A OUTRA FACE DE SANTA TERESINHA

Lúcia Benedetti

Traços delicados, rosto de uma beleza suave, um leve sorriso. Uma jovem carmelita segurando um crucifixo: eis a Santa Teresinha de todos nós, aquela que nos habituamos a ver na Igreja, nos livros e, sobretudo, dentro de nós mesmos.

Toda essa suavidade era acompanhada de uma literatura que fazia aumentar ainda mais o aspecto irreal de Teresinha.

Sendo uma santa contemporânea, o renome de sua santidade, entretanto, era de tal vulto, que em poucos anos o mundo inteiro a conhecia. E a conhecia assim. Um anjo que passara pela terra, distribuindo rosas. O gosto pelo “fru-fru” e as novelas açucaradas tinham atingido a santinha. Ela se transformara no protótipo da água com açúcar dos conventos. Algumas pessoas começaram a estranhar que uma santa tão mal equipada de méritos, estivesse incluída no calendário cristão. Torceram o nariz.

O seu livro “História de Uma Alma” começou a ser lido com espírito crítico. Eis o que diz Ida Görres, no seu notável livro sobre a santa: “Sejamos sinceros, qual o cristão vulgar do século XX que não se sente desapontado ao ler, pela primeira vez, a ‘História de Uma Alma?’ Qual de nós gostou espontaneamente desse livro, sem que a nossa consciência intranqüila nos levasse, modestamente, a atribuir essa desilusão à nossa própria inferioridade?”.

Essa queixa de sua hagiógrafa tem sua razão. Como literatura propriamente dita, “História de Uma Alma” trazia uma contribuição mais para o lado de Delly do que de Proust. Quanto ao conteúdo parecia diluído, uma mensagem, sim uma mensagem, mas como extraí-la do meio de tanta miudeza, de tantos “ahs” e “ohs” ? “De início o livro não apresenta nenhum indício de grandeza”.

De início, dizemos. Como esse livro é pequeno e dolorosamente insignificante. É como se tivéssemos de nos abaixar para entrar num mundo onde tudo é representado em dimensões reduzidas, onde tudo é pálido, suave, frágil, como as rendas que a mãe da santa executava” (Teresa de Lisieux, Ida Görres).

No entanto daquele mundo que era “uma sala acanhada da classe média, cheia de bibelôs”, ia nascer a doutrina teresiana, doutrina que renovaria o espírito de penitência e criaria uma nova força, dentro do mundo cristão.

Bem precisado disso andava o mundo. Não somente o mundo religioso, como o outro, aquele dentro do qual vivemos todos religiosos ou não. É verdade que nosso velho mundo jamais oferece qualquer originalidade: volta e meia está decadente.

A doutrina da infância espiritual chega num instante em que o velho mundo, como sempre, arqueja. A figura suave e doce de Teresinha é uma claridade no coração de toda gente.

“Quem poderia imaginar que no início do nosso século, uma tal onde de veneração, de amplitude mundial, por uma santa, seria possível no seio da Igreja! Na verdade, o culto dos santos parecia na iminência de ser relegado para o campo do ‘paganismo’ católico, isto é: para um domínio coberto de ridículo, como era o dos conventos, das aldeias, da devoção infantil, dos crentes ‘ignorantes’ e ‘reacionários’. O católico culto via-se obrigado a explicar o culto com uma certa indulgência e embaraço, como uma certa sobrevivência e uma curiosidade tolerada, análoga, aos costumes tribais de uma reserva de índios” – E continua Ida Görres, com agudo espírito analítico que Deus lhe deu: “No entanto, esse movimento, nascido nos anos de mais esmagador materialismo de classe média, irrompia da decadência religiosa, da indolência e do vácuo, do período anterior à guerra”.

Não sei se tiveram a mesma impressão que eu, mas ao ler isso tive que voltar à literatura para verificar se a autora estava se referindo ao século dezenove ou a este final de século vinte. Todos aqueles sintomas voltam à tona em toda a Igreja. Puseram lantejoulas e um rótulo novo: chama-se “Igreja Moderna”. No fundo é aquilo que sabemos.

Foi contra o farisaísmo demoníaco de uma época que o Senhor lançou esse livrinho de aparência pálida e sem valor e a figurinha suave e lírica de uma carmelita segurando rosas.

Uma bomba atômica não teria sido mais eficiente. É talvez um pouco desconcertante a figura da guerreira que o Senhor chamou a seu serviço para sustentar o estandarte da fé e combater o ateísmo. Porém, figura melhor não fez David quando lançou a queixada de burro contra o gigante Golias.

