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O MOVIMENTO LITÚRGICO CATÓLICO
Michel Boniface,
Pbro.
Desde a
morte de São Pedro (+64) até o Papa Gregório Magno
(+604), a liturgia católica romana aperfeiçoa-se e chega
à sua maturidade. Vários santos Papas aprofundaram a
tradição dogmática e litúrgica e nos
legaram esta obra prima que é a liturgia. Depois da
decadência dos séculos XIV e XV e a
revolução herética protestante liderada po
sacerdotes hereges, a Igreja reagiu, fez a sua própria reforma
no Concílio de Trento (1545-1563), corrigiu os abusos e
confirmou a fé católica. O papa São Pio V promulga
o missal romano apoiando-se nos textos mais antigos, repelindo as
novidades, mas integrando tudo o que podia engrandecer e amparar a
fé católica no santo Sacrifício da Missa, contra a
heresia protestante que, ao invés, ataca a fé
católica na Missa.
No
século XVIII, algumas heresias disfarçadas --
ojansenismo, o quietismo -- debilitaram o catolicismo. Depois da
decadência do século XVIII e a feroz
perseguição contra o catolicismo, durante a
Revolução francesa (1789-1800) e as guerras de
Napoleão, começou a restauração
católica com todos os aspectos.
Neste
artigo e nos seguintes, trataremos brevemente da Liturgia nos
séculos XIX e XX. Veremos como num primeiro tempo houve uma
maravilhosa restauração católica da Liturgia;
depois veremos como esse movimento litúrgico se desviou de seu
plano inicial para tornar-se revolucionário sob a conduta de uns
pouco ideólogos e finalmente, como acabará fazendo uma
verdadeira revolução na liturgia, por meio do
concílio Vaticano II, e matará a Liturgia Romana,
fomentando uma confusão litúrgica à nível
mundial.
Dom Guéranger (1805-1875)
O monge
beneditino Dom Guéranger foi o principal restarurador da
Liturgia romana em França. A sua influência se
estenderá à Europa e, em seguida, por todo o mundo.
Escreveu três volumes sobre as Instituições
litúrgicas com o objeto de fazer conhecer, amar e restaurar a
liturgia romana, para dar ao povo católico a unidade de culto:
Para que
os fiéis aproveitassem os tesouros litúrgicos da Igreja,
escreveu também uma obra monumental em 9 tomos, chamada O Ano
Litúrgico. Nesta obra, que abrange todo o ano desde o Advento
até Pentecostes, Dom Guéranger se propõe
apresentar os tempos litúrgicos e a sua história, as
leituras e hinos traduzidos para uso e meditação de todos
os fiéis. Esta obra teve um imenso êxito, a tal ponto que
em alguns anos chegou a ser traduzida em vários idiomas e
alcançar os quinhentos mil exemplares.
Dom
Guéranger almeja os seguintes objetivos:
restauração dos ritos da liturgia romana frente às
várias liturgias locais e a introdução da Liturgia
no coração da vida cristã. No prefácio de O
Ano Litúrgico, o piedoso e sábio monge exprime-se assim
sobre o lugar da Liturgia na existência cristã: "A
oração é para o homem o principal dos seus bens.
Ela é sua luz, seu alimento, sua própria vida, pois
põe o mesmo em relaçãocom o próprio Deus,
que é simultaneamente luz, alimento e vida. Mas, pos nós
mesmos não sabemos orar como convém (...) Solenemente,
Jesus Cristo pôde enviar o Seu Espírito de graça e
de oração. O Espírito Santo está nesta
terra, na santa Igreja. A oração da Igreja é a
mais agradável ao ouvido e ao coração de Deus.
