MIME-Version: 1.0 Content-Type: multipart/related; boundary="----=_NextPart_01C887D7.CF079C40" ------=_NextPart_01C887D7.CF079C40 Content-Location: file:///C:/C8F266A1/file9185.htm Content-Transfer-Encoding: quoted-printable Content-Type: text/html; charset="us-ascii" Capítulo I

A= s Últimas Palavras do Cristo na Cruz

São Roberto Belarmino

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Capí= tulo I

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Explica&cce= dil;ão literal da quarta Palavra:

“Meu = Deus, meu Deus, por que me abandonaste”

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Explicamos = na parte anterior as três primeiras palavras pronunciadas por Nosso Senh= or no pulpito da Cruz, acerca da hora sexta, pouco depois da crucificação. Nesta parte explicaremos as quatro faltantes palavras que, dados a escuridão e o silêncio de três hor= as, proclamou o mesmo Senhor daquele púlpito com voz forte. Mas antes convém explicar à brevidade o que é, e donde vem, e pa= ra que adveio a escuridão que se abateu entre as três primeiras e= as quatro últimas palavras, pois assim disse São Mateus: “Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trev= as. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por = que me abandonaste?” (27, 45,46). E saiu a escuridão dum eclipse d= o sol, tal como nos narra São Lucas: “E houve o eclipse do sol” (23, 44), disse.

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Eis que se = nos apresentam três dificuldades. Em primeiro lugar um eclipse do sol oco= rre em lua nova, quando a lua está entre a terra e o sol, e tal nã= ;o pudera acontecer na morte do Cristo, pois que a lua não estava em conjunção com o sol, em lua nova, mas estava em oposiç= ão ao sol, em lua cheia, já que a Paixão deu-se na Páscoa= dos judeus que, segundo São Lucas, foi a catorze do mês lunar. Em segundo lugar, ainda que estivesse a lua em conjunção com o s= ol ao momento da Paixão, não poderia a escuridão durar três horas, i. é, da hora sexta à nona, pois que um ecl= ipse do sol não dura tanto tempo, especialmente um eclipe total, quando d= e tão escondido ao sol se lhe chamam trevas. Uma vez que a lua é= ; mais veloz que o sol, segundo a natureza de seu movimento, escurece ela a s= uperficie toda do sol por um breve período apenas e, apesar de estar o sol em movimento constante, não obstante distancia-se a lua, que impede aqu= ele astro de alumiar a terra. Finalmente não é possivel a conjunção entre sol e lua mergulhar a terra inteira em trevas= , pois a lua é menor que ambos o sol e a terra, daí por sua interposição não pode a lua escurecer o sol a ponto de privar o universo desta luz. E se há quem sustente que a opini&atild= e;o dos Evangelistas refere-se tão-somente à terra da Palestina, = e não ao mundo inteiro em absoluto, dê-se por refutado no testem= unho de São Dionísio Areopagita, que na Epístola a Sã= ;o Policarpo declara que, na cidade de Heliópolis do Egito, observara e= ste eclipse do sol, e provara destas horríveis trevas. Flego, historiado= r grego e gentio, relata o eclipse ao dizer: “No quarto ano da ducenté= sima segunda olimpíada, dera-se o maior e mais extraordinário ecli= pse já ocorrido, pois à hora sexta a luz do dia fizera-se em trev= as de noite, de modo que as estrelas aparecessem nos céus”. Este historiador não escrevia da Judéia, sendo citado por Orígenes e= m Contra Celso, e Eusébio nas Crônicas S= obre o Trigésimo Terceiro Ano do Cristo. Luciano, mártir, d&aacu= te; testemunho do acontecimento: “Perscruta os anais e encontrarás= que ao tempo de Pilatos desapareceu o sol, e o dia invadido de trevas”. Rufino dá notícia das palavras de São Luciando na História Eclesiástica, de Eusébio, que traduziu a referida notícia em latim. Também Tertuliano, no Apologeticon, e Paulo Orósio, em sua história, to= dos enfim, falam acerca do globo inteiro, e não apenas da Judéia. Atentai pois à solução das dificuldades. O que acima dissemos, que um eclipse do sol ocorre em lua nova e não cheia, está correto quanto ao eclipse natural; mas o eclipse da morte do Cr= isto foi extraordinário, e não natural, pois que era efeito d’Aquele que fez o sol e a lua, o céu e a terra. São Dionísio, no passo acima referido, afirma que ao meio-dia viram ele = e Apolofanes a lua aproximar-se do sol com movimento rápido e original= , e viram a lua de prontidão defronte do sol até à hora no= na, e assim como foi voltou para seu lugar a leste. À objeç&atild= e;o de que um eclipse do sol não poderia durar três horas, de modo= que por todo o tempo trevas cobrissem a terra, vamos responder que se fosse um = eclipse natural e ordinário estaria certo: não obstante este eclipse = se não regeu por leis naturais, senão pela vontade do Criador Onipotente, que sem esforço embargou a lua e quietou-lhe o movimento ante o sol, sem que se movesse nem mais rápido nem mais lento que o = grande luzeiro, conduzindo-a de modo extraordinário e veloz desde a sua posição leste, para depois de três horas retorná= -la a seu lugar natural nos céus. Finalmente, não se poderia nota= r em todas as partes do mundo um eclipse, pois a lua é menor que a terra = e muito menor que o sol. Isto é certíssimo em relaç&atil= de;o à simples interposição da lua; mas o que a lua por si só não faria, fê-lo o Criador do sol e da lua, com só deixar de cooperar com o sol na tarefa de iluminaçã= o do globo. Novamente, não é certo, como se supõe, que a ca= usa das trevas universais foram nuvens espessas e escuras, pois é eviden= te, pela autoridade dos antigos, que durante estes eclipse e trevas brilharam a= s estrelas no céu; nuvens espessas escureceriam o sol, mas também a lua = e as estrelas.

