O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
CONTINUAÇÃO

Pe. Emmanuel-André

XIII

As Operações Divinas

Quando falamos de operações divinas não designamos os atos internos de Deus nele mesmo, que dão origem à geração do Verbo e à processão do Espírito Santo. Designamos por operações os atos externos de Deus que têm por objeto as criaturas.

Os atos internos fundamentam a distinção de Pessoas.

As operações externas (ad extra) são obra indivisível das três Pessoas.

As três Pessoas divinas têm a mesma natureza; logo elas têm a mesma inteligência e vontade única. Como consequência, toda operação exterior é comum entre elas, como vindo de um princípio comum. Nosso Senhor diz em São João: "O Pai, que está em mim, este é que faz as minhas obras" (Jo.XIV,10). De fato, quando Jesus Cristo age como Deus, ele age por sua natureza divina, por sua inteligência divina, por sua vontade divina, tudo o que lhe é comum com o Pai e o Espírito Santo. Segue daí que essas duas Pessoas agem unidas com ele. Aliás, em Deus, natureza, inteligência, vontade, são uma única e mesma coisa inefavelmente simples, princípio de tudo o que existe.

No princípio Deus criou o céu e a terra. Esta criação é obra inseparável de toda a Santíssima Trindade. Na plenitude do tempo, Deus realizou a obra da Redenção do mundo pela Encarnação e morte de seu Filho único. Ora, tudo o que fez Nosso Senhor, como Deus, nessa grande obra, foi realizado por toda a Santíssima Trindade. E Deus também não cessa de santificar as almas; esta obra de santificação é tão grande que toda a Santíssima Trindade a realiza, como diz Nosso Senhor: "Se alguém me ama...nós viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo.XIV,23).

Esta é a doutrina católica sobre as operações externas de Deus.

Mas, como atribuímos a cada Pessoa uma qualidade determinada: poder, sabedoria, bondade, mesmo sabendo que estes atributos são comuns a todas as três, assim atribui-se a cada uma certas operações exteriores, mesmo sendo sempre obra de toda a Santíssima Trindade.

Quando o Credo diz: Creio em Deus Pai Todo poderoso, criador do céu e da terra, relaciona especialmente com o Pai a obra da criação. O que mais se manifesta na criação é o poder que tira algo do nada. Mas as outras pessoas não estão excluídas dessa obra. Assim como um trabalhador não executa uma obra sem conceber primeiro uma planta e sem ter a intenção de fazer a coisa direito, também o Pai, para criar o mundo, usou a sabedoria do Filho e a bondade do Espírito Santo (Sto Agostinho).

A Redenção é especialmente obra do Filho. O que brilha nela não é tanto o poder mas a sabedoria, esta sabedoria que soube conciliar tão admiravelmente a justiça e a misericórdia, buscando a imolação do inocente para a salvação do culpado, e mais, acalmando a Deus pelo sacrifício de Deus (Sto Agostinho, São Leão). Assim o Filho chama a si esta obra e se encarnou para realizá-la. O Pai trabalhou nela como autor da Encarnação; o Espírito Santo como autor dessa união maravilhosa de duas naturezas infinitamente distantes.

Enfim, a obra da santificação das almas é, com muito acerto, atribuída ao Espírito Santo. É um Espírito de amor, é o Amor, que santifica as almas. No céu, nesse céu dos céus que é a habitação da Santíssima Trindade, o Espírito Santo une o Pai e o Filho num laço indissolúvel; na terra, ou melhor, nesse céu que é a Igreja, ele une as almas em Jesus Cristo, para que Jesus Cristo as reúna a Deus. Foi para essa obra que Ele foi enviado sobre a Igreja nascente no dia de Pentecostes.

