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O DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
Pe. Garrigou-Lagrange
1.
2.
O
Esta
mediocridade é
Em toda alma predomina um destes três espíritos: nos ímpios, o espírito demoníaco, nos tíbios, o espírito de natureza; nos iniciantes que se mostram generosos na via do Senhor, domina já o espírito de Deus, ainda que neles, por vezes, o espírito de natureza ou mesmo o demoníaco se introduza.
Se é
adquirido, tem
Se é infuso,
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* * *
Qual é o princípio fundamental do discernimento dos espíritos ?
É o
DESCRIÇÃO DOS SINAIS DO ESPÍRITO DE NATUREZA
Esta
Infligida à
É
Estas
Se quisermos
discrever o
1. O
Sobrevém a contradição ou a provação, então a natureza geme, recusa carregar a cruz e cai, pouco a pouco, no desespero. O fervor inicial não era senão um fogo de palha subitamente extinto.
Este espírito é propriamente o egoísmo, com uma perfeita indiferença pela glória de Deus e a salvação das almas. Não é o amor de Deus ou do próximo que detêm o primeiro lugar na alma, mas o amor desordenado de si-mesmo.
Mas, para se justificar, este espírito de natureza tem sua teoria; o princípio é o seguinte: não se deve exagerar em nada, devemos evitar os excessos seja na austeridade, seja na piedade; nós não estamos obrigados a tender à perfeição mística, isto seria misticismo. Segundo este espírito, se alguém lê reservadamente um capítulo da Imitação de Jesus Cristo diariamente para seu progresso espiritual, já é um místico. É preciso, como se diz, avançar pela via comum, posto que a virtude se encontra num meio-termo.
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Notamos,
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Que fazer, em caso de dúvida, quando ignoramos se tal pessoa que devemos dirigir é normalmente dirigida por um espírito bom ou mal ?
1. É preciso sobretudo examinar sua humildade. 2. Sua mortificação. 3. Sua obediência ao diretor. 4. Ele mesmo deve rezar para receber a luz de Deus.
DESCRIÇÃO SUMÁRIA DOS SINAIS DO ESPÍRITO MAU.
Ao
Para conhecer este espírito mal, é preciso portanto considerar sua influência no que diz respeito à mortificação, à humildade e à obediência e, em seguida, no que diz respeito às virtudes teologais. O espírito demoníaco não nos afasta sempre da mortificação; ele difere, assim, do espírito de natureza e, por vezes, até o contraria e conduz a uma mortificação exterior exagerada, visível a todos, que entretém o orgulho espiritual e enfraquece a saúde. Mas não inclina à mortificação interior da imaginação, do coração, da vontade própria e do julgamento próprio, ainda que estimule, por vezes, inspirando escrúpulos quanto à pequenos detalhes e laxismo quanto às coisas de maior importância, como os principais deveres de estado, por exemplo. Ele inspira assim a hipocrisia : « Jejuo duas vezes na semana » (Lc 18, 12).
Este espírito não nos conduz à humildade, mas nos engana pouco a pouco, para que nós nos estimemos mais do que devíamos, mais do que aos outros, com o objetivo de nos fazer rezar ao modo do fariseu: « Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens : ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano » (Lc 18, 11). Este orgulho espiritual é acompanhado de uma falsa humildade, do fato de confessarmos um pecado pessoal, para que os outros não nos acusem de uma falta ainda mais grave e nos considerem humildes. O espírito mal faz ainda com que confundamos a humildade com a timidez, que é filha do orgulho e teme o desprezo. Do mesmo modo, não engendra a obediência, mas a desobediência ou o espírito servil, conforme as circunstâncias.
Quanto à fé, o espírito mau não inclina nosso espírito a considerar no Evangelho o que é ao mesmo tempo mais simples e mais profundo, por exemplo, não nos faz dizer com atenção e devoção a oração dominical, meditar os mistérios do santo rosário, mas apenas nos interessa ao que é extraordinário e favorece a ostentação, como quando disse ao Salvador : « Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo ; porque está escrito que Deus mandou aos seus anjos que te guardem, e que te sustenham em suas mãos, para não magoares o teu pé em nenhuma pedra. ». Ao que Jesus respondeu : « Também foi dito : Não tentarás o Senhor teu Deus ».
