O FIM, OS MEIOS E A EXECUÇÃO
R. Garrigou-Lagrange
Muitos
erros práticos na vida espiritual provêm do fato de esquecermos de considerar
que em tudo é preciso primeiramente querer o fim e que este fim só se realiza
ou se obtém em último lugar. Como diz muitas vezes Santo Tomás: “o
fim é o primeiro na ordem da intenção e último na ordem da execução”
(Ia. IIae., q. 1, a. 4). O doente quer a saúde mais do que os remédios mas só
após empregar os remédios é que recobra a saúde desejada. O arquiteto
concebe a Igreja que quer construir em toda sua altura mas ele tem,
evidentemente, que começar pelas fundações e não pelas abóbadas. Na ordem
material, só os loucos é que se afastam deste bom senso elementar. Mas na
ordem espiritual é fácil se afastar dele sem se notar. Muitos parecem querer
começar pelas abóbadas e flechas e não pelos alicerces, a construção do
edifício espiritual ou, para empregar outra imagem, parecem querer voar sem ter
asas.
Desejaríamos
recordar neste artigo qual é o alcance do princípio que acabamos de lembrar,
para o itinerário espiritual. Será este um modo de completar praticamente o
que muitas vezes dissemos sobre o caminho normal da santidade onde é preciso,
contrariamente aos quietistas, evitar tanto a presunção como a preguiça
espiritual, não avançando nem muito cedo nem muito tarde mas, como deseja o
Senhor, fortiter e suaviter.
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A intenção do fim deve preceder, é claro, a consideração e a escolha dos meios e por mais forte razão a execução deles.
Quais
devem ser desde o começo da vida espiritual as qualidades desta intenção?
A
intenção do fim deve ser reta, pura, elevada
e eficaz e isto desde o começo de nossa viagem até o fim; sem o que
os atos que devem ser praticados não teriam nem retidão nem eficácia.
Deve ser reta,
segundo a direção da reta razão, esclarecida pela fé. Em outros termos, ela
deve-se voltar com toda pureza para o fim que o próprio Senhor nos assinala.
Jesus nos diz no Sermão da Montanha (Mt 6, 22): “Se teus olhos são simples,
todo o teu coração será luminoso; mas se teus olhos forem maus, todo teu
corpo será tenebroso”. Da mesma maneira, se nossa intenção é reta e pura,
toda nossa vida, inspirada nela, terá luz.
A intenção deve ser
elevada:
“Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será
dado por acréscimo” (Mt 6, 33). Nós devemos desejar primeiro nosso fim
sobrenatural, a vida da eternidade, a possessão inamissível de Deus pela visão
beatífica e a glória que deve vir dele. Nossa intenção deve ser pois muitíssimo
elevada; por meio dela devemos constantemente tender para Deus sem limitar nossa
aspiração a um determinado grau da glória pois não sabemos qual nos foi
reservado. Devemos tender também para a plena perfeição cristã, que é
realizável aqui na terra, como para o prelúdio normal da vida eterna. É por
isto que Nosso Senhor começou seu primeiro sermão da montanha falando aos
homens a respeito das bem-aventuranças. Não há objeto mais elevado e mais
oposto às máximas da sabedoria humana. “Bem-aventurados os pobres, os
mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos,
os de coração puro, bem-aventurados os pacíficos, os que sofrem perseguição
pela justiça”. Estas bem-aventuranças, diz Santo Tomás depois de Santo
Agostinho, são os atos mais elevados das virtudes e dos dons[1], e no entanto
Nosso Senhor fala delas desde o início de sua pregação, para mostrar às
almas o fim para o qual elas devem tender, o ideal a que elas devem aspirar.
Pela mesma razão Santo Tomás começa a exposição da teologia moral pelas
questões do fim último e da bem-aventurança no Céu. O fim, que é o último
na ordem da execução deve ser, com efeito, o primeiro na ordem da intenção.
