A PROCURA DA VIDA INTERIOR
Garrigou-Lagrange
A visão imediata de Deus ultrapassa as
forças naturais de toda e qualquer inteligência criada, angélica ou humana.
Uma inteligência criada pode, em sua atividade natural, conhecer a Deus pelo
reflexo de suas perfeições na ordem criada, mas não pode vê-lo diretamente
em Si mesmo como Ele se vê[1].
O anjo e a alma humana só se tornam
capazes de um conhecimento sobrenatural de Deus e de um amor sobrenatural por
Ele se tiverem recebido este enxerto divino que é a graça habitual ou
santificante, participação da natureza divina ou da vida íntima de Deus. Só
essa graça, recebida na essência de nossa alma como um dom gratuito, pode torná-la
radicalmente capaz de operações propriamente divinas, isto é, de ver a Deus
diretamente como Ele se vê e de O amar como Ele se ama.
Em outros termos, a deificação
da inteligência, e a da vontade, supõe uma deificação da própria alma
(em sua essência), donde derivam essas faculdades.
Essa graça, quando está consumada e
inamissível, se chama a glória, e dela procedem, na inteligência dos
bem-aventurados do céu, a luz sobrenatural que lhes dá a força de ver
a Deus, e, na vontade, a caridade infusa que lhes fez amá-Lo, sem que
possam daí em diante desviar-se d’Ele.
Em muitas ocasiões, já o notamos,
Jesus repete: “Aquele que crê em mim tem a vida eterna”[2].
Não somente ele vai tê-la mais tarde, mas, num sentido, já a tem, porque a
vida da graça é a vida eterna começada.
É, com efeito, a mesma vida em seu
fundo, como o germe que está num fruto de carvalho tem a mesma vida que o
carvalho desenvolvido; como a alma espiritual da criança pequena é a mesma
que, um dia, desabrochará no homem feito.
No fundo, é a mesma vida divina, que
está em germe no cristão aqui em baixo, e que está plenamente desabrochada
nos santos do céu, que são verdadeiros viventes da vida da eternidade.
É a mesma vida sobrenatural, a mesma
graça santificante, que está no justo aqui em baixo e nos santos do céu; é
também a mesma caridade infusa, com duas diferenças. Aqui em baixo nós
conhecemos a Deus não na claridade da visão, mas na obscuridade da fé infusa;
e, além disso, ainda que esperemos possuí-Lo de modo inamissível, aqui
embaixo podemos perdê-Lo por nossa culpa.
Mas,
apesar dessas duas diferenças, relativas à fé e à esperança, é a mesma
vida, porque é a mesma graça santificante e a mesma caridade; elas devem durar
eternamente.
UMA
CONSEQÜÊNCIA IMPORTANTE
Segue-se, desde agora, do que acabamos
de dizer, ao menos uma suposição quanto ao caráter não extraordinário da
contemplação infusa dos mistérios da fé e da união com Deus que resulta
disso. Esta suposição se confirmará mais e mais a seguir e se tornará uma
certeza.
A graça santificante e a caridade, que
nos unem a Deus em sua vida íntima, são, com efeito, muito superiores às graças
gratis datae e extraordinárias, como a profecia e o dom
das línguas, que são apenas sinais da intervenção divina e que por si mesmos
não nos unem intimamente a Deus. São Paulo o afirma muito claramente[3],
e São Tomás o explica muitíssimo bem[4].
Ora, é da graça santificante, chamada
“graça das virtudes e dos dons”[5],
recebida por todos no batismo, e não das graças gratis datae e extraordinárias,
que procede, nós o veremos, a contemplação infusa, ato da fé infusa,
esclarecida pelos dons da inteligência e da sabedoria. Nisso os teólogos
geralmente estão de acordo. Há então, desde agora, uma séria suposição de
que a contemplação infusa e a união com Deus que daí resulta não são em
si extraordinárias, como a profecia ou o dom das línguas; e, se elas não
são em si extraordinárias, serão encontradas na vida normal da santidade.