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Vári= as são as razões por que despejou Deus trevas universais durante= a Paixão do Cristo. Entre elas há duas bem distintas. Primeiro = para mostrar a verdadeira cegueira do povo judeu, como nos apostrofa São = Leão no décimo sermão sobre a Paixão de Nosso Senhor; tal cegueira ainda hoje permanece, e permanecerá ainda, conforme a profe= cia de Isaias: “Levanta-te, sê radiosa, eis a tua luz! A gló= ria do Senhor se levanta sobre ti. Vê, a noite cobre a terra e a escuridão, os povos, mas sobre ti levanta-se o Senhor, e sua glória te ilumina” (Is 60, 1,2): a escuridão mais negra cobrirá o povo de Israel, e uma nuvem grandiosa, contudo tênue= e espalhada, cobrirá os gentios. Em segundo, como nos ensina Sã= o Jerônimo, para mostrar a magnetude imensa dos pecados dos homens. Com= efeito antes os homens perversos soiam fustigar, perseguir e matar os bons; agora = os ímpios se atreviam a perseguir e crucificar ao mesmo Deus, que assum= ira a condição humana. Antes os homens discutiam entre si; de disputas passavam a maldições; de maldições a sangue e assassinato; agora servos e escravos insurgiram contra o Rei dos Homens e dos Anjos, com audácia inaudita cravaram-lhe na Cruz. Daí o mundo inteiro preencheu-se de horror, e para mostrar quã= ;o detestável fora semelhante crime, recolheu o sol seus raios e cobriu= -se o universo de terrível escuridão.

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Passemos ag= ora à interpretação das palavras do Senhor: “Eli, El= i, lammá sabactáni?”. Tomam-se estas palavras do salmo 21: “Meu Deus, meu Deus, vede-me, por que me abandonastes? (Sl 21, 2). As= palavras “vede-me”, que aparecem na metade do versículo, acrescentaram-nas os Setenta interprétes, mas no texto hebraico só se encontram as palavras que pronunciou o Senhor. Devemos ressalt= ar a origem hebraica da escrita dos Salmos, e as palavras pronunciadas por Crist= o estavam na parte em siríaco, que era a linguagem em uso entre os judeus. Est= as palavras: “Talitá kum — Criança, a ti te digo, levanta-te”, e “Effatá — Abre-te”, tal como outras palavras no Evangelho são siríacas e não hebrai= cas. Queixa-se pois Nosso Senhor do abandono de Deus, e queixa-se gritando com v= oz forte. Há-de se explicar brevemente ambas as circunstancias. O aband= ono do Cristo pelo Pai pode ser explicado de cinco maneiras, mas uma só há que é a verdadeira interpretação. Houvera de fato cinco uniões entre o Pai e o Filho: uma, a união natural= e eterna da Pessoa do Filho em essência; a segunda, o novo laço = de união da Natureza Divina com a humana na Pessoa do Filho, o que &eac= ute; dizer a união da Pessoa Divina do Filho com a natureza humana; a ter= ceira, a união de graça e vontade, pois Cristo enquanto homem era ho= mem “cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14), como se atesta em São João: “Faço = sempre o que é do seu agrado” (Jo 8, 29), dizendo Dele o Pai: “= Este é meu Filho amado, em quem pus as minhas complacências (Mt 3,17). A quarta foi a uni&at= ilde;o de glória, pois a alma do Cristo a gozou desde o momento da concepção na visão beatífica; a quinta, a união de proteção a que se refere quando diz: “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho” (Jo 8, 29).