Em
terceiro lugar a intenção deve ser eficaz e deve até se tornar cada vez mais
eficaz sem o que não empregaremos os meios, algumas vezes penosos, que são
necessários para obter esse fim; recuaremos diante da cruz. Muitos se contentam
com um amor de admiração pelo fim entrevisto, amor que não passa de uma
veleidade. Nosso Senhor nos diz sobre isto (Mt 7, 21): Nem todo o que me diz:
Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade de meu Pai
que está nos céus. Não basta um idealismo belo que nada realiza.
Mas
também se enganaria no sentido inverso quem, querendo ser muito prático,
dissesse: “A via purgativa me basta” e não quisesse aspirar mais alto. A
via purgativa, como a mortificação, não passa de um meio em vista à união
com Deus, que é preciso primeiramente desejar eficazmente; sem o que não teríamos
a coragem de praticar efetivamente as virtudes da via purgativa, a renúncia,
com a qual pretenderíamos contentar-nos.
O
fim sendo o primeiro na ordem da intenção, a perfeição cristã não diminuída
deve ser, desde o começo da vida espiritual, vivamente desejada, querida por
uma vontade reta, pura, elevada e eficaz e à medida que avançamos, estas
qualidades de intenção devem aumentar com a caridade que deve sempre crescer
aqui na terra em nossas almas pelos nossos méritos e pela freqüente comunhão.
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Após
a intenção do fim, é preciso passar à
consideração e à escolha dos meios, e depois à execução. Esta consideração
deve descer da apreciação do fim desejado para a apreciação dos meios que
lhe são subordinados, até aos meios
mais ínfimos porém indispensáveis, que devemos empregar todos os dias na
prática de nossos deveres de estado,
alguns às vezes muito modestos segundo o lugar onde a Providência nos colocou.
É preciso, aqui, não negligenciar a consideração do que São Francisco de
Sales chama as pequenas virtudes que
são como flores da caridade sem as quais as relações com o próximo se tornam
tensas e quase impossíveis: doçura, afabilidade, prontidão no prestar serviço,
em interpretar acontecimentos com bons olhos, etc... É preciso não se
contentar com vagas generalidades sobre o fim proposto; não é suficiente
dizer: “É preciso fazer tudo pelo amor de Deus”; é preciso ver, cada dia,
em que consistem nossos deveres de estado, que são um dos grandes meios de
santificação para nós, de conformidade com a vontade de Deus. É preciso não
negligenciar os deveres de estado por uma piedade idealista e sentimental, mal
entendida, que não passará de uma fantasia piedosa. É preciso descer portanto
até o detalhe dos meios a empregar para se santificar na vida quotidiana, pois
os atos humanos são atos contingentes e particulares, postos hic
et nunc, em circunstâncias muito determinadas. Aqui, é preciso estar
atento a todas as direções da obediência, e a prudência deve aproveitar tudo
que pode assegurar a retidão de nossa marcha para frente, no meio em que nos
encontramos, no relacionamento com nossos superiores e com nossos iguais. Deste
ponto de vista não há nada de pequeno na vida cristã: os atos mais simples,
necessários para a prática dos deveres de estado mais elementares, têm alguma
coisa de grandioso em relação ao fim último sobrenatural e à caridade que
nos deve inspirar em vista deste fim. Compreende-se assim que a perfeição não
consiste em fazer coisas brilhantes, extraordinárias, mas em fazer
extraordinariamente bem as coisas ordinárias da vida cristã: assistir bem à
santa missa, preparar-se seriamente para a santa comunhão, fazer bem a ação
de graças, e viver deste tesouro da vida divina, praticando nossos deveres com
uma intenção sempre mais pura e mais firme, apesar das dificuldades e
atropelos, com o que Nosso Senhor chama “fome e sede de justiça de Deus”.
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Enfim,
assim como a consideração dos meios deve descer até os meios mais ínfimos, a
execução deve-se elevar destes meios até o fim a conquistar. A execução
deve ser uma ascensão contínua que começa pelos meios inferiores indispensáveis,
que se deve ensinar aos principiantes, sob pena de comprometer-lhes o futuro
espiritual, do mesmo modo como, para ir fazer uma visita a um personagem
importante, veste-se uma roupa conveniente para a ocasião ou para reparar um
doutorado na Universidade, é preciso fazer a inscrição e seguir os cursos.
