O Culto do Espírito Santo

 Mons. Gaume

 

 

CAPÍTULO 3

 

O aspecto positivo do culto do Espírito Santo consiste na recordação da terceira pessoa da Augustíssima Trindade, rogando a ela e imitando-a; o aspecto negativo, na fuga diligente de tudo quanto possa afastar-nos dele e contristá-lo.

 

Afastá-lo. Essencialmente, o Espírito Santo é pureza e caridade. Como o fartum põe em fuga as abelhas, a sensualidade e o egoísmo distanciam o Espírito Santo da alma e das gentes, subjugadas a um destes vícios. Tema relevante de meditação e mesmo de temor para nossa época. Caso seja verdade que não há época em que se apresente mais alto grau de sensualidade e egoísmo [que a atual], também é verdade que nenhuma outra faz tão formidável oposição ao Espírito Santo quanto esta. Mas afastar-se do Espírito de vida é o mesmo que avocar o espírito de morte, com suas inevitáveis e desastrosas conseqüências, como já disséramos repetidas vezes.

 

Contristá-lo. A negligência no invocá-lo, a infidelidade no segui-lo em suas inspirações, seja por iniciativa própria, seja por direção alheia de povos ou pessoas, contristam profundamente o Espírito Santo. O desprezo de que lhe fazem objeto, a injusta preferência conferida aos oráculos estranhos, preparam as últimas catástrofes, pois que conduzem a um pecado irremissível para as nações e os indivíduos. Nomeamo-lo como pecado contra o Espírito Santo. É preciso dá-lo a conhecer, e tomara inspiremos todo o horror que ele merece!

 

Percorrera o Homem-Deus a extensão da Judéia, curando os doentes, livrando os possessos, ressuscitando os mortos. Possuídos de vil ciúme pela confiança que os milagres lhe conferiam, ousaram afirmar os fariseus: É em nome de Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios. Após refutar tamanha calúnia, acrescenta o Verbo Divino, para demonstrar-lhes a enormidade de seu crime: “Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro[1].

 

Observa-se que Nosso Senhor reprova aos fariseus o atribuir maliciosamente ao demônio os milagres, dos quais não poderiam duvidar fossem obras do dedo de Deus. Ali estava a blasfêmia e o crime. Assim, apesar das evidências, trataram as obras do Verbo Divino como obras de satã, e assim o Filho de Deus como agente do demônio, falsário e usurpador da divindade. Propriamente, é nisto em que consiste a blasfêmia contra o Espírito Santo.

 

“É de se notar, escreve um preclaro comentador, que Nosso Senhor não fala aqui de todo pecado contra o Espírito Santo, mas somente da blasfêmia contra o Espírito Santo, que se comete com palavras, e também com pensamentos e ações. Acontece de existir calúnias contra obras em tudo divinas e milagrosas, piedosas e santas, por que Deus obra a salvação dos homens e confirma a verdade da fé; tais, por exemplo, como a expulsão dos demônios. Enquanto obras da bondade e santidade de Deus, atribuem-se ao Espírito Santo. Daí então, os que as caluniam e, em consciência e malícia, atribuem-nas ao demônios, blasfema contra o Espírito Santo, pois que tira a Deus a santidade, a verdade, e fá-la do demônio: Ex Deu facit diabolum (Corn. a Lap., in Matth., XII, 31).

 

Não se restringe o pecado contra o Espírito Santo nem à blasfêmia contra o Espírito nem a um ato passageiro: estende-se à inúmeras prevaricações, constituindo um estado permanente. Segundo os padres, os teólogos e Santo Tomás em particular, divide-se esta árvore de morte em cinco galhos: são os pecados contra o Espírito Santo o desespero da salvação, a pretensão da salvação sem merecimentos ou do perdão sem penitência, o ataque à verdade conhecida como tal, a inveja das mercês que Deus faz a outrem, a obstinação no pecado e a impenitência final (Ap. S.. Th. IIª IIae, q. 14, art. 2). A razão está em que são pecados de pura malícia, sobretudo o terceiro, que é o pecado fulminado pelo Salvador.

 

Por que são eles pecados de pura malícia? Responde Santo Tomás: “Ocorre pecado de pura malícia, quando por desprezo repudia-se o que poderia impedir a opção pelo pecado. Por exemplo, quando repudia-se a esperança, para se deixar tomar de desespero; o temor de Deus, para se deixar dominar de presunção. Ora, muitos óbices impedem estas escolhas funestas, seja por obra dos julgamentos de Deus, dos dons do Espírito Santo ou do mesmo pecado.”