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O primeiro = tipo de união é inseparável e eterno, pois que se fulcra na Essência Divina, conforme aquilo de Nosso Senhor: “Eu e o Pai s= omos um” (Jo 10, 30); não obstante, não disse o Cristo: “Meu Pai, por que me abandonaste?”, mas “Meu Deus, por qu= e me abandonaste?”. Porque o Filho ao Pai chama Deus apenas depois da Encarnação, e por causa dela. O segundo tipo de união nunca fora nem será disolvido, pois que o que Deus já alguma = vez assumira nunca poderá deixar de lado, por isso aquilo do Após= tolo “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por t= odos nós o entregou” (Rm 8, 32):; e São Pedro “Cristo padeceu por vós” e “Cristo padeceu na carne” (1Pe 2,21; 4,1): o que prova que= o crucificado não era tão-somente homem, mas verdadeiro Filho d= e Deus, e Cristo Senhor. O terceiro tipo&nbs= p; de união já existe e sempre existirá: “Po= is também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados - o Justo pelos injustos” (1Pe 3,18= ), como no-lo anuncia São Pedro, pois de nada nos aproveitaria a morte = do Cristo se tal união se dissolvera. A quarta união não = se pode interromper, pois que a beatitude d’alma se não pode perd= er, já que compreende o gozo de todos os bens, e o cume da alma do Crist= o estava verdadeiramente feliz (S.= Th., III, q. 46, a. 8).

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Resta nada = mais que a união de proteção, que se quebrara por breve período, dando tempo à oblação do sacrifí= ;cio cruento para a redenção do mundo. de fato, Deus Pai pudera gu= ardar o Cristo de diversos modos, e impedido a Paixão, e por causa disso d= iz o Cristo na Oração do Horto: “Tudo te é poss&iacut= e;vel; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que = eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14,36); e novamente São Pedro: “Crês t= u que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatam= ente mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). Ainda assim, pudera o Cristo Deus salvar-se do so= frimento do Corpo, pois é dito “Ninguém a tira de mim, mas eu a = dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar” (Jo 10,18); e como profetizara Isaias: “não abri= u a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro” (Is 53, 7). Finalmente, a Alma bendita do Cristo pode transmitir ao Corpo o dom da impa= ssibilidad e da incorrupção; mas juntou-o ao Pai, e ao Verbo, e ao Espírito Santo, para que se cumprisse o decreto da Santíssima Trindade, o permitir que o humano poder prevalecesse temporariamente contra= o Cristo. Era esta aquela hora a que se referia o Cristo quando disse aos que= lhe vinham cativar: “esta é a vossa hora e do poder das trevasR= 21; (Lc 22, 53). Deste modo, abandonou Deus o Filho quando permitiu que sua Car= ne humana padecesse tão cruéis tormentos, sem consolo algum, e p= or isso o Cristo manifesta este abandono gritando com voz forte para fazer pregão da imensidade do preço da redenção, pois= que até esta hora suportara Ele a todos os tormentos com tal paciê= ncia e igualdade, que parecia privado da capacidade de sentir. Não se que= ixou Ele dos judeus acusadores, nem de Pilatos juiz condenador, nem dos soldados crucificadores. Não tugiu, nem gritou, nem deu sinal exterior de sofrimento; mas agora, às portas da morte, para que a humanidade entendesse, e nós seus servos recordássemos a graça tão imensa e o valor do preço da redenção, quis= era apregoar o sofrimento da Paixão. Por isso estas palavras: “Meu Deus, po= r que me abandonaste?”, não são de quem acusa ou exproba = ou murmura, mas, como já se disse, são palavras de Alguém= que publica a imensidade de seu sofrimento em prol da melhor das causas, no mai= s oportuno dos momentos.

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Capí= tulo II

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O primeiro = fruto a se colher da consideração

da quarta P= alavra do Cristo na Cruz


Brevemente explicamos o que respeita à história da quarta palavra: toca-nos agora colher alguns frutos da árvore da Cruz. O primeiro pensamento que se aprese= nta é que ao Cristo prouvera apurar o cálice da Paixão até o fim. Permaneceu na Cruz três horas, desde a sexta at&eac= ute; a nona. Permaneceu por três horas inteiras e completas – mais até que três horas, pois que o pregaram antes da hora sexta, e não rendera a alma até a hora nona, como se prova mais adiant= e. O eclipse do sol começou à hora sexta, como demonstram os três Evangelistas Mateus, Marcos e Lucas; conta-nos à letra São Marcos: “Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas por toda a terra” (Mc 15, 33). Senão vejamos, Nosso Sen= hor pronunciou as três primeiras palavras na Cruz antes que se abatesse a= escuridão, e portanto antes da hora sexta. Explica São Marcos amiúde est= a circunstancia, declarando: “Era a hora terceira quando o crucificaram” (Mc 15, 25), e mais a frente completando: “Chegad= a a hora sexta, houve escuridão”. Quando refere que crucificaram N= osso Senhor à hora terceira, quer apontar que lhe furaram de cravos na Cr= uz antes do final dessa hora, e portanto antes do início da hora sexta. Note-se que São Marcos narra por horas principais, cada qual contend= o três das ordinárias, à semelhança do proprietário que contratou os vinhateiros a horas primeira, terceira= , sexta, nona e undécima (Mt 20). Daí o dizer São Marcos= que crucificaram Nosso Senhor à hora terceira, pois a hora sexta ainda não chegara.