Esta doutrina nos mostra que é justo e legítimo atribuir certas operações a certas Pessoas. Quando a Sagrada Escritura nos diz que tal Pessoa fez tal obra, não é uma simples maneira de falar. É verdade que esta Pessoa teve uma ação especial e que as outras Pessoas só participaram da obra por concomitância, ou seja, em virtude do laço que as torna inseparáveis. A Sagrada Eucaristia nos apresenta um fenômeno análogo: é bem verdade que o corpo de Jesus está sob a espécie do pão de um modo muito especial; o Sangue de Nosso Senhor está presente na hóstia consagrada por concomitância, ou seja, por ser inseparável do corpo no estado atual de Ressurreição de Nosso Salvador.

XIV

O Vestígio da Santíssima Trindade

O artista que trabalha deixa uma marca própria na sua obra. Antes de mais nada a obra exige um artista. Em seguida, examinada com mais cuidado, ela revela a mão, a arte, a intenção daquele que a fez. Podemos até calcular sua técnica. Além disso, muitas vezes o artista ajuda o reconhecimento assinando sua obra.

Assim fez Deus com suas criaturas. Primeiro as criaturas, como diz Sto Agostinho, gritam bem alto que elas não se fizeram a si mesmas, mas que Deus as fez: "Ipse fecit nos et non ipsi nos". Além disso, reconhecemos, tanto na menor quanto na mais perfeita, uma mão poderosa, uma arte divina, uma intenção boníssima. Essa tripla marca nos revela não somente Deus, mas um Deus Trino que opera inseparável em todas as suas obras.

Permitam-me mais uma curiosa comparação: nas operações exteriores de Deus, as três Pessoas agem de uma ação única e indivisível; esta ação é semelhante ao raio de luz que, perfeitamente simples, contém as sete cores do arco-íris. Basta analisar o feixe de luz num prisma para achar as cores. Na simplicidade da ação divina reconhecemos a influência combinada das três Pessoas.

Esta mão poderosa que produziu e reuniu os elementos que compõem a menor das criaturas é a ação criadora do Pai; esta arte divina que organizou e como que classificou numa escala os seres, nos faz admirar a Sabedoria do Filho; enfim a finalidade própria de cada ser que se harmoniza perfeitamente com o restante do universo, é como uma marca da bondade do Espírito Santo.

Santo Agostinho, e em seguida São Tomás, explicam assim esta palavra do Livro da Sabedoria: "Todas as coisas dispusestes com medida, número e peso" (Sab.XI,21). A medida, que exprime a proporção dos elementos entrando na composição de cada ser, corresponde à obra do Pai. O número, que exprime a distinção específica e individual estabelecida entre os seres, responde pela obra do Filho. O peso, que significa a coesão mútua e a ordem que liga todas as criaturas juntas, marca a obra do Espírito Santo. E é assim, nos dizem estes grandes pensadores, que reluz algo da Santíssima Trindade até na mais ínfima das criaturas.

Haveria alguma que não possua, além de seu ser, beleza e bondade? Pelo ser ela nos revela o Pai; pela beleza ela nos revela o Filho; pela bondade, o Espírito Santo. Ser, beleza, bondade, três coisas que são na realidade uma só, eis o que chamamos vestígio da Trindade impresso até mesmo na criatura inanimada, como o pé do homem fica marcado na areia onde passou.

Esta doutrina joga uma luz belíssima na criação. Ela nos leva a penetrar no íntimo das coisas, onde nos maravilhamos de encontrar, não somente Deus, mas ainda, de certo modo, as três Pessoas divinas. Um pagão não pode ter essa visão profunda. Para reconhecer a pegada de um homem na areia ou a de um leão na terra, é preciso saber o que é um homem e o que é um leão. Assim, para discernir nas criaturas o vestígio da Santíssima Trindade, é preciso saber o que é a Santíssima Trindade. Os pagãos ignoram esse mistério, mas nós, católicos, o conhecemos pela fé.

