o ser são os pais e a pátria, em que e de quem nascemos, e que nos educaram. Portanto, depois de Deus, somos obrigados sobretudo aos pais e à pátria.”[12]

Este célebre texto de Santo Tomás, bem como a seqüência a que nos referiremos adiante, deveria estar no centro de todo pensamento sobre a civilização. Ele assinala a etapa inevitável, e fundamental, de uma reflexão sobre o assunto; a saber, escrutar a condição essencialmente devedora do homem: uma dívida que, não importa o seu talento, nem as suas ações, ele jamais poderá quitar. No tocante a Deus compreende-se claramente, mas isso também vale ao que se refere “aos pais e à pátria”. Essa dívida está além da justiça, pois esta última “implica render a outrem o que lhe é devido, de maneira a restabelecer uma igualdade”. Ora, por um lado “o homem não pode dar nada a Deus que não lhe seja devido, de modo que jamais quitará a sua dívida” e, por outro lado, "não podem os pais ser pagos, com igualdade, o que lhes é devido”[13]. Aristóteles já havia indicado: “É impossível quitar inteiramente as dívidas em todas as circunstâncias, como é o caso no que se refere às honras que rendemos aos deuses e aos pais… é justo que o beneficiário retribua os serviços que recebeu: o filho, contudo, faça o que fizer, jamais quitará os benefícios de que seu pai o cumulou e sua dívida subsistirá para sempre.”[14]

Essa condição devedora é o ponto de partida da reflexão de Charles Maurras sobre a civilização:

“O indivíduo que vem ao mundo numa 'civilização' recebe incomparavelmente mais do que dá. Uma desproporção que podemos chamar de infinita se estabelece entre o valor próprio de cada indivíduo e o acúmulo de valores no meio do qual surge.

“Quanto mais uma civilização prospera e se sofistica, mais crescem estes últimos valores (…) segue-se daí que uma civilização tem dois suportes. Ela é antes de mais nada um patrimônio, e é em seguida um patrimônio transmitido (…).

"O indivíduo é esmagado por uma quantidade de bens que não são seus e dos quais, contudo, tira proveito em maior ou menor medida. Rico ou pobre, nobre ou camponês, ele se banha numa atmosfera que absolutamente não é da natureza bruta, mas da natureza humana, que não é fruto das suas mãos, senão o resultado da grande obra dos seus predecessores diretos e próximos, ou antes, da sua associação fecunda e da sua útil e justa comunidade (…).

“De todos esses indivíduos, o mais insolvente é sem dúvida aquele que pertence à civilização mais rica e preciosa (…) Deveríamos, segundo penso, protestar contra um erro de linguagem muito comum. Falamos indistintamente a civilização ou as civilizações. Não se trata de coisas iguais, absolutamente. Na China, há uma civilização: quer dizer, um patrimônio material e moral que se transmite. Há indústrias, artes, ciências, costumes. Há riquezas, monumentos, doutrinas, opiniões, qualidade adquiridas, favoráveis à vida do ser humano. Mesmo fenômeno na Índia, Peru (…). Contudo, por mais desenvolvidas que forem essas diferentes civilizações, não são propriamente dizendo a civilização.

"A civilização só será definível pela história. Houve um momento, nos fastos do mundo, onde, mais inventivo e industrioso do que jamais fora, o homem percebeu, contudo, que tanta arte se consumia em vão. Com efeito, de que adianta aumentar o número de bens e a quantidade das riquezas? Toda quantidade é suscetível de novos acréscimos, e todo número, de um aumento indefinido. O maravilhoso, o sublime, o grandioso, o enorme, tudo o que depende da quantidade ou do número de elementos utilizados, não pode prometer à avidez do homem mais do que decepção. Uma torre ou uma coluna de cem pés pode ser aumentada em outros cem pés, que também podem ser aumentados em outro tanto. De que valem, pois, esses progressos meramente materiais? Nem nas ciências, nem nas artes, nem mesmo nas simples comodidades da vida, esse amontoado de coisas vale alguma coisa. Quanto mais incham, mais excitam nossos desejos, desesperando-nos (…).

"Sim, o desejo sempre crescerá e, com ele, a dor, a decepção e a inquietude. As civilizações, ao impor ao homem uma dívida, prometeram-lhe apenas uma corrida absurda e sem fim, rumo ao sentimento da ‘infinita vaidade de tudo’, como dizia o desventurado Leopardi.

“Os gregos, porém, ao perceberem a vaidade das buscas, não quiseram permitir que fosse infinita. Buscaram um termo à incessante corrida. Um instinto maravilhoso, muito mais do que a reflexão, ou antes, se quisermos, um brilho da razão sobre-humana ou divina, fez com que compreendessem que o bem não estava nas coisas, mas na ordem das coisas; que o bem não estava no número, mas na composição; e que o bem não se referia absolutamente à quantidade, mas à qualidade. Eles introduziram a forte noção dos limites, não apenas na arte, mas no pensamento e na ciência dos costumes. Em moral, ciência, arte, sentiram que o essencial não estava no lado da matéria e, mesmo utilizando os materiais mais preciosos, aplicavam-lhes a sua medida. A idéia do “ponto de perfeição e de maturidade” dominou esse grande povo pelo tempo em que seguiu fiel a si mesmo.

"O Rei Salomão julgava fazer ciência compilando a nomenclatura das plantas, desde a mais pequena até a mais alta. Um grego, Aristóteles, nos ensinou que esse catálogo de conhecimentos é apenas o ponto de partida, que não há absolutamente ciência verdadeira sem ordem e que a ordem da ciência não é aquela da grandeza ou da pequenez. Assim também, os artistas do Egito e da Ásia enviaram para lá amostras da sua arte: desenvolvendo-se nesta terra e nesta raça favorecida, os modelos orientais testemunharam que a arte não consiste em fazer colossos, nem em deformar a natureza em caretas monstruosas, nem em copiar ao máximo ou até à perfeição da semelhança: a arte grega inventou a beleza. Do mesmo modo, no governo de si mesmo, os moralistas ensinaram que a felicidade não consiste na multiplicidade dos bens de que nos apropriamos, nem tampouco na avareza ressecada da alma que se furta ao contato e se isola; é importante que a alma seja mestra de si mesma, mas também convém que saiba encontrar o seu bem e cultivá-lo, aperfeiçoando-se num esforço feliz. A filosofia grega abordou assim a virtude.

"Esta civilização toda voltada para a qualidade foi chamada simplesmente, nos seus belos dias, de Grécia. Coube a Roma difundi-la pelo universo, de início com as legiões dos seus soldados e colonos, em seguida com os missionários da fé cristã. As duas Romas conquistaram assim quase todo o mundo conhecido…”[15]

O pensamento maurrasiano segue, ao menos neste ponto, inteiramente alheio à idéia de uma civilização cristã: a Roma católica, do ponto de vista da civilização, não teria feito mais do que recolher e transmitir o capital inegável da civilização grega.

Trata-se seguramente de uma função histórica que a Igreja realizou de fato, da qual se honra de ter realizado e que há sempre de realizar: a Igreja não é indiferente à sabedoria dos Antigos[16]. Por outro lado, é verdade que o pensamento grego é aquele que iniciou a humanidade em um conhecimento natural da ORDEM, da BELEZA e da VIRTUDE. Mas, na época em que escrevia sua análise da civilização, que se tornou clássica, Maurras não conhecia claramente dívidas maiores do homem: ter recebido o Decálogo e a Fé católica. Mas não se enganava absolutamente ao assinalar que o homem é irremediavelmente constituído devedor, que não poderá jamais quitar sua dívida, e que quão mais civilizado for, mais devedor é.

Qual é, portanto, o dever em tal situação? Não se trata de um dever de justiça, estritamente falando, visto que não poderíamos satisfazer a justiça “que implica retribuir o que é devido de maneira a restabelecer uma igualdade”. Trata-se de um dever de piedade.

Mas, a piedade, dir-se-á, não é própria da religião, das “obras piedosas”, da atitude perante Deus? De modo algum! A virtude de piedade não é a virtude da religião. No entanto, clandestina, anônima, deixou-se levar e perdeu seu nome: assim como ocorreu com a virtude da prudência e outras, a linguagem fez delas o que bem quis. As palavras não esperam muito tempo para serem desfiguradas com a dissolução das realidades por elas designadas.

*

4. — Definamos:

A virtude da piedade não diz respeito ao culto devido a Deus, de que trata a virtude da religião. A virtude de piedade é a virtude da “piedade filial” e, por extensão, da “piedade nacional”. Ela é, como a virtude de religião, anexa à virtude principal da justiça. Ensina Santo Tomás:

“Nas virtudes anexas a uma virtude principal, devemos considerar dois elementos: primeiro, que essas virtudes hão de convir de algum modo com a principal; segundo, que, por outro lado, hão de se afastar da noção perfeita da principal. (…) Ora, a justiça, por natureza, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, de modo a se restabelecer uma igualdade (…) Mas, tudo o que o homem retribui a Deus lhe é devido; logo, não pode haver aí igualdade, de modo que lhe retribua o quanto deve (…) Tampouco podem os pais ser pagos, com igualdade, do que lhes é devido.”[17]

Nessa situação, em que a justiça está fora do nosso alcance, a religião define nossa atitude com respeito a Deus; a piedade define nossa atitude com respeito aos homens, ela é a "manifestação de amor que temos para com os pais e a pátria”[18]; "a religião, que presta culto a Deus, é uma virtude diferente da piedade, que reverencia os pais e a pátria”[19]. A piedade nacional não esgota nossos deveres para com a pátria, pois é nosso dever para com a pátria enquanto “princípio conatural que nos deu o ser e nos governa”[20], e não enquanto é o lugar de um bem comum a ser promovido, defendido ou distribuído: “a piedade se estende à pátria, enquanto princípio da nossa existência; ao passo que a justiça legal visa ao bem da pátria, enquanto bem comum. Logo, a justiça legal tem, mais que a piedade, a natureza de virtude geral”[21]. Logo, "assim como o fim da religião é prestar culto a Deus, assim, em segundo grau, o objeto da piedade é reverenciar os pais e a pátria”[22].

O dever de piedade decorre dos primeiros princípios da lei natural, e está contido no Quarto Mandamento do Decálogo. O Mandamento ordena “honrar o pai e a mãe”, mas ele certamente concerne a toda a família, os ancestrais, a pátria inteira, conforme ensina Santo Tomás: "Os nossos deveres para com os pais têm prevalência sobre o que devemos à pátria e aos que nos são próximos pelo sangue; pois é por termos recebido de nossos pais a vida, que também temos consangüíneos e pátria. Portanto, como os preceitos do decálogo são os primeiros preceitos da lei, eles nos obrigam antes para com os pais do que para com a pátria e os demais consangüíneos. Nem por isso, porém, devemos deixar de entender que o preceito de honrar os pais também nos manda cumprir os nossos deveres para com qualquer outra pessoa, assim como o secundário está incluído no principal”[23].

Que a “piedade” tenha recebido na linguagem corrente um sentido religioso provém, muito provavelmente, da confusão entre a “virtude da piedade” e o “Dom de Piedade”. Este último é um dom do Espírito Santo, ou seja, uma das “disposições habituais da alma, que fazem com que ela se deixe facilmente mover por Ele”, e nos inspira, em particular, “um afeto filial para com Deus, conforme às palavras do Apóstolo (Rom 8, 15): Recebestes o espírito de adoção de filhos, segundo o qual chamamos, dizendo: Abba! Pai![24]. A analogia explica por que a virtude e o dom receberam o mesmo nome: assim como a virtude de piedade nos faz render aos nossos pais a honra que lhes devemos, do mesmo modo, o Dom de Piedade nos incita a prestarmos culto e reverência a Deus como a um Pai[25]; assim, “A piedade pela qual prestamos reverência aos pais carnais é uma virtude; mas a piedade, como dom, presta culto a Deus, como Pai”[26]. Por outro lado, o Dom de Piedade é distinto da virtude de religião, pois esta presta culto a Deus como Criador e Senhor, enquanto aquele o cultua como Pai[27]. Ademais, o Dom de Piedade não se encerra em Deus, mas estende-se a todos os homens inquantum pertinent ad Deum, isto é, "a todos os homens, enquanto filhos de Deus”. Pelo Dom de Piedade somos introduzidos na família de Deus.

Comenta João de Santo Tomás:

“O Dom de Piedade exige essencialmente estender-se aos homens enquanto filhos de Deus (…) é impossível que uma virtude ou um dom incline ao culto filial para com Deus e não incline, por via de conseqüência, à piedade no tocante a tudo o que é do Pai e concerne a seus filhos enquanto tais. E assim como todas as criaturas espirituais, salvo os condenados, são filhos de Deus, ou podem vir a se tornar, a todos se estende o Dom de Piedade.”[28]

 

5. — Um conhecimento não obscurecido da lei natural e uma observância habitual dela se formam e crescem em nós normalmente pela educação recebida no seio da família e da pátria ou nação[29]. A essa dívida, que não podemos quitar, corresponde, ou deveria corresponder, nossa piedade: assim, a civilização passa pela pátria, pela família e pela virtude de piedade.

(Parêntesis sobre o amor à pátria. O que aflige atualmente é não o vermos colocado em seu devido lugar na vida moral, é não ser chamado pelo seu nome, é ser incerta sua natureza exata. Devemos falar em “patriotismo”, “nacionalismo”, “civismo”? Trata-se de um sentimento, uma atitude política, um dever? Todo mundo admite o termo “civismo”, mas ele não designa exatamente o amor à pátria. “Nacionalismo" designou, sobretudo em França, desde Barrès, e Maurras, várias doutrinas políticas que, em todo caso, e seja qual for o julgamento que delas fizermos, situam-se aquém ou além da piedade nacional. “Patriotismo" é um termo geralmente admitido, mas o vemos em todas as cores: desde os “patriotas" jacobinos até os “patriotas" comunistas. Os deveres para com a pátria têm necessidade de ser ordenados numa ética explícita, de encontrar o seu lugar numa filosofia moral abrangente. O amor à pátria pode inspirar, de modo legítimo ou aberrante, sentimentos, paixões, doutrinas e sistemas em todos os níveis. Seria útil compreender e ensinar que se trata, antes de mais nada, de uma virtude[30], e que esta virtude é primeiramente uma piedade, a piedade nacional; e que se trata em seguida de outra virtude, que é uma justiça, a justiça social ou geral, a qual ordena ao bem comum os atos das outras virtudes. As virtudes, definidas e praticadas em seu lugar, numa ética de virtudes gerais e conexas, resistem mais fortemente aos contágios ideológicos, aos desvios práticos e ao desuso.)

Mas as definições clássicas da piedade filial e nacional correm o risco de não deixar ver o seu alcance num primeiro olhar mais apressado: “Honrar pai e mãe” soa protocolar, mesmo se tratando de um protocolo sagrado. “Honrar”, “render homenagens”, manifestar “uma certa expressão de amor”, isto é certamente devido, certamente bom, mas parece desprovido de impacto sobre a marcha do mundo. A piedade não parece inicialmente essencial à civilização: ela se apresenta como um fruto ou mesmo como um epifenômeno da civilização, não como uma condição da sua sobrevivência. Não reconhecer o que recebemos, ou não conceber nenhuma gratidão por isso, seguramente não é nobre, mas não impede o dom de ter sido realizado. O homem civilizado pode eventualmente não ser piedoso; será um erro não sê-lo, mas não será por isso menos civilizado.

É este o ponto.

O homem ímpio pode até ser um homem civilizado, mas é um homem que interrompe a civilização. Indiferente ou negligente acerca do que recebeu, ingrato no que concerne àqueles que o beneficiaram, será especialmente impróprio para transmiti-lo por sua vez. Influente por suas ações mais do que por seu discurso, difundirá ao redor de si a mesma indiferença, a mesma negligência, a mesma ingratidão. Ele respirará e inspirará um clima, um espírito de menoscabo, de ignorância do patrimônio moral da civilização.

Vamos mais longe. O homem ímpio tem toda probabilidade de não ser civilizado senão na aparência. Poderá conservar da civilização todo o exterior: a linguagem refinada, modos polidos diante dos demais, gestos e palavras benevolentes, um respeito literal pelas regras recebidas. Ele será um fariseu da civilização. Se, ao contrário, tivesse entrado no espírito da civilização, que é a formação para o conhecimento seguro e refinado da lei natural e uma prática habitual desta lei, teria normalmente, correlativamente, talvez sem saber o nome nem cultivar todas as suas delicadezas, o espírito de piedade. Exceções podem existir, por razões acidentais, boas ou más — mas não passam de exceções.

O homem civilizado é invariavelmente o homem piedoso. Inversamente, a impiedade é sinal certo e causa de uma interrupção na civilização. Para a transmissão dos valores civilizacionais é indispensável a atitude de coração e de espírito que desenvolve a virtude da piedade.

