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Classe
III
Avisos
e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus
1. Andar em presença de Deus,
observar silêncio e não reparar em faltas alheias, desarraigam da alma
inumeráveis imperfeições e lhe granjeiam grandes virtudes.
2. A mosca que se senta no me, impede o seu vôo; e a alma que busca sabores do
espírito, impede a sua contemplação.
3. Enquanto estás atribulado, e em desamparo, não busques consolação na
criatura. Porque como essa tribulação é enviada da mão de Deus para prova,
ou exercício, ou castigo teu, e não há de durar sempre: não a tirando a
criatura, Deus a tirará. E como Deus quando vem, sempre deixa dons na alma;
impedes estes dons, atalhando a sua visita. Portanto, importa ser forte e
sustentar a Deus, até que ele mesmo nasça dentro em nós, e nos alegre e
vivifique. "Sustine sustentationes Dei (diz o Espírito Santo pelo
Eclesiastes) conjungere Deo, et sustine; ut crescat in novissimo vita tua. Omne
quod tibi applicitum fuerit, accipe, et in dolore sustine, et in humilitate tua
patientiam gabe. Quoniam in igne probatur aurum, et argentum: homines vero
receptibiles in camino humiliationis" [Ecl. 2,v.3 e seg.]
4. Se conformes tens conhecimento da Majestade Divina e experiência de seus
favores, não lhe tiveres sujeição e reverência, virão sobre ti pensamentos
de blasfêmia. E se regares o corpo com muito comer e beber, até os pensamentos
santos hão de degenerar em carnais: como as sementes boas, com a nímia chuva,
dão em folhagens e espinhos, muito viço e pouco fruto.
5. Toda a obra boa, feita conforme ao agrado de Deus, ou leva diante, ou se lhe
segue depois, alguma tentação ou tribulação; e senão houver este sinal,
tenhamos por certo que não foi muito do seu agrado. Porque a sua fazenda, ao
passar pela alfândega deste mundo, toda leva esta real marca da sua Cruz.
6. Por isso aproveitamos pouco no caminho espiritual, porque não sofremos
quietos a mão de Deus que em nós obra, ainda que não ao nosso modo; antes nos
afligimos e turbamos com os trabalhos e tentações e lhe furtamos os ombros,
quanto podemos, e nesciamente queremos ajuntar virtudes e pouco custo.
7. Não peças a Deus com modo impaciente e imperioso, e querendo o despacho
para logo; porque isto mais parece mandar, ou demandar, do que pedir. Além do
que Deus Nosso Senhor te quer perseverante na Oração e que te detenhas em sua
presença; e isto é excelentíssimo benefício de sua graça. Se a entrada de
um vassalo à presença de seu Rei fosse tanto ou mais proveitosa do que a
mercê que lhe vai pedir, o Rei que amasse a este vassalo, dilataria o despacho,
só por lhe ocasionar as entradas mais freqüentes.
8. Quem faz a vontade de Deus, porque o ama, faz virtualmente todas as coisas.
Quem faz a vontade de Deus, ainda que ore, prega; ainda que ande em negócios,
ora; ainda que esteja entrevado, anda em negócios; confessando estuda,
estudando faz missões, andando em missões serve na cozinha, servindo na
cozinha converte almas. E não pode deixar de ser assim; porque a vontade de
Deus, com a qual está unido, é tudo; e tudo fora da vontade de Deus, é nada.
9. Se não és amante da divina Escritura, sabe que nenhum espírito tens:
porque qual é a pessoa, que ama a outra, e não gosta muito de ouvir a sua voz,
receber os seus recados e ler as suas cartas? Devemos tratar a sagrada Escritura
com grandíssimo respeito. S. Carlos a lia com os joelhos em terra. S. Pedro de
Alcântara (que a sabia toda de memória) quando ouvia alguma palavra dela,
fazia profunda reverência, e dizia que o Evangelho se havia de ouvir com as
mãos levantadas ao Céu, e a cabeça inclinada.
10. Se a alma não for acompanhada de grande moderação, recato e abstração
de acidentes, nas coisas que se percebem pelos sentidos, nunca poderá entrar na
familiaridade com Deus, nem levantar-se às coisas invisíveis, nem vir ao
conhecimento de sua própria dignidade.