 

“Por obra dos julgamento de Deus: pela esperança que nasce da consideração da misericórdia daquele que redime os pecados e recompensa as boas obras. Ora, o desespero afugenta tal esperança.”

 

“Por obra dos dons do Espírito Santo, entre os quais dois que nos desviam do pecado: um é a inteligência da verdade. Combate contra a inteligência o ataque à verdade conhecida como tal, quando se insurge um homem contra a verdade de fé, para assim pecar mais livremente. Outro é o socorro da graça interior, cuja origem é o dom da piedade. Opõe-se a essa graça o ciúme das graças d’outrem, quando uma pessoa inveja a seu irmão, e mais ainda os progressos da graça de Deus no mundo.”

 

“Por obra do pecado, duas coisas distanciam-nos dele: uma é a desordem e a torpeza do ato, cuja consideração costuma levar-nos ao arrependimento do pecado cometido. Opõe-se a este meio de salvação a impenitência, entendida como vontade de não se arrepender. Outra é a brevidade e a vacuidade do bem perseguido pelo pecado, e que de ordinário impede a vontade humana de se atar ao mal. Destrói-se este renovo de salvação na obstinação, quando se aferra o pecador na vontade de permanecer em pecado. Os meios que nos impedem de escolher o mal em lugar do bem são efeitos do Espírito Santo em nós. Eis porque o pecado de malícia é pecado contra o Espírito Santo” (IIª IIae, q. 14, art. 1, corp.; e art. 2, corp.)

 

Acrescenta o amoroso São Francisco de Sales: “O pecado é mui próprio à natureza humana; mas amparar com teimosia a falta, querer persuadir da razão de cometê-la, chamar ao mal bem, substituir à luz as trevas, tudo são ofensas ao Espírito Santo; combater à verdade manifesta é condenar-se a si em seu juízo e ser réprobo, em todo os sentidos” (Esprit, etc., t. II, part. XI, p. 337, edit. In-8). Eis o que é em si o pecado contra o Espírito Santo; resta explicar em que sentido é ele irremissível.

 

A blasfêmia contra o Espírito Santo, declara o próprio Verbo Divino, não terá perdão nem neste século nem no vindouro. Não obstante, confiando à Igreja o poder das chaves, sem restrições disse-lhe: o que desligares na terra, será desligado no céu; aqueles a quem retirardes os pecados, ser-lhes-ão retirados. Intérprete infalível da doutrina da esposa, a Igreja Católica demonstra que não há contradição entre estas divinas palavras. Ensina que a palavra Redentor Universal é fiança da infinitude de sua misericórdia; que pecado algum é irremissível no rigor do termo; e, na pessoa de Novaciano, fulminou de anátema aquele que ousou sustentar o contrário.

 

Como há de se entender a irremissibilidade do pecado contra o Espírito Santo? Se for caso de impenitência final, o pecado contra o Espírito Santo é irremissível, em todo o rigor de sua verdade. A impenitência final é o pecado moral em que persevera o homem até a morte. Ora, não se resgata tal pecado nem neste século, nem no vindouro, pois lá não há mais redenção. Trata-se d’outros pecados contra o Espírito Santo? Deve-se entender a irremissibilidade não como absoluta, mas cujo perdão é de extrema dificuldade. A razão está em que, por sua natureza, o pecado contra o Espírito Santo não merece remissão, nem a pena nem a culpa.

 

Quanto à pena: o que peque por ignorância ou fraqueza parece até certo ponto escusável; em todo caso, merece punição menor. Mas o que peca em consciência e malícia, ex certa malitia, não tem desculpa, não merecendo diminuição alguma na pena. Este é o homem que peca contra o Espírito Santo.

 

Quanto à culpa: declara-se incurável a doença que, por sua natureza, afasta todos os meios de curá-la, por exemplo, a que tira a possibilidade de segurar qualquer espécie de alimento ou remédio, se bem que possa Deus sempre curá-la. Assim, de sua natureza, é o pecado contra o Espírito Santo irremissível, na medida em que afasta os meios de perdão, pois que se opõe ativa e diretamente ao Espírito de luz, de graça e de misericórdia. Não é dizer que se fecharam os caminhos de perdão e cura perante a onipotência e misericórdia de Deus. Como sempre pudesse curar doentes incuráveis, pode também remir pecados irremissíveis. Dêem-se-lhe graças! são muitos os exemplos destes milagres que curam a vergonha (S. Th., IIª IIae, q. 14, art. 3, corp).