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Quis então Nosso Senhor beber o cá= lice cheio e transbordante da Paixão, para nos ensinar a amar o cá= lice amargo do arrependimento e do esforço, e a rejeitar a cópia d= as consolações e prazeres mundanos. Segundo a lei da carne e do mundo, devemos eleger mortificações miúdas, e indulgências gigantes; pouco labor, e muito lazer; aplicar pouco temp= o em nossas orações, mas largo tempo para colóquios ociosos= . Em verdades ignoramos o que pedimos, como adverte o Apóstolo aos Coríntios: “cada um receberá a sua recompensa, segundo = o seu trabalho” (1Cor 3, 8); e novamente: “Nenhum atleta ser&aacu= te; coroado, se não tiver lutado segundo as regras” (2Tm 2, 5). Supõe a felicidade eterna trabalhos eternos, mas visto que nã= o desfrutáramos a felicidade eterna sem que nosso trabalho aqui fora eterno, Nosso Senhor satisfaz-se se durante a vida passageira como a sombra esforçamo-nos em servi-lo pelo exercício das boas obras; por outro lado, os que passam a curta vida em ócio, ou, o que é p= ior, em pecado e provocando a ira de Deus, não são filhos, mas cri= anças sem coração, nem entendimento, nem juízo. Se era necessário que o Cristo padecesse e entrasse assim em sua gló= ria (Lc 24, 26), como poderemos nela entrar, que não era nossa, esperdiçando tempo correndo após os prazeres e gratificações da carne? Se o significado o Evangelho fosse obscuro, e pudesse entender-se apenas a custa de esforço árdu= o, talvez houvesse desculpa; mas tal significado nos é tão sensível, no exemplo da vida Daquele que primeiro o pregou, que sequ= er o cego há de se equivocar em percebê-lo. O ensinamento do Cristo não se exemplificou tão-só na sua mesma vida, mas na cópia dos comentários da sua doutrina ao alcance de todos, na procissão dos apóstolos, mártires, confessores, virgen= s e santos, cujos louvores e triunfos celebramos a cada dia. São estes o= s que proclamam forte que o necessário são “as muitas tribulações”, não os muitos prazeres, para “entrar no reino dos céus” (At 14, 22).

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Capí= tulo III

O segundo f= ruto a se colher da consideração

da quarta P= alavra do Cristo na Cruz


Outro fruto, de muito proveit= o, pode obter-se com a consideração do silêncio do Cristo durante as três horas transcorridas entre a hora sexta e a nona. Pois= , oh! minh’alma, como se portara vosso Senhor nestas três horas? Cobriram o mundo o horror e a escuridão universais, e vosso Senhor repousava, não em leito macio, mas na Cruz, desnudo, cumulado de dor= es, sem consolações. Vós, Senhor, o único que sabei= s o que sofrestes, dai a vossos servos o entendimento da gratidão devida= , para que convosco compartilhem as lágrimas, e sofram por vosso amor,= se for o parecer, a ausência de todo o consolo neste desterro.

 

“Oh filho meu, durante o inteiro curso de minha vida mortal, só de trabalho e dores, nunca provara a angústia como durante essas três horas, nem sofrera com maior = boa-vontade. Dada a debilidade de meu Corpo, se me abriam as Chagas mais e mais, e se amontoavam à amargura de minhas dores. Ainda, o crescente frio na ausência do sol acrescentou sofrimentos ao meu Corpo desnudado da cabeça aos pés. A escuridão impedia-me a vista clara d= o céu, da terra e dos arredores, como que impelindo os pensamentos a s= e deterem amiúde nos tormentos de meu Corpo, tanto que as três h= oras se me antolharam três anos. Meu Coração contudo j&aacut= e; se inflamava de anelante desejo de honrar meu Pai, de lhe patentear obediência, de diligenciar a salvação de vossas almas, = em acréscimos de dores a saciar este meu desejo, e agora as três horas me pareciam não mais que três instantes, se comparados a= o meu grande amor em sofrer”.

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“Oh! querido Senhor, se assim fora, somos ingratíssimos se passamos uma hora em remoer-vos as dores, quando não vacilastes em pender de uma Cruz, por nossa Salvaçã= ;o, durante três horas completas, em aterradoras escuridão, frio e nudez, sofrendo de sede infinda e aguilhões amargosíssimos. M= as, vós que aos homens amais, peço-vos me respondas: pode a veemência de vossos sofrimentos apartar um só momento vosso Coração da oração, durante estas três e silentes horas? Quando passamos nós dificuldades, especialmente se p= adecemos dor corporal, há grande empecilho em orar”.<= /h3>

 

“Comi= go não se deu tal, filho meu, pois em um Corpo débil tinha Eu a Alma prest= a à oração. De fato, no correr das três horas, qua= ndo não saiu palavra de entre meus lábios, orei e supliquei ao Pa= i por ti em meu Coração. Orei não só com o Coração, mas também com minhas Chagas = e meu Sangue. Havia pois tantas bocas a clamar por ti ante o Pai quantas Chag= as em meu Corpo, e eram muitas as Chagas: eram tantas as línguas pedind= o e rogando por ti ante o mesmo Pai, teu Pai e meu Pai, quantas gotas de Sangue caíam no solo’.

