RAINHA
DAS VIRGENS
MARIA
E AS ALMAS CONSAGRADAS
R.
Garrigou-Lagrange, O.P.
Rainha
das virgens porque teve a virgindade no mais eminente grau, porque conservou a
virgindade na concepção, no parto do Salvador e para sempre. Por isso, ela fez
as almas compreenderem o valor da virgindade, que não é apenas, como o pudor,
uma inclinação louvável da sensibilidade mas uma virtude, isto é, uma força
espiritual [1]. Ela mostra que a virgindade consagrada a Deus é superior à
simples castidade, porque promete a Deus a integridade do corpo e a pureza do
coração por toda a vida. Santo Tomas diz que a virgindade está para a
castidade assim como a munificência para a simples liberalidade, pois ela é um
dom por si mesmo excelente, que manifesta uma perfeita generosidade.
Maria
preserva as virgens no meio dos perigos, sustenta-as em suas lutas e as conduz,
se elas são fieis, a uma grande intimidade com seu Filho.
Qual
é o seu papel em relação às almas consagradas? Estas almas são chamadas
pela Igreja: “as esposas do Cristo”. Seu perfeito modelo é evidentemente a
Santíssima Virgem. A seu exemplo, devem ter, em união com Nosso Senhor, uma
vida de oração e de reparação ou de imolação pelo mundo e pelos
pecadores. Elas devem também consolar os aflitos, lembrando o que
diz o Evangelho, que o consolo que elas levam sobrenaturalmente aos membros
sofredores do Cristo, é a Ele que elas levam, para fazer-lhe esquecer tantas
ingratidões, friezas e mesmo profanações.
Por
isso a vida destas almas deve se esforçar para produzir as virtudes de Maria e
continuar, em certa medida, seu papel em relação a Nosso Senhor e aos fieis.
Se
as almas consagradas sabem e querem seguir esta direção, elas procurarão aos
pés de Maria e acharão nela aquilo que será uma magnífica compensação a
todas as renúncias e privações, aceitas no começo em bloco, e que se
considera, às vezes, por demais duras quando se apresentam no dia a dia.
Enfim
a Santa Virgem faz as virgens consagradas a Deus compreenderem que podem
humildemente aspirar por uma maternidade espiritual que é um reflexo da sua própria
maternidade em relação às crianças abandonadas, aos pobres, aos pecadores,
que têm necessidade de encontrar assistência de uma grande bondade
sobrenatural. A esta maternidade Jesus faz alusão quando diz (Mat. XXV, 35):
“Tive fome e me deste de comer; tive sede e me destes de beber; fui
estrangeiro, e me acolhestes; estava nu e me vestiste; doente, e me visitastes;
estava na prisão e viestes a mim”.
Esta
maternidade espiritual se exerce também na vida contemplativa e reparadora,
pelo apostolado da oração e do sofrimento, que fecunda a pregação para a
conversão dos pecadores e a expansão do reino do Cristo. Esta maternidade tem
seus sofrimentos, mas a Santa Virgem inspira como é preciso oferecê-los e deixa
entrever sua fecundidade.
Enfim
Maria assiste às mães cristãs, para que, após darem à luz seus filhos,
formem suas almas na vida da fé, da confiança e do amor de Deus, para que elas
os tragam de volta se se desviam, como fez Santa Mônica com Santo Agostinho.
Vemos
assim qual é a realeza universal da Mãe de Deus: Ela é a rainha de todos os
Santos, por sua missão única no plano providencial, pela perfeição da graça
e da glória e pela perfeição de suas virtudes.
Ela
é a Rainha de todos os santos conhecidos e desconhecidos, de todos os que estão
no céu, canonizados, beatificados ou não, e de todos aqueles que se santificam
na terra e dos quais ela conhece a predestinação, as provações, as alegrias,
a perseverança e os frutos que serão a coroação deles para a eternidade. [2]
(extr. de “La Mère du Sauveur et Notre Vie Interieure”. Trad.: Permanência. Rev. PERMANÊNCIA n° 252-253 Nov.-Dez. de 1989.)
Notas:
[1]
Santo Tomás nota que a virtude da castidade e a da virgindade são superiores
ao pudor como a virtude da misericórdia é superior à piedade sensível.
[2]
Padre Duperray, diretor espiritual do Pequeno seminário de Saint Gildas (Charlieu,
Loire) escreveu um excelente relatório para XI Congresso Nacional de
Recrutamento Sacerdotal, que teve lugar em Londres, de 1° a 4 de agosto de 1935
(Imprimerie de la Grotte, Lourdes): La Devotion à Marie et la culture des
vocations.
Diz
ele, p. 5: “O padre e o futuro padre são mais que simples cristãos, são os
continuadores de Cristo, outros, como São João, são chamados para amar Maria
com uma grande ternura e assegurados de ser amados pela Santíssima Virgem como
discípulos bem amados. Nossos seminaristas, por um lado, têm pois, por sua
vocação, as graças de escolha para amar a Santíssima Virgem, a fim de
que Maria encontre em seus corações os mesmos sentimentos de Jesus; por outro
lado, nossos seminaristas podem estar certos de uma predileção especial da
Santíssima Virgem que quer formar neles outros Cristos”. O autor deste
excelente opúsculo mostra qual é a influência de Maria na crise de
crescimento do seminarista. Ele cita as reflexões de um aluno, seminarista de
quinze anos, que mostra como essa crise foi atravessada de modo feliz com o
socorro da nossa Mãe do céu. Cada dia a intimidade de Maria traz graças para
chegar ao cume do sacerdócio. À sombra de seu manto, o zelo apostólico de
amanhã se desenvolve. —
O mesmo autor nota, p. 10, o benefício de uma conversa marial antes de dormir.
“No lugar do exame de consciência, espécie de monólogo, prestação de
contas austero das faltas do dia, é uma revisão encantadora, com nossa Mamãe
do céu, do que foi mal feito e sobretudo do que foi bem feito durante o dia,
verdadeira distenção espiritual”. —
Outra nota não menos justa, p. 12: “Quando um dos meus dirigidos, sentindo em
seu coração a necessidade da ternura e da afeição feminina, hesita entre a
vocação para o casamento e a vocação sacerdotal, tento fazê-lo descobrir a
resposta às necessidades de seu coração numa verdadeira vocação marial.
Tenho a convicção de ter, por esse meio, ganho vocações”. —
p. 14: “Aqui, como em toda parte, só se suprime bem aquilo que é substituído;
o remédio negativo é insuficiente. O verdadeiro problema está na boa colocação
do coração (afeições sobrenaturais familiares, boas amizades...)”.
“Não
percebeis aí o socorro precioso do ideal marial para dar a nosso seminarista
essa delicada discrição, tão fina, quando se encontra?”.
“A
verdadeira pureza, diz o P. de Foucauld, não consiste nesse estado neutro onde
não se pertence a ninguém, mas nesse estado em que se adere totalmente a
Deus”.