A
PROVIDÊNCIA DIVINA E O DEVER DO MOMENTO PRESENTE
R.
Garrigou-Lagrange, O.P.
“Omne
quadcumque facietis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini facite”
Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, (fazei) tudo em nome do Senhor”
(Cl 3, 17).
Para
melhor compreender como devemos viver o dia a dia, com confiança em Deus, com
abandono, é preciso estarmos atentos ao dever do momento presente e à graça
que nos é oferecida para realiza-la. Falaremos primeiramente do dever que se
apresenta a cada minuto, tal como os santos o compreenderam, e esclareceremos
depois a conduta destes santos pelo ensinamento da Escritura e da teologia,
ensino que se dirige a todos nós.
O
DEVER DO MOMENTO PRESENTE TAL COMO OS SANTOS O COMPREENDERAM E A LUZ QUE ELE
ENCERRA.
O
dever de cada instante, debaixo de aparências muitas vezes insignificantes, é
expressão da vontade de Deus a nosso respeito e a respeito de nossa vida
individual. A Virgem Maria viveu assim na união divina, realizando no dia a dia
a vontade de Deus pelo dever quotidiano de sua vida muito simples que, na aparência,
era como a vida de todas as pessoas de sua condição. Assim viveram todos os
santos, fazendo a vontade de Deus tal como se manifesta a cada hora, sem se
deixar desconcertar por contrariedades imprevistas. O segredo dos santos era o
de tornar-se, a cada instante, aquilo que a ação divina queria fazer deles.
Viam tudo o que tinham para fazer e para sofrer, todos os seus deveres e todas
as suas cruzes na vontade de Deus. Estavam persuadidos de que os acontecimentos
do presente são sinais da vontade ou da permissão de Deus, para o bem daqueles
que O procuram. A própria visão do mal, exercitando a sua paciência, lhes
mostrava, por contraste, o que deviam fazer para evitar o pecado e suas funestas
conseqüências. Os santos viam assim na
seqüência de acontecimentos, um ensinamento providencial e acreditavam que
ao lado e acima da continuidade de fatos exteriores de nossa vida, há como que
uma seqüência paralela de graças atuais, que nos são constantemente
oferecidas para fazer-nos tirar destes acontecimentos, agradáveis ou penosos, o
melhor proveito espiritual. A continuidade dos acontecimentos, se soubermos bem
considerá-la, contém lições de coisas de Deus, são como que um prolongamento
da revelação ou o Evangelho aplicado, até o fim dos tempos.
Em
quase todos os domínios distingue-se o ensinamento teórico e abstrato do
ensinamento aplicado e prático; O mesmo acontece na ordem das coisas
espirituais. O Senhor aí nos dá, a seu modo, esses dois ensinamentos: um no
Evangelho, o outro no curso da vida.
Esta
grande verdade vital, é geralmente desprezada. Quando chegam as contrariedades
e revezes, somos todos queixas e murmúrios. Tal doença aparece logo quando
mais tínhamos o que fazer; tal coisa nos falta; tiram-nos os meios necessários,
botam obstáculos intransponíveis ao bem que devíamos realizar, ao apostolado
que devíamos exercer.
Os
santos em tais circunstâncias, e mesmo em outras bem mais penosas, dizem: Fazer
cada dia a vontade de Deus é, no fundo, a única coisa necessária. O
Senhor não ordena jamais o impossível, mas há um dever que, a cada momento,
ele torna realmente possível para cada um de nós, para cuja realização ele
pede nosso amor e nossa generosidade.
Se tal acontecimento doloroso é conseqüência de nossas faltas será uma lição providencial, que devemos receber com humildade para dela tirar proveito. Se, sem falta de nossa parte, o Senhor permite que sejamos privados de certos bens, é porque não são verdadeiramente necessários à nossa santificação e à nossa salvação. Os santos acham que, em certo sentido, nada lhes falta a não ser um maior amor de Deus. Se soubéssemos o que são os acontecimentos que chamamos obstáculos, contrariedades, revezes, contratempos, infortúnios, fracassos, lastimaríamos a desordem que pode existir em tais coisas (e os santos a lastimaram mais do que nós e por causa dela sofreriam mais do que nós) mas nos repreenderíamos a nós mesmos por nossos murmúrios, e seríamos mais atentos ao bem superior que Deus busca em tudo o que ele quer e até em suas permissões divinas. [1]
A
Escritura diz em diversos lugares: O
Senhor é quem tira a vida e a dá, leva à habitação dos mortos e trás de
volta. [2]
Quanto
mais a ação divina faz morrer para o pecado e suas conseqüências, mais
separa de tudo o que não é Deus, mais ela vivifica. Alguém disse que a graça
é, às vezes, um carrasco, e no entanto, na obra que perfaz em nós, longe de
destruir a natureza naquilo que ela tem de bom, a aperfeiçoa, a restaura e a
eleva. Dela pode-se dizer o que se diz de Deus: mortifica
e vivifica.
Como
diz o Padre de Caussade [3], explicando essas vias
de Providência: “Quanto mais obscuro é o mistério mais luz contém” pois
sua obscuridade vem de uma luz intensa demais para nossos olhos.
