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Gustavo Corção (188)

Deus marcou encontro conosco

     

O texto de Gustavo Corção que publicamos aqui é parte de um ciclo de conferências realizadas em Belo Horizonte na década de 1950. Apesar de não estar completo, não deixa de ser um exemplar importante das atividades do grande escritor católico, numa época em que Corção era requisitado para constantes palestras, entrevistas e artigos. Depois o mundo girou, os polos foram deslocados, os homens tornaram-se cúmplices da Revolução num mundo evolutivo e estagnado no nada. Já não lhes interessava a firmeza da verdade e da fé que Gustavo Corção guardou e ensinou até a morte.

Editora Permanência

 

 

Sobre Lições de Abismo

[Com satisfação publicamos um escrito inédito de Gustavo Corção sobre o seu romance Lições de Abismo. O texto era na verdade uma carta enviada à escritora Raquel de Queiroz e a reproduzimos pela primeira vez na Revista Permanência 265]. 

 

D. Raquel de Queiroz,

Li com enorme interesse a sua nota sobre o meu livro. Vou mais longe, confesso que li com sofreguidão. A senhora que já teve seus livros me entenderá.  Digam os outros que é vaidade nossa, mas não é; ao contrário, é talvez o melhor de nós, o mais puro de nós, essa avidez pela confirmação daquilo que escrevemos. Será no fundo vaidade, se quiserem, mas uma pobre vaidade, ou uma vaidade de pobre.

Aquele livro, quando o soltei, deu-me mais insônias do que nos dias de trabalho. Escrevera-o com paixão, dias e dias, noites e noites. Andava com ele em mim, comigo nele. Juntara, como num cadinho, a escória de todo um passado fantástico, meio vivido e meio sonhado. Fundira o grosso minério. Cinzelara as pepitas, os lingotes, as barras. E agora, apesar de todas as reprises, da revisão esticada, da refusão dos caprichos ingratos, dos cortes, e finalmente da ortografia — porque a minha nunca se depurou dum hibridismo em que as letras da adolescência se misturam aos acentos circunflexos da velhice — apesar de todo esse nervoso apego eu tinha de largá-lo, como se larga o filho completo e maior. (Continue a ler)

Anarquismo e progressismo

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste...”, e a significação derivada é a de autoridade moral.

E enquanto permanecemos na consideração de termos e de imagens aproveitamos para assinalar o curioso aspecto do ideal democrático baseado no igualitarismo. Não podendo evitar um mínimo de organização social ou de hierarquia, tal regime, para não ser autocrático, tem de ser dirigido por decapitados ou por acéfalos. A segunda solução, ao longo da história, pareceu mais prática e já houve um espirituoso, não me lembra quem, que chegou à fórmula do regime anarco-democrático: um povo de decapitados dirigido por uma dúzia de acéfalos. (continue a ler)

A Igreja do Céu

Gustavo Corção

 

“Em mim reside toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Sou como a roseira plantada à beira das águas”. Ofertório — Nossa Senhora do Rosário

Vale a pena, nestes meses de outubro e novembro, meditar muitas vêzes na Comunhão dos Santos, e especialmente na intercessão daqueles que povoam a Igreja do Céu; e vale a pena consagrar uma especial atenção ao culto de veneração que devemos à Virgem Santíssima, de cujas mãos recebemos as graças de seu Filho para nossa salvação.

Bem sabemos que os tempos são ingratos para esta forma de piedade, tão católica e tão comprovadamente boa. Quase devemos ter força de mártir se quisermos dizer alguma coisa sobre o nono artigo do Símbolo: “creio na Comunhão dos Santos”, e sobretudo se quisermos meditar aos pés de Nossa Senhora. Ai de nós!, o tempo em que vivemos gaba-se de ser comunitário em todos os sentidos, exceto neste que se refere à Comunhão dos Santos; e gaba-se de ser pacífico e fraterno em todos os sentidos, exceto neste que se refere à nossa Mãe. (Continue a ler)

A independência do Brasil

Gustavo Corção

A independência das nações não pode ser definida nem medida em termos de autossuficiência econômica. Sendo uma categoria antes de tudo política, e portanto moral, a independência de uma nação consiste na sua autonomia política como nação, na consciência nacional dessa autonomia, e, para ser efetiva, no reconhecimento pacífico dessa autonomia pelas outras nações, e principalmente por aquelas a que anteriormente estava vinculada essa nação.

