Sermão das Cinzas
Padre Manuel Bernardes
Memento
homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris.
§ I
Que o Criador, e
as criaturas todas estejam continuamente lembrando ao homem, que há de morrer;
e que possa o homem esquecer-se deste desengano! Muito é para admirar, e muito
mais para sentir. Se estendermos os olhos da consideração por tudo o que abraça
a redondeza do Céu e da terra, acharemos que em todo o tempo, e em toda a parte
nos tem Deus postos manifestos avisos, e sinais da nossa morte. Mas também
acharemos, que em todo o tempo, e em toda a parte tem o homem posto os sinais
do esquecimento da sua morte. Que outra cousa é o movimento dessas estrelas, o
ocaso dos planetas, a roda dos tempos, o combate dos elementos, o curso e
recurso das águas, a diferença das idades, a mudança dos impérios, a
instabilidade dos costumes, e leis, e a perpétua inconstância de todo o século;
que outra coisa é, digo, senão uma viva e repetida lembrança que Deus nos faz
da morte? E que outra cousa é também a ambição da glória do mundo, a estimação
de seus gostos vãos, tantas esperanças, tantos temores sem fundamento; que
cousa é todo o reino, ou escravidão do pecado, senão claros sinais do
esquecimento que o homem tem da morte? Enfim, que Deus por sua boca diz: Caelum et terra transibunt[1].
E o pecador por suas obras responde: Non
movebor à generatione in generationem[2].
Nos tempos de Noé naufragou o mundo em dous dilúvios: um de águas, e outro de
pecado: Terra repleta est iniquitate.
Multiplicate sunt aquae e omnia repleverunt in superficie terrae[3].
Avisou Deus primeiro que mostrasse sua ira, e desprezaram os homens sua
misericórdia, com tal excesso que Deus, sendo a mesma imutabilidade, mostrou
pesar de haver criado o homem; e o homem, sendo a mesma mudança, não mostrou
pesar de haver ofendido a Deus. Edificava pois Noé a arca, público desengano
daquela destruição geral; e edificavam juntamente os pecadores palácios, e
casas de prazer pelo desenho de sua vaidade. Cada prevenção de Noé é um aviso,
cada golpe um protesto, tudo são cautelas para escapar da morte, e os pecadores
tudo prevenções para lograr-se da vida. Entraram todos os animais naquele
estreito refúgio de sua conservação (caso estupendo) e não entrou ninguém em si
para tomar o acordo de segui-los. Justo foi o sentimento depois de tanta
insensibilidade. Rasgam-se as cataratas do Céu, abrem-se as fontes do abismo, e
soçobram às enchentes os mais altos montes – tudo perece. Pombinha solitária,
que saistes a descobrir terra, que é o que vedes? Mudou de rosto a natureza,
tudo está submergido debaixo de um mar sem praias. Oh quem dera também a nosso
espírito asas de pomba! Voara sobre si mesma, e vira: vira bem como a morte
entrando no mundo, foi outro dilúvio, que o alagou. Disse-o Esdras sabiamente: Factum est in unoquoque eorum, sicut Adae
mori, sic his diluvium[4].
Vira que o Sol também morre; que as estrelas também caem; que os gostos passam,
como as idades, e a idade como as flores. Vira como a sucessão das gerações não
é mais que um desejo baldado de imortalidade, e um despojo certo da morte. Vira
que toda a duração temporal vai edificada sobre as cinzas do que já foi, e
debaixo das ruinas do que há de ser; e que a natureza defectível caminha pelos
mesmos passos do ser ao perecer. Vira que as águas deste dilúvio prevaleceram
sobre os mais levantados montes do poder, da sabedoria, e da santidade: Aquae praevaluerunt nimis[5],
não se livrando a comum sorte nem aquele escelso monte, donde foi cortada a
pedra Cristo, MARIA Santíssima, com ter seus fundamentos sobre os montes santos;
nem o mesmo Cristo monte de ambos os testamentos: Intraverunt aquae usque ad animam meam[6],
disse o Senhor falando de si mesmo, e noutra parte: Omnes fluctus tuos induxisti super me[7].
Mas também vira que o mesmo que vemos os homens parece que o não cremos, porque
se a morte anda diante de nossos olhos, como é possível esquecer-se dela? Basta
que tudo acaba; eu só o presumo de eterno! Basta que aquele geral estatuto, que
o dedo de Deus escreveu até nas estrelas, é necessário que a Igreja o escreva no
pó que somos. Memento homo, quia pulvis
es? Esta é a minha admiração, e este deve ser nosso sentimento. E esta será
também a matéria do presente Sermão: inquirir, e impugnar as causas que fazem
tão esquecida a morte, sendo a morte tão lembrada. Memento homo quia pulvis es, et in pulverem revertéris.