O espírito mau, do mesmo modo, nos incita ao que é contrário à nossa vocação ; por exemplo, leva um monge cartuxo a querer evangelizar os infiéis ou um missionário à vida solitária dos cartuxos. Ou ainda, no que diz respeito à devoção, inspira a rezar à revelia da liturgia, por exemplo, rezar a sexta-feira santa como se fosse Natal ou vice-versa. Do mesmo modo, nas coisas da fé, conduz a novidades dogmáticas, como, por exemplo, no tempo do modernismo, a ler os livros dos protestantes liberais sob pretexto de adaptar nossa fé ao pensamento moderno. Ou, ao contrário, se nossa inclinação natural está em sentido oposto, nos incita a um arcaísmo imoderado, para provocar o conflito entre católicos ; assim, levava os israelistas recém convertidos ao Cristianismo a voltar à lei mosaica ; é contra esta tentação que foi escrita a Epístola aos Hebreus, onde está dito (3, 13) « Exortai-vos uns aos outros todos os dias, para que nenhum de vós se endureça, seduzido pelo pecado. ». Do mesmo modo, o espírito mau altera os dogmas : por exemplo, o da predestinação quando surge no calvinismo; então se realiza o adágio : corruptio optimi pessima. A corrupção do melhor é a pior das coisas. O demônio conhece muito bem este provérbio e trabalha para a perversão da fé sobrenatural. Ele sabe, com efeito, que não há nada pior, nada de mais perigoso que o cristianismo falseado, que conserva uma certa aparência de verdade, e ele age, por vezes, como um falso Cristo antes de aparecer como Anticristo. Tal como existiu no pensamento de Lutéro e Calvino (não nos protestantes de boa fé), o protestantismo é então alguma coisa de pior e de mais perigoso que o naturalismo, pois é mais sedutor e abusa ainda mais da sagrada Escritura. É verdade que aceita a Escritura, mas para um uso depravado.
O naturalismo prático e, em seguida, teórico, provém muitas vezes do espírito da natureza decaído, mas a perversíssima corrupção dos dogmas sobrenaturais, como no calvinismo, vem do espírito do demônio. Alterar a fé divina é, portanto, podemos dizê-lo, utilizar-se de uma arma de grande precisão, não contra os inimigos, mas contra os próprios irmãos e contra si próprio – é um fratricídio e um suicidio. Assim se explica, em grande parte, a história da pseudo-Reforma quanto ao seu espírito, ainda que muitos protestantes estejam de boa fé, pelo fato de ignorarem o verdadeiro espírito do protestantismo.
Quanto à esperança, o espírito mau trabalha para fazer com que nossa esperança degenere em presunção ; por exemplo, quer-se chegar rapido demais à santidade, e não pouco a pouco, subindo os degraus necessários, nem pela via da humildade e da abnegação. Ele inspira igualmente uma certa impaciência quanto à nós mesmos, uma vez que nossos defeitos parecem grandes demais. Por conseqüência, produz em nós a indignação no lugar da contrição, uma indignação que é filha do orgulho e contrária à contrição. Ora, a presunção conduz ao desespero, quando se verifica a impossibilidade de chegar por suas próprias forças ao fim visado : o bem árduo parece então quase inacessível – é a desesperança.
Quanto à caridade, o espírito mau favorece os simulacros que são como um falso diamante ; assim, conforme as inclinações variadas e opostas de nossa natureza, ele inclina algumas a esta falsa caridade para com o próximo que é o sentimentalismo, com uma indulgência excessiva sob pretexto de misericórdia e de generosidade. Em outros engendra um falso zelo : queremos sempre corrigir os outros, mas não a nós mesmos e, vendo a aresta no olho de nosso irmão, não vemos a trave no nosso olho.
De tudo isto resulta o contrário da paz, ou seja, a discórdia. O homem conduzido por este espírito não pode suportar a contradição, não vê senão a si mesmo em sua ofuscante personalidade, e se coloca, inconscientemente, acima de todos os demais, como uma estátua sobre o seu pedestal.
Se este homem cai em um pecado grave e manifesto que não pode esconder, ele se deixará vencer pela confusão, indignação, desespero e, enfim, pela cegueira do espírito e pelo endurecimento do coração. Antes desta falta, o demônio escondia as conseqüências desencorajantes do pecado e inspirava o relachamento ; agora, após a falta, fala da justiça inexorável de Deus, para nos conduzir ao desespero. É assim que forma as almas à sua imagem : após o arrebatamento do orgulho, vem o desespero.
