|
O Latim na liturgia I Pe. V.-A. Berto
Tantas razões e tão decisivas em favor da manutenção do latim como língua litúrgica na Igreja Ocidental, tão pobres e tão desastrosos os pretextos invocados em favor das línguas vulgares, que temos dificuldade de nos incumbirmos de examinar uma mera questão, sobre a qual não deveria existir senão uma opinião, não apenas entre os católicos, mas entre os civilizados. Certamente, não teríamos pensado em colocar esta questão do latim na liturgia, nem imaginado que alguém pudesse fazê-lo. Todavia, vemos que a colocam, recolocam, debatem e disputam. Sem provas propriamente ditas — mas com muitos indícios convergentes que equivalem a uma prova — temos o sentimento de estar em presença de homens muito determinados em seu empreendimento, decididos a aproveitar todas as ocasiões para suprimir o latim, para forçar a Santa Sé, para colocá-la, se puderem, perante um fato consumado, até o dia — para eles, desejável, para nós, nefasto (mas esse dia nunca virá) — em que a autoridade soberana, julgando a causa perdida, resolver-se a canonizar o emprego litúrgico das línguas vulgares. Deduziremos por ordem nossos argumentos nesta “defesa e ilustração”, não do “latim litúrgico”, pois que não fazemos aqui absolutamente um estudo de gramática ou de estilo, mas do emprego da língua latina na liturgia. * *
*
"A religião católica é o sangue de nossas veias”, podemos dizê-lo tão sinceramente quanto o dizia Baumann, e nos é certamente difícil imaginar o que seríamos fora desta religião, única verdadeira. Contudo, estamos persuadidos de que, mesmo se não fôssemos sacerdotes ou mesmo católicos, a supressão do latim como língua litúrgica seria ainda, aos nossos olhos, uma catástrofe para a humanidade.
A
multiplicidade das línguas é uma disposição providencial que a Sagrada
Escritura apresenta como um castigo. Ora, no Antigo Testamento não há somente
figuras diretas das realidades do Novo, mas também figuras inversas,
e Babel é figura inversa de Pentecostes, donde se segue que nenhuma outra
comunidade de língua se pode esperar para o gênero humano senão a que procede
da Igreja. Não no sentido de que a Igreja deva se esforçar para fazer
desaparecer a diversidade de línguas vulgares, pois todas podem levar sua
mensagem e, como diz Santo Agostinho: “todas as línguas nos pertence a nós,
católicos, porque pertencemos ao corpo que as fala todas”; não mesmo no
sentido de que a Igreja tenha a obrigação de superpor às outras línguas uma
língua litúrgica comum, mas no sentido de que, de fato e como por acréscimo,
se a Igreja escolhe uma língua para sua oração oficial, à difusão da Igreja
naturalmente corresponderá a difusão desta língua, que será, desde então,
sinal e fator de uma unidade humana que jamais será perfeita em sua ordem, pois
somente a Igreja em si mesma é perfeitamente una cá embaixo, mas que, não
obstante, tão imperfeita quanto possa ser, é um valor infinitamente precioso
de civilização.
No
momento presente, todos homens cultos têm, quer mais quer menos, algum
conhecimento de latim[1]. Isso não é suficiente
para que se entendam! Mas enfim, já é alguma coisa, por menor que seja, que têm
em comum e, suprimido o latim, teriam algo a menos em comum.
Ora, se excetuarmos os professores de letras e alguns amadores, que ocasião teriam os homens cultos dos quais falamos de exercer seu conhecimento de latim? Nenhuma ou quase nenhuma, se não são católicos; mas se são católicos, devem se utilizar de uma tradução durante os ofícios; ora, há em todo o mundo algumas dezenas de milhões de católicos cultos! Deixemos de lado, no momento, o laço que isto estabelece entre eles como católicos, voltaremos a isto depois; o latim sempre os aproxima um pouco enquanto homens cultos. Se é necessário manter e reforçar aquilo que os aproxima, deve-se portanto conservar, como um bem inestimável, o emprego litúrgico do latim.