§ II
Qual é (perguntava eu) a causa, que
tão facilmente nos borra da memória uma lembrança tão repetida, e tão
importante? Falando especulativamente, verdade é que todos nós conhecemos, que
havemos de morrer, porque assim no-lo testemunham a Fé, a natureza, a razão e a
experiência. Houve sim Ateistas, que negaram a Deus o ser, e à alma a
imortalidade. Mas não houve quem negasse ao homem a morte. Quanto mais os que
cremos, que Deus não fez a morte, e que a morte se atreveu ao mesmo Deus; porém
falando praticamente, passa em nós o contrario totalmente. Tanquam semper victuri vivitis (se queixava Séneca) omnia tanquam mortalies tenetis; omnia
tanquam immortales concupiscitis. Aquele pomo vedado a nossos primeiros pais
considero eu que tinha escritas duas maneiras de letras bem encontradas entre
si. Ao princípio tinha Deus escrito nele aquele desengano: Inquocumque die comederis ex eo, morte morieris[8].
Depois falsificou o inimigo escrevendo-lhe por cima estoutras: Nequamquam morte moriemini[9].
Viu que a lembrança da morte era o mais importante fundamento de nossa
conservação; tratou de arruiná-lo: a serpente sugeriu, Eva ofereceu, a
formosura da árvore convidou. Eis ali o diabo, o mundo, a concupiscência todos
postos em campo para dissuadir ao homem, que não há de morrer: Nequamquam morte morienmini. Come o
Adão, e ambas aquelas letras ficaram gravadas no coração de todos nós outros; o
desengano de Deus ficou escrito como estímulo da consciência, o engano do
inimigo ficou escrito como estímulo da carne. O desengano de Deus rubricou-se
com seu próprio sangue, e assinou-se com a pena que tomou de Cruz. Morte morieris. O engano do inimigo,
como era ferrete de nossa escravidão, imprimiu-se como o fogo da
concupiscência: Nequamquam morte
moriemini. O desengano de Deus não se apagou de todo, porque os brados da
consciência, ainda que nem sempre se escutam, sempre se ouvem: Morte morieris. O engano do inimigo se
não apagou estas letras, ao menos as escureceu e encobriu com razões de
aparência falsa: Nequamquam morte
moriemini. Ora vamos nós descobrindo-as com a luz da divina graça, e seja
sempre nesta lamentável história da tentação de nossos primeiros pais, já que
daí tirou a Igreja Santa as palavras com que hoje nos admoesta: Memento homo quia pulvis es, et in
pulverem reverteris.
§ III
A primeira razão aparente, com que
se nos escurece a lembrança da morte, é a formosura exterior dos bens do mundo.
Vemos nele tanta e tão vária beleza, em que os sentidos se apascentem, que não
acabamos de crer que haja perino no lograr-se. Vidit mulier, quod bonum esset lignum ad vescendum, et pulchrum oculis,
aspectuque delectabile[10]:
Viu Eva que aquela árvore era agradável à vista, que se seguiu? Tulis de fructu illus, et comedit. Oh
argumento muitas vezes errado! E quem meteu aos olhos como ofício de julgarem a
bondade das cousas? Da formosura, julguem embora pulchrum oculis. Mas da bondade? Bomum ad vescendum? Antes só para comer não era boa aquela árvore.
E não era mais bela a flor da inocência? Não era mais doce o fruto do
merecimento? Pois tendes incorrido na pena: morte
morieris. E conheçam todos que os mesmos gostos da vida trazem consigo o
mais claro desengano da morte.
Quando Moisés descendo do monte
achou o povo idolatrando naquele ídolo, que tinham formado de todas suas
riquezas, diz o Texto, que Moisés desfez o ídolo em cinzas, e lhas deu a beber.
Combussit, et contrivit usque ad
pulverem, quem sparsit in aquam, et dedot ex eo potum filiis Israel[11].
Quis Moisés, que para que o povo tomasse aborrecimento à idolatria, se fartasse
das cinzas do seu mesmo ídolo. E que outra cousa é (pergunto eu agora) que
outra cousa é a felicidade do mundo, senão um grande ídolo composto de
riquezas, que ajuntamos para adorarmos nelas? Moisés quebrou as tábuas da lei,
e desfez logo o ídolo. Foi zelo. Oh veja cada um quantas vezes, por não
desfazer o ídolo, tem quebrado a lei de Deus! Pois ide agora mortais, ide e
idolatrai na formosura desse ídolo; reduzido em cinzas vos dará brevemente o
desengano. Será agradável no exterior: pulchrum
oculis, mas não é bom para comido: bomum
ad vescendum, salvo para alcançar a ciência do bem e do mal, porque assim
como aquele ídolo desfeito em pó causou aborrecimento à mesma idolatria, assim
todos os bens da terra, reduzidas com a consideração à mesma terra, perdem de
sua estimação. Aquele mesmo ouro formado em ídolo era ocasião de adorações
falsas; bebido em cinza foi a ocasião de desenganos verdadeiros. Aquela
opulentíssima região onde Salomão mandava suas armadas carregar de ouro,
chamou-se Ofir, que ao hebraico vale o mesmo que Cinis, Cinza. Dois documentos achamos aqui, ambos preciosos. O
primeiro, que todos os bens e grandezas não valem mais que cinzas, porque em
cinza hão de acabar. O segundo, que a cinza de nossa mortalidade, cavada com a
consideração, é uma mina preciosíssima de riquezas espirituais. Ditoso aquele
que sabe reduzir o ouro de sua grandeza às cinzas de um sepulcro: porque das
cinzas de um sepulcro vai lavando o ouro da coroa de sua imortalidade. Bem é
que já que a felicidade do mundo é falsa, o escarmento seja verdadeiro; bem é
que quanto mais depressa passam seus bens, tanto durem mais nosso desenganos.