Jesus Cristo mesmo é o mediador do mesmo modo que é o
objeto da Liturgia. Nós não temos outra finalidade que
servir de interpretes à Santa Igreja; facilitar aos fiéis
que sigam na sua oração cada estação
mística, e incluso cada dia e cada hora" [1]
Para Dom
Guéranger, a Liturgia é, antes de mais nada, a
proclamação da fé, preces, louvor,
adoração, muito mais que ensino. A Missa é o
momento culminante da jornada e Dom Guéranger deseja que todos
possam unir-se à ação litúrgica. Demais, a
Liturgia é o intrumento da recristianização do
povo. A Liturgia transmite a fé dos nossos pais, rezamos como
rezavam, cremos o que criam, adoramos como adoravam, por esta
razão, a liturgia é tradicional.
Dom
Guéranger, humilde servo da Igreja, inculca o teocentrismo aos
fiéis, quer dizer, Deus está no centro da
ação litúrgica, tudo se dirige para Deus. O erro
fatal dos revolucionários na Liturgia será o de colocar o
homem no centro da Liturgia, o de fazer uma obra meramente humana, que
afasta os homens da prática religiosa, porque agora não
encontram o misterioso, o divino na liturgia.
O
beneditino Dom Froger escreve: "Dom Guéranger redescobriu a
liturgia. Discerniu sem vacilar o que constitui a sua essência:
culto público pelo qual a Igreja, sob a moção do
Espírito Santo que a anima e reza nela com gemidos
inenarráveis, canta a Deus a sua fé, a sua
esperança e a sua caridade. Sem desconhecer de nenhuma maneira o
valor formativo e educador desta oração para os
fiéis que a exercitam, Dom Guéranger considerava com toda
a justiça que a Liturgia, sendo o sacrifício espiritual,
tem por fim supremo o louvor, e que canta a Glória de Deus de
maneira desinteressada e no esquecimento de si. Antes de tudo, a
expressão de sentimentos de fé, de confiança, de
amor, de alegria, de esperança... a Liturgia não pode
senão recorrer ao canto, à música, à
poesia, única linguagem capaz de traduzir seus transportes
e sua `sólida embriagues`. Assim, pois, a liturgia é
lírica muito mais que didática" [2]
A herança de Dom Gueranger
Dom
Gueranger fundou a abadia beneditina de Solesmes em França. Ali
se formaram mestres em Liturgia e em canto gregoriano; aí se
publica o Liber usualis, livro de umas 2000 páginas que
contém todas as missas das festas, domingos e santos com suas
notas musicais em latim. O padre Emmanuel, por meio da liturgia,
cristianiza a tal ponto a sua paróquia, que dois conventos se
enchem, todo o povo canta o Próprio da Missa em gregoriano.
Mas tarde
na Alemanha, seguindo o espírito de Solesmes, em 1863,
reconstitui-se a abadia de Beuron com o desejo de pôr em destaque
a importância da vida litúrgica na
santificação dos cristãos. Os monges de Beuron,
discípulos de Dom Guéranger fundam a abadia de Maredsous
na Bélgica, em 1872. A abadia de Maredsous publica o primeiro
missal manual para os fiéis.
Os monges
beneditinos, educadores e civilizadores da Europa, exaltam a
oração litúrgica onde os fiéis encontram a
fonte da vida cristã e uma mina inesgotável de
ensinamentos. Querem recuperar as fontes do culto cristão e
conseguir que o povo participe ativamente na Liturgia, especialmente na
Santa Missa, que é obra litúrgica por excelência.
Publicam missais bilíngues: latim-alemão,
latim-francês, latim-espanhol, latim-inglês etc. Assim,
todos os católicos do mundo podiam rezar e cantar seu Credo
juntos, posto que cada uno tinha o seu missal no seu idioma e em latim,
o idioma comum dos católicos romanos. Isto dava uma
coesão, uma unidade e uma força que nenhuma seita poderia
ter. Desde a China, passando pelo Japão, Índia,
Rússia, Europa, até às Américas e
Austrália, um católico podia seguir a santa Missa no
mesmo rito, com os mesmos cantos, com a mesma liturgia, como se
estivesse na sua própria paróquia. Havia um idioma
católico: o latim.