Não
se instituirá uma língua universal por esta razão sobrenatural de ter
existido Babel, pois os homens não cessam de querer construir Babel, quer
dizer, de tentar se unir fora da Igreja, e Deus não cessa de destruir seu
trabalho, querendo que não busquem a unidade senão na Igreja. Não se
instituirá uma língua universal pela razão natural de que então não seria
preciso instituir, mas fabricar uma língua, e uma língua não se fabrica; não
seria preciso, fosse ela fabricada, introduzi-la, mas impingi-la, e não se
impinge uma língua. Mas há uma língua, e é precisamente o latim, que quase
exclusivamente até o final do século XVII, e muito consideravelmente até o início
do nosso, por ser a língua supranacional da Igreja, a língua internacional das
elites intelectuais. Não sabemos se este costume de escrever os trabalhos científicos
em latim reviverá; porém, muito certamente era um costume bom, polido,
honesto, cortês, cômodo aos estudiosos, altamente humano. A supressão do
latim destruiria de vez o pouco que restava. Chamaremos a isso progresso?
Não queremos dizer que o latim será jamais uma língua universal, no sentido em que a entendem os diversos criadores de esperantos (que entre si formam, ademais, uma pequena Babel suplementar, o que não é desprovido de ironia). O que dizemos é que ainda é uma língua, senão falada, ao menos conhecida e compreendida por grande parte das elites e com a qual, por toda a terra, o povo católico de rito romano tem alguma relação; que é um poderoso fator de unidade entre os homens; que o uso do latim na liturgia, que foi a causa principal de sua difusão, permanece sua principal garantia, e que só por este fato se faz necessário conservá-la.
De
nada adianta dizer que o latim poderia se conservar como uma língua de comunicação
erudita, que Leibniz era protestante e Espinoza judeu, Bergson e Boutroux agnósticos
no tempo em que compunham suas teses secundárias, e que isto não impediu estes
pensadores de escrever em latim. Isso é assim porque eles viviam sobre o
tesouro da Igreja, acumulado durante séculos e tornado, pela generosidade da
Igreja, bem comum da humanidade. Por outro lado, não devemos pensar apenas nos
mandarins, a uma espécie de difusão horizontal do latim nas classes
esclarecidas, o que não faria senão isolá-las ainda mais das classes
inferiores. Escrevemos isso um dia após o Soberano Pontífice ter decretado, na
presença de cento e cinqüenta mil trabalhadores manuais, a instituição da
festa de São José Operário. Por mais que estejamos convencidos da necessidade
das elites em uma sociedade bem ordenada, não consentimos que elas se
transformem em uma casta; não cremos que ele possa ser indiferente a que um
coração um pouco generoso como o do “homem da rua”, o mineiro ou o
pescador, participe em alguma medida (medida esta que podemos sempre aumentar,
como veremos) do uso do latim. Ora, desta difusão “vertical”, ela também
unificadora, a liturgia é o único meio, absolutamente o único. E só por
isso, ainda, trabalhar contra o latim na liturgia é trabalhar contra a civilização.
* *
*
Suprimido
o latim, os textos litúrgicos latinos e os cantos litúrgicos em latim
tornam-se peças de museu, e não de um museu visitado pelo povo, nem mesmo de
um museu acessível aos homens de cultura mediana, mas de um museu reservado a
alguns iniciados e refinados. Dizemos: “nem mesmo de um museu acessível aos
homens de cultura mediana”, pois estes, como nós já ressaltamos, só se
lembram que rosa é rosa e templum é templo por causa da
liturgia. Eliminado o latim da liturgia usual, todo o latim se perde para eles,
e à perda de um elemento de unidade se acrescenta a não menos desastrosa perda
de uma parte imensa, uma das mais belas, a mais bela segundo muitos dentre os
quais nos incluímos, do patrimônio artístico do gênero humano. Do ponto de
vista em que agora nos colocamos, o ódio antilatino é comparável ao furor
iconoclasta. É como se, para libertar a estética cristã das formas do passado
e dar ao século XX edifícios religiosos melhor adaptados à piedade, uma horda
de adaptadores energúmenos pretendesse dinamitar Chartres, Reims e Paris, estes
monumentos ultrapassados. O crime, na ordem literária e musical, equivaleria a
tornar definitivamente inacessíveis a quase todos os cristãos (que ainda
consideramos aqui enquanto homens e não, formalmente, enquanto cristãos) o
Missal, o Gradual e o Antifonal romanos.
