MIME-Version: 1.0 Content-Type: multipart/related; boundary="----=_NextPart_01C887D7.CF079C40" ------=_NextPart_01C887D7.CF079C40 Content-Location: file:///C:/C8F266A1/file9185.htm Content-Transfer-Encoding: quoted-printable Content-Type: text/html; charset="us-ascii"
Explicamos =
na
parte anterior as três primeiras palavras pronunciadas por Nosso Senh=
or no
pulpito da Cruz, acerca da hora sexta, pouco depois da
crucificação. Nesta parte explicaremos as quatro faltantes
palavras que, dados a escuridão e o silêncio de três hor=
as,
proclamou o mesmo Senhor daquele púlpito com voz forte. Mas antes
convém explicar à brevidade o que é, e donde vem, e pa=
ra
que adveio a escuridão que se abateu entre as três primeiras e=
as
quatro últimas palavras, pois assim disse São Mateus:
“Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trev=
as.
Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli,
lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por =
que
me abandonaste?” (27, 45,46). E saiu a escuridão dum eclipse d=
o
sol, tal como nos narra São Lucas: “E houve o eclipse do
sol” (23, 44), disse.
Eis que se =
nos
apresentam três dificuldades. Em primeiro lugar um eclipse do sol oco=
rre
em lua nova, quando a lua está entre a terra e o sol, e tal nã=
;o
pudera acontecer na morte do Cristo, pois que a lua não estava em
conjunção com o sol, em lua nova, mas estava em oposiç=
ão
ao sol, em lua cheia, já que a Paixão deu-se na Páscoa=
dos
judeus que, segundo São Lucas, foi a catorze do mês lunar. Em
segundo lugar, ainda que estivesse a lua em conjunção com o s=
ol
ao momento da Paixão, não poderia a escuridão durar
três horas, i. é, da hora sexta à nona, pois que um ecl=
ipse
do sol não dura tanto tempo, especialmente um eclipe total, quando d=
e
tão escondido ao sol se lhe chamam trevas. Uma vez que a lua é=
;
mais veloz que o sol, segundo a natureza de seu movimento, escurece ela a s=
uperficie
toda do sol por um breve período apenas e, apesar de estar o sol em
movimento constante, não obstante distancia-se a lua, que impede aqu=
ele
astro de alumiar a terra. Finalmente não é possivel a
conjunção entre sol e lua mergulhar a terra inteira em trevas=
,
pois a lua é menor que ambos o sol e a terra, daí por sua
interposição não pode a lua escurecer o sol a ponto de
privar o universo desta luz. E se há quem sustente que a opini&atild=
e;o
dos Evangelistas refere-se tão-somente à terra da Palestina, =
e
não ao mundo inteiro em absoluto, dê-se por refutado no testem=
unho
de São Dionísio Areopagita, que na Epístola a Sã=
;o
Policarpo declara que, na cidade de Heliópolis do Egito, observara e=
ste
eclipse do sol, e provara destas horríveis trevas. Flego, historiado=
r grego
e gentio, relata o eclipse ao dizer: “No quarto ano da ducenté=
sima
segunda olimpíada, dera-se o maior e mais extraordinário ecli=
pse
já ocorrido, pois à hora sexta a luz do dia fizera-se em trev=
as
de noite, de modo que as estrelas aparecessem nos céus”. Este
historiador não escrevia da Judéia, sendo citado por
Orígenes
Vári=
as
são as razões por que despejou Deus trevas universais durante=
a
Paixão do Cristo. Entre elas há duas bem distintas. Primeiro =
para
mostrar a verdadeira cegueira do povo judeu, como nos apostrofa São =
Leão
no décimo sermão sobre a Paixão de Nosso Senhor; tal
cegueira ainda hoje permanece, e permanecerá ainda, conforme a profe=
cia
de Isaias: “Levanta-te, sê radiosa, eis a tua luz! A gló=
ria
do Senhor se levanta sobre ti. Vê, a noite cobre a terra e a
escuridão, os povos, mas sobre ti levanta-se o Senhor, e sua
glória te ilumina” (Is 60, 1,2): a escuridão mais negra
cobrirá o povo de Israel, e uma nuvem grandiosa, contudo tênue=
e
espalhada, cobrirá os gentios. Em segundo, como nos ensina Sã=
o
Jerônimo, para mostrar a magnetude imensa dos pecados dos homens. Com=
efeito
antes os homens perversos soiam fustigar, perseguir e matar os bons; agora =
os
ímpios se atreviam a perseguir e crucificar ao mesmo Deus, que assum=
ira
a condição humana. Antes os homens discutiam entre si; de
disputas passavam a maldições; de maldições a
sangue e assassinato; agora servos e escravos insurgiram contra o Rei dos
Homens e dos Anjos, com audácia inaudita cravaram-lhe na Cruz.