No vocabulário da moderna civilização, marcada pelo funesto princípio da vital inimizade entre os homens, de Hobbes a Marx, essa autonomia das nações é enfaticamente chamada de soberania. Este termo vem carregado de uma espécie de macroegoísmo, que é a característica principal da civilização nascida do humanismo renascentista e protestante, que já anunciava, há quatro séculos, a revolta idolátrica da anti-Igreja que hoje adora um bizarro bonzo chamado Homem Moderno.

Por paradoxo, essa mesma filosofia política que exalta as “soberanias” nacionais, a partir de uma “descoberta do Homem”, obscurece a lei natural que pede o concurso e a convergência de todas as nações no bem comum mundial.

E a partir dessas considerações cabe a pergunta: será sempre um bem, para a própria nação e para o mundo, a sua independência? A essa pergunta responderemos tranquilamente contra toda a onda desencadeada pelas esquerdas e concentradas no vácuo chamado ONU. A independência, como processo de consciência e afirmação de maioridade, pede toda uma constelação de condições, e só se reduz a um lema de brutal simplificação nos momentos históricos marcados pela estupidificação.

Parece-me claro que, para a mais bela manifestação da grande aventura humana neste mundo, Deus quer a diferenciação de nações, como quer a variedade de rosas e de pássaros. Nessa variedade, cada grupo nacional terá uma missão, uma vocação, um papel especial, um especial timbre da mesma grande voz. Mas eu creio que há nações que indubitavelmente se constituem para esse testemunho do homem, e para esse louvor de Deus, enquanto outras há que nasceram ao acaso, e ao acaso dos ventos se desfizeram. O frenesi anticolonialista é indubitavelmente uma das muitas asneiras de nosso bravo século; mas o reconhecimento do valor e do papel transcendente das nações autônomas é lema da mais sábia filosofia.

No caso do Brasil parece-me transluminosamente clara a glória de sua independência, e a mim me parece mais clara essa evidência por duas razões principais, uma que está na origem histórica, cujos 150 anos agora festejamos, e outra que está no desenrolar da nossa história, e principalmente na atualíssima proclamação que vale por uma confirmação profunda de nossa verdadeira independência.

A primeira razão reside na feição singularmente pacífica e continuadora, que deu à nossa maioridade um caráter único no continente. Devo declarar, para desfazer qualquer equívoco, que não pertenço à família espiritual dos que se molestam por esse caráter de continuidade luso-brasileira de nossa independência, e muito menos dos que se entusiasmam com as influência do iluminismo e do revolucionarismo produzidos pelo século XVIII, que, para meus parentes espirituais, foi o menor dos séculos, a despeito dos seus “filósofos”, enciclopedistas e revolucionários; ou foi o mais chato dos séculos precisamente por causa desses “filósofos” e de todos os pedantíssimos iluminados. Não me aquece o sangue a ideia de ter sido Pedro I pressionado pelos que daqueles iluminismos se inspiravam; antes o aquece a ideia de descendermos de Nuno Álvares Pereira.

É digno de nota o fato de terem sido nobremente ponderadas e pacíficas as independências dos dois grandes países americanos. Se é verdade que os norte-americanos tinham queixas sérias da metrópole, não é menos verdade que souberam exprimir sua Declaração de Independência nos mais sóbrios e serenos termos: “Quando, no curso dos acontecimentos humanos, sente-se um povo compelido a dissolver os laços políticos  que o ligavam a outro povo, e a assumir, entre as várias nações do mundo, uma independente e igualada situação, à qual tem direito pelas leis da natureza e pela lei de Deus, um decente respeito pela opinião de toda a humanidade exige que esse povo declare as causas que o compelem à independência.”

A independência do Brasil, por suas razões profundas e a despeito de todas as intrigas com que se tecem as histórias superficiais dos povos, foi a transmissão de um legado, e só merece ser hoje comemorada festivamente se esse legado foi dignamente cumprido. Ora, é aqui que cabe inserir a segunda razão que concorre para nos rejubilarmos especialmente nesta Semana da Pátria de 1972

***

Hoje o Brasil, graças ao movimento de 64, emancipou-se do mais cruel e estúpido imperialismo: o da ideologia revolucionária que, no mundo inteiro, inebria os “intelectuais” e envenena as fontes de informação. Sim, o que está poluído – como gritou o doutor Thomas Stockmann, no “Inimigo do Povo” de Ibsen – não é o ar que respiramos, nem são as fontes d´água que bebemos, é antes a trama de informações e o sistema de comunicações da civilização em agonia. E dentro deste envoltório o Brasil deu ao mundo inteiro uma lição de real independência. Resistindo à mais volumosa e eficiente cadeia de calúnias e pressões, o Brasil de hoje repeliu os adversários de sua vocação e proclamou, ou melhor, confirmou gloriosamente seus cento e cinquenta anos de independência. O Brasil será um baluarte dos valores cristãos, ou não será o Brasil. Rezemos a Deus pedindo que nossos governantes, a tempo e contratempo, e a despeito das dificuldades criadas por alguns bispos e arcebispos, persevere na defesa dos valores humanos e divinos, e corajosamente mantenha e amplie sua independência.