11. As faculdades do corpo não se purificam, nem habilitam para servir a Deus,
sem jejum e desvelo; nem as da alma, sem verdade e misericórdia; nem as do
espírito, sem meditação e trato interior com o mesmo Senhor. Chamo verdade a
intenção reta e coração simples; chamo misericórdia ao coração brando e
pacífico com todos, e condição caritativa.
12. A vida do homem verdadeiramente espiritual, e modo com que emprega as horas
do dia, parece-se com uma Missa. Porque nenhum intervalo se lhe passa sem obrar,
já neste, já naquele exercício, servindo a Deus, já com os membros do corpo,
já com os sentidos e potências da alma; e todas as suas ações interiores e
exteriores, vão com ordem, decoro, madureza e devoção, sucedendo umas a
outras conforme o dirigem as rubricas dos Santos e Padres espirituais, e
assistido das luzes da Fé e razão o que sem dúvida é um contínuo
sacrifício da vontade própria em honra do Altíssimo. E deste modo parece que
podem também os Leigos ter alguma denominação de Sacerdotes; segundo aquilo
de S. Pedro: Vos autem genus electum, regale Sacerdotium, gens sancta [I Pedro,
2,9]; e de S. João: Pecit vos regnum, et Sacerdotes Deo, et Patri sul [Ap.
1,6]. Pelo que disse S. Agostinho: Sacrificium est omne opus quod agitur, ut
sancta societate inhaerear Deo, reatum ad illum finem, quo beati esse possimus
[10 De Civit., 6].
13. O que se adquire com o trabalho e dificuldade, guardar-se com estimação e
cautela; e o que pouco nos custou a haver, pouco se nos dá de o demitir como
coisa que facilmente nos tornará à mão.Daqui se mostra que o retardar-nos
Deus o benefício, é preveni-lo com outro novo benefício; porque serve de nos
preparar, para que recolhamos bem o que nos der e lhe pedimos. Olhe para este
ponto o impaciente das tardanças do Senhor em lhe conceder as virtudes que
pede; parecendo-lhe que quanto a petição tem de honesta, tanto o despacho
havia de ter de pronto. O estilo de Deus é dar mais do que se lhe pede; e assim
retarda a dádiva para dar, além dela, a firmeza em a lograrmos.
14. Costuma-te a referir, ou encaminhar todas as obras boas que fizeres, em
ordem até dispor mais com elas para receber a Comunhão sagrada. Assim se
escreve e praticava a Rainha das virtudes Maria Santíssima Senhora Nossa, desde
que seu benditíssimo Filho lhe revelou havia de obrar esta portentosa fineza de
amor em proveito dos homens; até que comungou a primeira vez no Cenáculo.
15. Corrente de negócios seculares, e remanso de contemplação divina, não se
dão juntos. Marta e Maria, sim, são irmãs no sangue, mas não costumam ser
irmanadas no espírito. Ter um olho no Céu, outro na terra, custa violência e
mostra fealdade. Em uma Anua da Companhia de Jesus se refere de um China que era
cego só quando olhava para a terra, mas para ver o Céu nenhum impedimento
tinha; assim devem ser os contemplativos. El-Rei de Babilônia vazou os olhos a
el-Rei Sedécias em Rablata; nome que (segundo alguns padres interpretam)
significa: Estas muitas coisas, Multa haec [S. Greg. 7, Mor. S. Petr. Dam.,
lib. 1, epist. 5]. Estas muitas coisas do mundo visível e seus negócios, são
as com que o demônio nos priva da vista e contemplação das celestiais e
eternas. Negócios (na opinião de S. Agostinho) são brincos, ou joguetes de
gente maior: Maiorum nugas [1 Confess., 9]. Deixe brincos quem anda na
presença do Altíssimo e perto de sua cortina.
16. Acautela-te muito de esperar, ou desejar ver na Oração alguma forma ou
figura dos Anjos, ou Santos, ou de Cristo Senhor Nosso. Porque merecerá tua
soberba que despache o Senhor os memoriais que contra nós lhe mete
continuamente nosso inimigo; e este se tornará fátuo, de modo que recebas o
lobo por pastor e estimes a lata por ouro. Quando vires alguma representação
semelhante, converte depressa teu espírito a Deus, que é o teu princípio,
rogando-lhe te assista e alumie. E está de bom ânimo; que se pegares
firmemente da Oração, os demônios fogem dela, como os cães do pau; e o
poder, para quem te chegas, é maior que todos os poderes.