*
* *
Uma segunda razão é mais palpável
ainda e deriva imediatamente do que acabamos de dizer: a graça santificante,
estando por sua própria natureza ordenada para a vida eterna, é também ordenada
de si, de modo normal, à disposição próxima perfeita para
receber logo a luz da glória.
Com efeito,
como a graça santificante é, de si, ordenada à vida eterna, ela também é
ordenada a uma disposição próxima para receber a luz da glória
logo após a morte, sem passar pelo purgatório. Porque o purgatório é uma
pena que supõe uma falta que podia ter sido evitada, e uma insatisfação
insuficiente, que podia ter sido completa, se tivéssemos aceitado melhor as
penas da vida presente. É certo, com efeito, que alguém só será retido no
purgatório pelas faltas que podia ter evitado ou pela negligência em repará-las.
Normalmente, deveria ter feito seu purgatório nesta vida, tendo
mérito, crescendo no amor, ao invés de fazê-lo depois da morte, sem
ter mérito.
Ora, a
disposição próxima para receber a luz da glória logo após a morte
supõe uma verdadeira purificação, análoga à que se encontra nas almas que vão
sair do purgatório, e que têm um desejo ardente da visão beatífica[6].
Esse desejo ardente só existe ordinariamente nesta vida na união com Deus que
resulta da contemplação infusa dos mistérios da salvação. Esta parece bem,
desde agora, não ser uma graça extraordinária, mas uma graça eminentemente
na via normal da santidade.
A
VIDA INTERIOR E A CONVERSA ÍNTIMA COM DEUS
Nostra
conversatio in coelis est (Nossa conversação está no céu).
(Fp 3,
20)
A vida interior, dizíamos nós, supõe
o estado de graça, que é o germe da vida da eternidade. Entretanto, o estado
de graça, que existe em toda criança após o batismo e em todo penitente que
tenha recebido a absolvição de suas faltas, não basta para constituir o que
se chama habitualmente a vida interior do cristão. É necessário, ainda, uma
luta contra aquilo que nos faria recair no pecado e uma tendência séria da
alma para Deus.
Deste ponto de vista, para fazer
compreender o que deve ser a vida interior, convém compará-la com a conversa
íntima que cada um de nós tem consigo mesmo. Sob a influência da graça, se
formos fiéis, essa conversa íntima tende a se elevar, a se transformar e se
tornar uma conversa com Deus. Eis aí uma observação elementar; mas as
verdades mais vitais e mais profundas são as verdades elementares em que se
pensou durante muito tempo, das quais se vive, e que acabam por tornar-se objeto
de contemplação quase contínua.
Consideremos sucessivamente essas duas
formas de conversa íntima, uma humana, e outra cada vez mais divina ou
sobrenatural.
A
CONVERSA DE CADA UM CONSIGO MESMO
Desde que o homem cesse de se ocupar
exteriormente, de falar com seus semelhantes, desde que se encontre só, mesmo
no meio do barulho de uma cidade grande, ele começa a entreter-se consigo
mesmo. Se é jovem, pensa freqüentemente em seu futuro; se é velho, pensa no
passado, e sua experiência feliz ou infeliz da vida fá-lo habitualmente julgar
de maneira muito diferente as pessoas e os acontecimentos.
Se o homem permanece essencialmente egoísta,
sua conversa íntima consigo mesmo é inspirada pela sensualidade ou pelo
orgulho; ele se entretém com o objeto de sua cupidez, de sua inveja, e, como
encontra em si mesmo a tristeza, a morte, busca fugir de si, exteriorizar-se,
divertir-se para esquecer o vazio e o nada de sua vida.
Assim, a conversa íntima do egoísta
consigo mesmo acaba na morte e não é, então, uma vida interior. Seu amor de
si o leva a querer fazer-se o centro de tudo, a conduzir tudo a si, as pessoas e
as coisas; e, como isso é impossível, ele freqüentemente chega ao desencanto
e ao desgosto; torna-se insuportável para ele mesmo e para os outros e acaba
por se odiar por ter querido amar-se demasiadamente; às vezes acaba por odiar a
vida por ter desejado demasiadamente aquilo que há de inferior nela[7].