(O Globo, 7/9/72)

"Acaso eram eles mais pecadores do que vós?"

-- E logo nas vésperas de Natal! Murmurou a meu lado alguém. O jornal escancarava a notícia: TERREMOTO EM MANÁGUA. E os mortos e feridos já empilhados em cifras, amortalhados para as estatísticas. Na família reunida para a noite feliz houve um silêncio e passou um frêmito, como na história da Morte da Máscara Vermelha, de Edgard Poe. Cada um de nós sentia a presença da Intrusa, que não fora convidada, e que não era da família porque família se define por casamentos e nascimentos, e não por falecimentos. A Intrusa, que rejeitamos com o instinto e com a Fé, estava ali a nos espionar. Ou a trazer algum recado?

Em menos de um mês tivemos cortada, esmagada contra um poste, uma vida maravilhosamente bela e generosa que saíra de casa para fazer compras, isto é, para amamentar a família enorme. No dia seguinte, na mesma rua, quase na mesma hora, outra vida em flor era pisada pelo mesmo e mais mortífero dos inventos de que se gabam os homens, e com que sonham os moços. Há estatísticas que provam e dão ao fato brutal a auréola dos algarismos: acima das guerras, das calamidades, e de qualquer doença, o mais mortífero engenho é esse lustroso brinquedo de quatro rodas com que os homens de nosso tempo graduam as importâncias sociais.

Nesta mesma quinzena ou vintena desaba o supermercado que ainda fizera o favor de avisar a catástrofe com uma miniatura de terremoto. Em vão. Os homens deste século de ida à Lua estão seguros de si a multiplicar as torres de Babel. Nesse entretempo, aqui e ali, pingam da estratosfera aviões maravilhosamente modernos, com suas máquinas perfeitas, seus passageiros muito cônscios do século XX e suas aeromoças sequestradas pela necessidade para o serviço do otimismo universal.

A intrusa está ali a querer também seu presente de Natal, e nós a sentimos dentro de nós, mal escondida. De vez em quando, como feto de cinco meses, ela se mexe dentro de nós, e nossa atenção, fugazmente desviada do circo e da máquina do mundo, enverga-se sobre si mesma e ausculta-se. Passou? Passou. Ela se encolhe e a atenção abre as janelas para o variado e divertido espetáculo do fim do ano. Os orgulhosos vivos, sem se sentirem grávidos da própria mortal fragilidade, passam a pé, ou nos automóveis, todos com a mesma fundamental convicção: o chão é o chão, sólido, constante, antigo, eterno. A terra é a terra, regaço de rochas com que se pode contar, e em que nem precisamos pensar. Ela está ali “Elle est lá”, dizia Claudel pensando naquela que estava “stabat” ao pé da cruz. Mas nós somos filhos de duas mães, uma que nos quer inteiros, e outra que nos quer dilacerados...

Passou? Passou. E a atenção abre as janelas. Mas desta vez é da própria janela, como um mau hálito, que entra o bafo da morte de um supermercado inteiro. Ele estava pousado sobre o chão, firmado na terra, e de repente a terra mesma o rejeita, o enjeita. E agora, Santo Deus! é uma cidade que se agita numa dança macabra em cima de um chão enlouquecido. Trinta mil mortos. Duzentos mil feridos. E logo os elementos que o homem julgara domesticados entram na conjuração: a água inunda, o fogo cresta, o ar sufoca, e a terra mastiga os seus filhos. Como retornar agora o ritmo do “otimismo” que hoje no mundo católico é uma virtude teologal? É só fechar a janela, dobrar o jornal, e recomeçar a festa do príncipe Próspero. Vem-me à lembrança o que escrevi em Dois Amores, Duas Cidades (vol. II, pág. 297): “Foi nos princípios do século XVIII que surgiu a filosofia e o vocábulo “otimismo”. Todo o ocidente, inebriado de iluminismo, e da convicção de viver no Grand Siècle, num curioso e sinistro paradoxo, diminuía o homem e aumentava a confiança no homem, acinzentava os horizontes e sorria para nesgas de um azul imaginário. Foi o terremoto de Lisboa em 1755 que soou na Europa como um despertador. Voltaire esfrega os olhos e começa a desconfiar que sonhou.