 

Considerando o pecado contra o Espírito Santo e de suas conseqüências, não é para se temer o futuro duma época que o comete tão amiúde e por tão grande número de pessoas, de todas as condições? Mau-grado os reiterados alertas, atualmente são raros os que se obstinam na libertinagem do espírito e da alma, pondo fim a seus dias pelo suicídio, ou morrendo em bestial insensibilidade? Os que, indiferentes aos deveres essenciais da religião, presumem-se um porvir feliz após a morte, dizendo-se com o sorriso da impiedade na boca: Deus é bom demais para me danar? Os que, nas conversações, nos discursos, nos jornais, nas obras, atacam com audácia a verdade conhecida?

 

Os que, levando a blasfêmia a limites que o inferno não conhecia, ousam caluniar o catolicismo, o vicário de Jesus Cristo, até o Filho de Deus; além disso, acrescentar a este negrume satânico a glorificação de todo o anticristão: Judas, Nero, Juliano o Apóstata, satã? Que é isso, sobre lábios de batizados, senão o pecado contra o Espírito Santo, naquilo que se imagina de mais odioso? Que sorte está reservada às nações que dão azo ao ultraje do autor de todos os bens? Permitiu a Providência houvesse na história um fato a dar tal resposta.

 

Nos primeiros séculos, os gregos, conduzidos pelo espírito mau, atacavam com contumácia a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Macedônio, Fócio, Miguel Cerulário são os pais e os culpados duma longa posteridade de insultadores. Alarmada da sorte de sua irmã, a Igreja Latina não negligencia meios de restitui-la à unidade. Por treze vezes assinaram solenemente os gregos o símbolo católico, e por treze vezes o abjuraram. Em 1439, mal chegados ao Oriente, após o Concílio de Florença, riem-se de sua assinatura, retomando o caminho das blasfêmias contra o Espírito Santo.

 

Este último crime encheu as medidas: o novo deicida será punido como o primeiro[2]. Aqui começa, entre a ruína de Jerusalém e o saque de Constantinopla, a terrível aproximação, que aos observadores cristãos não escapou. “Para encontrar, explicavam com razão, alguma semelhança da ruína de Constantinopla por Maomé, força é remontar à ruína de Jerusalém por Tito. Para que bem soubessem os gregos que a causa do desastre fora a revolta obstinada contra o Espírito Santo, tomaram a capital, mataram o imperador e arrasaram o reino justamente aos dias da festa de Pentecostes” (Hist. univ. de l’Église, t. XXII, p. 105, 2ª édit, in-8. – Bellam., De Christo, lib. II, c. xxx, p. 431, edit. In-fol., Lugd. 1587; vide etiam S. Anton., Chronic., part. III, t. II, e. XIII, edit. Princeps).

 

Poucos anos antes da ruína de Jerusalém, Jesus, filho de Anano, põe-se a gritar num átimo dentro do templo: “Clamores do Oriente, clamores do Ocidente, clamores dos quatro ventos – clamores contra os novos esposos e as novas esposas, contra o povo inteiro!” Depois, correndo dia e noite nos lugares e ruas da cidade, lança incessantemente o mesmo grito, entoando com lúgubre voz: “Desgraça para a cidade! desgraça para o povo! desgraça para o templo!” Enfim, como fizesse carreira à roda das muralhas da cidade assediada, afirmava: “Desgraça para mim!” No mesmo instante, uma pedra, lançada por uma máquina, estirou-o morto no ato (Josefo, De belle judaico, lib. VII, C, XII).

 

Para os judeus, a voz da justiça sucederia ao apelo à misericórdia. Assim ocorreu com os gregos. Por cerca de dois anos (outubro de 1451), antes da queda de Constantinopla, o papa Nicolau V, após exaurir os meios de persuasão, ameaça-os com a ruína próxima do império: “Atéqui suportamos, lhes escrevera ele, suas procrastinações em consideração a Jesus Cristo, pontífice eterno, que sustentara a figueira estéril até o terceiro ano, não obstante se preparasse o jardineiro para cortá-la, pois que não dava frutos. Esperamos por durante três anos, para ver se, à voz do Divino Salvador, não recairíeis em vosso cisma. Pois bem! se é vã nossa espera, sereis abatidos, para que não mais ocupeis inutilmente a terra” (Apud Reginald., an. 1451, n. 1 e 2).