Escreveu Jacó na sepultura da sua
Raquel defunta um epitáfio, que dizia: Hic
est titulus momumenti Rachel usque ad praesentem diem[12].
Este é o letreiro da sepultura de Raquel até o presente dia. Parece supérflua
esta última palavra, mas não tem senão uma energia bem grande. Notai. A
sepultura é para Raquel; o título é para nós outros. É verdade que aquela
gentileza já passou. Mortua est ergo
Rachel. Mas o aviso da sua morte ainda está presente: usque ad praesentem diem. A campa daquela sepultura debaixo de si
não tem mais, que as frias cinzas de um cadáver; porém sobre si sustenta um
claro aviso de nossa mortalidade, que isso quer dizer monumentum. Enfim, que quando os olhos de Raquel se cerraram para a
luz da vida, abriram-se os nossos para a luz do desengano, e desengano que dura
até o presente dia: usque in praesentem
diem.
§ IV
Ainda digo mais. Se bem o
considerarmos, mais vivo despertador da morte temos nas felicidades do mundo do
que nos trabalhos e calamidades. Vede-o na comparação de duas árvores de
gerações, que descreveram dois Apóstolos sagrados. Santiago descreveu a geração
da concupiscência, e disse assim: Unusquisque
tentatur comcupiscentid sua: deinde concupiscentia cum conceperit, parit
peccatum: peccatum vero cum consummatum fuerit, generat mortem[13].
Como se dissera: a formosura exterior dos bens do mundo excita o nosso apetite,
se concebeu, produz pecado: o pecado, se saiu à luz, gera morte. Vejamos a
outra árvore. S. Paulo descreveu a geração dos trabalhos e tribulações, e disse
assim: Tribulatio patientiam operatur,
patientia autem probationem, probatio vero spem, spes autem non confundit[14].
A tribulação é mais da paciência; a paciência da aprovação, a aprovação da
esperança; e a esperança nunca perece, sempre vive. Temos logo, se bem o
advertistes, que os gostos do mundo claramente nos avisam da morte; e que dos
trabalhos antes nos podemos prometer vida. Aquela árvore das tribulações, que
agora não produz senão espinhos para nos magoar, bem podeis esperar dela frutos
de vida; e aqueloutra, que está coalhada de flor brevemente há de murchar-se.
De espinhos se coroou nosso Redentor JESU Cristo; e então teve sobre a cabeça o
título de Nazareno, que é o mesmo que florido. De flores se coroavam aqueles
ímpios de que fala a sabedoria: Coronemus
nos rosis[15],
e logo se temeram que murchassem: antequam
marcescant. A vida de Sansão parecia perigar quando se encontrou com o
leão. Despedaçou-o, e no seu cadáver achou depois um favo de mel. Outro favo de
mel foi Jónatas provar com a ponta da lança, e encontrou com o perigo de vida.
Assim passa, que maior risco temos entre as delícias que entre as tribulações.
Ah doçura perigosa dos gostos do mundo! Se quem vos leva à ponta da lança não
mais que para provar, se arrisca tanto, como não veem o risco da morte aqueles
que sem nenhum trabalho os gozam à boca cheia?
E donde nasce (perguntareis vós) que
o uso das cousas temporais é tão arriscado? Donde nasce que vizinha tão de
perto com a morte? Se tem veneno para que se nos deu aquela geral licença: Ex omni lingno paradisi comede[16]?
Ora dai-ma vós a mi para contar-vos uma história profana: servirá de resposta,
e a resposta de razão de tudo o que temos dito. Conta Eneas Silvio (que depois
foi Papa Pio Segundo), que a Ladislau Rei da Boémia, na véspera de seu
desposório, estando tudo preparado, lhe deu sua própria esposa uma maçã partida
com faca ervada só por uma banda, para que comendo ela a outra metade não
houvesse suspeita de traição. Comeu o Rei a sua parte, porém para nunca mais
comer. Obrou aquele enganoso ferro, como se lhe disseram: Divide eos in vita eorum. Atenção, Senhores, que os bens do mundo
têm a qualidade deste ferro, e deste pomo; é verdade que tomados por uma parte
são lícitos, são suaves; mas tomados pela outra são mortíferos. Pois eis aí a
razão, porque são arriscados: porque quem há de fiar-se, que acerta com a
metade sã? A outra, que ficou ervada como o apetite do primeiro pomo vedado;
isto é com o mau uso do nosso alvedrio: essa em vez de servir de alimento à
vida, serve de acenar à morte. E quando queirais negar, que há muitos gostos do
mundo, que totalmente são veneno, e este já conhecido, ao menos não negareis
que todos eles são pó, e são cinza: Omnia,
quae de terra sunt, in terram convertentur[17],
Se vos não matam a vós, eles per si morrem. Logo mal se desculpa com os bens do
mundo o nosso esquecimento da morte, se sempre são lembrança da mesma morte, de
tal modo que aquele mesmo desengano, que Deus dá ao homem, pode o homem dar ao
mundo. Pulvis es, et in pulverem
reverteris.