Portanto, se alguém tem uma grande devoção sensível na oração, mas sai dela com maior amor próprio, julgando-se acima dos outros, sem obediência aos superiores, desprovido de simplicidade no que toca seu diretor espiritual, isto é sinal da presença do espirito mau na sua devoção sensível. A falta de humildade, obediência e caridade fraterna é o indício de que se está privado do espírito de Deus.
Vamos agora aos sinais deste último.
DESCRIÇÃO DOS SINAIS DO ESPÍRITO DE DEUS
Estes sinais opõem-se aos do espírito da natureza e do espírito demoníaco. O espírito de Deus inclina à mortificação exterior, no que difere do espírito de natureza, mas à mortificação exterior regrada pela prudência cristã e pela obediência, e que não atrai a atenção para nós nem enfraquece a saúde. Este espírito nos ensina, por outro lado, que a mortificação exterior é coisa pequena, se não há, ao mesmo tempo, a mortificação da imaginação, da memória (lembrança dos erros que cometemos), do coração, da vontade própria e do julgamento próprio. Inspira igualmente a verdadeira humildade, que dispõe à perfeita obediência, nos impede preferirmos a nós mesmos que aos outros, não teme o menosprezo, guarda silêncio sobre nossas qualidades ; no entanto, ela não os nega, se existem, mas rende glória a Deus por elas.
O espírito de Deus alimenta nossa fé com o que há de mais simples e profundo no Evangelho, como, por exemplo, o Pai Nosso, fazendo-nos fugir às novidades pela fidelidade à tradição. Esta verdadeira fé sobrenatural nos revela a presença de Deus nos nossos superiores ; assim, aperfeiçoa-se o espírito de fé, porque tudo julgamos à luz dessa virtude.
O espírito de Deus torna a esperança firme, preservando-a da presunção ; diz-nos, por exemplo : é preciso desejar ardentemente a água viva da oração, que conseguimos pela via da humildade, da abnegação e da cruz. Por consegüinte, dá-nos uma santa indiferença pelo sucesso humano.
O espírito de Deus aumenta o fervor da caridade, dá o zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas, o esquecimento de si mesmo. Assim, pensamos antes de tudo em Deus, depois em nosso benefício. Inclina igualmente ao amor eficaz ao próximo ; nos ensina que a caridade fraterna é o principal indício do progresso no amor de Deus. Impede o julgamento temerário, o escândalo sem motivo. Inspira o zelo, certamente, mas um zelo paciente, doce e prudente, que edifica pela oração e pelo exemplo e não se irrita pelas repreensões intempestivas. Produz uma grande paciência nas adversidades, o amor pela cruz, o amor pelos inimigos. Propicia a paz com Deus, com os outros, com nós mesmos e, freqüentemente, a paz interior.
Se ocorre uma queda acidental, então o espírito de Deus nos fala em misericórdia. S. Paulo diz (Gl 5, 22-23): « O fruto do Espírito é a caridade, o gozo, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. », com a humildade e a obediência.
Se se trata de um ato particular, é mais difícil discernir se provém ou não de Deus. No entanto, se, encontrando-se antes na tristeza, a alma reza e recebe uma consolação profunda, é o sinal da visita de Deus, se esta consolação incita à obediência humilde e à caridade fraterna.
Mas é preciso distinguir o primeiro momento da consolação do tempo seguinte, onde, por vezes, a alma julga por si mesma sobre esta consolação e o pode fazer conforme seu amor próprio.
Haverá presunção se desejar graças propriamente extraordinárias, como visões ou palavras interiores ; mas se a alma vive e persevera na humildade, abnegação e recolhimento quase contínuo, não é raro que, em virtude dos sete dons do Espírito Santo, ela receba inspirações pelas quais se conciliam a simplicidade e a prudência, a humildade e o zelo, a firmeza e a doçura. Esta conciliação e esta harmonia constituem sinal claríssimo do espírito de Deus.
O segredo, o silêncio e a cruz são absolutamente necessários àqueles a quem Deus conduz verdadeiramente por vias extraordinárias e estes não as devem manifestar senão ao seu pai espiritual ; caso contrário, há grande perigo de orgulho espiritual.
