Sobre a disciplina cristã (Parte 1)

Santo Agostinho

 

Capítulo Primeiro: Objeto do discurso.

 

1. Através da boca da Escritura, vem o Senhor fazer escutar sua voz, dirigindo a nós esta urgente exortação: “Recebei a disciplina na morada do ensino”. Quem aprende é o discípulo; a morada do ensino, a Igreja de Jesus Cristo. Que se aprende aqui e por quê? Quem aprende e quem o ensina? Aprende-se a boa vida, e se aprende a boa vida para merecer a felicidade de viver para sempre. Os discípulos são os cristãos; o mestre, Jesus Cristo. Que é a boa vida? Qual a recompensa da vida santa? Quais os verdadeiros cristãos? Enfim, quem o mestre verdadeiro? São estas as questões sobre as quais desejamos vos dizer algumas palavras, se Deus nos der a graça.

 

Todos habitamos na morada da disciplina, mas muitos não a desejam; e para cúmulo da perversidade, recusam a disciplina habitando na morada da disciplina. Não deveria lhes ser ensinada a disciplina, para assim poder levá-la até suas próprias moradas? Mas não, como se lhes não bastasse a indisciplina nas suas moradas, pretendem conservá-la até na morada da disciplina. Ah!, quem não rejeita a palavra de Deus, mas empresta a atenção dos ouvidos e da alma; quem não se assemelha à via pública sobre a qual os passarinhos devoram a semente tão logo esta se espalhe; quem não se assemelha ao terreno pedregoso no qual a semente não logra penetrar raízes profundas, onde cresce um momento e logo resseca; quem não se assemelha ao campo coberto de espinhos, cuja espessura logo abafa os brotos das sementes; enfim, quem se encontra figurado na terra fértil, amanhada para receber a semente que dá a cem, a sessenta ou a trinta por um, receberão transportados os ensinamentos que o Senhor se agradar de me inspirar; ademais, os que atualmente possuem razões legítimas para se aproximar desta cátedra de ensino, não esqueçam que não é à toa que empresto do Evangelho estas comoventes parábolas. Se Jesus Cristo é o divino semeador, quem sou eu? Mal e mal, sou o cesto que carrega o grão. Ele deseja depositar em mim a semente que vai chantar em vossas almas. Não repareis na baixeza do cesto, mas sede sensíveis ao preço da semente e ao poder do semeador.

 

 

Capítulo Segundo: Que é a boa vida?

 

2. Que é a arte da boa vida, que aprendemos aqui? A lei encerra multidão de preceitos, que são como as regras, as linhas e o alfabeto da vida boa. Sim, os preceitos são numerosos e por assim dizer inumeráveis. Mal podemos enumerar as páginas que encerram os preceitos; quanto mais não seria enumerar os mesmos preceitos. Todavia, para não deixar a ninguém o recurso da desculpa, seja porque não os leu, seja porque não os saiba ler, seja porque não os poderia compreender, o Senhor, para impossibilitar a desculpa no dia do julgamento, quis resumir a lei numa só palavra, segundo a predição do profeta: “Deus lançará por sobre a terra uma palavra, que condensará e resumirá todas as outras”. É breve a palavra, mas não acrediteis que seja obscura. Ela é breve, para que seja sempre possível lê-la; é clara, para que ninguém tenha o direito de afirmar: não a compreendi. Constituem as Santas Escrituras um como imenso tesouro, que encerra inúmeros preceitos admiráveis, e são umas tantas pérolas preciosas e vasos de grande preço. Mas quem pode investigar o imenso tesouro, dele se servir e lhe descobrir todas as riquezas? No Evangelho, emprega o Salvador esta comparação: “O reino dos céus é semelhante ao tesouro encontrado no campo”; após, como se temesse que alguém replicasse a incapacidade de cavoucar para descobrir o tesouro, imediatamente se valeu desta outra comparação: “O reino dos céus é semelhante ao negociante que busca boas pérolas, encontra uma preciosa e, para adquiri-la, vende tudo o que possui”. Talvez vos sintais demasiado preguiçosos para cavoucar o tesouro, mas não o sejais a ponto de não levar uma pérola cosida ao bolso da calça e assim assegurar-vos o direito de andar em segurança.

 

 

Capítulo Terceiro: Mandamento de amar a Deus e ao próximo.