Seríamos intermináveis se empreendêssemos o elogio artístico destas maravilhas. Mas se beleza literária é a expressão sonora, abundante, em estilo lírico ou oratório, de uma idéia majestosa, é preciso dizer que nem Píndaro, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Dante têm nada que supere, segundo nossa opinião (e não estamos sós), nada que alcance o Prefácio da Consagração das Virgens, o Exsultet da Vigília Pascal, o Stabat da Paixão, o hino de Natal ou o Decora lux com a estrofe que tira lágrimas dos olhos: “O Roma felix”. Comparamos picos com picos e, naturalmente, só nos ocupamos do que foi composto em latim, deixando de lado os textos da Sagrada Escritura, que são uma tradução, ainda que esta tradução, filologicamente discutível, seja, do ponto de vista literário, uma obra-prima. Em uma ordem menos sublime, podemos tomar quase ao acaso as orações do Missal (exceção feita, o que não é por acaso, às mais modernas), os exorcismos e as bênçãos do Ritual: a beleza literária está por toda parte; por toda parte a poesia, as palavras que, por seu sentido e som conjuntos, imediatamente suscitam, como se diz depois de Péguy, o “clima” do mistério celebrado; por toda parte o achado poético, nobre ou suave; em nenhuma parte o despropósito, a ostentação, a ênfase, a obscuridade, a tortura refinada da língua; mas na luz da aurora — Aurora coelum purpurat — ou do meio-dia — ignibus meridiem — ou do crepúsculo — Te lucis ante terminum — evocada por gênios desconhecidos de coração absolutamente simples, tudo se exprime com gênio e simplicidade. “Jesus Cristo disse coisas tão grandes de modo tão simples, que parece que as falou sem pensar, mas, contudo, falou de modo tão claro, que bem compreendemos o que delas pensava; esta união de claridade e singeleza é admirável.” Este pensamento de Pascal, ele mesmo admirável, se aplica a toda página dos livros litúrgicos latinos.
Há um exorcismo contra os ratos (infelizmente, temos ocasiões demais de celebrá-lo) que é uma pura jóia de poesia franciscana, onde se ordena a estes animais, em nome do Senhor que os criou, de se retirarem, porém, se ordena com uma tal cortesia, com uma delicadeza tal, que eles não poderiam realmente ficar insensíveis. E se retirarem para onde? Não se diz. Talvez para a casa do vizinho, mas isso é com ele, que, assim, também chamará um exorcista, e os ratos terminarão indo para o campo. Nada falta a este poema perfeito em dez linhas, nem mesmo este véu de graciosa ironia, que lembra Banville: si parva licet componere magnis. * *
*
É tudo? Não é nem sequer a metade. Em sua maioria, estes textos ou foram compostos para uma melodia preexistente, ou resultaram na composição de um canto. Em música, os músicos têm competência, como os pintores em pintura, os escultores em escultura e os arquitetos em arquitetura. Ora, desde a sábia e paciente restituição das melodias rítmicas gregorianas pelos beneditinos, isolados e combatidos no início, depois apoiados e encorajados por São Pio X, não há mais um único músico que conteste o valor artístico do canto litúrgico. Seguramente, trata-se de arte religiosa; porém, faz parte da arte que a expressão corresponda a um fim; pode-se ser um pintor muito profano e reconhecer o valor dos afrescos de Fra Angélico como pintura religiosa; pode-se ser muçulmano ou budista e não ter construído senão galpões, e admirar a cúpula de São Pedro ou de St. Trophime de Arles como obras-primas da arquitetura religiosa cristã. Uma semelhante unanimidade se fez, e de modo definitivo, entre os músicos, no que se refere ao canto gregoriano. Ninguém pensa realmente que a oração cristã litúrgica poderia encontrar expressão musicalmente mais bela.
Na
comunhão Vidimus stellam da Epifania, após a modulação inicial em
menor em Vidimus — uma subida um tanto atrasada pelo salicus,
uma descida em duas ternárias lá-sol-lá sol-fá-sol, leves como se de
cristal, um passo suspenso mi-fá-ré, atenuado pelo som latino do u — explode
uma extraordinária terça maior sol-si em stellam, que se poderia
atribuir a algum Wagner, mil anos mais antigo que o outro, e que pode
considerar-se seu igual.