Particularmente perigosa é a disposição de se comprazer nas revelações, de forma dogmática ou profética ; pois elas se acompanham facilmente de ilusões, e mesmo se a primeira inspiração vêm de Deus, freqüentemente vêm a ela se acrescentar uma interpretação humana, mais ou menos errônea, geralmente compreendida de modo extramamente material. Enfim, o espírito que procura êxtases e revelações, se não aperfeiçoa os costumes e a vida, e não faz o homem desconfiar-se de si mesmo, é um espírito de ilusão, sobretudo se todo isto impede a realização do dever de estado e engendra discórdias. Os sinais do espírito de Deus são, portanto, a obediência humilde, a caridade fraterna, a paz e a alegria espiritual radiantes.
PRINCÍPIOS SECUNDÁRIOS DO DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS.
1. No que se apresenta prontamente para ser feito, o espírito que anima alguém se manifestará se, após deliberação, desconfiar-se de si mesmo. No entanto, nesta regra, não se trata do movimento primo primus, nem do pecado de fragilidade, mas de um ato suficientemente deliberado e grave que o hipócrita não pode esconder ; assim se revelou o coração dos fariseus após a cura imprevista do cego de nascimento.
2. Os segredos do coração se revelam nas tribulações. Assim, os verdadeiros amigos permanecem nos dias de tribuação, mas não os demais, como está escrito no Eclesiastico (4, 8). Do mesmo modo, a tribulação é como uma fornalha onde Deus prova seus eleitos, conforme outra passado do Eclesiástico (27, 6) : « O forno prova os vasos do oleiro e a prova da tribulação, os homens justos » . Lê-se no livro da Sabedoria (3, 5- 8) : « Deus, que os provou, achou-os dignos de si. Ele os provou como ouro na fornalha, e aceitou-os como um holocausto. Os justos resplandecerão no tempo da recompensa, propagar-se-ão como centelhas sobre o colmo. Julgarão as nações, dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. » Mas, para isso, a tribulação era necessária ; « Numerosas são as tribulações dos justos » ; sua longanimidade, sua humildade, sua mansidão, sua indefectível perseverança então se manifestam.
3. O poder revela o homem ; pois, quando adquirimos poder e honras, devemos corrigir e governar os outrros, o que importa bem mais dificuldades do que antes fazíamos em nossa vida privada. Com efeito, é preciso mostrar sabedoria, prudência, sem oportunismo e utilitarismo mesquinhos, caridade para com todos e justiça, igualmente, uma firmeza que não teme corrigir os maus, enfim, bem-querer pelos bons servidores que devem ser ajudados. Ver o Diálogo de santa Catarina de Sena, no lugar em que trata dos bons e dos maus pastores.
REGRAS PARA CIRCUNSTÂNCIAS DIVERSAS
1. Nos momentos de desolação, não se deve fazer nenhuma alteração, mas manter com firmeza e confiança as resoluções que já tomamos diante de Deus. Isto é sobretudo verdadeiro caso se trate de uma desolação acachapante, que leva à uma tristeza má onde o espírito perverso será nosso guia.
2. Nos momentos de desolação, é preciso dedicar-se ainda mais à oração, ao exame de consciência e à penitência. Por que ? Porque a desolação, gerada pelo desgosto nos afasta da oração, do exame de consciência e da penitência. Cura-se, portanto, os contrários pelos contrários. Qualquer que seja a causa de que provenha, esta desolação deve ser, para nós, ocasião de uma reação virtuosa ou de um ardor da alma para o serviço de Deus. Ver A Imitação de Cristo, livro I, c. 12 : Vantagens da adversidades ; lê-se o seguinte : « A adversidade lembra o homem de seu próprio coração, de modo que se conheça em exílio e não ponha sua esperança em nenhuma coisa desse mundo ». Assim, pouco a pouco, graças à oração, a tristeza, de maléfica que era, torna-se boa.
3. O espírito mal nos engana atraíndo nossa alma a um bem aparente e, em seguida, nos induz e incita ao mal. Trata-se, propriamente falando, de uma sedução, pior ainda, o demônio se transfigura por vezes em anjo de luz : sob o pretexto de melhorar as coisas inferiores, nos tira da via de Deus, para nos fazer desejar a comodidade antes que a santidade. Provoca, assim, divisões, perturba a paz e semeia a discórdia.