Em Candide, Cacambo pergunta o que é otimismo. – Helás! Diz Candide, c´est la rage de soutenir que tout est bien quand tout est mal.1

Aquele terremoto foi efetivamente mais do que uma catástrofe física, foi um escândalo cultural que vinha mostrar “em pleno século XVIII” que o homem é apenas homem, e apenas um pouco mais forte do que as moscas. Aliás, em caso de terremoto, torna-se até mais fraco, porque as moscas dependem menos da firmeza do chão.

Mais perto de nós, em 1936, outra crise de otimismo correu o mundo e a França, em noitadas de prazer com o Front Populaire, descarregava no humor trágico toda sua insouciance e cantava, à beira dos abismos: “Tout va três bien Madame la Marquise”.

Agora, nesta cômica “era pós-conciliar”, ou “era espacial”, ou “era da imagem” ou “era do já era”, novo ataque de estupidez entra na história com as cores rosadas do otimismo. Vemos com pavor acumularem-se as provas de soberba do homem que pomposamente e pedantemente recusa o senhorio de Deus.

Será tudo isto um castigo de Deus? – perguntou-me uma filha.

Não pertenço ao grupo espiritual dos que imediatamente, horrorizados, repeliriam a idéia de um castigo divino; mas no caso prefiro pensar no terrível mistério da permissão divina, e decididamente prefiro ouvir a lição que Jesus nos deixou para tais casos. Quando chegaram diversos com a horrorosa notícia das violências praticadas por soldados romanos contra os galileus, cujo sangue Pilatos assim misturava ao do sacrifício que faziam (Lc 13, 1). Jesus – para desespero dos atuais teólogos da Revolução – sem dar nenhuma resposta ao aspecto do odioso abuso imperialista, sem parecer sequer ter ouvido este aspecto do acontecimento, dá aos recém-vindos uma resposta desconcertante que vai diretamente ao centro da questão, isto é, daquilo em razão de que se encarnou por obra do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem e padecerá sob Pôncio Pilatos, por nós homens, e para nossa salvação.

Nesta vigília de Natal pareceu-me ouvir o Menino Jesus repetir: -- Acaso eram as vítimas de Manágua mais pecadores do que vós? Digo-vos eu que não. Acaso eram mais pecadores do que vós os dezoito esmagados na queda da torre de Siloé? (...) Digo-vos que não e que, se não fizerdes penitência, todos perecereis...” E em outros textos: “Vigiai e orai porque não sabeis a hora.”

(O Globo, 28/12/1972)

  1. 1. Ai de mim! É a raiva de sustentar que tudo vai bem quando tudo vai mal. (N. da P.)

Para que existem as nações

Gustavo Corção

Andei estes dias pensando no problema do um e do múltiplo que divide as filosofias e as mentalidades. Nas filosofias de inspiração nominalista, infensas às idéias universais, predomina a tendência de valorizar a diversidade; nas filosofias de inspiração aristotélico-tomista, ao contrário, ensina-se que a perfeição de uma coisa deve ser procurada na sua maior unidade, desde que saibamos distinguir entre unidade vista do lado da forma e uniformidade tomada do lado da matéria.

É errado, e meio tolo, atribuir à diversidade, ao pluralismo, um título de nobreza, e dizer, como diz o professor Anísio Teixeira, que uma sociedade se torna mais evoluída na medida em que se torna mais complexa e mais diferenciada. Chega a dizer que haveria vantagem, para o Brasil, se em lugar da predominância católica nós tivéssemos uma solução maior, um estoque mais variado de credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de consistência de tal opinião. Afirmando o que afirma, o conhecido autor de livros sobre pedagogia professa, simplesmente, um total ceticismo religioso, e deseja a diversidade dos credos como se nenhum deles pretendesse conter verdades, e de fato as contivesse. Duvidamos que o professor Anísio Teixeira desejasse para o Brasil, para o desenvolvimento, para a emancipação econômica e cultural do Brasil, um pluralismo científico, uma diversidade de opiniões a respeito do funcionamento do fígado, das causas do câncer, e das propriedades do triângulo retângulo. É claro, amigo leitor, que também nós desejamos o pluralismo no campo do direito de pesquisar, mas é claríssimo que só diremos que há progresso científico na proporção em que se unificam os conhecimentos e as opiniões.