Daí o mundo inteiro preencheu-se de horror, e para mostrar quã=
;o
detestável fora semelhante crime, recolheu o sol seus raios e cobriu=
-se
o universo de terrível escuridão.
Passemos ag=
ora
à interpretação das palavras do Senhor: “Eli, El=
i,
lammá sabactáni?”. Tomam-se estas palavras do salmo 21:
“Meu Deus, meu Deus, vede-me, por que me abandonastes? (Sl 21, 2). As=
palavras
“vede-me”, que aparecem na metade do versículo,
acrescentaram-nas os Setenta interprétes, mas no texto hebraico
só se encontram as palavras que pronunciou o Senhor. Devemos ressalt=
ar a
origem hebraica da escrita dos Salmos, e as palavras pronunciadas por Crist=
o estavam
na parte em siríaco, que era a linguagem em uso entre os judeus. Est=
as
palavras: “Talitá kum — Criança, a ti te digo,
levanta-te”, e “Effatá — Abre-te”, tal como
outras palavras no Evangelho são siríacas e não hebrai=
cas.
Queixa-se pois Nosso Senhor do abandono de Deus, e queixa-se gritando com v=
oz
forte. Há-de se explicar brevemente ambas as circunstancias. O aband=
ono
do Cristo pelo Pai pode ser explicado de cinco maneiras, mas uma só
há que é a verdadeira interpretação. Houvera de
fato cinco uniões entre o Pai e o Filho: uma, a união natural=
e
eterna da Pessoa do Filho em essência; a segunda, o novo laço =
de
união da Natureza Divina com a humana na Pessoa do Filho, o que &eac=
ute;
dizer a união da Pessoa Divina do Filho com a natureza humana; a ter=
ceira,
a união de graça e vontade, pois Cristo enquanto homem era ho=
mem
“cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14), como se atesta
O primeiro =
tipo
de união é inseparável e eterno, pois que se fulcra na
Essência Divina, conforme aquilo de Nosso Senhor: “Eu e o Pai s=
omos
um” (Jo 10, 30); não obstante, não disse o Cristo:
“Meu Pai, por que me abandonaste?”, mas “Meu Deus, por qu=
e me
abandonaste?”. Porque o Filho ao Pai chama Deus apenas depois da
Encarnação, e por causa dela. O segundo tipo de união
nunca fora nem será disolvido, pois que o que Deus já alguma =
vez
assumira nunca poderá deixar de lado, por isso aquilo do Após=
tolo
“Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por t=
odos
nós o entregou” (Rm 8, 32):; e São Pedro “Cristo
padeceu por vós” e “Cristo padeceu na carne” (
Resta nada =
mais
que a união de proteção, que se quebrara por breve
período, dando tempo à oblação do sacrifí=
;cio
cruento para a redenção do mundo. de fato, Deus Pai pudera gu=
ardar
o Cristo de diversos modos, e impedido a Paixão, e por causa disso d=
iz o
Cristo na Oração do Horto: “Tudo te é poss&iacut=
e;vel;
afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que =
eu
quero, senão o que tu queres” (Mc 14,36); e novamente São Pedro: “Crês t=
u
que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatam=
ente
mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). Ainda assim, pudera o Cristo Deus salvar-se do so=
frimento
do Corpo, pois é dito “Ninguém a tira de mim, mas eu a =
dou
de mim mesmo e tenho o poder de a dar” (Jo 10,18); e como profetizara Isaias: “não abri=
u a
boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro” (Is 53, 7).
