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O DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
Pe. Garrigou-Lagrange
1.
Que
significa
espírito
nesta
expressão ?
Significa uma
maneira
especial
de
julgar,
amar,
querer,
agir;
uma
tendência
ou
mentalidade
particular
da
alma,
por
exemplo,
uma
inclinação
à
oração,
à
penitência
ou,
ao
invés,
à
contradição;
é desse
modo
que
falamos de
um
espírito
de
contradição
ou
ainda,
de
insubordinação.
2.
Como
classificamos na
espiritualidade
os
diversos
espíritos?
Classificamos
geralmente
em
três
tipos
de
espíritos:
o
divino,
o
diabólico
e o
humano.
Que
é o
espírito
divino?
É a
inclinação
interior
da
alma
para
julgar,
amar,
querer,
agir
de
modo
sobrenatural;
por
isso,
nos
inclina a
fugir
do
pecado
pela
mortificação da
carne,
pela
humildade,
e a
tender
para
Deus
pela
obediência,
piedade,
fé,
confiança
e
caridade,
afetiva
e
efetiva.
O
espírito
divino
verifica-se
particularmente
nas
inspirações
do
Espírito
Santo
segundo
os
sete
dons.
O
espírito
divino
se
encontra
em
estado
latente
nos
principiantes
e de
modo
mais
manifesto
nos
aproveitados e
nos
perfeitos,
mais
dóceis ao Espirito
Santo.
Pela
inspiração
divina,
há
unidade
numa
grande
variedade
de
virtudes,
de
dons,
de
vocações
contemplativas,
ativas
e apostólicas. É
conforme
esta
variedade
que
distinguimos o
espírito
de
cada
família
religiosa,
que
declina na
medida
que
dele se afasta e se renova, ao
contrário,
quando
a
ele
retorna.
Que
é o
espírito
humano,
ou
espírito
de
natureza?
É a
inclinação
para
julgar,
querer
e
agir
de
modo
demasiado
humano,
segundo
a
natureza
decaída,
que
tende
para
sua
vantagem
pessoal,
para
sua
própria
utilidade;
é o
espírito
do
egoísmo
e do
individualismo.
Então,
a
prudência
é
vista
mais
como
uma
virtude
necessária
para
evitar
os
inconvenientes,
que
como
uma
virtude
positiva
que
tende ao
bem
honesto
e dirige
retamente
as
virtudes
morais.
Por
esta
prudência
da
carne,
coloca-se a mediocridade, no
sentido
pejorativo
do
termo,
no
lugar
do
justo
meio
da
virtude.
Esta
mediocridade é
um
meio
termo
entre
o
bem
e o
mal
e, inspirando-se no
utilitarismo,
ela
permanece no
centro
da
base
do
triângulo
para
fugir
aos
inconvenientes
do
vício,
mas
não
por
amor
a
virtude.
Ao
contrário,
o
justo
meio
termo
da
virtude
é
como
o
cume
do
triângulo
formado
entre
dois
vícios
opostos
um
ao
outro.
Assim,
o
justo
meio-termo
da
virtude
da
força
está
entre
a
covardia
e a
audácia
temerária.
Este
justo
meio-termo
eleva-se
mais
e
mais
com
o
progresso
das
virtudes.
É
mais
alto
na
temperança
infusa
que
na
temperança
adquirida. Do
mesmo
modo,
a mediocridade
sempre
diminui a
elevação
das
virtudes
teologais,
como
se existissem «
por
si
sós,
em
um
meio-termo
»,
como
se o
homem
pudesse
ter
demasiada
fé
em
Deus,
demasiada
esperança
em
Deus,
demasiado
amor
a
Deus,
assim
como
pode
amar
demasiadamente
a
própria
pátria,
amando-a
mais
que
a
Deus.
O
falso
meio-termo
da mediocridade permanece na
base
e
não
busca
jamais
o
cume
da
perfeição.
Este
espírito
de
natureza
engendra a
tibieza
e,
enfim,
o
desgosto.
Predispõe ao
pecado
mortal
pelos
pecados
veniais
cada
vez
mais
deliberados. No
entanto,
o
espírito
de
natureza
tem,
por
vezes,
um
lirismo
próprio,
que
se
manifesta
no
sentimentalismo,
na
afetação
na
sensibilidade
de
um
amor
que
não
existe o
bastante
na
vontade.
Mas
decai rapidamente do
lirismo
romântico à
prudência
da
carne
e à « loucura »
da
qual
falava
São
Paulo,
que
julga de todas as
coisas,
mesmas as
mais
elevadas,
pelo
que
há de
mais
baixo,
segundo
as
satisfações
da
sensualidade
ou
do
orgulho
(cf. S. Tomás
sobre
a
prudência
da
carne
e a
loucura,
IIa-IIae, q. 55, q. 46).