O “Caminho da Infância Espiritual” era aparentemente uma coisa fácil e a Santa, uma santinha medíocre. A investigação sistemática do “pequeno caminho” mostrou que era um caminho heróico. Quanto à santinha, pouco a pouco foi revelando uma nova face. Debaixo daquela montanha de pétalas e plumas emergia uma figura de impressionante fortaleza.

Cabe aqui, agora, lembrar que há muitas almas desprevenidas quanto ao caminho da santidade. Estivéssemos nós vivendo em tempos mais amenos eu tocaria a história para frente sem me deter nisto. Mas, como estamos vivendo os mesmíssimos problemas do século dezenove e de outros séculos, é bom fazer uma pequena pausa. Santos e santidade estão sempre enrolados com romantismo. O santo nada tem de romântico. Ele é um ser que aceitou a espada de Cristo, está combatendo, quase sempre contra sua própria pessoa. Essa pessoa que quer crescer e se agigantar, matando por completo o Cristo que há nele, o “homem novo” que surgirá de uma escultura de mortificações, orações, trabalhos e sofrimentos. Assim, muitos pensam que santos já nascem santos, sem ambições, sem amor próprio, gostando somente de servir e nunca ser servido. E que entre orações e visões maravilhosas, um dia, sobem aos céus e começam a fazer milagres. Essa perigosa imagem, tentaram dar a Teresinha. Entretanto, só Deus sabe o quanto lhe custou subir, passo a passo, o seu pequeno caminho. Julgam que foi uma criança sem defeitos, um anjo sem problemas. Eis aqui um depoimento, de certa forma autêntico, mas, romantizado: “uma criança cujo olhar meigo e penetrante, longas madeixas louras e angélico sorriso, lembrava a aparição de um querubim” (P. Feitosa “Santa Teresinha”). E agora a carta de Zélie Martin, mãe de Teresinha, à sua filha mais velha Paulina, então no internato em Mans: “Sou obrigada a corrigir essa pobre criança que se deixa levar por crises de furor espantosas, quando as coisas não lhe correm bem”.

É verdade que possui uma inteligência superior, que é meiga e afetuosíssima. Mas, não isenta de defeitos. E os defeitos a fazem sofrer. Quando se convence de que cometeu uma falta, chora, pede perdão, fica transtornada. Mas, logo depois torna a cair em falta. A criança amada, mimada por todos, parece ter tido uma infância cor de rosa, sem lagrimas, toda doçuras. Mas no limiar dos quatro anos, a irmã mais velha que partiu para o convento, e mais tarde, aos onze anos, a segunda carmelita a partir Paulina tudo a faz sofrer intensamente. A criança sensível bebe o cálice amargo, até adoecer de dor.

No dia vinte e nove de julho de 1897, sua irmã lembrava que uma freirinha comentara: “Não sei porque se fala de Teresinha como uma santa. É verdade que ela praticou a virtude, mas não foi uma virtude adquirida pelas humilhações e sofrimentos”. E Teresa, já bem perto da morte respondeu: “E, no entanto eu sofri tanto, desde a mais tenra infância!...” (Novíssima Verba, Notas de Madre Inês de Jesus).

E eis o quadro da infância sem nuvens dissipado, e a cruz de Cristo pendendo sobre os ombros fracos de uma menininha de olhos azuis e cabelos louros, mas de caráter resoluto e “teimosa” como ninguém, conforme dizia sua própria mãe.

Mas, em tudo é preciso andar com cautela. O perigo de se querer levantar o véu de uma criatura estereotipada como um anjo terreno está no fato de, com o ímpeto, irmos parar do outro lado, como quem dá um salto violento e mal calculado. Seria horrível se em lugar dessa figurinha suave e quase incolor surgisse uma megera feroz. Deus nos livre. Assim também Teresa criança que “lembrava um querubim”, não devemos ver o oposto, isto é, uma criança indomável, voluntariosa e mimada. Ela foi, antes de tudo, inteligente e sensível.

Da mesma maneira que seu caráter poderia sofrer uma distorção se nos atirássemos para o lado oposto, também fisicamente Teresinha seria prejudicada em um julgamento drástico.

Convencionalmente, era uma moça belíssima. Vê-se pelas fotografias que foi bonita, de fato, alta, de porte elegante, olhos azulados e cabelos louros. A adolescente que o Papa Leão XIII teve aos seus pés era de fato, linda.

Teria a adolescente traído a garota que aos nove anos dizia “quero ser religiosa”? Não traiu.