 

O Vicário de Jesus Cristo mandou um legado portando as cartas proféticas para o Oriente. Este derradeiro mensageiro da misericórdia foi o grande e santo cardeal Isidoro, arcebispo de Kiev. Grego de origem, era célebre entre os mesmos gregos, por causa do talento manifestado no Concílio de Florença. De todos os ponto de vista, era o homem capaz de restituir os cismáticos à unidade.

 

Os judeus pouco se deram às previsões do filho de Anano: chegaram a injuriá-lo e até maltratá-lo. Em vez de escutar a voz inspirada, preferiram seguir os falsos profetas, que os lançaram na guerra contra os romanos, prometendo-lhes o socorro do céu.

 

Os gregos desprezaram os avisos do Soberano Pontífice e viraram as costas a seu enviado, mostrando-se mais que nunca hostis à união. Correndo em polvorosa ao monastério, onde residia o afamado Jorge Selelatino, perguntaram-lhe que fazer. Sem dignar-se sair da cela, respondeu o monge orgulhoso por um bilhete de anátema contra os latinos, anexando-o à sua porta, onde todos liam-no como um oráculo. “Cidadãos miseráveis, dizia ele, por que vos assombrais? Renunciando à religião de vosso pais, abraçastes a impiedade e suportais o jugo da servidão. Em vez de confiar nos francos, ponde vossa confiança em Deus. Senhor, juro que sou inocente desse crime”[3].

 

As palavras deste homem, tido como profeta, transformam o ódio contra os latinos em fanatismo popular. As ruas de Constantinopla atroaram de seus gritos: longe de nós com os azimitas; não precisamos da ajuda dos latinos. Antes em Constantinopla a turba maometana, que a mitra de Isidoro! Não era este o clamor dos judeus, quando diziam: Tirem-no, tirem-no! Não queremos que ele reine sobre nós! Como os judeus, os gregos contam com o socorro dum prodígio para salvá-los. A cada noite, vemo-los reunir-se em assembléia pelas esquinas: e ali rogam à Virgem ajuda, bebendo em honra de sua imagem, cumulando os Ocidentais de imprecações.

 

Neste entretanto Tito, príncipe estrangeiro de país e religião, veio assediar Jerusalém à frente de seu povo; a terrível aparição das águas romanas diante de Jerusalém é a abominação da desolação na terra santa (Dan., IX, 26). Da parte dos romanos, ações prodigiosas para avançar as linhas de circunvalação e encerrar como um círculo de ferro, ou antes um túmulo de vivos, Jerusalém e seus habitantes. Da parte dos judeus, a vertigem do orgulho e o furor da guerra civil. Pressionados pelos inimigos desde fora, dividem-se em facções que se despedaçam, pintando em Jerusalém a imagem do inferno.

 

Maomé II, príncipe estrangeiro de país e religião, aparece sob os muros de Constantinopla à frente de seu povo. Compunha-se esse povo de infiéis de trezentos mil soldados, acompanhados duma frota de quatrocentos navios; a formidável aparição do crescente diante de Constantinopla era a abominação da desolação em terra cristã. Neste entretanto Maomé II, ardendo em desejo de vitória, arma os acampamentos, assesta as máquinas e dispõe as bocas de fogo. Bem logo senhores de toda as iniciativas, os sitiantes atingem de cada vez mais perto as muralhas, cavam as fossas, abrem brechas e se preparam para o assalto.

 

Em vez de se unirem, os gregos, à imitação dos judeus, dividem-se mais e mais. Os que parecem aceitar o dogma católico acerca do Espírito Santo são visto como ímpios. A grande igreja de Santa Sofia, que era para Constantinopla o que era o templo para Jerusalém, por servir de local de reunião para católicos, “para os cismáticos, não passava dum templo pagão, um retiro de demônios, não havendo ali nem círios nem lâmpadas. Nada mais que uma escuridão medonha e triste solidão, funesta imagem da desolação, onde nossos crimes terminariam por destruí-lo em poucos dias”. (Michel Duces, c.xxxvi). Era tal a cegueira de ódio ou o excesso de covardia, que numa cidade de trezentas mil almas não se achou mais que sete mil cidadãos e dois mil estrangeiros para defendê-la.