 

6. — Atitude de espírito e de coração pela qual se honra aquilo que se recebe, a virtude da piedade pode parecer um freio ao progresso da civilização, ao “progresso autêntico que é a vocação da sociedade civil”[31]. Atitude mais conservadora do que inovadora, que nos leva a recolher e a transmitir, que é tradicional e tradicionalista — é, apesar de ter seu valor, limitada, acostumada à rotina e inimiga da inovação. Se Aristóteles tivesse apenas uma atitude de piedade por seu mestre Platão, jamais teria realizado aquilo que o axioma resume: Amicus Plato, sed magis amica veritas. Os pensadores do tradicionalismo têm de convir aqui com Maurras: “Em toda tradição, como em toda herança, o ser racional tem de procurar suprimir o passivo. A verdadeira tradição é crítica, e sem estas distinções, o passado não serve mais para nada, seus êxitos deixam de ser exemplos e suas falhas deixam de servir de lição”[32]. Não é tudo: iniciativa, invenção e inovação são necessidades quotidianas da vida individual e coletiva, das quais a civilização se beneficia; podemos mesmo dizer que jamais teria havido espécie alguma de civilização sem elas. Essa é a objeção que nos fazem.

A linguagem, que tanto maltratou a piedade, vem em nosso socorro. Se dissermos que o professor corrigiu  o aluno piamente, isso não significa de modo algum que teria corrigido pouco. A piedade concorda com o amicus Plato, sed magis amica veritatis, e é fecunda: Aristóteles não teria sido quem foi se tivesse menosprezado a herança intelectual de Sócrates e Platão, ou se tivesse oposto a todo o pensamento que lhe precedeu uma negação universal e radical, como a negação cartesiana ou a negação kantiana. E aqui podemos sonhar com o que o gênio de Descartes teria produzido sem essa negação; ou com o que representaria contra Rousseau e os Enciclopedistas o talento de Voltaire, se fosse homem piedoso…

Particularmente desde o ponto de vista mais amplo e fundamental, que é também o primeiro em matéria de civilização, ou seja, no que se refere ao conhecimento e ao respeito da lei natural, a piedade não é má conselheira. Não é desejável, nem sensato, nem justo, reconstruir a lei moral a cada manhã ou a cada geração. O conhecimento que temos dela é certamente tributário das vicissitudes históricas. Mas existe um conhecimento adquirido e seguro no que se refere à natureza, ao fundamento e ao conteúdo da lei natural. Ele aponta o lugar onde podemos construir, o ponto a partir do qual poderemos progredir. Recolocar tudo em questão pode ser útil de modo acidental, mas não é essencialmente a via ou a condição do progresso; e se os questionamentos se renovam ou mesmo se multiplicam sistematicamente a cada geração, conforme a experiência feita pelo mundo moderno a partir de Descartes, chegamos ao caos no pensamento e nos costumes, chegamos ao nada.

O progresso está em outra parte. Uma vez firmemente sustentada a lei natural, suas implicações, conseqüências e aplicações descobrem-se pouco a pouco à humanidade. Se implicações novas são descobertas isoladamente, sem referência ao lugar que devem tomar no conjunto do patrimônio sólido da humanidade, tornam-se loucas, engendrando um turbilhão de ideologias e revoluções.

Porém, que a humanidade não tenha descoberto imediatamente todo o conteúdo da lei natural, e que seja sua vocação aprofundar e refinar o conhecimento e a prática que dela possui, isso sim é o progresso fundamental. Maritain percebeu isto:

“Abraão era um grande santo, um santo de estatura incomparável. Mas não sabia que certas ações que condenamos hoje estavam proibidas pela lei natural (…). O conhecimento preciso das leis morais naturais — exceção feita ao primeiro princípio, de si evidente, 'é preciso fazer o bem e evitar o mal' — é adquirido lentamente, com maior ou menor dificuldade (…).

"Nosso conhecimento das leis morais é progressivo por natureza. O senso de dever e de obrigação sempre esteve presente, mas o conhecimento explícito das diversas normas da lei natural cresce com o tempo. E algumas dessas normas, como a lei da monogamia, foram conhecidas mais tardiamente na história da humanidade, pelo que nossa investigação pôde alcançar. Podemos igualmente crer que o conhecimento dos preceitos particulares da lei natural, em todas as suas exigências e em todas as suas nuances, continuará a crescer até o fim da história humana.

“Penso que este progresso da consciência moral quanto ao conhecimento explícito da lei natural oferece um dos critérios menos duvidosos de progresso na humanidade. Bem entendido, não tenho absolutamente em vista um progresso no comportamento humano (ou um progresso na pureza e na santidade da consciência, pois Abraão, repitamo-lo, era um grandíssimo santo, com um coração absolutamente puro). O que tenho em vista é um progresso da consciência moral no tocante ao conhecimento dos preceitos particulares da lei natural. Esse progresso no conhecimento pode se dar ao mesmo tempo em que ocorre uma deterioração na conduta efetiva de muitos, mas isto é outra questão.

“Tomemos, por exemplo, a noção de escravidão. Temos hoje consciência do fato de que a escravidão é contrária à dignidade humana[33]. E, no entanto, vimos nos nossos dias o surgimento de Estados totalitários que reduzem sistematicamente o homem à escravidão. De resto, eles não querem reconhecer a coisa, precisamente porque é muito comumente reconhecido hoje que a escravidão é contrária à dignidade do homem; e é por isso que a propaganda lhes é tão necessária.”[34]

Certamente, o conhecimento da lei moral e o comportamento moral não são o mesmo. “Não basta possuir uma boa filosofia moral para ser um homem de bem”; e, inversamente, seria errôneo dizer: “Se você é um homem de bem, conhece a filosofia moral e essa filosofia é boa”[35]. É, em revanche, muito menos certo que uma “deterioração da conduta” não exerça, tanto no nível individual como no coletivo, alguma influência sobre o conhecimento mesmo da lei moral: ela certamente degrada o conhecimento moral por conaturalidade (que tem um lugar capital na vida quotidiana de cada um de nós, e mesmo na reflexão do filósofo), e é suscetível de manchar o conhecimento moral discursivo. Por outro lado, houve na história recuos no conhecimento moral — como é o caso atualmente — bem como progressos. De resto, podemos dizer que esse progresso, como os outros, e este talvez mais que os outros, é próprio da vocação das sociedades humanas. Feitas estas ressalvas, que Maritan provavelmente não contradiria, podemos continuar a seguir seu pensamento:

“Durante séculos e séculos, e mesmo em tempos cristãos, considerava-se inteiramente normal matar prisioneiros de guerra. Não se distinguia o combatente inimigo do prisioneiro. Quando se poupava a vida de um prisioneiro de guerra, tratava-se de um favor que se retribuía pela escravidão. Mas, hoje em dia, temos uma compreensão completamente diferente de nossas obrigações no que se refere aos prisioneiros de guerra. Outro exemplo se refere ao trabalho infantil. No início da idade industrial, o trabalho infantil era considerado inteiramente legítimo. Temos atualmente outras idéias nesta matéria, e são elas certamente mais conformes à lei natural. Outro exemplo ainda: este lida com a noção mesma do trabalho humano. A idéia de que o trabalho das massas é impossível sem o chicote da miséria — idéia largamente difundida no século XIX — parecia então em conformidade com a lei natural (…) Enfim, posso dizer que ainda estamos na obscuridade a respeito do papel que devem normalmente desempenhar, nas coisas temporais e políticas, as leis que se referem diretamente à vida espiritual, como a lei do perdão mútuo?”[36]

Esse progresso é tanto mais incerto quando é realizado fora da perspectiva da piedade. Um progresso isolado do conhecimento moral pode ser um fator de desordem e de imoralidade pelo tempo em que não estiver integrado no seu devido lugar no conjunto da vida moral. Os surtos violentos em prol da liberdade ou da dignidade do trabalho manual produziram ideologias devastadoras e perturbações sangrentas. O espírito de descoberta e de inovação, o espírito de progresso, o gênio mesmo, separados da virtude da piedade, julgam necessário derrubar todo o patrimônio da humanidade para impor nos espíritos e nos costumes mudanças que de si mesmas são benéficas: mas então, não se trata mais de um aporte, nem de um progresso, mas de uma revolução, uma inversão dos valores, um obscurecimento correlativo das consciências, um desencadeamento das paixões. É pouco evitável, com efeito, que isso não se produza periodicamente, ainda que por escleroses, incompreensões ou farisaísmo. Mas não é a via normal, nem a melhor. O esforço dos homens, quando consciente, quando equilibrado, não tende à revolução, que é a tentação ímpia e satânica, mas à reforma, à renovação e ao aperfeiçoamento.

 

7. — Desse modo, a piedade é útil: “a piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura”[37]. A piedade que tem a promessa também da vida presente, “a fim de viver longamente”, é bem aquela do Quarto Mandamento. Santo Tomás interpreta assim:

"A longevidade é prometida aos que honram os pais, não só na vida futura, mas também nesta, segundo aquilo do Apóstolo: 'A piedade para tudo é útil, tendo a promessa da vida presente e da futura'. E é razoável. Pois, quem demonstra gratidão por um benefício merece, por conseqüência, que se lhe conserve o benefício; e quem foi ingrato merece perdê-lo. Ora, o benefício da vida corporal, é dos pais que o temos, depois de Deus. Por isso, quem honra os pais, como agradecido a um benefício, merece a conservação da vida; e o que não os honra merece, como ingrato, ser dela privado.”[38]

É uma conveniência justa e racional: isso se dá rationabiliter. Mas o contrário também se dá, e é o mistério da história, a misteriosa (oculta) sabedoria dos julgamentos divinos. Santo Tomás acrescenta:

"Ora, os bens ou os males da vida presente não são meritórios ou demeritórios senão enquanto ordenados à remuneração futura, como dissemos. Por isso, às vezes, por uma razão oculta dos juízos divinos, que visam sobretudo à remuneração futura, alguns, embora tivessem sido pios para com os pais, são privados cedo da vida; ao passo que outros, que não o foram, vivem mais longamente.”[39]

Ocorre o mesmo na vida das civilizações. Dissemos que a ausência de piedade é sinal e causa de uma interrupção na civilização. Contudo, não possuímos o conhecimento pelas causas do fenômeno da decadência, que permanece misterioso. Por um lado, a relação entre a piedade e sua utilidade é uma relação que se dá rationabiliter, mas não automaticamente. Por outro, qual é a causa da impiedade? Pode ser o farisaísmo que se introduz na civilização. O farisaísmo é causa de impiedade, e a impiedade é causa do farisaísmo. As causas estão aqui ordinariamente numa relação recíproca de interdependência e intercausalidade. O mistério da história é finalmente aquele dos julgamentos de Deus, cuja sabedoria nos permanece escondida (occulta).

 

8. — Até aqui falamos de civilização, mas não de civilização católica. A lei natural, e a virtude de piedade que é parte dela, foram conhecidas e praticadas antes da vinda de Cristo. Elas podem ser conhecidas e praticadas fora do catolicismo, mas sob duas reservas.

Primeiro, a situação da humanidade não é a mesma antes da vinda de Cristo e depois. Segundo uma fórmula de Henri Charlier, “desde a Ressurreição o pensamento divino, a cada instante, nos confronta com o Filho morto por nós e que nos abriu as portas da Vida”. A situação não é a mesma para os que não conheceram Cristo e para os que, tendo-O conhecido, recusaram-No. A civilização grega não pôde conhecer o Cristo. A civilização dos chineses ou dos indianos, também elas anteriores à Incarnação, prolongaram-se ignorando a vinda de Cristo porque não lhes deram de conhecer. A civilização judaica, na qual veio Cristo, O recusou. O Islamismo a um tempo surgiu depois de Cristo e O recusou. O comunismo, sob este aspecto, é um segundo islamismo. Cada um desses casos é distinto, e deixa subsistir diversamente possibilidades bastante distintas de conhecer e de respeitar a lei natural.

Segundo, o homem abandonado a suas próprias forças não pode conhecer a lei natural de modo fácil, seguro, isento do risco de erro. Não pode tampouco respeitá-la normalmente e habitualmente sem a graça (mas o Espírito sopra onde quer, e é por isso que podem existir, e existiram, casos individuais de muçulmanos que respeitaram admiravelmente a lei natural).

 

9. — Depois de Cristo, a civilização é normalmente a civilização católica. Mas uma civilização pode ser dita católica sob diferentes aspectos (ao menos, quanto à diversidade dos critérios imediatos de apreciação). Uma civilização que, seja qual for o estado da sua cultura, das suas instituições e dos seus costumes, deixa à Igreja de Cristo a liberdade de transmitir as palavras e os sacramentos da salvação, pode ser dita católica.

Há uma eventualidade que é teórica, ou provisória, pela dupla razão da fecundidade da Igreja e da malícia humana: uma sociedade que fosse materialista e atéia por um lado, e que de outro deixasse a Igreja, por indiferença, ceticismo ou tática, a liberdade de realizar plenamente sua missão, não poderia permanecer por muito tempo num equilíbrio tão instável; rapidamente seria conduzida, seja à conversão, seja à perseguição. E é sem dúvida essa a razão de a Igreja não temer definir por vezes a civilização católica de modo meramente negativo:

“A vida de um povo, de uma nação, transcorre num domínio bastante variado que ultrapassa o da atividade propriamente religiosa. Desde que, em toda a extensão deste vasto domínio, uma sociedade respeitosa dos direitos de Deus interdiz a si mesma de transgredir os limites demarcados pela doutrina e moral da Igreja, ela pode legitimamente se dizer cristã e católica.”[40]

Definição gramaticamente negativa, mas cujo conteúdo real e cujas implicações necessárias estendem-se à toda vida individual e social.

Observemos que uma sociedade materialista e atéia não é uma sociedade civilizada. É por um abuso de linguagem que se fala hoje em civilização materialista, civilização atéia, civilização comunista. Jamais houve na história uma civilização materialista e não poderia haver; é uma não-civilização, é a barbárie mais completa: “uma barbárie certamente mais pavorosa do que aquela em que a maioria das nações se encontrava antes da vinda do divino Redentor”[41]. Outrora, eram chamados de bárbaros, sem que houvesse um nome para a civilização. Atualmente, só temos o nome de civilização, e atribuímo-lo a qualquer sociedade, de modo que o conceito e o termo de barbárie aparentemente perderam-se. Com efeito, o nome “bárbaro” sobreviveu na linguagem com o sentido de “cruel”. E civilização designa assim o conjunto de características particulares de uma sociedade, independente de todo critério referente à civilização e à barbárie. Fala-se em civilização técnica, civilização marxista, civilização moderna.

Ora, o desconhecimento da lei natural e, por mais forte razão, a sua negação radical, são o contrário da civilização. Não há civilização marxista. Não há civilização materialista. Mas ninguém tem a coragem intelectual — ainda que a sós com seus pensamentos — de chamá-la de barbárie: barbárie materialista, barbárie marxista. Tampouco há quem perceba que um cristão, ou seja, um homem que crê que Jesus Cristo é o Filho de Deus, pode ser em maior ou menor medida um bárbaro se recusa ou desconhece a constância, a universalidade, a obrigação da lei natural. Quanto à “civilização moderna”, ela coloca uma questão muito mais complexa, pois é uma mistura: mistura de um espírito moderno essencialmente bárbaro naquilo que tem de próprio; de uns resquícios e de diversos ressurgimentos do espírito católicos; e de algumas outras coisas.

Assim como a civilização é a história da lei natural entre os homens, a civilização católica é essa mesma história ajudada, elevada e transfigurada pela religião católica. Assim como aprendemos normalmente a conhecer e a observar a lei natural graças a uma educação recebida no seio de uma família e de uma pátria, assim aprendemos normalmente a conhecer e praticar a religião católica. De nossos pais e da pátria nos vêm a vida física, a vida moral e a vida religiosa.

Não escolhemos a fé católica: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi a vós[42]. A fé é um dom livre que recebemos livremente; mas nossa liberdade é exercida, mesmo aqui, segundo a condição humana, e não segundo a condição angélica; ou seja, ela é exercida no interior e por intermédio de um estatuto histórico e social; pelos pais, que têm a liberdade, o direito e a responsabilidade de decidir o batismo. Existiram, existem e existirão muitos batismos de homens adultos: mas estes mesmos não adiam o batismo de seus filhos até a idade adulta. Isso faz com que a maioria dos católicos tenha se tornado tal pela vontade livre e responsável de seus pais. A fé pede uma adesão livre: mas normalmente trata-se, antes de mais nada, da livre adesão dos pais.

A fé é transmitida de qualquer maneira pela onipotência e misericórdia de Deus; mas a maneira que é conforme à nossa condição humana, e que é incomparavelmente mais freqüente, é, segundo a expressão de Pio XII, aquela em que “a religião é uma herança viva dos ancestrais”. De resto, todo dia nascem homens que hão de ser os ancestrais da vida espiritual. O batismo de um adulto é o início de uma família católica que transmitirá a fé pelos séculos.

A virtude da piedade, que concerne a “nossos pais e nossa pátria, pelos quais e no seio da qual recebemos a vida e a educação”, também lhes concerne no tocante à vida espiritual e à educação religiosa. Aqui também encontramos a piedade e a impiedade, a história, o progresso, o aperfeiçoamento ou a revolução numa relação equivalente ou análoga ao que encontramos no que se refere à lei natural. Com a ressalva de que a Revelação encerrou-se e o Magistério da Igreja é o seu guardião e intérprete infalível, a virtude da piedade tem aqui as mesmas exigências e, segundo a palavra de São Paulo, a mesma “utilidade”.

 

10. — A lei natural e a religião de Cristo são universais. A sua transmissão, o seu conhecimento, o seu cumprimento até aos extremos do universo, constituem a essência da civilização católica.

