|
A VIDA É MORTE
Pe. Manuel Bernardes A
um vaso de vinho misturado com três partes de água não chamaremos com razão
vinho; nem a um pouco de açúcar envolvido em três tantos de sal chamaremos
com razão açúcar. Logo,
se eu mostrar como a nossa vida é misturada, ao menos, com três tantos de
morte, provado ficará que lhe não devemos chamar, absoluta e simplesmente,
vida, pois vai o seu vigor tão aguado e a sua doçura tão salgada com as
propriedades da morte. A
primeira parte de morte, que anda misturada com a nossa chamada vida, é ser
esta sucessiva e transeunte, tão pelo miúdo, que não é possível lograrmos
dela dois instantes juntos, porque, para adquirirmos um, é força perdermos
outro, que por isso a mulher de Técua a comparou não à água que está em um
tanque ou lago, senão à que vai correndo (1). E isto é o mesmo, sem dúvida,
que ir morrendo por partes. Por
isso Filo, o discretíssimo entre os hebreus, disse que cada idade era morte da
outra antecedente idade, dando-nos a piedosa mão de Deus este amargoso cálice
da morte a tragos, e misturado com o cálice da vida para no fim acabar de nos
dar as fezes, que é a última morte de todas as outras mortes antecedentes, a
qual é força que bebamos todos os filhos de Adão, uma vez que todos nele
pecamos. Porém
São Paulo estes intervalos de morte a morte não os pôs distantes de idade a
idade, senão de dia a dia: quotidie morior (2). E pela mesma razão o
Papa Inocêncio III os pôs de instante a instante; nem pode deixar de ser
assim, uma vez que o cálice da vida se bebe por instantes líquidos e nele vai
delido o da morte. A
isto atinou também um poeta étnico, Horácio, dizendo que os anos da nossa
vida eram ladrões da mesma vida. E outro, cristão, dizendo que desde o berço
se ia formando a tumba, porque a árvore da mesma vida leva em si semente da
morte. E
outro a um amigo, que lhe perguntara que anos tinha, respondeu discretamente que
nenhuns, porque os que tinha eram os mesmos que não tinha: Perguntas-me
com empenho pela
idade, e que anos somo. Respondo:
— Nenhum. — E como? —
Os que tenho, já os não tenho.. Mas
esta nossa vida outra maior parte tem de morte, por ser vida limitada, finita e,
enfim, mortal. Desde que nascemos, e ainda antes de nascermos, já de certo
vamos caminhando para a morte. A vida que Deus tinha dado a Adão antes do seu
pecado, e que nós todos havíamos de lograr, era vida viva; esta outra, que,
chamada por Adão, entrou em seu lugar, é vida morta, como dizem os Santos
Padres. Porque, assim como, separando-se a alma do corpo, fica este morto;
assim, separando-se da nossa vida a alma da mesma vida, fica morta esta vida. E
qual é a alma da vida? A imortalidade. Tirando-se logo à nossa vida o ser
imortal, que havia de ficar senão o cadáver dela, que é a vida mortal que
agora trazemos às costas? Quantos
homens há, tantos cadáveres somos; quanta carne do pecado, tanta cinza da
morte. Se assim não fora, não diria Deus e a Igreja a todos nós, que somos
agora em vida o mesmo pó e cinza que havemos ser na morte: Pulvis es, et in
pulverem reverteris. Como quem diz: Então sereis mortos, e já agora também
cinza e pó; porque se ausentou a alma da nossa vida, que era a imortalidade, e
assim ficou vida morta. Usa
a morte com o homem os mesmo termos de crueldade e vexação que usou aquele
rigoroso credor do Evangelho com o servo que lhe devia cem dinheiros. Diz o
sagrado texto que o pobre, prostrando-se a seus pés, lhe rogava que esperasse
pela paga, prometendo que lhe satisfaria inteiramente. Racionável
parece esta petição, mas cuida alguém que a morte se leva disso? Quer que já
de presente lhe comecemos a pagar, e tanto nos aperta a garganta, que um Job nem
engolir a sua saliva podia. As doenças e achaques são os seus sacadores, que
ela manda para arrecadar a sua dívida, ao menos em parcelas; e estes sacadores
parece que nos querem tirar os olho, pois só dos olhos, diz Galeno, há cento e
quinze diferentes doenças. A
corrupção e os bichos, que, conforme dizia o mesmo Job, são nosso pais, não
se contentam com ser nossos herdeiros forçados na sepultura, senão que nos
querem herdar em vida. E, ainda que a morte não faça logo a última execução,
todavia leva de casa penhores ou usuras: a uns o sentido da vista, a outros o
dos ouvidos, a outros algum braço, ou perna, que lhes inutiliza. Porque todo o
uso dos nossos sentidos e membros eram partes da dívida do pobre devedor, e
depois ficam sendo partes da morte. Não
é tudo isto verdade? Já há muitos séculos que o tinha dito o filósofo
Xenocrates, discípulo do divino Platão. E
ainda que a morte se não penhore em doenças e aleijões, sempre tira para um
seu irmão muito parecido com ela — que é o sono — a quarta ou terça parte
da vida; que não é pequena miséria ser necessária para sustento da mesma
vida esta quotidiana contribuição à morte... Porém
não só os defeitos e misérias do corpo nos diminuem e apoucam a vida, senão
também os defeitos e misérias da alma. Porque, como disse Sêneca, a puerícia
a leva a ignorância; a mocidade a arrebata o furor cego da sensualidade; na
idade do meio (que era o mais bem parado da vida) prendem a inveja, ira, cobiça
e ambição; ultimamente a velhice fica para as doenças a pasto... (Nova Floresta)
[1]
Livro dos Reis (14, 14) [2]
Cada dia morro... (2 Cor. 15, 30) |