4. Se nos entristecemos por ser menosprezados, é sinal, senão do espírito mal, ao menos de um espírito imperfeito ; portanto, se nos descorajamos quando somos menosprezados, é um mau sinal, sobretudo nos que passam por ser gratificados com os maiores dons de Deus. Pois os que são verdadeiramente tais não se rejubilam apenas destes dons e favores, mas também das adversidades e desprezos, conforme as palavras de S. Paulo (2 Cor 12, 5, 10) : « Quanto a mim, de nada me gloriarei, senão das minhas fraquezas... para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso, sinto complacência nas minhas enfermidades, nas afrontes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústicas por amor de Cristo ». Assim, como diz Santo Agostinho « o Apóstolo encontrou um tesouro no menosprezo do qual corava o filósofo » (Sermão 160).
Conseqüentemente, o espírito que se recusa a ser menosprezado não é um espírito perfeito ; do mesmo modo, aquele que deixa de renunciar a si mesmo não é de sólida virtude. Pois, do fato de serem conexas, todas as virtudes devem aumentar ao mesmo tempo.
COROLÁRIOS :
1. O espírito que abunda em penitências e é pobre em obediência é imperfeito e tende ao mal de algum modo, porque está demasiado preso à vontade própria ; realiza muitas boas obras, mas não por amor de Deus ; a prova é que não crê nesta humilde obediência que manifesta conformidade com a vontade de Deus.
2. Também não é um bom espírito aquele que é dado ao paradoxo, isto é, que julga habitualmente de modo excepcional ou que vai de encontro à apreciação comum das pessoas prudentes, que tem algo de estranho e artificial : contém mais grandiloqüência que virtude.
3. Também é mau espírito o que inclina a coisas extraordinárias e fala delas abertamente, sem discrição. A razão disso é que todas as virtudes aumentam ao mesmo tempo, pelo fato de serem conexas ; conseqüentemente, Deus não incita a grandes coisas sem inspirar, ao mesmo tempo, uma grande humildade. Assim, a verdadeira magnanimidade difere da impetuosidade da presunção. Ao contrário, é próprio do demônio incitar empresas novas, curiosas, singulares, prodigiosas, inusitadas, provocando a admiração e o estupor para obter as honras da santidade.
O mesmo se passa com alguém que, sem estar solidamente firmado na humildade e obediência, inclina-se a uma vida extraordinária de oração e penitência, sob pretexto de imitar os santos nas suas ações mais admiráveis e menos imitáveis.
A construção do edifício espiritual não pode começar pelo telhado, e o pássaro não pode voar antes de possuir asas. Assim ocorre com a alma: se alguém se encaixa nessa descrição e parece voar, não se trata senão de um simulacro de vôo ou de elevação, uma vã e perigosa exaltação.
CONCLUSÃO
De tudo isto resulta claramente que o espírito de Deus manifesta-se sobretudo na humilde obediência e na caridade fraterna, que ama o próximo por Deus com abnegação. Pois a humilde obediência não provém do espírito da natureza que não inclina à humildade, nem do espírito perverso, que é um espírito de orgulho e de desobediência ; ao contrário, a humilde obediência, mesmo nos mais pequenos detalhes, manifesta a progressiva conformidade com a vontade divina.
Por outro lado, a caridade fraterna é o maior sinal do amor de Deus, conforme as palavras do Senhor (Jo 13, 35) : « Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros ». A caridade fraterna é o termômetro sensível da nossa união com Deus ; pois é de modo bem sensível que aparece nossa caridade quando se trata de ajudar o próximo, sobretudo se é difícil e exigente ; então, se o amamos apesar desta dificuldade, é sinal de que nós lhes fazemos o bem por causa de Deus e que, por conseqüência, aumenta nossa caridade para Deus mesmo. Não há duas virtudes de caridade, uma para Deus, outra para o próximo. Não há senão uma só caridade, cujo objeto principal é Deus e cujo objeto segundo é o próximo. O amor visível do próximo manifesta assim o amor invisível de Deus, na medida em que se distingue do sentimentalismo.
Portanto, se a humilde obediência e a caridade fraterna se conservam e progridem numa alma ou numa comunidade, é, pois, sinal de que um verdadeiro amor de Deus aí progride. Por consegüinte, se esta alma carece um pouco de inteligência natural e de energia física, Deus o suplantará pelas inspirações de seus dons de conselho e de força.
NOTAS:
[1]
[2] Manchas [do pecado original] (Cf. Ia-IIae, q. 85, a. 3): -
na
-
na
-
no
-
no concupiscível,
[3] Ia-IIae, q. 77, a. 4 e 5; cf. Bossuet, Tratado da concupiscência.
[4]
Cf.
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