Não inventemos falsos problemas. A unicidade da civilização católica não uniformiza mais os indivíduos e as nações do que a unidade da Igreja uniformiza os indivíduos. Claro que, pela estupidez dos homens ou pela sua malícia, tudo é sempre possível: e assim como podemos imaginar, sob as cores de apostolado, uma imprensa de massa e organizações de massa transformando os indivíduos em robôs (mas isto iria na contra-mão da religião católica), podemos conceber, do mesmo modo, sob o pretexto de civilizar, um Imperialismo totalitário (mas isto iria na contra-mão da civilização católica). Em todo caso, seria tão absurdo recusar a unicidade da civilização católica em nome da vocação particular das nações, quanto seria recusar a unidade da Igreja em nome da vocação de cada alma em particular.

O helenista mais fervoroso não chegará a ponto de impor à sua mulher o uso do peplo e, se for francês, é provável que não faça uso da culinária grega salvo em caso de absoluta necessidade. Tampouco saudará as pessoas na rua dizendo Kyrié.

Respeito pelos costumes, pelas particularidades étnicas e pelos idiomas? Sem dúvida. Mas é impossível, por um lado, escrutar a universalidade da lei natural e da religião de Cristo e, de outro lado, as condições sociais e históricas normais da sua transmissão, sem perceber certas necessidades.

O latim, o grego e o hebraico seguirão até o final do mundo línguas privilegiadas, as “três línguas”. Mediterrâneas? Sim, mas são estudadas e ensinadas nas Américas. E é bom que seja assim: não poderia ser diferente. Como as elites intelectuais dos povos não mediterrâneos que vieram ao cristianismo poderão se dispensar de vir ao latim, ao grego e ao hebraico? Sem isso, estes povos estariam desamparados: incapazes de estudar diretamente o texto das Escrituras, da teologia e da filosofia, seriam eternamente tributários de traduções estabelecidas e eternamente refeitas pelos outros. A justa autonomia intelectual de um povo católico requer que suas elites estejam em medida de compulsar elas mesmas as fontes da filosofia, da teologia e da fé. É inevitável que, ao mesmo tempo, em maior ou menor medida, de uma maneira ou outra, esse patrimônio cultural e essas línguas exerçam sua influência no interior de culturas não mediterrâneas.

Não é possível que os povos que vieram ao Cristianismo e entraram na Igreja considerem São Gregório Magno e São Pio X como estrangeiros, como pontífices “greco-latinos” ou “ocidentais”, e Santo Tomás como uma particularidade específica da cultura mediterrânea. É impossível que a piedade que tenham por eles, e por todos os ancestrais na fé desde São Pedro e São Paulo, não seja um fator de influência cultural.

É bem provável que a influência não se dê num sentido único: os povos mediterrâneos herdeiros das velhas culturas podem encontrar matéria para aprender em toda parte deste vasto mundo. Mas é inconcebível que não haja influência; e que esta influência não seja principalmente no sentido de uma extensão a todo o orbe do patrimônio a que o latim, o grego e o hebreu dão acesso.

Interrompamos aqui nosso ensaio, que poderemos desenvolver, ou que outros desenvolverão, numa outra oportunidade. A universalidade da verdade natural e sobrenatural, a condição histórica do homem, a virtude da piedade têm implicações necessárias. Podemos sair delas. Mas então não será uma outra civilização, mas a barbárie.

 

[Tradução: Permanência. La civilisation dans la perspective de la pieté, Revue Itinéraires

 


[1] Charles de Koninck, “Deux tentatives de contourner par l’art les difficultés de l’action”, Laval théologique et philosophique, vol. XI, nº 2, 1955, p. 205.

[2] Ibid.

[3] Cnossos e Festo, grandes sítios arqueológicos na ilha de Creta, pertenciam à extinta civilização minóica. [N. do E.]

[4] Santo Tomás, S. T, Ia. IIae, q. 94, a. 2.

[5] Santo Agostinho, Confissões, II, 4.

[6] S. T., Ia. IIae, q. 94, a. 6.

[7] Ibid.

[8]Malas persuasiones” no original. A tradução “propagandas perversas” restringe um pouco o sentido, mas, em contrapartida, é muito apropriada para os dias de hoje.

[9] Ibid.

[10] S. T., IIa. IIae, q. 122, a. 1.

[11] S. T. Ia. q. 1, a. 1.

[12] S. T., IIae IIae, q. 101, a. 1.

[13] S. T., IIae IIae, q. 80.

[14] Aristóteles, Ética a Nicômaco, VIII, 14, 4.

[15] Charles Maurras, “Qu’est-ce que la civilisation?” publicado na Gazette de France, 9 de setembro de 1901 — texto recolhido no livro Mes idées politiques, Fayard, 1937, reedição de 1948, pp. 71-84.

[16] Ver, entre outros, o início da Constituição apostólica Veterum sapientia, 22 de fevereiro de 1962.

[17] S. T., IIa IIae, q. 80.

[18] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 3, ad 1.

[19] Ibid, ad 2.

[20] Ibid, corp.

[21] Ibid, ad 3.

[22] S. T., IIa IIae, q. 101, a. 1.

[23] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5.

[24] S. T., IIa IIae, q. 121, a. 1.

[25] Ibid.

[26] Ibid., ad 1.

[27] Ibid, ad 2.

[28] João de Santo Tomás, Les dons du Saint-Esprit, Téqui, 1950.

[29] De direito e de fato, os termos “pátria" e “nação" são distintos. Não os distinguimos aqui, tomando-os no sentido lato, em que sua significação é comum, e não no sentido estrito, em que sua significação é distinta.

[30] Isto pressupõe, claro está, o que mais falta, na ordem natural, ao pensamento e ao mundo modernos: uma ética e uma vida moral que sejam uma doutrina e uma prática das virtudes.

[31] Enc. Div. Red., §7.

[32] Maurras, op. cit., p. 67.

[33] No original, “dignité de la personne humaine”. Optamos pela tradução acima por ser mais fiel, se não ao pensamento do autor, ao menos à doutrina católica de sempre. Reconhecemos a dignidade da natureza humana criada por Deus, mas negamos o desvario de uma dignidade inalienável da pessoa humana, idéia que decorre do personalismo do mesmo Maritain, já muitas vezes refutado por grandes autores. "Quanto à idéia de 'dignidade' da pessoa humana", escreveu Júlio Fleichman, "lembremos que uma pessoa concreta e real que singulariza uma natureza humana, será digna ou indigna conforme seu comportamento moral” (http://permanencia.org.br/drupal/node/674). [N. do T.]

[34] Maritain, Pour un philosophie de l’histoire, Éd. du Seuil 1959, pp. 115-116.

[35] Charles de Koninck, “Liberté des consciences et droit naturel”, Revista Itinéraires, número 66, p. 212 e p. 214.

[36] Maritain, op. cit., pp. 117-118.

[37] 1 Tim 4, 8.

[38] S. T., IIa IIae, q. 122, a. 5 ad 4.

[39] Ibid.

[40] Pio XII, Discurso pela canonização de Nicolau de Flüe, 16 de maio de 1947.

[41] Pio XI, Encíclica Divini Redemptoris, §2.

[42] Jo 15, 16.

Não se adaptar, eis a divisa das almas fortes.

Pe. Xavier Beauvais - FSSPX

 

 

Há em nossos tempos um demônio que nos interessa e que temos o máximo interesse em combater: o demônio mudo, o respeito humano. Como podemos defini-lo?

Dá-se o respeito humano quando um indivíduo, numa ação ou omissão, ao invés de expressar concretamente a sua personalidade e tudo o que ela comporta de idéias, crenças, afeições e sentimentos, leva em consideração a mentalidade dos que o rodeiam e adapta a sua atitude pessoal a ela, de modo a evitar o disse-me-disse, o deboche, os gracejos e críticas de todo tipo. Numa palavra, é culpado de respeito humano quem respeita os homens mais do que a Deus, quem respeita o sentimento geral mais do que a verdade, quem respeita a moda mais do que a moral. Não se pode tornar-se mais escravo, não se pode rebaixar-se mais, nem se tornar mais abjeto e, no fundo, lastimável, do que respeitando tais coisas mais do que a Deus, a verdade e a moral.

É preciso ser de seu tempo, dirão alguns. Não é essa uma maneira bastante hipócrita de se esconder um profundo respeito humano? Seria preciso citar sobre esse tema páginas inteiras de Abel Bonnard1:

“Os imbecis jactam-se de serem do seu próprio tempo: isto prova que são dele. A verdade é que escapamos à nossa época à medida que desenvolvemos a nossa pessoa. É isto que torna tão cômicos os que, briosos, nos anunciam que são do seu tempo, que o querem ser; isso significa que se atam a si mesmos no fio do telefone, que se fazem servos das máquinas que deveriam servi-los, que vivem segundo um ritmo que lhes é imposto. Orgulham-se de fazer o que se faz, de correr aonde se corre, de comprar o que se vende, de pensar o que se diz, de se vestir segundo a moda do tempo; não se poderia proclamar com maior glória a própria inexistência. Não se adaptar, eis aqui, segundo penso, a verdadeira divisa das almas fortes. Os seres fortes não se adaptam, eles se afirmam.”

Escreveu o Papa Pio XII:

“Nada fere mais a alma do que ver que, de ordinário, não é tanto a presença de elementos perversos o que torna doentio e pernicioso o lugar do trabalho profissional, e sim o respeito humano. Respeito humano dos jovens, alguns dos quais dão-se ares desenvoltos e zombam de tudo o que toca a religião e os bons costumes, enquanto outros seguem usos inconvenientes, sem ter a coragem de reagir, e assim os vemos estabelecer tristes usos de linguagem, de familiaridade, de licença, que fazem tremer. Se tudo isso é verdadeiro e lamentável na juventude, ainda mais deplorável em seus efeitos se torna o respeito humano em homens maduros, que poderiam tão facilmente se opor ao mal, corrigir um abuso com elegância, impedir uma imprudência indecente, mudar o rumo de uma conversa que da leviandade dirige-se para a obscenidade.  Mas eles não o ousam. E por que não? Porque o respeito humano é como o medo, como o pavor do escuro das criancinhas. E eis então o espetáculo tristemente paradoxal: todo um ajuntamento de homens, de mulheres, de moços, de moças, transforma em lugar de perdição o santuário do trabalho, enquanto que cada um deles, desgostoso no fundo do coração do que vê, do que escuta, da falta de dignidade e de caráter do ambiente, e sobretudo de si mesmo, de sua própria covardice e pusilanimidade, poderia, com uma palavra oportuna, com um olhar severo, um sorriso de reprovação, e mesmo com uma pilhéria, purificar a atmosfera viciada, seguro de lançar-se a empreitada com a aprovação dos pais e das mães, a confiança respeitosa e mesmo o reconhecimento filial daqueles moços e adolescentes.”Não seria difícil listar passagens dos Evangelhos em que se impõe aos fiéis a obrigação de agir, não em consideração do que possam os outros pensar ou dizer, mas sim à vista dos deveres impostos pela reta consciência.

Em suas palavras, Nosso Senhor condena não só a hipocrisia, mas igualmente essa atitude de respeito humano. Obriga mesmo, em certas circunstâncias, aqueles que o seguem a confessá-lo perante os homens, ainda que advenham inconvenientes: “Digo-vos mais: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus. O que me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12, 8-9).

São Paulo Apóstolo recordou esse dever em muitas passagens, e ele mesmo mostrou-se bastante escrupuloso em segui-lo, sobretudo porque sua vocação especial ao apostolado implica uma obrigação particular de anunciar o Evangelho sem temer as conseqüências: “Em verdade, eu não me envergonho do Evangelho” (Rom 1, 16). Ele quer que os fiéis em geral, mas sobretudo os que ele constituiu chefes da Igreja, sigam o seu exemplo: “Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas participa comigo dos trabalhos do Evangelho, segundo a virtude de Deus” (2Tim 1, 8).

O elogio que dirige aos corajosos comporta também uma nota de desdouro para aqueles que não o foram tanto. Essa exortação do Apóstolo, de que é preciso saber confessar sua fé quando surge a ocasião, ou ao menos não se envergonhar do Evangelho, foi sempre mantida pela Igreja. Em tempos de perseguição, ela jamais admitiu que seus filhos fraquejassem, jamais considerou que o temor das pressões externas servisse de escusa para a covardia. Em 1635, por exemplo, a Congregação para a Propagação da Fé, em Roma, lembrava aos missionários em países islâmicos que não era permitido batizar aqueles que, temendo incorrer em perigos, não se dispunham a professar sua fé exteriormente. Passado mais de um século, a mesma congregação protestava contra a atitude dos católicos que, em terras infiéis, assistiam aos ofícios, mas, por temor aos estrangeiros que assistiam por curiosidade as cerimônias, evitavam todos os sinais que pudessem trair suas convicções interiores.

Finalmente, o próprio Direito Canônico exprime de modo categórico a obrigação que incumbe a todos os católicos de professar exteriormente a sua Fé em dadas circunstâncias. Prescrições severas, julgará o católico moderno, impregnado de laicismo, desta verdadeira traição a Jesus Cristo que é o vírus da laicidade. Contudo, estes princípios da Igreja são muito razoáveis. Ora, aquele que, por temor do sentimento das testemunhas, não professa sua Fé, diminui-se moralmente, pois renega a si mesmo no seu coração, no seu espírito e na sua vontade. Rebaixa-se intelectualmente, pois contraria a Fé, a doutrina da Fé que aprendeu a conhecer e à qual aderiu. Desdenha seus mais profundos sentimentos, aquilo que ama. Finalmente, usa mal da sua liberdade, pois ao invés de escolher o que serve para o seu bem moral, dispersa seus esforços no sentido oposto.

Fala-se muito hoje em dia em distensão da personalidade, em relaxar: é aqui o lugar do respeito humano, a um tempo negação prática e ato pecaminoso. Ao invés de manter-se fiel aos seus deveres religiosos, o sujeito desvia-se do bem soberano e considera apenas o seu interesse humano e sua tranqüilidade pessoal. De resto, quem cede freqüentemente ao respeito humano expõe-se ao risco de perder a Fé. A prática exterior da religião é uma proteção ao assentimento interior. Ceder por respeito humano a todas as modas intelectuais e morais significa muitas vezes dinamitar as proteções interiores, engendrando a diminuição da Fé até sua completa ruína.

O medo de mostrar-se cristão exteriormente conduz, a longo prazo, a uma atonia da vida religiosa, com sua conseqüência quase fatal: a dúvida, de início admitida timidamente, em seguida instalando-se definitivamente e minando o assentimento dado ao conjunto das verdades ensinadas pela Igreja. Essa covardia é culpável principalmente por servir de ocasião de escândalo e pedra de tropeço para almas fracas, testemunhas do ato positivo ou negativo ditado pelo respeito humano. O respeito humano é igualmente uma falta para com a Igreja, cuja unidade exterior pode ser comprometida por aquele que não ousa afirmar concretamente as suas convicções. Sua influência exterior, de todo modo, se vê seriamente impedida por isso. Ao invés do contágio benfazejo do exemplo, vê-se produzir o fenômeno inverso; a moleza de alguns avança pouco a pouco e acaba por tomar conta da massa. O pequeno rebanho começa a definhar.

Finalmente, o respeito humano é um ato de irreverência diante de Deus, uma vez que a opinião humana é anteposta ao julgamento divino do Mestre de todas as coisas. A honra devida a Deus certamente exige que a profissão da Fé católica seja, em dados momentos, não apenas privada, mas também pública, sejam quais forem os perigos que possam ameaçar aqueles que permanecem exteriormente fiéis às suas convicções. Aqui, as hesitações, as ambigüidades não são toleráveis, sobretudo quando se trata de se afirmar perante o poder estabelecido.

Essa disposição malsã do respeito humano é freqüentemente ocasião de lamentáveis omissões, mas também leva a atos pecaminosos. É assim que, por respeito humano, muitos se deixam associar mais ou menos timidamente a conversações anti-religiosas que degeneram em zombarias, quando não em blasfêmias. É certo que, sob nenhum pretexto, é permitido praticar atos positivos contrários à lei divina: quaisquer que sejam as circunstâncias atenuantes que ela concede aos cristãos que, por temor, se tenham tornado culpáveis de atos exteriores de idolatria, a Igreja sempre os considerou como lapsi, e sua disciplina foi bastante severa no que lhes concerne.

Precisemos, contudo, que certas circunstâncias podem autorizar um católico a omitir certas práticas prescritas na lei eclesiástica. Se não somos nunca autorizados a negar nossas convicções por atos positivos, não estamos obrigados a exibi-las em certas circunstâncias. Pode mesmo ocorrer casos em que a jactância, a fanfarronice, o desejo de exibir-se sejam mais nefastos à causa que servimos. Mas não é isso o mais freqüente.

Como tão bem escreveu o Pe. de Chivré2:

“A nova liturgia gasta seu tempo envergonhando-se da divindade de Cristo, envergonhando-se da sua diferença dos homens: atenua a sua transcendência em textos que já não ousam conservar-lhe o lugar. Envergonha-se de Cristo, sugerindo a todo o tempo e em toda a parte uma hesitação em reconhecer que Ele é o Juiz Soberano, ainda que não ouse negá-lo. Envergonha-se dele escamoteando a razão principal da sua morte: um sacrifício de expiação.

“É, pois, chegada a hora de uma coragem espiritual obrigatória, até às aparências de desobediência que não são outra coisa que uma magnífica obediência a Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Tenhamos um único medo no mundo, o de sermos mudos até a apostasia.”