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Finalmente, Senhor, tendes abatido de todo a impaciência de vosso servo, quem por vezes busca rezar agitado de trabalhos, ou carregado de afliçõ= ;es, e só consegue elevar a mente a Deus para rezar por si mesmo; se por vossa graça consegue elevar a mente, não se pode fixar sua atenção, mas os pensamentos voltam-se errantes aos trabalhos = e às dores. Portanto, Senhor, tende piedade deste servo por vossa gran= de misericórdia, para que, à imitação do exemplo d= e tamanha paciência, possa pisar as vossas pegadas e aprender a desdenh= ar suas leves aflições, ao menos durante a oração”.

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Capí= tulo IV

O terceiro = fruto a se colher da consideração

da quarta P= alavra do Cristo na Cruz.

Quando exclamou Nosso Senhor na Cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, Ele não ignorava a razão por que o abandonara Deus. Que podia ignorar o onisciente? São Pedro, quando perguntou-lhe Nosso Senhor: “Simão, f= ilho de João, amas-me mais que estes?”, respondeu: “Senhor, vós sabeis todas as coisas: sabeis que vos amos” (Jo 21, 17). = O apóstolo São Paulo, falando do Cristo, disse: “Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e conhecimento”= ; (Col 2, 3). Cristo perguntou-o, não para aprender, mas para estimular-nos perguntar, de modo que buscando e encontrando aprendamos o qu= e nos será útil e até necessário. Por que abandon= ou Deus a seu Filho em meio às provas da amargosa angústia? Apresentam-se cinco razões, das quais darei conta para que os mais discretos que eu tenham oportunidade de investigar outras melhores e mais úteis.

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A primeira razão que se me apresenta é a grandeza e a multidão do= s pecados cometidos pela humanidade contra Deus, e que o Filho de Deus assumi= u em expiação na sua própria Carne: “Carregou, escrev= e Pedro, os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fom= os curados (1Pd 2, 24). De fato, a grandeza das ofensas que assumiu o Cristo e= m expiação é, de certo modo, infinita, em razão d= a Pessoa ofendida, de infinita majestade e excelência; todavia, por outro lado= , a Pessoa do que expia, a Pessoa do Filho de Deus, também é de infinita majestade e excelência, em conseqüência cada sofrimento tomado voluntariamente pelo Filho de Deus, fosse apenas uma só gota do Sangue derramado, seria expiação bastante. Contudo quis Deus que o Filho tivesse incontáveis sofrimentos e tormentos, as dores mais atrozes, pois que as ofensas que cometêramos não era uma só, mas muitas, e o Cordeiro de Deus, que tirou o= s pecados do mundo, tomara sobre si não só os de Adão, m= as os de toda a humanidade. Vê-se tal no abandono de que se queixa o Fil= ho ao Pai: “Por que me abandonaste?”. A segunda razão &eacu= te; a grandeza e a multidão das penas infernais, que nos mostra o Filho = de Deus quão grandes são ao querer apagá-las com torrentes de Sangue. O profeta Isaias nos ensina que são terríveis e intol= erabilíssimos, quando pergunta: “Quem de nós poderá permanecer perto d= este fogo devorador? Quem de nós poderá permanecer perto das chama= s eternas?” (Is  33, 14). = Demos por isso graças de todo o coração a Deus, a quem conse= ntiu no abandono momentâneo do Filho Único em meio a gravosos tormentos, para libertar-nos das chamas que seriam eternas. Demos graças, também, de todo o coração ao Cordeio de Deus, que preferiu a espada vingadora do abandono de Deus, a abandonar-nos diante da besta, eterna roedora, nunca saciada de roer-nos.

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A terceira razão é o alto valor da graça de Deus, pedra precios&i= acute;ssima que Cristo, o mercador prudente, mereceu ao vender tudo o que tinha, devolvendo-no-la. A graça de Deus, oferecida a Adão, e por nós perdida em seu pecado, é pedra tão preciosa que, além de nos adornar a alma e fazê-la agradável a Deus, é prenda de eterna felicidade. Não havia quem recuperasse tal= pedra, a jóia de nossas riquezas, roubada por astúcia da serpente, senão o Filho de Deus, quem venceu em sua sabedoria a maldade do demônio, restituindo o tesouro ao custo de si mesmo, já que suportou tantas penas e dores. Prevaleceu a obediência do Filho, que = se obrigou à penosa peregrinação para recuperar-nos a jóia preciosa. A quarta causa foi a imensa grandeza do reino dos céus, que o Filho de Deus franqueou-nos com imensas fadigas e sofrimento, ao que canta agradecida a Igreja: “Quando abatestes da mo= rte o aguilhão, abristes aos crentes o reino dos céus”.  Contudo para embotar o aguilh&atil= de;o da morte foi necessário travar duro combate, e para que pudesse o Fi= lho de Deus triunfar com todo o esplendor da glória neste combate, abandonou-o o Pai. A quinta causa foi o imenso amor do Filho de Deus ao Pai= . Na redenção do mundo e extirpação do pecado, Ele s= e propusera uma satisfação abundante e superabundante em honra = ao Pai. E assim não fora se o Pai não abandonara o Filho, i. é, se não permitira que sofresse de todos os tormentos que a malícia do demônio pudesse engendrar, e que um homem houvesse = de suportar. Logo, se uma pessoa pergunta por que Deus abandonou o Filho na Cr= uz, quando padecia extremos mui subidos, temos de responder que foi para nos ensinar a imensidão do pecado e do inferno, a imensidão da graça Divina, da vida eterna e do amor do Filho de Deus pelo Pai. De= stas considerações surge outra questão: por que ministrou D= eus o cálice do sofrimento dos mártires com a consolação espiritual, de modo a que preferissem bebê-l= o edulcorado de consolação a estarem sem sofrimentos nem consolações, e permitiu a seu querido e amado Filho beber até o fim o cálice amargo do sofrimento inconsolado? Est&aacu= te; a resposta, no caso dos mártires, na ausência das razõe= s que temos dado acima, a respeito de Nosso Senhor.