Damos este exemplo, e damos apenas um para não dar cem. Ademais a análise melódica e rítmica de um trecho será sempre um privilégio, e nós consideramos aqui apenas o que em arte é ou pode ser, para muitos, fonte da emoção estética. Os antigos já diziam: “o belo é o que, ao se ver, agrada”, pulchrum est quod visum placet, definição menos complicada que a de Kant, e na qual basta mudar uma palavra para que convenha ao belo musical: pulchrum est quod auditum placet: o belo é o que, ao se escutar, agrada; algo cuja audição agrada. Sempre haverá pessoas (o que de todo coração lamentamos) que jamais saberão distinguir um dó de um ré, e que um ternário mal executado não as perturbará; elas não se abalarão por tão pouco. São monstros, e de casos teratológicos não nos ocupamos nesse momento; falamos do homem normalmente constituído. E Dizemos que com um mínimo de educação musical, ou mesmo sem nenhuma, o homem capaz de emoção estética não pode não experimentá-la ao escutar cantar o arrebatador Spiritus Domini de Pentecostes, ou o jubiloso Allelluia da Páscoa, ou o gradual, recolhido de início e bem grave, em seguida rebentando em alegria, Tecum principium, da Missa da Meia Noite. Ainda uma vez supomos que o ouvinte sabe grosso modo a que palavras a frase musical, melódica e rítmica, está ligada, qual é o lugar do trecho na liturgia católica; mas, isto sendo dado, pode-se, mais uma vez, ser muçulmano, budista ou agnóstico que, mesmo mediocremente dotado, reconhecerá a beleza; se é artista, quando mais o for, mais se encantará com tamanha perfeição artística.
Fazemos
mal em dizer que, se a civilização não é apenas a abundância do útil, mas
a abundância e a superabundância do honesto e do belo, a dissimulada intriga
antilatina é um empreendimento de selvagens? Ora! Que se privem os homens de
tanta beleza distribuída à profusão! Que despojem a Igreja da glória de ter
sido inspiradora, de permanecer depositária e dispensadora inesgotável de
tantas magnificências, tão próprias para elevar os homens quanto para uni-los
nas admirações comuns! Que lhe retirem este testemunho brilhante de seu benefício
para lá de sua esfera própria, este “extra” evangélico que, ademais,
ainda lhe é próprio, pois ela não divide a honra com nenhuma outra instituição;
que lhe deu títulos imortais ao reconhecimento universal; que pode mesmo atrair
para si os mais nobres dentre os homens, sem lhe pedir nada em compensação,
rigorosamente nada, senão a banalidade, a superficialidade, o mal gosto
desenfreado, a baixeza de expressão verbal e musical! E este inimaginável
rebaixamento proposto por aqueles que nos enchem os ouvidos da “apologética
da porteira ”! Na verdade, é preciso não saber mais se envergonhar!
* *
*
Seja tão selvagem quanto queira, nos dirão talvez, não importa, é preciso ser selvagem com os selvagens; É preciso ser bárbaro com os bárbaros. O que pensa ainda estar conservado, já está perdido. Ninguém mais sabe latim, o que, ademais, há séculos o povo comum cristão não sabe. E quanto ao valor artístico dos textos e cantos litúrgicos em latim, não é mais percebido pelos homens de cultura mediana, mas somente por especialistas, em prol dos quais não se pode, em matéria religiosa, conservar algo em detrimento da massa que se quer converter. Mais um pouco, vamos aos bárbaros e que pereça a liturgia em latim, desde que a Igreja seja dilatada.
Responderemos
a estes sofismas, mostraremos sua inconsistência, mas o faremos mais facilmente
quando tivermos considerado o emprego do latim na liturgia não como o fizemos
aqui, segundo seu valor “civilizante”, mas segundo seu valor propriamente
cristão. Este será o objeto de nosso próximo artigo.
(Pensée Catholique, n. 38, 1955. Tradução: PERMANÊNCIA)
Nota:
[1] [N. da P.] Observe-se que, no tempo em que saiu publicado este artigo, o estudo do latim era normativo tanto nas escolas européias — algumas das quais dedicavam ao latim não menos que nove anos de estudo — como nas brasileiras. Quantos serão os homens de cultura hoje, no Brasil, que ainda guardarão lembrança do latim?
|