Finalmente, a Alma bendita do Cristo pode transmitir ao Corpo o dom da impa=
ssibilidad
e da incorrupção; mas juntou-o ao Pai, e ao Verbo, e ao
Espírito Santo, para que se cumprisse o decreto da Santíssima
Trindade, o permitir que o humano poder prevalecesse temporariamente contra=
o
Cristo. Era esta aquela hora a que se referia o Cristo quando disse aos que=
lhe
vinham cativar: “esta é a vossa hora e do poder das trevasR=
21;
(Lc 22, 53). Deste modo, abandonou Deus o Filho quando permitiu que sua Car=
ne
humana padecesse tão cruéis tormentos, sem consolo algum, e p=
or
isso o Cristo manifesta este abandono gritando com voz forte para fazer
pregão da imensidade do preço da redenção, pois=
que
até esta hora suportara Ele a todos os tormentos com tal paciê=
ncia
e igualdade, que parecia privado da capacidade de sentir. Não se que=
ixou
Ele dos judeus acusadores, nem de Pilatos juiz condenador, nem dos soldados
crucificadores. Não tugiu, nem gritou, nem deu sinal exterior de
sofrimento; mas agora, às portas da morte, para que a humanidade
entendesse, e nós seus servos recordássemos a graça
tão imensa e o valor do preço da redenção, quis=
era apregoar
o sofrimento da Paixão. Por isso estas palavras: “Meu Deus, po=
r
que me abandonaste?”, não são de quem acusa ou exproba =
ou
murmura, mas, como já se disse, são palavras de Alguém=
que
publica a imensidade de seu sofrimento em prol da melhor das causas, no mai=
s
oportuno dos momentos.
“Comi=
go
não se deu tal, filho meu, pois
Finalmente,
Senhor, tendes abatido de todo a impaciência de vosso servo, quem por
vezes busca rezar agitado de trabalhos, ou carregado de afliçõ=
;es,
e só consegue elevar a mente a Deus para rezar por si mesmo; se por
vossa graça consegue elevar a mente, não se pode fixar sua
atenção, mas os pensamentos voltam-se errantes aos trabalhos =
e
às dores. Portanto, Senhor, tende piedade deste servo por vossa gran=
de
misericórdia, para que, à imitação do exemplo d=
e
tamanha paciência, possa pisar as vossas pegadas e aprender a desdenh=
ar
suas leves aflições, ao menos durante a
oração”.
A primeira
razão que se me apresenta é a grandeza e a multidão do=
s
pecados cometidos pela humanidade contra Deus, e que o Filho de Deus assumi=
u em
expiação na sua própria Carne: “Carregou, escrev=
e
Pedro, os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos
nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fom=
os
curados (1Pd 2, 24). De fato, a grandeza das ofensas que assumiu o Cristo e=
m
expiação é, de certo modo, infinita, em razão d=
a Pessoa
ofendida, de infinita majestade e excelência; todavia, por outro lado=
, a
Pessoa do que expia, a Pessoa do Filho de Deus, também é de
infinita majestade e excelência, em conseqüência cada
sofrimento tomado voluntariamente pelo Filho de Deus, fosse apenas uma
só gota do Sangue derramado, seria expiação bastante.