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Capí= tulo V

O quarto fr= uto a se colher da consideração

da quarta P= alavra do Cristo na Cruz.


Há-de se colher outro fruto, não tanto da quarta palavra em si, mas das circunstânci= as de tempo em que se pronunciaram, i. é, a consideração = da terrível escuridão que precedeu imediatamente a pronunciação desta palavra. Seria apropriado considerar tal palavra não somente como ilustração da naç&atil= de;o hebráica, mas fortalecimento dos cristãos na fé, caso ponderem com sizo a força das verdades que nos disponhamos de nelas encontrar.

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A primeira verdade é que, enquanto estava o Cristo na Cruz, escurecia-se o sol = de tal modo que as estrelas se viam como de noite. Afiançam o fato cinc= o testemunhas, dignas de crédito, que, vindos de distintas nações, escreveram livros em épocas e lugares distinto= s, de forma a seus escritos não serem resultado de comparações ou alguma tramóia. É o primeiro São Mateus, judeu, que escreveu na Judéia e um dos quais testemunhou o sol escurecer-se. Conclui-se que um homem deste cuidado e prudência não escreveu o que escrevera, o mais provável= na cidade de Jerusalém, a menos que o fato a que referiu fosse verdadei= ro. De outro modo, seria ridicularizado e objeto de zombaria dos habitantes da cidade e do país, escrevendo o que todos sabiam ser falso. Outra testemunha é São Marcos, que escreveu de Roma; também = viu o eclipse, pois que se encontrava na Judéia àquele tempo, jun= to aos demais discípulos de Nosso Senhor. São Lucas é o terceiro, grego de origem e de escrita: também presenciou o eclipse,= de Antioquia. Como Dionísio Areopagita em Heliópolis do Egito, São Lucas pôde vê-lo nimiamente em Antioquia, mais propi= nqua a Jerusalém que Heliópolis. As testemunhas quatro e cinco são Dionísio e Apolofanes, ambos gregos e ainda gentios, que afirmam sem erro que viram o eclipse e se tomaram de assombro. São e= stas as cincos testemunhas que dão testemunho do fato por que o viram. À sua autoridade devemos acrescentar a dos Anais dos romanos e a de Flegon, o cronista do imperador Adriano, como motráramos no primeiro capítulo. Em conseqüência, esta primeira verdade nã= ;o podem negar judeus ou pagãos sem grande temeridade. Em meio a cristãos, é considerada de fé católica.

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A segunda v= erdade é que o eclipse só ocorreu devido ao imenso poder de Deus; portanto, não pudera ser obra do demônio, nem de homens por mediação do demônio, mas procedeu da excelente Providência e vontade de Deus, o Criador e Soberano do mundo. Eis a prova. Só de três modo o sol se eclipsou: ou a lua se interpôs entre o sol e a terra, ou alguma nuvem grande e densa, ou po= r absorvição ou extinção dos raios do sol. De aco= rdo com as leis da natureza, não pudera ocorrer a interposiç&atil= de;o da lua, já que era a Páscoa dos judeus, e lua cheia. Logo hou= ve eclipse sem a interposição da lua, ou a lua, em um milagre grandioso e extraordinário, atravessou em poucas horas a distâ= ncia a ser percorrida em quatorze dias, e por igual milagre retornou ao lugar natural. Pois bem, geralmente se admite que apenas Deus pode influenciar os movimentos das esferas celestes, porque se limita o poder do demônio = a este globo, e por isso chama o Apóstolo a satanás de “o príncipe das potestades do ar” (Ef 2,2).