§ V
Já que os homens tenham entendido
que a morte nos mesmos bens da vida os espera, e os avisa certamente, tratam ao
menos de desviá-la de si mais ao longe. Este é outro pior esquecimento, que em
nós causa o esquecimento da morte: a falsa imaginação de que a morte está longe
de nós. Não sei que género de cegueira é este, que o objeto que mais perto de
si tem, o põem em tão distante perspectiva. Notai os longes que o Tentador nos
prometeu de vida: Eritis sicut Dii[18],
e notai o desvio com que Eva lhe respondeu:
Ne forte moriamur[19].
A pena da morte estava de Deus irrevogavelmente estabelecida para se incorrer ipso facto no ponto em que comesse; e
com tudo fala nela muito ao futuro, debaixo das incertezas de um acaso: Ne forte moriamur. Lá disse Isaias, que
os pecadores de jactaram de haverem feito concerto com a morte, e com o
inferno: Percussimus foedus cum morte, et
cum inferno fecimus pactu. Perguntara eu, e como há a morte de guardar o
concerto aos homens, se o homem o não guardou a Deus para fugir da morte? Se os
pecadores não quiseram o Céu sendo mercê; como há o inferno de demitir aos
pecadores, sendo eles dívida sua?
Oh não cuidem os filhos de Adão que,
desde que ele pecou tão de propósito, morre alguém acaso. Não são acasos as
mortes inesperadas; não é eternidade a incerteza de um momento; não são futuros
a dívida presente. Esta dívida começamos a pagar no mesmo instante que
começamos a respirar. Disto se queixava o Santo Rei Ezequias: Dum ad huc ordirer, succidit me[20].
Não está longe de nós a morte, pois conosco mora dentro das mesmas portas. O
movimento dos Céus por onde se medem nossos dias, ainda que pareça vagarosíssimo,
não deixa de ser arrebatado. No relógio de nossa vida não cuideis que o Sol há
de tornar atrás, nem dez linhas, nem um só ponto. Se um ponto de vida vós
prometeis, vossa promessa o fez mais incerto, e suspeitoso. Bem como a carta de
Urias, quando entendais, que leva a recomendação de vossa pessoa, não leva
senão o decreto de vossa morte. Se é possível, que a morte tarde, ou fuja, foge
só daqueles, que a buscam com a meditação e mortificação; anda mais perto dos
outros, que a trazem longe de sua lembrança.
Anima (disse aquele rico do Evangelho) habes multa bona posita in annos plurimos:
requiesce, comede, bibe, epulare[21].
Viste como tem a morte longe da vista? Vede como a tem perto da casa: Stulte hac nocte animam tuam repetunt.
Bem notado de estultícia, porque as contas que ele fazia tem mais erros do que
palavras. Apostilemos o lugar, pois é de Cristo Senhor Nosso para provar o
intento ao pé da letra. Anima (diz o
rico): quando viu a fertilidade dos campos, fala consigo dando-se os parabéns,
devendo falar com Deus dando-lhe graças. Habes:
deu à alma, que é espírito, posse de bens temporais, sendo as riquezas do
espírito as virtudes, e os dons de Deus, e não as sementeiras dos campos. Multa: entendeu que os bens da fortuna
podiam nunca ser muitos em chegando a ser possuidos, e muito menos para a alma,
cuja capacidade só Deus enche. Bona:
chamou absolutamente bens àquilo de que os homens usam para se depravarem em
todos os males. Posita: Cuidou
somente de guardá-los como permanecentes, sendo que os bens caducos, o modo de
os conservar é dispendê-los. In annos:
não estendeu sua consideração à eternidade, senão aos anos de sua vida. Plurimos: e prometeu-se que seriam
muitos, porque as riquezas também eram muitas, dependendo uma e outra coisa da
vontade de Deus. Requiesce:
Convida-se ao descanso, quando os prudentes se estimulam para o trabalho. Mas
finalmente todos estes erros se podiam esperar de uma alma tão material que
come, e bebe: Comede, bibe, epulare.
Pelo contrário o sustento do
Espírito deve ser a consideração da morte: o seu pão há de ser cinza, e a sua
bebida lágrimas. Assim o ensinou e praticou consigo Davi, quando disse: Cinerem tanquam panem manducabam, et potum
meum cum fletu miscebam[22].
Ajuntou o real Prpfeta mui conformemente os dois sustentos da alma e do corpo,
porque a virtude do jejum e da temperança há de usar do pão como de cinza, e da
bebida como de lágrimas; a virtude da oração há de usar da cinza como de pão; a
virtude do arrependimento há de usar das lágrimas como de bebida. E disto acrescentou
logo Davi ser a causa: porque considerava na brevidade de seus dias: dies mei sicut umbra declinaverunt[23],
mas perguntara eu: se os dias da vida são sombra, que será a mesma morte? Será
a escuridade da noite – esta é a sua mais própria alegoria. Consideremos pois
que entre a nossa vida e a nossa morte não há maior diferença que entre a
sombra e a noite. A noite nenhuma luz admite, a sombra de tal modo é escuridade
que parte também com a luz; assim partem os nossos dias a luz da vida com a
noite da morte, e ficam escuridade de sombra. Porém a sombra, se a seguires,
foge; e quando a fugis, vos segue. Por isso a Davi, que a seguia com a
consideração, ainda se lhe concediam os dias da vida como sombra: Dies mei sicut umbra. Por isso ao rico,
que fugia da morte, lhe sobreveio de repente a morte como noite. Hac nocte animam tuam repetunt.