Teresa Martin estava se desenvolvendo firme e seguramente para a santidade. Ela pisava o caminho dos pequenos sacrifícios. Um sacrifício da bonita Teresa Martin era jamais se olhar ao espelho. Podiam dizer dela o que quisessem. Não ia buscar confirmação no espelho, de jeito nenhum. Só Deus – que fez a mulher é que pode avaliar o quanto isso lhe custou.

Fazer violência sobre si mesma era um exercício que sabia ser necessário enquanto vivesse. E foi fazendo violência sobre si mesma que contou ao pai seu desejo de se tornar carmelita, ainda que se desmanchando em lágrimas.

Mas a grande violência, aquela que a faz tremer, - foi quando, obedecendo à sugestão da Madre Superiora do Carmelo, Madre Marie de Gonzague, a menina ousou quebrar o protocolo, desobedecer às instruções do Mestre de Cerimônias e falar ao Papa:

Em honra de Vosso jubileu, deixai-me entrar para o Carmelo aos quinze anos de idade!

Choque. Escândalo. Reprimendas. Teresinha suava por todos os poros, mas obedeceu às irmãs. Era para falar? Falou. Queria deixar o mundo, imolar-se por amor de Deus, para salvação das almas, mas principalmente, pelos sacerdotes.

Era uma adolescente de quinze anos que abominava a vida e este mundo que a tantos seduzia? Nada disso. Eis o que diz Jean François Six (“La véritable enfance de Thérèse de Lisieux”, pág. 266): “Durante a viagem, Teresa queria ver tudo ‘eu gostaria de poder estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão para não perder nada!’” A beleza da paisagem a arrebatava e a jovem extasiada sorvia aquele instante de maravilhamento. Como toda criatura sensível, amava as flores, os prados, os montes, os rios e o largo céu azulado. Como uma heroína, também isso queria sacrificar, por amor de Deus e de seus amados sacerdotes. E muitas vezes, penso comovida, que deve ter havido tanto ingratidão por esse lado, que mesmo no céu, Teresinha deve ter repetido o seu exercício de perfeição “é preciso dar, sem esperar nada em troca”. Nada, pode significar até mesmo ofensas e desprezo, pois o que há de negativo no nada, está incluído nessas palavras.

Do seu famoso livro “História de Uma Alma”, que ela escreveu “sem se preocupar com o estilo” (Manuscrits autobiographiques) muito se falou e muito se falará ainda. Foi também um ato de heróica obediência que a levou a escrevê-lo. A principio há um toque de amenidade em seu trabalho. No seu depoimento publicado pelo Carmelo de Lisieux, Maria Paulina, segunda mãe de Teresa, conta detalhadamente como se deu o fato. Durante uma hora de recreação, no convento, as irmãs rememoravam incidentes da infância e Teresinha narrava com tamanha graça os acontecimentos daquele tempo que Maria, a Irmã do Sagrado Coração, pediu á Superiora que lhe ordenasse escrever aquelas histórias. Só assim, um dia, poderiam lembrar carinhosamente um tempo que se fora e que tanta saudade deixara. Era então Superiora do Carmelo a própria Paulina, então Madre Maria Inês. Atendendo ao pedido da irmã, ordenou a Teresinha que escrevesse as lembranças de sua infância, conta a Madre que Teresinha obedeceu, utilizando para isso suas horas vagas, os momentos que lhe pertenciam e que, em geral, as freiras prezam imensamente. Feito o trabalho entregou-o à Madre que ocupadíssima deixou-o meses e meses, num estante, sem sequer olhá-lo. Teresa jamais lhe perguntou se havia lido ou não.

O pedido feito em dezembro de 1894 e a entrega feita em janeiro de 1896. Dois anos depois. O que significa que Teresinha tinha poucos momentos de folga e que, embora lentamente, cumpriu a ordem, entregando o trabalho por ocasião da festa da Madre Superiora.

Um dia a doença a colheu, e Teresinha começou a dar sinais de que iria partir para o que ela sempre considerou sua verdadeira pátria: o céu. Madre Maria Inês não era mais superiora do Carmelo. A leitura daqueles primeiros trabalhos de Teresinha, lhe davam um depoimento da infância e adolescência. Mas como religiosa, pouca coisa havia ali. Então, aproximando-se da atual Superiora, repetiu o que sua irmã havia feito há anos atrás: pediu-lhe que ordenasse a Teresa que prosseguisse com os escritos e que desse um testemunho mais vivo da sua fé e de seu caminho espiritual. No dia 12 de junho de 1897, pouco mais de três meses antes de sua morte, Teresinha, por obediência, voltou ao trabalho. Todos sabem que as últimas páginas foram escritas a lápis, numa letra trêmula, num esforço que só Deus poderia explicar.