Dom Gaspar
Lefebvre, discípulo de dom Guéranger, tornou-se famoso
publicando o maravilhoso missal diário e vesperal, primeiro em
latim-francês, depois em outras línguas.
Em 1920,
publica A Liturgia, seus princípios e fundamentos. Esta obra
pode ser considerada como a carta magna do Movimento Litúrgico
autenticamente católico.
O cardeal Schüster, ex monge beneditino, escreveu o Liber sacramentorum, um estudo profundo sobre o ano litúrgico.
O cardeal
Dubois funda em Paris o instituto gregoriano. Em 1920, uns 500.000
jovens aprendiam o canto gregoriano nas escolas católicas dos
Estados Unidos. em Espanha, as abadias de Silos e Montserrat participam
deste fecundo movimento.
O labor
destes monges restauradores da Liturgia é admirável.
Publicam revistas que explicam o que é a Liturgia e põem
todos os seus tesouros ao alcance dos sacerdotes e dos fiéis.
Multiplicam-se os congressos eucarísticos. O povo
católico aproveita a Liturgia. O próprio Papa
intervém com a sua autoridade papal.
Os papas São Pio X e Pio XII
O Papa
São Pio X (1903-1914), desde o início do seu pontificado
quis restabelecer o canto litúrgico autêntico da Igreja, o
canto gregoriano, e confia esta restauração à
abadia de Solesmes. No seu Motu Proprio sobre a música sagrada
de Outubro de 1903, Tra le sollicitudini,
disse: "Sendo nosso mais vivo desejo que o verdadeiro espírito
cristão floresça de múltiplas formas e se mantenha
entre os fiéis, é necessário prover antes de tudo
à santidade e à dignidade do templo onde se congregam os
fiéis, precisamente para beber este espírito da fonte
primeira e imprescindível: a particpação ativa nos
mistérios sacrossantos e na oração pública
e solene da Igreja".
Para
aproveitar melhor da Liturgia publica vários decretos sobre a
Eucaristia, permite que os jovens, assim que tenham uso da
razão, se aproximem da Santa comunhão.
Em 1905, mediante o decreto Sacra Tridentina Synodus, estimula os fiéis à comunhão diária:
"Jesus
Cristo e a Igreja desejam que todos os fiéis, cada dia, se
aproximem do banquete sagrado (...), a fim de que recebam força
para dominar as suas paixões, e se purifiquem das suas faltas
veniais que possam se apresentar cada dia, e que aqueles que
estão expostos à fragilidade humana, possam evitar as
faltas graves"
O Papa Pio XII (1939-1958) nos deu a maravilhosa Encílica Mediator Dei acerca da liturgia.
Este
grande Papa fez também a reforma da Semana Santa, da
Vigília da Páscoa, preparou a reforma do Breviário
e do Missal que João XXIII promulgou em 1962. Tudo isto se fez
sem precipitações, segundo a prudência da Igreja
romana.
Em resumo,
na sua primeira etapa, o Movimento Litúrgico, guiado por homens
impregnados da fé católica, humildes, sábios,
tinha dado excelentes frutos, tinha a possibilidade de fazer maravilhas
porque estava arraigado na Tradição católica
autêntica. No entanto, o homem inimigo semeou o seu joio no meio
da boa semente. Uns poucos homens, desviando-se, derrubaram esta obra
magnífica, "arrastando na sua queda quase todo o edifício
da Igreja" [3]
No capítulo seguinte, veremos a origem deste desastre.
(REVISTA SEMPER, no. 95, maio-junho de 2008)
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[1] Maurice Brouard, Enciclopédia da Eucaristia, Bilbao, Desclée de Brouwer, 2002, pág. 357.
[2] Pde. Didier Bonneterre, O Movimento Litúrgico, pág. 23.
[3] Pde. Didier Bonneterre, O Movimento Litúrgico, pág. 32.
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