O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
CONTINUAÇÃO

Pe. Emmanuel-André

VI

A Geração Eterna do Filho

Diz Deus pelo profeta: "Eu que dou vida aos outros não posso então engendrar a mim mesmo?" Ou seja, "eu que sou vivo, não teria os atos da vida, entre todos o de engendrar meu semelhante?"

De fato, o homem recebeu de Deus o poder de gerar o homem. Devemos concluir que Deus pode também gerar Deus. Será que aquele que deu ao homem o poder de falar, ou de escutar não poderá ele mesmo falar e escutar? Ninguém dá o que não tem. O homem gera o homem, logo Deus gera Deus.

Mas como Deus engendra? Não pode ser com um corpo pois Deus é espírito. Procuremos nos espíritos uma imagem, pálida imagem, mas que se aproxima melhor do ato divino.

Nossa alma tem a faculdade de conhecer; graças a esta faculdade, ela se representa os objetos como num espelho interior. Nossa alma vê com os olhos do corpo uma flor. Imediatamente forma-se na alma a idéia de flor; é uma espécie de geração. A flor passa de seu estado material a um estado espiritual na alma daquele que a vê. É sempre assim que fazemos, mesmo sem o saber, e necessariamente, passando toda a natureza do material para o espiritual. E se a coisa já é espiritual, como a virtude ou a honra, ela permanece assim em nossa alma.

Deus também conhece. E o que Ele conhece? Ele conhece a si mesmo. Num só olhar ele se vê eterno, imutável, infinito. Ele tem dele mesmo uma idéia igual a si próprio, igualmente grande, perfeita, igualmente subsistente. É seu Filho, verdadeiramente gerado à sua semelhança, a imagem viva de suas perfeições infinitas.

Para nos ajudar a conceber esta geração inefável, façamos uma suposição. Imaginemos que uma mãe tenha perdido seu filho. Ela forma dentro dela uma imagem, uma imagem muito parecida. Suponhamos que ela possa dar vida a esta imagem; não teria ela assim gerado espiritualmente seu filho dentro dela? Isso, que é uma impossibilidade para nós ou para qualquer outra criatura, é uma realidade em Deus. Pela infinita fecundidade da natureza divina, Deus, se contemplando a si mesmo, gera seu Filho, imagem de sua bondade, figura de sua substância, esplendor de sua glória, seu verdadeiro Filho, Deus como Ele, eterno e infinito como Ele.

É por isso que São João Evangelista chama ao Filho de Verbo. "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus". Verbo quer dizer palavra. Há uma palavra interior que a alma pronuncia quando ela pensa e fixa seu pensamento em algo. É o que se chama o verbo interior da alma. Ora, a palavra interior de Deus é seu Filho, é seu Verbo, concebido e engendrado espiritualmente. Por isso preferimos o nome de Verbo a qualquer outro que se dê ao Filho, pois ele nos leva mais que os outros ao âmago do mistério da divindade.

Vejamos ainda alguns efeitos nas coisas materiais que nos ajudarão a avançar ainda mais no mistério. Uma chama acende outra chama igual a ela, sem no entanto nada perder de sua luz. O sol lança seus raios pelo espaço imenso sem perder nada de sua energia. Assim o Pai engendra o Filho; assim Deus gera Deus. E o Credo, na missa solene nos faz cantar, falando do Filho: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

VII

A Processão do Espírito Santo

O Credo também nos fala do Espírito Santo e o faz nesses termos: "Creio no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai e do Filho". Assim, o Espírito Santo não é gerado como o Filho, mas procede.

O ato divino que chamamos a processão do Espírito Santo não poderia ser mais misterioso. Procuremos as luzes que nos trouxeram os santos Doutores, para que possamos formar uma idéia dessa processão inefável. Essas luzes são belas, mas bem mais fracas do que a luz do próprio mistério que um dia nos será manifestado.

Eles dizem primeiro que um ser vivo pode sair de outro vivo e ter a mesma natureza sem no entanto ser seu filho. Eva saiu assim de Adão, tendo mesma natureza do que ele, sem ser sua filha. Não houve geração porque ela foi formada de uma de suas costelas; ela saiu de Adão mas não nasceu dele.

Em seguida, os doutores nos trazem de volta à alma humana e nos ensinam a achar nela uma pequena imagem da processão do Espírito Santo. Porque a alma, além de conhecer, ama. Ora, ela ama aquilo que ela conhece; a partir do conhecimento chegamos ao amor. Pelo conhecimento, damos nascimento espiritual em nós ao objeto conhecido; em seguida nos viramos, procuramos, pelo amor, esse objeto conhecido.

Assim, Deus se conhece a si mesmo e se conhecendo Ele se ama. O primeiro ato gera o Filho, o segundo dá origem ao Espírito Santo. O amor supõe o conhecimento, e por isso a processão do Espírito Santo supõe a geração do Verbo, e é ainda por isso que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho, o que exprime o Credo quando diz que ele procede do Pai e do Filho.