Há entretanto certas diversidades que têm uma significação de riqueza e de perfeição, além daquela que tem o título precário de direito de pesquisa. A variedade de indivíduos concretos dentro de uma espécie, a variedade das rosas, por exemplo, é uma riqueza, é, digamos assim, um belo esforço que as existências concretas realizam para exprimir o conteúdo total de uma essência. Para conhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o pensamento de Deus que ganha corpo na rainha das flores, é preciso ter visto muitas pétalas, muitos matizes, muitas raças diferentes do mesmo sonho divino. A diversidade aí é um discurso, é um poema que se estende para com muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da questão como se vê, há sempre o primado da unidade, mas no caso que tomamos como exemplo a diversidade não tem o sentido melancólico, amargo, que tem o da diversidade de opiniões toleradas enquanto não se acha a verdade única de uma coisa. E o que disse da rosa vale também para o homem. A perfeição da humanidade-essência se realiza na humanidade-existência. A riqueza da idéia “homem”, que Deus concebeu e criou, não cabe num só individuo, não se esgota no mais belo, no mais talentoso dos homens. Foi preciso deixar a história correr. Foi preciso deixar nascer um Mozart, um Gauss, uma Catarina de Sena, um Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros exemplares mais obscuros, foi preciso deixar nascer o rapaz que dias atrás me contava que não aceitara um trabalho com o triplo de sua remuneração atual, porque precisava fazer certas coisas que sua consciência desaconselhava, foi preciso multiplicarem-se os talentos, as inclinações, as vocações, as nomeações de Deus, para que a vasta multidão, numa espécie de longo e ardoroso discurso, explicasse aos astros, aos anjos, a toda a criação, o que é este ser espantoso, absurdo, incongruente, maravilhoso, que um deles definiu como “animal racional”. A definição essencial é breve, mas a explanação, para corresponder à profundidade de tão singela definição, teve de ser extensa como a história da humanidade.

Essa diversidade, que é uma explicação, uma demonstração prática e existencial de uma natureza definida por uma fórmula universal – essa diversidade que pertence à didática de Deus, é boa, é excelente, e nem sequer representa uma tolerância, uma expectativa, um alargamento à espera de uma unidade maior. Não. A diversidade da multiplicação de indivíduos da mesma espécie, ao mesmo tempo que dilata os limites da definição, fortifica os vínculos da unidade interna da coisa. Ao contrário do que pensa o nominalista, nós sentimos ainda mais forte a unidade de natureza humana quando passeamos pelo imenso jardim onde nasceram e desabrocharam as flores da humanidade. Cada vez mais entendemos, sentimos, penetramos a idéia de um ser que pelo gênero pertence à animalidade e pela espécie pertence à racionalidade.

E o que dizemos para os homens diremos também para as nações. A variedade delas é uma riqueza, desde que seja vista naquela perspectiva que enriquece e fortifica a unidade. Para que existem as nações? Para si mesmas? Para serem poderosas potências armadas e engenhos mortíferos e enfeitadas com bandeiras e hinos? Para serem temas de discursos? Para trazerem cores diversas à cartografia, e tornarem as etapas mais agradáveis? Para que existirá o Brasil? Para o sr. Negrão de Lima ser embaixador dele em outra nação que por sua vez manda embaixadores para o Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como pátria, para as crianças de colégio fazerem composições patrióticas, e para os construtores de Brasília se encherem de lucro à custa da mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá para o hino, para a bandeira?

Parece-nos claro que, se fosse para tais serventias, melhor seria que houvesse um só país, falando uma só língua. A transcendental utilidade, a finalidade das nações tem de ser procurada mais alto e na mesma direção em que se explica a diversidade dos homens. Além da variedade de pessoa para pessoa, a idéia de homem, pensada e criada por Deus, precisa da variedade de grupos. Existem nações com timbres culturais diferentes, como existem instrumentos diversos da mesma sinfonia. E cada nação trás ao mundo a contribuição preciosa de um timbre, de um matiz, de um odor que compõe a grande apoteose do plano de Deus, no centro da qual está a Cruz do Salvador como grande síntese do pensamento de Deus sobre o Homem, ou melhor, do pensamento de Deus tornado Homem.

Em palavras mais frias diremos que as nações têm vocações diversas na partitura, e idênticas no objetivo final que é a glória de Deus e a exposição universal das obras e feitos do homem, que se completará no dia do juízo final. Por aí se vê que as nações, não só para as trocas imediatas de utilidades, existem, umas para outras numa grande e essencial solidariedade. E é nessa perspectiva que deveriam ser armados todos os problemas nacionais, e não na mesquinha e tola perspectiva do egoísmo coletivo que faz da nação um fim em si mesma.