Além
disso, o que melhor nos ensina é o que
acontece conosco em particular a cada momento, segundo o que quis ou
permitiu a Providência divina. É aí que encontramos a manifestação da
vontade divina que nos diz respeito, para o momento presente. E é aí que se
forma em nós o conhecimento experimental
da conduta de Deus em relação a nós, conhecimento sem o qual não saberemos
nos dirigir nas coisas espirituais, nem fazer aos outros um bem profundo. [4]
Na
ordem das coisas espirituais, sobretudo, só sabemos bem aquilo que a experiência
nos ensina pelo sofrimento ou pela ação. Nosso Senhor, que tinha sua santa
alma, desde o primeiro instante de sua vinda a este mundo, a visão beatífica e
a ciência infusa, quis ter também o conhecimento experimental que se adquire
no dia a dia, e que faz ver as coisas, mesmo as infalivelmente previstas, sob um
aspecto especial, dado pelo contato com o real. Prevemos que um amigo querido,
muito doente, vai morrer, mas sua morte contém, se soubermos abrir os olhos, um
ensinamento novo para nós, pelo qual Deus nos fala de algum modo à medida que
o tempo passa. Esta é a escola do Espírito Santo, estas são suas lições de
coisas, que nada tem de livrescas; e elas variam
para cada alma; o que é útil para esta não o será para outra. Sem querer
ver, superticiosamente, um sentido lógico em puras coincidências sem importância,
escutemos com simplicidade o que a Providência nos diz em particular, nas lições
de coisas que nos dá. É preciso não materializar ou mecanizar esta doutrina;
trata-se de um espírito sobrenatural a ser levado em conta na consideração de
todas as coisas, sem constrangimento, sem tola presunção.
Como
diz o autor [5] que acabamos de citar: “A
revelação do momento presente é uma fonte de santidade, sempre a jorrar...
Vós que tendes sede, sabei que não é preciso buscar longe a fonte da água
viva: ela jorra perto de vós, no momento presente, apressai-vos a chegar lá.
Porque
tendo a fonte tão próxima, vos fatigais a correr atrás dos riachos?... O amor
desconhecido! Parece que vossas maravilhas se acabaram e que só se pode copiar
vossas obras antigas, citar vossos discursos passados. Não se percebe que vossa
ação inesgotável, é uma fonte infinita de novos pensamentos, de novos
sofrimentos, de novas ações... de novos santos...” O Coração de Jesus é
uma “fornalha de graças sempre novas”.
Os
santos de cada época não têm necessidade de copiar a vida nem os escritos
daqueles que os precederam, mas sim de viver em perpétuo abandono aos segredos
e inspirações de Deus; nisto é que imitam todos os que os antecederam, apesar
da diversidade das circunstâncias de cada época e de cada vida individual.
O
momento presente, se soubéssemos ver nele a luz divina que contém, nos
lembraria de que tudo pode ser meio, instrumento ou ao menos ocasião de
progresso espiritual no amor de Deus a modo de provação ou de contraste. O
momento presente, segundo a ordem querida pela Providência divina, tem relação
com nosso fim último, com o único necessário:
assim, cada instante do tempo que se escoa tem relação com o instante único
da imobilidade eterna.
Se
soubéssemos ver, não seria apenas a hora da missa, a hora da oração ou da
visita ao Santíssimo Sacramento que seria santificadora para nós, mas todas
as horas do dia ganhariam seu sentido sobrenatural e nos lembrariam que
estamos a caminho da eternidade. Daí a boa prática de abençoar a hora que
começa, ou pedir para ela a benção divina. Devemos estar, a cada instante, na
situação disposta por Deus: não há momento do dia em que não tenhamos algum
dever a cumprir, dever em relação a Deus ou em relação ao próximo, dever ao
menos de paciência, quando a ação exterior não é possível. A cada minuto
devemos santificar o nome de Deus, como se não tivéssemos outra coisa a
esperar no tempo; como se, no instante seguinte, devêssemos entrar na
eternidade.
Assim
viveram os verdadeiros cristãos entre aqueles que, durante a última guerra,
estavam expostos aos tiros de artilharia, que recomeçava a intervalos de três
minutos; “Em um instante pode ser a morte” diziam, e viviam o minuto
presente em sua relação com a eternidade.
Assim
viveram os santos. Não apenas nas circunstâncias excepcionais mas no curso
normal de suas vidas, não perdiam, por assim dizer, a presença de Deus. Ora,
sua conduta se torna compreensível em razão dos princípios do Evangelho, que
se dirigem tanto a eles como a nós.
O
ENSINAMENTO DAS ESCRITURAS E DA TEOLOGIA SOBRE O DEVER DO MOMENTO PRESENTE.
São
Paulo escreveu na I Epístola aos Coríntios, X, 31: “Ou comais ou bebais, ou
façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. — Também
em Colossenses, III, 17: “Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras,
(fazei) tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus
Pai”.