 

Como os sicários de Jerusalém, esta pequena tropa realizou prodígios de valor. Mas seus esforços apenas irritaram Maomé, como os dos judeus só serviram de exasperar Tito. Fecharam o porto de Constantinopla com uma forte corrente, inutilizando a frota otomana. Maomé concebera o prodigioso desígnio de aportar as embarcações, mandando conduzi-las por cima de um promontório e deslizá-las por toras besuntadas de sebo, até ao pé dos bastiões de Constantinopla. O trabalho deu-se durante a noite e, aos primeiros raios do dia, estupefatos os gregos se deparavam com a tropa inimiga em seu porto.

 

Após furiosos combates, Tito conquista a primeira e a segunda muralhas de Jerusalém; depois, a terceira e a cidadela de Antônia, ligada ao templo por um pórtico. Não podendo conter os sediciosos, abandona a cidade à pilhagem. Seus soldados cometem ali horrores; reduzem o templo a cinzas; não sobra pedra sobre pedra; passam a charrua por sobre a cidade deicida.

 

Próximo a Constantinopla por terra e mar, Maomé marca o assalto geral para 27 de maio, iluminando todo seu campo com archotes. Numa manhã de 28 de maio, começa o ataque. Como o de Jerusalém, prolonga-se pelo dia e parte da noite, com inacreditável encarniçamento. Ao fim, em 29 de maio, segunda festa de Pentecostes de 1453, uma hora depois da meia-noite, Constantinopla cai em poder dos turcos.

 

Deste modo, enquanto a Igreja latina, em pia assembléia nos templos, celebra com regozijo o aniversário solene do descenso do Espírito Santo sobre o mundo e proclama em altíssono sua precessão do Pai e do Filho, os gregos, que a negaram com blasfêmia, são esmagados sob as ruínas de sua capital, recebendo sobre as orgulhosas cabeças o jugo de ferro da barbárie muçulmana.

Conclui-se daí que as duas terribilíssimas catástrofes mencionadas pela história, a ruína de Jerusalém e o saque de Constantinopla, ocorreram em punição a pecados contra o Espírito Santo – o primeiro, como espetacular punição; o segundo, como não menos espetacular maldição.

 

O que os romanos fizeram a Jerusalém não se compara ao que os turcos perpetraram em Constantinopla. Qual os judeus, desbaratados, que se refugiaram no templo, os gregos, desnorteados, se refugiaram na grande igreja de Santa Sofia. Templo e teatro viraram palco de tamanhos horrores, que a história a custa ousa esboçar-lhe a lembrança. Escutemos todavia uma testemunha ocular. É o cardeal Isidoro em pessoa, grego de nação, que nos vai pintar a desolação de Constantinopla, à imitação doutra testemunha ocular, Josefo, judeu de nação, que a Providência escolheu para transmitir à posteridade a descrição do saque de Jerusalém[4].

 

Eis algumas linhas da narração: “Maomé, cercado de seus vizires, ao entrar em Constantinopla, recebeu a cabeça do imperador Constantino da mão de dois soldados. Ele mandou-a fincar no cimo duma coluna, onde permaneceu até a noite. Depois, ordenou descarná-la e empalhá-la, para enviar como troféu aos príncipes turcos, na Pérsia e na Arábia” (Apud S. Anion, pars historial., fol. 188, V, XIV, edit. in-fol).

 

Foi desta maneira que Tito, após exibi-los em espetáculo aos romanos, mandou degolar na prisão de Mamertino a Simão de Gioras e João de Giscal, príncipes dos judeus.

 

“Depois do ultraje ao vencido, adentra Maomé em Santa Sofia e assenta-se sobre o altar, como se deus do templo, em lugar do Verbo Encarnado, de quem assim se proclama adversário. Os soldados como que já tinham degolado os que se encontravam no lugar santo. Acrescentando à crueldade o sacrilégio, cobrem de escarros, quebram, calcam aos pés as imagens de Nosso Senhor, de sua augusta Mãe, dos santos e mártires. Rasgam os Evangelhos e os livros de oração. Metidos nos sagrados ornamentos, profanam da maneira mais revoltante os vasos sagrados, as relíquias dos santos, e quanto há de mais venerável na religião” (Apud S. Anion., ubi supra).