17. Senão curas de evitar os pecados veniais, parece que não tens a Deus amor
de filho; porque os filhos nisto se distinguem dos servos; que fazem a vontade
aos pais em coisas muito miúdas. E assim, contra os veniais, observa os
seguintes avisos: 1o. Confessa-te e comunga a miúdo; 2o.
Fala pouco, e com pessoas ou perfeitas ou timoratas; 3o. Procura ter
amor ao desprezo, pobreza e dor; 4o. Não te introduzas no que te
não pertence, nem te empenhes demasiado em negócio ou pretensão alguma; 5o.
Anda em presença de Deus; 6o. Faz antes o pouco, e bem feito; 7o.
Guarda na mesa e no sono as regras da abstinência e modéstia.
18. Há uns pobres que pedem pelas ruas, gemendo, queixando-se e exclamando; e
há outros (os estrangeiros têm este uso) que pedem cantando devotamente alguma
Oração ou as Ladainhas. Estes não movem menos que aqueles, nem tiram menos
esmola. Todos nós somos mendigos de Deus: omnes mendici Dei sumus (disse
Sto. Agostinho). Nem sempre lhe havemos pedir com vozes e angústias e
exclamações; senão também com alegria e sossego, deleitando-nos primeiro na
sua bondade, e fazendo regozijo da nossa penúria e comodidade dos nossos trapos
e remendos; e esperando com paz a esmola que nos vier de cima, quando o Senhor
for servido.
19. Uma das indústrias que mais manualmente encaminham a alma à presença de
Deus, sem quebradeiro de cabeça nem fábrica de considerações, é ter cuidado
de mortificar-se a si, e deixar mortificar-se por outros. Porque como ninguém
faz boa cara à Cruz se não é por amor de Deus, o mesmo nosso amor-próprio
faz, que a alma, por sarar, ou mitigar sua dor, vá buscar a Deus, querendo
comunicar com ele e metendo-se em companhia de Cristo, e fazendo-lhe oferta
daquele donzinho de sua paciência, e esperando de sua bondade o prêmio.
20. Quando a alma está em desamparo e sente a Deus muito ausente de si, ou
quase perdido, não lhe valem penitências para se consolar. O que lhe vale é
humildade, aniquilação própria, paciência e sujeição ao Padre espiritual.
E tanto maior será depois a consolação quanto mais rigoroso foi o desamparo.
A Venerável Madre Maria de la Antígua escreve de si, dizendo:
"Acontece-me muitas vezes não poder levantar o coração a Deus, não só
com ânsias incendidas e amorosas, mas nem ainda com um conhecimento de Cristã.
Neste tempo, sem perder os exercícios de Oração, ponho-me diante de meu
senhor como uma pessoa ociosa ou vadia sem aproveitar para nada; e ali olho para
ele, a ver o que de mim quer por então".
21. Não puxes pela devoção porque te achas em dias de festa, em que a Igreja
Católica celebra os mais devotos mistérios. Prepara-te sem ansiedade nem
cobiça; fecha os sentidos à multidão de objetos ainda os que parecem podiam
conduzir à piedade; humilha-te quanto puderes em presença do Senhor,
reconhecendo-te indigno de tua graça; e depois recebe o que te derem com ação
de graças; ou tem paciência, se nada te derem; e por isso louva também a
Deus. De outra sorte, quanto mais espremeres, mais seco te sentirás.
22. A soledade de espírito consiste em abstrair este de cuidados vãos, de
fantasias e implicações do pensamento em coisas inúteis, ou ainda que úteis,
escusadas, de ocupação nímia em ações externas, de afeições e vontades do
amor-próprio, e de muitas locuções interiores. De sorte que o entendimento,
memória, vontade, fantasia e apetite estejam desertos, e de vago para tudo o
que não é atender a Deus em simplicidade de fé, e amá-lo em chama espiritual
do coração. Nesta solidão fala Deus, não com vozes, mas com luzes; e é
tanta a que a alma recebe, que os de fora, que não estão costumados a
semelhante região de ar tão puro, estranham talvez a pessoa, e se lhe faz
gravoso o seu trato, pela diferença que em tudo acham de ditames, ações,
exercícios, intenções etc. E quando o tal homem solitário condescende com
algum dos seus modos, então lhes é aprazível, e respiram como o peixe que
achou água onde nadar. Deste modo Moisés estando só com Deus quarenta dias,
caiu com o rosto tão resplandecente que o povo não podia endireitar para ele a
vista, até que se cobriu com um véu.