Apesar de tudo, nas horas de isolamento,
a conversa íntima recomeça, como que para provar ao homem que ela não
pode parar. Ele gostaria de interrompê-la, mas não pode. É o fundo da
alma, que tem uma necessidade incoercível, à qual precisamos dar uma
satisfação. Mas, na realidade, somente Deus pode responder a ela, e precisamos
de qualquer modo tomar o caminho que leva a Ele. A alma tem necessidade de se
entreter com outro que não seja ela mesma. Por quê? Porque ela não é o
seu próprio fim último. Porque o seu fim é o Deus vivo, e porque ela só pode
repousar n’Ele. Como diz Sto. Agostinho: “Irrequietum est cor nostrum,
Domine, donec requiescat in te”[8].
* * *
São Paulo
diz (1 Cor 2, 11): “Pois quem dentre os homens conhece as coisas do
homem senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as que são de
Deus ninguém as conhece senão o Espírito de Deus.”
Mas o Espírito de Deus manifesta
progressivamente às almas de boa vontade o que Deus deseja delas e o que Ele
lhes quer dar. Pudéssemos receber docilmente tudo o que Deus nos quer
dar! O Senhor diz àqueles que o procuram:
“Tu não me procurarias, se já me não tivesse encontrado.”
Essa manifestação progressiva de Deus
à alma que o procura não se dá sem luta; é necessário desembaraçar-se dos
laços que são as conseqüências do pecado, e pouco a pouco desaparece o que São
Paulo chama de “homem velho” e se forma “o homem interior”.
Ele escreve aos Romanos
(7, 21):
“Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, apresenta-se em
mim o mal. Deleito-me na lei de Deus, segundo o homem interior. Sinto, porém,
nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito.”
O que São Paulo chama de “homem
interior” é o que há de principal e mais elevado em nós: a razão
esclarecida pela fé e a vontade devem dominar a sensibilidade, comum ao homem e
ao animal.
O mesmo São Paulo diz ainda: “Não
percamos a coragem; ao contrário, na própria medida em que o homem exterior
vai desaparecendo em nós, o homem interior se renova dia a dia.” Sua
juventude espiritual é constantemente renovada, como a da águia, pelas graças
que recebe todos os dias; assim como o padre que sobe ao altar pode sempre
dizer, ainda que tenha 90 anos: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui
laetificat juventutem meam — Eu venho ao altar de Deus, ao Deus que alegra
a minha juventude” (Sl 13, 4).
*
* *
À luz dessas palavras inspiradas, que
lembram tudo o que Jesus, pregando as Beatitudes, nos prometeu e tudo o que Ele
nos deu morrendo por nós, podemos definir a vida interior:
É uma vida
sobrenatural que, por um verdadeiro espírito de abnegação e de oração, nos
fez tender à união com Deus e a ela nos conduz.
Ela implica uma fase em que domina a
purificação; outra, de iluminação progressiva, em vista da união com Deus,
como ensina toda a Tradição, que distinguiu assim a via purificativa dos
iniciantes, a via iluminativa dos que progridem e a via unitiva dos perfeitos.
A vida interior torna-se, assim, cada
vez mais uma conversa com Deus, em que pouco a pouco o homem se desprende do egoísmo,
do amor-próprio, da sensualidade, do orgulho.
Sto. Tomás insistiu muitas vezes neste
ponto. Ele o fez particularmente em dois capítulos importantes da Contra
Gentes, 1, c. XXI, XXII, sobre os efeitos e os sinais da habitação da Santíssima
Trindade em nós.
“O mais próprio da amizade parece ser
o conversar na companhia do amigo. Ora, a conversa do homem com Deus consiste em
sua contemplação, como já dizia o Apóstolo (Fp 3, 20): ‘Nossa
conversação está no céu’. Logo, como o Espírito Santo nos fez amar a
Deus, conseqüentemente somos constituídos como contempladores de Deus pelo Espírito
Santo. Por isso diz o Apóstolo: ‘Mas todos temos o rosto descoberto,
refletimos, como num espelho, a glória do Senhor, e vemo-nos transformados
nesta mesma imagem, sempre mais resplandecente, pela ação do Espírito do
Senhor’.”