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O eclipse d= o sol não ocorrera conforme o segundo modo, pois uma nuvem densa e espessa não haveria de esconder os raios do sol sem consigo ocultar as estre= las. Aqui a autoridade de Flegon para dizer que durante o eclipse se enxergavam = as estrelas tão bem no céu como se de noite. Acerca do terceiro modo, dev= emos lembrar que os raios do sol só se extinguiriam ou absorveriam no pod= er de Deus, quem criou o sol. Daí ser tão certa quanto a primeir= a verdade esta segunda, que não se pode também negar sem temeridade.

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A terceira verdade é que a Paixão do Cristo causou o eclipse, realizado = pela excelente Providência de Deus, como se prova no fato de que a escuridão obnubilou a terra no exato tempo que Nosso Senhor restou v= ivo na Cruz, i. é, desde a hora sexta até à nona. Atestam = isto todos os que falam do eclipse, não havendo de se ter por coincidência o eclipse em si milagroso e a Paixão do Cristo, p= ois que os milagres não são fruto do acaso, mas do poder de Deus. Não conheço autor que assinale causa diversa para eclipse tão maravilhoso. Assim, os que conhecem a Cristo reconhecem que o fe= ito realizou-se em seu favor, e os que não o conhecem confessam a ignorância da causa, mas admiram-se diante do fato.=

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A quarta verdade é que escuridão tão terrível traduz a injustiça da sentença de Caifás e Pilatos, comprovando que Jesus era o unigênito Filho de Deus vivo, o Messias prometido aos judeus. Esta fo= i a razão por que os judeus pediam sua morte. Na ocasião do conse= lho dos sacerdotes, escribas e fariseus, o sumo sacerdote constatou que a evidência apresentada não provava nada, levantou-se e disse: “Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?”.

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Quando reco= nheceu e confessou Nosso Senhor que o era, aquele “rasgou as vestes e disse: Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual o vosso parecer? Eles responderam: Merece a morte!= 221; (Mt 26, 63,65,66). Novame= nte diante de Pilatos, que desejava libvertá-lo, gritavam os sumos sacerdotes e o povo: “Nós temos uma lei, e segundo essa lei el= e deve morrer, porque se declarou Filho de Deus” (Jo 19, 7). Eis o moti= vo principal da condenação à morte de Cruz de Nosso Senho= r, conforme a profecia do profeta Daniel, quando disse: “o Ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele” (= Dn 9, 26). Por causa disso, permitiu Deus, durante a Paixão, que se aba= tese horrível escuridão por sobre o mundo inteiro, para revelar co= m clareza que o sumo pontífice estava errado, o povo judeu estava errado, Hero= des estava errado, e quem estava cosido à Cruz era seu Filho unigênito, o Messias. Ao contemplar as manifestações celestias, esclamou o centurião: “Verdadeiramente, este homem = era Filho de Deus” (Mt 27, 54); a ainda: “Na verdade, este homem er= a um justo” (Lc 23, 47). Reconheceu o centurião os sinais da voz de Deus anulando a sentença de Caifás e de Pilatos, e declarando= a ilegalidade da condenação à morte deste homem, visto q= ue era o Autor da Vida, o Filho de Deus, o Cristo Prometido. Pois que diversa coisa havia Deus de significar com tal escuridão, com a recônd= ita fratura das rochas, com o rasgar-se o véu do Templo, senão qu= e apartava-se do povo que já lhe pertencera, e tomava-se de furor, pois não= o conheceram no tempo de sua visita.

É certo que se os judeu= s meditassem nisto, e ao mesmo tempo volvessem a atenção ao fat= o de que, desde este dia, dispersaram-se por todas as nações, não tiveram reis ou pontífices, nem altares, nem sacrifícios, nem profetas – haveriam de concluir que os abando= nara Deus e, o que é pior, seus sentidos se tomaram de embotamento, cumprindo-se neles o que Isaias profetizou, ao apresentar-se ao Senhor, diz= endo: “Vai, pois, dizer a esse povo, disse ele: Escutai, sem chegar a compr= eender, olhai, sem chegar a ver. Obceca o coração desse povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que não veja n= ada com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compree= nda nada com seu espírito. E não se cure de novo” (Is 6, 10= ).

 

 

Capí= tulo VI

O quinto fr= uto a se colher da consideração

da quarta P= alavra do Cristo na Cruz

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Nas três primeiras palavras Cristo Nosso Senhor aconselhou-nos três grandes virtudes: caridade para com os inimigos, amabilidade para quem sofre, e afeição aos pais. Na= s quatro últimas aconselha-nos quatro virtudes, não mais excelentes, claro, mas não por isso menos necessárias: humild= ade, paciência, perseverança e obediência. Com efeito, da hum= ildade, que se pode chamar de virtude característica do Cristo – pois = que se não menciona dela nos escritos dos sábios deste mundo R= 11; deu-nos Ele exemplo através de suas ações durante o completo transcurso de sua vida, e com palavras escolhidas provou-se o Mest= re de tal virtude, ao dizer: “Recebei minha doutrina, porque eu sou mans= o e humilde de coração” (Mt 11, 29). Mas em nenhum momento alentou-nos mais claramente à prática desta virtude, junto co= m a da paciência, que não vai separada da humildade, que quando exclamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Cristo dá-nos a saber com tais palavras que com o consentimento de Deus, co= mo testemunharam as trevas, escureceram-se toda sua glória e excelência – não pudera suportar isto Nosso Senhor se não possuísse a virtude da humildade em grau heróico.<= o:p>