Podemos representar de modo humano a processão do Espírito Santo assim:

O Pai se contempla no seu Filho, o Filho se contempla no seu Pai. O Pai se inclina para seu Filho por amor, o Filho, por amor, se inclina para seu Pai. Esse amor é único, visto que eles têm a mesma natureza e que o Filho recebe este amor e todo seu ser do Pai. Este amor é um abraço inefável no qual eles se amam tanto quanto merecem ser amados. Ora, eles o merecem infinitamente, e por isso esse abraço é uma pessoa igual às duas outras e possuindo a mesma natureza, é o Espírito Santo.

O Espírito Santo procede assim do Pai e do Filho, ele é o laço de amor que os une, ele é o Coração, o Espírito, e ele encerra com brilho a série de processões divinas. Ó Bemaventurada Trindade!

VIII

A Imutabilidade das Pessoas Divina

Acabamos de descrever, como pudemos, as processões divinas, ou seja, os atos com os quais o Filho é engendrado pelo Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Tentaremos agora explicar como esses atos são eternos. O que isto quer dizer?

Isto quer dizer que não devemos considerar a geração do Filho e a processão do Espírito Santo como atos passados, mas como atos presentes, que não passam nem jamais passarão. Não podemos dizer, com todo rigor, que o Pai gerou o Filho. Ele o gera agora, hoje, e este hoje permanece sempre, ele não tem nem véspera nem dia seguinte, é o que chamamos de eternidade. A eternidade está toda em um instante, mas num instante que não passa; e é nesse instante imóvel que se produzem as processões divinas.

Assim, o Pai engendra eternamente seu Filho; o Pai e o Filho produzem eternamente o Espírito Santo. Isso não quer dizer que as processões divinas estão sendo realizadas como algo ainda não terminado, incompleto, mas no sentido que, sendo já perfeitas e terminadas, elas se realizam sempre, por atos que não têm fim.

Imaginemos um homem que, eternamente, se olhasse num espelho. Sua imagem estaria sempre nele, nunca deixaria de se reproduzir ali. Assim o Pai não cessa de engendrar seu Filho, e o Espírito Santo não cessa de proceder dos dois. No céu, nossa beatitude consistirá justamente em contemplar para sempre estes atos divinos, que são a vida de Deus nele mesmo, vida imutável e inalterável, que pode ser chamada de eterno movimento no eterno repouso.

IX

A Igualdade das Pessoas Divinas

As três pessoas divinas são absolutamente iguais entre si. Elas têm a mesma natureza e a possuem completamente. Aliás, essa natureza não comporta nem diminuição, nem alteração, nem divisão: onde ela estiver, ela só pode estar inteira. Por isso reina inteira igualdade entre as três Pessoas divinas.

Logo, elas têm a mesma imensidade, a mesma infinidade, a mesma eternidade, o mesmo poder, a mesma sabedoria, a mesma bondade.

As relações que constituem as Pessoas divinas são eternas. Nunca houve o Pai sem o Filho; nunca houve o Pai e o Filho sem o Espírito Santo, como o fogo não existe nunca sem luz e calor. Logo o Filho não é posterior ao Pai e o Espírito Santo não é posterior ao Pai e ao Filho.

Também não há nenhuma inferioridade do Filho em relação ao Pai, nem do Espírito Santo em relação ao Pai e ao Filho. O Pai, gerando o Filho, lhe dá toda sua natureza, e ele não poderia lhe dar menos, pois todo filho tem sempre a mesma natureza de seu pai. Assim os dois dão ao Espírito Santo a natureza divina: na sua plenitude o Espírito de Deus, que procede de Deus e que subsiste em Deus, não pode ser outra coisa que o próprio Deus. Dos dois lados a comunicação é absoluta e sem reservas. As infinitas perfeições divinas são comuns às três pessoas. Passando de uma à outra não podemos, sem alterar a fé católica, admitir a menor diminuição.

É bem verdade que o Filho reconhece no Pai o seu Princípio; o Espírito Santo também reconhece como seu Princípio o Pai e o Filho. Mas este reconhecimento não põe estas duas Pessoas num estado de inferioridade. Ele não faz com que o Filho, como Deus, deva submissão ao Pai, pois toda submissão supõe inferioridade de natureza ou, ao menos, uma inferioridade assumida na natureza. Mas isso não existe entre o Filho e o Pai. Mesmo entre os homens, o filho só deve submissão ao pai durante sua infância; uma vez maior de idade, ele governa sua própria vida. Assim, o Filho de Deus é igual a seu Pai. Reconhecendo-o como seu Princípio, ele o louva e o bendiz numa inefável alegria. O Pai, por seu lado, louva e abençoa seu Filho com infinita complacência. O Espírito Santo completa o concerto unindo os outros dois num laço indissolúvel. A Santíssima Trindade se glorifica, assim, num júbilo sem fim. Mas não poderíamos dizer que haja alguma inferioridade, dependência ou submissão que resultaria das relações de origem. Em Deus tudo é infinito, em Deus tudo é Deus.

X

Os Atributos das Pessoas Divinas

Sendo absolutamente iguais em todas as coisas, as Pessoas divinas possuem igualmente todos os atributos que convém à natureza divina: imensidade, imutabilidade, eternidade, poder, sabedoria, bondade.