E qual será, nessa ordem de idéias, a razão de ser do Brasil? Qual será a vocação coletiva, a vocação nacional deste povo que anda perplexo, tonto, sem saber o que fazer de seu imenso território, e sem o tipo de almas que aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e chora, com um sotaque espiritual diferente dos outros povos. E dança como o francês ou o russo não sabem dançar. Dizem que o Garrincha, assistindo um jogo dos russos, sorria com ar de certa superioridade, e quando lhe perguntaram se não estava com medo do treinadíssimo time soviético, respondeu: -- “Não. Eles são duros de cadeiras.” E era verdade. Eles não tinham os requebros de nossa astúcia física, a flexibilidade de nossa graça felina, certamente serão duros de cadeiras em muitas outras coisas em que somos graciosos e ágeis.

A verdade manda confessar que, fora do futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apoteose da essência humana. Qual será a riqueza de que estamos incumbidos? Qual será a partitura que devemos executar no maravilhoso concerto que tem por ouvintes as hierarquias dos anjos?

Por mais insensato que possa parecer tal idéia aos que vivem estudando os chamados problemas brasileiros, é nesta perspectiva profética, teológica, metafísica, que deveriam estar situados todas as pesquisas. Há problemas imediatos, como o socorro devido às vítimas do nordeste, mas há o grau de problema da vocação, da direção geral, que anda esquecido, ou que está sob a ameaça de uma trágica apostasia. E aqui – deixando para outro dia a continuação desta louca conversa – ouso dizer o que penso de um Brasil que trai a sua vocação e que se desvia dos caminhos de Deus. Rasguem as vestes os fariseus do nacionalismo materialista (aliás outro não há), dêem-me os títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro vê-lo apagado do mapa, afundado na terra, tragado pelo mar, do que vê-lo instalado num desenvolvimento que nem sequer trás a felicidade material, animal, das multidões, e que volta as costas ao chamamento de Deus e à esperança dos homens.

O cristianismo que não morrerá

Gustavo Corção

As reflexões que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento.

A crise de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento. O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje, na era espacial, não é possível ter a mesma idéia de Deus “fora de nós” tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: “Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita. Mas agora parece não haver lugar para Ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios.”

É difícil, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo!

O leitor encontrará no livro Progresso e Progressismo, AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas.

No momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo “a atualidade” que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza.

***

Há mil maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento.

Nunca se falou com tanto garbo no “mundo moderno” e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Abelardo.

Curioso progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, e de sub-Abelardos, que a mil quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o Cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar, e então, para reduzir o Cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus.

Mas o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, continua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

(O Globo, 14/8/71)

Singularidade do Cristianismo

Gustavo Corção

Num de seus mais belos livros, The Everlasting Man, que o editor com toda a razão diz ser "more thrilling than any novel", Chesterton, no apogeu de seu gênio rutilante e explosivo, deixou-nos um acervo de idéias onde cada uma parece responder com suas cintilações à soma de espantosos disparates e tolices com que o mundo, sai século, entra século, pretende empoeirar, esconder ou destruir o Cristianismo. Com sobeja razão disse desse livro um crítico: "É um poderoso e belo livro. Para realizá-lo assim, formoso e poderoso, o poeta e o soldado em Mr. Chesterton se coligaram, e juntos conseguiram dar-lhe as cores, a fúria e a fé romântica das cruzadas."

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Uma das tolices de todos os tempos que tentou atravessar-se no caminho do poeta-soldado e cruzado foi a que hoje tem calorosa acolhida no mundo católico, e especialmente nas casas religiosas que, por isso mesmo, deixaram de ser religiosas. Eu a definiria assim: idéia da não singularidade do cristianismo. E Chesterton a derruba num só golpe: "aqueles que vêem Cristo lado a lado com outros mitos similares, e sua religião lado a lado com outras religiões, estão apenas repetindo desgastadas e sujas fórmulas que são desmentidas pela fulgurante evidência dos fatos."

Em outro lugar Chesterton retoma esta idéia que anima toda a sua estratégia apologética: "escrevi este livro apenas para mostrar que o Cristianismo, surgido em certa altura da história, tem todas as características de uma coisa única. Não se parecia com nenhuma outra coisa; e quanto mais o estudamos menos se parece ele como outras coisas". No sentido mais absoluto do termo, o cristianismo foi uma coisa nova na história; é a única coisa nova, não apenas no seu surgimento histórico mas em cada momento em que o considerarmos.