23. Se desejamos comungar com fruto, presenteemos a nosso Esposo celestial
e Cordeiro de Deus, que se deleita entre as açucenas, uma açucena, cujas
folhas sejam estas seis qualidades principais para a perfeição deste
exercício. Duas antes de comungar: Desejo e Pureza; duas comungando: Humildade
e Caridade; duas depois da Comunhão: Ação de graças e Renovação, ou
transformação do homem interior, com pacto de fidelidade. [Do P. Caussino, lib.
3, da Corte Santa, s. 12].
24. Por causa de várias fantasias (dizia meu Padre S. Filipe Néri) que nos
conturbam na Oração, a não devemos deixar: Porque se fielmente insistimos no
trabalho de as expelir, às vezes dá Deus em um momento, o que se não pode
alcançar em muito tempo.
25. Quando pedimos alguma coisa a Deus, e no continuar a Oração, sentimos
grande quietação de espírito, é bom sinal, que o Senhor concederá, ou tem
já concedido o que se lhe pede.
26. Ainda que percas todos teus santos exercícios por inconstância tua e
tentação do diabo; ainda que já deixasses a lição pia, a Comunhão
freqüente, o uso das penitências, a companhia dos bons e tudo o mais que Deus
em ti havia edificado, nunca deixes o culto, devoção e invocação da Virgem,
que nesta tábua se salvam muitos náufragos.
27. Para curar uma pessoa que houver caído em algum pecado, depois de haver
caminhado largo tempo virtuosamente, é bom remédio obrigá-la a que faça
alguma mortificação solene; como seria manifestar a sua queda a outras pessoas
de grande virtude, e de quem se tenha segurança. Porque desta humildade se
obrigará Deus para a restituir ao primeiro estado.
28. Não se façam votos sem direção do Confessor prudente; e levem suas
modificações que sirvam depois de arrimo à nossa inconstância, respiração
à liberdade e quietação à consciência. Exemplo: Voto jejuar tantos dias, ou
dar tantas esmolas, enquanto a saúde, ou os cabedais não padecerem grave
detrimento; ou, se não sentir grave dificuldade em o fazer assim; ou pelo tempo
que parecer a quem governar o meu espírito, etc.
29. Quando visitamos as Igrejas ou Altares, peçamos afetuosamente àquele
Santo, a quem são dedicados, esmola espiritual de virtudes; porque este é um
excelente meio de granjear espírito e devoção.
30. Para que as perseguições e injúrias deixem na alma fruto e ganância, é
bom considerar que primeiro se fazem a Deus que a mim; porque quando chega a
nós o golpe, já está dado em sua Divina Majestade pelo pecado. Além de que o
verdadeiro amante de Cristo, já de antes há de ter feito concerto com ele, de
ser todo seu e nada querer de si; pelo que, se o Senhor sofre a sua ofensa, por
que não sofrerei eu a minha? havendo de ser o sentimento justo pelo que a minha
injúria tem de ofensa sua.
31. Para ler com fruto a Escritura Sagrada será de grande utilidade observar os
seguintes avisos: 1o. Antes de ler, examinar brevemente a
consciência e fazer ato de contrição; 2o. Invocar o Divino
Espírito, para que me conceda luz com que entenda do que ler o que me convém
entender; 3o. Ler com pausa e atenção, aplicando ao meu proveito o
que leio: as repreensões, aos meus pecados e vícios; as grandezas de Deus, ao
seu amor e louvores; os benefícios, à ação de graças; os castigos ao temor;
os prêmios à esperança; os mistérios à Fé; os conselhos ao ensino; 4o.
No que não entender, ou buscarei exposição que o declare, ou passarei
adiante, venerando o mistério que ali encerra; 5o. Quando sentir
alguma luz de inteligência, ou moção do afeto, aceitarei com agradecimento e
guardarei no tesouro da memória para as utilidades próprias ou do próximo; 6o.