Contudo, alguns atributos podem ser relacionados mais a uma do que às outras das Pessoas divinas.

O Pai, sendo o princípio das outras Pessoas e como a fonte de onde elas derivam tem por atributo o poder. Dizemos dele que é o Pai Todo poderoso. O poder convém à Paternidade.

O Filho, gerado pelo Pai como uma imagem onde se reproduz toda a essência divina, como uma luz esplêndida brotando da inteligência incriada, tem por atributo a Sabedoria. Ele é muitas vezes chamado de Sabedoria eterna. A Sabedoria é o mais belo fruto da inteligência.

O Espírito Santo, procedendo do Pai e do Filho como um suspiro de seu mútuo amor, como um elan do coração de Deus, tem por atributo a bondade e o amor.

Assim, de certo modo, distribui-se entre as Pessoas divinas os atributos de Deus, apesar de que, na realidade, eles pertençam integralmente a cada uma das três Pessoas.

XI

Cada Pessoa Existe nas Outras

No Evangelho de São João, Nosso Senhor repreende a seus Apóstolos: "Não credes que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?" (Jo.XIV,10).

Não podemos medir toda a profundidade destas palavras, mas sabemos que ela se realiza em Nosso Senhor tanto como homem quanto como Deus. É neste último sentido que a analisaremos agora.

Em primeiro lugar, o Filho habita no Pai. São João o chama "o Filho unigênito que está no seio do Pai" (Jo.I,18). Ele está no Pai porque sua natureza é idêntica à natureza do Pai; Ele está no Pai como em seu Princípio, onde ele nasce eternamente, de quem ele é o luminoso resplendor; ele está no Pai, enfim, como naquele com quem se relaciona e onde, poderíamos dizer, vem de novo mergulhar.

Por outro lado, o Pai habita no Filho; ele está no Filho pela comunhão de natureza, mas também como em sua própria imagem, como no objeto de sua complacência eterna, como naquele em quem ele manifesta, sem alteração nem diminuição, suas infinitas perfeições: "Speculum sine macula majestatis illius" (Sab.VII,26).

Existe, assim, uma recíproca habitação do Filho no Pai e do Pai no Filho, não somente por causa da natureza comum, mas ainda por causa das relações que os unem.

Igualmente, o Espírito Santo está no Pai e no Filho, pela natureza comum e como no seu Princípio; como no coração de onde ele procede sob forma de amor. Reciprocamente, o Pai e o Filho estão no Espírito Santo como no laço que os une, como num mútuo abraço.

Dessa habitação recíproca das Pessoas divinas resulta que elas são absolutamente inseparáveis e que onde uma estiver as outras aí estarão, como os elos de uma corrente carregam uns aos outros. Nosso Senhor lembra frequentemente esta verdade em São João: "Meu Pai está comigo e não me deixou só..., meu Pai não age separado de mim" (Jo.VIII,29).

XII

As Missões Divinas

No entanto, Nosso Senhor repete no mesmo Evangelho esta outra palavra: "Meu Pai me enviou" (Jo.XIV,24). E ele diz também do Espírito Santo: "O Espírito que eu vos enviarei... que meu Pai vos enviará em meu nome". Haveria aí contradição? É claro que não, mas é preciso entender bem o que quer dizer este envio, esta missão.

As Pessoas divinas são enviadas. O Filho é enviado pelo Pai; o Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho. Mas o Pai não envia seu Filho como um senhor envia seu servidor, visto que não há nenhuma inferioridade entre o Filho e o Pai. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é chamado pelos profetas de "servidor de Deus", é como homem que recebe este título. Também não devemos imaginar que o Filho, ao ser enviado, se separa de seu Pai, pois o Pai e o Filho são absolutamente inseparáveis, como habitando reciprocamente um no outro. Eis como se deve entender o envio de uma Pessoa divina.

Ao dizer que o Filho foi enviado pelo Pai, queremos significar que ele, residindo eterno e invisível no seio do Pai, começou, num dado momento, a ser visível no mundo, como homem. Parece, então, que ele saiu do seio do Pai, segundo esta palavra que ele disse: "Eu saí do Pai e vim ao mundo" (Jo.XVI,28). Mas na realidade ele não deixou seu Pai: permanecendo Nele, ele apareceu aos homens.

Também o Espírito Santo foi enviado pelo Pai e pelo Filho quando passou a ter uma presença sensível, no mundo, no dia de Pentecostes. A partir desse dia, Ele, que é o laço do Pai e do Filho, começou na terra a ser o laço da Igreja, a união das almas a Jesus Cristo.

Resumindo: o envio, a missão do Filho é como uma extensão de sua geração eterna por uma geração temporal; a missão do Espírito Santo é uma efusão que se produziu para trazer os homens para dentro do concerto da Trindade adorável.

Deus Pai também se dá, se comunica aos homens, ao mesmo tempo que Ele lhes dá seu Filho e seu Espírito. Mas não podemos dizer que ele seja enviado porque ele não procede de nenhuma outra pessoa; a idéia de missão, de envio, supõe a idéia de Processão divina junto a uma manifestação temporal.

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