E é justamente a fé que ilumina nossos olhos para que reconheçamos em tudo o vestígio indelével das três Pessoas divinas, Pai, Filho e Espírito Santo. E o encontrando, o adoramos e humildemente o beijamos. Confessamos que o ser das criaturas é quase nada perto do Ser divino que toma sua origem no Pai; que toda a beleza das criaturas não passa de trevas se comparada ao esplendor do Verbo Eterno; que desaparece toda bondade criada, na presença do Amor substancial que é o Espírito Santo. E proclamamos, enfim, que o ser, a beleza e a bondade de todas as criaturas exprimem e adoram a Santíssima e perfeitíssima Trindade.

XV

A Imagem da Santíssima Trindade

Enquanto apenas um obscuro vestígio da Santíssima Trindade é impresso nas criaturas materiais, foi reservado às criaturas espirituais, ou seja, os anjos e os homens, trazer a imagem desta Trindade adorável. Desta imagem vem sua dignidade.

Assinalemos em primeiro lugar, com Santo Agostinho, que as Sagradas Escrituras não dizem que o homem é a imagem de Deus. Está escrito apenas que ele foi feito à imagem de Deus. Ser a própria imagem cabe ao Filho em relação a seu Pai. Ser feito à imagem pode ser dito das criaturas, que não alcançam a igualdade com o Criador, mas que se aproximam apenas por uma tênue semelhança.

Como o homem é feito à imagem de Deus? Não por seu corpo, mas por sua alma; por sua alma que é espírito, ou seja, um ser livre da matéria. Sendo independente da matéria, a alma é inteligente, possui esta sublime faculdade de conhecer, que traz para dentro de nós o reflexo de todo o universo visível e que nos torna capaz de formular um juizo sobre todas as coisas. Além disso a alma ama. O que ela conhece pela inteligência, ela abraça pela vontade; e se ela se abre ao conhecimento de tudo, ela também se dilata para tudo amar. Eis o que a torna imagem de Deus. Como espiritual, a alma é imagem do Pai; como inteligente, imagem do Filho; como amante ela é imagem do Espírito Santo. Ser, beleza, bondade formam o vestígio da Santíssima Trindade; espírito, inteligência e amor formam sua imagem.

Essas três propriedades de uma mesma alma não quebram sua unidade; ao contrário, elas a unem ainda mais. Elas se originam uma da outra na mesma ordem que as Pessoas divinas procedem uma da outra. A alma é inteligente porque ela é espiritual, ou seja, elevada acima da matéria. Os seres que são apenas materiais não têm esse olhar de inteligência que abrange o conjunto das coisas e estabelece seus relacionamentos. E a alma ama porque é inteligente; só amamos aquilo que conhecemos: "A medida do conhecimento, diz São Gregório, é a medida do amor".

Se a alma é à imagem de Deus por essas duas faculdades de conhecer e de amar, enraizadas no seu ser espiritual, ela o será ainda mais pelos atos de conhecimento e de amor que daí derivam. O que é exatamente conhecer? É formar em si a imagem imaterial de uma coisa. É, de certo modo, lhe dar novo nascimento dentro de si para a contemplar. E não há neste ato uma analogia com a geração do Verbo que é produzido da substância do Pai e que é a perfeita imagem de suas perfeições infinitas? O amor é um movimento do coração para o objeto amado, um laço espiritual que nos une a ele: não podemos assim compreender um pouco a processão inefável do Espírito Santo, o qual, se lançando, por assim dizer, entre o Pai e o Filho, os une um ao outro num laço indissolúvel?

Assinalemos ainda, que esses atos de conhecimento e de amor produzidos pela alma, ficam dentro dela e são inseparáveis da alma, assim como os atos divinos da geração do Verbo e da processão do Espírito Santo, brotando de Deus, ficam em Deus e não são outra coisa senão Deus. O que torna ainda mais clara e admirável a analogia com a alma.

