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O MUNDO PASSA
Pde.
Manuel Bernardes Quanta
verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós com ela! Dos
sábios e justos diz Isaías que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma
minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas,
e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está
passando. Que
é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos,
povoados... e tudo passando. Os
mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores
sempre remudando-se, ora secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram
vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já foram povoados,
e os povoados de agora, já foram desertos. Mas
olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens: Tudo
está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães,
outros a entrar nos ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram;
estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo,
parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam;
aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá
estão no leito, gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram... Lá
vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um
pobre nu e descalço. E que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de
armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou a morrer,
ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são
de lá... E
que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São
navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais,
coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é: espécies,
sedas, ouro. Olhai
o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos,
dali a nada tudo achareis virado. O rico já é pobre, o mecânico já é
fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já
são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajos, outras leis,
outros homens. ...
Tudo passa! (Sermões, I, 202.)
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