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A gló= ;ria do Cristo, conforme nos escreve São João no início de = seu Evangelho – “Vimos sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14= ). – consistia em= seu Poder, Retidão, Justiça, Real Majestade, Felicidade d’Alma, e a diginidade divina de que gozava como verdadeir= o e real Filho de Deus. As palavras “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, comprovam que a Paixão cobriu com véu es= tes dons. A Paixão cobriu com véu seu poder, pois quando estava pregado à Cruz, parecia tão impotente que os sumos sacerdotes= , os soldados e o ladrão zombavam de sua debilidade, dizendo: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz! Ele salvou a outros e não = pode salvar-se a si mesmo!” (Mt 27, 40;42). Que paciência, que humil= dade foi-lhe necessária a Ele, o Todo-Poderoso, para não responder palavra a semelhantes zombarias! A Paixão cobriu com véu sua Sabedoria, pois ante o sumo pontífice, Herodes, Pilatos, estivera co= mo privado de entendimento, respondendo as perguntas com silêcio, de mod= o tal que “Herodes, com a sua guarda, tratou-o com desprezo, escarneceu dele, mandou revesti-lo de uma túnica branca” (Mt 23, 11). Que paciência, que humildade foi necessária a quem não era apenas mais sábio que Salomão, mas a mesma Sabedoria de Deus, para tolerar tamanhos ultrajes! A Paixão cobriu com véu a retidão de sua vida, pois pregado à Criz entre dois ladrões, como enredador do povo, e usurpador do reino alheio. Confes= ou o Cristo que o abandono do Pai parecia projetar maior resplendor à glória de sua vida inocente. “Por que me abandonaste?”. = Pois não costuma Deus abandonar os homens retos, mas os perversos. Com efeito, o homem orgulhoso tem particular cuidado de evitar dizer algo que l= eve os ouvintes à dedução de que fora menosprezado. Mas os= homens humildes e pacientes, cujo Rei é o Cristo, aproveitam diligentemente toda ocasião de praticar a humildade e paciência, de modo que = em fazê-lo não violam a verdade. Que paciência, que humilda= de foi necessária para suportar os insultos, sobretudo se é Aque= le de quem São Paulo diz: “Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado além dos céus” (Mt 7, 26). A Paixão projeta o véu sobre a Real Majestade, que tivera por diadema coroa de espinhos, por cetro cana, por câmara de audiên= cia patíbulo, como reais hóspedes ladrões. Que paciê= ncia pois, que humildade foi necessária a quem era verdadeiro Rei dos Rei= s, Senhor dos Senhores, e Príncipe dos Reis deste mundo! Que dizer da alegria de coração de que gozou Cristo desde o momento da concepção, e de que, se o quisesse, poderia participar o Corp= o? Que véu era o da Paixão, que cobriu a glória de sua felicidade, pois que o fizera, como profetizou Isaias, “Desprezado, e= ra a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos” (Is 53, 3), tanto assim que no maior do sofrimento grito= u: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Enfim, tanto escureceu a Paixão a poderosa dignidade da Pessoa Divina d’Aqu= ele que se assenta acima de todos os homens, e mais, acima de todos os anjos, q= ue exclamou: “Eu, porém, sou um verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe” (Sl 21, = 7).

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Na Paix&ati= lde;o, descera o Cristo aos abismos da humildade, mas tal humildade teve sua paga = e sua glória. O que prometera tão a miúdo Nosso Senhor, = de que “o que se humilha, será exaltado”, disse-nos o Apóstolo que se exemplificou na sua mesma Pessoa. “Humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por = isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de= todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos” (Fl 2, 8-10). Deste modo, quem parecia o menor = dos homens declarou-se o primeiro, e à pequena e passageira humilhação seguiu-se a glória que será eterna. Deu-se como tal com os apóstolos e os santos. São Paulo disse= dos apóstolos: “Chegamos a ser como que o lixo do mundo, a escória de todos até agora...” (1Cor 4, 13), i. é= ;, compara-os a coisas vilíssimas que se calcam aos pés. Tal aqu= ela humildade. Qual é sua glória? Conta-nos São Joã= o Crisóstomo que os apóstolos estão agora assentados no céu, &agrav= e; roda do trono de Deus, de onde os querubins o louvam, e os serafins  o obedecem. Estão na socied= ade dos príncípes da corte celestial, e para todo o sempre estarão. Se considerassem os homens quão glorioso é o imitar nesta vista a humildade do Filho de Deus, e vissem a quanta glória os conduziria esta humildade, depararíamos mui poucos homens orgulhosos. Mas visto que a maioria dos homens libram só com = sentidos e humanas considerações, não nos deve surpreender se o número dos humildes é apoucado, e dos orgulhosos infinito.

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