 

(L’Acampado, 113. Tradução: Permanência)

  1. 1. Abel Bonnard (1883-1968) foi um poeta, romancista e político francês, membro da Academia Francesa. [N. do T.]
  2. 2. O celebrado Padre de Chivré (1902-1984), dominicano, foi um discípulo e aliado de primeira hora de Dom Marcel Lefebvre.  [N. do E.]

O Pôncio Pilatos de ontem e os de hoje

Pe. Jean Dominique, O. P.

 

Na sua Encíclica Pascendi Dominici Gregis, São Pio X resumiu o fundamento filosófico da heresia modernista com esses dois termos: agnosticismo e imanência vital. Ele apontava o dedo para as duas atitudes fundamentais do pensamento moderno, que são a recusa do conhecimento especulativo e uma hipertrofia da causalidade. Para bem compreender o espírito do nosso tempo e poder confrontá-lo, convém nos aprofundarmos nesses dois falsos princípios que se encontram na origem de tantos erros. Para ajudar nossos leitores nessa tarefa, propomos uma parábola sobre o agnosticismo, que não é mais do que uma forma derivada do ceticismo.

 

Uma parábola moderna -- o Senhor Philosophus

Os jornais traziam uma triste notícia. Um jovem de cerca de trinta anos fora massacrado, há pouco tempo, por um bando de malfeitores nas redondezas de Jerusalém. A crueldade dessa execução sumária e o renome desse jovem judeu deram ao ocorrido uma repercussão internacional. O Senhor Philosophus, detetive de reputação, foi incumbido de identificar os criminosos e localizar o seu líder. Pôs na cabeça o seu chapéu de feltro, armou-se de sua lupa e de sua lanterna de bolso e, sem mais delongas, lançou-se ao trabalho. Confiando na sua longa experiência e nas suas fontes de informação, nosso homem contava resolver o assunto em pouco tempo. Mas teve de deixar o seu otimismo de lado ao depara-se com uma multidão heterogênea de suspeitos e com testemunhos aparentemente contraditórios. Busquemos acompanhá-lo na sua investigação.

A vítima tinha precisamente trinta e três anos no momento do atentado. Vinha do norte de Israel de uma localidade chamada Nazaré. Sua mãe, presente no lugar do suplício, chamava-se Maria, e seu nome era Jesus.

Quem, portanto, poderia ter cometido uma tal abominação, condenar ao suplício da cruz um homem dotado de tão boa reputação? O Senhor Philosophus seguiu todas as pistas que se lhe apresentaram: os Palestinos?  Os próprios Judeus? Os Romanos que ocupavam a região? Um dos amigos do defunto chamado Judas? A covardia dos seus discípulos que o abandonaram diante do perigo? Soluções as mais contraditórias disputavam o espírito do detetive, sem que ele pudesse resolvê-las de modo categórico.

Ao cabo de muitos dias e noites de trabalho, após ter perseguido escrupulosamente os menores indícios que lhe pudessem conduzir a alguma conclusão, esgotado de tanto esforço sem resultado, Sr. Philosophus ingressou, num belo dia, na sala de reunião dos adeptos desse Jesus. Na esperança de obter um pouco de repouso, sentou-se confortavelmente num banco dessa igreja, abriu mecanicamente um livro que lá estava e, com ar distraído, leu uma página... e tudo mudou subitamente.

Ali, naquela página aberta por acaso, o criminoso tinha deixado seus traços! Repetidas vezes, e vagarosamente, o brilhante detetive repassou com sua lupa o texto em questão. Não havia mais dúvida: ele encontrara a solução do enigma.

 

A profissão de fé dos católicos

O texto que aqui mencionamos é conhecido dos católicos, é o Credo, sua profissão de fé. Ele merece uma leitura lenta, atenta – ser lido de lupa. Desse modo, ele revelará os tesouros que contém. Tudo é belo nesse Credo, é como uma sinfonia maravilhosa. Lá encontramos a glória de Deus, a bem-aventurança do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Encarnação do Verbo eterno, a virgindade perpétua e fecunda de Maria, o mistério tão consolador da remissão dos pecados e a promessa da vida eterna no céu.

Encantado pelo charme desse texto luminoso, o detetive tinha quase se esquecido das suas preocupações, e mesmo da missão de que fora incumbido de encontrar o assassino. Foi então que se deparou com a palavra que lhe revelaria o segredo que buscava. No meio da profissão de fé da Igreja, escondido no meio de verdades tão elevadas e reconfortantes, enquanto os católicos cantam de todo o seu coração infantil a bondade e a beleza de Deus, surge uma frase curiosa: “Sub Pontio Pilato passus et sepultus est” (Padeceu e foi sepultado sob Pôncio Pilatos). Este inciso aparece subitamente, como um convidado indesejável numa reunião de família, como um furúnculo num belo nariz, como o cabelo da cozinheira na sopa. Ora, essa dissonância, esse aparente erro de digitação permanecerá no Credo até o fim do mundo.

O fato é digno de nota. Pois, nessa profissão de fé, não se fala absolutamente da covardia de Pedro, nem da maldade de Judas, nem do ódio invejoso dos príncipes dos sacerdotes. Só Pilatos é citado no tribunal da história.

Podemos então imaginar a alegria do nosso detetive. Após sua descoberta sensacional, ele se ergueu prontamente, seguro de encontrar o culpado. Encontrar o esconderijo de desse Pilatos será moleza.

No entanto, nosso homem se depara com uma nova dificuldade. Ao abrir as páginas amarelas da cidade vizinha, encontra um senhor Pilchoswki, um Pilhart, e um Pikal. Entre esses nomes, não está o de Pilatos, que é o que procura. Então, expande a sua investigação e lança mão de todos os meios mais sofisticados -- tudo em vão. Por toda a parte, nenhum traço de Pilatos. Ele se desloca até Forez, para o Monte Pilatos onde, dizem os antigos, o célebre governador romano terminou os seus dias. Mas a lenda não foi de grande ajuda. Sobretudo uma vez que os suíços reivindicam o mesmo privilégio que os stéphanois. O seu Pilatusberg, próximo de Lucerna, seria indubitavelmente a derradeira morada do famoso malfeitor. O Sr. Philosophus se viu obrigado a render-se à evidência: o Pilatos que procura se esconde sob um falso nome, possui documentos falsos.

 

Pilatos nos quatro Evangelhos

Para identificar o assassino de Jesus, o detetive decidiu consultar as Sagradas Escrituras. Um exame cuidadoso lhe indicava quatro pistas: com efeito, falava-se de Pilatos nos quatro Evangelhos. Ele se lançou, portanto, à tarefa e, de lupa nas mãos, leu as páginas indicadas. Infelizmente, nem São Mateus, nem São Marcos, nem São Lucas lhe forneceram informações significativas. Havia motivo para se desencorajar.

Após ter utilizado todo o seu savoir faire, ter consagrado tanto esforço e tempo, ter posto em obra os meios mais modernos de investigação, nosso detetive profissional estava prestes a declarar derrota e desistir. Maquinalmente, mais por dever profissional do que por esperança genuína, Sr. Philosophus consultou a última página que ainda poderia lhe ajudar, leu o capítulo décimo oitavo do Evangelho segundo São João. E aí, contra toda esperança, recebeu a luz, descobriu a solução para o apaixonante enigma e conseguiu identificar Pôncio Pilatos. De agora em diante podia anunciar ao mundo quem matou Jesus.

Eis o famoso texto que nos revela a personalidade de Pilatos:

“Tornou, pois, Pilatos a entrar no Pretório e chamou Jesus, e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus?”

Jesus respondeu:

“Tu dizes isso de ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim?”

Pilatos respondeu:

“Porventura sou eu judeu? A tua nação e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos. Que fizeste tu?”

Jesus respondeu:

“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certamente que os meus ministros se haviam de esforçar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui.”

Pilatos lhe disse:

“Logo tu és rei?”

Jesus respondeu:

“Tu o dizes, sou rei. Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”

Pilatos lhe disse:

“O que é a verdade?”

Tendo dito isso, saiu novamente para ir encontrar os judeus, e lhes disse: “Não encontro nele crime algum. Ora é costume que eu, pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que eu vos solte o rei dos judeus?”[1]

 

“O que é a verdade?”

A marca distintiva de Pôncio Pilatos, a sua impressão digital, por assim dizer, está toda nessa curta questão: “O que é a verdade?” Foi assim que ele entrou para história, foi esse estado de espírito que o levou a entregar Jesus aos verdugos.

Convém reler atentamente essa passagem decisiva para compreender o seu sentido.

O governador romano foi intimado pelos príncipes dos sacerdotes e pela multidão a condenar Jesus a morte. Como bom conhecedor das leis, Pilatos não poderia condenar um homem sem um motivo adequado. Interroga, portanto, o acusado para compreender melhor a natureza da acusação: “Tu és o rei dos judeus?”, o que pode ser compreendido como uma afirmação disfarçada: “Tu és realmente o rei dos judeus, não é?”. Se Jesus é efetivamente o rei dos judeus, Pilatos se encontra, portanto, diante de um caso de sedição de um povo dominado contra o seu legítimo chefe, o que daria ao processo um curso inteiramente novo. 

Com sua resposta, Jesus quer que Pilatos reflita. “Tu dizes isso de ti mesmo?” -- Ou seja, trata-se de um juízo pessoal, autêntico, fundamentado, ou repetes sem refletir os rumores dos que te rodeiam -- “ou foram outros que to disseram de mim?”. A coisa é grave demais para ser tratada de modo tão frívolo, ela não diz respeito apenas ao povo judeus, mas a ti mesmo, Pilatos, e àquele a quem representas, o Imperador.

A resposta de Pilatos mostra que ele indefere. “Porventura sou eu judeu?” – o pleito é um assunto interno do teu povo e quero jugá-lo desse modo. Se tu és o rei dos judeus, tua autoridade se encerra nos limites desse povo, a querela só diz respeito aos judeus. “Que fizeste tu?” – Tratemos o problema de modo puramente jurídico.

O versículo seguinte realmente foi capaz de assustar Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”, o que significa, entre outras coisas, que ele está acima desse mundo, acima de todos os reinos e impérios desse mundo. O que se passa hoje em Jerusalém diz respeito a todos os povos da terra. Daí a questão apressada e inquieta de Pilatos: “Logo tu és rei?” -- Procuremos limitar o problema ao pequeno povo judeu. O governo romano está disposto a sustentar a autoridade legítima das terras sob sua ocupação, mas se ela pretende possuir uma autoridade superior, o problema se torna espinhoso.

Ora, é esse precisamente o caso. O reino de Jesus é o reino da verdade. “Nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade.” – este reino ultrapassa, portanto, os limites de toda realeza terrestre. Tudo que é verdadeiro lhe está submetido. “Todo o que está pela verdade, ouve a minha voz.”  -- Se tua autoridade é verdadeira, Pilatos, ela está sob minhas mãos. “Tu não terias poder algum sobre mim, se te não fosse dado do alto”[2], lhe dirá Jesus em breve.

Pilatos entende do que se trata, entende que, em nome da verdade, esse Jesus pretende possuir autoridade não apenas sobre os judeus, mas sobre o próprio governo e sobre aquele a quem representa, o Imperador de Roma. É nesse momento que Pilatos revela o fundo do seu pensamento e do seu ser: “O que é a verdade?” O que não significa absolutamente: “como seria interessante falar sobre a verdade, diga-me, o que é a verdade?”; mas antes: “não convém nem interessa falar sobre a verdade” – A verdade não tem nada a ver com o assunto em tela, nem com minha autoridade, nem com a religião. Tratar da verdade está fora de questão. Pilatos traduz aqui a atitude profundamente cética que caracterizava o pensamento dos romanos do seu tempo, o ceticismo enfadado diante da verdade e de suas pretensões.

Ora, foi precisamente essa palavra que condenou Jesus a morte. Jesus realmente padeceu “sob Pôncio Pilatos”, foi crucificado em razão do seu ceticismo.

A sequência do relato o mostra claramente. Após esta resposta evasiva, Pilatos se volta para os acusadores e lhes propõe escolher entre Barrabás e Jesus. Pouco importa a verdade, “não encontro nele crime algum”, pouco importa a inocência de um ou de outro, desde que a lei e as aparências sejam salvas. Eu lavo minhas mãos.

Portanto, foi o medo da verdade e das suas exigências, foi o espírito de dúvida e de indiferença em face de toda verdade especulativa, foi também o respeito humano decorrente, a arma com a qual Pilatos matou Jesus.

Esse ceticismo se encontra em todas as épocas

Mas a história mostra à saciedade que o ceticismo não é um fenômeno passageiro ou localizado, mas se verifica em todas as épocas e em todas as regiões do mundo. É um erro que aflige boa parte da humanidade e é um dos principais motores da história, é o algoz de Jesus e da sua Igreja. Esse estado de espírito ainda segue atual.

Poderíamos apontar todas as escolas de pensamento, todos os filósofos que reivindicam de modo mais ou menos explícito o ceticismo... Cronologicamente, foi o Oriente e o budismo que aparecem primeiro na cena da história. Em seguida vieram os sofistas gregos, depois os da Roma imperial. Na grande época da escolástica e no nominalismo também tiveram adeptos do ceticismo. A filosofia moderna não tem nada a invejar também...

A história demostrou claramente as constantes e os frutos da mentalidade cética, e permite esboçar uma resposta, ou melhor, uma terapia que dê aos espíritos céticos o gosto da verdade: não temamos a verdade e as suas exigências, calquemos aos pés o respeito humano que foi a arma com a qual Pilatos matou Jesus!

 


[1] Jo 18, 33-40.

[2] Jo 19, 11.

Mundo, mundo...

Gustavo Corção

Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos.

Solum expertus potest scire

quid sit Jesum diligere

Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus”. Ou, “somente os que por experiência sabem...”.

Todos os mestres místicos ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase”? Este termo parece restritivo, e portanto impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. É por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos é inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível.

No caso em questão, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de maior linguagem especulativa, recuam diante do termo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do Caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus.

* * *

Mas agora, caído em mim de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: — A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências nacionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB?

* * *

Na verdade, leitor, tudo o que toca nossa Santa Religião tem aquela marca antitética da Cruz. O belo canto eucarístico de Santo Tomás nos veio por antítese da matéria ingrata que se impõe à nossa consciência como dever de testemunho. O fato é que daquele canto de amor (somente quem o provou sabe o sabor que tem o amor de Jesus) veio-nos, num contraste abismal, a idéia horrível da “experiência” que o mundo vem fazendo, e a cujas infinitas conseqüências o mundo dia a dia se entrega com uma apavorante submissão: a experiência do mal erigido em sistema ou se quiserem, a experiência do ódio de Satã. É verdade que somente no inferno terão as almas perdidas a ciência mais exata do que seja o ódio de Satã. Mas o fato é que aqui, na terra, neste belo planeta azul que talvez seja o único habitado por seres racionais, capazes de louvar a Deus, e capazes de recusar seus dons, a humanidade já teve várias amostras daquele ódio, e várias vezes já assistiu ao espetáculo da maldade erigida da glorificação. O mundo encheu-se de saber, de saborear os horrores de que recentemente foram capazes os nazistas em torno de uma idéia; o mesmo mundo encheu-se de saber, de experimentar os horrores praticados pelos anarquistas e comunistas em torno de uma idéia.

Houve tempo em que, com raríssimas exceções, o mundo inteiro julgou que Hitler e seus companheiros tinham atingido a máxima crueldade jamais praticada oficialmente e sistematicamente por um regime; atrás da aparatosa e triunfal crueldade do nazismo, seu cúmplice monstruoso esteve agachado, eclipsado, taciturno e ignorado.

Tenho para mim que tais maldades organizadas e coletivas ultrapassam as forças humanas e não são praticáveis sem a ajuda de Satã; não dispondo, porém de um meio de medir, em unidades satanométricas, o grau de satanismo em cada caso, não sei qual dos dois monstros foi em si mesmo o pior, mas hoje não hesito em declarar que, para o mundo, e para o desenrolar do século o comunismo foi e continua a ser a pior das experiências políticas feitas e ainda descaradamente proposta aos homens. Como se explica então que tal hedionda evidência não seja reconhecida universalmente? A razão de tal cegueira, que é cômica numa nação rica, forte e engenhosa, como os Estados Unidos, e que é trágica sem deixar de ser cômica nas hierarquias eclesiásticas, talvez esteja nos quatro ou cinco séculos de humanismo liberal, mais ou menos integral, que afastou de Deus uma humanidade voltada e fechada sobre si mesma. Ora, os homens que se afastam e se tornam insensíveis às “experiências” do amor de Deus, no mesmo passo se tornam insensíveis àquelas do Demônio: e por isso serão capazes de abrir os braços ao comunismo com o entusiasmo que se observa nas Conferências Episcopais, e são capazes de aplaudir o humanismo ateu com a ardorosa e declarada simpatia que, para nossa infinita tristeza, ficou registrada entre os pontos notáveis deste brilhante século em que os homens demonstraram tão extraordinária faculdade nas experiências dos átomos... E é em nome dessa Ciência que dia a dia se acelera a desintegração de um mundo que já foi cristão.

 

O GLOBO — 23/04/1977

Dom Vital

Oração fúnebre por Dom José Pereira Alves,

Bispo de Natal, na cidade de Recife,

aos 17 de agosto de 1924.

