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A URNA ESPIRITUAL
Do P. Fr. Sebastião de Sta. Maria: Este verdadeiro religioso, capucho da província de S. José, sendo uma vez
repreendido pelo prelado com rigor, e sem culpa sua, ficou não somente quieto
mas alegre. Perguntado pela causa disto, respondeu: Não quer, irmão, que
esteja alegre um pobrezinho a quem Deus faz digno de padecer alguma coisa por
seu amor?
CRISE
E SINÔNIMO
Este
espírito era verdadeiramente apostólico; pois dos sagrados apóstolos escreveu
S. Lucas: Ibant gaudentes a conspectu concilii, quoniam digni habiti sunt pro
nomine Jesu contumeliam pati: Saíram alegres e gozosos da presença
dos ministros juntos em conselho, considerando a dignação com que os honrara
Cristo em lhes dar que padecer por seu nome. Procede este rio da alegria de três
fontes ocultas no espírito do que é verdadeiro servo de Deus: a saber, inocência,
humildade e caridade. Porque a inocência não acusa por dentro: Secura mens
quasi juge convivium; a humildade folga de ser acusada de fora: Ludam,
et vilior fiam quam factus sum, et ero humilis in oculis meis; e a
caridade estima achar meio proporcionado para mais se unir um com Cristo,
sofrendo o próximo: Communicantis Christi passionibus gaudete.
Esta
dignação de comunicar Cristo a seus servos alguma parte de sua cruz é tanta e
tão estimável e preciosa que uma vez disse o mesmo Senhor a B. Baptista Verana
estas palavras: “Lembra-te que maior demonstração de meu amor te dei
quando te pus em aflição do que quando te apertava entre meus braços dulcíssimos.
Porque grande benefício é livrar eu uma alma de pecados; maior dar-lhe obras
santas em que me sirva; porém máximo dar-lhe que padecer por mim.” Bastava
esta sentença do Senhor para levantar o coração humano à estimação e
desejos de participação de sua cruz. Somos, porém, os filhos de Adão tão
pesados e terrenos e tão como hereges neste artigo principalíssimo da vida
espiritual que me pareceu útil (além desta definição do Sumo Pontífice
Cristo Jesus) ajuntar-lhe um como concílio dos votos de muitos santos e varões
apostólicos, uniformes todos na asserção desta verdade. Poderá ser que
unidos obrem mais fortemente este desengano no coração de algum afligido e
convertam algum mau ladrão, que pena em cruz com repugnância à mesma cruz.
URNA dos votos e pareceres dos santos e varões espirituais sobre a excelência do padecer por amor de Deus.
Voto do príncipe dos apóstolos S. Pedro: Si exprobramini in nomine Christi, beati eritis; quoniam quod est honoris, gloriae, et virtutis Dei, et qui est ejus spiritus, super vos requiescit. Se vos afrontarem ou desprezarem por amor de Cristo, sereis bem-aventurados, porque o que é de honra e glória e virtude de Deus em vós mora e descansa com o seu espírito. Do
apóstolo e doutor das gentes S. Paulo: Mihi autem absit gloriari, nisi in
Cruce Domini nostri Jesu Christi, per quem mihi mundus crucijixus est, et ego
mundo. Guarde-me Deus de gloriar-me, salvo na cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
De
Sto. André apóstolo: O bona Crux, diu desiderata, solicite amata, et
sine intermissione quaesita, et jam concupiscenti animo praeparata, securus et
gaudens venio ad et; suscipe me ab hominibus, et redde me Magistro meo, ut per
te me recipiat, qui per te me redemit. Ó boa Cruz, muito tempo há
suspirada, solicitamente amada, e sem intermissão procurada, e já em fim para
meu ansioso ânimo preparada, seguro e alegre venho a ti; tira-me do mundo, e
entrega-me a meu Mestre, para que por ti me receba quem por ti me remiu.