 

3. Que palavra é essa que resume todas as outras? “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo teu espírito, e a teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois preceitos estão contidos toda a lei e os profetas”. Eis o que se aprende na morada da disciplina: amar a Deus, amar ao próximo; a Deus por si mesmo, e ao próximo como a si mesmo. Encontrareis alguém que se possa igualar a Deus, ao ponto de afirmar: amai a Deus como amais aquela criatura? Foi possível encontrar uma medida para o próximo, porque sois iguais ao próximo. Buscais o modo de amar ao próximo? Lançai o olhar sobre vós mesmos, e amai o próximo com o mesmo amor com que amais a vós. Aqui não é possível o erro. Quero confiar-vos o próximo, para que o ameis como a vós; desejo-o, mas o receio ainda. Desejo-vos dizer: amai ao próximo como vós vos amais. Imploro-vos, sem amargura. Por que vos é confiado o próximo, devo abandonar-vos assim, tratando convosco só por um tempo? Não formais senão um só homem, e para vós o próximo é a multidão dos homens, não somente o irmão, o parente, o aliado. Não, pois todo homem tem como próximo por sua vez todo homem. O pai e o filho, o sogro e o genro possuem entre si laços estreitos de proximidade. Ora, nada há de tão próximo quanto o homem de seu próximo. Caso vós estejais tentados a pensar que são próximos apenas os nascidos dos mesmos parentes, relembrai-vos de Adão e Eva, e compreendereis que todos somos irmãos. Somos irmãos na singela qualidade de homem, quanto mais não seremos na de cristãos! Enquanto homens, tendes um único pai, Adão, e uma única mãe, Eva; enquanto cristãos, tendes um só Pai, que é Deus, e uma só mãe, que é a Igreja.

 

 

Capítulo Quarto: Como amar o próximo a quem se ordenou amar o próximo como a si mesmo.

 

4. Vede pois de que multidão de homens somos próximos, cada um de nós. Todos os homens com quem encontramos, todos a quem podemos nos unir é o próximo. Como saber de que amor se ama se são seus próximos tantos homens, a quem deve amar como a si mesmo? Que ninguém se exaspere assistindo-me examinar o como se ama. A mim pertence o discorrer, a vós reconhecer-vos nas minhas palavras. Por que discorrer? Posso eu saber o estado da alma de cada um? Discorro, para que cada um se interrogue, olhe e veja sem disfarces, para que se encare e pose diante dos próprios olhos, sem voltar às costas para si mesmo. É justamente isso que se há de fazer enquanto falo, para melhor proveito de minhas palavras. Como vos amais? Vós que me escutais, antes, que escutais o Senhor pela minha boca, enquanto estais aqui nesta morada da disciplina, prestai contas a vós mesmos de que maneira vos amais. Tomara eu pergunte se vós vos amais, e me respondais afirmativamente. Com efeito, alguém pode odiar a si? Talvez me responderíeis: mas alguém consegue odiar a si? Se vós vos amais, não ameis a iniqüidade, pois se a amais, escutai, não a minha palavra, mas a do salmista: “Quem ama a iniqüidade, odeia sua alma”. Se vós amais a iniqüidade, escutai a verdade, não a que vos incha, mas a que vos declara: vós odiais a vós mesmos. Quanto mais repetis que vos amais, mais vos odiais, pois “quem ama a iniqüidade, odeia sua alma”. Que direi eu da carne, a porção mais vil de nós mesmos? Se odeia sua a alma, como ama sua carne? Quem ama a iniqüidade, odeia sua alma, e cobre sua carne de torpeza. Vós, que amais a iniqüidade, como queríeis que vos confiassem o próximo, para que vós o amásseis como a vós mesmos? Ó homem, por que vos perdeis? Se amais de modo a vos perder, não perdereis aquele a quem amais como a vós mesmos? Proíbo-vos de amar quem quer que seja; perecei , se desejardes perecer. Reformai vosso amor, ou renunciai toda sociedade.

 

 

Capítulo Quinto: O amor pernicioso ao próximo.

 

5. Talvez vós me dissésseis: Amo meu próximo como a mim mesmo. Compreendo-o perfeitamente. Desejais vos inebriar com aquele que amais como a vós mesmos. Gozemos a valer agora, bebamos o quanto pudermos. Reconhecei que é assim que vos amais, e que atraindo para vós o próximo, o convidais para o que vos agrada. Sentis a necessidade de usar aquele a quem amais para inchar o amor que tendes por vós mesmos. Homem demasiado humano, ou antes, homem cruel, que ama o que amam as bestas selvagens! Inclinou Deus em direção à terra a face dos animais, para que buscassem alimento; já a vós, ele vos elevou acima da terra, para tangê-la apenas com os pés. Quisera que vossa fronte se voltasse em direção ao céu. Que vosso coração não desminta o vosso rosto. Não tenhais a fronte altiva e o coração servil, antes escutai a palavra tão verdadeira quanto bela: Corações ao alto; não mintais dentro da morada da disciplina. Quando vos dirigirem esta palavra, respondei, mas que não seja mentira. Neste sentido é que deveis vos amar, e aí então amareis o próximo como a vós mesmos. Não é alçar o coração ao alto encarnar esta palavra: “Ama o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito”? Se existem apenas dois preceitos, não seria bastante formular apenas um? Um só basta, à condição que seja bem entendido. Com efeito, na Escritura encontramos as palavras referidas por São Paulo: “Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e ainda outros mandamentos que existam, eles se resumem nestas palavras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é o pleno cumprimento da lei”. Que é a caridade? A dileção. Como se nada houvesse dito a Deus acerca da dileção, deixa o Apóstolo entreouvir que a dileção ao próximo basta para o cumprimento da lei. Qualquer outro mandamento se encontra resumido, observado nesta palavra. Qual palavra? “Amareis ao próximo como a vós mesmos”. Eis o mandamento; todavia, disséramos que havia dois, nos quais se resumem toda a lei e os profetas.