 

 

Exmos. Revmos. Senhores Prelados,

Digníssimas altas autoridades,

Meus senhores,

 

Em festas tão solenes, comemorativas da Consagração da antiga diocese de Olinda ao Sagrado Coração de Jesus, neste jubileu de ouro, não podia ser esquecida a memória de Dom Vital, o pastor desvelado que, do fundo do cárcere, entrega o rebanho ao Coração Santíssimo do Divino Redentor.

Os Bispos, o Governo, os sacerdotes, o povo, todos nós, agradecidos, devemos esta homenagem ao nosso grande e excelso morto.

Humilde bispo de Mimosa, parte do rebanho de Dom Vital, explico bem a minha presença diante deste auditório conspícuo, nos funerais litúrgicos do imortal Prelado Olindense.

Mas sinto-me constrangido ante esse negro mausoléu. O meu coração desejava encontrar aqui não um catafalco. Era um altar que eu queria, um altar branco de luz e de flores para receber os ossos de Dom Vital.

Meus senhores, eu não antecipo os juízos da Igreja. Deo Optimo Maximo, porém, permita que o povo brasileiro possa um dia beijar, como se beijam os ossos dos santos, as relíquias sagradas daquele que foi na terra pernambucana a sentinela impávida, o guardião da Fé Católica. Com esse pio voto eu começo, consciente de minha fraqueza, certo da generosa indulgência que sempre me tendes dispensado.

 

Meus senhores:

A Igreja Católica tem um caráter acentuadamente, absolutamente dogmático: é uma suma luminosa de sentenças, de afirmações definidas. A Igreja é um dogma. O Cristo enviando os Apóstolos à conquista social, ordenou-lhes: Ide, ensinai a todos os povos — O dogma é a substância da Igreja, a sua essência, a sua razão existencial.

É o que magnificamente escreve Sertillanges: “Um Deus, um Cristo, uma fé, um batismo, diz S. Paulo. Assim os padres da Igreja chamam a conversão à fé, a volta à unidade de Cristo, à unidade de Deus. Não se pode dizer mais energicamente que a fé é para nós um primeiro princípio; que a doutrina de fé ou dogma é o laço ideal que liga, para dar-lhes um sentido, os elementos desta carta do Cristo que a alma religiosa, segundo S. Paulo, compõe.

Intimar o dogma, convidando os homens à fé, é, pois para nossa Igreja a função primordial, aquela que antes de qualquer outra resulta de sua natureza e da consciência viva que dela toma — Existir para ela, sem reclamar dos que consentem em incorporar-se em seu grupo a fé, seria existir não existindo, isto é, recusando reconhecer-se por aquilo que é, e tirar as suas consequências”.

Compreende-se então, meus senhores, toda a nobre beleza da Igreja, armada em cavaleira da verdade, em dama guerreira do Cristo brandindo entre os povos a cruz como a espada vitoriosa da batalha cristã. A intolerância é a prerrogativa da verdade. Há vinte séculos que a Igreja com desassombro repete a palavra de Jesus Cristo: eu sou a verdade; há vinte séculos afirma pela palavra, pelo amor, pelo sangue a sua missão de ensinar a verdade ao mundo. A Igreja sempre esteve disposta a perder tudo as suas igrejas, os seus altares, os seus vasos sagrados, os seus túmulos, a vida dos seus fiéis e dos seus pastores, de preferência ao sacrifício da verdade evangélica, de preferência a trair o mandato supremo do seu Divino fundador.

Quando Ela desceu do Calvário, envolta, para usar da frase de Joaquim Nabuco, envolta no sudário do Grande Redentor, com o evangelho sobre o peito e a cruz na mão de peregrina, para percorrer e iluminar o mundo, [a] Roma imperial, Roma dominadora, Roma senhora do mundo, quis embargar os passos da estrangeira. Bradou-lhes pelos seus césares divinos, bradou-lhe pelos seus sacerdotes ambiciosos, pelos seus cônsules audazes, por suas legiões aguerridas, pelo povo rei e escravo, voluptuoso e sanguinário: detém-te.

E a grande peregrina, levantando o facho da verdade através da temerosa noite secular das perseguições, passou por sobre as grelhas ardentes, pelas grades dos cárceres infames, pelos tenazes e pelos cavaletes, pelas feras, pelo fogo, pelo sangue, com o sacrifício de tudo menos da verdade e da sua missão. Os hereges primeiros e os bárbaros, os potentados os infiéis e os ímpios têm arrebentado armas de todo o gênero — as armas da hipocrisia, da calunia, da venalidade, da violência e do sofisma — de encontro ao granito do dogma católico. Ela não cede uma linha só, não receia de uma só afirmação, não sacrifica um só artigo doutrinal, não tolera uma só concessão no terreno intangível do credo secular.

Esta intolerância constitui a sua grandeza, a glória de sua vida, a pujança de sua força no meio das vicissitudes filosóficas e religiosas.

São de notável apologista de nosso século as seguintes magistrais conclusões: “Censurar a Igreja pela sua intolerância doutrinal é censurá-la por ter e crer-se a verdade necessária, é fazer o seu elogio. O próprio da verdade é excluir o que lhe é contrário”.

Toda a ciência é intolerante; desde que um teorema lhe é demonstrado, o matemático tem por absurdas as proposições contrárias. Por isso mesmo que está certa de possuir a verdade religiosa integral, a Igreja deve condenar todo o erro. Assim Bossuet proclamava “que a religião católica é a mais severa e a menos tolerante de todas as religiões em matéria de erros dogmáticos”. E Júlio Simon confessava que “a legitimidade da intolerância eclesiástica está acima de toda a discussão”.

“Reconhecemos que em matéria de dogma as outras sociedades religiosas não são intolerantes. J. J. Rosseau pode dizer o mesmo do Protestantismo: a religião protestante é tolerante por princípio, é tolerante essencialmente, é tanto quanto é possível ser, pois que o único dogma que ela não tolera é o da intolerância. Uma tal confissão é para uma doutrina religiosa a mais esmagadora das refutações.

Mas se a Igreja Católica é justamente intolerante para as doutrinas más e para os vícios, como devem necessariamente ser a verdade e o bem, ela é cheia de indulgência e de misericórdia para os transviados e para os pecadores que reconhecem sua falta e imploram o seu perdão — estabelecida para salvar os homens, nada poupa para arrancar as almas à eterna perdição. Sempre fiel ao mandato que recebeu de Jesus Cristo, ela se limita, para converter o mundo, a pregar o Evangelho, isto é, sempre procedeu por via de persuasão. Como seu Divino Mestre, sofreu em todos os tempos a perseguição e derramou o Sangue pela salvação dos homens. Se por vezes julgou de boa conveniência castigar os seus próprios filhos rebeldes, exerceu um direito que jamais se cuidava em contestar-lhe; ela o fez com mão maternal para convertê-los, para destruir os escândalos e impedir a corrupção de estender-se mais”.

“Tolerância! Tolerância! O século não comporta mais tiranias: nem as tiranias da força que escravizam o corpo, nem as tiranias da força que escravizam o espírito. Todas as religiões fazem o bem, conduzem a alma às ascensões morais, consolam o homem. Toda a religião é boa” — Estranha linguagem! Que Deus é esse cuja essência não seria mais que a colcha de retalhos de diferentes formas religiosas?

Senhores, a minha religião, a vossa religião, a religião do Brasil, meus senhores, a Religião Católica, não suporta essa linguagem, não admite essa equiparação. Ela sabe que a linguagem do Liberalismo é a morte do credo religioso. A Religião que aceita semelhante fórmula suicida-se. A verdade não pode ser múltipla: é uma. O Catolicismo se isola, se separa, se diferencia, se opõe e se afirma na intolerância sublime de suas atitudes gloriosas — a Religião verdadeira, a Religião única, a Religião obrigatória para a humanidade, com exclusão de qualquer outra.

Assim escreve Huby: “A Igreja se apresenta a nossos contemporâneos guardiã incorruptível, e por consequência, intransigente das verdades que tem a consciência de deter, mantendo firme uma hierarquia que não existe senão para o bem dos fiéis que rege heroica e compreensiva, a Igreja Católica.

Como o seu Mestre, e por Ele, tem morada para todos aqueles que não querem deliberadamente pecar contra a luz. Aos grupos fundados sobre a comunidade de raça, a identidade de condições sociais, a adesão revogável das inteligências que se emprestam sem se darem, ela opõe uma comunidade de crenças e ritos que faz com centenas de milhões de homens que, às vezes, tudo separa, um grande povo fraterno”.

Meus senhores, a Igreja Católica, como todo o organismo vivo, defende a sua existência com a plenitude de suas forças interiores e exteriores; afirma e acentua a sua inconfundível individualidade; repele toda a confusão, opondo-se tenazmente aos elementos corruptores do seu dogma e da sua moral, da sua verdade e da sua vida. É o seu direito e é o segredo do seu indiscutível prestígio no mundo. A consciência de sua missão é absoluta. Não pode transigir fora dos limites dos seus princípios dogmáticos e morais. A Igreja está certa de sua finalidade. O Cristo não esqueceu nada. Deu-lhe tudo e traçou-lhe a luminosa rota a seguir. Cousin, algumas semanas antes de morrer, dizia: “Nós outros filósofos, navegamos ao acaso, sujeitos aos desvios, expostos ao naufrágio. Vós católicos, tendes a bússola, a carta do país, as estrelas, o piloto e o porto”.

O Catolicismo é por excelência a religião da ordem, da disciplina, a religião da autoridade.

Lembrada da sentença de Santo Agostinho — amai os homens e destruí os seus erros — a Igreja mantem firme a sua autoridade doutrinal, impõe os seus princípios e a sua lei, e gloria-se da sua intolerância da verdade contra o erro, a intolerância do bem contra o mal.

Meus senhores, Dom Vital foi na terra pernambucana, no Brasil, na América, o expoente glorioso dessa intolerância, o cavaleiro indomável da verdade, o Apóstolo do direito, o Arcanjo do sobrenatural defendendo com o gládio de chamas as portas do santuário contra os inimigos do seu Cristo e de sua Religião.

A justiça da História consagrou a memória desse homem extraordinário do Brasil, verdadeiro gigante moral diante de quem se achatam, no proscênio histórico, os pigmeus da questão religiosa.

E a sua figura heroica se agiganta ainda mais quando, alguns raros caracteres acidentalmente eclipsados na sombra política daquela época, resgataram a sua criminosa cooperação com a nobreza das grandes almas trabalhadas, pelo remorso e tocadas de salutar arrependimento.

O centurião, ouvindo o estalar dos rochedos, assistindo aos espasmos da natureza, sentindo os tremores do universo na morte de Jesus Cristo desceu, aterrado, o Calvário murmurando: Ele era realmente o Filho de Deus. Assim, meus senhores, esses grandes homens de nossa pátria desceram o Gólgota em que uma desgraçada política governamental crucificara o Atanásio brasileiro, desceram envergonhados de si mesmos proclamando a grandeza moral, a justiça e a imortal beleza da augusta vítima.

Meus senhores, hoje todo o mundo reconhece o vulto épico do herói; todos exaltam a sua coragem apostólica; o desassombro verdadeiramente episcopal com que enfrentou as audácias do poder temporal e desmascarou as maquinações das trevas.

Aos olhos do historiador imparcial, Dom Vital esplende com um brilho pessoal próprio que se irradia de sua poderosa personalidade. Foi um cordeio. Poderia repetir com Nosso Senhor Jesus Cristo: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.

“De espírito calmo, eminentemente lógico, escreve um dos seus companheiros, firme nos princípios, rigoroso nas consequências, sincero indagador da verdade, o jovem Antonio Gonçalves com o trabalho tenaz, o versar os mestres, com mão diurna e noturna, alentou as disposições da natureza. Diz Montaigne que as nossas almas desferem aos vinte anos o que hão de ser depois e, desde então, prometem as posses que hão de ter. foi o que se deu com Antonio Gonçalves — Era o mais lindo desabrochar de rosas a prometeram aromas. Perdido na multidão, não sobrara o jovem Oliveira em virtude aos demais.

O que, porém, atraia a atenção de todos, superiores e iguais, é que sempre achavam-no cingido ao regulamento e nunca ultrapassara os limites do dever. E se por acaso incorria na menor falta, a reparação era pronta.

Mas os seminaristas de S. Sulpício, nós, sobretudo os brasileiros, não devíamos gozar por muito tempo da amável companhia do jovem pernambucano”.

Todos o conheceram risonho, amável, doce, delicado.

A doçura que emoldurava aquela alma varonil e forte, era filha de sua humildade profunda — a virtude dos grandes santos e dos grandes homens.

Foi seu grande espírito de caridade evangélica que ditou ao grande prelado as palavras magníficas da sua posse no sólio da Catedral de Olinda.

“À medida que formos trabalhando por estabelecer entre Deus e vós a mais perfeita união, não cessaremos de envidar ao mesmo tempo, todos os esforços a fim de fazer reinar entre os membros de nossa imensa família a mais bela harmonia de pensamentos e de sentimentos — Quando há dois dias chegamos a este abençoado torrão, onde tanto nos ufanamos de ter recebido o berço, e vimos um povo inumerável levantar-se como um só homem, como um só coração, digamo-lo assim, para sair ao encontro do humilde Pastor que o céu lhe envia, sentimo-nos abalado até à medula dos ossos, enternecido até as lágrimas. E hoje, enquanto lenta e vagarosamente subíamos as ladeiras desta antiga cidade de gloriosas recordações históricas, fervorosos votos e súplicas instantes subiam ao mesmo tempo de nosso coração ao trono daquele que nos mandou apascentar as vossas almas: “Ó Senhor, Deus de toda a consolação, lhe dizíamos nós com o ardor da nossa alma, fazei com que todos estes que me destes por filhos — quos dedisti mihi, se conservem sempre unidos como agora: Sint consummati in unum. Uni Senhor, as ovelhas ao pastor, os filhos ao pai, de tal forma que constituam um só corpo, animado do mesmo espírito Unum corpus et unus spiritus”.

Não são essas as palavras de um prelado imprudente, atrevido ou estouvado, como se teve a ousadia de escrever em livros escolares.

Todas as suas luminosas pastorais, tão ricas de sabedoria, tão opulentas em doutrina, tão elevadas e tão apostólicas, estão ungidas da mais suave caridade; todas elas trescalam o odor do mais admirável amor cristão e da mais terna piedade pelas almas do querido rebanho.

Oh! Como é emocionante o apelo do Pastor regressando do cárcere, restituído ao rebanho, o apelo do Pastor perseguido e ultrajado, à ovelha ingrata. Não se pode ler sem comoção essa benção amorosa e incomparável com que esse belo homem de Deus remata o seu comovente e admirável discurso da Igreja de São Pedro: “Também te abençoamos a ti, ó pobre ovelha tresmalhada, a ti que, desapiedada, tantas lágrimas, tantos gemidos tantas fadigas tem custado a teu Pastor. Não nos fora possível esquecer-te em nossas bênçãos nem tão pouco em nossas orações; antes, nelas tens a maior parte; por quem senão por ti, ovelha desgarrada, nos manda Jesus Cristo deixar as outras noventa e nove?

Tu votas desamor a teu Pastor quando ele só amor te merece; o tens por inimigo sendo ele o teu melhor amigo e o amaldiçoas, ao passo que ele te abençoa. Maledicimur et benedicimus.

Ah, volta arredia! Volta ao redil do Senhor! Volta contrita e seremos para ti médico que te cure, pai que te acarinhe, juiz que te absolva, doutor que te esclareça, sentinela que te guarde, pastor que te defenda.

Eia! Vem, infortunada! Vem, e te provaremos que se detestamos o erro, se o impugnamos com todo o rigor, temos, todavia, entranhas de misericórdia, coração de pai para o infeliz mortal que por fraqueza o comete. Diligite homines et interficite errores”.

Eis aí todo o home, senhores — Mas pela defesa da verdade, pela Igreja, por Jesus Cristo, Dom Vital não era mais um cordeiro, era um leão — Não um leão caricato, um leão de bravatas, de arremetidas e recuos. Não, meus senhores — Era um leão nobre, leal, generoso, marchando por uma estrada deslumbrante de ensinamentos sábios, profundamente meditados, de sentenças retas e perfeitas, de argumentos invulneráveis, irretorquíveis mas sempre dignos de seu alto espírito, de sua dignidade episcopal, de sua santa causa.

E as atitudes brilhantes de sua inteligência, foram esplendidamente realçadas pelos gestos impressionantes de sua ação gloriosa. Fale por mim da linha cristãmente aristocrática dessa heroica figura histórica, uma testemunha ocular e meu querido e antigo mestre: “Tomei-me de verdadeira paixão por aquela mocidade combatente que se impunha à admiração dos homens de sã consciência; por aquela invejável serenidade que se não alterava agrilhoada de máximos sofrimentos; por aquela indômita coragem de confessor da Fé a vibrar o seu non possumus, em frente da triunfante iniquidade das potestades terrenas.

Vi-o desrespeitado em sua autoridade, escarnecido em seus mandatos, insultado de mil formas nos comícios e jornais maçônicos, caluniado em seus atos, ridicularizado em torpes jornais caricatos...

Vi-o depois processado, preso, transportado à corte, julgado por um tribunal sectário e condenado a quatro anos de prisão com trabalhos na Ilha das Cobras.