Aqui,
nesta ascensão, é preciso não se precipitar e querer chegar ao termo mais rápido
do que convém. Em nossa época de vida efervescente é muito comum levar as
inteligências e as vontades à maturidade antes da hora, como que pondo numa
estufa frutos que amadureceriam antes da estação. Mas um fruto amadurecido à
força não se conserva por muito tempo e logo estará passado.
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Que
nos diz Nosso Senhor para nos curar de tal defeito? Notemos que ele começou sua
pregação pelas bem-aventuranças para nos mostrar o altíssimo fim ao qual
devemos tender: “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todo o
resto vos será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33) Mas quando se trata de passar
a execução, de começar a caminhada em direção a tão alto fim, entrevisto e
desejado, Nosso Senhor, sobretudo formando os Apóstolos, insiste na humildade.
Nosso Senhor, que não cessa de elevar seus corações, lhes diz também: “Se
não vos tornardes semelhantes a uma criancinha, não entrareis no reino dos céus”
(Mt 18, 3) Lembremo-nos em que ocasião estas palavras foram pronunciadas. São
Marcos nos conta que Jesus, caminhando com os apóstolos pela Galiléia, lhes
anunciava uma Paixão mas os apóstolos não compreendiam suas palavras e temiam
interrogá-lo. “E chegaram a Cafarnaum”, diz São Marcos (9, 32). Quando
estavam já em casa, perguntou-lhes Jesus: “De que faláveis vós outros pelo
caminho?”. Mas eles se calaram porque pelo caminho haviam discutido entre si
qual deles seria o maior. Sentando-se, pois, ele chamou os doze e lhes disse:
“Se alguém quer ser o primeiro seja o
último de todos e o servo de todos”. Está bem clara, na linguagem
simples e elevada de Jesus, a oposição entre a ordem da intenção e a da
execução: para atingir este fim tão alto que é a santidade é preciso começar
pela humildade. Quanto mais algo for o edifício espiritual, mais profundos
devem ser os alicerces. E além disso não basta cavar os alicerces de uma vez
por todas no começo da obra mas será preciso cavar mais profundamente, aqui e
ali à medida que cresce o edifício, para a humildade crescer com a caridade.
É isto que Jesus quer dizer aos Apóstolos: “E tomando um menino, diz São
Marcos, pô-lo no meio deles; depois de o abraçar, disse-lhes:— Todo aquele
que recebe um desses meninos em meu nome, a mim é que recebe; todo o que me
recebe, não recebe a mim mas Àquele que me enviou”.
São
Lucas (9, 46) conta também que os Apóstolos não compreenderam então que
Jesus lhe anunciava sua Paixão: “Veio-lhes então o pensamento de qual deles
seria o maior. Mas Jesus, conhecendo os pensamentos de seus corações, tomou um
menino, pô-lo junto de si e lhes disse: — Todo o que recebe esse menino em
meu nome, a mim recebe; e quem recebe a mim recebe Aquele que me enviou; pois
quem dentre vós todos é o menor, esse é o maior”. São Mateus (18, 4) dá-nos
a explicação dessas últimas palavras: “Todo
aquele pois que se humilha como esse menino, esse será o maior no reino dos céus”.
A criancinha está isenta de orgulho, de malícia, de concupiscência, de
rancor, esquece logo o mal que lhe fazem; depois, é simples e consciente de sua
fraqueza, pede socorro a seu pai e a sua mãe.
Assim
deve ser o cristão diante de Deus para entrar no reino dos céus; isento de
orgulho, simples, consciente de sua fraqueza. É aos humildes que Deus dá a sua
graça. Assim também nós somos levados a nos inclinar para a criancinha, a
ajudá-la e dar-lhe tudo que podemos, enquanto que nos afastamos da criança
pretensiosa que perdeu sua graça e a simplicidade da infância em troca de uma
vaidade ridícula.
O
cristão quando é verdadeiramente humilde, começa e continua como deve sua
viagem para a eternidade; sem precipitação alguma, ele chegará muito alto.
