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Pe. Manuel Bernardes (32)

Meditação III

Considera a prodigiosa e invencível magnanimidade da Senhora no meio de tanto padecer. Em alguns lugares das Revelações de S. Brígida, se acha que a Virgem, nesta ocasião, desmaiou e perdeu os sentidos. Porém, o Expurgatório Romano os mandou riscar, como introduzidos sub-repticiamente ou mal-entendidos. E Cartagena escreve que algumas pinturas que representavam o desmaio da Senhora ao pé da Cruz se mandaram em Roma recolher. E Bartolomeu de Medina diz que em Espanha alguns Pregadores, por mandado da Santa Inquisição, se desdisseram desta opinião no púlpito. E com razão; porque ainda que a pena da Virgem foi tal que, como diz S. Anselmo, em sua comparação, foi nada a de todos os Mártires, e se a Senhora não fora confortada superiormente, desfalecera — e por isto é verdadeira Rainha de todos os Mártires. Contudo, não desfaleceu, e assim explicam os SS. Padres o que disse o Evangelista S. João: Stabat juxta Crucem JESU Mater ejus: Estava e permanecia em pé junto da Cruz de JESUS, MARIA sua Mãe. Stabat (disse S. Antonino) verecunda modestia, lachrymis plena, doloribus immensa, ita tamen Divinae voluntari conformis, quod, ut Anselmus ait, si oportuisset ad implendum sedundum rationem, voluntatem Dei, ipsa filium in Cruce posuisset, atque obtulisset; neque enim minoris fuit obedientiae quam Abraham. Estava a Senhora em pé junto a Cruz com modéstia vergonhosa, toda cheia de lágrimas, e submergida em dores; porém, tão conforme a vontade Divina, que se, como diz S. Anselmo, importasse ao beneplácito de Deus que ela mesma O pusesse e oferecesse na Cruz, o faria assim; pois não tinha menor obediência que a de Abraão. E S. Boaventura, acomodando os quatro dotes do corpo glorioso ao espírito da Senhora, diz que foi claríssima pela santidade, sutilíssima pela humildade, agilíssima pela piedade e impassível pela paciência. De sorte que podemos entender que a mesma fornalha de tribulação que padecia, recozeu e fortificou sua alma, de modo que o mesmo padecer a tornou como impassível; não porque o seu humano barro deixasse de sentir a atividade da pena que o penetrava; senão porque o mesmo sentir puxava pelos cabedais da fortaleza que dentro a sustentava.

Meditação II

 Outro princípio, pelo qual se pode formar algum conceito do excessivo das penas desta angustiada Mãe, é considerando o altíssimo e perfeitíssimo conhecimento que a Senhora tinha presente da infinita dignidade de seu Filho JESUS Cristo, a quem via desonrado, afrontado e crucificado. Porque acrescenta mais no seu trabalho, quem acrescenta na ciência (Ecle 1, 18): Quis addit scientiam, addit et laborem. De sorte que quando a Virgem Mãe via seu Bendito filho pendente da Cruz entre dois malfeitores, não perdia de vista que este Senhor era o mesmo que no Empíreo reina entre duas Pessoas Divinas; e quando cuspido e esbofeteado seu rosto, tinha presente como nesse mesmo rosto se espelham e são glorificados os Anjos; e assim dos mais tormentos e opróbrios da Paixão do Senhor. Por onde, assim como só a Senhora entre todas as criaturas capazes de sentimento sabia penetrar o abismo da excelentíssima e sempre adorável dignidade de Cristo, só ela por conseguinte podia dar fundo ao sensível e custoso de suas penas e afrontas. E todo aquele cálice de amarguíssima mirra que o Senhor não foi servido beber materialmente (Mc 15, 23): Dabant ei bibere myrrhatum vinum, et non accepit, esgotou a Virgem espiritualmente e lhe repassou toda sua alma. Ai, inocentíssima Virgem! Ai, afligida Mãe! Por isso eu, miserável pecador, não sinto em mim, nem em meus próximos, as ofensas de Deus, porque estou muito longe do conhecimento de que coisa é Deus? E se quem acrescenta a ciência, acrescenta o trabalho; quem, como eu, acrescentava a estultícia, e dobrava a cegueira, que lhe havia de suceder, senão perder o sentimento do mal que fazia, e cauterizar a minha consciência, endurecendo-me aos remorsos dela! Ó, se um pecador dos que o mundo chama honrados, e nele estimam tanto qualquer pontinho de sua vã e triste honrinha, soubesse quem é Deus, a quem tão de assento e tão sem susto nem reparo se põem a desonrar, e a pisar a sua lei, antepondo-lhe a do seu apetite, é certo que enlouquecera, ou rebentara de dor! E pecamos tão facilmente, e com tal repetição, porfia, ingratidão e impudência pecamos? É que perdemos a dor, porque nos sumimos na ignorância, e os pecados, que nos distanciaram do conhecimento de Deus, nos levaram também o pesar deles.