 

No templo e em Jerusalém, na igreja de Santa Sofia e em Constantinopla, tudo é massacre e abominação. Pereceram onze mil judeus durante o sítio, os demais vendidos como escravo. Ligados em correntes, usados em trabalhos públicos, reservados para as lutas de gladiadores, este tropel de deicidas exibem, por toda a terra, o espetáculo vivo da predita desolação; já são dezoito séculos que as gerações contemplam o cadáver do povo dependurado no cadafalso da justiça divina.

 

Semelhante espetáculo em Constantinopla. Padres, religiosos, religiosas, mulheres, crianças, velhos, tudo quanto sobreviveu, transformando-se em prenda dos vencedores, amontoou-se nas praças e se vendeu como bestas. Vêem-se os príncipes, os barões, os grandes senhores arrastados por cordas ao pescoço, vergastados de chicote, comprados na qualidade de quaisquer homenzinhos, a serem utilizados como pastores de bois e de porcos (Apud S. Anion., ubi supra). Enfiaram o grosso da população em galeras, que prestas enfunam vela para todas as direções. Durante muito tempo, os portos de Ásia e África viram expostos, em temíveis mercados, longas filas de escravos, que como os judeus foram dispersados aos quatro ventos, para ensinar a todos os povos o que acontece ao povo que ousa dizer ao Espírito Santo: não queremos que vós reineis sobre nós: Nolumus hunc regnare super nos.

 

A exemplo de Jerusalém, Constantinopla foi tão a miúdo despovoada, que Maomé não deixou nem grego, nem latino, nem armênio, nem judeu, diz o cardeal: Nullum incolam infra reliquerunt non Graecum, non Latinum, non Armernum, non Judaeum. Deste modo, cumpriu-se nos gregos, deicidas da terceira pessoa da Santíssima Trindade, a ameaça que se cumpriu nos judeus, deicidas da Segunda. “Não quisestes servir ao Senhor na alegria, no regozijo de coração e na abundância de bens; servireis pois ao inimigo, que vos enviará o Senhor, na fome e na sede, na nudez e na indigência, e porás sobre vossas nucas um jugo de ferro que vos esmagará. O Senhor indisporá contra vós uma nação longínqua, ágil como a águia, cuja língua não compreendereis. Nação orgulhosa e cruel, sem cuidado com os velhos, sem compaixão com as crianças, não vos deixará coisa alguma, abaterá vossas muralhas e vos aniquilarás pelo massacre e pela dispersão” (Deuter., XXVIII, 48 et seq).

 

Desde o cumprimento literal da divina ameaça, os gregos vivem sob o jugo tirânico dos vencedores. Mesmo hoje[5], depois de quatro séculos de humilhações e maldições, este povo, qual os judeus, tem olhos e não vêem, ouvidos e não escutam, memória e não se lembram, inteligência e não compreendem a formidável lição que lhes infligiu Deus, como punição da revolta obstinada contra o Espírito Santo.

 

Nações do Ocidente, não vos deixeis escapar esta lição. Eis o que nos resta desejar no encerramento duma obra em que se demonstra a ação permanente e soberana do Espírito do bem e do espírito do mal sobre a humanidade, desde o começo dos séculos. Testemunhando quanto custa pecar contra o Espírito Santo, aprendamos a retificar pensamentos e temores. Face ao espetáculo da corrupção dos costumes, da fascinação pelo frívolo, do esquecimento geral dos santíssimos deveres, tremamos pelo futuro; mas tremamos sobretudo à consideração do pecado contra o Espírito Santo, hoje em dia tão usual.

 

Possam os governos, mais ainda que os governados, levar a sério a sentença que prolatou o legislador supremo contra os blasfemos do Espírito Santo, e lembrar-se de que, tão imutável quanto à verdade, esta sentença está sempre suspensa sobre as cabeças das sociedades que os imitam ou toleram!

 

Possam, na vida pública e na vida privada, nunca se esquecer que ao homem cá embaixo sempre se apresenta a fatídica alternativa de viver sob o império do Espírito do bem, ou sob a tirania do espírito do mal; que o primeiro é o Espírito da vida, vida intelectual, moral, social, eterna; que o segundo é o espírito da morte e que, antípoda do Espírito da vida, produz morte sob todos os títulos, a todos os indivíduos – morte esta eterna, à que conduz pelo caminho da iniqüidade, do opróbrio e da servidão; a todas as nações, que não possuem corpo para irem ao outro mundo, a morte social à que lhes conduz por meio de catástrofes inevitáveis.