§ VI
Oh quantos estão sepultados na noite
da morte, e da eternidade, porque não consideram seus dias como sombra, que
passava, senão como luzimento, que havia de permanecer! Quereis que permaneça?
Aprendei mortais uma arte de dilatar melhor a vida. Assim como toda a redondeza
do universo se funda sobre um só ponto imóvel, que é o centro dele, assim
também no mundo invisível, toda a circunferência dos séculos pende de um só
momento que é o da morte: Statutum est
hominibus semel mori[24].
E todas as linhas de nossos desenhos nele acabam igualmente. Como este ponto
está unido outro, que é a eternidade, a qual é uma possessão de todos os
séculos junta, e abreviada individualmente: bem como o centro equivale a todo o
círculo. E assim como nas mãos da morte vão caindo todas as durações do tempo,
assim a morte as vai entregando nas mãos da eternidade, porque no ponto da
morte todas as diferenças de tempo se acabam, e no ponto da eternidade todas se
conservam.
Aprendei pois (torno a dizer) uma
arte de dilatar a vida, uma arte de parar essa roda arrebatada de vossos dias.
Ensinou-a o Espírito Santo por boca dos Profetas, e dos Apóstolos. Diz o
Profeta Davi que os ímpios, os esquecidos de si e da sua morte, andam à roda: In circuitu impii ambulant[25].Por
isso sua vida é tão breve, e desassossegada. Diz o Apóstolo S. Paulo, que
estejamos fixos, imóveis, e bem fundados na esperança do Evangelho. Si tamen permanetis in fide fundati, et stabiles,
et immobiles a spe Evangelii[26].
A esperança do Evangelho, bem sabeis que é a imortalidade com Deus por meio da
morte em Cristo Nosso Senhor; assim como a esperança da Lei era a terra
prometida por meio da peregrinação do deserto com Moisés. O mesmo Apóstolo aos
Romanos: Si autem mortui sumus cim
Christo, credimus, quia semel etiam vivemus cum Christo[27].
Pois estai (diz o Santo) estai imóveis nessa consideração, e nessa esperança.
Os esquecidos dela andem à roda com o tempo. In circuitu impii ambulant. Vós outros ponde-vos no centro imóvel
de vossa morte, e de vossa imortalidade, porque só aquele que considera que há
de ter fim, e que não há de ter fim, sabe ganhar todos os tempos. Cristãmente
disse o Estóico: Ideo peccamus, quia de
partibus vitae omnes deliberamus: de tota memo deliberat. Sabeis por que
vivemos mal? Porque vivemos por partes, um dia passa atrás de outro dia, um ano
atrás do outro. Não é isto a roda? Deliberai-vos a viver no centro, e
possuireis a vida toda junta: para o merecimento toda junta no ponto da morte;
para o prémio toda junta no ponto da eternidade.
E eis aqui a razão porque eu dizia
que não devíamos imaginar a morte ao longe, e ao futuro, quando é certo que
pela sujeição a temos presente. A razão é porque assim o ponto da morte, como o
ponto da eternidade, tem virtude de reduzir e igualar todas as diferenças de
tempo, de tal modo que cada um de nós é aquilo mesmo que foi e que há de ser.
Diz o Evangelista S. João que viu ao Cordeiro de Deus estar diante do trono de
sua glória, morto desde a origem do mundo: Vidi:
et ecce in medio throni... agnum stantem tanquam occisum[28];
(e noutra parte): Qui occisus est ab
origine mundi[29].
Já estais na dúvida. Se o Filho de Deus padeceu sendo já passados desde a
origem do mundo perto de quatro mil anos, como o viram os olhos da Águia morto
desde a origem do mundo? Viram-no por razão de uma certa luz, e de uma certa
sombra. A luz era a da eternidade porque o Cordeiro estava no trono de seu
eterno Pai. A sombra era a da morte, porque o Cordeiro se tinha sujeitado à
morte, a qual entrou no mundo com a origem do mesmo mundo. E assim como aquela
luz fez que o decreto fosse ab eterno na mente divina, assim aquela sombra fez
que a morte fosse desde a origem do mundo na sujeição do Cordeiro. Vem logo ser
o mesmo a dívida da morte, que atualmente a mesma morte. E daqui nasce que como
a nossa morte não há de ser totalmente vencida senão no fim do mundo, quando se
cumprir aquilo que São Paulo alega de Oseias: Absorpta est mors in victoria[30];
por isso o Cordeiro quis também continuar a sai morte até o fim do mundo. Isto
é o que fez o mistério do Santíssimo Sacramento, onde se deixou até a
consumação do século debaixo da representação de morto: Agnum stantem tanquam occisu. Oh Cordeiro imaculado! E como foi
perfeita vossa sujeição, pois fizestes vossa morte tão antecipada, e tão
dilatada juntamente! Antecipada desde a origem do mundo; dilatada até o fim do
mundo; antecipada diante do trono de vosso eterno Pai; dilatada sobre os
altares de vossa Igreja Santa; antecipada, porque nesse trono éreis já o que
havíeis de ser, e o que fostes na Cruz; dilatada, porque na Cruz fostes o que
fostes, e haveis de ser no altar, sempre morto, porque sempre por amor de nós
sujeito à morte. E se isto passa no Filho de Deus, bem podemos os filhos de
Adão crer, que a morte nos está presente desde o princípio de nossa vida, pois
nos é devida desde o princípio do mundo. Então nas mãos de Deus fomos pó; agora
sobre a face da terra somos pó; debaixo de uma sepultura em breve seremos pó. É
enfim o homem o mesmo que é, porque é o que foi, e o que há de ser. Pulvis es, et in pulverem reverteris.