Em torno de mim, no meu escritório, estão os objetos familiares, os livros amados e os livros detestados, as cartas lidas e ainda não respondidas. E diante de mim a mesa desarrumada dá-me boa imagem das coisas velhas que seguem a lei da matéria, a lei do envelhecimento. Se me adornarem a jarra com uma rosa insolentemente jovem e formosa, ainda assim já advinho atrás da seiva a corrupção e atrás do viço o desbote. Tudo em torno de nós envelhece irresistivelmente. Sobre todas as coisas desce a névoa crepuscular de um desgaste universal. A grande e bela criação de Deus segue sua sorte de criatura sujeita a todas as vicissitudes. Mas suas abóbadas fechadas sobre si mesmas, economicas, zelosas de suas causas segundas, de seus ciclos e epiciclos, um dia foram atravessadas, e um dardo de luz trouxe a esta criação a notícia de uma nova criação e o anunciador desta boa-nova é o Verbo Divino que se encarnou para nossa salvação e que estará sempre entre nós, na sua Igreja, no meio de nós como o Novo absoluto e perpétuo que levou São Paulo a exclamar, ébrio de graça divina: quem está em Cristo e torna nova criatura... Vede! tudo é novo! (2Cor 5, 17).

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A leitura, mesmo distraída, do Antigo Testamento revelará a chave, o segredo que troveja pela voz dos profetas, e que grava nas pedras: Ele é Um, e não admite outros deuses diante de sua Face. Mas é no Novo Testamento que eclode, explode, o Novo absoluto, o Novo eterno; mas também é aqui que, por um paradoxo da Encarnação, se torna mais velada a face de Deus. A Trindade é, sem dúvida alguma, o mais majestoso, o mais profundo dos mistérios; mas a Encarnação é o mais perturbador, o que mais induziu a heresias e erros que, no fundo, querem sempre a mesma coisa: reduzir o Cristianismo a um humanismo. Jesus passou três anos a ensinar que o cristianismo não é um humanismo. Todas as suas respostas tem sempre o mesmo cunho de quem não aceita o plano e os termos em que é feita a pergunta. Ao longo de vinte séculos a história do cristianismo oscila sempre entre dois acervos, dois modos de capitalizar e de guardar o tesouro das palavras de Cristo. De um lado está o cabedal de sabedoria e de santidade guardada no seio, no interior, no lado de dentro da Igreja, e de outro lado estão todas as tentativas feitas, no exterior da Igreja, por homens que se julgavam tanto mais eclesiais quanto originais.

A tendência natural do homem, o peso do corpo e as feridas da alma levam-no sempre a querer fazer do cristianismo um humanismo, e do candente amor de Deus uma filantropia.

Quando os homens, num relance, desconfiam da absoluta e insólita novidade do cristianismo, duas reações opostas e violentas podem surgir: a violência de um vislumbre de amor divino precipita a alma agradecida e maravilhada, no meio da Igreja, in medio Ecclesia; a outra violência, ditada ao orgulho por Satã, fará dessa alma um rebelde que sairá pelo mundo a anunciar que o cristianismo é não somente um humanismo, mas também, e sobretudo, um humanismo ávido de cooperar com o desumanismo que não admite sequer o Nome de Deus, nem admite que seus membros humanos queiram ser especificamente humanos.

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Pensando na explosão de imbecilidade que encheu nosso século graças aos tão festejados meios de comunicação, repassando na memória as frases infinitamente tolas que foram pronunciadas dentro do chamado catolicismo "progressista", vêm-me à memória, irresistivelmente, as palavras com que Jesus diz que não foi para dirimir estas questões que Ele nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi morto e crucificado. Através dos abismos ouço esta resposta de Jesus aos desajustes humanos: "Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós outros?" (Lc 12,13).

 

(O Globo, 12-8-71)

Um ato bom

Gustavo Corção

Se nós tivéssemos de discutir com o Senhor a salvação de nossa cidade, como se vê no capítulo dezoito do Gênese que Abraão o fez para a defesa de Sodoma, deveríamos deter o regateio da misericórdia na condicional existência de uns quinhentos justos. Se Sodoma precisava de dez, nossa gloriosa e populosa cidade precisará cinquenta vezes mais. Digamos quinhentos.