E tudo isto porque quis separar o joio do trigo; porque quis separar o católico sincero do hereje encapotado.

Em todas as frases da tormentosa luta, vi-o sempre o mesmo, sereno, doce, risonho, imperturbável e nobre sem recuar nem ceder, sem se queixar nem temer; sempre a fazer flutuar bem alto o sagrado vexilo da Fé”.

Meus senhores, nada faltou ao esplendor desse caráter cristão, justo orgulho de nossa terra, honra da religião e da Pátria que dá lustre e glória não só à América Católica, mas, digamo-lo com ufania, à toda Cristandade. Foi digno dos primeiros mártires da Igreja pela sua fé, pelo amor ao Cristo e ao Evangelho, pelo heroísmo sem par, pelo sacrifício absoluto de tudo e da própria vida.

Nada faltou a esse assombroso prelado, a grandeza dos pensamentos, a inigualável bondade, a beleza sobrenatural dos lances mais patéticos da vida pastoral — para sagrá-lo o maior bispo do Brasil, o Antístite perfeito, o pastor glorioso e atribulado, que na Terra da Santa Cruz, pelas virtudes e assinalados méritos, pelo martírio, transformou o seu cárcere em santuário de amor nacional.

Dir-se-ia um doa antigos Padres da Igreja ou um daqueles veneráveis bispos da antiguidade cristã resistindo a Cesar com santa liberdade apostólica, e só inclinando a mitra refulgente diante do Vigário Supremo de Jesus Cristo.

Dom Vital, cuja vida no dizer de um dos seus autorizados biógrafos, foi um ato de coragem episcopal, Dom Vital encarnou em sua personalidade extraordinária a intolerância doutrinal, a intolerância necessária, infrangível da verdade.

“Um bispo cerrando o Evangelho sobre o peito e empunhando a Cruz, é invencível: morre, porém não se rende; e só deixa de pelejar os bons combates do Senhor quando exausto, coberto de gloriosas feridas cai sem alento e sem vida no campo das batalhas da fé, envolvido no misterioso estandarte sempre vitorioso, onde se lê em letra de refulgente brilho: Si Deus pro nobis quis contra nos?” Que afirmação! Que destemor! Foi um bravo da fé, um defensor acérrimo do pensamento católico. Ergueu a muralha granítica que salvou o Catolicismo no Brasil, detendo com seu sacrifício pessoal a onda da corrupção religiosa.

Criou assim uma alma nova, integralmente católica na pátria brasileira, preparando o advento de uma era feliz de fervor religioso. Foi o grande mártir e o redentor da fé no Brasil.

Meus senhores, porque hei de continuar? Guardemos silêncio diante desses heróis.

Ali na urna funerária estão escritas as memoráveis palavras do morto: Jesus autem tacebat.

Os ossos de Dom Vital repousam silenciosos. Mas se nós, bispos, se nós sacerdotes e católicos mentíssemos à fé jurada sobre o altar, se nós recuássemos do indeclinável dever da fé, se fugíssemos à honra do sacrifício da prisão, da morte por Jesus Cristo, esses ossos sagrados fremiram no protesto do seu silêncio augusto para amaldiçoarem a nossa covardia.

Isso jamais acontecerá, porque tu, Vital, incomparável Apóstolo, hás de ser sempre, pela tua inspiração e pelo teu exemplo, o custódio de nossa fé, a firmeza inquebrantável de nosso báculo, a força de nosso sacerdócio, o sereno guiador do nosso querido povo.

Dom Vital, se algum dia mãos sacrílegas tentarem apagar no céu da consciência nacional o cruzeiro glorioso, tu, arcanjo do Brasil, aparece de novo e brandindo a tua espada de luz, castiga os malfeitores da Pátria e, castigando-os na verdade e no amor, entrega-os ao Coração de Jesus Cristo para o supremo perdão.

 

Dom José Pereira Alves - Discursos e Conferências, Imprensa Nacional 1948.

Ideologia de gênero: mais um passo da revolução anticristã

“A Revolução é o triunfo do esforço de todas as potências tenebrosas que se sucederam no curso dos séculos (…), a coroação do incansável combate que o Inferno não cessou de travar contra a ordem divina, geração pós geração (...) e objetiva quase que exclusivamente a destruição do Cristianismo. Pois bem: o Cristianismo somente se encontra em estado íntegro, vivo e expansivo na Igreja Católica” (Jean Ousset, “Para que Ele reine”)

 

1. Introdução

 O tema desta conversa é a descrição de um novo intento e ataque à ordem natural, à civilização cristã e à Igreja.

 Por trás desse intento existe um poder oculto, inimigo de Deus, cuja cabeça só pode ser Satanás, que, por meio de organismos internacionais, organizações não governamentais e meios de comunicação de massa, vai impondo ideologias e modos de pensar e falar, em aberta oposição à Igreja Católica, à ordem cristã e natural. Sua meta: a Nova Ordem Mundial, humanista, antropocêntrica, na qual Deus é substituído pelo homem; um pretenso paraíso terrestre, em lugar da vida eterna.

Já faz mais de um século e meio que esse inimigo foi clara e publicamente denunciado pela hierarquia eclesiástica: “A Igreja teve outros inimigos (…); venceu a todos. Hoje, tem de enfrentar a Revolução”. E Monsenhor Gaume a definiu assim:

“Se, arrancando-lhe a máscara, perguntarem-lhe: ‘Quem és tu?’, ela responderá: ‘Não sou o que se imagina. Muitos falam de mim, mas poucos me conhecem. Não sou nem a Carbonária…, nem o motim…, nem a mudança da monarquia em república, nem a substituição de uma dinastia por outra, nem os distúrbios momentâneos da ordem pública. Não sou nem as vociferações dos jacobinos, nem os furores da Montanha, nem o combate de barricadas, nem o saque, nem o incêndio, nem a lei agrária, nem a guilhotina, nem os afogamentos. Não sou nem Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kossuth1. Estes homens são meus filhos, não são eu mesma. Estes homens e estas coisas são fatos passageiros; já eu sou um estado permanente. Sou o ódio de toda ordem não estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e Deus a um só tempo. Sou a proclamação dos direitos do homem sem a preocupação com os direitos de Deus. Sou a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem em vez da vontade de Deus. Sou Deus destronado e o homem posto em seu lugar (o homem chegando a ser, ele mesmo, a sua finalidade). Eis aqui por que me chamo Revolução, quer dizer, inversão’.”

Nesse plano orgulhoso, blasfemo e diabólico, uma nova inversão vai se impondo com força avassaladora: a ideologia do gênero, aberrante atentado contra a ordem natural. É o que iremos expor com brevidade, propondo ao final algumas idéias para combatê-la.

 

2. Que se entende por ideologia do gênero? Sua definição, suas origens.

« Et creavit Deus… masculum et feminam creavit eos » “Varão e fêmea os criou” (Gn 1, 27)

Pouco a pouco, e cada vez com mais freqüência, encontra-se nos documentos e protocolos elaborados por organismos internacionais, em tratados firmados pelos países, em leis anti-discriminatórias, e mesmo em formulários corriqueiros, como pedidos de empréstimo, reservas de passagem etc., o termo “gênero” para se referir aparentemente ao sexo.

 Será isto algo corriqueiro, uma normal evolução da linguagem, uma moda que expressa com outra palavra o mesmo de sempre; ou, ao contrário, trata-se de transmitir e impor uma nova ideologia com um objetivo determinado?

 A ideologia – fruto de um hábito vicioso do espírito – foi definida como “um sistema fechado de idéias que se constitui, para o homem que se identifica com ele, em fonte de toda a verdade, de toda a retidão prática e moral”. Não vigora somente no plano especulativo, mas funde as funções teórica e prática do intelecto numa só, transformando-as numa tarefa criadora, taumatúrgica, que tem de se realizar sobre o homem, para transformá-lo radicalmente, e sobre a sociedade, vista como a única dimensão real do novo homem, devendo por isso ser modificada absolutamente, para que seja fiel expressão e, ao mesmo tempo, o cadinho da transformação do indivíduo.

 Em resumo, não é uma teoria comprovada pela lógica ou experimentalmente, mas sim um corpo fechado de idéias, que parte de um pressuposto básico falso – que por sua vez deve impor-se pela recusa de toda análise racional – e  que logo se desdobra nas conseqüências lógicas desse principio falso. As ideologias se impõem pelo uso dos sistemas formal (escola e universidade) e informal (meios de propaganda) de ensino.

No âmbito que nos interessa, [a ideologia] aplica-se a transformar radicalmente as noções de sexo masculino e feminino, unificando-as na de “gênero”, termo que também deixa de ter seu sentido biológico clássico aplicado à espécie humana como conjunto de pessoas que “possuem uma ou várias características comuns dadas pela mesma natureza”, e o substitui pela idéia, não de algo dado pela natureza (os sexos masculino e feminino), mas sim de uma realidade que é escolhida, que o indivíduo mesmo constrói a partir do ambiente cultural.

Para entender melhor o sentido dessa verdadeira revolução, não apenas semântica, mas cultural, citemos um texto utilizado nas universidades norte-americanas sobre o que se pretende introduzir: “O gênero é uma construção cultural. Por conseguinte, não é o resultado causal do sexo, nem algo tão aparentemente fixo como o sexo. Ao se teorizar que o gênero é uma construção radicalmente independente do sexo, o gênero mesmo vem a ser um conceito livre de correntes. Em conseqüência, homem e masculino poderiam significar tanto um corpo feminino como um masculino; mulher e feminino, tanto um corpo masculino como um feminino” 2.

  Parte-se da falsa premissa de afirmar que as coisas não dependem do que “são”, mas do que alguém desejaria que elas “fossem”, ou do que alguém decide, e da seguinte suposição (de algo que, para essa ideologia, é um abuso): que foi para manter a hegemonia do domínio masculino que o homem constituiu a superestrutura do que denominam “sociedade patriarcal”, na qual a exclusividade da relação entre homem e mulher é uma construção social e cultural que se pode e deve modificar para evitar a “violência do gênero”, e obter a libertação e igualdade de direitos da mulher.

Impera um fundo revolucionário de negação dessa realidade que chamamos de “natureza humana” – sobre isso falaremos mais adiante –, impondo algo a mais que a igualdade entre homem e mulher, tema tratado habilmente na I Conferência Mundial da Mulher, que aconteceu no México em 1975.

 Um dos documentos resultantes dessa I CMM, a chamada “Declaração do México”, tenta definir o que significa a igualdade entre homens e mulheres. Diz assim: “A igualdade entre homens e mulheres significa igualdade quanto à sua dignidade e valor como seres humanos, assim como igualdade em seus direitos, oportunidades e responsabilidades”. Porém, mais adiante, no Plano de Ação da I CMM, amplia-se a definição de igualdade: “A igualdade entre o homem e a mulher implica que deveria existir igualdade de direitos, oportunidades e responsabilidades (…). Quanto a isso, é necessária uma revalorização das funções e dos papéis dados tradicionalmente a cada sexo na família e na sociedade. A necessidade de uma mudança no papel tradicional dos homens assim como das mulheres deve ser reconhecida (…)”. E estende-se a explicação quando se descreve como se deve alcançar essa igualdade tão desejada. A igualdade de direitos, oportunidades e responsabilidades será obtida mediante a “redistribuição de funções e papéis tradicionais adjudicados a cada sexo”, quer dizer, através da desconstrução e reconstrução do que são o homem e a mulher. Como vemos, querem eliminar qualquer resquício de natureza e de tradição.

Mas foi na IV Conferência Mundial da ONU sobre a mulher, celebrada em Pequim, em 1995, que começou a difusão em escala mundial dessa nova ideologia, persuadindo vários delegados de diversos países de que se tratava de uma luta em favor dos direitos da mulher.

As ativistas tiveram a habilidade de distribuir alguns textos com definições ambíguas sobre a sexualidade polimorfa, evitando utilizar palavras como marido, mulher, esposa, mãe, pai etc., e ressaltando em tons vitimistas a perseguição que, segundo elas, sofrem por parte dos setores tradicionais.

A diretora da conferência, ao ser perguntada sobre o tema, assim o definiu: “o gênero se refere às relações  entre homens e mulheres baseadas em papéis socialmente definidos que se atribuem a um ou a outro sexo”, o que por sua generalidade e ambigüidade provocou o pedido de esclarecimentos e definições. Estas chegaram rapidamente com a intervenção de Bella Abzug, representante e ex-congressista americana, explicando mais detalhadamente a noção de gênero: “o sentido do termo gênero evoluiu, diferenciando-se da palavra sexo, para expressar que a realidade da situação e dos papéis da mulher e do homem são construções sociais sujeitas a mudanças”.

A canadense Rebecca J. Cook, redatora do informe oficial da ONU na reunião, não fez cerimônia e disse explicitamente o que se buscava: “os sexos já não são dois, mas cinco, e portanto não devemos falar de homem e mulher, mas de mulheres heterossexuais, mulheres homossexuais, homens heterossexuais, homens homossexuais e bissexuais”.

Outra das feministas [presentes] não hesitou em dizer que “não existe homem natural ou mulher natural, não existe um grupo de características ou condutas exclusivas a um só sexo, nem sequer na vida psíquica”. Chegou-se a afirmar também que era preciso reconhecer os direitos reprodutivos das mulheres lésbicas, no que se incluiria o “direito” a conceber filhos por meio da inseminação artificial com sêmen anônimo, e de adotar legalmente os filhos de suas companheiras.

Para essa corrente revolucionária, o sexo aparece como algo secundário frente ao gênero. O sexo é o aspecto biológico do ser humano; o “gênero”, porém, resulta da própria construção cultural da sexualidade a partir de uma decisão ou escolha autônoma de cada pessoa.

Em suma, cada um não apenas escolhe ser homem ou mulher, mas também o conteúdo do que para cada um significa ser homem ou mulher.

Divinização da pessoa, negação e destruição da natureza.

Isso fica evidente a partir do que disse uma das defensoras dessa nova ideologia, Marta Lamas: “a riqueza da investigação, reflexão e debate acerca do gênero conduz inevitavelmente a suprimir a essência da ideia de mulher e homem”. E, mais adiante, “não existe homem (natural) ou mulher (natural)…”. E, mais radicalmente, afirma que “o movimento gay surge como uma instância libertadora, já que afirma, com razão, que a sociedade está errada a respeito da homossexualidade e da heterossexualidade: nem a primeira é antinatural, nem a segunda é natural”.

Assim negada a natureza, [essa ideologia] trata de apagar os aspectos biológicos do sexo humano. Supõe, para isto, serem possíveis, ao menos em teoria, múltiplas combinações entre cinco áreas fisiológicas do ser humano: genes, hormônios, gônadas, órgãos reprodutores internos e externos, combinações diversas que configurariam “inter-sexos” que se somariam ao masculino e ao feminino.

Como esta tese é indemonstrável biologicamente, outros autores, escamoteando as diferenças corporais, trataram de fundar suas teses em aspectos psicológicos, muito menos rigorosos do ponto de vista científico.

Para isso, afirma-se que investigações em diversas populações do mundo mostraram que a masculinidade psicológica de uma pessoa (homem ou mulher [sic]), prediz de maneira muito significativa não apenas aproveitamento matemático, mas ainda a habilidade matemática e ansiedade pelas matemáticas. Prediz também rendimento em tarefas espaciais. Mesmo assim, dependendo de se a masculinidade é alta, também será a motivação de sucesso e expectativa de êxito.

Nessa suposta comprovação, pode-se observar, como diz um autor: 1) que se escamoteiam os condicionamentos biológicos; 2) não haveria natureza humana, uma vez que os atributos masculinos poderiam ser construídos psicologicamente por qualquer um, seja homem ou mulher; 3) nega-se a complementaridade dos sexos, não apenas para procriar, mas em todos aspectos da vida; 4) atribui-se arbitrariamente a determinadas características o serem elas masculinas ou femininas, em virtude de algumas estatísticas (como se os comportamentos humanos fossem quantificáveis).

Uma vez negada a natureza humana, será preciso afirmar a autonomia absoluta de cada pessoa para “construir” seu próprio gênero; cada cultura conceberia o que é masculino ou feminino por um processo, uma aprendizagem. Por isso, Simone de Beauvoir afirmava que “não se nasce mulher, mas se chega a sê-lo”, e que “identidade de gênero refere-se ao sentimento de pertencer ao gênero feminino ou masculino. É a inscrição psíquica do gênero. Posso ou não coincidir com o meu sexo biológico”. Mais ainda, para essas ideólogas, o gênero não apenas determina os sexos, mas também a percepção de todo o resto, o social, o político, o religioso, o quotidiano.

Se [tudo isto] se escolhe, então pode ser mudado; está aí um elemento para renovar a história cultural, pela “desconstrução (eliminação) de certas práticas, discursos, e representações sociais que discriminam, oprimem e agridem as pessoas em função do gênero”. Importa chegar ao objetivo final, que é reformular, simbólica e politicamente, uma nova definição do que é ser pessoa – um ser humano e um sujeito –, seja em corpo de mulher ou de homem.