Acabando de ler, beijarei com reverência o sagrado texto, e colocarei a
Bíblica com mais alguma atenção e decência que os outros livros, onde não
ande por baixo das outras coisas do meu uso; porque as Escrituras santas são
cartas de Deus para o homem e palavras de vida eterna; e antigamente em algumas
Igrejas havia dois Sacrários: um para o Santíssimo Sacramento, outro para a
sagrada Bíblia; 7o. Ultimamente recapacitar na memória ao menos um
ponto do que se leu e render a Deus graças pelo benefício de me ensinar com a
preciosa palavra da sua boca.
32. De tal sorte te é necessário ter fome e sede de justiça, ou virtudes, que
leves com igualdade de ânimo a pobreza espiritual que em ti experimentas, e a
falta dos dons da graça para venceres a tua natureza. Para sublevação desta
pobreza, acomoda-te a andar pelo Céu mendigando esmola quotidiana pelos Santos;
isto, não com brados impacientes e longos arrazoados, senão com insinuação
humilde de tua necessidade, alegre esperança do teu remédio e constante
paciência na sua tardança. E entende que não és capaz de mais, porque te
não ensoberbeças; nem de receber a humildade (vaso dos outros dons) porque
não tens disposições para as humilhações e Cruzes em que o Senhor costuma
dar envolvida essa humildade; e se ele te quiser lavrar mais rijamente, em vez
de dobrares, quebrarás debaixo do seu martelo.
33. A Venerável Mariana de Jesus, Terceira de S. Francisco em Toledo, ensinou o
seu Anjo da Guarda quatro diligências, que haviam de usar os que lutam com Deus
para dele alcançar alguma graça que lhe pedem; que são quatro tretas de que
os lutadores usam para derrubar seu competidor. A primeira é levantá-lo ao
alto, para que possa cair; e isto faz quem na Oração se humilha muito; porque
tanto mais levanta a Deus. A segunda é usar de sacadilha; que é furtar o
arrimo, em que o contrário faz finca-pé para resistir. E isto faz quem
purifica a consciência, tirando os pecados e a ocasião deles; porque no nosso
pecado é que Deus faz força para se não render. A terceira é cansar ao
competidor com repetidas entradas e saídas; porque deste modo, ainda que seja
mais robusto, poderá ser vencido do mais fraco. E isto faz quem ora muitas
vezes com importunação, ainda que de cada vez ore pouco tempo. a quarta é
deixar-se cair sobre o competidor, para o levar debaixo. E isto faz quem se
lança nos braços de Deus, resignando-se totalmente no que for sua vontade.
Porque como este Senhor faz a vontade dos que o amam, o melhor modo de o render
ao que nós queremos, é render-lhe ao que ele quer.
34. O dom das lágrimas está posto como um marco ou baliza no caminho da
Oração, entre as coisas corporais e as espirituais; e entre a viciosidade e a
pureza. Enquanto o homem não recebe este dom, ainda fica no homem exterior a
propriedade da sua obra; nem sentiu ainda a eficácia das coisas ocultas do
homem interno e espiritual. Mas quando alguém começa a alongar-se, e deixar
atrás as coisas corporais deste século, e passou o termo que define, ou é
raia da natureza, então chega a tocar nesta graça das lágrimas, pela qual é
levado ao perfeito amor de Deus. E quanto mais vai caminhando, mais se vai
enriquecendo neste dom, até chegar a bebê-las misturadas no que bebe e come: Potum
meum cum fletu miscebam! [Sal. 101, 10] E este é o sinal certo de que o
espírito deixo este mundo, e entrou no mundo do espiritual que tem dentro em si
mesmo.
35. Há umas lágrimas que dissecam e queimam; e há outras que regam e
fertilizam. As que procedem do coração por causa dos pecados dissecam e
queimam o corpo, e ofendem o cérebro. Mas por estas se passa a outra melhor
ordem de lágrimas, que sem violência manam do entendimento e trazem gosto,
alegria e fertilidade de virtudes. Com as primeiras se lava a alma, como em
banho quente. Com as segundas se adorna, como com pérolas netas.
36. O velar alta noite em santos exercícios, estima-o como coisa muito
preciosa: para que aches a divina consolação propínqua à tua alma. Persevera
em lição santa, solitário contigo; para que teu espírito tenha condutor que
o leve às maravilhas e grandezas de Deus. Ama de coração a paciência e
pobreza; para que o teu ânimo se ajunte, una e recolha, de onde andava vago e
espalhado. Aborrece a nímia e prazenteira afabilidade; para que conserves sem
turbação e confusão teus pensamentos. retira-te de muitos e trata da tua
alma; para que se não estrague sua interior tranqüilidade. Ama a castidade e
sobriedade; para que te não confundas no tempo da Oração, e se acenda em teu
coração alegria viva, com as memórias da morte.