De
Santiago apóstolo: Omne gaudiam existimate, fratres mei, cum in tentationes
varias incideriris, scientes quod probatio fidei vestrae patientiam operatur;
patientia autem ojus perfectum habet. Quando, irmãos meus, se vos
oferecerem vários trabalhos e ocasiões de padecer, ponde-as na conta das de
alegria e festejo, certificados de que a prova da vossa fidelidade gera paciência
e por esta adquirimos a perfeição.
De
Sto. Inácio mártir, patriarca de Antioquia: Utinam fruar bestiis, quae mihi
sunt praeparatae; quas et oro mihi veloces esse ad interitum, et ad supplicia,
et allici ad comedendum me, ne sicut aliorum, et Martyrum, non audeant corpus
attingere. Quod si venire noluerint ego vim faciam, ego me urgebo, ut devorer:
Ignoscite mihi, filioli, quid mihi prosit ego scio. Oxalá chegue eu a gozar
das bestas feras que me estão aparelhadas (era levado a Roma para padecer ali
martírio). A Deus rogo que se apressem em dar-me tormentos e tirar-me a vida e
que tenham fome de mim, para me comerem; não suceda como a outros mártires,
cujos corpos não ousavam tocar. Mas, se não quiserem chegar-se, eu me
chegarei, eu as instigarei e obrigarei a que me traguem. Perdoai-me, filhinhos;
eu sei o que me importa.
De
S. Teodoro mártir, falando com os verdugos: Se algum dos meus membros ficar
por atormentar, ficará por consagrar-se: quero ser atormentado para ser todo
sagrado.
De
S. Cipriano, bispo e mártir: Non invenio, fratres, inter caeteras caelestis
disciplinae vias quibus ad consequenda divinitus paemia, spei, ac fidei nostrae
secta dirigitur, quid sit utilius quam ut patientiam tota observatione tueamur. Entre
todos os caminhos da celestial doutrina por onde a religião cristã se
encaminha, em fé e esperança, a conseguir os divinos prêmios, nenhum acho,
irmãos meus, mais proveitoso do que aplicarmo-nos com todo o estudo à paciência.
De
S. Gregório papa: Beatus Job, quot voces patientiae in laudem Dei percussus
reddidit, quasi tot in adversarii pectore jacula intorsit; et acriora multo quam
sustinuit, inflixit. Quantas palavras de sofrimento e louvor de Deus
pronunciou o santo Job em seus trabalhos, tantas lanças pregou no coração de
seu adversário, e, se foram fortes e agudas as que lhe aparou, muito mais o
foram as que revirou contra ele.
De
S. Leão papa: Certa, atque secura est expectatio futurae beatitudinis, ubi
est participatio Dominicae Passionis. Quanto entramos à parte dos trabalhos
da paixão do Senhor, tanto pomos na certeza e segurança da glória que
esperamos.
De
Sto. Ambrósio, doutor da Igreja: Quid magnum facis, si quando in secundis
rebus laudes Deum; quando in divitiis es, quando nullis vexaris injurii? Illud
est magnificam, si sub jectus injuriis, et contumeliis, judicium Dei laudes. Que
muito fazes em louvar a Deus, quando vives em prosperidade, quando em abundância,
quando sem vexação nem injúria de alguém? Louvar o juízo de Deus quando nos
injuriam em seus juízos os homens, isto sim que é digno de estimação.
De
Sto. Agostinho, sol da Igreja: Appendo id quod patior contra id quod spero. Hoc
sentio, illud credo, et tamen plus est quod credo quam quod sentio. Ponho
em balanças o mal que padeço com o bem que espero: o mal me toca no sentido, o
bem toco eu com a fé; porém muito mais é o que creio que o que sinto.
Do
doutor máximo S. Jerônimo: Christianorum proprie virtus est, etiam in his
quae adversa putant, referre gratias Creatori; nam in beneficiis Dei, quae nobis
accidunt, gratulari, hoc, et Gentilis facit, et Judaeus. E virtude própria
dos cristãos dar graças ao Criador, ainda quando padecem as que chamam
adversidades, que dá-las só quando nos vai bem, isso faz qualquer gentio ou
judeu.