A base profunda dessa ideologia é o ateísmo teórico e prático: uma cultura sem Deus, na qual o homem, sem nenhuma limitação que lhe imponha princípios ou alguma ordem determinada, torna-se dono absoluto de seu destino. É o homem que brinca de ser Deus, a heresia liberal, eco daquele primeiro grito luciferino ―“não servirei” ―, e que soprou no ouvido do primeiro casal ― “sereis como deuses”. O fundo filosófico que os sustenta é o relativismo, o liberalismo malthusiano, o marxismo freudiano e o existencialismo de Sartre, que podemos resumir no personalismo.

Os meios de que se vale já adiantamos: organismos internacionais, meios de comunicação de massa, leis3, currículos educacionais obrigatórios com conteúdos “transversais”, isto é, que introduzem a “perspectiva de gênero” em todas as áreas educativas, isto desde a infância4, acompanhados de uma mudança de linguagem5 pela qual os termos usados já não expressam as essências das coisas, mas respondem a significados diversos e carregam uma ressonância espiritual que funciona como um reagente sobre o espírito e faz com que as pessoas não se entendam ainda que utilizando as mesmas palavras. Léxico fechado, inteligível só para os iniciados. É a moderna Torre de Babel6

 

3. Crítica e modo de enfrentar esta revolução:

Nossa refutação será a partir da Revelação, da teologia moral e da sã filosofia.

Do primeiro ponto de vista, é necessário saber o que a Sagrada Escritura diz.

Deus fez chover sobre Sodoma e Gomorra fogo e enxofre, destruiu-as completamente por estas ações nefandas de seus habitantes7. Mais tarde, Deus volta a abominar tais atitudes e/ou ações:

“Não vos mancheis com nenhuma dessas coisas, com que se têm contaminado todas as gentes que eu expulsarei da vossa vista. Mancharam esta terra, castigarei seus crimes e a terra vomitará seus habitantes. Guardai as minhas leis e os meus mandamentos, e não cometais nenhuma destas abominações, tanto os naturais como os estrangeiros entre vós. Todas estas execrações cometeram os que foram antes de vós habitantes desta terra, e assim a contaminaram. Vede, pois, não suceda que, assim como ela vomitou a gente que aqui estava antes de vós, vos vomite também a vós, se fizerdes outro tanto. Todo aquele que cometer alguma destas abominações, será eliminado do meio do seu povo. (...) Se um homem pecar com um homem, como se ele fosse uma mulher, ambos cometeram uma coisa execranda; morram sem remissão: o seu sangue caia sobre eles.”8 

São Paulo recorda essas coisas acontecidas na raiz da idolatria:

“Pelo que Deus os abandonou aos desejos do seu coração, à imundície; de modo que desonraram os seus corpos em si mesmos, eles que trocaram a verdade de Deus pela mentira e que adoraram e serviram a criatura de preferência ao Criador, que é bendito por todos os séculos. Amém. Por isso Deus entregou-os a paixões de ignomínia. Efetivamente, as suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza, e, do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento. E, como não procuraram conhecer a Deus, Deus abandonou-os a um sentimento depravado, para que fizessem o que não convém, cheios de toda a iniqüidade, de malícia, de fornicação... Os quais, tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem tais coisas são dignos de morte eterna; e não somente quem as faz, mas também quem aprova aqueles que as fazem.”9

E insiste:

“Não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis, nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus.”10

Para todos eles, ratifica o livro do Apocalipse que “a sua parte será no tanque ardente de fogo e de enxofre; o que é a segunda morte”11 .

Recordemos agora, seguindo Santo Tomás, o que nos ensina a Teologia moral sobre os pecados contra a natureza:

“(…) Assim como a ordem da razão reta provém do homem, assim a ordem da natureza procede de Deus mesmo. Portanto, os pecados contra a natureza, que lhe violam a ordem, fazem injúria ao próprio Deus ordenador da natureza. Por isso, Agostinho diz: Os delitos contrários à natureza em toda parte e sempre devem ser detestados e punidos, como o foram os dos Sodomitas; e, se todas as gentes os praticassem, incorreriam ainda assim no mesmo crime, por força da lei divina, que não fez os homens para que entre si se entregassem a tais atos. O que também viola a familiaridade que devemos ter com Deus, pois, a mesma natureza, de que ele é o autor, fica poluída pela perversidade da lascívia.”12

E ainda: “Os vícios contra a natureza são (...) tanto mais graves que a corrupção do sacrilégio, quanto a ordem imposta à natureza é anterior e mais estável que qualquer outra ordem superveniente.”13

Vale a pena recordar seus argumentos:

“Em qualquer ordem de coisas, a corrupção do princípio é péssima, porque dele depende tudo o mais. Ora, os princípios da razão fundam–se na natureza, pois a razão, pressuposto o que foi determinado pela natureza, dispõe convenientemente a sua atividade. O que se dá tanto na ordem especulativa como na prática. E portanto, assim como na ordem especulativa é gravíssimo e o mais funesto o erro em matéria cujo conhecimento é naturalmente infuso no homem, assim, na ordem prática, agir contra o determinado pela natureza é gravíssimo e desonestíssimo. Ora, como pelos vícios contra a natureza o homem transgride o determinado por ela quanto à prática dos atos venéreos, daí vem que, nessa matéria, o referido pecado é o gravíssimo.”14

 Como se pode ver, o núcleo central deste erro monstruoso é sua recusa da ordem divina revelada e impressa também na própria natureza. Esforçam-se assim em rechaçar a própria natureza humana, substituindo-a pela pura subjetividade, um feroz individualismo, liberalismo, que na ordem filosófica se apresenta como uma conseqüência do mais bruto personalismo.

 

a) a heresia personalista

[Nota da Permanência: as linhas seguintes, em que Pe. Olmedo refuta a heresia personalista, parecerão áridas aos pouco familiarizados com o linguajar e termos filosóficos. É possível, no entanto, pular para a seção final do artigo sem prejuízo da compreensão]

Para todas essas teorias, a sociedade, a autoridade e suas leis, a ordem natural são modos de submeter e eliminar a liberdade, que aparece como o primeiro dos bens humanos.

Por isso têm o prurido especial de insistir na liberdade da pessoa, reduzindo ao mínimo as conexões de ordem natural e as obrigações ou sujeições que se seguem das diversas leis: eterna, natural, humana justa. Em toda lei, o personalista vê uma afronta à dignidade de sua pessoa humana.

Reduzindo a um mínimo as conexões com a norma moral, e desconfiando desse mínimo que resta, o personalista altera o sujeito da moralidade, que já não é mais o ato humano definido pelo seu objeto, mas a própria pessoa. O acento é colocado no individual, na individualidade do sujeito contra a universalidade da natureza.

Às tendências e exigências da natureza, a ética personalista responde que a pessoa transcende a natureza. É a resposta à mão para responder às vozes da própria natureza. O personalismo destaca a pessoa como uma segunda natureza; põe o destaque na pessoa sem se perguntar pelo constitutivo íntimo da própria personalidade; a pessoa é considerada como algo singular e fechado, concebida como algo superior a ela [natureza].

Em todos esses “ideólogos”, a recusa da Natureza e de sua ordem procede de um mesmo erro fundamental. Compartilham a falsa crença de que falar de “essência”, de “natureza”, de “ordem”, implica cair em uma postura rígida, imóvel, totalmente estática, o que é absurdo, pois não há conexão alguma entre ambas as afirmações. Daí o seu “construcionismo” e escolha do que se deseja ser, daquilo que o homem sente a respeito de si mesmo.

A filosofia cristã opõe a esses erros uma concepção muito diferente, que se conforma à nossa experiência. Para além de toda mudança, há realidades permanentes: a essência ou natureza de cada coisa ou ser: “de si – diz Santo Tomás –, a intenção da natureza visa sempre e principalmente ao que é perpétuo”15. A evidência da mudança não apenas não suprime essa natureza, mas também necessariamente a pressupõe. A experiência cotidiana nos mostra que as pereiras dão sempre peras e não maçãs nem nozes, e que o olmeiro nunca produz pera. A “estabilidade” de sua natureza faz com que as vacas tenham bezerros e não girafas, e que os bezerros tenham sempre uma cabeça, uma cauda e quatro patas. E quando, em alguma ocasião, aparece algum com cinco patas ou com duas cabeças, o bom senso espontaneamente compreende que é algo defeituoso, antinatural. Reações de senso comum que só fazem comprovar que existe não apenas natureza, mas ordem natural. A evidência dessa ordem universal é o que nos permite distinguir o normal do patológico, o são do enfermo, o louco do sensato, o motor que funciona bem do que funciona mal, o bom pai do mau pai, a lei justa da lei iníqua.

O simples contato com as coisas nos mostra que o natural existe na intimidade de cada ser, e que essa natureza é a explicação das operações e atos de cada ser: o porquê de a formiga ser o que é, e construir formigueiros e fazer tudo quanto faz; por que o joão-de-barro é como é, pode construir seu ninho tal como faz, por que o homem é como é naturalmente, pode pensar, sentir, amar e trabalhar “humanamente”…

A própria ciência confirma não apenas que cada ser tem uma essência ou natureza, mas também que essa natureza não é fruto de um cego acaso, mas de uma ordem, de um princípio de finalização ou de finalidade, e de uma hierarquia, uma harmonia que se manifesta em todos os seres e em todos os fenômenos, e que a submissão a essa ordem é o que o aperfeiçoa. Quando a gata tem gatinhos, tudo vai bem, mas se dela nascessem passarinhos, diríamos que existe uma desordem, que algo monstruoso e antinatural está acontecendo.

O homem não é simplesmente bom pelo mero fato de ser pessoa, mas pela conformidade de seu agir com o fim. A dignidade moral vem à pessoa humana da conformidade de sua operação com o fim último. Somente assim torna-se bom e digno moralmente.

No desprezo da natureza, vai implícito o desprezo de toda ordem heterônoma ao próprio homem. A pessoa fica solitária e isolada em sua racionalidade. Mais ainda, há uma verdadeira amputação metafísica, por assim dizer, na própria ordem da natureza específica do homem. Desprezada a natureza humana específica, estabelece-se uma dissociação mais radical de ordem metafísica, que dissolve todo saber e todos os afazeres em uma problemática do concreto e singular. E do concreto não se tira senão problemas e generalizações de dados empíricos. Por isso, dizemos uma problemática de fatos concretos: chegamos ao historicismo, ao materialismo e à anarquia.

Ao dizer que a pessoa transcende a natureza, parte-se de premissa falsa. A pessoa transcende a natureza animal; não transcende a natureza específica e própria do homem. Não há, portanto, um desdobramento que oponha realmente pessoa e natureza. A pessoa é tal pela racionalidade, a pessoa é a substância individual racional; a racionalidade é, por sua vez, a diferença específica, ou a forma constitutiva do homem enquanto tal. A espécie humana está em cada um dos indivíduos, constituindo-os em seres racionais. Cada homem é racional, não pelo que tem de singular, mas pelo que tem de específico. O específico se concretiza no indivíduo pela matéria assinalada pela quantidade. Aquilo que o especifica é sua racionalidade, e o racional é constitutivo da personalidade. A pessoa é inteligente, livre etc., não pelo que o homem tem de individual e concreto, mas pelo que possui de racional, de sua natureza específica.

Cada pessoa humana possui a mesma natureza de Adão, e são incalculáveis as conseqüências que se tiram dessa unidade de natureza comum a todos os homens; como são também incalculáveis as conseqüências, na ordem do saber e na ordem prática, de um desconhecimento da própria natureza.

Não existe mera unidade de natureza, mas uma unidade da natureza humana de categoria racional, ou seja, pessoal. Os homens nos comunicamos entre nós não por algo baixo e desprezível, mas pela própria natureza específica. Cada homem é pessoa porque é um indivíduo que possui aquela natureza formalmente humana, que é a racional. A racionalidade, que é o específico e constitutivo, constitui o supósito como racional, isto é, como pessoa16.

A racionalidade, enquanto imaterial e espiritual, é principio do conhecimento e liberdade do supósito. Enquanto princípio cognoscitivo, dá-lhe o conhecimento de si mesmo, o sentido de sua autonomia e independência. Mas a racionalidade, enquanto constitutivo da espécie, une os indivíduos da mesma espécie em nível altíssimo. Os homens somos livres, mas estamos ligados por uma natureza comum, que nos une na mesma espécie, exige de nós um esforço comunitário, e nos pede responsabilidades comuns em ordem ao nosso fim.

Em cada homem não existem apenas valores individuais; existe uma zona profunda e comum a todos, de valores específicos, que arrasta consigo o individual e concreto; exigências que arrastam o homem individual e o levam ao bem moral, que é o bem da espécie.

Se uma pessoa, rebelando-se contra a natureza, ordena ao concreto individual os valores humanos que devem se ordenar à espécie, e se não obedece aos fins próprios de sua natureza racional, que a ordenam ulteriormente a Deus, cai na culpabilidade moral e comete um pecado de soberba, que é o apetite desordenado da própria excelência.

O supósito individual quer [então] suportar sozinho a totalidade dos valores e perfeições da espécie. Nega a comunicação natural, e dependências naturais que o correspondem com outros sujeitos, dentro da mesma espécie. Nega a comunicação devida com outras pessoas no nível da racionalidade. As relações de um sujeito com outro, no personalismo, são opcionais, não exigidas pela natureza.

As liberdades modernas ― liberdade religiosa, liberdade de pensamento etc. ― são a soberba revolta da pessoa individual que não se resigna a interpretar as tendências e exigências íntimas de sua própria natureza, como o exige a espécie e sua perfeição. É um desejo de recriar a Humanidade sem Deus, sem uma natureza criada à imagem de Deus, sem uma finalidade posta por Deus, sem uma convivência criada também por Deus, e um propósito de refazer em cada homem o programa do demônio: sereis como deuses.

Quando o homem age, não o faz independente da natureza. Quem age é a pessoa: ser racional; porém age por sua própria natureza, que é precisamente isto: uma natureza racional e livre. O homem é simplesmente um indivíduo da natureza humana; ao agir, deve agir segundo as exigências de sua natureza racional. Assim fará o bem moral. De outro modo, destrói-se a si mesmo, e destrói aos seus irmãos.

A partir dessa falsa filosofia, o homem pretende realizar uma nova “criação” de si mesmo, da sociedade e do mundo, em que tudo muda, tudo flui, tendo como fonte originária seus próprios caprichos e paixões e não, por certo, a reta razão.

 

b) Modo de neutralizar esta ideologia

Não por meio da objeção de consciência, que se fundamenta precisamente na liberdade de pensamento e no subjetivismo personalista que acabamos de rechaçar…

 Na ordem intelectual, voltar à sã filosofia de sempre, isto é, a de Santo Tomás, e à teologia de sempre, também a de Santo Tomás, é igualmente primordial; recuperando para o pensamento os princípios perenes do bem pensar e do bem agir, levando em conta a ação humana em si, suas circunstâncias e seu fim.

Na conversação ou expressão, recuperar, conservar e divulgar os termos ou palavras da linguagem escrita e oral em seu significado de sempre, denunciando e rechaçando significados diferentes e contrários.

No âmbito da educação, recuperar o sentido da virilidade e da feminilidade em que devem ser formados os homens e as mulheres, sem confusão nem união de sexos.

Fomentar uma maior vida familiar, em que seus integrantes pratiquem toda classe de virtudes, ajudem-se nas necessidades comuns, desenvolvam-se nas respectivas personalidades, abracem os sãos princípios morais, espirituais e cívicos que os façam ser homens e mulheres de bem, bons cidadãos e melhores católicos, animando-se uns aos outros na busca do fim comum transcendente.

Na ordem social, formar grupos, comitês que defendam a sã educação e se oponham por todos os meios a seu alcance a essas políticas de gênero, fazendo apresentações, manifestações etc., pedindo a revogação das normas ditadas pelas autoridades contra a ordem natural…

No dia-a-dia, em todas as esferas em que o católico intervenha, deve dar testemunho de sua Fé; é convidado a atuar, na ordem econômica, política, cultural, não por princípios meramente humanos, mas inspirando a sua ação na Fé e na Caridade; não para o fim exclusivamente temporal da cidade pluralista, mas para aperfeiçoá-la quanto ao natural e ao sobrenatural. Toda a vida social deve inspirar-se em normas verdadeiras e princípios cristãos, amparada no verdadeiro reinado social de Cristo.