§ VII
Outra razão, ou sem-razão, com que o
nosso esquecimento da morte se desculpa, são as obrigações do estado de cada
qual, porque nos parece que alguns estados há em que nem é conveniente, nem
possível andar com tão grande desengano na lembrança. Esta parece também que
foi a desculpa de Adão, quando Deus lhe devassou o delito: Mulier, quam dedisti mihi sociam, dedit mihi de ligno, et comedi[31].
Senhor (respondeu ele) a mulher, que vós mesmo me destes, foi ocasião de
esquecer-me de vosso mandamento. E bem! É possível que, para não obedecer a
Deus, até do mesmo Deus nos escandalizamos! Não bastará lançar a culpa de
nossos erros à serpente: Serpens decepit
me[32],
senão que também a repartamos com Deus?
Quam dedisti mihi sociam? Diz o soldado, diz o tratante, diz o cortesão,
diz o titular: Padre, o estado que Deus me deu não permite essas considerações
de anacoreta, fiquem embora para as religiões e para os ermos; a nós é preceito
cuidar das obrigações do estado e da honra. Erras coração humano, erras; nem
por essa escusa deixarás de ser contado com os mais que obram perversamente: Declinantes autem in obligationes adducet
Dominus cum oerantibus iniquitatem[33].
Responda-me. A salvação é para todos? A Lei de Deus obriga a todos? A graça,
com que nos ajuda a cumpri-la, é para todos? Os perigos, e os inimigos da alma
cercam a todos? Sim por certo, pois o entregar-se à virtude, o concertar a
vida, e o prever a morte por que não há de ser para todos? Ora fazei comigo uma
digressão breve.
Determinou Deus dar a Lei ao povo de
Israel; e vejo com majestade sobre os mais altos montes, do Seir ao Faran, do
Faran ao Sinai; rasgaram-se as nuvens, arderam as montanhas, soou um clarim tão
fortemente que não podiam sofre-los os ouvidos. Quis o Filho de Deus ser
exaltado na Cruz para redenção nossa: escolheu o lugar em Jerusalém, o tempo o
mais célebre, que era o da Páscoa, e o título de sua Cruz se escreveu em três
línguas as mais célebres do mundo. Mandou depois o Espírito Santo a repartir os
dons de sua graça, e desceu com ruido de um espírito veemente ao crescer do
dia, em línguas de fogo, estando todos os fieis juntos no Cenáculo. Pedro
Príncipe dos Apóstolos receava admitir
as gentes à perfeição do Evangelho sem passarem pela Circuncisão; e viu baixar
do Céu aquela misteriosa mesa, onde estavam todos os animais, aves, e
serpentes, e lhe mandaram que comesse de tudo. Notai agora a generalidade e
publicidade com que Deus abraça a todos igualmente. De sorte que (deixando
outros muitos exemplos) a salvação ganhada naquela Cruz, que se arvorou no
Calvário; a lei, que se promulgou no Sinai; a graça, que se derramou no
Cenáculo; a vocação para a mesa de Deus, que significou a Pedro – tudo
compreende a todos. Mas o disporem-se os homens para alcançarem essa salvação,
para aproveitar essa Cruz, para cumprirem essa Lei, para co-operar com a graça,
para seguir a vocação, isto não é para todos? Pois com nenhuma destas
obrigações cumpre quem por amor de suas obrigações deixa de aparelhar-se para a
morte. Que cousa mais universal que a morte? Pois tem Deus quebrantado os foros
da natureza só por não dispensar com a lei da morte. Justo é logo que a sorte,
que a todos nós espera por decreto, todos a esperemos a ela pela consideração.
Entra o Profeta Jonas pelo meio da
grande Nínive lançando aquele pregão da ira de Deus justo: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvervetur[34].
Mais quarenta dias de prazo, e Nínive se subverte. Breve foi o sermão, mas
eficaz; ainda mais do que queria o pregador. Toda a corte desde o maior ao
menor se acolheu ao sagrado da penitência. O mesmo Rei deixou o trono, e as
vestiduras reais, e se cobriu de cinza. Mas o em que eu reparo é que a
demonstração do arrependimento compreendesse até aos gados, e aos animais. Homines, et jumenta, et boves, et pecora
non gustent quidquam. Operiantur saccis homines, et jumenta, et clament ad
Dominum[35].