Depois da sua morte, começou a grande obra desse livrinho e também a grande polêmica em torno dele. Ida Görres no seu estudo sobre Teresinha, declara que foram feitas nada menos que sete mil correções. Isso fez com que de repente, todo mundo começasse achar que o livro era “outro”, coisa apócrifa, inventada pelas freiras. Foi preciso restaurar, dar-lhe a forma original, e, por fim, aos olhos dos desconfiados leitores, surgiu aquilo mesmo que era antes. Muito severa, muito aguda, Ida Görres tem um comentário irônico sobre a celeuma levantada em torno das correções: “alterando levemente a forma, em nada alteraram o conteúdo”. Sob esse aspecto a grande hagiógrafa alemã é cem por cento a favor da coordenação, do arranjo e da apresentação. Ela acha que seria impossível ler aquela “coisa caótica”, num tempo em que o nome de Teresinha e sua doutrina eram desconhecidos.

Entretanto, pesquisando os manuscritos e comparando a publicação oficial com os seus escritos, diz Ida Görres: “Os manuscritos em ‘fac-simile’ não nos trazem revelações sensacionais, nem alterações substanciais à nossa imagem da santa. A este respeito, a montanha deu à “luz um rato”.

Por outro lado, as fotografias de Teresa também oferecem margem a mil contradições. Muita gente tomou, e era natural, os desenhos de Celina pelas fotos autênticas. Por outro lado as fotos em que Teresa parecia mesmo linda eram dadas como muito retocadas. Pelo que ela corre ainda o risco de ser considerada uma mulher feia e braba. Valha-me Deus, era mesmo como toda moça bonita, às vezes a fotografia exagerava para um lado, outra vez para o outro. Como todo mundo. Nem nisso Teresinha fugiria ao corriqueiro. Às vezes bem, outras vezes mal. Mas, o que se pode notar em todas elas, é sem dúvida o traço marcante de sua personalidade, uma espécie de firmeza, de beligerância contida. Aquele rosto de nova reformadora do Carmelo, da menina que veio para confirmar a reforma de Teresa de Ávila, da guerreira a quem o Senhor entregara a defesa de seu reino devastado pelas heresias. Vendo-a tão jovem, tão bela, tão silenciosa, quem havia de dizer? Ninguém. Nem mesmo depois de sua morte, quando a santidade era comentada, havia quem não entendesse bem a história. Entre eles, o jesuíta Konstantin Kampf, 1929, dedica um lugar muito modesto à irmã Teresa entre cinqüenta e quatro fundadores de ordens modernas e sete religiosas notabilizadas por estigmas e visões.

Do livro de Kampf, talvez uma dúzia de figuras santificadas e apresentadas por ele, sejam conhecidas. Mas Teresinha suplantou enormemente a todos. Que estranho, que espantoso mistério, a vontade de Deus.

Por ocasião das festas da canonização, o Jesuíta Padre Rubillon foi o infatigável pregador da devoção à santa. O Brasil disse presente, às manifestações de louvor.

Os ossos de Teresinha repousam numa urna de prata, oferecida pelos brasileiros. Foi nessa urna, guarnecida de pedras preciosas do Brasil que seus despojos desfilaram em triunfo pelas ruas de Lisieux. Padroeira secundária da França, Padroeira das Missões, mestre de santidade, Teresinha parece ocultar toda sua grandeza para estar sempre perto de nós, como uma de nós, pequena e amiga. Mas, dessa criatura humilde e fiel, diante de cinqüenta mil católicos o Papa Pio XI disse:

“Para honra da Santíssima Trindade e de cada uma das Pessoas Divinas, para exaltação da fé católica, e aumenta da religião cristã, por autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, depois de madura deliberação e tendo reiteradas vezes implorado o auxílio divino e tomado conselho com os cardeais da Santa Igreja Romana, patriarcas, arcebispos e bispos, presentes nesta cidade de Roma declaramos Santa a beata Teresa do Menino Jesus como tal a definimos e inscrevemos no catálogo dos Santos, ordenando que todos os anos, no dia de seus nascimento para o céu, isto é, a 30 de setembro, se comemore festivamente na Igreja Universal, sua piedosa memória. Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo, Amém”.

Assim será, pelos séculos dos séculos.

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