AS
REVELAÇÕES DE DEUS
S. Francisco de Sales
Quando
Deus nos dá a fé, Ele entra em nossa alma e fala ao nosso espírito, não por
modo de discurso, mas de inspiração; propondo tão agradavelmente ao
entendimento aquilo que é preciso crer, a vontade recebe com isso um grande
comprazimento, de tal sorte que ela incita o entendimento a consentir e
aquiescer à verdade, sem nenhuma dúvida ou desconfiança, e eis o que é
maravilhoso; porque Deus faz a proposta dos mistérios da fé à nossa alma
entre obscuridades e trevas, de tal maneira que nós não vemos as verdades,
antes só as entrevemos, assim como acontece, às vezes, que a Terra, estando
coberta de bruma, não nos permite ver o sol, mas vemos apenas um pouco mais de
claridade do lado em que ele está, de modo que, por assim dizer, nós o vemos
sem o ver porque, de um lado, não o vemos tanto que possamos propriamente dizer
que o vemos e, de outro lado, não o vemos tão pouco que possamos dizer que não
o vemos, e é isto que chamamos entrever. E, entretanto, essa obscura claridade
da fé, tendo entrado em nosso espírito, não pela força de discurso ou
argumentos mas pela simples suavidade de sua presença, se faz crer e obedecer
ao entendimento com tanta autoridade, que a certeza que ela nos dá da verdade
ultrapassa todas as outras certezas do mundo e sujeita de tal modo a si todo o
espírito e todos os discursos deste que eles, em comparação, não têm crédito
algum.
Deus meu, Teótimo, poderei bem exprimir isso? A fé é a grande amiga de nosso espírito e bem pode dizer às ciências humanas que se vangloriam de ser mais claras e evidentes que ela, como a esposa sagrada falava às outras pastoras : “Sou escura mas bela" (Cântico dos Cânticos, I, 4). Ó discursos humanos, ó ciências adquiridas! “Sou escura”, porque estou entre as obscuridades das simples revelações que não têm nenhuma evidência aparente e me fazem parecer negra, tornando-me quase desprezível; “mas” sou, no entanto, “bela” em mim mesma, por causa de minha certeza infinita; e, se os olhos dos mortais me pudessem ver tal como sou por natureza, achar-me-iam inteiramente bela.
Tratado do Amor de Deus — 1º vol. cap. XIV