  1. 1. [N. do E.] Marat, Robespierre e Babeuf foram revolucionários com destacado papel na Revolução Francesa. Giuseppe Mazzini (1805-1872) foi um revolucionário italiano do século XIX; Lajos Kossuth (1802-1894) foi o líder da insurreição húngara de cunho liberal-nacionalista de 1884 - vide, neste número, artigo sobre a Hungria.
  2. 2. [N. do E.] Citação da obra da feminista radical Judith Butler, “Gender Trouble: Feminism and the subversion of identity”.
  3. 3. Em maio de 2012, a Argentina sancionou a lei 26.743, sobre o direito à identidade de gênero das pessoas, cujo primeiro artigo reconhece o direito à identidade de gênero a qualquer pessoa, direito a seu reconhecimento, ao livre desenvolvimento de sua pessoa conforme sua identidade de gênero, direito de ser tratada de acordo com sua identidade de gênero e, em particular, de ser identificada desse jeito nos documentos que acreditam sua identidade a respeito do(s) nome(s) de batismo, imagem e sexo com os que ali fica registrada. Em seguida, define o que entende como tal e seu exercício: “Definição. Entende-se por identidade de gênero a vivência interna e individual do gênero tal como cada pessoa o sente, o que pode corresponder ou não com o sexo designado no momento do nascimento, incluindo a vivência pessoal do corpo. Isso pode envolver a modificação da aparência ou da função corporal por meios farmacológicos, cirúrgicos ou de outra índole, sempre que seja livremente escolhido. Também inclui outras expressões de gênero, como a vestimenta, o modo de falar e gestual. Exercício. Toda pessoa poderá solicitar a retificação registral do sexo, e a mudança do nome de batismo e imagem, quando não coincidam com sua identidade de gênero autopercebida.”
  4. 4. Por exemplo, existem uns desenhozinhos animados que se usam na Espanha para apresentar esta ideologia a crianças menores de cinco anos, acompanhados de músicas preparadas ex professo: “Quando me levanto faço minha cama… ajudar em casa não é nenhum drama… todos os dias quando ordeno, colaboro nas tarefas sempre que posso… As meninas e os meninos somos iguais… queremos que respeitem nossos gostos pessoais… chegar a ser o que imaginemos… pois neste mundo juntos viveremos, juntos viveremos… juntos viveremos…Oba! Todos os brinquedos são alucinantes…carrinhos e bonecas são interessantes… você decide com o que quer brincar...” (www.youtube.com/watch?v=doy4u219Y5Q). Outro exemplo são os acampamentos organizados nos Estados Unidos por Lindsay Morris, para crianças com inconformidade de gênero entre as idades de 5 a 12 anos, chamados “Você é você”, “um refúgio seguro, onde as crianças recebem apoio para experimentar um lugar livre de preconceito”, porque “para muitos deles, suas percepções de gênero não estão alinhadas a seus corpos”. “Eles mais tarde podem se identificar como gay, transexual ou algo intermédio”, “esta é apenas uma maneira de ser que sempre existiu, mas só agora estamos desenvolvendo a capacidade de dizer que está certo não colocar a todos em uma impecável caixa pequena” e “ vai requerer de todos nós que rompamos com o hábito de designar as pessoas com um rótulo de gênero e começar a pensar o gênero como uma variedade mais ampla”.
  5. 5. A obstinação de Bella Abzug em incluir o termo “gênero” em Pequim chamou a atenção de muitos delegados. No entanto, o assombro e desconcerto foi maior quando um dos participantes difundiu alguns textos empregados pelas “feministas do gênero”, professoras de renomadas Faculdades e Universidades dos Estados Unidos. De acordo com estes textos, as “feministas do gênero” defendem e difundem as seguintes definições: “Hegemonia ou hegemônico: ideiasidéias ou conceitos aceitos universalmente como naturais, mas que na verdade são construções sociais. Desconstrução: A tarefa de denunciar as ideiasidéias e linguagem hegemônicos (isto é, aceitos universalmente como naturais), com o objetivo de persuadir as pessoas que suas percepções da realidade são construções sociais. Patriarcado, Patriarcal: Institucionalização do controle masculino sobre a mulher, os filhos e a sociedade, que perpetua a posição subordinada da mulher. Perversidade polimorfa, sexualmente polimorfo: Os homens e as mulheres não sentem atração por pessoas do sexo oposto por natureza, mas por condicionamento da sociedade. Assim, o desejo sexual pode dirigir-se a qualquer um. Heterossexualidade obrigatória: Força-se as pessoas a pensar que o mundo está dividido em dois sexos que se atraem mutuamente sexualmente. Preferência ou orientação sexual: existem diversas formas de sexualidade – incluindo homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis – que equivalem à heterossexualidade. Homofobia: Temor a relações com pessoas do mesmo sexo, pessoas preconceituosas contra os homossexuais” (o termo se baseia na noção de que o preconceito contra os homossexuais tem suas raízes na exaltação das tendências heterossexuais).
  6. 6. Há oito anos, um judeu maçom, membro do Clube Bilderberger e da Comissão Trilateral, afiliado à alta maçonaria hebraica B’nai B’rith (Filhos da Aliança), Jacques Attali, ex-assessor de Mitterrand, visitava a Argentina, e em uma entrevista dada a um jornal portenho, fazendo propaganda da Nova Ordem e do Governo Mundial, disse estas palavras: “penso que uma globalização governada é uma coisa boa… Estamos vivendo um período em que está desaparecendo o que muita gente via como a verdadeira natureza humana…”. E, ao fazer o panegírico da democracia como ferramenta da mudança em direção ao Governo mundial, acrescentou: “creio que uma das mudanças importantes que ocorrerão no terreno da moral é o questionamento da monogamia e da fidelidade como uma necessidade absoluta…, porque a grande tendência do mundo atual é a liberdade. E se refletirmos bem, a liberdade não é apenas ‘ou’, a liberdade é também ‘e’…, em uma época em que a expectativa de vida está aumentando, não creio que se encontrem fidelidades excessivas durante muito tempo… É melhor. O fato de que as pessoas tendem a viver em redes múltiplas… essa multiplicidade vai se estender também à vida sentimental… A realidade de vidas e parceiros múltiplos vai ser cada vez mais visível, e a hipocrisia da sociedade ficará a nu. A continuada ascensão da liberdade individual transformará os costumes sexuais…, os avanços tecnológicos debilitarão ainda mais os vínculos entre sexualidade, amor e reprodução, que são conceitos muito diferentes. A generalização dos métodos anticoncepcionais eliminou já um obstáculo importante para a possibilidade de ter vários parceiros… Hoje a maioria das sociedades já aceita as relações amorosas sucessivas; em breve reconheceremos o amor simultâneo como algo legal e aceitável. Homens e mulheres poderão formar parcerias com diferentes pessoas que, por sua vez, terão outros parceiros também. Por fim, reconheceremos que é humano amar a várias pessoas ao mesmo tempo.”
  7. 7. Gn 19, 24-25.
  8. 8. Lv 18, 24-29; 20, 13.
  9. 9. Rom 1, 24-32.
  10. 10. 1Cor 6, 9-10.
  11. 11. Ap 21, 8.
  12. 12. S. T., IIa IIae, q. 154, a. 12 ad 1.
  13. 13. S. T. IIa IIae, q. 154, a. 12 ad 2: Ad secundum dicendum quod etiam vitia contra naturam sunt contra Deum, ut dictum est. Et tanto sunt graviora quam sacrilegii corruptela, quanto ordo naturae humanae inditus est prior et stabilior quam quilibet alius ordo superadditus.
  14. 14. S. T. IIa IIae, q. 154, a. 12 co 
  15. 15. S. T. Ia, q. 98, a. 1.
  16. 16. [N. do E.] As definições de supósito e de pessoa foram dadas por Boécio. Sua definição de supósito é a de substância individual de natureza completa; sua definição de pessoa é de substância individual de natureza racional.

Editorial no Centenário do nascimento de Santa Teresinha

Julgamos oportuno dedicar um número inteiro de PERMANÊNCIA à memória de Thérèse Martin (2 de janeiro de 1873) que entrou no Carmelo de Lisieux com quinze anos de idade, e pronunciou os santos votos em 8 de setembro de 1890. No mesmo mês recebeu o hábito com o nome de Soeur Thérèse de l’Enfant-Jesus et de la Saint Face. Viveu somente sete anos a vida obscura e silenciosa de uma pequenina religiosa ignorada do mundo, rejeitada pelo mundo, mortificada, morta antes de morrer porque nunca escolheu nada entre os nadas do mundo, tendo escolhido TUDO da Santa Vontade de DEUS. Deixou por obediência um caderno de apontamentos onde registrou os pequeninos passos, ínfimos, quase imperceptíveis, de uma vida exterior insignificante. Esse caderno, depois de sua morte, foi publicado pelas freiras de Lisieux com o título “História de uma Alma”. E aqui começa uma outra história, a desse livro, que pode sem nenhum exagero ser considerada um dos espantosos milagres do século que terminava engalanado, estrepitoso, iluminado para festejar as grandezas de uma civilização desviada de Deus. Misteriosamente, incompreensivelmente, milagrosamente o insignificante livro de uma história insignificante, que facilmente poderia ser afastada como convencional ou como presunçosa, começa a difundir-se, aos milhares, aos milhões, e chega em pouco tempo até os confins do Extremo Oriente. Mas o milagre ainda maior foi o de ter sido compreendido, diríamos quase adivinhado, por carvoeiros, cozinheiros, por padres, por Papas e até por intelectuais. Muitos desses leitores descobriram o segredo profundo de Teresinha, o segredo da santidade, a grandeza da pequenês, a glória da humildade, e todos os demais paradoxos da Cruz, sinal de contradição, de tropeço e de escândalo. O sucesso explosivo, humanamente inexplicável da pequenina carmelita de Lisieux foi uma resposta de Deus ao estardalhaço dos homens.

Nas matinas de Natal a Igreja rezava (ainda reza?) o Salmo II com que a Esposa de Cristo muito visivelmente respondia às insolências do mundo: “Quare fremuerunt gentes: et populi medittati sunt insânia?” E adiante: “Aqueles que habita nos céus se rirá deles”, se rirá dos poderosos que se coligaram contra o Senhor.

O nascimento de Jesus na terra foi, como nos ensina assim a liturgia sagrada, um grande riso de Deus; o nascimento de Teresinha no céu foi um eco daquele, e outra vez às almas de fé foi oferecido, como consolo dos escárnios dos homens que meditam coisas vãs, um largo clarão do riso do céu. Vejam! Mas passados treze anos de sua morte obscura e pequenina, a insignificante carmelita Teresinha, sempre inha, sempre pequenina, tem o diminuído nome espalhado no mundo inteiro, e um Papa imenso lê com pasmo a história de uma freira escondida em Lisieux, e manda logo iniciar-se o processo de sua beatificação. Consta que exclamou: “é a maior santa dos tempos modernos!”; mas só teve vida para assinar, dois meses antes de sua própria morte, o decreto de beatificação. A alegria da canonização Pio X só a teve no céu; mas não esperou muito porque seu antecessor Benedicto XV mandou suspender a isenção canônica que manda esperar cinqüenta anos post mortem para o inicio do processo de canonização. Também este Papa não viu Teresinha nos altares, mas seu sucessor parecia impaciente, e em 23 de abril de 1925 foi solenemente declarada Santa, e oferecida à veneração de milhões de impacientes fiéis, Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. E Pio XI logo declarou que seria ela a “estrela de seu pontificado”. E desde 1927 a pequenina e imóvel religiosa de Lisieux, que depois da entrada no convento só saiu para entrar no céu, a menos viajada religiosa do mundo, a menos espalhada, a menos empreendedora foi escolhida como padroeira de todas as Missões.

Os paradoxos da santidade se multiplicam em torno da bendita humildade dessa menina imensa. Em 1944, no ano trágico em que a França se deixou vencer por si mesma, mais humilhantemente do que em 1940, Santa Teresinha é colocada ao lado de Joana d’Arc como padroeira da França que tão bem serviu quando, logo depois de sua canonização fez tudo no céu para convencer Pio XI na terra que fora vítima de uma conjuração dos inimigos da Igreja no ato que o levou a separar dolorosamente os melhores católicos franceses. Hoje é conhecidíssima a atuação de Lisieux na reconciliação do Papa Pio XI com Charles Maurras, e as bênçãos com que o cumulou, anos antes da reconciliação oficial da Igreja com a Action Française em 1939, num dos primeiros atos de Pio XII.

E a nossa convicção é que o trabalho de Teresinha no céu é o de amparar a Igreja da Terra neste século de demências. E a menina que nunca, nos mínimos atos se esqueceu da vontade do Senhor Jesus, poderá agora interceder poderosamente pela Igreja, pelo Papa, pelo clero, pelo povo de Deus, com a amorosa certeza de que agora é a vez de Jesus fazer a vontade de Teresinha. Nesta intenção, e contra todas as malignidades que desfiguram a Igreja tão bela e tão amada pelas almas sensíveis à santidade, que vem de Deus, “tu solus sanctus” mas tão maravilhosamente se manifesta nos pequeninos, peçamos a intercessão de Santa Teresinha. Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, ora por nós.

Uma resposta a Emmanuel Mounier

Georges Bernanos

 

A revista Espirit, cuja ambição é, visivelmente, a de resolver todos os problemas segundo o método inaugurado outrora nos laboratórios do sr. Edison, quero dizer, utilizando centenas de jovens pensadores de óculos, trabalhando em equipes, acaba de publicar as respostas à sua enquete sobre “a ruptura” entre o mundo cristão atual e o mundo moderno.

“Acha o senhor, perguntava o Sr. Mounier, que esse divórcio seja definitivo e que deva acabar no desaparecimento da era cristã, ou somente acidental, e correspondendo apenas à crise de uma Cristandade histórica particular de onde o Cristianismo deve sair com uma nova face?” 1

Mas, caro Mounier, só existe uma face no Cristianismo, não está de acordo comigo sobre esse ponto? Só há uma face do Cristianismo que é a do Cristo, e encontramos esta face, você e eu, cada vez que lemos o Evangelho.

Sem dúvida compreendo seu pensamento, vejo agora onde quer chegar. Sabe muito bem que depois de ter executado seu número de circo, cada um de seus alunos viria declarar em público, sob uma forma ou outra, que a lei do mundo moderno é a eficácia, que a Igreja não é eficaz, enquanto seus amigos comunistas aplaudiriam gravemente, do alto de suas incompetências, com um sorriso de entendidos... Mas qual é a lei da eficácia para a Igreja? Meu caro Mounier, eis o ponto sobre o qual devemos primeiramente nos entender.

No julgamento de seus amigos comunistas está claro que essa eficácia deve ser medida pelos resultados estatísticos como os de uma sociedade beneficente. Mas o próprio de uma certa eficácia sobrenatural não será precisamente a de decepcionar aqueles que a julgam segundo a regra comum? Aquilo que pedem à Igreja, estes horrorosos intelectuaizinhos atormentados pela sarna da dialética marxista, e que entre duas cambalhotas se coçam ferozmente nos bastidores, é precisamente o mesmo que os doutores e os escribas pretendiam exigir do Cristo. No final das contas os judeus — também eles — esperavam um messias “eficaz” e não viram mais do que um homem pobre, tal como o descreve Daniel Rops em um livro que leio e releio com o coração flagelado de angústia2. Um pobre homem, que nem era capaz de carregar sozinho sua cruz debaixo da gritaria do populacho. A Igreja não nos desconcerta menos, é certo, mas Deus quis alguma vez que Ela nos seduzisse? Há um escândalo da Igreja, mas Deus quer acabar com esse escândalo, ou dará somente até o fim, a cada homem de boa-vontade, o que é preciso para passar além? Você acredita que hoje o rosto da Igreja repele mais do que atrai, mas e se repelisse precisamente porque nós nos desviamos dele, porque não ousamos olha-lo de frente, porque nossa fé e nosso amor não se refletem mais nele? As massas se afastam da Igreja, vejo bem. Mas terá a Igreja necessidade das massas ou as massas necessidade da Igreja? Imbecis! Deixaram formar uma civilização inimiga do homem e contam com o Filho do Homem para os ajudar a prosseguirem com essa experiência até o fim? Quando não pensavam mais em pecado original ei-lo que se impõe sob a forma de bomba atômica ou desses cristais do Dr. Went, dos quais 20 gr. são suficientes para provocar a morte de todos os seres humanos vivos nos Estados Unidos e no Canadá... Idiotas que são! Quiseram um mundo eficaz, eis que o têm. Arrebentem-se contentes!

Quando falo assim, o sr. Mauriac pára um instante de lamber seu urso democrata-cristão para me tratar de pessimista. Ele ou eu, Deus sabe quem é o pessimista! Porque não é meu desespero que recusa o mundo, eu o recuso com toda a minha Esperança. Sim, espero com todas as minhas forças que o mundo moderno não dará razão ao homem. O mundo moderno quer dizer, o Estado moderno, o Robô gigante, planetário ao qual a ciência oferece todos os dias armas à sua medida. Está claro que diante desta Providência mecânica da qual esperam a justiça social — e porque não o amor também, imbecis! — o Mendigo Divino suspenso a seus cravos faz uma triste figura... E agora estamos todos em volta da Igreja, como outrora os judeus em volta do Supliciado: “Vamos. Se é Deus, prove-o, salva-te! Salva-nos”. Mas a Igreja, assim como o Cristo, não se dignará responder ao desafio do mau ladrão.

 

Revista Permanência n° 172-173, Março-Abril de 1983. (Tradução de Anna Luiza Fleichman, de “Français, si vouz saviez”)

 

** O título é de nossa autoria [N. da P.]

  1. 1. “Mundo Cristão, mundo Moderno” (Espirit, ag-se 1946). As perguntas feitas por Mounier eram textualmente: “Que pensa do fosso que se estabeleceu entre o mundo cristão e o mundo moderno? Como se formou? O que se torna? Como encara as soluções que foram tentadas para enche-lo? Que se deve tentar?” As principais respostas recebidas e publicadas foram as dos srs. Denis de Rougemont, François Mauriac, Etienne Gilson, Brice Parrin, Henry Multzer O’Naghten, Nicolas Berdialff, D. Bruno de Solage, Rv. Ped. Buckberger, Pierre Teillard de Chardin, Henry de Lubac, Montuclard, Henry Leclerc, G. Michonneau, Pierre, Depierre, dos pastores Roland de Pury e Brissaud.
  2. 2. Jesus em seu tempo. Ed. Fayard, 1945.
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