De
S. João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, falando de S. Paulo preso por
amor de Cristo: Siquis mihi, vel universi Caeli, vel hujus catenae copiam, et
optionem largitus esset, catenam hanc ego plane elegissem. Si mihi cum Angelis,
et iis qui prope thronum Dei sunt, standum fuisset sursum, aut cum Paulo vincto,
carcerem utique praeoptassem. Se alguém pusesse na minha mão a escolha ou
de todo o empíreo ou desta só cadeia, antes elegeria a cadeia do que o empíreo.
E, se houvesse de estar em um de dois lugares, ou lá nas alturas com os anjos
junto do trono de Deus ou no cárcere com Paulo, por esta companhia renunciara
sem dúvida aquela outra. E depois, falando do anjo que soltou a S. Pedro
aprisionado por Herodes: Si mihi quispiam dixisset: Elige utrum velis: vis
esse angelus Petrum solvens, an Petrus vinctus: Petrus utique esse maluissem. Se
alguém me dissesse: Escolhe qual queres, se ser o anjo que soltou a Pedro, se
Pedro antes de solto, quisera ser antes Pedro do que anjo. Do
angélico doutor S. Tomás: Patientia possessori suo mala convertit in bona. A
quem tem de seu o cabedal da paciência, esta lhe troca os males em bens.
Do
seráfico S. Boaventura, doutor da Igreja: Patientia singularis est
retributrix Passionis Christi. Talia enim studet rependere, qualia ab eo accepit,
qui dolores nostros portavit, et haec est singularis laetitia Sanctorum in
tribulatione patientium, et gaudentium, quod sic occasionem habent, et
opportunitatem aliquo modo retribuendi Domino pro illa magna charitate, qua pro
no bis animam suam posuit, saltem aliquid sustinendo. A nossa paciência é
o singular retorno da paixão de Cristo, pois procura pagar-lhe na mesma moeda,
que é padecer por amor de quem por nosso amor tomou em si nossas dores. E aqui
se funda a particular alegria e consolação que os santos acham no padecer,
porque assim logram ocasião oportuna de corresponderem no seu tanto àquela
imensa caridade do Senhor com que por nós pôs a vida.
De
S. Lourenço Justiniano, patriarca de Veneza: Qui putantur crucem portare,
sic portant, ut plus habeant in crucis nomine dignitatis, quam in passione
supplicii. Os que levam cruz, mais lhes fica de honra e dignidade por levá-la
do que de tormento por padecê-la.
De
S. Bernardo, abade: Semper lignum Crucis vitam germinat, balsamum sudat
spiritualium charismatum. Non est silvestris arbor; lignum vitae est
apprehendeniibus eam; arbor frugifera, arbor salutifera est. O
lenho da cruz sempre está brotando vida e suando o precioso bálsamo dos
espirituais dons e graças. Não é árvore silvestre, senão dá vida aos que
dela se aproveitam; é árvore de fruto, e fruto de salvação eterna.
De
S. Nilo, abade: Si ignominia affectus fueris, gaude; si injuste, merces tua
copiosa erit; si vero juste, et resipueris, jam liberatus et a flagello. Se
padeceres ignomínia, alegra-te, porque, sendo injusta, aumentas o prêmio e,
sendo justa, abates o castigo.
De
S. João Clímaco: Beatus qui propter Deum quotidie maledictis, et convitiis
lacessitus sibi vim fecerit; hic enim Martyribus tripudiantibus, et Angelis
parem confidentiam, et gloriam merebitur. Ditoso o que se faz violento para
levar bem as murmurações e afrontas e pragas, ainda que o provoquem cada dia,
porque ele ganhará confiança e glória igual à dos mesmos anjos e mártires,
que saltam de contentes.
De
Sto. Antônio de Lisboa, língua bendita do Senhor: A paciência na tribulação
é lâmina de ouro em que se mostra esculpido o inefável nome de Deus.
