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A ESPERANÇA
Pde. Manuel Bernardes Sejamos
alegres pela esperança, sofridos nas tribulações. Porque quem bem espera bem
sofre, e quem levanta o espírito aos bens eternos sabe portar-se bem nas misérias
temporais. Sabeis
que coisa é a Esperança? Uma engenhosa máquina com que o espírito se guinda
desde o mundo para a eternidade; e assim não lhe carrega o peso dos males que cá
embaixo leva, porque tanto furta à aflição do trabalho que padece, quanto se
levanta à contemplação do descanso que espera. Raiando
o sol, absorve-se o orvalho da fria noite; e aparecendo a esperança, enxugam-se
as lágrimas do ânimo desconsolado. Por isso Susana pôs no Céu os olhos,
quando cheios de lágrimas, porque do Céu esperava o remédio da aflição
presente e a remuneração dos seus castos procedimentos. Da
esmeralda (símbolo da Esperança) escrevem os naturais que tem virtude de
desterrar os medos noturnos e recrear o espírito. E Plínio diz que restaura a
vista ofuscada com outro objeto desagradável. Esmeralda dissera eu ser aquela
pedra preciosa a que Salomão comparou a Esperança; porque recreia a vista da
alma, avocando-a da consideração dos presentes males para a dos bens futuros. Do
peixe asquino diz Santo Ambrósio que, sobrevindo tempestade, se pega fortemente
a alguma rocha ou penedo; com que a violência das turbulentas ondas o não pode
dali arrancar e envolver entre seus escarcéus altivos e furiosas ressacas. Já
que as tribulações são tempestades, e a esperança do eterno é rocha imóvel,
abrace-se a alma com esta rocha e vencerá estas tempestades. A
César, ao embarcar-se, resvalando-lhe o pé, caiu em terra; e, para mover o mau
agouro que os seus podiam daqui formar, acudiu com presteza, dizendo: —
Teneo te: ó Terra mater, teneo te; Pego de ti, ó terra minha mãe, pego
de ti, e tomo posse. Com
mais razão pode, e deve-se, qualquer fiel, quando cai em algum infortúnio,
levantar a esperança, dizendo: —
Pego de ti, ó Céu, pego de ti, oh Jerusalém Celestial, nossa mãe, e tomo
posse. Pegar-se
à terra quando nos acontecem trabalhos, é de infiéis e gentios, que não têm
que esperar fora dela; pegar-se ao Céu é de cristãos, que sabem que o padecer
é sinal de salvar, e que este agouro é lícito e louvável. O apóstolo São
Paulo o louva naqueles fieis que sofreram com equanimidade a rapina de seus bens
temporais, na confiança de que lhes ficavam intactos os eternos. Certo
mendigo havia que, quando já tinha a sacola cheia de esmolas, dizia: —
Agora sim, que confio. Esta
sacola estaria cheia, mas esta alma estava vazia; ajuntara pão, mas não
ajuntara virtudes; enchia o ventre, mas jejuava o espírito. O
verdadeiro cristão, quando mais lhe falta, mas deve confiar; porque na falta
das criaturas é certo o auxílio do Criador; e quem tem consigo a Deus, que lhe
pode faltar? Não
é a esperança em Deus como a esperança no mundo: esta, por sentença divina,
traz consigo maldição; aquela, pelo contrário, traz consigo benção: Beati
omnes, qui expectant eum. Aquela é sonho de acordados; esta outra é
realidade certíssima. Conta-se,
por apólogo, que um lavrador achou, uma manhã, os seus bois mui alegres e
brincadores. —
Olá! (disse ele), que têm vocês, que estão contentes? —
Sonhamos (responderam) que esta manhã íamos a uns pastos mui pingues, onde
todo o dia andávamos à vontade. —
Pois eu (tornou o lavrador) sonhei que vocês iam lavrar-me tantas geiras. E,
dizendo isto, os meteu no timão do arado. Quem
no mundo espera descanso durável, ou verdadeiro, sonha, e brevemente se acha
desenganado, trocando-se-lhe os pastos pingues em duríssimo jugo, e o que
imaginava gozo e repouso em dor e trabalho. Porém, quem constitui a sua esperança
em bens eternos e na consolação e auxílio divino não se engana. Os seus
sonhos são verdade de fé, pois as Escrituras afirmam que a tribulação bem
levada gera boa prova, e a boa prova legítima esperança, com a qual ninguém
fica envergonhado. Também
é eficaz lenitivo dos trabalhos e penalidades o considerar que passam
brevemente. Momentaneum, et leve tribulationis nostræe, disse São
Paulo, ajuntando sabiamente o leve da nossa tribulação com o momentâneo dela;
porque a brevidade da duração contrapesa o grave da pena: já quando os ombros
começam a afligir-se com a carga, a mudança lha tira deles, que é o que disse
Cícero, e mais brevemente S. Bernardo: Transit hora, transit et pœna:
passa a hora, e passa também a pena. Quem deu asas ao tempo deu também asas ao
trabalho; aquelas penas, voando, levaram consigo estas outras, cessando. Com
isto consolava o capitão Enéas aos seus companheiros, aflitos com os trabalhos
de navegação tão longa; e outro poeta, espanhol, disse discretamente: Passan
se rios de males ya
sin puente, ya sin barco; Mas
no ay mal en esta vida, que
no se le tope vado. Livre-nos
Deus de rios onde não há ponte, nem barco, nem vau; livre-nos Deus de males
onde não há fazer pé, porque a esperança se afoga; e de trabalhos que não têm
mais fim que novo princípio, quais são os de um condenado. Os outros, ainda
que durem toda a vida, como a vida passa por momentos, por momentos também vão
passando. Esta consideração fazia a mãe de São Gregório Nazianzeno, e ele
por isso a louva: que nada reputava por grave pena, uma vez que havia de acabar
com a vida. Neste
mundo faz Deus dos ímpios vara com que castiga os justos; mas depois chama os
justos para o Reino, e lança a vara no fogo... (Nova Floresta)
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