37. Muito grosseira e feia desatenção é, acabando de receber a Comunhão
sagrada, divertir-se a falar com alguém, ou empregar os sentidos em quaisquer
criaturas. Recolha-se logo a alma a tomar a visita de seu Deus, com a maior
humildade e paz que lhe for possível; avivando a fé da presença do Senhor que
tem dentro em seu peito; e crendo que ao redor de si estão muitos Anjos, que
estranham suas distrações e tibiezas, e se alegram com seu fervor e
aplicação devota.
38. Quando te preparas com lição espiritual para orar, repara no ponto,
conceito, verdade, ou palavra que mais te moveu o coração; e por ali
começarás a tua Oração; porque desta faísca, que já tinha saltado,
prenderá o fogo em toda a mais matéria.
39. O maior obstáculo que tem a vida espiritual é não seguirmos as luzes e
impulsos da Graça. Se deixamos obrar Deus em nós, voaremos. Por isso importa
muito conhecer-lhe a voz e acudir fielmente; porque como o seu modo de obrar é
suavíssimo, alumia o entendimento ou toca a vontade; mas não constrange, nem
violenta. Nem uma só venialidade ou imperfeição vamos a cometer
(especialmente se são almas a quem o Senhor tomou mais à sua conta), que, se
bem advertirmos, se não atravesse velocíssimamente, antes de nos deliberarmos,
algum raiozinho de luz, que lá dentro da consciência diz um Ta, como
quem a proíbe. E quanto a alma mais flexivelmente obedece a este Ta,
tanto o vai ouvindo mais distintamente, e em coisas mais miúdas; e de caminho
adquire paz mais alta, e discrição de espíritos, e notícia dos labirintos do
amor-próprio, e roscas da serpente antiga.
40. Quando uma alma tem Oração infusa e quieta, não pode deixar de
entender que Deus está dentro dela; porque claramente o está sentindo, e o seu
recolhimento então é muito maior, e os efeitos muito diferentes do que em
outro modo de Oração costuma experimentar. É uma linguagem do Céu, que por
mais que se queira cá dar a explicar, não se fará conceito dela, se o Senhor
o não mostrar por experiência. Põem sua Divina Majestade no íntimo da alma,
o que o Senhor quer que ela entenda e lho representa vivamente, sem imagens ou
forma alguma de palavras; e ali se vê a alma num momento sábia; e fica muito
espantada quando experimenta que basta uma destas palavras intelectuais para
trocar uma alma toda, e fazer que não ame coisa alguma, senão aquele Senhor a
quem vê que sem trabalho algum seu a faz capaz de tão soberanos bens, e lhe
comunica secretos admiráveis, e trata com ela com tal amor, lhaneza e
familiaridade, que não é possível explicar-se.
41. A Doutora e Virgem Santa Teresa de Jesus dá esta doutrina aos que praticam
o exercício de Oração. Toda a pretensão de quem começa a Oração (e não
esqueça isto, que importa muito) há de ser trabalhar, e determinar-se, e
dispor-se com quantas diligências pode, por conformar sua vontade com a de
Deus; e estejamos muito certos, que nisto consiste toda a maior perfeição que
se pode alcançar no caminho espiritual. Quem mais perfeitamente tiver isto,
mais receberá do Senhor, e mais adiante está neste caminho. Não imaginemos
que aqui há mais algaravias, nem coisas escondidas e secretas; que nisto
consiste todo nosso bem.
42. Quem leva a mira em chegar à perfeição, e deseja gozar o íntimo abraço
da divina união, deve insistir valorosamente na abnegação de si mesmo, e
aplicar-se com diligência à santa introversão habitando diante de Deus dentro
em si, e aspirar a este Senhor por contínuas e ardentes jaculatórias. Deve em
tudo o que faz, ou deixa de fazer, ter por fim e motivo o agrado de Deus,
buscando-o com intenção reta e simples. Este é, e não outro, o caminho de
chegar à perfeição e união mística com Deus.
