A SABEDORIA DO ORATÓRIO

trechos notáveis do Pe. Manuel Bernardes  

 

 

Continuação

 

 

 

 

INVEJA

 

Depois de haver feito proezas memoráveis o famoso capitão Belisário, e alcançado de muitas nações bárbaras insignes vitórias, lhe mandou o imperador Justiniano, mal informado, tirar os olhos. E ele, posto em uma choupaninha ao longo da estrada, pedia esmola aos passageiros, dizendo:

 

— Caminhante! Real e meio a Belisário, a quem o valor expôs aos olhos de muitos, e a inveja o privou dos seus...

 

*

 

A inveja é o carcoma das fortunas grandes. Aristóteles, perguntado que coisa era a inveja, disse:

 

— Antagonista da prosperidade.

 

*

 

Os mordidos da serpente chamada Andrio padecem vertigens e vômitos de cólera fetidíssima, e outros movimentos desordenados; e o lugar onde mordeu gasta-se, como que o roeram. Assim os miseráveis, em cujo coração se embrenha a serpente da inveja, o mesmo coração se  lhes desfaz e consome, porque o bem alheio tem por mal próprio.

 

*

 

Falando-se diante del-rei Frederico que coisas serviam para aguçar a vista, e respondendo vários várias coisas, disse Áccio sincero:

 

— A inveja.

 

Brevíssima sentença, mas não menos verdadeira do que breve. Porque os olhos do invejoso, ainda não podendo olhar direitos, nada lhes escapa, nem do bem nem do mal da pessoa invejada: do bem para detraírem, do mal para se alegrarem.

 

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DESPREZO DE SI PRÓPRIO

 

 

Caminhando S. Francisco de Borja por Serra Morena, em uma estalagem aonde se aposentou buscou um aposentozinho, onde se pôs a orar de joelhos. Estavam ali as malas de um passageiro, o qual, presumindo que lhas queria revolver para furtar alguma coisa, o ameaçou, dizendo que o moeria com um pau. Mas, conhecendo depois com quem falava, lhe pediu perdão. Respondeu o santo:

 

— Eu vos perdôo o agastamento, tirando aquilo do pau, que não acho aqui que perdoar; porque por meus pecados se me deve e o tenho bem merecido.

 

 

Este glorioso santo fora no século duque de Gândia e vice-rei de Catalunha; e responder tão pacato que nem a culpa do ofensor nomeia por juízo temerário, nem por arrojo ou demasia, senão só por agastamento, e, em cima, se desquita do honorífico de perdoar, por entender que merece a pena!

 

 

E, porque não pareça que o santo não sabia aproveitar as ocasiões de ser injuriado, quando chegavam a efeito, não parando só em ameaça, ajunto o seguinte caso:

 

Uma vez, na pousada, o companheiro, que era asmático, esteve cuspindo ao santo no rosto, imaginando que cuspia para outra parte; ele se calava e o chuveiro de salivas continuou grande parte da noite. Quando amanheceu e viu o companheiro sua desatenção, ficou mui envergonhado; e o santo lhe disse:

 

— Padre, não tenha pena, que lhe certifico não haver no aposento lugar mais próprio para cuspir do que eu.

 

 

Este mesmo glorioso santo levou uma vez um porco às costas para a cozinha. A alguns que nisto repararam disse:

 

— Que muito é levar um porco outro?

 

*

 

Quando o venerável padre Ambrósio Mariano veio a este Reino, para nele fundar a primeira casa dos Carmelos Descalços (chamados por isso entre nós os Marianos), a buscar lenha e a trazia às costas pela cidade.

 

Perguntando-lhe por que tomava exercício tão vil e trabalhoso, respondeu:

 

— Por que deste modo me aquenta a lenha duas vezes.

 

*

 

Do grande cardeal Roberto Belarmino costumava dizer um judeu que, se todos os cristãos fossem como Belarmino, todos os infiéis seriam cristãos. Quase o mesmo dizia também um herege. E, chegando esta notícia aos ouvidos do cardeal, disse, como quem se alvoroça e alegra:

 

— Todavia já para ser canonizado tenho duas boas testemunhas: um judeu e um herege; falta-me agora um turco...

 

*

 

Vivia o venerável padre D. Frei Agostinho da Cruz no célebre deserto da Arrábida. Aqui lhe enviou de mimo uns figos o duque de Aveiro. Ele o pôs a secar sobre o teto da sua celinha, que era mui baixa; e veio um corvo e levou-lhos. Disse então o servo de Deus:

 

Se Agostinho fora Paulo,

O corvo, quando viera,

Não levara, mas trouxera...

 

 

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AVAREZA

 

 

Certo homem nobre e rico tinha dado a um seu filho, por várias vezes, boas quantidades de moeda, para que corresse com os gastos e administração da casa, como mais ativo que era e desocupado. Mas ele, encurtando a mão quanto podia, ia enterrando o mais em lugar oculto.

 

Sucedeu ser necessário a este avarento fazer jornada longe. Entretanto o pai, que já presumia o mal, buscando-o por vestígios, veio a dar com o tesouro; e dele pagou logo salários de criados, reformou os móveis da casa e repartiu esmolas; e depois, enchendo os mesmos sacos de areia, os repôs no seu lugar.

 

Recolhendo-se da jornada, o filho foi logo fazer estação e visita ao seu depósito, porque lá tinha o coração; mas, não achando mais que areia, à primeira vista ficou pasmado e quase esmorecido; e depois toda a casa confundia com gritos, queixas e desesperações.