Ele não deseja de modo desregrado sua própria excelência, não se estima como
digno de grandes coisas; mais ele é humilde, mais ele ama a Deus e deseja
glorificá-lo, desprezando sua própria excelência, cuja procura diminuiria em
si o esplendor da glória divina.
Este
princípio de infância espiritual foi ensinado por todos os santos,
especialmente os fundadores da Ordem, na formação de seus discípulos. O
Senhor, nos últimos tempos, nos lembrou de uma maneira singularmente eloqüente
e persuasiva este espírito na pessoa de Santa Teresa do Menino Jesus. Esta
necessidade se fazia sentir. Nossa época não conhecia mais, por causa de sua
presunção e de seu frenesi, estas qualidades da verdadeira infância sem as
quais não se terá nunca as qualidades da adolescência nem as de uma idade
mais avançada. Ao mesmo tempo em que ela nos lembra a humildade, Santa Teresa
do Menino Jesus nos diz toda a confiança filial que devemos ter em Deus e tudo
o que Ele está pronto a nos dar para nos prender mais intimamente a Ele. Ela
nos mostra admiravelmente as graças sempre novas de luz e de amor que se
encontram no caminho normal da santidade.
Para
isso não se trata de receber a verdade somente do modo intelectual assim como
se escuta com atenção uma conferência interessante. É preciso que a alma
inteira, inteligência e vontade, receba a verdade e o bem que lhe são
propostos em uma doutrina que, como o dom da sabedoria, [3] é ao mesmo tempo
especulativa e prática, doutrina de vida.
É
preciso recebê-la humildemente, pelos intermediários que Deus quis que fossem
os nossos e que têm a graça de estado para nos esclarecer. Receber “como uma
criancinha”, diz Nosso Senhor, com simplicidade, pondo
em seguida em prática o que nos foi dito; pois, nesse caso, é pela prática
que se vai à teoria, no sentido de que é pela prática das virtudes que nos
preparamos para receber a contemplação verdadeiramente viva e saborosa dos
mistérios da salvação.
Assim recebe aquele que entrou nesta infância espiritual da qual falava Jesus aos seus discípulos e que é o antípoda das criancices de uma vã e tola pretensão. A presunção, querendo-se elevar muito depressa, não atinge nem mesmo os degraus inferiores da escala espiritual. O espírito de infância de que fala Jesus, ao contrário, predispõe a chegar em tempo normal à verdadeira maturidade que só virá na hora marcada por Deus.
Há,
pois, uma grande diferença entre um intelectual apressado em se instruir e um
contemplativo. Nosso Senhor alude a isto dizendo: “Eu vos dou graças, Pai,
porque escondestes estas coisas aos prudentes e sábios e as revelastes aos
pequeninos”.
São
José, que não era um intelectual foi certamente um dos maiores contemplativos
de todos os tempos; quem pode descrever o aumento de caridade, de inteligência
e de sabedoria que ele recebia do Verbo de Deus feito homem, quando, no silêncio
da casa de Nazaré, ele o contemplava com amor! O Santo Cura d’Ars que
tampouco era um intelectual, também foi, em sua aldeia, um grande
contemplativo. Nada via do imenso bem que realizava todos os dias mas via se
elevar cada vez mais o ideal do sacerdócio, e dele se julgava sempre mais
afastado.
Para
ser contemplativo, é preciso não ter a alma inflada de orgulho, é preciso ser
simples e humilde em relação a Deus, como uma criança. “Deus
superbis resistit humilibus autem dat gratiam” (Tg 4, 6). É aos humildes
que Deus dá sua graça e os faz humildes para os cumular de graça. Então seu
reino se estabelece verdadeiramente nestas almas, nestas inteligências, nestas
vontades, nestes corações.