 

Em resumo: Caso o mundo se perca pelo espírito do mal, só o Espírito do bem poderá salvá-lo.

 

Ainda lhe resta inteligência o bastante para compreender isto, Deus o sabe. O que sabemos é que uma só potência é capaz de anunciar esta verdade capital, na plenitude de sua força e liberdade.

 

Só ele tem palavras de cura, todas as palavras, para os reis, assim como para os súditos; pois que só ele tem palavras de vida, todas elas. Não há duvidar, como ele à coragem do dever acrescenta a inteligência dos tempos, ver-se-á que a encarniçada luta atual, que se estende por todo o globo, dá-se entre a negação absoluta e a afirmação absoluta, entre o catolicismo do mal e o catolicismo do bem, entre satã e o Espírito Santo, combatendo pela vitória definitiva, pessoalmente, como que corpo a corpo, cada qual liderando seus exércitos.

 

Em presença de tal espetáculo, o mais solene da história, inflama-se seu zelo de novos ardores, como São Paulo em vista de Atenas idólatra. Soldado experto, mas incompreendido, o clero não se deixará desencorajar nem pela impossibilidade moral da empresa, nem pelos desprezos do mundo, nem pela torpeza dos falsos irmãos. Os pescadores da Galiléia não defrontaram César e os bárbaros? Perseguidos e execrados, acaso foram eles vencidos? Para dar lugar ao Deus do cenáculo, não viu satã seus altares despencarem do alto do Capitólio e desfazerem-se no pó? O braço do Onipotente não se atrofiou. Ademais, para nós católicos, padres e fiéis, a luta não é especulação, mas dever. Qual que seja o porvir das sociedades, sucederemos na formação de nobres vencedores ou nobres vítimas.

 

Que doravante se apregoe o Espírito Santo por todo canto, para que retome na vida das nações o lugar que lhe é devido, e que nunca devera perder. Negligenciado por tempo demais, refloresça seu culto nas cidades e nos campos, depare-se freqüente como a respiração a ardente oração do profeta-rei sobre os lábios dos católicos do séc. XIX: Enviai o vosso Espírito Santo, e tudo será criado, e renovareis a face da terra – Emitte spiritum tuum, et creabuntur, et renovabis facien terrae (Ps. CIII).

 

Aí, e somente aí, está a salvação do mundo.

 

Paris, na festa de Pentecostes,

 aos 15 dias do mês de maio

 do ano da Encarnação de N.S.J.C. de 1864.

 

Fonte: O Tratado do Espírito Santo;

 Tradução: Permanência



[1] Ideo dico vobis: Omne peccatum et blasphemia remittetur hominibus: Spiritus autem blasphemia non remittetur. Et quicumque dixerit verbum contra Filium hominis, remittetur ei; qui autem dixerit contra Spiritum sanctum, non remittetur ei neque in hoc saeculo, neque in futuro. Matth., XII, 31, 32; Marc., III. 29; Luc., XII, 10. Santo Tomás explica nestes termos a diferença entre a blasfêmia contra o Espírito Santo e a blasfêmia contra Nosso Senhor: “Jesus Cristo usava dalgumas coisas como homem, o beber e o comer; e doutras como Deus, expulsar os demônios, ressuscitar os mortos. Essas últimas fazia-as em virtude de sua própria divindade, na operação do Espírito Santo de que, como homem, estava cheio. Em primeiro, cometeram os judeus a blasfêmia contra o Filho do Homem, apodando-o de voraz, bebedor de vinho, amigo de publicanos. Em seguida, blasfemaram contra o Espírito Santo, atribuindo ao demônio o que obrava em virtude de sua própria divindade e na operação do Espírito Santo. IIª IIae, q. 14. art. 1, corp.

[2] Apodamos os gregos de deicidas do Espírito Santo, no mesmo sentido que São Paulo chama os que, por seus pecados, crucificam novamente o Verbo Incarnado. Heb., VI, 6.

[3] É bem saber que este Escolário ou Genado, estando em Veneza, mostrava-se como um dos mais impressionados diante do Papa, para que fosse louvado como o principal autor da reunião.

[4] Para escapar à morte, o príncipe da Igreja disfarçou com seu hábito de cardeal um cadáver, de que os turcos deceparam a cabeça, levando-a depois ao sultão com o solidéu vermelho.

[5] Mons. Gaume escrevia isto em 1864 [N. da P.]