43. Na obra do espírito que é a Oração espiritual, quem menos imagina e
pretende obrar, obra mais. As obras interiores devem ser todas suaves e
pacíficas; fazer coisa penosa, antes dana, que aproveita. Chamo penosa qualquer
força que nós queiramos fazer, como reprimir o fôlego. Deixe-se a alma nas
mãos de Deus (faça dela o que quiser) no maior descuido que puder do seu
aproveitamento e na maior resignação na vontade de Deus. Esta doutrina é de
Santa Teresa; mas advirta-se que fala na Oração já espiritual dos
aproveitados; e não na material, ou imaginária dos principiantes; que estes
hão de trabalhar mais da sua parte.
44. Toda a graça espiritual, dom natural e qualquer coisa feita com acerto,
devemos referi-la a Deus Nosso Senhor, dando-lhe por isso graças e louvores; e
não atribuir a nós outra coisa senão os pecados e defeitos.
45. Hei de ter muito fixo e assentado na minha alma que nenhuma coisa devo
desejar, nem por coisa alguma me hei de afadigar, senão pela graça e amor de
meu Senhor Jesus Cristo, e por não ofendê-lo em coisa alguma, senão
agradar-lhe; ou venha a morte, ou a vida; a enfermidade, ou a saúde; a
tristeza, ou a alegria; a honra, ou a desonra; o lugar alto, ou o baixo; aqui,
ou no cabo do mundo; atendendo ao que mais me chega para Deus.
46. Lembra-te, alma, muitas vezes entre dia (especialmente quando fazes o exame
de consciência) de dar graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, porque te remiu, e
fez amiga com Deus, e te ganhou tantos bens à custa de sua Paixão e trabalhos.
E a Deus Nosso Senhor dá muitas graças, porque te deu a seu Filho por Irmão,
Esposo, Pai, Mestre, Redentor, e sustento teu, e causa de todos teus bens.
47. O fruto da Comunhão, e de outro qualquer exercício espiritual há de ser
adquirir maiores forças para servir e amar a Nosso Senhor com maiores veras, e
para resistir às tentações e suportar os trabalhos com paciência; e não por
gostos e sentimentos, os quais costumam ser sinais de imperfeitos e talvez pode
vir do demônio para nos enganar; e assim não nos havemos de cansar muito por
eles, se Nosso Senhor os não envia; e tendo-os, não desprezar aos outros que
os não têm; que será cair em soberba e presunção; porque ainda que os não
tenham, podem ser mais santos e amigos de Deus.
48. Jamais se há de falar de Deus, ou dos Santos, assim levemente, e por modo
de entretenimento, e com os termos de facilidade que usamos na prática de
coisas humanas; senão sempre com grande respeito, estimação e sentimento do
espírito.
49. Está escrito que com os simples é a conversação de Deus. Se alguém
pergunta, que coisa é simplicidade de coração, e como se adquire,
responde-se: Que a simplicidade, em parte, é realmente o mesmo que a verdade e
só difere em que a verdade consiste em concordarem os sinais com os
significados; e a simplicidade em que não busca fins diversos, um no interior e
outro no exterior. O meio de alcançar esta virtude é andar pegado a Deus (que
é o espírito simplicíssimo e puríssimo) por Oração e presença sua
contínua.
50. Gastar mal o tempo que era para a Oração, é furtá-lo a Deus. Oh que
preciosas horas perdes, alma tíbia e descuidada! Lanças ouro e diamantes no
mar; derramas bálsamos pelo chão. Para que é esta perdição e estrago? algum
dia chorarás o erro; porém nunca recobrarás a perda.
51. Dizes que desejas amar a Deus; e arremessas ao Céu abrasadas jaculatórias,
pedindo afetuosamente este amor. Bem fazer; porém adverte, que amar a Deus é
padecer por ele de boamente; é não se amar a si próprio; é amar as Cruzes do
desprezo, afronta, dor, pobreza, etc., é perdoar as injúrias e ainda
desejá-las e agradecê-las; é dar bem por mal, sofrendo e metendo no coração
a todos os próximos. Trabalha por fazer isto, que isto é amar a Deus.