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Finalmente
se realiza o ideal entrevisto e desejado no primeiro dia, segundo o princípio
que citamos no começo: em tudo é preciso primeiramente considerar e querer o
fim, que só se realizará em último lugar. É preciso não negligenciar os
meios inferiores, indispensáveis para a prática cotidiana de nossos deveres de
estado, às vezes muito modestos; é preciso não saltar por cima dos degraus
mas acelerar lentamente e finalmente se chega ao fim. Com dizia um santo
diretor: “Quando trabalhamos assim para o bom Deus chegamos a fazer mais e
menos do que tínhamos sonhado”; menos porque sobram sempre lacunas que esperávamos preencher mais
ligeiro, e que o Senhor deixa para nos manter humildes; mas também avançando
seriamente, fazemos mais do que havíamos
sonhado, pois o bom Deus, por sua graça, fecunda nossos esforços além de
nossas esperanças. “Deus, qui dives est
in misericordia... convivificavit nos in Christo, et conresuscitavit et conculis
supervenientibus abundantes divitias gratiæ suæ in bonitate super nos in
Christo Jesu” (Ef 2, 4). “Deus que é rico em misericórdia, por causa
do grande amor com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados,
nos convivificou em Cristo (por cuja graças fostes salvos); e com ele nos
ressuscitou e fez sentar nos céus com Cristo Jesus, para mostrar, nos séculos
futuros, a infinita riqueza da sua graça, por sua bondade para conosco em Jesus
Cristo”.
Uma
vida bela, diz-se, é um pensamento da juventude realizado na idade madura, e
realizado muitas vezes sem que saibamos, porque a alma voltada para Deus, não
se volta mais para si mesma.
Evitamos
assim dois tropeços: o dos idealistas que nada realizam, ou fazem só a aparência
do bem, e o daqueles que se dizem práticos e perdem de vista a altura do fim a
atingir.
Os
idealistas no mais das vezes, se contentam em conceber o ideal e admirá-lo;
quando procuram realizá-lo não pensam, como deviam, nos meios inferiores e no
entanto indispensáveis. Esquecem que para fazer uma bela estátua de Cristo, não
é suficiente se ter um belo modelo, é preciso também ver se a argila que se
vai usar não é nem muito úmida nem muito seca. Estando atentos apenas à
forma e não à matéria, podem muitas vezes fazer monstros, aplicando uma forma
belíssima a um objeto que está longe de ter a disposição necessária para
recebe-la. Ou ainda fazem uma imitação no campo da espiritualidade, dando aos
iniciantes uma direção que convém aos adiantados.
Por
outro lado a atenção dada aos meios às vezes ínfimos, porém necessários, não
deve nos deixar cair em minúcias, como acontece com o espírito esmiuçador que,
sob o pretexto de ser muito prático, perde de vista a elevação do fim a
atingir. Falando desses meios ínfimos, o tom e o acento devem lembrar a
grandeza do fim; é preciso sentir, na prática das virtudes morais, o sopro e o
élan das virtudes teologais que devem inspirá-las, o espírito de fé, de
confiança e de amor de Deus.
É
por isso que convém ler livros ascéticos escritos por espirituais que, como o
autor da Imitação, não esquecem
que a ascese é ordenada à mística, como coroamento normal, que as almas
generosas alcançarão na hora querida pelo Senhor.
Assim são resolvidas muitas dificuldades e evitam-se muitos erros práticos em espiritualidade. Não nos intrometemos, como os quietistas, nas vias místicas nem simulamos, antes da hora, o repouso da contemplação. Esta é infusa e só Deus pode dá-la. Mas Ele tem o hábito de concedê-la às almas verdadeiramente humildes e generosas que, fazendo cada coisa a seu tempo, não negligenciaram as virtudes pequenas, a prática exata de seus deveres de estado, e que, pela comunhão quotidiana, cada dia mais fervorosa, pela aceitação sobrenatural da cruz, se encaminham para a intimidade da união divina.
Então,
no crepúsculo da vida, a realização se encontra com a intenção primeira.
Esta, desde o começo, devia ser reta, pura, elevada e eficaz; essas qualidades
não cessaram de aumentar nela; ultrapassou-se o idealismo e chegou-se a um
santo realismo que não foi obtido pela diminuição do ideal mas pela
fidelidade constante Àquele único que pode, como Ele o disse, dar a vida e a
dar com abundância: Veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (Jo 10, 10).
(Trad: Anna Luiz Fleichman. "Perfection Chretienne et Contemplation", págs. 779ss, vol. II. Revista Permanência, Set.-Out. 77)