Contudo quis Deus que o Filho tivesse incontáveis sofrimentos e
tormentos, as dores mais atrozes, pois que as ofensas que cometêramos
não era uma só, mas muitas, e o Cordeiro de Deus, que tirou o=
s
pecados do mundo, tomara sobre si não só os de Adão, m=
as
os de toda a humanidade. Vê-se tal no abandono de que se queixa o Fil=
ho
ao Pai: “Por que me abandonaste?”. A segunda razão &eacu=
te;
a grandeza e a multidão das penas infernais, que nos mostra o Filho =
de Deus
quão grandes são ao querer apagá-las com torrentes de
Sangue. O profeta Isaias nos ensina que são terríveis e intol=
erabilíssimos,
quando pergunta: “Quem de nós poderá permanecer perto d=
este
fogo devorador? Quem de nós poderá permanecer perto das chama=
s
eternas?” (Is 33, 14). =
Demos
por isso graças de todo o coração a Deus, a quem conse=
ntiu
no abandono momentâneo do Filho Único em meio a gravosos
tormentos, para libertar-nos das chamas que seriam eternas. Demos
graças, também, de todo o coração ao Cordeio de
Deus, que preferiu a espada vingadora do abandono de Deus, a abandonar-nos
diante da besta, eterna roedora, nunca saciada de roer-nos.
A terceira
razão é o alto valor da graça de Deus, pedra precios&i=
acute;ssima
que Cristo, o mercador prudente, mereceu ao vender tudo o que tinha,
devolvendo-no-la. A graça de Deus, oferecida a Adão, e por
nós perdida em seu pecado, é pedra tão preciosa que,
além de nos adornar a alma e fazê-la agradável a Deus,
é prenda de eterna felicidade. Não havia quem recuperasse tal=
pedra,
a jóia de nossas riquezas, roubada por astúcia da serpente,
senão o Filho de Deus, quem venceu em sua sabedoria a maldade do
demônio, restituindo o tesouro ao custo de si mesmo, já que
suportou tantas penas e dores. Prevaleceu a obediência do Filho, que =
se
obrigou à penosa peregrinação para recuperar-nos a
jóia preciosa. A quarta causa foi a imensa grandeza do reino dos
céus, que o Filho de Deus franqueou-nos com imensas fadigas e
sofrimento, ao que canta agradecida a Igreja: “Quando abatestes da mo=
rte
o aguilhão, abristes aos crentes o reino dos céus”.
A primeira
verdade é que, enquanto estava o Cristo na Cruz, escurecia-se o sol =
de
tal modo que as estrelas se viam como de noite. Afiançam o fato cinc=
o
testemunhas, dignas de crédito, que, vindos de distintas
nações, escreveram livros em épocas e lugares distinto=
s,
de forma a seus escritos não serem resultado de
comparações ou alguma tramóia. É o primeiro
São Mateus, judeu, que escreveu na Judéia e um dos quais
testemunhou o sol escurecer-se. Conclui-se que um homem deste cuidado e
prudência não escreveu o que escrevera, o mais provável=
na
cidade de Jerusalém, a menos que o fato a que referiu fosse verdadei=
ro.
De outro modo, seria ridicularizado e objeto de zombaria dos habitantes da
cidade e do país, escrevendo o que todos sabiam ser falso. Outra
testemunha é São Marcos, que escreveu de Roma; também =
viu
o eclipse, pois que se encontrava na Judéia àquele tempo, jun=
to
aos demais discípulos de Nosso Senhor. São Lucas é o
terceiro, grego de origem e de escrita: também presenciou o eclipse,=
de
Antioquia. Como Dionísio Areopagita em Heliópolis do Egito,
São Lucas pôde vê-lo nimiamente em Antioquia, mais propi=
nqua
a Jerusalém que Heliópolis. As testemunhas quatro e cinco
são Dionísio e Apolofanes, ambos gregos e ainda gentios, que
afirmam sem erro que viram o eclipse e se tomaram de assombro. São e=
stas
as cincos testemunhas que dão testemunho do fato por que o viram.