52. Os Bem-aventurados apreendem a Deus, mas não o compreendem; como se por
outros termos disséramos, que abraçam a Deus, mas não o abarcam; porque não
é abraço que o feche, ou cinja todo. Vêem a Essência Divina; mas não a sua
definição: suposto que a sua definição é a sua mesma Essência. Como quem
está no meio do mar alto, emprega toda sua vista, quão longe pode, no mesmo
mar; porém não alcança a definição do mar, que são as praias. Fica o
entendimento difuso e satisfeito, porque vê quanto pode, e vê que resta que
ver infinitamente.
53. Alguns de entendimento sutil e coração altivo são muito dados a especular
as coisas da Teologia mística, e tratam pouco da prática das virtudes; como
que querem ganhar para si a Deus por uns jeitos e segredos que pertencem à
notícia do entendimento, adquirida por estudo de livros espirituais e trato com
pessoas amigas de Deus. E entretanto se descuidam dos pontos lhanos e
substanciais do Evangelho, que são abrenunciação de tudo, resignação da
vontade própria, insistência na Oração, e presença de Deus, aplicação das
forças a fazer frutos dignos de penitência, caridade geral para com todos os
próximos, etc. É erro capital que necessita de emenda.
54. Se alguém pergunta que sinais tem a consolação espiritual quando é de
Deus, ouça ao glorioso S. Francisco de Sales [Introdução à vida devota, p.
4, c. 13], o qual comparando o coração humano à árvore, os afetos aos ramos,
e as obras aos frutos, diz assim: Se as suavidades, ternuras e consolações nos
fazem mais humildes, pacientes, tratáveis, caritativos e compassivos com os
próximos; mais fervorosos em mortificar nossas concupiscências e perversas
inclinações, mais constantes em nossos exercícios, mais sujeitos e rendidos
aos que devemos obedecer, mais singelos em nosso procedimento, é sem dúvida
que são de Deus. Mas se estas doçuras não têm doçura mais que para nós
mesmos; se nos fazem curiosos, azedos, homens de pontinhos, impacientes, duros
com os próximos, porfiosos, ferozes, presumidos, e que na suposição de que
somos já uns Santos pequenos não queremos sujeitar-nos mais à correção e
direção; indubitavelmente estas consolações são falsas e perniciosas;
porque a árvore boa não leva senão bons frutos. Tudo isto é destes grande
mestre de espírito.
55. As mulheres costumam ser mais freqüentemente favorecidas de Deus na
Oração com êxtases, raptos e visões; sem que isto seja sinal certo de
estarem em mais alto grau de santidade, do que alguns homens servos de Deus que
não logram semelhantes favores. As razões disto parecem ser as seguintes: 1o.
Porque são mais amorosas e enternecidas; e a graça de Deus se acomoda ao modo
da nossa natureza, conforme o axioma dos Filósofos: Omne quod recipitur, ad
modum accipientis recipitur; 2o. Porque na sua Oração caminham mais por
afetos, que por discursos, os quais não são aptos para acender a alma, e
uni-la com Deus; 3o. Porque são mais singelas, e com menos reflexões; e com os
tais é a conversação do Senhor: Cum simplicibus sermocinatio ejus; 4o.
Porque são mais fracas; e assim necessitam deste conduto para a sua natureza
aturar os trabalhos da vida espiritual; 5o. Porque parecia razão que Deus lhes
compensasse com estes dons e favores, os merecimentos que lhes não concede nos
graus e ofícios do Sacerdócio, Pregação Apostólica, governo Eclesiástico,
administração de Sacramentos, etc. Contudo deve a pessoa que tem estas coisas
extraordinárias (ou, para melhor dizer, quem assiste à sua direção
espiritual), proceder com grande cautela e circunspeção. Porque, como disse a
Seráfica Madre Santa Teresa, falando especialmente das Revelações: Aun que
es verdad que muchas son verdaderas; pero tambien se sabe que son muchas falsas
y mentirosas: y es cosa rezia andar sacando una verdad entre cien mentiras.
Nestas palavas são dignas de notar-se três coisas: 1o. Serem de uma tão
sábia e experimentada Doutora e ditas quando já vivia no Reino da verdade,
vendo o rosto de Deus claramente; 2o. Serem dirigidas ao ensino das suas
Religiosas, que floresciam no primeiro vigor da Reforma; 3o. Fazerem
comparação das revelações verdadeiras com as falsas. Como pois não será
arriscado calcularem por verdade quaisquer diretores, quaisquer revelações, em
quaisquer pessoas.
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