Caso estranho! Os brutos em hábito de penitência, jejuando e bradando a Deus.
Seroa para confessarem os Ninivitas que se pareceram nos apetites com quem
agora se pareciam no arrependimento? Ora não vos admireis; vede que é o que
Deus ameaçava: Ninine subvertetur. O
decreto é geral: compreende homens, e animais, e as mesmas pedras dos edifícios.
Pois se a ameaça da morte é para todos; o temor da morte por que não há de
mostrar-se em todos? Esta foi a razão porque os que iam embarcados com o mesmo
Jonas estranharam, que adormecesse ao som da tempestade: Quid tu sopore deprimeris[36].
Porque quando o perigo é comum devem andar todos alerta. Oh acabai de entender
que não há homem tão bruto que não saiba bradar a Deus; não há Rei tão
levantado que não possa descer-se do trono, para assentar-se sobre a cinza, que
há de ser. Bem podem os grandes ser temidos, e ser tementes. A todos pede Deus,
e a todos aceita a penitência desde o menos até o maior. Honra, a honra de
Deus; estado, o estado de sua graça; obrigações, a primeira obrigação é a de
criatura, a de homem, e a de cristão. Por qual destas vos escusais de obrar,
como quem há de morrer? Se sois cristão, o final de cristão vos põe sobre os
olhos a memória da morte. Se sois homem, a parte racional vos dirá que a outra
parte é terra; se sois criatura, temei a Deus, e não acuseis ao Criador: Mulier, quam dedisti mihi sociam.
§ VIII
Bem sei eu, que nos palácios, e nas
praças não há bom sítio para se edificarem as Tebaidas, as Camaldulas, e as
Cartuxas. Bem ouvi dizer que a soledade era a metrópole do Espírito Santo; que
o silêncio era o Pitágoras da interior escola. Mas também sei que em todo o
estado tem Deus posto exemplares de admirável santidade, para que se entenda
que de qualquer parte da terra pode o Céu ser livremente visto e suspirado.
Vede vós bem não seja o vosso estado aquele que vós tomastes, e não o que Deus
vos deu; que se a mão de Deus vos pôs nele, a mesma mão de Deus vos tirará a
salvo. Levou um Anjo a Ezequiel em espírito por meio de grande enchente de
águas; tendo andado mil passos, dava-lha a água pelo artelho; mediu outros mil,
e dava-lhe pelos giolhos; entrou mais outros mil, e já chegava às costas;
repetiu o mesmo, e já não pode passar Ezequiel. Aqui o tirou o Anjo e o pôs
salvo na ribeira. Fieis, muito mais fiel é Deus: neste mal do mundo a uns faz
entrar mais, a outros menos; mas a donde não possais passar, onde vos afogueis,
daí logo vos tirará em paz, e salvo.
Mas oh quantos cuidados há, quantas
perturbações da consciência, em que Deus nos não meteu, senão que nós outros
por nossas mãos as granjeamos! Admoestou Cristo Senhor Nosso a Marta solícita
de sua hospedagem, com aquela repetida voz: Martha
Martha solicita es, et turbaris erga plurima; porro unum est necessarium[37].
Quanto desvelo, quanta perturbação, sendo uma só cousa necessária? A cada um de
nós outros pode a consciência própria dar semelhante repreensão em cousa menos
honesta. Tu ambicioso que não estudas, senão como seja adorado de tua honra; tu
vanglorioso, tu iracundo, que viveis um do ar como camaleão, outro do fogo,
como salamandra; tu avarento cego para ver o rosto à caridade, Argos para
possuir o mesmo que não possuis: turbaris
erga plurima; para que são tantos cuidados, se uma só cousa é necessária.
Um edifica, como se a vida fora eterna; outro navega, como se o mundo fora
estreito; aquele litiga, como se a fazenda fora salvação; este, que sou eu,
brada, e repreende, como se o mundo não houvera de acabar assim: turbaris erga plurima. Quanta
perturbação sendo uma só coisa necessária. Pontos de honra, leis de foro,
razões de estado, invenções da fantasia, lisonjas do apetite: turbaris erga plurima; porro unum est
necessarium. E que cousa é esta tão necessária? Salvação, Boa Morte, que é
o mesmo. A morte é aquela única e fatal necessidade que convence de uma vez a
todos os cuidados do mundo por desnecessários. Vede como os aprovará Deus por
bons, se se não pagou dos de Marta, que eram tão santos. A morte em efeito é
aquela que ajunta a nossa alma com Deus, que é a sua melhor parte, para dele
não ser nunca separada, que non auferetur
ab ea. A morte na consideração é aquele fundamento da vida cristã, que
todos os inimigos da alma procuram arruinar: a concupiscência cativando-se da
formosura das coisas: pulchrum occulis,
et aspectu delectabile. O demónio representando vida larga: eritis sicut Dii. O mundo embaraçando
com a multidão de seus cuidados: mulier,
quam dedisti mihi sociam. Por isso dizia ao princípio que a serpente
sugeriu, Eva afereceu, a formosura do pomo convidou: todos para persuadirem ao
homem aquele esquecimento: Nequamquam
morte moriemini. Mas a Igreja Santa contra quem não prevalecem as portas do
inferno, tomando a voa da boca de Deus, nos diz hoje com piedosa recordação: Memento homo, quia pulvis es, et in
pulçverem reverteris.