À sua autoridade devemos acrescentar a dos Anais dos romanos e a de
Flegon, o cronista do imperador Adriano, como motráramos no primeiro
capítulo. Em conseqüência, esta primeira verdade nã=
;o
podem negar judeus ou pagãos sem grande temeridade. Em meio a
cristãos, é considerada de fé católica.
A segunda v=
erdade
é que o eclipse só ocorreu devido ao imenso poder de Deus;
portanto, não pudera ser obra do demônio, nem de homens por
mediação do demônio, mas procedeu da excelente
Providência e vontade de Deus, o Criador e Soberano do mundo. Eis a
prova. Só de três modo o sol se eclipsou: ou a lua se
interpôs entre o sol e a terra, ou alguma nuvem grande e densa, ou po=
r
absorvição ou extinção dos raios do sol. De aco=
rdo
com as leis da natureza, não pudera ocorrer a interposiç&atil=
de;o
da lua, já que era a Páscoa dos judeus, e lua cheia. Logo hou=
ve
eclipse sem a interposição da lua, ou a lua, em um milagre
grandioso e extraordinário, atravessou em poucas horas a distâ=
ncia
a ser percorrida em quatorze dias, e por igual milagre retornou ao lugar
natural. Pois bem, geralmente se admite que apenas Deus pode influenciar os
movimentos das esferas celestes, porque se limita o poder do demônio =
a
este globo, e por isso chama o Apóstolo a satanás de “o
príncipe das potestades do ar” (Ef 2,2).
O eclipse d=
o sol
não ocorrera conforme o segundo modo, pois uma nuvem densa e espessa
não haveria de esconder os raios do sol sem consigo ocultar as estre=
las.
Aqui a autoridade de Flegon para dizer que durante o eclipse se enxergavam =
as estrelas
tão bem no céu como se de noite. Acerca do terceiro modo, dev=
emos
lembrar que os raios do sol só se extinguiriam ou absorveriam no pod=
er
de Deus, quem criou o sol. Daí ser tão certa quanto a primeir=
a
verdade esta segunda, que não se pode também negar sem
temeridade.
A terceira
verdade é que a Paixão do Cristo causou o eclipse, realizado =
pela
excelente Providência de Deus, como se prova no fato de que a
escuridão obnubilou a terra no exato tempo que Nosso Senhor restou v=
ivo
na Cruz, i. é, desde a hora sexta até à nona. Atestam =
isto
todos os que falam do eclipse, não havendo de se ter por
coincidência o eclipse em si milagroso e a Paixão do Cristo, p=
ois
que os milagres não são fruto do acaso, mas do poder de Deus.
Não conheço autor que assinale causa diversa para eclipse
tão maravilhoso. Assim, os que conhecem a Cristo reconhecem que o fe=
ito
realizou-se em seu favor, e os que não o conhecem confessam a
ignorância da causa, mas admiram-se diante do fato.
A quarta verdade é que
escuridão tão terrível traduz a injustiça da
sentença de Caifás e Pilatos, comprovando que Jesus era o
unigênito Filho de Deus vivo, o Messias prometido aos judeus. Esta fo=
i a
razão por que os judeus pediam sua morte. Na ocasião do conse=
lho
dos sacerdotes, escribas e fariseus, o sumo sacerdote constatou que a
evidência apresentada não provava nada, levantou-se e disse:
“Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se
és o Cristo, o Filho de Deus?”.