Aqueles que meditarem esses capítulos
XXI a XXII do I. IV da Contra Gentes poderão averiguar se, para Sto. Tomás,
a contemplação infusa dos mistérios da fé está ou não na via normal da
santidade. São Francisco de Sales observa em algum lugar que, enquanto o homem,
ao crescer, deve bastar-se e depende cada vez menos de sua mãe, que se lhe
torna menos necessária quando ele atinge a idade adulta, e sobretudo a
maturidade plena, o homem interior, ao contrário, toma ao crescer cada dia
maior consciência de sua filiação divina, que o faz filho de Deus, e se torna
cada vez mais criança em face d’Ele, até entrar por assim dizer no seio de
Deus; os bem-aventurados no céu permanecem sempre nesse seio de Deus.
Jesu, spes poenitentibus,
Quam pius es petentibus!
Quam bonus te quoerentibus!
Sed quid invenientibus!
Ó Jesus, esperança dos penitentes,
Quão terno sois para aqueles que vos imploram,
Bom para aqueles que vos procuram,
Mas o que não sois para aqueles que vos encontram!
Nec lingua valet dicere
Nec Littera exprimere,
Expertus potest credere
Quid sit Jesum diligere.
Nem a língua pode dizer
Nem a Escritura exprimir
O que é amar ao Salvador;
Aquele que experimentou, pode crer nisso.
Sejamos daqueles que O procuram, a quem
está dito: “Tu não me procurarias se já não me tivesses encontrado.”
(de
"As Três Idades da Vida Interior". Tradução: PERMANÊNCIA. Revista
PERMANÊNCIA, nº 154/155, 1981)
[1]
Cf. Sto. Tomás, Ia., q. 12, a. 4.
[2]
Jo, III, 36; V, 24, 39; VI, 40, 47, 55.
[3]
Cf. I Cor., XII, 28 ss, XIII, 1ss.
[4]
Ia. IIa, q. 111, a. 5: “Gratia gratum faciens est multo
excellentior quam gratia gratis data”.
[5]
Cf. Sto. Tomas, IIIa., q. 62, a. 1.
[6]
Sto. Tomas explica muito bem esse vivo desejo de Deus que têm as almas do
purgatório (nós aí chegaremos falando mais adiante das purificações
passivas). Cf. IV Sent.,
d. 21, a. 1., ad tertiam. Assim,
sofremos muito de fome quando, privados de alimento por mais de um dia,
estaria na ordem radical de nosso organismo que nos restaurássemos.
Está na ordem radical da vida da alma, da economia da salvação,
possuir a Deus logo após a morte. Isso, longe de ser em si extraordinário,
é a vida normal, como acontece na vida dos santos.
[7]
Cf. Sto. Tomás, IIa IIa., q. 25, a. 7: Utrum peccatores seipsos diligant.
“Mali non recte cognoscentes seipsos, non vere diligunt seipsos; sed
diligunt id quod seipsos esse reputant. Boni autem vere cognoscentes
seipsos, vere seipsos diligunt [...] quantum ad interiorem hominem
[...] et delectabiliter ad cor proprium redeunt [...] E contrario
mali non volunt conservari in integritate interioris hominis, neque
appetunt ei spiritualia bona; neque ad hoc operantur; neque delectabile
est eis secum convivere, redeundo ad cor, quia inveniunt ibi mala et
praesentia et praeterita et futura, neque etiam sibi ipsis concordant
propter conscientiam remordentem.”
[8]
Confissões,
I, 1. “Nosso coração vive inquieto, na insatisfação, enquanto não
repousa em Vós.” É a prova da existência de Deus pelo desejo natural da
felicidade, felicidade verdadeira e durável, que só se pode encontrar no
Soberano Bem, ao menos imperfeitamente conhecido e amado acima de tudo, mais
do que a nós mesmos. Desenvolvemos noutro lugar esta prova, cf. La
Providence et la Confiance en Dieu, pp. 50-64.