Apesar disso, não exageremos na comparação, pois, em muitos pontos ela torna-se imperfeita. Na alma, conhecimento e amor são fenômenos passageiros e variáveis, como imagens de movimento que se refletem num lago espelhado, como um vento que vem tremer o reflexo. As representações dos diversos objetos se sucedem na nossa inteligência e se expulsam uns aos outros; as afeições variam sem cessar no nosso coração, sem que possamos interferir, em muitos casos. Em Deus, ao contrário, um único Verbo compreende tudo, é consubstancial ao Pai que, imutável em si, renova todas as coisas; um único Espírito de Amor que abraça tudo, que não varia nunca e que é o próprio Deus.

Devemos assim reconhecer que, mesmo parecendo se aproximar do Criador, existe entre Ele e a criatura um abismo. Seria como comparar um ser vivo à sua imagem desenhada ou à sua sombra inconsistente. No entanto, o simples fato de ser à imagem de Deus, dá ao homem uma realeza sobre todas as criaturas materiais. Ele pode conhecer e amar a Deus; ele recebeu por isso o encargo de louvar e adorá-Lo em nome de todas as criaturas inferiores. Estas foram feitas para o homem e o homem foi feito para Deus.

A fé nos faz conhecer a Santíssima Trindade e desse conhecimento descobrimos em nós sua imagem. Estudando esta imagem, imperfeita que ela seja, aprofundamos nosso conhecimento da adorável e Santíssima Trindade.

XVI

A Semelhança da Santíssima Trindade

Quando Deus criou o homem, disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gen.I,26). Esta palavra "façamos" indica uma ação especial das três Pessoas divinas. Elas fizeram o homem à sua imagem ao fazê-lo espírito, inteligência e amor. Elas o fizeram à sua semelhança porque, infundindo a graça em sua alma, elas trouxeram um certo ambiente de família, pois a graça é uma qualidade divina que, infundida no centro da alma, a torna participante da natureza divina, como diz São Pedro claramente (II Pe.I,4).

"Deus – diz o Apóstolo – habita uma luz inacessível que nenhum homem jamais viu, que nenhum homem pode ver". A criatura racional poderia tudo fazer dentro de seu mundo, ela não poderia nunca se elevar, por suas próprias forças, nesta região onde reside a adorável Trindade, assim como o homem não pode alcançar os limites da atmosfera terrestre para se lançar no espaço incomensurável do céu (*). Da inteligência humana ou angélica para a essência divina, há uma distância infinita e, por isso, intransponível. Ora, aquilo que nossa natureza, mesmo antes do pecado, não poderia atingir, a graça nos alcança num piscar de olhos. "Ela nos faz penetrar – escreve São Paulo – até o interior do véu" (Heb.VI,19). Ela põe a alma em presença de Deus e, mesmo se na obscuridade da fé, os une. Esta união produz na alma uma admirável transformação, sobre a qual pediremos ao Apóstolo algumas explicações.

"A alma unida a Deus é um mesmo espírito com Deus" (ICor.VI,17). Antes ela era um espírito terrestre, agora é um espírito celeste. E sendo celeste, é à semelhança do Pai, de quem, antes, ela trazia somente a imagem.

Ela passa a ser admitida nos segredos de Deus pelo dom da fé que, posto na inteligência, a prepara para a clara visão da essência divina. Assim ela toma a semelhança do Filho, que é o espelho no qual se exprimem e se reproduzem substancialmente todas as inefáveis perfeições do Pai. Ela passa a ser unida ao princípio de toda a verdade. Escapando à incerteza das opiniões humanas, ela começa, mesmo que obscuramente, a ver todas as coisas na luz de Deus que não engana.

Enfim ela é elevada ao lado de Deus pelo dom da esperança, unida a Ele e vivificada pelo dom da caridade. Neste último, tornada toda amor, recebe a semelhança com o Espírito Santo que é o Amor substancial do Pai e do Filho. Unida ao princípio de todo bem e, por isso, tirada da inconstância do coração humano, ela acostuma-se a só amar nas criaturas os reflexos da bondade divina que aí reluzem.