 

 

Capítulo Sexto: Consiste a felicidade do homem em amar a Deus.

 

Vede como a lei continua a se restringir, e ainda somos negligentes! Eis que os dois preceitos de que falávamos se resumem a um só. Ameis ao próximo, e isso basta. Mas amai-o como vós vos amais, e não como vós vos odiais. Amai ao próximo como a vós mesmos, mas antes de tudo amais-vos vós mesmos.

 

6. Resta-vos saber como vos amais a vós, por isso escutai esta palavra: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e todo teu espírito”. O homem que não acredita em si, pode menos encontrar para si a felicidade. Uma potência essencialmente distinta do homem fez o homem; uma potência essencialmente distinta dele torná-lo-á feliz. Mas, infelizmente, como tem o firme sentimento de que não consegue ser feliz por si só, cai em erro ao escolher o objeto cujo amor torná-lo-ia feliz; ama-o, pois lhe parece que nisto encontra a felicidade. E nesta busca, que ama? A riqueza, o ouro, a prata, as posses; ou, para resumir em uma palavra, a riqueza. Com efeito, designa esse nome tudo que possuem os homens nesta terra, e que podem controlar. Seja o escravo, o vaso, o campo, o bosque, a manada, tudo são riquezas. Denominavam os antigos a riqueza como pécula, porque as manadas (pécus) eram toda sua riqueza. Lemos que os antigos patriarcas eram ricos em manadas. Ó homem, amais a riqueza; vós a contemplais como princípio de felicidade, prodigalizando para ela todo vosso amor. Se desejardes amar ao próximo como a vós mesmos, partilhai com ele as riquezas. Busquei saber quem éreis; agora, já vos vistes a vós, já vos examinastes e considerastes. Não estais dispostos a partilhar vossas riquezas com o próximo. Contudo, que me responde a diligente avareza? Que me responde ela? Se a partilho com alguém, será menor a minha parte, e a sua também; o meu amor se achará reduzido, nem eu nem ele possuiremos todo o tesouro. Mas visto que o amo como a mim mesmo, aspiro-lhe tantas riquezas quantas as que possuo; desta maneira, não serei privado de nada, e ele possuirá tanto quanto eu.

 

 

Capítulo Sétimo: A inveja é vício diabólico, oriundo do orgulho.

 

7. Desejais de modo a não perder coisa alguma; mais prouvera a Deus se vossa palavra fosse sincera, ou vosso desejo verdadeiro! Com efeito, temo que sejais invejosos. Se a felicidade alheia vos inquieta e tormenta, como será a vossa felicidade comum a todos? Começa vosso vizinho a enriquecer, a se elevar, a caminhar sobre vossos passos, não temeis que ele vos persiga e ultrapasse? Certamente, amais ao próximo como a vós mesmos. Não falo das vítimas da inveja. Que Deus os preserve desta triste doença do espírito todos os homens, sobretudo os cristãos; eis aí um vício de fato diabólico, do qual se tornou o demônio culpado, eternamente culpado. Pronunciando a sentença de condenação contra o demônio, não lhe disseram que cometera adultério, mas somente que usurpara o bem a outrem: porque caístes, levastes a inveja ao homem, que está de pé. É a inveja, pois, vício diabólico, cuja mãe é o orgulho. O orgulho é a mãe dos invejosos. Sufocai a mãe, e a filha não nascerá. Eis o porquê de Jesus Cristo ensinar com tanta humildade. Dirijo-me não aos invejosos, mas aos que alimentam bons desejos. Falo àqueles que desejam o bem a seus amigos, e lhe aspira na mesma medida que para si mesmos. Por exemplo, aspiram a que os pobres tenham fortuna semelhante a sua, mas se recusam em lhes dar parte dela.

 

Vós vos ensoberbeceis, cristãos, de aspirar ao bem dos outros? Mas o mendigo é superior a vós, porque em nada tendo deseja para vós mais do que tendes. Dignai-vos desejar o bem de quem nada lhe dá; antes, dai alguma coisa a quem lhe deseja o bem. Se for boa obra desejar o bem aos outros, dai-lhes a recompensa merecida. O pobre aspira ao vosso bem, por que tremeis? Vou mais longe: estais na morada da disciplina. Encareço o já dito: dai àquele que vos deseja o bem, pois este é simplesmente o próprio Jesus Cristo. Quem vos pede é o mesmo que vos dá. Enrubescei-vos de vergonha. Pudera este rico ser pobre, para que tivésseis sempre pobres a quem dar. Oferecei qualquer coisa a vosso irmão, ao vosso próximo, a vosso companheiro. Sois rico e ele, pobre. É este o caminho verdadeiro, não vos recuseis de o percorrerdes juntos. (continua...)

 

Tradução: Permanência