Meditação I

E seja o primeiro considerar algumas graves sentenças que os Santos disseram nesta matéria, para que se a luz não chega a nossos olhos direta, chegue ao menos por reflexos. S. Agostinho e S. Bernardo, alegorizando aquilo de Isaías (Is 33, 7): Angeli pacis amare flebunt: consideram aos mesmos Anjos tomando corpos visíveis para chorarem a Sagrada Paixão e morte do Filho de Deus e, por conseguinte, a paixão e morte espiritual e mística da Mãe de Deus; pois esta com aquela estava intimamente conjunta. Ó alma minha, pára e pondera: é possível que os Anjos tomem semelhança de homens para chorarem, e que os homens tomemos semelhança de brutos ou de pedras para não chorarmos! De que vai isto? O javali, revolvendo-se primeiro no lodo grosso, fica impenetrável aosvenábulos ou lanças dos monteiros. Estamos tão imersos nos gostos ou pesares das coisas terrenas do mundo, que ficamos duros para o sentimento das espirituais e invisíveis que nos propõem a Fé e Piedade (2 Cor 2, 34): Animalis homo non percipit ea, quae sunt spiritus Dei.
 

A Esperança

Sejamos alegres pela esperança, sofridos nas tribulações. Porque quem bem espera bem sofre, e quem levanta o espírito aos bens eternos sabe portar-se bem nas misérias temporais.
 
Sabeis que coisa é a Esperança? Uma engenhosa máquina com que o espírito se guinda desde o mundo para a eternidade; e assim não lhe carrega o peso dos males que cá embaixo leva, porque tanto furta à aflição do trabalho que padece, quanto se levanta à contemplação do descanso que espera.

O mundo passa

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós com ela!
 
Dos sábios e justos diz Isaías que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.
 
Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando.

A vida é morte

A um vaso de vinho misturado com três partes de água não chamaremos com razão vinho; nem a um pouco de açúcar envolvido em três tantos de sal chamaremos com razão açúcar.
 
Logo, se eu mostrar como a nossa vida é misturada, ao menos, com três tantos de morte, provado ficará que lhe não devemos chamar, absoluta e simplesmente, vida, pois vai o seu vigor tão aguado e a sua doçura tão salgada com as propriedades da morte.

A sabedoria do oratório - trechos selecionados do Pe. Manuel Bernardes

HIPOCRISIA
 
É hipócrita o mercador que dê esmolas em público e leva usuras em oculto; é hipócrita a viúva que sai mui sisuda no gesto e no hábito, e dentro em casa vive como ela quer e Deus não quer; é hipócrita o sacerdote que, sendo pontual e miúdo nos ritos e cerimônias, é devasso nos costumes; é hipócrita o julgador que onde falta a esperança do interesse é rígido observador do direito; é hipócrita o prelado que diz que faz o seu ofício por zelo da honra e glória de Deus, não sendo senão pela honra e glória própria. Hipócrita é o que não emenda em si o que repreende nos outros; o que cala como humilde, não calando senão como ignorante;o que dá como liberal, não dando senão como avarento solicitador das suas pretensões; o que jejua como abstinente, não se abstendo senão como miserável.

O monge e o passarinho

Diálogo entre um religioso e um secular
 
Secular — Já que me sucedeu caminhar em tão boa companhia, hei de aproveitar a ocasião e perguntar alguns pontos que desejava saber.
 
Religioso — Folgarei eu de poder servir a Deus, e prestar ao próximo em alguma coisa.

Pleito entre frades e formigas

Foi o caso (conforme narrou um sacerdote da mesma religião e província) que naquela capitania as formigas, que são muitas, e mui grandes e daninhas, para estenderem o seu reino subterrâneo e ensancharem os seus celeiros, de tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína. E, acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pau, que ali estava guardada para quotidiano abasto da comunidade. Como as turmas do inimigo eram tão bastas e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio: e, não aproveitando alguns do que fizeram experiência, porque, enfim, a concórdia na multidão a torna insuperável, ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu um religioso com este arbítrio: que eles, revezando-se daquele espírito de humildade e simplicidade com que seu seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs (irmão sol, irmão lobo, irmã andorinha, etc.), pusessem demanda àquelas irmãs formigas, perante o tribunal da Divina Providência, e sinalassem procuradores, assim por parte deles, autores, como delas, rés; e o seu prelado fosse o juiz, que, em nome da Suprema Equidade, ouvisse o processado e determinasse a presente causa.

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