Quando a alma, neste estado, faz um ato de fé, fica iluminada pela luz do Verbo eterno; quando faz um ato de amor, é como se o fogo do Espírito Santo a transfigurasse em Deus que, diz São João, é amor.

Uma santa a quem Deus mostrou em espírito uma alma em estado de graça mas ainda com muitas imperfeições, ficou tão impressionada pelo espetáculo que pensou que morreria pela força da atração que sentiu por uma beleza tão incompreensível. Podemos considerar o vestígio da Trindade nas criaturas, sem se elevar à menor noção da Santíssima Trindade. Podemos contemplar sua imagem na alma humana, sem entender nada do mistério das três Pessoas divinas. Mas não poderíamos ver uma alma em estado de graça sem penetrar imediatamente neste mistério inefável. Porque as três Pessoas habitam nesta alma, operam nela e, apesar de estarem veladas durante a vida presente, manifestam-se distintamente.

XVII

A Semelhança Consumada no Céu

O estado de semelhança da alma com Deus começa aqui na terra e é consumado na vida eterna. Nós seremos semelhantes a Deus (Jo.III,2) quando o vermos como Ele é. Logo, a semelhança na vida presente não é perfeita, absoluta.

Porque nos espantar? Aqui caminhamos pela fé, diz São Paulo, nosso estado é a fé, é de crer naquilo que não vemos ainda mas veremos um dia. Por isso, tudo em nós, inclusive a semelhança divina, é relativo ao estado de fé, e em conseqüência esta semelhança fica como que coberta por um véu.

Procuremos chegar a uma compreensão tão clara quanto possível desse mistério.

Deus habita em todas as criaturas lhes dando o ser; ele habita mais especialmente nas criaturas racionais lhes dando a luz da inteligência e a vida do coração. Porém, de um modo todo especial, Ele habita na alma em estado de graça, associando-a, como diz São Pedro, à sua própria divindade. (IIPe.I,4)

Não se pode imaginar uma habitação mais íntima que esta última. Deus se põe no centro da alma e as três Pessoas se comunicam a ela com uma familiaridade prodigiosa. É a realização da palavra de Nosso Senhor: "Se alguém me ama, guardará minha palavra...e nós viremos a ele e faremos nele morada" (Jo.XIV,23).

A união com a alma não poderia ser mais íntima, pois é realizada pelo próprio Espírito Santo. As três Pessoas divinas se comunicam à alma na obscuridade da fé e sem se manifestar a ela. Sim, nesta vida, o mistério da presença divina, da comunicação com a alma, se faz como numa nuvem, ao mesmo tempo luminosa e sombria.

Na vida eterna, a obscuridade terá desaparecido, a nuvem terá se dissipado, o véu retirado. As três Pessoas da Santíssima Trindade se manifestarão à alma de dentro dela. Elas se manifestarão fazendo brotar, do seio da divindade, uma luz especial que se chama luz de glória. Então a alma verá em si mesma o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que estavam já presentes, mas invisíveis.

A semelhança com a adorável Trindade será então consumada. Sua inteligência será divinizada pela visão clara de Deus: ela a verá face a face (ICor.XIII,12), como o olho penetrado pela luz do dia. Que coisa maravilhosa! vendo a Deus ela verá todas as coisas em Deus, como num espelho. Ao mesmo tempo ela verá Deus em todas as coisas, dando a todas o ser, a vida e o movimento. A alma amará não somente todas as coisas em Deus, mas também Deus em todas as coisas (ICor.XV,28), de modo que todo seu amor terminará sempre em Deus. Assim a união de amor que a unia a essa fonte de vida se tornará definitivamente indissolúvel.