 

Acudiu então o pai, dizendo mui fleumático:

 

— De que te amofinas, filho meu, ou por que te enfureces? Não tens mais que imaginar que ainda lá está o dinheiro; porque se os sacos, e o volume, e o lugar, e o préstimo, ou o uso, sempre é o mesmo , que mais monta ter ouro que ter areia?

 

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VONTADE E VELEIDADE

 

Vontade é determinação eficaz de procurar algum bem desejado ou fugir d’algum mal que se tem, e explica-se pela palavra Quero.

 

Veleidade é um princípio de querer com frieza e ineficácia, e explica-se pela palavra Quisera.

 

O sinal para conhecermos em nós se queremos, ou se somente quiséramos algum bem, é ver se abraçamos, ou não , os meios necessários para o alcançar. Se o enfermo se põe nas mãos do médico perito, quer saúde; se o pretendente lida, agencia, insiste, mete pedreiras (1), fez despesas: este quer o bom despacho. Se o estudante madruga, revolve os livros, poupa as horas, pergunta as dúvidas e continua as suas tarefas e disputas literárias, este quer ciência. Mas, se nenhum deles aplicar os sobreditos meios, nenhum deles quer, de verdade, os sobreditos fins.

 

Assim passa também no nosso caso. Os meios necessários para alcançar a salvação são a guarda dos Mandamentos.

 

Se o cristão aplica estes meios, quanto é da sua parte, com o favor divino, este quer salvar-se; se os não aplica, antes os lança em esquecimento, este não quer salvar-se, por mais que diga que, sim, quer; porque o seu quero não passa de quisera. Quisera, se não fora tão custoso para os seus maus costumes contrários; quisera, se por amor disso não houvesse de cortar por outros quereres; quisera, se, para comprar o campo onde está escondido o tesouro, não fosse necessário vender todas as suas coisas.

 

Enfim: quer como preguiçoso e descuidado, que o seu querer é não querer: Vult et non vult piger.

 

(1)   recomendações, empenhos

 

 

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ALUMIAR OS QUE ERRAM

 

A D. Fernando de Talavera, arcebispo de Granada, disse um criado seu palavras pesadas, descomedindo-se com ele com maior liberdade do que se podia esperar da dignidade de um ofício e de outro. O bom prelado esteve muito em si, sem responder-lhe; e, quando o viu partir colérico de sua presença, pegou do castiçal e foi alumiando diante pela escada abaixo.

 

— Que faz Vossa Senhoria? Onde vai? (disse o criado, assustado com aquela ação de humildade).

 

Respondeu o prelado:

 

— A fazer meu ofício, que é alumiar os que erram.

 

Ficou o criado confundido; e, prostrando-se a seus pés, lhe pediu perdão.

 

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LUTERO E A POMPA CATÓLICA

 

O espírito da avareza, no que toca ao culto dos altares e templos, aparenta-se com o de Judas Iscariotes, que chamava desperdício e reputava mal empregado em obséquio de Cristo o ungüento aromático, que avaliava em trezentos dinheiros; e não deixou de dizimar o preço pelo modo que ainda pôde, vendendo o mesmo Senhor por trinta.

 

Nenhuma magnificência e decoro é supérfluo no que toca tão proximamente seu corpo e sangue sacramentados e representa misticamente seu sepulcro, como diz Santo Tomás, falando do cálice, e a patena a campa dele, (1) como diz o padre Soares.

 

S. Gregório papa fez um cálice ornado de preciosa pedraria, o qual pesava trinta libras de ouro, e uma patena do mesmo, que pesava vinte oito e meia.

 

O padre Teófilo faz menção de outro cálice de ouro maciço, tão grande que um homem o não podia levantar. Não sei que uso pudesse ter, salvo para urna do Santíssimo em quinta-feira maior.

 

 

Lutero, ímpio desprezador de semelhantes cálices preciosos (no que procedia coerente com os outros seus erros, de que na Eucaristia ainda depois da consagração fica verdadeiro pão e vinho, e de que a missa não foi instituída por Cristo Senhor nosso, nem é sacrifício, nem ainda obra boa), por outra parte o seu copo, o qual era mais que arrazoado, e estava cingido com três coroas, umas mais acima das outras, como tiara papal: à primeira e superior o Padre nosso; a segunda o Credo; a ínfima os Mandamentos e a todo o copo o seu catecismo. E se algum convidado não chegava a beber mais que até a primeira coroa, dizia que não sabia mais que o Padre nosso; mas, se esgotava todo, dizia que sabia o catecismo inteiro.

 

Lá está já onde o seu cálice será eternamente aquele que disse David, também de três repartimentos: fogo, enxofre e demônios.

 

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DEMÔNIOS ARRIMADIÇOS

 

Algumas pessoas, que seguem o caminho da perfeição, padecem por particular disposição daquele supremo Senhor que é o ponderador dos espíritos, a vexação dos demônios que chamam arrimadiços, ou assistentes; os quais se arrimam, ou encostam a alguma parte do corpo, mais alta ou mais baixa; e ali como desde um castelo ou padrasto (1), dão contínua bateria à alma, e a têm de sítio (2) todo o tempo que lhes dura a licença de Deus, sem se apartarem de dia nem de noite, salvo por alguns breves intervalos, que se escondem, ou ausentam. A pessoa que os padece sente a sua presença ou na fantasia, ou pelo tato e ouvidos, ou talvez pela vista, que é o mais terrível trabalho.

 

(1) Altura que domina outro terreno;

(2) Cercam, sitiam

 

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A CONTINUAR

 

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