§ IX
Desenganados totalmente os homens, e
vendo que por toda a parte prevalecem as águas deste universal dilúvio: Aquae praevaluerunt nimis, que remédio
esperaremos, se não acolhermos à arca; não para salvar da morte temporal (que
esta foi no mundo mais geral inundação que a do dilúvio), mas para escapar da
morte eterna. Acolher, digo, à arca, que é o lenho santíssimo da Cruz de
Cristo, na qual se obrou nossa regeneração e redenção. Duas tábuas formam esta
Cruz, nas quais podemos salvar-nos do naufrágio, que são os Sacramentos do
Batismo e da Penitência. Oh lástima! Não vedes quantos milhares de milhares se
vão ao fundo? Não ouvis a confusão de vozes, e de gemidos? Estes não alcançaram
a pegar da primeira tábua do Batismo: pereceram. Nos outros pecadores, a quem
as ondas sacudiram dela é necessário pegarmos fortissimamente da segunda, que é
a penitência. Penitência, que os mares crescem; penitência, que o perigo está
presente: morte morieris; e quem sabe
se a muitas almas, das que me estão ouvindo, espera Deus ainda o prazo destes
quarenta dias para se não subverterem: Adhuc
quadraginta dies. Nesta tábua pois devemos formar espiritualmente uma como
embarcação, em que possamos contrastar a braveza das ondas. Para chegarmos a salvamento deve o entendimento, que é a
agulha de buscar direito o norte da fé, deve a caridade estar sempre ao leme;
devem encher o pano os alentos da esperança. No lugar do esporão os peitos da
fortaleza; no farol a luz da prudência; seja lastro o temor santo todas as
tribulações, e cruzes são árvores; as insígnias não podem ser outras que as
quinas, ou chagas de Cristo; o mantimento já sabeis que há de ser lágrimas e
cinza. Ditoso aquele que prender enfim o porto, que é o reino, que dentro de si
mesmo leva: Regnum Dei intra vos est[38].
Caminhando sempre à vista da terra do conhecimento próprio: Pulvis es, et in pulverem reverteris.
E vós progenitores nossos, por quem
o dilúvio da morte entrou no mundo, perdoai tão repetidas queixas de vossos
filhos, e filhos que não choraram como vós seus pecados com lágrimas de
novecentos anos. Perdoai, que já vejo aparecer aquela branca pomba, por quem
veio a ser vossa culpa venturosa. Puríssima MARIA Senhora Nossa, vós sois a que
trazeis o ramo de oliveira, e nele os sinais de misericórdia, e as esperanças
de nossa ressurreição, por virtude daquela Humanidade Santa, que nasceu de
vosso ventre, e renasceu do sepulcro, sem ofender a inteireza de um e de outro.
Alcançai-nos de vosso filho perfeito amor de sua bondade, perfeita dor de
nossas culpas. Se a verdadeira caridade é ouro, o verdadeiro arrependimento é
cinza; se a divina ira é fogo, não terá o fogo que destruir nem na cinza, nem
no ouro, porque só estas duas cousas podem resistir à sua violência. Senhor,
que encravado nessa árvore sagrada, não duvidastes em pagar a pena que nós em
outra árvore merecemos; pedimo-vos que por aquela piedade que vos fez obediente
até a morte de Cruz, nos livreis da morte eterna.
Fonte: BERNARDES, Pe. Manuel, Obras Completas do Padre Manuel Bernardes, Vol. XII
– Sermões e Práticas, Reprodução
fac-similada da edição de 1733;
São Paulo, 1947.
[1]
Matth. 24, 35.
[2]
Psal. 70, 6.
[3]
Genes. 6, 8; ibid. 7, 17-18.
[4]
Esdr. 49, 8.
[5]
Genes. 7, 19.
[6]
Psal. 68, 2.
[7]
Psal. 87, 8.
[8]
Genes. 2, 7.
[9]
Ibid., 2.
[10]
Genes. 2, 6.
[11]
Exod., 12, 29.
[12]
Genes. 33, 20.
[13]
Jacob., 1, 14-15.
[14]
Rom.,5, 3 e ssg.
[15]
Sap., 2, 3.
[16]
Gen., 2, 16.
[17]
Eccl., 40, 11.
[18]
Gen., 3, 5.
[19]
Ibid.
[20]
Isai., 38, 12.
[21]
Luc., 12, 19-20.
[22]
Psal., 101.
[23]
Ibid., 101, 12.
[24]
Hebr., 9, 27.
[25]
Psal., 82, 9.
[26]
Coloss., 1, 23.
[27] Rom.,
5, 8.
[28]
Apoc., 5, 6.
[29]
Ibid., 18, 2.
[30] 2
Cor., 15, 54.
[31]
Gen., 2, 12
[32]
Ibid., 2, 13.
[33]
Psal., 124, 50.
[34]
Joan., 3, 4.
[35]
Ibid., 3, 7-8.
[36]
Ibid., 1, 6.
[37]
Luc., 10, 41-42.
[38]
Luc., 17, 21.