Quando reco=
nheceu
e confessou Nosso Senhor que o era, aquele “rasgou as vestes e disse:
Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a
blasfêmia! Qual o vosso parecer? Eles responderam: Merece a morte!=
221;
(Mt 26, 63,65,66). Novame=
nte
diante de Pilatos, que desejava libvertá-lo, gritavam os sumos
sacerdotes e o povo: “Nós temos uma lei, e segundo essa lei el=
e
deve morrer, porque se declarou Filho de Deus” (Jo 19, 7). Eis o moti=
vo
principal da condenação à morte de Cruz de Nosso Senho=
r,
conforme a profecia do profeta Daniel, quando disse: “o Ungido
será suprimido, e ninguém (será) a favor dele” (=
Dn
9, 26). Por causa disso, permitiu Deus, durante a Paixão, que se aba=
tese
horrível escuridão por sobre o mundo inteiro, para revelar co=
m clareza
que o sumo pontífice estava errado, o povo judeu estava errado, Hero=
des
estava errado, e quem estava cosido à Cruz era seu Filho
unigênito, o Messias. Ao contemplar as manifestações
celestias, esclamou o centurião: “Verdadeiramente, este homem =
era
Filho de Deus” (Mt 27, 54); a ainda: “Na verdade, este homem er=
a um
justo” (Lc 23, 47). Reconheceu o centurião os sinais da voz de
Deus anulando a sentença de Caifás e de Pilatos, e declarando=
a
ilegalidade da condenação à morte deste homem, visto q=
ue
era o Autor da Vida, o Filho de Deus, o Cristo Prometido. Pois que diversa
coisa havia Deus de significar com tal escuridão, com a recônd=
ita
fratura das rochas, com o rasgar-se o véu do Templo, senão qu=
e apartava-se
do povo que já lhe pertencera, e tomava-se de furor, pois não=
o
conheceram no tempo de sua visita.
É certo que se os judeu=
s
meditassem nisto, e ao mesmo tempo volvessem a atenção ao fat=
o de
que, desde este dia, dispersaram-se por todas as nações,
não tiveram reis ou pontífices, nem altares, nem
sacrifícios, nem profetas – haveriam de concluir que os abando=
nara
Deus e, o que é pior, seus sentidos se tomaram de embotamento,
cumprindo-se neles o que Isaias profetizou, ao apresentar-se ao Senhor, diz=
endo:
“Vai, pois, dizer a esse povo, disse ele: Escutai, sem chegar a compr=
eender,
olhai, sem chegar a ver. Obceca o coração desse povo,
ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que não veja n=
ada
com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compree=
nda
nada com seu espírito. E não se cure de novo” (Is 6, 10=
).
A gló=
;ria
do Cristo, conforme nos escreve São João no início de =
seu
Evangelho – “Vimos sua glória, glória como do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14=
).
– consistia
Na Paix&ati=
lde;o,
descera o Cristo aos abismos da humildade, mas tal humildade teve sua paga =
e
sua glória. O que prometera tão a miúdo Nosso Senhor, =
de
que “o que se humilha, será exaltado”, disse-nos o
Apóstolo que se exemplificou na sua mesma Pessoa. “Humilhou-se
ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por =
isso
Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de=
todos
os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na
terra e nos infernos” (Fl 2, 8-10). Deste modo, quem parecia o menor =
dos
homens declarou-se o primeiro, e à pequena e passageira
humilhação seguiu-se a glória que será eterna.
Deu-se como tal com os apóstolos e os santos. São Paulo disse=
dos
apóstolos: “Chegamos a ser como que o lixo do mundo, a
escória de todos até agora...” (1Cor 4, 13), i. é=
;,
compara-os a coisas vilíssimas que se calcam aos pés. Tal aqu=
ela
humildade. Qual é sua glória? Conta-nos São Joã=
o Crisóstomo
que os apóstolos estão agora assentados no céu, &agrav=
e;
roda do trono de Deus, de onde os querubins o louvam, e os serafins o obedecem. Estão na socied=
ade
dos príncípes da corte celestial, e para todo o sempre
estarão. Se considerassem os homens quão glorioso é o
imitar nesta vista a humildade do Filho de Deus, e vissem a quanta
glória os conduziria esta humildade, depararíamos mui poucos
homens orgulhosos. Mas visto que a maioria dos homens libram só com =
sentidos
e humanas considerações, não nos deve surpreender se o
número dos humildes é apoucado, e dos orgulhosos infinito.