Do
patriarca Sto. Inácio de Loiola: Se houvera umas balanças que de uma
parte tiveram todas as coisas criadas e da outra cadeias, cárceres, afrontas,
testemunhos falsos, aquela nada pesaria no meu conceito, nem criatura alguma
pode gerar tanto gozo como a cruz a quem a leva.
De
S. Filipe Néri, fundador da congregação do Oratório: Não pode suceder a
um cristão coisa mais gloriosa que padecer por Cristo, e a quem deveras ama a
Deus não pode acontecer coisa de maior desgosto que não se lhe oferecer ocasião
de padecer por ele, porque a maior tribulação que pode ter um amigo de Deus é
carecer de toda a tribulação. E, quando alguém lhe dizia que não podia
sofrer as adversidades, respondia: Antes deveis dizer que não sois dignos de
tanto bem, porque não há sinal mais certo nem mais claro do amor de Deus do
que a adversidade e trabalho.
Do
beato Fr. João da Cruz, primeiro carmelita descalço: Que sabe quem por amor
de Cristo não sabe padecer? Quando se trata de trabalhos, quanto maiores e mais
graves são tanto melhor é a sorte do que os padece. De Sta. Isabel, princesa de Hungria: Os desprezos, pobreza e mais trabalhos hão-de ser recebidos solenemente com “Te Deum laudamus”. Da
seráfica virgem e doutora Sta. Teresa de Jesus, falando com Deus: Senhor, não
vos peço outra coisa senão ou morrer ou padecer.
Da
extática virgem Sta. Maria Madalena de Pazzi, falando com Deus: Senhor, não
morrer, para mais padecer.
De
Sta. Loduvina, virgem, em uma ocasião que seus próximos a vexaram: Muito
devemos àqueles que nos ajudam a correr no caminho dos mandamentos de Deus.
Da
beata Catarina Adorno, ou de Gênova, falando com Deus no meio dos seus maiores
trabalhos: Trinta e seis anos há, oh Amor meu, que me alumiastes; desde esse
tempo nada desejei senão padecer dentro e fora.
Do venerável Tomás de Kempis: Qui melius scit pati, maiorem tenebit pacem; ipse est victor sui, et dominus mundi, amicus Christi, et haeres Caeli. Quem melhor sabe padecer logrará maior paz; este é vencedor de si e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu. Do
venerável Ludovico Blósio, abade letiense: Non est ullum signum certius
Divinae electionis quam siquis afflictionem, vel quidquid adversorum a Deo
immittitur, non tantum quam affligi. Não há mais certo sinal de sermos
escolhidos de Deus do que padecer, não só sem repugnância mas com rendimento
e paciência, qualquer aflição ou adversidade que ele nos envia. Porque ainda
é tão proveitoso para o homem como o estar em cruz.
Do
espiritual varão e doutor místico João Gerson, cancelário parisiense: Si
anima Christi, et omnes Sancti Paradysi simul orarent pra persona aliqua, non
acquirerent ei tantum utilitatis, et meriti: sicut ipsa sibi acquireret per
unicam in adversitate patientiam. Se a alma de Cristo Senhor nosso e todos
os santos do céu orassem juntamente por alguma pessoa, não lhe ganhariam tanta
utilidade e merecimento como ela para si mesma ganharia por uma só paciência
na adversidade.
Do
p. m. João de Ávila, chamado apóstolo da Andaluzia: Mais vale um “graças
a Deus” na adversidade de que cem na bonança. Do
místico varão o p. Baltasar Álvares, da Companhia de Jesus: Ser perseguido
sem culpa, bocado sem osso.
Se houvessem de lançar seus votos quantos santos têm o céu e a terra, e ainda quaisquer fiéis que alcançam alguma luz da virtude, sairiam a frouxo uniformes; porque esta é a verdade irrefragável: que até para o Senhor da Glória foi glória a sua cruz. Por onde qualquer alma posta em cruz não deve senão tapar a boca a murmurações e queixas, e abri-la para louvar a Cristo, pela inestimável graça que lhe concede em a fazer semelhante a Si e a Seus santos.
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