Nosso
Senhor disse, como conta São Mateus, XII, 34: “A boca fala da abundância do
coração. O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração; e o mau
tira coisas más do mau tesouro. Ora, eu digo-vos que, de qualquer palavra
ociosa que disseram, os homens darão conta no dia do Juízo”.
Santo
Tomás mostra todo o sentido e o alcance desta doutrina quando ensina (Ia IIae,
q. 18, a. 9) que não há ato deliberado que, concretamente considerado, “hic e nunc”, seja moralmente indiferente; cada um de nossos atos
deliberados é ou bom ou mau. Por quê? Porque todo ato deliberado de um ser
inteligente deve ser racional ou ordenado a um fim bom, bom em si mesmo; e todo
ato deliberado de um cristão deve ser
ordenado, ao menos virtualmente, a Deus. Se for assim, será um ato bom; se
não for assim, será um ato mau. Não há meio termo. Mesmo nossas recreações,
nossos divertimentos, nossos passeios devem ter um fim bom em si. É verdade que
ir passear, considerado abstratamente, é indiferente. Também pode ser
indiferente ir passear aqui ou ali, mas o passeio deve ter um fim racional, como
por exemplo, o de reparar nossas forças, para retomarmos depois o trabalho que
devemos realizar. Por isso mesmo, os divertimentos têm um sentido moral e um
valor próprio na vida do ser racional.
Como
diria de modo simbólico um bom pregador, todos os nossos atos deliberados são
como as gotas de chuva que caem do alto da montanha, na linha divisória das águas;
destas gotas de chuva, algumas irão para um rio e um oceano; as outras, para
outro rio e outro mar, oposto e distante. Assim também nossos atos vão para o
bem, isto é para Deus ou para o mal. Nenhum desses atos, tomados na realidade
concreta da vida, é indiferente.
À
primeira vista, esta doutrina parece muito rígida. Mas não é: basta uma intenção
virtual ou implícita, renovada pela manhã no momento da oração, e também
cada vez que o Espírito Santo nos faz elevar nossos corações para Deus.
Esta
é, muito pelo contrário, uma doutrina consoladora, pois, segue-se daí, que na
vida do justo, todo ato deliberado é bom e meritório, seja fácil ou difícil,
pequeno ou grande.
Esta doutrina é também santificante se a entendermos bem e a vivemos, pois nos leva a pensar que o que Deus faz a cada momento é bem feito e cada acontecimento é um sinal de sua vontade. Assim Jó, privado de tudo, via nessa privação uma vontade de Deus que o provava para o santificar e em vez de maldizer aquele minuto tão penoso, bendizia o nome do Senhor. Aprendamos pois a reconhecer, no que acontece a cada momento, seja uma vontade positiva de Deus, seja uma permissão divina, sempre ordenada a um bem superior. Assim, aconteça o que acontecer, sempre guardaremos a paz.
São
Francisco de Sales resumiu toda esta doutrina nestas poucas palavras: “Cada
momento que chega até nós encerra em si uma ordem de Deus, e irá mergulhar na
eternidade, permanecendo para sempre aquilo que dele fizemos”.
Este reconhecimento quase constante da vontade divina, discernida do dever do momento presente, decorre sobretudo do dom da Sabedoria que faz ver em Deus, causa primeira e fim último, todos os acontecimentos, tanto os penosos quanto os agradáveis. É por isto que Santo Agostinho diz que a esse dom corresponde a bem-aventurança dos pacíficos, quer dizer, daqueles que conservam a paz onde os outros se perturbam e que muitas vezes levam a paz aos mais perturbados: “Beati pacifici, quia filii Dei vocabuntur”.
(extr.
de "La Providence et la Confiance en Dieu", ed. Desclée,
Paris, 1932. Permanência, Set-out. de 79. Trad.: Júlio Fleichman)
Notas:
[1]
Como se lê no Livro II dos Reis, 16, 6: “Semei, parente de Saul, ultraja o
profeta David, jogando-lhe pedras e o maldizendo. Um oficial de David quer matar
o insultante. David responde: “Deixe-o amaldiçoar! Pois se o senhor lhe
disse: Amaldiçoa David quem lhe dirá: por que ages assim?... Deixe-o
maldizer... talvez o Senhor olhe para minha aflição e me dê bens pelas maldições
desse dia”. Esta palavra faz pensar naquela de Nosso Senhor quando, durante a
Paixão, recomendando calma a Pedro, se deixa prender pelos homens armados
conduzidos por Judas e cura o soldado Malco que Pedro tinha ferido com sua
espada. Quantos fatos semelhantes a estes, na vida dos santos se realizaram,
quando ocasiões imprevistas se apresentaram.
[2]
Dt 32, 39; 1 RS 2, 6; Tb 13, 2; Sb 16, 13.
[3]
O Abandono à Providência, ed. abreviada, 1. II, cap. VII.
[4]
Assim se explica o bem sobrenatural feito às almas por santos como o Cura d’Ars,
que sem grande cultura teologal, tinha o sentido da conduta de Deus em relação
às almas mais diversas. Era assim que o santo Cura dava no mesmo dia, sem tempo
para refletir, a centenas de pessoas, o conselho certo, imediatamente aplicável,
que lhes era necessário.