Por sua inteligência e por sua vontade, a alma bemaventurada viverá da própria vida da Santíssima Trindade. O espelho de sua inteligência será o Verbo, o espírito de seu coração será o Espírito Santo. Ela viverá dessa vida divina que, sendo perfeitamente simples, contém e sustenta a criação toda. Ela ficará presa em Deus, como uma gotinha num oceano de luz: Deus a penetrará de todos os lados, se refletirá nela, a transformará nele próprio de modo inefável, sobre o qual é preferível calar do que tentar dizer algo. Assim São Paulo, que viu esta transformação no terceiro céu, se contenta em dizer que ela é absolutamente inefável e inconcebível (IICor.XII,4).

Esta vida inefável e inconcebível está em germe na alma de todo cristão batizado: a glória é apenas a floração completa desta semente divina que é a graça de Deus. Semen Dei (I Jo.III,9)

Conclusão

Elevação da Alma à Santíssima Trindade

Ó Trindade Santa, que habitais numa luz inacessível, vos louvamos, vos bendizemos, vos adoramos, vos glorificamos, vos damos graças por vossa glória, por esta felicidade suprema que recebemos de Vós.

Vos adoramos, ó Pai, que não tendes princípio mas que sois a fonte viva da divindade, o Princípio do Filho e do Espírito Santo.

Vos adoramos, ó Filho, que sois o Verbo do Pai, o esplendor da eterna Luz, a imagem consubstancial dAquele que vos engendra, o Princípio, com Ele, do Espírito de Amor.

Vos adoramos, ó Espírito Santo, que sois o Amor consubstancial do Pai e do Filho, inefável união dos dois, abraço que se dão mutuamente um ao outro.

Toda a criação, ó Santíssima Trindade, que está diante de vós como se não estivesse, vibra em vossa presença e eleva até vós um cântico sem fim.

Ela vos louva, vos bendiz e vos exalta no templo de vossa glória que são as criaturas bemaventuradas, às quais vos manifestastes já sem véu.

Ela vos louva, vos bendiz e vos exalta no trono santo de vosso império, que são as criaturas onde habitais e reinais por vossa graça.

Ela vos louva, vos bendiz e vos exalta no cetro de vossa divindade que se estende mesmo às criaturas inanimadas e até ao fundo dos infernos.

Sim, sede bendita e glorificada por todas as criaturas, ó Trindade adorável, que imprimis vosso vestígio nos seres inferiores desse mundo, que marcais à vossa imagem as almas e os anjos, que comunicais vossa semelhança aos filhos da Santa Igreja de Jesus, e que consumais esta semelhança atraindo-os para o céu dos céus onde residis para todo sempre!

Fora de vós, ó Trindade Santa, iluminadora e vivificadora, não há senão o nada, trevas, confusão, morte e pecado.

Por puro amor nos tirastes do nada; por um amor maior, mais misterioso, nos resgatastes da morte do pecado. Não somos mais que um composto de vossas bondades, só somos algo pelo olhar de eterno amor com o qual nos amastes gratuitamente em Jesus. Vos conjuramos, salvai-nos para honra do vosso nome. Manifestai-vos às nossas pobres almas, tal como sois, ó Trindade Santa, para que possamos, por toda a eternidade, bendizer e glorificar, tanto a imensa majestade do Pai, quanto a Sabedoria do Filho e a Bondade do Espírito Santo. Amém.

Nota: Na festa da Santíssima Trindade, domingo seguinte ao domingo de Pentecostes, a Igreja ordena que seus clérigos e religiosos rezem o Símbolo de Santo Atanásio, no ofício de Prima. Este símbolo da fé, do século V, recebe o nome de Símbolo de Santo Atanásio por ter tido sua autoria atribuída, durante séculos, ao grande defensor da fé contra o arianismo; na verdade seu autor é desconhecido, mas isso não tira seu valor de definição de fé. Recomendamos a todos que o rezem, como devoção à Santíssima Trindade.

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