Tomando o termo no sentido sobrenatural, como convém às passagens da Sagrada Escritura, e procurando-os entre os pobres, os oprimidos, as criadas de servir, os religiosos, os simples, facilmente apresentaríamos a Deus, creio eu, os quinhentos ou mais justos que obscuramente, na invisível comunhão, afastam de nós o fogo dos céus. Mas se transpusermos o problema da ordem sagrada para a profana, e se quisermos achar quinhentos homens de bem entre os que visível e oficialmente respondem pelas vigas das instituições e pelo arcabouço temporal da República, então veremos, com profunda apreensão, que nem a décima parte conseguiríamos reunir. Homens bons, graças a Deus, conheço muitos; mas homens públicos honestos, creio que não conheço cinquenta. Conhecerei quarenta? Trinta? Vinte? Ah! Se tivesse a certeza de poder contar dez!

Antes de continuar devo definir o que entendo por honesto e o que entendo por homem público honesto. O termo honesto, no tempo de Cícero, tinha uma austera significação que se estendia por toda a ordem moral. “Ita fit, ut, quod bonum sit, id etiam honestum sit”. Das letras clássicas o termo ingressou no vocabulário da filosofia escolástica para significar aquilo que é moralmente bom e que se distingue do bom deleitoso e do útil. Com o advento da moral burguesa, que sabidamente é uma regra de exterioridades, o termo entrou na linguagem comum com uma significação diferente. Ou melhor, com duas significações. Para homens: honesto é o que não tira o dinheiro do bolso do outro diretamente com a mão; e o que não se descuida de pagar suas contas em dia certo. Para Senhoras: honesta é a excelentíssima senhora que não dorme com homem que não seja o seu marido. Note, porém, o leitor, que o homem, nessa nova acepção do termo, pode dormir com uma senhora, que não seja exatamente aquela a que o ligaram os doces laços do himeneu, sem deixar de ser honesto. E a senhora pode enganar a cozinheira na conta dos dias, sem se tornar desonesta.

Com tal definição, que aliás, ao que parece, já é considerada rigorosa demais, poderíamos congregar algumas dúzias de justos. Mas voltemos à significação clássica, e procuremos o que quer dizer dirigente honesto, homem público honesto, nesse esquecido vocabulário. A função pública se define pela promoção do bem-comum. A obrigação moral do homem com cargo público se orienta por esse critério, e sua honestidade consistirá em jamais antepor seu interesse ao interesse público no exercício da função. Para ser honesto, dentro desta definição, não basta não roubar nem deixar que outros roubem: é preciso também não empregar os filhos recém-diplomados em lugares excelentes e com vencimentos de veterano; é preciso não transformar o poder em prestígio; é preciso que o cargo seja cargo e não carga para os outros; é preciso espírito de sacrifício, desapego, e fervor na defesa do interesse público. Tudo isto, aliás, costuma ser dito nos discursos de posse e nas inaugurações. Só não costuma aparecer no lugar próprio, isto é, nos atos dos homens públicos.

Pondere agora o leitor, e conte pelos dedos os homens honestos que conhece. Verá que são poucos, muito poucos. Mas não desanimemos. Nem imaginemos que as coisas do Brasil só andarão razoavelmente quando todos os titulados forem homens de grande estatura. A história dos dez justos de Sodoma aplica-se bem à ordem temporal, à política, para ensinar que sempre serão poucos os defensores e fiadores de muitos. A famosa frase de Churchill, relativa à defesa de Londres pelos aviadores da RAF, tem a mesma significação. Apenas, onde ele diz nunca eu diria sempre. Sempre será assim: muitos devendo muito a muito poucos. A excelência é rara, a bondade é difícil, mas em compensação é difusiva. Custa a aparecer, mas quando aparece tem força de cristalizar, de polarizar, e de melhorar milhares de pessoas menores, mais pusilânimes, que só precisavam de um exemplo, de um impulso, para produzirem atos bons. Há sem dúvida muita maldade no mundo, como se vê agora em Alagoas, onde parece que o demônio firmou residência; mas o que mais há no mundo é mediocridade, tolhimento, pequenez, burrice, chatice. No amago do mais encolhido coração sempre haverá, entretanto, uma nostalgia de bondade e até um secreto desejo de heroísmo. E por isso, basta aparecer um homem bom para que os homens melhorem, basta aparecer um ato honesto, uma explosão de generosidade, para que todos tenham ao menos um pequeno movimento voltado para o bem de todos. O mal é contagioso, mas o bem é difusivo e explosivo.

 

(O Globo, 17/02/57)

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