Que
é o
espírito
demoníaco?
É uma
tendência
para
julgar,
querer
e
agir
conforme
uma
inspiração
perversa
e
diabólica.
Este
espírito
manifesta-se
claramente
nos
ímpios,
em
seu
orgulho,
luxúria
e arrebatamento,
mas,
no
momento
da
tentação,
aparece
em
estado
latente
nos
outros.
Em toda alma
predomina um destes três espíritos: nos ímpios, o espírito demoníaco, nos
tíbios, o espírito de natureza; nos iniciantes que se mostram generosos na via
do Senhor, domina já o espírito de Deus, ainda que neles, por vezes, o espírito
de natureza ou mesmo o demoníaco se introduza.
Que
significa,
enfim,
discernimento,
quando
falamos
em
discernimento
dos
espíritos?
É o
julgamento
que
consiste
em
discernir
exatamente
por
qual
espírito
é
normalmente
movida
tal
pessoa.
Ora,
o
discernimento
pode
ser
adquirido
ou
infuso :
Se é
adquirido, tem
sua
origem
no
influxo
da
teologia
moral
e na
prudência
adquirida unida à
prudência
infusa, e é
mais
ou
menos
aperfeiçoado
pela
inspiração
do
dom
do
conselho.
Se é infuso,
é a
graça
gratis
data,
chamada
por
São
Paulo (1
Cor
12, 10) «
discernimento
dos
espíritos
».
Ela
é
muito
rara.
No
entanto,
um
bom
diretor
espiritual,
piedoso,
virtuoso
e
prudente,
recebe,
mui
freqüentemente,
graças
de
estado
que
podem, de
algum
modo,
pelo
fato
de serem de
utilidade
ao
próximo,
conduzir
a uma
graça
gratis
data;
elas
aperfeiçoam
sua
prudência
e as
inspirações
do
dom
de
conselho.
* * *
Qual é o
princípio fundamental do discernimento dos espíritos ?
É o
princípio
formulado
por
Nosso
Senhor,
a
saber:
«toda
a
árvore
boa dá
bons
frutos,
e
toda
a
árvore
má dá
maus
frutos.
Não
pode uma
árvore
boa
dar
maus
frutos,
nem
uma
árvore
má
dar
bons
frutos.
Toda
a
árvore,
que
não
dá
bom
fruto,
será
cortada
e
lançada
no
fogo.
Vós
os conhecereis
pois
pelos
seus
frutos»
(Mt 7, 17-20).
Ora,
os
frutos
são
as
virtudes,
os
dons
do
Espírito
Santo
e
seus
atos.
É
preciso,
pois,
julgar
pelas
principais
virtudes,
ou
seja,
em
ordem
ascendente,
pela
castidade
e mortificação,
pela
humilde
obediência;
pela
fé,
esperança
e
caridade.
É
fácil
aplicá-las aos
três
espíritos
que
distingüimos
acima.
DESCRIÇÃO DOS
SINAIS DO ESPÍRITO DE NATUREZA
Esta
descrição
se faz
com
facilidade
por
contraste
com
o
espírito
divino,
observando-se algumas
diferenças
com
relação
ao
espírito
demoníaco.
Este
espírito
natural
é,
como
dissemos
acima,
uma tendencia
para
julgar,
querer
e
agir
de
modo
natural
e
não
sobrenatural.
De
que
«
natureza
» se
trata?
Não
se
trata
absolutamente
da
natureza
considerada
em
si
mesma,
que
pode se
elevar
à
ordem
da
graça,
mas
se
trata
quer
da
natureza
decaída
e
ainda
não
regenerada
pela
graça,
quer
da
natureza
ainda
manchada,
que,
apesar
da
presença
da
graça,
conserva
as
quatro
manchas
conseqüentes
ao
pecado
original,
que
se agravam
pelos
pecados
pessoais.
Estas
manchas
nos
batizados
que
vivem
em
estado
de
graça
estão
em
via
de
cicatrização
ou
cura,
mas
não
há
cura
perfeita
nesta
vida.
Infligida à
toda
natureza
humana
pelo
pecado
dos
primeiros
pais,
estas
manchas
são
curadas
imperfeitamente
no
batismo,
pois
a
concupiscência
permanece
após
este
novo
nascimento, o
que
nos
obriga a
um
combate
espiritual.
Assim,
com
a
ajuda
de
Deus,
o
homem
supera a
concupiscência
de
um
modo
meritório,
como
diz S. Tomás (III, q. 69, a. 3). E
isto
também
era
conveniente,
como
está
dito
no
mesmo
lugar,
para
que
os
homens
não
viessem ao
batismo
com
o
intuito
de
escapar
às
penas
da
vida
presente
antes
que
pela
glória
da
vida
eterna.
Nós |